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A candura de Cândido

09/02/2016 por bonat

(Para melhor compreensão do texto abaixo, é preciso esclarecer que os fatos narrados são reais. Ocorreram em 1992 ou 1993. Os nomes dos personagens, inclusive o do Cabo, que era da PMDF, obviamente são fictícios).

- Desculpe, filho.

Era a quarta vez que o telejornal mostrava aquela chocante cena de uma perna se quebrando. Naquele dia, Cândido estava ao lado de Bruno.

- Quantas vezes tenho que lhe dizer que já o perdoei? Sua ideia era boa. Só que deu errado. Ninguém tem culpa.

- A ideia foi da sua mãe, não minha. Como era um simples cabo, comuniquei ao sargento, que comunicou ao tenente, este ao capitão, até chegar ao coronel, que achou ótima. Tinha tudo para dar certo. Comprei tecido, linha, botões e entreguei à sua mãe.

Dolores era um ás na máquina de costura. Daquela vez, caprichou ainda mais. Se a ideia era ótima, melhor ainda teria que ficar o uniforme com que o filho de quatro anos participaria do Sete de Setembro ao lado do pai. Quem sabe o Bruninho não apareceria na Globo!

- Você lembra como me senti orgulhoso quando desfilamos lado a lado. No dia seguinte, corri para a banca. Queria comprar todos os jornais. Por certo, você estaria nas primeiras páginas. E estava… Como fui inocente. Talvez por isso eu me chame Cândido. O tiro saíra pela culatra. Minha culpa.

- Que nada, pai.

- Foi o detalhe, Bruno. Como me arrependo de, por ser perfeccionista, ter comprado, também com o meu dinheirinho, aquele maldito revólver de plástico. Taxado como símbolo de violência, foi ele que apareceu nas primeiras páginas e, durante dias, nas redes de televisão, entre elas a mesma que hoje está repetindo a cena da tíbia quebrada. Todos queriam o meu pescoço, o de um pai que usara o filho para incentivar a violência.

- Ora pai, já lhe disse, o senhor está perdoado. Lógico que eu nunca mais quis vestir farda. Só lamento a minha imagem ter sido usada pelos que pregavam o desarmamento. Conseguiram desarmar apenas o cidadão pacífico. Agora ele virou refém da bandidagem. Veja só os números. Em 1992 (parece que foi neste ano que desfilei) houve 21.086 mortes por arma de fogo no Brasil. Em 2010, aumentou para 38.892, cifra maior do que a de muitos países em guerra.

- Se pudessem, teriam me enforcado em praça pública…

- Mas não enforcaram. Vamos mudar de assunto. E a luta?

- Pois veja bem, a mesma grande rede que apertou o meu pescoço, acusando-me de propagar a violência, hoje leva a todos os lares essa barbárie. Aqueles golpes, alguns literalmente mortais, dão muita audiência. Por trás deles estão milhões de reais, dólares e todo tipo de moeda, pelos quais são ávidos a mídia, os patrocinadores, e os próprios “atletas” e seu entourage. Todos ganham, exceto a sociedade.

- Exagero!

- Não é. Estamos regredindo aos tempos da Roma antiga. A diferença é que lá o povo tinha que deslocar-se ao coliseu para ver sangue, enquanto aqui o sangue jorra dentro das nossas casas. Depois, eu é que fui um apologista da violência…

- Deixa pra lá. Às vezes eles dão azar. A perna quebrada continua dando audiência, mas ela seria bem maior se o Schumacker não tivesse se acidentado logo em seguida, desviando um pouco o foco.

- É mesmo. O Alemão, apressadinho como sempre, resolveu atrapalhar. A turma deve estar pensando: “Ele bem que poderia ter esperado mais algumas voltas para bater naquela pedra dos Alpes Franceses”.

- Cadê mamãe?

- Está na máquina de costura. Mas fique tranquilo, ela não faz mais fardas.

ILUSTRAÇÃO: JOÃO CARLOS BONAT

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Je suis brésilien (clique)

21/01/2015 por bonat

A turma do Charlie esperava o quê: flores?

Que me desculpe o amigo Nestor, que lá de Santos sugeriu que eu falasse – sob o título “Je suis Bonat” – alguma coisa sobre a recente explosão de violência de fanáticos em Paris. Sei bem que sua sugestão foi uma cutucada com sabor de blague. Apesar de estar brincando, creio mesmo que ele esperava qualquer palavra minha. Pois lhe afirmo, caro Nestor e demais amigos que me leem: tenho razões de sobra para permanecer calado diante de uma tragédia de há muito anunciada. Vou citar apenas três dos motivos para a minha mudez.

Primeiro: não vou conseguir resolver um problema que tem, descontando-se certo exagero, potencial para chegar às dimensões de um conflito como o palestino-israelense. De um lado, havia extremistas doutrinados desde a infância para matar e morrer. Do outro, gente, como os franceses do jornal satírico Charlie Hebdo, julgando-se superiores aos demais, aproveitando-se da liberté para ferir, magoar, ridicularizar pessoas e suas crenças. Por conveniência, esqueciam-se dos outros dois pilares da Revolução de julho de 1830: egalité e fraternité. Tornaram-se, assim, igualmente extremistas.

Segundo, pelo desapontamento causado a milhões de pessoas que divisam, como eu, no bleu, blanc, rouge da bandeira francesa, os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Convenhamos que apenas 1/3 dos ensinamentos que os idealistas da Revolução de julho de 1830 legaram ao mundo vem sendo praticado em Paris, seu próprio berço. Aliás, a história nos revela que isso não é de hoje, pois a França Colonizadora não primou pela aplicação daqueles fundamentos. Não sem razão, a Argélia continua sendo a sua mais dolorosa ferida, que volta e meia proporciona um contexto de temerosa violência contra a própria França. Os seis anos da guerra pela independência argelina, na qual cerca de um milhão de mulheres e homens morreram, permanecem como uma agonia sem fim para ambos os povos. Descendentes de argelinos – são milhões – que moram na França não esquecem das atrocidades e da barbárie cometidas. São, por isso mesmo, facilmente cooptados por radicais como os que criaram o Estado Islâmico.

Em terceiro lugar, e definitivamente, porque já tratei do assunto em 2005, quando milhares de automóveis foram incendiados nos subúrbios de Paris. Na época, afirmei que aquele protesto não tinha apenas raízes sociais e econômicas. Elas eram muito mais profundas. Citei, para explicar minha opinião, a experiência que vivenciei quando fiz um curso em Nîmes, simpática e acolhedora cidade situada no Midi, termo do francês arcaico preferido pelos franceses quando, carinhosamente, referem-se ao sul do seu país. Permitam-me relembrar a pequena história que, na ocasião, contei.

“Por favor, este trem vai para Marseille?” Não tinha certeza, por isso perguntei à única pessoa que, naquele momento, já estava no vagão. Logo para quem! A um senhor, uns quinze anos mais velho do que eu, com vestes árabes.

“Se você sabe, por que pergunta!”, bradou-me com raivoso sotaque. Só então me dei conta da minha ingenuidade brasileira. Imaginei que, da mesma forma que aqui, lá as pessoas se comunicavam sem nenhum rancor (ao menos éramos assim naquele ano de 1982). Mas não. Ele descarregou em mim o seu ódio antigaulês, provavelmente confundindo-me com um deles. Pensei até em lhe dizer “Je suis brésilien”, mas desisti, pois de nada adiantaria.

Lembro de ter encerrado aquele texto dizendo que os brasileiros tinham muito a ensinar a árabes e franceses. Nós, e quase mais ninguém, éramos os únicos que podiam proclamar: “vive la différence”! Pena que eles, ambos, até hoje não nos tenham escutado. Uma razão a mais para não seguir a sugestão do bom amigo Nestor.

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