Posse da Cadeira de Emílio de Menezes

Academia de Letras José de Alencar
Discurso de posse da Cadeira que tem por Patrono Emílio de Menezes

Senhoras e senhores!
Se Emílio de Menezes, Patrono da Cadeira de número 19, que hoje tenho a responsabilidade e o orgulho de assumir, estivesse agora aqu no meu lugar, creio que ele iniciaria assim esta minha breve fala: “Caríssimo Presidente Arioswaldo Trancoso Cruz! Veja que bela plateia. São pessoas tão simpáticas, que nem parecem curitibanas!”
Pronto. Estaria armada a confusão! Era assim o Emílio: divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta afiada da sua pena.
Curitibano, debocharia da fama, estereotipada um pouco, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Quem sabe, não sejamos mesmo assim… Mas Emílio passava longe de clichês e formalidades.
Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em nossa cidade a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Mesmo assim, nunca esqueceu de suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos em que enaltece a araucária, o pinheiro que nos identifica:

“Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia
Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!
Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia
De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império – República logo em seguida – encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.
Mal sabia o quanto seu lado satírico iria prejudicá-lo no futuro. Além do mais, sua amizade com intelectuais tidos como boêmios, entre eles Olavo Bilac, faria com que o seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.
A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais da Academia. Vejam o que publicou sobre um deles:

“Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha
Nem para intriga igual habilidade.
Eis, em resumo, uma figura estranha.
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 15 de agosto de 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.
Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para alfinetar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse de sua cadeira.
Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado.

”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos de residência no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café ou de uma confeitaria, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria.”

Usando a terminogia atual, Emílio de Menezes foi um polêmico. Um genial polêmico. Um polêmico e imortal curitibano!
A cadeira 19, da qual é o Patrono, foi ocupada pelo poeta Colombo de Souza, que teve dezenas obras publicadas, e presidiu a nossa Academia de Letras José de Alencar nos anos de 1946/47. Ocupou-a posteriormente, o Dr Ruy Noronha Miranda, destacado médico, eminente professor universitário e renomado pesquisador sobre doenças de pele.
Quero manifestar a enorme satisfação em suceder a vultos tão notáveis e em ter-me dirigido nesta noite a tão seleta plateia de simpáticos curitibanos e de igualmente simpáticos brasileiros de outros rincões. Muito obrigado.
Curitiba/PR, 27 de novembro de 2014
Hamilton Bonat