Artigos de ‘Turismo’ Category

Schettino – cherchez la femme

02/02/2012 por bonat

Alexandre Dumas sequer desconfiava que estava criando uma expressão tão ao gosto dos franceses quando, em 1854, publicou em seu livro Les Mohicans: “Il y a une femme dans toutes les affaires; aussitôt qu’on me fait un rapport, je dis: cherchez la femme”.

Cherchez la femme resume um lugar-comum das histórias de detetive. Não importa qual seja a confusão, quase sempre haverá uma mulher envolvida. Em seu sentido mais amplo, significa “procure a raiz do problema”.

Basta recordar alguns escândalos famosos para perceber que os franceses têm certa razão. Os casos das Mônicas, a brasileira de Renan e a americana do salão oval de Clinton. O do governador de Nova York, estrela do Partido Democrata, conhecido por “Cliente Nove” de Ashley Dupré, jovem de 22 anos que acabaria famosa como coelhinha da Playboy, enquanto “Nove” teve que renunciar ao cargo. O affaire de Dona Zélia Cardoso, que após ter deixado os brasileiros com míseros 50 dinheiros no bolso, resolveu dançar de rosto colado com Bernardo Cabral, ao som de “Besame Mucho”. A descoberta, no vizinho Paraguai, que o “bispo dos pobres” havia produzido em série dezenas “luguinhos”.

E, para não cometer a tremenda injustiça de esquecê-lo, é preciso recordar as festanças de Berlusconi, onde prostitutas adaptavam rituais eróticos praticados no harém de Muamar Kadafi. Diante das críticas, o premier italiano reagia: “Vivo uma vida terrível. Se uma vez ou outra preciso de uma noite para relaxar, ninguém tem nada com isso. Melhor gostar de garotinhas bonitas do que ser gay”. Aplausos! Este é o verdadeiro macho italiano, desde os da mais alta corte até os mais simples plebeus. Parece que eles sofrem da “síndrome de narciso”, segundo a qual todas as fêmeas devem adorá-los.

Aqui mesmo, em Curitiba, o presidente da câmara de vereadores, de sobrenome italiano, resolveu gastar 30 milhões em publicidade. Cidadãos indignaram-se pelo fato de ele torrar uma dinheirama, sem qualquer benefício para a população. Mas um jornalista-detetive logo iria desvendar que boa parte da grana pública foi parar no caixa da empresa de uma femme por quem o edil se encantara. Realmente, as mulheres têm o poder de fazer com que homens, honestos ou não, cometam loucuras, sem medir as consequências.

Quando pipocaram as primeiras notícias de que Francesco Schettino havia levado à pique o moderníssimo Costa Concórdia no Mediterrâneo, um mar que qualquer marinheiro conhece como a palma da mão há mais de 10 mil anos, caberia perguntar: “onde está a mulher”? Se fosse eu o seu advogado, usaria este argumento em defesa de Francesco, pois esse é o ponto fraco da maioria dos italianos. Mas, para azar de Schettino, a Itália tem um ponto forte: sua justiça é séria e funciona.

Prezado Francesco: Como acredito que você jamais voltará a bordo, deixo-lhe um conselho. Ligue para seu compatriota Battisti, aquele que assassinou quatro italianos inocentes e acabou acolhido como herói à bordo do Brasil. Quem sabe ele consiga interferir junto às nossas autoridades para você vir morar numa de nossas paradisíacas praias? Aí, não lhe será difícil “chercher une femme”.

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Andradas, um nome de forte

12/01/2011 por bonat

Exatos 299 metros separam os morros do Guaiuba e do Munduba, onde, em 1942, o Forte dos Andradas foi inaugurado para fazer face a possíveis bombardeios nazistas. A 5ª Bateria Independente de Artilharia de Costa, ali instalada, e a Fortaleza de Itaipu, já existente em Praia Grande, passaram a fechar e proteger a entrada do porto de Santos.

Terminada a Guerra, com o passar do tempo, ambos tornaram-se obsoletos. Hoje, Itaipu abriga uma unidade de artilharia antiaérea, enquanto o Forte dos Andradas sedia o quartel-general da Brigada de Artilharia Antiaérea, Comando estratégico do nosso Exército.

Num dos extremos da praia, pouco a pouco, foi sendo edificado um pequeno hotel de trânsito, simples e sem muito luxo, para os militares poderem desfrutar com a família, indenizando, é claro, alguns poucos dias de férias.

A simplicidade era compensada pela beleza do local, emoldurado pela mata atlântica, ainda preservada e respeitada naquele lugar, e pela existência de um sítio histórico. Mesmo assim, nos anos de 2001 e 2002, quando estive à frente da Brigada, ele não era muito procurado. Quando o Presidente Lula o descobriu, a afluência aumentou. Entre dezembro e março, para se conseguir uma vaga passou a ser necessário reservar com bastante antecedência.

O risco era de o presidente querer hospedar-se lá. Neste caso, todas as reservas seriam canceladas. Foi o que aconteceu agora. Por três semanas, ele ficou bloqueado e pelo menos trinta famílias ficaram frustradas. Provavelmente, tiveram que curtir o verão em casa ou na de parentes.

A questão é se um ex-presidente merece esse tipo de privilégio. Podem até dizer que sim, afinal, ele deixou recentemente o cargo. Mas podia, ao menos, ter esperado chegar a baixa temporada, quando não prejudicaria tanta gente.

Tenho a impressão que os irmãos Andradas, que sabiamente costuraram nossa Independência, agiriam de maneira mais ética. Por isso, mesmo depois de tantos anos, seu nome continua forte e respeitado na Baixada Santista. A denominação do agora famoso Forte dos Andradas é apenas uma das inúmeras honrarias que receberam post-mortem, homenagem evidentemente merecida.

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Crachá para quê?

01/12/2010 por bonat

As fotografias da reunião de João Pessoa tinham um quê de perturbador. Alguém que esteve lá em julho passado as havia enviado pela rede. Dos participantes, cerca de quinze, só reconhecemos três. Posteriormente, um de nós, num esforço de reportagem, identificou-os no pé da foto. Aí ficou um pouco mais fácil. Assim mesmo, havia o risco de passarmos por um deles e sequer cumprimentá-lo.

Agora chegara a nossa vez. Ficamos radiantes quando a turma, com quem nos formamos há quase quatro décadas, escolheu Curitiba para outro reencontro. Nosso pequeno grupo começou a se reunir. Assim que enviamos as primeiras propostas da programação, algum espirituoso apressou-se em nos intitular Comissão de Organização do Encontro de Curitiba, que logo virou COEC. De tão pomposa, a denominação chegou a subentender que seríamos remunerados. Pensamos em sugerir. Quem sabe não colava?

Certos pontos nortearam a valorosa COEC. O programa teria que ser agradável e pouco estressante, haja vista a alvura revelada nas cabeças das fotos de João Pessoa. Elas, as mesmas e perturbadoras fotos, fizeram com que decidíssemos confeccionar crachás, vacina contra possíveis constrangimentos. Nada poderia ser muito dispendioso, pois não estaríamos acolhendo membros do judiciário nem do legislativo. Jamais seríamos perdoados se insistíssemos na formalidade. De formal, somente um momento, mínimo, porém comovente, para homenagear aos mais de trinta amigos que já partiram.

As discussões da voluntariosa COEC se sucediam, e nada. Só tomávamos uma decisão importante: a data da reunião seguinte. Enquanto isso, as sugestões não paravam de chegar pela rede. Na véspera, finalmente, a programação ficou pronta.

A operação de maior risco seria a de receber o pessoal no aeroporto. Era grande a possibilidade de não reconhecermos os companheiros que, naquele momento, ainda não portavam o seu crachá. Sugeriu-se levar um cartaz com o nome do visitante. Boa ideia, que ninguém aplicou. Resolvemos arriscar. Acabou dando certo. Todos foram acolhidos com um abraço tão forte quanto um tapete vermelho.

Havia, ainda, outro perigo. O Afonso Pena é o campeão das neblinas. Volta e meia, os passageiros vão parar em Floripa. Se isso ocorresse, alguns companheiros, seduzidos pelas belezas da Ilha Encantada, poderiam decidir ficar por lá. Aí, não haveria plano B que resolvesse. Por sorte, o Afonso Pena não fechou.

Logo entregamos os crachás a serem usados em todos os eventos: no city tour; no almoço em Santa Felicidade; na descida da serra da Graciosa (de ônibus, pois o preço do trem era exorbitante), a fim de degustar o tradicional barreado de Morretes; nas reuniões no Círculo Militar; na Boca Maldita, para assistir ao belo espetáculo de Natal no Palácio Avenida; e, por fim, na fazenda onde seria servido porco no rolete, outro prato típico regional.

