Loja Maçônica Fraternidade IV – discurso

Venerável Mestre da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Fraternidade IV. Senhoras e senhores.

Temos patrocinado alguns concursos de redação para escolares do município. O último foi sobre a ação pacificadora de Caxias. Depois de ler centenas de trabalhos, fiquei admirado com a criatividade das crianças ao abordar o tema que lhes foi proposto. Imagino a dificuldade que tiveram: que linha de pensamento deveriam seguir a fim de atender ao que lhes fora solicitado? Li verdadeiras obras-primas a respeito do patrono do Exército que, por coincidência, empresta o seu nome a esta querida cidade.

Confesso que experimentei a mesma dificuldade que os estudantes ao tomar conhecimento que esta Augusta e Respeitável Loja prestaria uma homenagem ao Exército e ao 3º Grupo de Artilharia Antiaérea.

O que dizer? Eu não teria dúvida se fosse me dirigir ao meu pessoal. Trataria da dimensão continental de Caxias, de quem herdamos o espírito guerreiro e, ao mesmo tempo, pacifista. Dir-lhes-ia que, na verdade, havia dois Caxias. Um vencia o inimigo pelo ímpeto, pelo arrojo indomável e golpes de mitológica bravura. O outro era o vencedor do sítio calmo, da serenidade e da conciliação.

Falaria da dívida que o Brasil tem com ele: sua imensidão territorial, fonte de inesgotável riqueza. Os incitaria a buscar, no seu exemplo de coragem, abnegação, amor à Pátria e, até, de resignação, forças para suplantar momentos difíceis, incompreensões e injustiças, que muitas vezes atormentam a nós, os militares de hoje.

Diria, enfim, que o verdadeiro perfil do soldado brasileiro – soldado da guerra e da paz – representa o maior legado que nos deixou. Não poderia esquecer do seu derradeiro apelo, revelador da simplicidade do seu caráter e do seu amor ao Exército, transformado em verso por Alexandre Máximo Chaves Amêndola em “O Velho Regimento”.

“Meu velho regimento, um último pedido.

O Patrono do Exército pediu isto ao expirar,

Eu quero imitá-lo… Tomem bem sentido.

No dia em que a morte me apagar o pensamento,

Quem até o cemitério me há de carregar

Serão seis soldados velhos do Velho Regimento”.

Seria assim, meus senhores, um pouco mais, um pouco menos, que eu me dirigiria aos meus comandados. Mas, aos senhores, o que dizer?

Confesso que recolhi-me à demorada meditação antes de escrever estas linhas. Elas não poderiam ser longas nem incompletas. Teria que agradecer-lhes, e é a primeira coisa que faço. Teria que falar de Caxias, mas fugindo ao lugar-comum de rememorar fatos históricos, fixando-me apenas no perfil humano do inolvidável militar.

Certamente que nada acrescentaria, mesmo se lhes narrasse toda a trajetória de sua vida, pois quem aqui não conhece a imagem do Barão, do Conde, do Marquês e do Duque de Caxias? Quem aqui desconhece sua ação como Deputado-Geral, Presidente de Província, Comandante-em-Chefe, Ministro da Guerra, Senador e Patrono do Exército?

Concluí que os senhores sabem dele mais do que nós. Se para nós ele é patrono, para os senhores ele é irmão. Esta condição – a de irmão – fez-me inferir que tudo o que dissesse a seu respeito seria pouco. Do irmão se conhecem as virtudes e a alma, se penetra nos segredos, no coração, se perdoam os defeitos.

Ao irmão se ampara. O auxílio dos senhores foi fundamental para que seu nome adquirisse tamanha dimensão. Da mesma forma que hoje, já no seu tempo a Maçonaria praticava a “Fraternidade”. Amanhã continuará praticando, sob a orientação do Grande Arquiteto do Universo.

Cheguei à conclusão que não me caberia – por dispensável – falar sobre o seu insigne irmão. Compete-me apenas cumprimentá-los por terem-no ajudado a tornar-se o maior de todos os soldados. Por isso, meus senhores, estar neste local sagrado nesta noite, é motivo de orgulho. Sagrado, certamente que não pela majestosa arquitetura deste prédio, mas pelo que simboliza e representa. Sagrado, como os pensamentos e as ações daqueles que o freqüentam.

É tão sagrado este Templo, que seu irmão Napoleão Garahy escolheu-o para nele ser velado. Nosso ex-companheiro de farda, herói de guerra, da mesma forma que nosso patrono e seu irmão, pediu que o conduzissem à sua última morada nada mais do que seis brasileiros – soldados exemplares da cidadania – escolheu seis maçons. Se não bastasse, deixou escritas as belas palavras que a voz embargada do senhor Alberto Arioli acaba de pronunciar. No seu âmago, elas revelam um profundo amor ao Brasil. Elas ainda ressoam, e continuarão a ressoar, por todos os cantos deste Templo, como a revelar que aqui, para sempre, permanecerá quem as escreveu.

Em nosso quartel ele estará igualmente presente nesta boina que acabo de receber, com muita emoção, das mãos honradas do senhor Antuérpio Nemen. Emoção, pois boina, em todo o mundo, lembra soldado. Emoção, por ser o símbolo dos nossos pracinhas, a quem a liberdade tem uma dívida de agradecimento. Ela ficará exposta, com o destaque que merece, como troféu que é, para que todos saibam que valentes brasileiros arriscaram suas jovens vidas pela liberdade, igualando-se aos melhores combatentes do mundo. Entre eles, estava Napoleão Garahy.

Permitam-me dirigir duas palavras aos amigos Lorencetti e Ávila. Duas somente, pois tudo o que eu dissesse seria pouco para expressar o que representam para o nosso Grupo. Quero apenas realçar a face mais importante do seu trabalho – a humana. Não há quem, tendo sido seu contemporâneo no 3º Grupo, do soldado ao coronel, não guarde dessas excepcionais figuras a imagem de pessoas de bem, sempre prontas a servir ao próximo.

Obrigado por suas palavras, Lorencetti e Ávila. Geradas mais pelo coração do que pela razão, elas reafirmam seu amor pelo Grupo, cuja marcante presença na comunidade caxiense os senhores ajudaram a construir. Suas declarações marcam a convergência de propósitos entre as nossas Instituições.

Venerável Mestre.

Há razões de sobra para que esta noite seja inesquecível.

Agradeço em nome dos meus colegas espalhados por todo o País, desde as grandes cidades até as longínquas fronteiras. Em nome daqueles que estão em missões de paz, projetando o nome do Brasil em todos os continentes. Em nome da família do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea, Unidade que tenho orgulho de comandar e que tanto tem recebido da gente desta terra abençoada.

Por fim, agradeço pelas crianças que participaram dos nossos concursos de redação e de todas as outras que, brasileiras como elas, receberão um Brasil melhor, graças ao trabalho anônimo que instituições como as Augustas e Respeitáveis Lojas aqui representadas desenvolvem em prol de quem realmente necessita. Isto é praticar civismo de verdade.

Como derradeira mensagem, deixo-lhes a convicção de que o valor de um exército está na alma do seu soldado. A homenagem que nos prestam reanima a chama do nosso amor ao Brasil e à nossa gente. Podem estar certos de que, se necessário, ao primeiro toque de clarim, ao rufar dos tambores, o soldado brasileiro estará pronto para oferecer-se em sacrifício pela Pátria. Pátria que somos todos nós.

Muito obrigado.

Caxias do Sul, RS, 13 de setembro de 1995

Coronel Hamilton Bonat

Comandante do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea