Despedida de Caxias o Sul – discurso

Senhoras e senhores.

Inicio pedindo permissão às autoridades presentes para cometer um assassinato protocolar, saudando a todos indistintamente, na condição e nossos amigos e, em conseqüência, igualmente importantes para os nossos corações. Cometo este “crime” como resposta do meu instinto de sobrevivência, na defesa de um coração tantas vezes testado nas últimas semanas. E expectativa de deixar Caxias do Sul só é compensada pelas manifestações de apreço que temos recebido e que, nesta noite, atingem o seu clímax, representando para nós um momento de grande emoção.

Meus amigos.

Comandar é um desafio, para o qual ainda não inventaram uma escola que ensine a se enfrentar. Entre as várias interpretações para este verbo, há uma que prefiro – “comandar é um privilégio aristocrático”. É um privilégio porque é um direito concedido a alguns em detrimento de muitos. E é aristocrático, não pelas vantagens que este termo possa sugerir, mas pelas privações que acarreta e pela obrigação de se tomar decisões e por elas assumir a responsabilidade, chegando no limite extremo de, se necessário, o comandante morrer por e com aqueles que comanda.

Mas, se comandar significa responsabilidade e privilégio, estar à frente do 3º Grupo faz com que esses atributos sejam elevados à sua máxima potência. Quantas vezes, na solidão do meu gabinete, deparei-me com as figuras ilustres da Galeria dos ex-comandantes, sentindo-me pequeno ante a grandeza de nomes como Arcy da Rocha Nóbrega, Décio Barbosa Machado, Eugênio de Almeida Batista e os mais recentes – Schenkel, De Nardi e Lima.

O êxito e suas realizações em benefício da comunidade e do quartel seria difícil igualar e representava um desafio a vencer. Havia, porém, dois fatores a meu favor. O primeiro, o meu quadro de oficiais. Ora, se comandar, além de assumir, é também saber atribuir responsabilidades, eu tive nesses dois anos com quem dividir os inúmeros desafios e angústias que se apresentaram. Quem tinha a sorte de contar com uma equipe de oficiais altamente competentes e extremamente leais podia ao menos pensar que sua fotografia não iria deslustrar a galeria de retratos. Meus oficiais tiveram, entre outros, o mérito de compreender que Caxias do Sul merecia que todos nós tentássemos fazer do 3º Grupo a melhor unidade do Exército Brasileiro.

O segundo e importante fator favorável era a sensação de que o quartel estava envolvido e abraçado pela comunidade caxiense. Esta impressão aumentava a cada dia, a cada encontro, a cada conversa, nos cativando e transmitindo a certeza de que não estávamos sós e que podíamos contar com o apoio de amizades sinceras. Tanta ajuda recebi, que não saberia quantificá-la. Além do mais, é impossível medir o maior auxílio que tivemos – a compreensão, a boa-vontade e o calor humano de todos os senhores.

Nesses dois anos o Grupo participou de mais de uma centena de atividades comunitárias, tendo como alvo os segmentos mais necessitados do município – os menores e os idosos carentes. As senhoras e os senhores, apesar de não terem sido o foco das nossas atenções, pois não fazem parte daqueles universos, estão hoje aqui, o que comprova possuírem elevada sensibilidade e grandeza de espírito. Prova maior nos dão ao nos homenagear, conseguindo enxergar com bons olhos as nossas virtudes e com o olhar míope da bondade as nossas falhas e defeitos.

Caros amigos.

Haverá sempre um amanhã. Em qualquer dos meus amanhãs, lembrarei com imensa gratidão desta homenagem e guardarei no peito esta querida Pérola das Colônias. Onde estiver o meu amanhã, serei embaixador desta terra, não só para divulgá-la e enaltecê-la, mas também fazendo da nossa casa um recanto onde os caxienses serão recebidos com a fraternidade de irmãos. Muitos que sejam os amanhãs que o futuro me reservar, serão ainda poucos para agradecer a tanto apoio, tanta compreensão, tanto incentivo e a presença marcante de tantos amigos nesta noite. Sabemos que, qualquer que seja o nosso amanhã, ele não será mais feliz do que os dois anos aqui vividos.

Sou grato ao meu Exército por ter-me permitido servir ao 3º Grupo e a Caxias do Sul. Fomos muito felizes aqui. Devemos isso aos senhores. Eterna será nossa gratidão.

Eu, Norma e Juliana fazemos votos de muita felicidade a todos. Que seu amanhã seja tão feliz quanto a nossa passagem por Caxias do Sul. Muito obrigado.

Caxias do Sul, 17 de dezembro de 1996

Coronel Hamilton Bonat

Comandante do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea