Saudação aos novos acadêmicos da Academia de Letras José de Alencar

Presidente Anita, Professor Arioswaldo, presidente de honra desta sessão solene, componentes da mesa, senhoras e senhores, caros amigos!

Tem um desses comentaristas esportivos que, ao analisar a performance dos juízes de futebol, costuma dizer: “a regra é clara”. Permitam-me plagiá-lo: “A regra é clara: é muito chato ouvir discursos”. Mas, como todos nós sabemos, existem exceções para confirmar as regras.

Ainda bem que há oradores do porte da nossa nova confreira Sandra Helena Moreira que, ao falar em nome dos novos acadêmicos, brindou-nos com uma bela e cativante mensagem. Sua fala nos encantou a nós todos.

Confesso o meu temor e as razões que tenho para não aborrecê-los com um discurso meu, pois ele, ao contrário da simpática mensagem da Sandra, seria enquadrado na categoria dos chatos.

Proponho-lhes, então, um programa mais agradável: que façamos uma viagem, breve, porém especial, uma viagem no tempo.

Poderíamos seguir juntos em direção ao futuro. Cheguei a cogitar seriamente sobre essa hipótese, mas desisti. O futuro é um desconhecido traiçoeiro, cheio de armadilhas. Haveria ainda o perigo de sermos confundidos com os homens da caverna. Imaginem nós todos desembarcando no ano de 2100, cada um portando o que temos de mais moderno: o celular, com suas múltiplas e variadas funções.

Mas a tecnologia tem avançado num ritmo tão acelerado, que os humanos de 2100, nossos bisnetos e tataranetos, nos enxergariam como verdadeiras peças de museu e, possivelmente nos trancariam, a nós e aos nossos celulares, em um museu de verdade, onde permaneceríamos ad eternum. Nunca mais voltaríamos a este 10 de dezembro de 2015. Perderíamos até o coquetel que será servido após esta cerimônia… Portanto, por razões óbvias, descartei uma ida ao futuro.

Restou-me a opção de uma visita ao passado, para a qual os convido. Para isso, peço que fechem os olhos por alguns segundos apenas. Pronto, já chegamos! Nossa nave é tão rápida, que a maioria sequer conseguiu piscar.

Alguém pode estar estranhando: “como já chegamos, se continuo sentado no mesmo lugar?”. Lembro que estamos viajando apenas no tempo e não no espaço. Logo, permanecemos aqui mesmo, neste imponente Palacete dos Leões, mas já estamos em 1903. E, por acaso, chegamos num dia muito especial para os moradores desta casa.

Se prestarmos atenção, poderemos ouvir, vindo de um dos cômodos, um choro de bebê. É que acaba de nascer Maria Clara Leão, o sétimo filho de Maria Clara de Abreu Leão e de Agostinho Ermelino de Leão. Com um pouquinho mais de atenção, conseguiremos perceber um burburinho de vozes masculinas. É que em uma das salas da frente, o pai Agostinho comemora a chegada da filha com alguns amigos. Entre eles, encontra-se Cândido Ferreira de Abreu. Cândido de Abreu foi o engenheiro responsável pelo projeto deste palacete, onde o estilo renascentista convive com o barroco e o clássico. Aliás, como já sabemos, daqui a alguns anos, Cândido de Abreu será prefeito de Curitiba.

Se formos até uma das janelas, veremos os outros seis filhos do casal, livres, correndo pelo jardim, subindo e caindo das árvores. O mais novo está com três e o mais velho com oito anos de idade. Se nossos netos pudessem conversar com eles, provavelmente lhes perguntariam se eles não teriam um “tablet” para brincar, ao invés de ficar trepando em árvores.

Pena não podermos sair, pois logo teremos que voltar a 2015. Se pudéssemos, perceberíamos que nos encontramos em uma chácara, rodeada por outras tantas, todas muito afastadas do centro da cidade. Se fôssemos ao centro e estivéssemos com sorte, encontraríamos Francisco Fido Fontana exibindo-se para os 25 mil habitantes de Curitiba, a bordo do único automóvel existente, um Royal importado da França. Fora ele, todos os demais meios de transporte são dependentes da tração animal, inclusive os bondes.

Estamos em pleno ciclo da erva-mate. Graças a ele (e ao seu trabalho, é lógico), a família que mora aqui ganhou muito dinheiro. Construiu esta casa, com tudo o que há de mais moderno. Mesmo assim, ela não dispõe de rádio, televisão, muito menos de internet. Seu único meio de comunicação é um aparelho telefônico, só usado pelos donos da casa e apenas para tratar de assuntos importantes.

Nesta época, quase tudo acontece no lar. Aqui as pessoas nascem (hoje, nasceu Maria Clara), aqui se casam e, ao morrerem, aqui são veladas. O lar é o centro de tudo. Creio que nossos marqueteiros governamentais, ao inventarem o slogan “Minha casa, minha vida”, tenham se inspirado nestes tempos.

Porém, lamentavelmente, temos que retornar. Nem vou lhes pedir para que fechem os olhos novamente. Vocês já sabem como nossa nave é rápida. Pronto: estamos de volta a 10 de dezembro de 2015!

Gostaria que o casal Maria Clara e Agostinho tivesse nos acompanhado. Algumas coisas os deixariam tristes, outras, assustados. Porém ficariam contentes ao ver a sua mais do que centenária residência restaurada. De constatar que o BRDE a trata com muito zelo e carinho, e que atribuiu-lhe uma relevante tarefa: a de, como espaço cultural, sob a competente direção da nossa nova confreira Ana Teresinha Ribeiro Vicente, dedicar-se à preservação e à divulgação da cultura e da história da nossa cidade.

Certamente, lhes agradaria saber que o seu Palacete dos Leões é mais do que um ícone do ciclo ervateiro. Desde o ano passado, ele abriga a nossa Academia de Letras José de Alencar, pois comunga do mesmo ideal. Ambos, Palacete – patrimônio material – e Academia – patrimônio imaterial -, são ícones da cultura que, sob as suas variadas manifestações, é um ingrediente fundamental para a preservação do nosso jeito de ser e da nossa identidade como grupo humano.

Estou certo de que Maria Clara e Agostinho ficariam imensamente felizes ao encontrar em sua residência, figuras de destaque na literatura, nas artes, na educação, na comunicação e na história do Paraná, que hoje tomam posse.

É um grupo tão pequeno de pessoas, que eu poderia até citá-las, uma a uma. Entretanto, cara Presidente Anita e caros convidados, são pessoas tão notáveis, que faço questão de nominá-las:
Ademir Pascale;
Adriano Siqueira;
Alberto Silva Gomes;
Ana Teresinha Ribeiro Vicente;
Helena Gama Lobo d’Eça;
João Carlos Bonat;
Maria da Luz Dias Séra;
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt;
Rachel Madureira Régnier;
Sandra Helena Moreira; e
Valderez Archegas Ferreira.

Pois saibam, caríssimas novas confreiras e caríssimos novos confrades, que nos sentimos muito felizes por terem aceitado o convite para, juntos, participarmos de uma viagem. Não daquela metafórica viagem de que há pouco lhes falei. Mas sim de uma viagem iniciada em 1939 por um punhado de idealistas reunidos no antigo Ginásio Paternon, que ficava ali na rua Comendador Araújo.

Desde então, o percurso por eles iniciado vem sendo trilhado, não com a frenética rapidez dos tempos atuais, mas na cadência de um simples caminhar. Como uma equipe de revezamento, seus sucessivos integrantes se alternam, cada um portando, no lugar de um bastão, um pequeno tijolo para a construção de um grande monumento. E, como nos ensina a história, não podemos ter pressa, sob pena de ele, o nosso monumento, não ficar com a imponência sonhada. As grandes pirâmides, muralhas e catedrais levaram décadas para serem concluídas. Pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, essas maravilhas da humanidade, um dia, enfim, ficaram prontas.

