Artigos de ‘Turismo’ Category

Pagou robalo e comeu sardinha

02/02/2017 por bonat

Pedro e Elpídio são filhos de Jacinto, que era filho de Severino Pescador. Além de Jacinto, Severino teve outros sete filhos. Mesmo madrugando todo dia para desafiar o mar, ficava difícil sustentar a prole. Já naqueles idos 1920, quando a tal da poluição ainda não havia dado as caras, o litoral paranaense não era piscoso. Matinhos, onde viviam, se resumia a uma colônia de pescadores, sem estradas, sem luz e sem escola. Ele e Josefina, por serem analfabetos, e principalmente por isso, queriam que as crianças estudassem. Mas como, se o dinheiro não dava? Foi aí que o compadre Adroaldo se ofereceu. Jacinto, de coração partido, despediu-se para morar na casa do padrinho, deixando chorosos mãe e irmãos. Paranaguá, hoje tão perto, parecia-lhe longe demais. Mas Jacinto soube aproveitar a chance, a mesma que não tiveram os irmãos. Esforçou-se, estudou muito e formou-se em contabilidade. Foi trabalhar no escritório do porto.

Severino não sabia como agradecer a Adroaldo. Dinheiro não tinha. Seu único bem, quando a sorte ajudava, eram os robalos, gostosos de comer, mas difíceis de pescar. Robalo não anda em bando como outros peixes menos saborosos e que se enroscam na rede aos montes. Por isso é mais valorizado. É a tal da oferta e da procura, lei que Severino obedecia, mesmo sem conhecê-la. Para agradar aos compadres, sempre que conseguia fisgar algum, dava um jeito de enviar-lhes. Josefina e a meninada que se contentassem com sardinhas, tainhas e farinha, que ficam bem em versos, mas não no prato nosso de todo dia.

Lá pelo final dos anos 1940, Jacinto casou com Jorgina. Combinaram que só teriam dois filhos. Jacinto tinha consciência das dificuldades dos pais, e do que isso acarretara aos irmãos: continuaram analfabetos. Nasceram Pedro e Elpídio, e só. Na época certa, mandou-os estudar em Curitiba, que ficava a quase quatro horas de viagem. Elpídio fez engenharia. Pedro, odonto. O primeiro foi em frente, virou engenheiro de renome. O segundo herdou o espírito aventureiro do avô pescador: não se acostumou em ficar o dia inteiro entre quatro paredes. Juntou umas economias e, com a mulher Silvinha, mudou-se para Natal. Montaram a Pousada Robalo.

No último inverno, Elpídio resolveu fugir do frio curitibano. Aproveitando uma promoção, levou Mariinha e os filhos. Na ida, a conexão em Guarulhos foi rápida. Desceram de um avião e entraram no outro. De Curitiba até Natal levaram cerca de quatro horas, o mesmo que os irmãos Pedro e Elpídio, quando estudantes, para irem de Paranaguá a Curitiba.

Ficaram uma semana na Robalo, em Ponta Negra, uma das praias da agradável capital potiguar. Gostaram muito, pois, mesmo sem ser luxuosa, Silvinha e Pedro tratam-na com capricho. O irmão nada lhes cobrou, mas disse que os preços são bem em conta, tendo em vista a concorrência. Novamente, oferta e procura, pois, como a da gravidade, é lei que político algum consegue alterar.

Na volta, entretanto, a conexão lhes reservaria uma surpresa. Tiveram que permanecer por mais de três horas no aeroporto. Aí, passaram uma raiva daquelas. Queriam comer alguma coisa. Uma espiada no cardápio de várias lanchonetes os assustou. Se estivessem sós, ele e Mariinha teriam desistido. Mas sabe como é, havia as crianças, e criança quando tem fome, tem fome. Moral da história: gastaram no aeroporto quase o mesmo que para voar três mil quilômetros. Parece que os comerciantes de lá consideram o Euro como a moeda vigente. E, como a procura é maior do que a oferta, o cliente que pague, se puder.

Se as passagens aéreas tinham saído quase de graça, em Guarulhos, Elpídio gastou uma fortuna. Sentiu-se lesado. Não se conteve. Mandou um torpedo ao irmão de Natal: “Estamos em Guarulhos. Acabo de ser assaltado. Paguei um robalo para comer uma sardinha”.

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Iguaçu: foz, “falls” e papas (clique para ler)

16/03/2013 por bonat

No século XVII, o governo espanhol confiou à Companhia de Jesus a tarefa de transformar as aldeias indígenas em reduções. Assim, os jesuítas espalharam-nas pelo Paraguai, Argentina e sul do Brasil. Mais tarde, após demoradas negociações, as fronteiras entre os três países foram definidas, separando aqueles núcleos religiosos, o que viria a ser uma das causas de sangrenta guerra, a da Tríplice Aliança.

Por isso, quando o Tenente José Joaquim Firmino chegou com sua expedição a Foz do Iguaçu (1889) para fazer valer os direitos do Brasil, encontrou muitos paraguaios e argentinos. Brasileiros eram poucos. A Colônia Militar, criada pouco antes, marcaria o início da ocupação efetiva do lugar. O “IBGE” da época identificou uma população de 324 pessoas que viviam em treze casas e alguns ranchos.

A partir de então, outros nacionais sentiram-se encorajados a chegar. No início do século XX, a população já somava 2.000 pessoas, brasileiros em sua maioria. O vilarejo dispunha de uma hospedaria, quatro mercearias, um rústico quartel, estação telegráfica e engenhos de açúcar e cachaça.

Em 1912, o Ministério da Guerra, encerrada a sua missão, entregou o povoamento ao governo do Paraná. Em 1914, foi criado o município de Vila Iguaçu, mais tarde Foz do Iguaçu. Ele chegaria ao ano de 1970 com apenas 33.970 habitantes. A construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, então iniciada, causou forte impacto em toda a região. O contingente populacional passaria a ser de 136 mil pessoas em 1980. Hoje é de cerca de 260 mil.

Fazia muito tempo que Rafael não ia lá. Ficou admirado. A região havia evoluído e se transformado num polo turístico de primeiro mundo. Parece que Itaipu fez com que os iguaçuenses descobrissem sua própria grandeza e decidissem revelar ao mundo as belezas da sua cidade.

No final da visita às cataratas, já no ônibus, a palavra que Rafael mais ouviu, em vários idiomas, foi “extraordinário” e suas derivações: “magnífico, estupendo, deslumbrante”. Cá entre nós, não há como ficar insensível após percorrer o quilômetro e meio da trilha que nos conduz a poucos metros das quedas. O indescritível impacto causado pelas águas ao se lançarem de uma altura de 80 metros aumenta na medida em que a trilha se aproxima da garganta do diabo, onde se encontram as mais altas das 275 quedas. O som ensurdecedor e a força da natureza faz com que todos, sejam católicos, evangélicos, umbandistas, judeus, muçulmanos, ateus e à-toas, tenham consciência da sua pequenez e sintam a presença de Deus naquela Sua imponente obra.

Se hoje ela é compartilhada por brasileiros e argentinos, poderia ser apenas destes últimos, pois foi o espanhol Álvar Nuñez Cabeza de Vaca quem, em 1542, a descobriu. O primeiro brasileiro apareceu por lá, para morar, somente em 1881.

Atualmente, a convivência com os “hermanos” é tão harmoniosa, que sequer o futebol consegue perturbá-la. Mas, por falar em Deus, jesuítas e harmonia, vou relatar um fato que o Rafael me confidenciou. Há duas empresas, uma brasileira e outra argentina, que proporcionam um emocionante passeio de bote inflável que leva os turistas até debaixo das cataratas. Rafael topou a parada.

Durante o passeio, quando os barcos se cruzavam, independente da nacionalidade, os turistas saudavam-se alegremente (turistas estão sempre alegres). Pois bem. Rafael observou uma faixa num bote argentino que se aproximava. Só conseguiu ler quando ele estava perto: “Habemus Papam”. Euforia plenamente compreensível. Porém, mais do que argentino, Francisco I é jesuíta, como aqueles que aqui viveram nos anos 1600. Agora, ao que parece, eles estão de volta. Que seja bem-vindo Papa Francisco! Afinal, na Tríplice Fronteira todos são “hermanos”.

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Fuleco ou Tolypeutes? (clique aqui para ler)

09/01/2013 por bonat

Um grande amigo, Joaquim Correa Santos Rocha, Coronel que prestou relevantes serviços aos gaúchos como oficial do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar, sugeriu que eu escrevesse sobre o túnel de Santa Fé. Corri para o Google. Não podia revelar minha ignorância, faceta que procuro esconder dos amigos.

Porém, caro leitor, se você concordar, vou manter o suspense sobre o que descobri naquele site de busca até o final desta crônica. Antes, prefiro dar uma de Rolando Lero, falando sobre os pensamentos que a palavra túnel fez aflorar no meu cérebro, numa verdadeira tempestade mental ou, se preferir, brainstorm.

Não foi exatamente nesta ordem, mas vamos lá: túnel lembrou tatu, que lembrou copa do mundo, dinheiro público, multidões, praias lotadas e, por fim, me fez cantarolar o Samba do Arnesto.

Que túnel nos remete a tatu é óbvio. Porém, tatu nos lembrar da Copa do Mundo no Brasil merece alguma explicação. É que o tatu-bola foi escolhido como seu mascote. As razões são louváveis: trata-se de um animal ameaçado de extinção, que passará a ser mais conhecido, aumentando, assim, suas chances de sobrevivência.

Apesar disso, creio que ele não deve ter gostado do nome que lhe deram. Após votação popular, batizaram-no de Fuleco. Se esse foi o vencedor, dá para ter uma noção do horror que eram seus concorrentes. Imagine, a partir de agora, o porco-espinho zoando do pobre tatu-bola: “E aí, Fuleco, como vai aquela fuleca da tua irmã?” Se soubesse disso, ele teria pedido para que o chamassem de Tolypeutes Tricinctus, como fazem os cientistas. Apesar de igualmente feio, ao menos, não seria vulgar.

Mas o futebol me arremessou no meio de uma multidão, como as que lotam os estádios e, todo final de ano, as nossas praias. Só de assistir pela tevê, dá medo. Por isso, durante o verão, permaneço numa altitude segura, bem acima de zero. Creio que sofro de agorafobia (do grego ágora – assembleia, multidão; e phobos – temor), medo de estar no meio da multidão. Nesse ponto, eu e o tatu-bola nos identificamos, pois ele padece do mesmo mal. Minha aversão é tanta, que vou a Santos, uma cidade que adoro, somente na baixa temporada. Na última vez que estive lá, fiquei impressionado com a gigantesca fila para a balsa que a liga ao Guarujá. E nem tinha chegado o verão!

A fila da balsa empurrou-me para o interior de um túnel eternamente prometido, mas sempre esquecido. O argumento de que não há dinheiro para construí-lo jogou-me de volta à Copa do Mundo e a tanto recurso público sendo usado para construir e reformar estádios, alguns particulares, futuros elefantes brancos.

Termina aqui o meu lero-lero. Vou, finalmente, atender ao pedido do amigo Rocha. O túnel de Santa Fé foi construído, ainda na década de sessenta, para ligar as cidades de Santa Fé e Paraná, localizadas na Mesopotâmia Argentina. Ele passa sob o rio Paraná e sua extensão é de mais de três quilômetros.

Só para concluir: por que, até hoje, o Estado de São Paulo, muito mais pujante do que a Mesopotâmia, ainda não construiu um túnel para ligar Santos à Guarujá, num trecho de poucas centenas de metros, onde, diariamente, penam milhares de pessoas e veículos? Se a justificativa for falta de dinheiro, que me perdoe o Fuleco da Copa, mas só mesmo parodiando o eterno Adoniran Barbosa: “ Nóis num semo tatu!”

Santos, seus fortes, fortalezas e suas cartolas

16/11/2012 por bonat

Ao fundar a vila de São Vicente, Martim Afonso daria início à rica história da Baixada Santista, cuja trajetória poderia ser contada pelas fortificações que foram sendo erguidas como parte de um complexo plano de defesa. A primeira foi Santo Amaro, a fortaleza (foto) que, desde 1584, vigia a expansão das comunidades em torno do mais importante porto do país. Com o tempo, várias outras surgiriam, até a inauguração, em 1942, do Forte dos Andradas. Durante a Segunda Guerra, seus canhões cruzariam fogos com os da Fortaleza de Itaipu,para proteger a barra das ameaçadoras belonaves do Eixo.

Um presente que recebi de José Roberto Garcia, um entusiasta de Itaipu, motivou-me a discorrer sobre ela. Na obra Belezas da Fortaleza, com sensibilidade e talento, amantes da fotografia nos revelam detalhes despercebidos por quem não tem o dom de enxergar o belo, mesmo que esteja a centímetros dos seus olhos. Com a pontaria certeira de suas objetivas, eles retrataram a centenária Itaipu, não só sob o aspecto arquitetônico, mas e sobretudo, com uma visão humana e ambiental.

