Discurso na Chancelaria – Washington-DC

Exmo Sr Embaixador Roberto Abdenur; Srs Ministros Conselheiros Evandro Didonet, Carlos Alfredo e Edgar Casciano; Secretários Breno Costa e Roberto Doring; Sra Adida Tributária, Dra Lytha Spindola; minhas estimadas secretárias, Sras Edília e Cristina;Srs Oficiais Generais e Oficiais da Marinha, Aeronáutica e do Exército.

Consta que nós, militares, somos pessoas de palavra. Faltar com a verdade é transgressão grave em nosso meio. Esta é a regra. Para confirmá-la, vou iniciar contando uma grande mentira aos senhores e senhoras – “daqui a pouco estarei voltando para a minha Curitiba”.
Há um provérbio chinês que diz, não sei se com as mesmas palavras (se estiver errado, corrija-me senhor Embaixador), que “um homem nunca se banha no mesmo rio, pois o rio nunca é o mesmo e o homem também nunca é o mesmo.” Então, seria preciso repetir mil vezes que estou voltando para a minha Curitiba, a fim de que isto se tornasse uma verdade.
Lógico que quem está voltando para Curitiba não é o mesmo adolescente que de lá saiu um dia para seguir a carreira militar, sabe-se lá por quais motivos: espírito de aventura, fugir de casa, crença no Brasil, amor ao Brasil ou outros quaisquer. E é igualmente lógico Curitiba não ser a mesma cidade provinciana, quase isolada do mundo, com trezentos mil habitantes, de quarenta anos atrás. Saí de lá filho e neto de pais e avós ainda vivos. Retorno como pai e avô. Ao sair, não fumava. Retorno, infelizmente, um fumante inveterado, talvez por ter acreditado numa mentira repetida mais de mil vezes de que algum cigarro pudesse ter “sabor de aventura”. Dos parentes e amigos que ainda restam, posso imaginar, pelo menos, que estejam 40 anos mais velhos, com suas manias e interesses particulares, dos quais provavelmente eu não faça parte.
Volto mais experiente. E das tantas experiências que o Exército me proporcionou, uma das mais gratificantes, pessoal e profissionalmente, foi a de ter convivido com as senhoras e senhores. Da contribuição do Itamaraty para o Brasil e do preparo e da competência profissional dos seus quadros eu já tinha conhecimento, por ser fato notório, relatado em livros de história e em documentos de toda ordem. Porém, ter vivenciado no dia-a-dia a sua atenção totalmente voltada para os interesses do Brasil, revelou-me que o Barão do Rio Branco “continua vivo” nos senhores e senhoras diplomatas de hoje.
Sou muito grato, senhor Embaixador, por esta reunião de despedida. Sou muito grato pela deferência com que sempre fui tratado. Sou especialmente reconhecido por nossa identidade de propósito – um propósito chamado Brasil. Os senhores, usando como arma e extrema maestria e sabedoria a palavra, atuam em todos os campos do poder para promover, divulgar, desenvolver e defender o Brasil.
Creio que, de todas as razões que levaram aquele adolescente a sair de casa, somente uma continuará a acompanhá-lo no seu retorno à terra natal: o amor ao Brasil. Mas esse sentimento vai agora mais forte, porque constatei que é compartilhado por pessoas muito competentes e dedicadas com as quais tive o privilégio de conviver nesta derradeira missão.

Como iniciei contando uma grande mentira, faço questão de terminar proclamando três grandes verdades. A primeira é que lamento muitíssimo sermos nós e nossas instituições uns dos poucos a tratar do Brasil com muita seriedade. Mas tenho a esperança de que isto vai mudar.

A Segunda é que, a partir de outubro, estarei em Curitiba torcendo pelo sucesso dos senhores e senhoras, não só por considerá-los meus amigos, mas também porque, fazendo isso, estarei torcendo pelo sucesso do nosso País.

E a terceira e última grande verdade é que, lá, na minha nova Curitiba, os senhores terão o amigo que souberam conquistar, de braços abertos para dar as boas-vindas àqueles que quiserem dar-me a honra de sua visita.
Washington, DC, 08 de setembro de 2005
General Hamilton Bonat
Adido do Exército nos EUA/Canadá