Porém, em um futuro qualquer, não sabemos se amanhã ou se daqui a alguns séculos ou milênios, elas desaparecerão, destruídas pelo tempo ou pela reconhecida insanidade dos humanos, que, mesmo assim, julgam-se superiores aos demais seres. As trevas que, em 13 de novembro último, se abateram sobre Paris, a Cidade Luz, são um pequeno exemplo do que “nós” somos capazes…

Caros amigos! O monumento que estamos ajudando a erguer é totalmente diferente. Ele é indestrutível. Nossa obra – a cultura – estará sempre inacabada. Por estar em permanente construção, ela é eterna. E é na eternidade que se encontra a sua grandeza. Não é tarefa nada fácil. Ela tem-se mostrado ainda mais difícil após o advento da internet e a consequente globalização da informação e do conhecimento. A avalanche digital torna quase onipresente uma forte influência estrangeira.

Mas lhes peço: por favor, não sintam nessas minhas palavras sabor algum de xenofobia cultural. Nem bairrismo ou “curitibanismo” nelas há. Até porque, e ainda bem, Curitiba não foi, não é e nunca será feita exclusivamente de curitibanos. Elas, as minhas palavras, têm, sim, gosto de pão com “vina”, de chineque, de gasosa de gengibirra, de leitE quentE e de outras curitibices e esquisitices do nosso linguajar, que nada mais são do que um dos legados daqueles idealistas de 1939.

O que gostaríamos, realmente, é que o Mundo todo soubesse que temos um Emílio de Menezes, uma Helena Kolody, um Paulo Leminski, um Teodoro De Bona, um palhaço Chic-Chic, umas balas Zequinha, uma Júlia Wanderley, um João Turin, temos também heróis como os pracinhas Max Wolff Filho e Pérsio Ferreira, temos uma Lala Schneider, um Laurentino Gomes, temos até as “Mocinhas da Cidade” de Nhô Belarmino e Nha Gabriela.

Não tenho dúvida de que esta relação está incompleta. Mesmo assim, eu não posso deixar de acrescentar, pondo de lado a modéstia, que temos também nós mesmos, da Academia de Letras José de Alencar! Gostaríamos, ao mesmo tempo, que muito mais gente soubesse da nossa admiração por José de Alencar, nosso Patrono, e por milhares e milhares de outras brilhantes figuras da cultura nacional. Em suma, não queremos apenas ser globalizados culturalmente. Precisamos também globalizar, um pouco que seja.

Aí é que se evidencia o “tijolo” do nosso confrade João Carlos Cascaes. Com a expertise de quem domina, como poucos jovens, a técnica da informação digital, ele criou e mantém a página da nossa Academia. Precisamos continuar a alimentá-lo com matérias e sugestões. Temos que aproveitar dessa moderna ferramenta e do fascínio que ela exerce, para revelar ao mundo que existimos, quem somos e que, inclusive, produzimos belas obras.

Queridas novas confreiras e caríssimos novos confrades!
É com o espírito aberto, com imenso júbilo e alegria, e com uma visão de futuro, alicerçada nos tijolos daqueles que nos antecederam, que os acolhemos. Nossos braços e nossos corações estão escancarados para transmitir-lhes a mais calorosa das boas-vindas. A Academia de Letras José de Alencar, que agora também lhes pertence, torna-se maior e mais forte com a sua chegada.

Caros amigos!
É hora de encerrar. Antes de fazê-lo, e como os nossos novos colegas já receberam o seu diploma e a sua toga, posso agora revelar-lhes dois segredos.

O primeiro é que a nossa Academia prima pela leveza e pela jovialidade de espírito. O tijolo que carregamos não pode se transformar em pesado fardo para nenhum de nós. Velhas e sisudas eram as academias de outrora, não a nossa!

O segundo segredo é que, na agradável e fraterna convivência em nossa Academia, nos tornamos mais sábios, pois aprendemos muito uns com os outros.

Novas e sábias Confreiras; novos e sábios Confrades!
Aprenderemos muito com vocês. Obrigado por unirem os seus sonhos aos nossos para, juntos, construirmos um belo e eterno monumento. Sejam muito bem-vindos.
Curitiba, 10 de dezembro de 2015

Acadêmico Hamilton Bonat – Cadeira Nº 19 da ALJA