Monumento aos Pracinhas da FEB em Caxias do Sul – discurso

Prezados Pracinhas.

Desculpem-nos pelos cinqüenta anos de atraso. De certa forma, creio que foi bom esperar, pois nos permitiu conhecer melhor a verdadeira dimensão de sua epopéia e a importância dela para toda a humanidade.

Hoje sabemos que o povo italiano, entre combatentes de tantas nacionalidades que lutaram em seu solo, os escolheu e lhes dedicou os maiores e mais belos monumentos. Por certo, porque os senhores, como os demais soldados, os ajudaram a livrar-se dos horrores do nazi-fascismo. Porém, com mais certeza ainda, porque levaram em suas mochilas os mais puros sentimentos que habitam a alma brasileira: solidariedade, harmonia e respeito entre os povos de todas as raças. Levaram o espírito conciliador e alegre do nosso povo. Em particular, no caso caxiense, levaram a simpatia desta gente, cujos avós esta região acolhera e dera chance de iniciar vida nova.

Hoje sabemos também que, ao longo de suas existências, os senhores deram verdadeira lição de vida, de cidadãos, de trabalhadores, de pessoas de bem, de verdadeiros amantes do Brasil e do seu povo e que suas ações primaram pela discrição dos verdadeiros patriotas.

Hoje compreendemos perfeitamente o valor da Liberdade, ideal por que lutaram. Seu exemplo é estímulo para continuarmos a conquistá-la, regando-a dia-a-dia, a fim de que cresça forte e rija, de forma que nenhum furacão, de qualquer matiz, consiga derrubá-la. O espírito de liberdade faz parte da índole do brasileiro.

Lamentamos a ausência da maioria dos seus companheiros. Mas os sentimos aqui para testemunhar que Caxias do Sul não os esqueceu e lhes rende a merecida homenagem, tornada realidade graças à inteligência e inspiração do arquiteto Carlos da Costa, ao trabalho do empresário Luiz Carlos Gomes de Oliveira e do arquiteto Nelson Sartori, ao entusiasmo dos senhores Enedir Dias Bemfica, Francisco Pereira de Ávila, Olyntho Mendes de Castilho e Alberto Mattiello, e ao decisivo apoio da Prefeitura, da Câmara Municipal e das empresas Randon e Marcopolo.

Senhoras e senhores!

Poderá alguém estar imaginando que esta obra seja uma apologia à guerra. Seu significado, porém, é exatamente o oposto. Ela quer transmitir a idéia de paz.

Estilizada em sua face esquerda, está a Bandeira do Brasil que, na proporcionalidade de suas formas, na harmonia de suas cores e na ausência do escarlate, nos acena que não é com o sangue das batalhas, mas sim com trabalho, com ordem e respeito que devemos construir o progresso desta grande Nação.

Os capacetes ali representados lembram que as três Forças Armadas participaram da Segunda Guerra Mundial e reavivam o compromisso do Brasil consigo mesmo de não participar de guerras de conquista, mas que é imperativo preservar o que temos de mais sagrado – nosso território, nossa gente e nosso legítimo direito de autodeterminação. Lembram-nos também dos brasileiros que, a partir do exemplo dos nossos pracinhas, têm participado de missões de paz ao redor do mundo, tentando repassar uma “tecnologia” que nem mesmo os povos mais desenvolvidos conseguem dominar – a “tecnologia” da convivência de pessoas das mais diversas origens, sem preconceito de cor, raça e religião.

Finalmente, à direita, há um corpo trapezoidal monolítico que representa união e força. Nele se encontram os verdadeiros construtores deste monumento – o nome de setenta e nove jovens caxienses que neste mesmo local, no ano de 1944, sob a emoção do choro aflito de mães e do lamúrio silencioso de pais, recebiam a benção do padre Giordani, antes de se dirigirem para a estação ferroviária, onde inciariam a longa viagem.

Senhores Pracinhas!

Só vocês sabem o frio que sofreram, a saudade que sentiram e o medo que passaram. Só vocês e mais ninguém, muito menos os que estavam nas trincheiras opostas, pois era preciso lhes mostrar, a qualquer preço, que não existe raça superior ou inferior. Só vocês sabem o quanto lhes custou a vitória. Só vocês experimentaram o sabor daquele momento triunfal, inesquecível, de pisar de novo o solo pátrio.

Para os senhores, parece que foi ontem. Para nós também, pois o padre Giordani ali está, imortalizado do outro lado da rua. Creio que os estava esperando para lhes dizer do orgulho de Caxias do Sul por seus filhos que hoje também se eternizam na eternidade do bronze.

Espero que as crianças do Terceiro Milênio que por aqui passarem, curiosas sobre o significado deste monumento, recebam de seus pais a seguinte resposta – “ele é dedicado aos heróis da paz, a jovens caxienses que atravessaram mares e oceanos para, na terra dos seus nonos, assinarem com seu generoso sangue o tratado de paz”.

Parabéns, prezados Pracinhas! Caxias do Sul lhes presenteia com um dos seus mais belos monumentos. Valeu a pena esperar cinqüenta anos.

Caxias do Sul, 09 de janeiro de 1997

Coronel Hamilton Bonat

Comandante do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea