De um Capitão aos seus jovens e bravos Artilheiros

Minhas palavras iniciais são para saudar o Coronel Faccin e os atuais integrantes do 3º GAAAe pelo transcurso, na data de hoje, do Dia do Soldado. Ao mesmo tempo, agradecer-lhe, Comandante, por estar nos prestigiando com a sua presença, abrindo mão do seu merecido repouso, junto à sua família, em uma noite de sexta-feira. Esta noite, que nos é muito especial, torna-se mais especial ainda com a sua presença.

Caríssimos tenentes, subtenente, sargentos, cabos e soldados da nossa saudosa 2ª Bateria de Canhões. Permitam que eu ainda os chame assim. É óbvio que vocês não são mais tenentes, sargentos ou soldados. São mais, muito mais, graças à sua dedicação, ao seu trabalho e, é claro, à sua inteligência. Se assim os chamo, é para que, por alguns minutos apenas, nos sintamos 38 anos rejuvenescidos

Quando o Dal Zotto, o Hugo, o Braga, o Branco e, lá da distante Manaus, o Perraro começaram a divulgar pela internet, alguns meses atrás, a intenção de reunir os integrantes da nossa Bateria, eu disse para a minha mulher: “tenho que ir”.

E essa vontade de reencontrá-los foi aumentado à medida que as notícias foram chegando. Que 40 já haviam confirmado a presença, depois 50 e, finalmente, que cerca de 60 ex-soldados estariam presente… “Encontramos o Tenente Horn e o Sargento Nicolau e eles também irão”. “Localizamos o Subtenente Dall’Agnol e o Sargento Simões…” Depois, noticiaram que os Tenentes Vargas e Roberto estariam presente. E, mais recentemente, os Sargentos Hildo, André e Martins… Falei novamente para a minha mulher: vou de qualquer jeito. Não posso ficar de fora. Tenho que reencontrar essa turma boa.

Ainda ontem, já em Caxias do Sul, encontrei o Sargento Spiandorello e o Cabo Stapassola, que me informaram que estariam conosco.

E hoje, tivemos mais uma agradável surpresa ao encontrar aqui uma pessoa que sempre se esforçava para, com a sua tesoura, nos deixar “ainda mais bonitos”: o nosso querido amigo Modesto.

Vocês não imaginam a alegria que sinto por estar aqui, nesta noite que tem mais do que um sabor de simples nostalgia. Este reencontro dos bravos artilheiros da nossa saudosa 2ª Bateria tem o poder de nos tornar quase quarenta anos mais jovens. Aqui estamos a respirar os ares de um passado que nos é muito caro, que significa muito para cada um de nós.

Esta reunião permite que voltemos, momentaneamente, ao ano de 1979, quando a atual Bateria de Mísseis do 3º GAAAe ainda se chamava 2ª Bateria de Canhões. Uma bateria que foi nossa. Quando digo nossa, refiro-me a todos os seus ex-integrantes, do Capitão aos Soldados. Nos orgulhávamos muito dela.

Viemos para mostrar como o tempo foi generoso conosco. Deu-nos sabedoria, que só a experiência de vida proporciona e nos permite olhar o mundo com de maneira mais compreensiva, menos individualista, mais profunda, menos superficial. Ele permite darmos meia-volta volver e olharmos orgulhosos para trás, relembrarmos das coisas boas por que passamos e dos obstáculos que conseguimos superar ao longo da nossa existência. Foram muitos. Cada um teve os seus e os ultrapassou. Todos nos tornamos vitoriosos. O bondoso tempo nos deu esposas, filhos e netos, que nos ajudaram a percorrer o caminho.

Por outro lado, a face cruel do tempo, aquela que não para de marchar em direção ao futuro, deixou-nos marcas, por vezes implacáveis. Algumas são invisíveis. Outras estão estampadas em nossas silhuetas. As mais notáveis estão na falta de cabelo de alguns, na cabeça embranquecida de outros ou, no meu caso e de mais alguns, na barriguinha saliente que teima em não encolher e em não voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Há ainda outros de nós que, lamentavelmente, não podem estar aqui, pois foram requisitados pelo Pai Eterno. A eles, a nossa respeitosa e saudosa reverência.

Viemos para recordar que éramos campeões de tudo. Não havia bateria que nos batesse, qualquer que fosse a competição. Na ordem unida, nos desfiles matinais, nas olimpíadas, nas campanhas de tiro em Cidreira, com os nossos moderníssimos canhões Oerlikon e suas potentes e impressionantes rajadas de 1100 tiros por minuto…

Não lembro se éramos campeões também em indisciplina. Pode ser, pois vocês eram muito jovens e todo jovem tem o direito de possuir um espírito rebelde. Eu, por também ser jovem, possivelmente era o Capitão campeão de punições.

E, por falar em punições, vou recordar de uma música que cantávamos, a fim de tornar menos cansativas e monótonas as nossas corridas. Era mais ou menos assim:
“Bicho danado pra andar de passo errado… E vocês respondiam: “é o soldado, é o soldado”…
“Bicho danado pra nos dar ensinamento… É o sargento…”
“ Bicho danado pra pegar no pé da gente… É o tenente…”
E terminávamos com o “Bicho danado pra nos dar punição… “ Aí vocês aproveitavam para se vingar: “É o capitão…”

Faltou, na época, talvez por falta de inspiração, acrescentar que o nosso estimado Subtenente Dall’Agnol era o bicho danado que afugentava com o seu facão os soldados que estavam perturbando em sua reserva.

Tudo isso, e muito mais, eram coisas de jovem. Foram elas que nos tornaram, principalmente a vocês, os soldados de então, muito unidos. E continuam unidos até hoje. Não esquecem uns dos outros, de cada detalhe, de cada sorriso, de cada lágrima, de cada aflição, de cada apelido. Ajudavam-se, por isso venciam, por isso continuaram vencendo.

Éramos jovens, muito jovens. Jovens que não tinham celulares, nem tablets, nem Whats App, e tudo mais que o avanço tecnológico proporciona aos jovens que hoje ocupam o lugar que foi nosso.

Mas havia, em 1979, algo que o avanço tecnológico tem, de certa forma, abafado: o calor humano. Esse é o grande diferencial. Foi ele, o calor humano, que nos conduziu até aqui, neste 25 de agosto de 2017, para que matássemos a saudade da nossa velha 2ª Bateria e matássemos a saudade de nós mesmos.

Se pudéssemos, entraríamos num túnel do tempo e voltaríamos àquele longínquo ano, para permanecer por alguns dias naquele velho, desconfortável até, pavilhão que foi a nossa casa durante quase um ano. Isso, entretanto, é impossível. Nossa vez já passou. Os jovens, agora, são outros, não nós.

Caros amigos.
O passado não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. É o que estamos fazendo neste momento.

Agradecemos a Deus por nos propiciar esta visita às alegrias do passado e reavivar em nossa memória os desafios que transformamos em conquistas, graças à união dessa turma, união que superou o tempo.

Agradecemos pela oportunidade de vivenciarmos este momento de emoção de rever amigos, alguns que não víamos há 38 anos.

Para finalizar, tentei encontrar uma frase que pudesse sintetizar o significado deste reencontro para todos nós.

Em pouquíssimas palavras creio que viemos aqui nesta noite especial para declarar que, para nós, ”1979 foi um ano que valeu à pena”!

Nós, oficiais e sargentos de então, alguns, como eu, já chegando ao outono da sua existência, ao ver que os nossos soldados continuaram vencendo, queremos ser ainda mais incisivos e proclamar: “claro que 1979 valeu à pena!”

Somos muito gratos por nos terem convidado. A todos, o nosso forte abraço. Muito obrigado.

“Capitão” Hamilton Bonat – 25 de agosto de 2017