Tudo transcorria mais ou menos bem, como era de esperar. No segundo dia, como também seria de esperar, o pessoal voltou a ser Cadete. Trocaram os crachás. Sabemos de quem partiu a ideia, mas não vamos dedurar. João passou a ser Manoel; o Manoel, Francisco; e por aí afora. Tudo aconteceu sob o olhar desapontado da intrépida COEC. Chegamos à conclusão de que amigos de verdade, mesmo com idade para terem assistido o Vigilante Rodoviário, a Vila Sésamo e a Copa de 70, dispensam identificações. A julgar por tal constatação, o encontro foi válido. Ele reuniu velhos guerreiros, na acepção pura e verdadeira do termo. Guerreiros que um dia sonharam juntos o mesmo sonho, não para si mesmos, mas para a extraordinária Nação de todos os brasileiros. Infelizmente, parece que só os soldados pensaram assim. Por isso, hoje dispensam crachás.

PS: Não esquecemos das esposas, que, mais uma vez, emprestaram seu encanto e inteligência para abrilhantar nosso encontro. Desculpem-nos, mas quando nos revemos, falamos mais do que vocês. E vocês sabem como isso é difícil. Um fraterno abraço da esforçada COEC.

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Um boi até para vegetarianos

20/05/2010 por bonat

Ele é de 1873. Tem, portanto, cerca de 137 anos. Poderia ter morrido, mas continua vivinho da silva. Aposentadoria, nem pensar! Concordou, no máximo, em ser tombado pelo patrimônio histórico. Embora tenha pinta de museu, está em plena atividade. Sua longevidade pode ser comprovada na grafia do nome: theatro, com “th” mesmo. Para podermos avaliar sua importância, basta lembrar que nos primeiros anos de sua existência nem cinema havia. Era para ele que os lapeanos acorriam quando desejavam se divertir. Até o Imperador Pedro II chegou a visitá-lo, acomodando-se num dos seus aconchegantes camarotes.

É provável que Francisco Therézio Porto Neto, que além de engenheiro civil foi poeta e prosador, ao projetá-lo com tanto charme, quisesse que ele se perpetuasse como centro de cultura, tradição, história e arte. Se esse era o seu sonho, conseguiu realizá-lo. Na época, a Lapa contava com cerca de 2.000 habitantes. Daí o porquê de o Theatro São João ter capacidade para umas duzentas pessoas. Pequeno no tamanho, revelou-se grande na medida em que proporcionou, como ainda proporciona, que artistas, famosos ou não, sintam orgulho e prazer de se apresentar em seu palco.

O pessoal da “Tribuna Regional” e da Secretaria Municipal da Cultura não poderia ter escolhido local mais adequado para o lançamento do meu livro de crônicas. Além do mais, presentearam-me, a mim e aos amigos que foram me prestigiar, com a encenação do “Boi da Lapa”, um número de cordel que emocionou a todos os presentes. Se a Nádia, atual diretora do São João, não nos tivesse alertado, poderíamos pensar tratar-se de coisa de profissionais. Mas era de amadores, pessoas da terra, simples, anônimas e de uma dedicação imensa, que nos brindaram com sua arte e revelaram que o sonho de Francisco Therézio – com “th”também – permanece vivo.

Há um aspecto que não pode deixar de ser lembrado. Como quase todas as edificações existentes na Lapa em 1894, ele não escapou de dar sua contribuição à valente resistência às tropas de Gumercindo Saraiva. Durante o Cerco, transformado em enfermaria, cumpriu a humanitária missão de salvar vidas.

Cabe-me, por justiça, transmitir um sentimento de enorme gratidão aos amigos lapeanos que me propiciaram uma noite particularmente especial e, ao mesmo tempo, recomendar àqueles que ainda não o fizeram, que, na primeira oportunidade, assistam o “Boi da Lapa”. Trata-se de um boi que até mesmo o vegetariano mais radical irá gostar.

Por fim, não há como evitar uma derradeira observação de um velho oficial de artilharia que, de tanto ouvir o ribombar dos canhões, anda meio surdo: a acústica é perfeita.

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Na terra do tuiuiú

05/05/2010 por bonat

Se o pernalta tuiuiú é o símbolo do Pantanal, o atarracado Rondon é a simbiose perfeita da gente mestiça do Mato Grosso. É seu nome que batiza o aeroporto onde me chamam para o embarque, depois de ter passado dias agradáveis nesta região. Cândido Mariano, o Marechal Rondon, é um dos mais ilustres representantes de um povo valente, cujo lema em relação aos indígenas – “morrer se preciso for, matar nunca” – sintetiza o aspecto humanista do seu caráter.

