Posse na Academia de Letras José de Alencar

Senhoras e senhores… caros amigos!
Bem que eu gostaria que em minhas veias fluísse um sangue de poeta. Os poetas, com sensibilidade, como a do nosso presidente Arioswaldo Trancoso Cruz, conseguem descobrir belezas muitas vezes escondidas, transformam o feio em bonito, o triste em alegre, o velho em moço, o caos em esperança, a guerra em paz.
Como não possuo este dom, limito-me a escrever crônicas, e, como todos sabem, nas veias de um cronista corre o ácido tempero da crítica. Já no final do século XIX, Jean Sibelius, compositor finlandês, um dos mais populares da Europa, aconselhava: “Não prestem atenção ao que os críticos dizem. Nunca nenhum prêmio foi dado a um crítico”.
Estava explicado por que, espalhadas mundo a fora, há estátuas de escritores de diferentes gêneros literários, especialmente de poetas, dificilmente de cronistas.
O meu caso é mais grave ainda: além de não ser poeta, sou péssimo declamador.
Com esse introito, aparentemente desnecessário, busco conquistar a boa-vontade das senhoras e dos senhores, pois vou tentar declamar uma poesia da lavra do Desembargador Joatan Marcos de Carvalho, ocupante da cadeira 36 desta Academia.
A Inspiração: “Ninguém sabe, ninguém viu./ Se existe ou não existe./Se ficou ou se partiu./Para mim é uma musa./Diáfana visto a bruma./Bela como o silêncio./Caprichosa fala lusa.”.
Entre tantas outras, igualmente belas, encontrei-a ao folhear o quinto livro da Estante José de Alencar, recentemente publicado. O que me atraiu, realmente, foi o título: “Inspiração”, pois era o que eu procurava desde o momento em que fui “escolhido” para dirigir-lhes a palavra nesta noite especial.
Confesso ter chegado até a recolher-me à demorada meditação, e nada… Dirão as más línguas, e eu hei de concordar, que militares são pouco afeitos a meditações. Possivelmente por isso mesmo, eu tenha acordado de sobressalto em madrugadas mal dormidas. Zanzei pela casa tentando encontrá-la. Saí, fui para o quintal. Quem sabe a lua e as estrelas não ajudavam… Vaguei por ruas, praças e parques da nossa querida Curitiba, mas nem assim…
Dizem que a inspiração está em toda parte, mas, por ser tão rápida, quando chegamos, ela já partiu. Parece que é verdade.
Minha última e desesperada tentativa de encontrá-la foi neste auditório. Entrei por aquela porta e, rapidamente, a fechei. Se ela estivesse aqui, daquela vez não escaparia. Procurei-a no teto, nas paredes, debaixo das poltronas e, num repente, a vi. Sabem onde ela estava? Sentada exatamente nas mesmas poltronas em que as senhoras e os senhores encontram-se agora.
Quando minha imaginação, naquela fração de segundo, os viu a todos, embora não estivessem aí, eu acabara de agarrar a inspiração com as duas mãos.
Seria óbvio estarem conosco pessoas queridas, que nos ajudaram a chegar até aqui. Pessoas a quem confiamos nossos primeiros rabiscos. Pessoas que nos incentivaram a tirar do fundo da gaveta nossos escritos para transformá-los em livro.
Livros, nossos filhos de papel e tinta, são como nossos filhos de carne e osso: será neles que permaneceremos vivos, que garantiremos a nossa perenidade, pois eles carregam os nossos genes.
Nas linhas e, principalmente nas entrelinhas, de suas poesias, sonetos, trovas, romances, contos, reportagens, crônicas ou, até, em obras de cunho científico, o autor revela o que está escondido no fundo da sua alma. Ele, mesmo sem querer, mostra quem realmente é, no que acredita. Ele se expõe. Para isso é preciso coragem. E vocês nos transmitiram coragem.
Naquela mesma fração de segundo em que senti a presença dos amigos que, pacientemente, haviam lido os nossos primeiros rabiscos, deparei-me com outras pessoas: aquelas que abriram as portas, os braços e o coração desta Academia para nos acolher.
Por um momento, cheguei a pensar em falar-lhes sobre o nosso Patrono, José de Alencar. Porém, deduzi que nada acrescentaria, mesmo se lhes narrasse toda a trajetória de sua vida, pois quem aqui nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante romancista e dramaturgo cearense? Quem aqui nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Quem nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem aqui não sentiu orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como um filho de Ceci e Peri?
Da obra de José de Alencar, limitar-me-ei a relembrar-lhes do seu marcante nacionalismo, em um momento de consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura e conhecimento próprios, e contribuiu para que nos sentíssemos não apenas como um povo multirracial e multifacetado, mas essencialmente como uma mistura de povos.
Se me permitem, gostaria de dividir com os amigos minha preocupação com o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que sopram, vindos não sei exatamente de onde, e se alastram cada vez mais ameaçadores pelo Brasil.
Pergunto, então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam clamando pelo surgimento de novos Josés de Alencar?
Mas quando percebi ser desnecessário falar-lhes sobre o nosso Patrono, pensei em aventurar-me em divagações sobre teorias literárias. Porém, todos logo perceberiam que eu estaria querendo demonstrar uma falsa erudição.
Além do mais, seria deselegante aborrecer a amigos que nos são tão caros, numa noite de festa, num momento que é único, em que menos vale mais, em que falar bem, falar bonito seria, definitivamente, falar pouco.
Cheguei à conclusão – eis a grande inspiração que recebemos de vocês todos que nos prestigiam com suas presenças – que a única mensagem que teríamos a lhes transmitir seria a nossa mais sincera e profunda gratidão.
Não poderíamos deixar de estender o agradecimento às confreiras e aos confrades que nos acolhem, e de manifestar a imensa honra em portar essa toga que, ao cobrir nossos ombros, alerta-nos de que sobre eles pesa agora a responsabilidade de zelar pela cultura brasileira, paranaense e curitibana.
Antes de finalizar, vou revelar-lhes um pequeno segredo. Erroneamente, chamei esta toga de pelerine e fui prontamente corrigido pela minha madrinha Anita Zippin. Creio que, por ter vivido muitos anos no Rio Grande do Sul, cometi essa falha.
Já que citei o Rio Grande, peço licença para usar uma expressão bem gaudéria a fim de tentar expressar a nossa emoção.
Nós todos, Cláudia Cristina Freitas Resende, Dione Mara Souto da Rosa, Lilian Deise Guinski, Luislinda Dias de Valois Santos, Walderez Escobar, Dálio Zippin Filho, José Geraldo da Fonseca, Ney Leprevost Filho e Hamilton Bonat, estamos “mais faceiros que guri de bombacha nova”.
Entretanto, na condição de novéis acadêmicos e, como tal, corresponsáveis pela valorização da cultura curitibana, não poderíamos deixar de citar um conterrâneo. Escolhi Paulo Chaves, poeta e compositor que, apesar de recentemente falecido, permanece vivo em “Piá Curitibano”, verdadeiro hino extraoficial da nossa cidade.
Em um dos seus versos ele afirma: “O piá curitibano cuida da cidade como gente grande”. Brincando com suas palavras, queremos proclamar que nós, como gente grande, cuidaremos da cultura da nossa cidade com a jovialidade de um piá.
Ao encerrar, manifesto a nossa admiração aos que dirigem, com elevado altruísmo, esta Academia. Seu rico acervo, construído ao longo de 74 anos, representa um patrimônio cultural que merece ser mais divulgado. Para isso, eles buscam agora inseri-la no ambiente das mídias digitais, desafio que nem mesmo a falta de recursos os fará desanimar. Nem a eles, nem a nós, principalmente agora que estamos fortalecidos com a inteligência, o bom humor e a simpatia baiana.
Queridos amigos! Devemos a alegria deste momento a todos vocês. Aceitem, portanto, nosso especial apreço e recebam a nossa mais calorosa e sincera gratidão.
Muito obrigado.
Curitiba/PR, 29 de novembro de 2013
Hamilton Bonat