Ao folheá-la, sente-se a presença dos desbravadores, que há mais de um século enfrentaram a densa mata, abrindo caminho para a passagem dos canhões Schneider-Canet de 150 mm. Depois dos pioneiros, vieram milhares de outros, cada qual com sua própria experiência de uma nada fácil vida de soldado. Lembro-me de um, a quem tive o privilégio de conhecer, quando ali servi nos anos de 1974/75: o Capitão Galileu Ramos, ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Recordo-o, já idoso, fazendo questão de cumprir o expediente. Soube que, mais tarde, doente e praticamente cego, continuaria a desfilar nas paradas diárias, à frente da sua banda de música. São pessoas como ele que vêm à mente quando se visita qualquer dos baluartes espalhados pela costa paulista.

Mas a história da Baixada poderia, ainda, ser contada a partir da determinante atuação dos irmãos Andradas no processo da independência e, também, por sua visão de estadistas e sua postura ética em relação à coisa pública.

Há um episódio revelador de sua honestidade. José Bonifácio era titular da Pasta do Império e Martim Francisco, da Fazenda. Um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo na cartola, Bonifácio saiu à rua e, por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas. Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola, o dinheiro havia sumido. Retornando ao palácio, contou o sucedido a D. Pedro. O imperador, lamentando a perda, chamou Martim e mandou que ele sacasse do Tesouro outro pagamento para o irmão descuidado. O ministro da Fazenda se recusou: “Nada disso, o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês, como qualquer outro funcionário. Por isso, peço licença a Vossa Alteza para repartir com ele o meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes”.

Por essa e outras, os Andradas são tão admirados. Por isso mesmo, são evocados em duas unidades que lhes trazem o nome: o Forte dos Andradas, no Guarujá, e o Grupo José Bonifácio, aquartelado na Fortaleza de Itaipu.

Fortificações não se aposentam. Nem morrem. Da mesma forma, são imortais os exemplos dos Andradas e de outros brasileiros, homens e mulheres, que forjaram esta Nação. Eles deveriam ressoar como ensinamento perene sobre o caráter das pessoas. Infelizmente, tudo leva a crer que os atuais responsáveis pela condução dos nossos destinos não leram as páginas vivas que eles escreveram.

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Curitiba sem carnaval e sem natal

01/08/2012 por bonat

Pessoas que fugiam da miséria e das guerras em seus países foram chegando e instalaram-se no primeiro planalto paranaense, juntando-se a portugueses, índios e negros que já viviam por aqui. Poloneses, alemães, ucranianos, russos, italianos, japoneses, holandeses, sírios, libaneses e muitos outros passaram a cultivar a terra, a produzir verduras, hortaliças, carnes, laticínios e móveis. Montaram pequenas indústrias. Algumas cresceram. A maioria já não existe, como Prosdócimo (refrigeradores), Providência (cervejas), Cimo (móveis), Essenfelder (pianos). Outras mantiveram o nome, mas acabaram vendidas. Essas mesmas pessoas chegaram até a controlar um banco de amplitude nacional, o Bamerindus, que também desapareceu.

A questão, para a qual não se encontra resposta, é como uma gente trabalhadora, corajosa para se embrenhar no sertão e transformá-lo em progresso, até hoje não conquistou o mesmo êxito em outros setores.

A justificativa mais comum tem sido sua timidez. Para comprová-la, citam o desanimado carnaval curitibano. Apesar do insistente apoio do poder público, os desfiles revelam total ausência de entusiasmo. Nem as crianças das escolas de samba conseguem disfarçar sua tristeza. Nas imagens em que aparecem em close, chama mais atenção a atraente publicidade das bebidas alcoólicas que patrocinam a pobre festa de um Momo, via de regra, também desalentado.

Outra suposição é a autofagia que impera entre os políticos paranaenses. Mais preocupados com seus projetos pessoais, não defendem os interesses do Estado. Autodestruindo-se, acabam destruindo o Estado.

Foi o que aconteceu com o Bamerindus. Apesar dos erros cometidos em sua gestão, havia como salvá-lo. Mas nem o governador nem os representantes em Brasília, por serem adversários políticos de José Eduardo de Andrade Vieira, o presidente do banco, moveram uma palha em sua defesa. Para azar de José Eduardo, o próprio presidente Fernando Henrique, de quem era ministro e para cuja eleição havia contribuído, virou-lhe as costas. Adepto da globalização, FHC a dizia inevitável. O Brasil, concordasse ou não, seria globalizado. O mais interessante é que não globalizava ninguém! Só quem podia globalizar eram as grandes potências. Sobrou para o Paraná. Falido em 1997, o Bamerindus foi parar, embalado para presente, no colo dos ingleses.

Ainda bem que, mesmo tendo desaparecido, ele deixou um legado que é orgulho dos curitibanos. Um dos poucos eventos da capital paranaense merecedor de figurar no calendário turístico nacional, o coral Bamerindus, hoje HSBC, é um espetáculo emocionante que se repete a cada ano. Resultado de um projeto social, ele é formado por crianças carentes, que saíram dos seus lares por determinação judicial por se encontrarem em situação de risco. Não sei se a contragosto dos novos proprietários, mas as crianças continuaram a ser apoiadas pelo banco.

Uma recente notícia foi recebida com preocupação pelos curitibanos: a de que o Ministério Público do Trabalho, tendo recebido denúncia (com que interesse?) de que os menores estão sendo explorados, deu início a uma investigação. Teme-se que as crianças, que se orgulham de participar do coral, que têm alegria de se sentirem artistas, que são apoiadas e cobradas em relação aos estudos, percam tudo isso.

Caso o pior venha a acontecer, algumas talvez migrem para os desanimados desfiles de carnaval. Neste caso, em breve veremos imagens de seus olhares tristes, emoldurados por propagandas de cerveja. Aí, como criança e álcool não combinam, espero que o Ministério Público receba, e acate, nova denúncia.

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Schettino – cherchez la femme

02/02/2012 por bonat

Alexandre Dumas sequer desconfiava que estava criando uma expressão tão ao gosto dos franceses quando, em 1854, publicou em seu livro Les Mohicans: “Il y a une femme dans toutes les affaires; aussitôt qu’on me fait un rapport, je dis: cherchez la femme”.

Cherchez la femme resume um lugar-comum das histórias de detetive. Não importa qual seja a confusão, quase sempre haverá uma mulher envolvida. Em seu sentido mais amplo, significa “procure a raiz do problema”.

Basta recordar alguns escândalos famosos para perceber que os franceses têm certa razão. Os casos das Mônicas, a brasileira de Renan e a americana do salão oval de Clinton. O do governador de Nova York, estrela do Partido Democrata, conhecido por “Cliente Nove” de Ashley Dupré, jovem de 22 anos que acabaria famosa como coelhinha da Playboy, enquanto “Nove” teve que renunciar ao cargo. O affaire de Dona Zélia Cardoso, que após ter deixado os brasileiros com míseros 50 dinheiros no bolso, resolveu dançar de rosto colado com Bernardo Cabral, ao som de “Besame Mucho”. A descoberta, no vizinho Paraguai, que o “bispo dos pobres” havia produzido em série dezenas “luguinhos”.

E, para não cometer a tremenda injustiça de esquecê-lo, é preciso recordar as festanças de Berlusconi, onde prostitutas adaptavam rituais eróticos praticados no harém de Muamar Kadafi. Diante das críticas, o premier italiano reagia: “Vivo uma vida terrível. Se uma vez ou outra preciso de uma noite para relaxar, ninguém tem nada com isso. Melhor gostar de garotinhas bonitas do que ser gay”. Aplausos! Este é o verdadeiro macho italiano, desde os da mais alta corte até os mais simples plebeus. Parece que eles sofrem da “síndrome de narciso”, segundo a qual todas as fêmeas devem adorá-los.

Aqui mesmo, em Curitiba, o presidente da câmara de vereadores, de sobrenome italiano, resolveu gastar 30 milhões em publicidade. Cidadãos indignaram-se pelo fato de ele torrar uma dinheirama, sem qualquer benefício para a população. Mas um jornalista-detetive logo iria desvendar que boa parte da grana pública foi parar no caixa da empresa de uma femme por quem o edil se encantara. Realmente, as mulheres têm o poder de fazer com que homens, honestos ou não, cometam loucuras, sem medir as consequências.

Quando pipocaram as primeiras notícias de que Francesco Schettino havia levado à pique o moderníssimo Costa Concórdia, no Mediterrâneo, um mar que qualquer marinheiro conhece como a palma da mão há mais de 10 mil anos, caberia perguntar: “onde está a mulher”? Se fosse eu o seu advogado, usaria este argumento em defesa de Francesco, pois esse é o ponto fraco da maioria dos italianos. Mas, para azar de Schettino, a Itália tem um ponto forte: sua justiça é séria e funciona.

Prezado Francesco: Como acredito que você jamais voltará a bordo, deixo-lhe um conselho. Ligue para seu compatriota Battisti, aquele que assassinou quatro italianos inocentes e acabou acolhido como herói à bordo do Brasil. Quem sabe ele consiga interferir junto às nossas autoridades para você vir aportar numa de nossas paradisíacas praias? Aí, não lhe será difícil “chercher une femme”.

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Andradas, um nome de forte

12/01/2011 por bonat

Exatos 299 metros separam os morros do Guaiuba e do Munduba, onde, em 1942, o Forte dos Andradas foi inaugurado para fazer face a possíveis bombardeios nazistas. A 5ª Bateria Independente de Artilharia de Costa, ali instalada, e a Fortaleza de Itaipu, já existente em Praia Grande, passaram a fechar e proteger a entrada do porto de Santos.

Terminada a Guerra, com o passar do tempo, ambos tornaram-se obsoletos. Hoje, Itaipu abriga uma unidade de artilharia antiaérea, enquanto o Forte dos Andradas sedia o quartel-general da Brigada de Artilharia Antiaérea, Comando estratégico do nosso Exército.

Num dos extremos da praia, pouco a pouco, foi sendo edificado um pequeno hotel de trânsito, simples e sem muito luxo, para os militares poderem desfrutar com a família, indenizando, é claro, alguns poucos dias de férias.

A simplicidade era compensada pela beleza do local, emoldurado pela mata atlântica, ainda preservada e respeitada naquele lugar, e pela existência de um sítio histórico. Mesmo assim, nos anos de 2001 e 2002, quando estive à frente da Brigada, ele não era muito procurado. Quando o Presidente Lula o descobriu, a afluência aumentou. Entre dezembro e março, para se conseguir uma vaga passou a ser necessário reservar com bastante antecedência.

O risco era de o presidente querer hospedar-se lá. Neste caso, todas as reservas seriam canceladas. Foi o que aconteceu agora. Por três semanas, ele ficou bloqueado e pelo menos trinta famílias ficaram frustradas. Provavelmente, tiveram que curtir o verão em casa ou na de parentes.

A questão é se um ex-presidente merece esse tipo de privilégio. Podem até dizer que sim, afinal, ele deixou recentemente o cargo. Mas podia, ao menos, ter esperado chegar a baixa temporada, quando não prejudicaria tanta gente.

Tenho a impressão que os irmãos Andradas, que sabiamente costuraram nossa Independência, agiriam de maneira mais ética. Por isso, mesmo depois de tantos anos, seu nome continua forte e respeitado na Baixada Santista. A denominação do agora famoso Forte dos Andradas é apenas uma das inúmeras honrarias que receberam post-mortem, homenagem evidentemente merecida.

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Crachá para quê?

01/12/2010 por bonat

As fotografias da reunião de João Pessoa tinham um quê de perturbador. Alguém que esteve lá em julho passado as havia enviado pela rede. Dos participantes, cerca de quinze, só reconhecemos três. Posteriormente, um de nós, num esforço de reportagem, identificou-os no pé da foto. Aí ficou um pouco mais fácil. Assim mesmo, havia o risco de passarmos por um deles e sequer cumprimentá-lo.

Agora chegara a nossa vez. Ficamos radiantes quando a turma, com quem nos formamos há quase quatro décadas, escolheu Curitiba para outro reencontro. Nosso pequeno grupo começou a se reunir. Assim que enviamos as primeiras propostas da programação, algum espirituoso apressou-se em nos intitular Comissão de Organização do Encontro de Curitiba, que logo virou COEC. De tão pomposa, a denominação chegou a subentender que seríamos remunerados. Pensamos em sugerir. Quem sabe não colava?

Certos pontos nortearam a valorosa COEC. O programa teria que ser agradável e pouco estressante, haja vista a alvura revelada nas cabeças das fotos de João Pessoa. Elas, as mesmas e perturbadoras fotos, fizeram com que decidíssemos confeccionar crachás, vacina contra possíveis constrangimentos. Nada poderia ser muito dispendioso, pois não estaríamos acolhendo membros do judiciário nem do legislativo. Jamais seríamos perdoados se insistíssemos na formalidade. De formal, somente um momento, mínimo, porém comovente, para homenagear aos mais de trinta amigos que já partiram.

As discussões da voluntariosa COEC se sucediam, e nada. Só tomávamos uma decisão importante: a data da reunião seguinte. Enquanto isso, as sugestões não paravam de chegar pela rede. Na véspera, finalmente, a programação ficou pronta.

A operação de maior risco seria a de receber o pessoal no aeroporto. Era grande a possibilidade de não reconhecermos os companheiros que, naquele momento, ainda não portavam o seu crachá. Sugeriu-se levar um cartaz com o nome do visitante. Boa ideia, que ninguém aplicou. Resolvemos arriscar. Acabou dando certo. Todos foram acolhidos com um abraço tão forte quanto um tapete vermelho.

Havia, ainda, outro perigo. O Afonso Pena é o campeão das neblinas. Volta e meia, os passageiros vão parar em Floripa. Se isso ocorresse, alguns companheiros, seduzidos pelas belezas da Ilha Encantada, poderiam decidir ficar por lá. Aí, não haveria plano B que resolvesse. Por sorte, o Afonso Pena não fechou.

Logo entregamos os crachás a serem usados em todos os eventos: no city tour; no almoço em Santa Felicidade; na descida da serra da Graciosa (de ônibus, pois o preço do trem era exorbitante), a fim de degustar o tradicional barreado de Morretes; nas reuniões no Círculo Militar; na Boca Maldita, para assistir ao belo espetáculo de Natal no Palácio Avenida; e, por fim, na fazenda onde seria servido porco no rolete, outro prato típico regional.

Tudo transcorria mais ou menos bem, como era de esperar. No segundo dia, como também seria de esperar, o pessoal voltou a ser Cadete. Trocaram os crachás. Sabemos de quem partiu a ideia, mas não vamos dedurar. João passou a ser Manoel; o Manoel, Francisco; e por aí afora. Tudo aconteceu sob o olhar desapontado da intrépida COEC. Chegamos à conclusão de que amigos de verdade, mesmo com idade para terem assistido o Vigilante Rodoviário, a Vila Sésamo e a Copa de 70, dispensam identificações. A julgar por tal constatação, o encontro foi válido. Ele reuniu velhos guerreiros, na acepção pura e verdadeira do termo. Guerreiros que um dia sonharam juntos o mesmo sonho, não para si mesmos, mas para a extraordinária Nação de todos os brasileiros. Infelizmente, parece que só os soldados pensaram assim. Por isso, hoje dispensam crachás.

PS: Não esquecemos das esposas, que, mais uma vez, emprestaram seu encanto e inteligência para abrilhantar nosso encontro. Desculpem-nos, mas quando nos revemos, falamos mais do que vocês. E vocês sabem como isso é difícil. Um fraterno abraço da esforçada COEC.

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Um boi até para vegetarianos

20/05/2010 por bonat

Ele é de 1873. Tem, portanto, cerca de 137 anos. Poderia ter morrido, mas continua vivinho da silva. Aposentadoria, nem pensar! Concordou, no máximo, em ser tombado pelo patrimônio histórico. Embora tenha pinta de museu, está em plena atividade. Sua longevidade pode ser comprovada na grafia do nome: theatro, com “th” mesmo. Para podermos avaliar sua importância, basta lembrar que nos primeiros anos de sua existência nem cinema havia. Era para ele que os lapeanos acorriam quando desejavam se divertir. Até o Imperador Pedro II chegou a visitá-lo, acomodando-se num dos seus aconchegantes camarotes.

É provável que Francisco Therézio Porto Neto, que além de engenheiro civil foi poeta e prosador, ao projetá-lo com tanto charme, quisesse que ele se perpetuasse como centro de cultura, tradição, história e arte. Se esse era o seu sonho, conseguiu realizá-lo. Na época, a Lapa contava com cerca de 2.000 habitantes. Daí o porquê de o Theatro São João ter capacidade para umas duzentas pessoas. Pequeno no tamanho, revelou-se grande na medida em que proporcionou, como ainda proporciona, que artistas, famosos ou não, sintam orgulho e prazer de se apresentar em seu palco.

