Vulto Emérito de Curitiba – agradecimento

Senhoras e senhores.

A suntuosidade deste salão reflete a importância desta Casa.

Se nos reportarmos ao longínquo ano de 1693, vamos encontrar Mateus Leme precisando de gente para elaborar leis que atendessem às necessidades da população trabalhadora e, ao mesmo tempo, punissem os arruaceiros que infernizavam a vida das pessoas. Em conseqüência, foi instalada a Câmara Municipal. Graças a isso, nossa cidade passou a ser reconhecida oficialmente como Vila.

Mas a importância desta Instituição não se esgota no fato de sua história confundir-se com a própria história de Curitiba. Igualmente relevante é seu papel como um dos pilares da democracia, pois nos três níveis de governo – federal, estadual e municipal – o Legislativo é o Poder que mais a simboliza. Nele encontra-se a diversidade de pensamento, de ideologia, de natureza, de crença, de opinião, de interesses.

Eu arriscaria dizer que, no município, isso é ainda mais verdadeiro, pois, muito mais do que senadores e deputados, os vereadores são cobrados por seus eleitores, porque os encontram em cada esquina da cidade, desde o centro até o mais afastado dos bairros.

Portanto, vereadores, as senhoras e os senhores podem gritar bem mais alto até que os próprios franceses – “vive la differénce”. Aqui a democracia se redescobre e renasce a cada dia. Tem sido assim, há mais de 315 anos. Por isso, senhor Presidente, todos nós, seus convidados, estamos muito felizes por estar neste Palácio Rio Branco.

É desnecessário dizer que, por razões mais do que óbvias, sou eu o mais feliz de todos os presentes.

Ao longo da vida, fui alvo de algumas homenagens. Nenhuma, porém, com o significado desta que hoje me é prestada. Ser reconhecido por seus próprios conterrâneos é a recompensa maior que um coração humano pode receber.

Ser laureado na presença dos atuais comandantes de organizações por onde passei – da 5ª Divisão de Exército e da Artilharia Divisionária, cujos estados-maiores integrei; do Colégio Militar, onde fui aluno; e do 5º Grupo de Artilharia Autopropulsado, minha primeira unidade como oficial – traz à minha memória a saudosa lembrança de inesquecíveis companheiros.

Sou grato pela presença de ex-chefes; de pessoas com quem ombreei em diferentes casernas; daqueles de quem fui chefe e, portanto, tiveram que me suportar, com o duplo sentido que este verbo admite; de representante dos nossos pracinhas, a quem a liberdade deve um preito de gratidão; e de colegas de bancos escolares, com os quais existe uma ligação muito fraterna, quase de irmãos.

Ser homenageado na presença de tantos e queridos amigos, alguns vindos de longe – de Caxias do Sul e do Guarujá – da parentada, dos filhos, das noras e dos netos, é uma experiência inédita e certamente emocionante.

Aliás, meus netos devem estar por aí, sem entender exatamente o que está acontecendo. O fato é que netos enxergam o avô como um velho, no que têm razão. Eles imaginam, aí sem razão, que o avô já nasceu velho, que nunca foi criança. O que me preocupa é que possa haver alguém mais, além deles, pensando que sempre fui assim. Para não pairar nenhuma dúvida, proclamo a todos que já fui um piá que tinha pai e mãe.

Claro que já faz tempo. Foi na década de 50. Meu pai tinha um Ford 29 e um amigo alfaiate, que era seu companheiro de caçadas e pescarias. Um dia, fui com meu pai à alfaiataria desse amigo, que ficava aqui na Visconde de Guarapuava, ao lado do antigo CPOR, hoje Shopping Curitiba. Após descer do Ford Bigode, não entrei com ele na alfaiataria. Preferi ficar na calçada. Queria assistir a uma formatura militar que estava iniciando em frente ao CPOR.

A farda, não sei exatamente por quê, quase como um ímã, sempre teve o poder de atrair a atenção da meninada. Presenciei a formatura, os toques de clarim, os cantos e o desfile. Ouvi a banda, maravilhosa banda, com seus dobrados de arrepiar. Num segundo qualquer, brotou um pensamento no meu subconsciente de piá: “um dia quero ser como aquele pessoal, quero ser daquela turma”. Acrescento que fui criado ouvindo relatos da guerra, contados pelo meu padrinho, que fora pracinha da FEB e era um grande contador de histórias. Estavam postos todos os ingredientes para fazer despertar num jovem a vocação para tornar-se soldado.

Em 1961, depois de estudar feito um louco, passei nos exames para o Colégio Militar. Em 1964, tendo concluído o ginásio, fui aprovado no concurso para a Escola de Cadetes. Atendendo à minha vocação, em 65 fui embora.

Foi alto o preço que paguei. Deixei para trás uma confortável vida de classe média (para os senhores terem uma idéia, nosso avô era dono da Cervejaria Providência). Tive que despedir-me da Curitiba dos meus pais, avós, tios, padrinhos, primos e amigos, uma Curitiba provinciana, com cerca de trezentos mil habitantes.

Passei sete anos interno. Período dificílimo, agravado pela saudade e pela dificuldade de comunicação da época. O telefone era caro e não funcionava. Ficávamos limitados às cartas e tentávamos saber notícias pelas ondas curtas da PRB-2, que nem sempre conseguíamos sintonizar.

Convivemos com sotaques do Brasil inteiro. Cada um de nós perdeu um pouco do seu jeito de falar e emprestou o seu próprio sotaque aos demais. Os cariocas diminuíram o seu chiado. Os gaúchos passaram a dizer menos “tchês”. Eu perdi o meu “leite quente”.

Todos nós, pelo menos uma vez, pensamos em largar tudo, em desistir. Só não o fizemos graças ao apoio e ao conselho dos demais companheiros, que viviam as mesmas dificuldades. A maioria era carioca; depois vinham os gaúchos. Nós éramos minoria. Éramos da quase desconhecida Curitiba. Por isso, tínhamos um dever a mais: a obrigação de representar bem a nossa cidade

Em 1972, concluído o curso da Academia Militar, consegui voltar, já um “guapo tenente”, para servir no quartel do Boqueirão. Pouco mais de dois anos depois, fui mandado embora. Levei a Norma, que se impressionara pelo “guapo tenente”. Iniciava a nossa vida de cigano.

Passamos treze anos fora, vivendo em Praia Grande, Rio de Janeiro, Caxias do Sul, Rio de Janeiro de novo, Lapa (aqui pertinho, mas não é Curitiba), França e mais uma vez Rio de Janeiro.

É sabido que nós, curitibanos, temos algumas manias. Uma delas é a de procurar Curitiba no lugar onde estamos. Aconteceu comigo. Entretanto, por melhores que fossem as cidades onde vivi, não consegui achá-la. Não conseguia encontrar a Curitiba dos meus pais e avós. Possivelmente por eu estar sempre procurando Curitiba, as pessoas facilmente identificavam minha origem. Até alguns dos meus apelidos tiveram relação com nossa cidade.

Como sei que os senhores e, principalmente, as senhoras são bons confidentes, vou lhes contar como recebi um dos vários apelidos que me deram. Ocorreu quando fui ser instrutor da Escola de Antiaérea, no Rio. Para quem não sabe, quando um oficial se apresenta em uma nova Unidade, todos os oficiais são reunidos no salão de honra a fim de apresentar-lhe as boas-vindas. Vejam quais foram as primeiras palavras do coronel comandante da Escola na minha reunião de boas-vindas: “Temos a satisfação de receber o capitão Bonat, que é da terra da gralha azul”. Quando ele disse isso, olhei para os demais capitães, que estavam todos à minha frente, e concluí, pelo sorriso irônico deles, que acabara de ganhar mais um apelido. Passei três anos de gralha azul, pelo menos entre os oficiais que eram da minha geração.

Lembro que, a partir do final dos anos 70, nossa cidade tornou-se mais conhecida. Vários amigos passaram a elogiá-la. Minha resposta era um sorriso tímido, que é nossa marca. Além do mais, eu não sabia se estavam sendo sinceros ou se pretendiam apenas ser simpáticos.

Um fato que me surpreendeu – e até emocionou – aconteceu na França. Após ter sido apresentado à mãe de um colega de curso, ela perguntou de que cidade eu era. Depois que respondi, ela começou a cantarolar uma música chamada “Monsieur le Council à Curitiba”. Tratava-se de uma canção composta por um cônsul francês que havia morado em nossa cidade. Com ela, ele declarava seu amor à Curitiba. Segundo a mãe daquele meu colega, essa canção fizera muito sucesso em toda a França e era ensinada na escola às crianças.

Em 1987, após ter concluído o curso de Estado-Maior, consegui retornar, para servir no quartel-general do Pinheirinho. Para minha surpresa, não encontrei a minha Curitiba. Era uma Curitiba que se expandira pelas canaletas do expresso, pelas vias rápidas. Deixara de ser apenas universitária para tornar-se, também, industrial. Transformara-se na capital ecológica. Não era mais a Curitiba dos meus avós. Mas ainda era dos meus pais. Passara a ser, também, dos meus filhos.

Abro um parêntese para revelar-lhes minha face bairrista. Fiz questão que os três filhos nascessem aqui, mesmo quando eu estava servindo em outra cidade. Corremos alguns riscos, como o de a Juliana quase ter nascido dentro de um Passat, no meio da estrada. Mas valeu a pena.

Mas, voltando à nossa segunda estada aqui, ela representou o maior período que vivemos em Curitiba: quase cinco anos. Dessa época, orgulho-me de ter sido assessor parlamentar e contribuído na elaboração da Constituição do nosso Estado. Convivi por seis meses com nossos deputados estaduais, entre os quais o saudoso Aníbal Couri, cuja habilidade na condução dos trabalhos da Constituinte aprendi a admirar.

Ainda nesse tempo, tive a chance de ajudar nossos conterrâneos que mais necessitavam. Tendo sido designado assistente do Comandante da Região e chefe do setor de comunicação social, propus ao General Leonel, nosso comandante, que cada uma das onze unidades do Exército em Curitiba adotasse, como afiliada, uma entidade assistencial. Uma delas foi a Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia, cuja ex-presidente, a Maria Angélica, encontra-se presente. Também está aqui o Coronel Martins, que então comandava o 5º Depósito de Suprimentos, e foi o padrinho da Associação. Durante dois anos, promovemos campanhas do agasalho, do quilo, consertamos veículos, fizemos pequenos reparos e pintamos instalações, levamos a banda, organizamos festas de Natal e aprendemos com centenas de pessoas que anonimamente prestam trabalho voluntário.

Meados de 91. Nova despedida. Aí, na seqüência, fomos para Brasília, Caxias do Sul, Rio, Brasília de novo, Guarujá, novamente Rio e Washington, onde passei para a reserva.

Tomo a liberdade de contar-lhes um último caso, que revela que, da mesma forma que eu procurava Curitiba, ela também me perseguia. Quando servia em nossa embaixada em Washington, minha secretária entrou no meu escritório e disse que eu iria gostar muito de um e-mail que ela havia me repassado. Tratava-se do relato que um casal americano havia postado num site. Eles contavam que, por ocasião de recente viagem a Foz do Iguaçu, por um problema qualquer, foram informados que teriam de permanecer um dia em Curitiba. Mas gostaram tanto, que resolveram ficar quatro dias. Disseram que jamais imaginariam encontrar, ao sul do Equador, uma cidade como a nossa e recomendavam a todos os americanos que viessem ao Brasil, que não deixassem de visitar Curitiba.

Confesso que me deu vontade de pegar o primeiro vôo que me trouxesse de volta. Mas isso não demoraria a acontecer. No final de 2005, chegou o momento do definitivo regresso, hora de conferir se eram verdadeiros os elogios que lera e ouvira durante mais de quarenta e um anos.

Fato é que, a Curitiba que reencontrei, se antes já não era a dos meus avós, agora não era mais dos meus pais. Se antes já era dos meus filhos, tornara-se também dos meus netos. É a Curitiba de hoje, com pinta de metrópole e os conseqüentes problemas que isso acarreta.

A maior prova de que eram sinceras as palavras que a enalteciam encontrei ao tomar conhecimento de que metade da nossa população é constituída por curitibanos não-natos. Se ela continua a atrair gente de todo o Brasil e do exterior, significa que é uma cidade onde é gostoso viver.

Se pudesse me dirigir à essa metade de curitibanos por adoção, lhes diria que os de fora sempre foram e continuam sendo bem-vindos. Bairrísticamente, os cumprimentaria pelo bom-gosto e lhes agradeceria por estarem nos ensinando a sermos menos tímidos. Por fim, lhes pediria que não exigissem que dancemos a chula tão bem quanto o gaúcho; nem o samba, como o carioca; e nem o frevo, como o nordestino. Particularmente aos paulistas, diria que admiramos sua música sertaneja, mas se eles quiserem realmente encontrar a alma curitibana, que procurassem ouvir as modinhas de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela.

Senhoras e senhores!

Aquele piá dos anos cinqüenta queria apenas ser um soldado. O horizonte até onde conseguia enxergar, não lhe permitia vislumbrar a existência de generais e, muito menos, que houvesse homenagens semelhantes a esta. Acredito que uma pessoa, e apenas uma, possa ter sonhado em me ver aqui nesta noite: minha querida mãe. Portanto, onde estiver, com ela quero dividir este momento de extrema alegria.

Senhoras e senhores vereadores!

Sou-lhes muito grato. Transmito meu especial apreço ao vereador Ângelo Batista por ter proposto o meu nome e propiciado a este soldado e, principalmente, a este curitibano, tamanha emoção.

Estou ciente de que não sou o mais “emérito dos Vultos Eméritos” que esta Casa já escolheu. Estejam certos, porém, de que, entre eles todos, sou dos mais orgulhosos em receber este honroso título. Aceitem minha eterna gratidão.

A todos, muito obrigado pelo brilho de suas presenças.

Curitiba, PR, 10 de junho de 2008

General Hamilton Bonat