O pessoal da “Tribuna Regional” e da Secretaria Municipal da Cultura não poderia ter escolhido local mais adequado para o lançamento do meu livro de crônicas. Além do mais, presentearam-me, a mim e aos amigos que foram me prestigiar, com a encenação do “Boi da Lapa”, um número de cordel que emocionou a todos os presentes. Se a Nádia, atual diretora do São João, não nos tivesse alertado, poderíamos pensar tratar-se de coisa de profissionais. Mas era de amadores, pessoas da terra, simples, anônimas e de uma dedicação imensa, que nos brindaram com sua arte e revelaram que o sonho de Francisco Therézio – com “th”também – permanece vivo.

Há um aspecto que não pode deixar de ser lembrado. Como quase todas as edificações existentes na Lapa em 1894, ele não escapou de dar sua contribuição à valente resistência às tropas de Gumercindo Saraiva. Durante o Cerco, transformado em enfermaria, cumpriu a humanitária missão de salvar vidas.

Cabe-me, por justiça, transmitir um sentimento de enorme gratidão aos amigos lapeanos que me propiciaram uma noite particularmente especial e, ao mesmo tempo, recomendar àqueles que ainda não o fizeram, que, na primeira oportunidade, assistam o “Boi da Lapa”. Trata-se de um boi que até mesmo o vegetariano mais radical irá gostar.

Por fim, não há como evitar uma derradeira observação de um velho oficial de artilharia que, de tanto ouvir o ribombar dos canhões, anda meio surdo: a acústica é perfeita.

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Na terra do tuiuiú

05/05/2010 por bonat

Se o pernalta tuiuiú é o símbolo do Pantanal, o atarracado Rondon é a simbiose perfeita da gente mestiça do Mato Grosso. É seu nome que batiza o aeroporto onde me chamam para o embarque, depois de ter passado dias agradáveis nesta região. Cândido Mariano, o Marechal Rondon, é um dos mais ilustres representantes de um povo valente, cujo lema em relação aos indígenas – “morrer se preciso for, matar nunca” – sintetiza o aspecto humanista do seu caráter.

Próxima do centro geodésico da América do Sul, a um passo da Chapada dos Guimarães e outro do Pantanal, Cuiabá superou minhas expectativas. O nome Cuiabá tem várias versões. A primeira diz que tem origem em ikuiapá, que significa “lugar da ikuia” (ikuia – flecha, arpão, flecha para pescar; pá – lugar), que designa uma localidade onde os bororos costumavam caçar e pescar com flecha. Outra explicação é a de que seria uma aglutinação de kyyaverá (que em guarani significa “rio da lontra brilhante”) em cuyaverá, depois cuiavá e, finalmente, cuiabá. Uma terceira hipótese diz que a origem está no fato de existirem plantas produtoras de cuia à beira do rio, e que “cuiabá” seria “rio criador de vasilhas”. Martius traduziu o vocábulo como “fabricante ou fazedor de cuias”. Teodoro Sampaio interpretou como “homem da farinha”, o farinheiro. De cuy, farinha, e abá, homem. A verdade é que até hoje não se sabe ao certo a origem do termo.

É uma cidade pujante, progressista, mas que não esquece do passado, onde realidade e lenda se mesclaram na mesma medida que índios, negros e brancos. Os mitos, na maioria, são de arrepiar, como o da sucuri que engoliu um dentista, o da onça da mão torta e o do gorila arranca-língua. Eles representam a herança cultural indígena, que a mistura de raças só fez enriquecer. Deixando a ficção de lado, vou contar uma história cuiabana, que não acreditaria se meus olhos não tivessem visto.

Ele se chama Valtinho. Ela, Marlene. É ele quem manda. Ela faz o que ele bem quer, sob uma só condição: de que a trate bem. Se ele quer que ela vá para a esquerda, ela vai. Para a direita, é só mandar. Até a ré ela dá, mas, neste caso, bem devagarinho. De nada ela reclama e, ainda por cima, o defende de cobras e lagartos que, de tão grandes, são denominados jacarés. Ciumenta, não permite que as piranhas se aproximem de Valtinho. O pior é que ele só aparece uma ou duas vezes por semana, e ainda traz alguns amigos inconvenientes. Mesmo assim, ela o aguarda, sempre limpinha, com a geladeira apinhada de cerveja, geladinha como ele gosta. Além disso, tem que aguentar, durante horas, aquele papo chato de pescador sobre pacus, dourados e pintados.

Se você é como aqueles que, em pleno terceiro milênio, são metidos a machão e está com inveja do cuiabano Valtinho, faça como ele: compre um barco, batize-o com nome de mulher e convide alguns amigos para pescar no rio Cuiabá. Eles vão adorar.

Publicado em Turismo