Próxima do centro geodésico da América do Sul, a um passo da Chapada dos Guimarães e outro do Pantanal, Cuiabá superou minhas expectativas. O nome Cuiabá tem várias versões. A primeira diz que tem origem em ikuiapá, que significa “lugar da ikuia” (ikuia – flecha, arpão, flecha para pescar; pá – lugar), que designa uma localidade onde os bororos costumavam caçar e pescar com flecha. Outra explicação é a de que seria uma aglutinação de kyyaverá (que em guarani significa “rio da lontra brilhante”) em cuyaverá, depois cuiavá e, finalmente, cuiabá. Uma terceira hipótese diz que a origem está no fato de existirem plantas produtoras de cuia à beira do rio, e que “cuiabá” seria “rio criador de vasilhas”. Martius traduziu o vocábulo como “fabricante ou fazedor de cuias”. Teodoro Sampaio interpretou como “homem da farinha”, o farinheiro. De cuy, farinha, e abá, homem. A verdade é que até hoje não se sabe ao certo a origem do termo.

É uma cidade pujante, progressista, mas que não esquece do passado, onde realidade e lenda se mesclaram na mesma medida que índios, negros e brancos. Os mitos, na maioria, são de arrepiar, como o da sucuri que engoliu um dentista, o da onça da mão torta e o do gorila arranca-língua. Eles representam a herança cultural indígena, que a mistura de raças só fez enriquecer. Deixando a ficção de lado, vou contar uma história cuiabana, que não acreditaria se meus olhos não tivessem visto.

Ele se chama Valtinho. Ela, Marlene. É ele quem manda. Ela faz o que ele bem quer, sob uma só condição: de que a trate bem. Se ele quer que ela vá para a esquerda, ela vai. Para a direita, é só mandar. Até a ré ela dá, mas, neste caso, bem devagarinho. De nada ela reclama e, ainda por cima, o defende de cobras e lagartos que, de tão grandes, são denominados jacarés. Ciumenta, não permite que as piranhas se aproximem de Valtinho. O pior é que ele só aparece uma ou duas vezes por semana, e ainda traz alguns amigos inconvenientes. Mesmo assim, ela o aguarda, sempre limpinha, com a geladeira apinhada de cerveja, geladinha como ele gosta. Além disso, tem que aguentar, durante horas, aquele papo chato de pescador sobre pacus, dourados e pintados.

Se você é como aqueles que, em pleno terceiro milênio, são metidos a machão e está com inveja do cuiabano Valtinho, faça como ele: compre um barco, batize-o com nome de mulher e convide alguns amigos para pescar no rio Cuiabá. Eles vão adorar.

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No tempo das aeromoças

20/10/2009 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Após dobrar a curva, consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila agora anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, entre tantos, o único merecedor daquela cortesia.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e da carga. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preza não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não esconde certa inveja.

Quando atingimos a altura de cruzeiro, para demonstrar tranquilidade, finjo dormir, e durmo mesmo. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada do céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma escada descendente, em cujo pé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba mostra-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de ir atrás delas… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum aplaudir-se o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, aplaudiríamos nossas aeromoças.

“Tenha um bom dia”. Na porta do avião, ouço pela derradeira vez a voz bem treinada. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito à uma igreja pedir perdão pelos pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba apontará o caminho das belas aeromoças. Será que elas estarão por lá?

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Bingo!

20/06/2009 por bonat

Apesar de já ter idade para tal, não gosto de dar conselho a ninguém. Sou da teoria do tal do Murici – que cada um cuide de si. Porém, como tudo na vida, há exceções. Quando algum amigo diz que vai a Paris, recomendo o Moulin Rouge. Não é apenas para deliciar a vista com dezenas de jovens peitos nus. Durante duas horas se assiste a um rico espetáculo, que vai desde o can-can até a mímica, passando por trapezistas, cantores, domadores, mágicos, humoristas e outros mais. Lógico que, como bom conselheiro, informo que o show é caro, muito caro. Mas Moulin Rouge é Paris. Ir a Paris e não ir ao Moulin Rouge é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
Agora, quando sei que alguém vai aos Estados Unidos, digo-lhe rapidinho: não deixe de ir a Las Vegas. O mundo está lá. Nem precisa jogar. Em Vegas, tudo é mais barato: hotéis temáticos, restaurantes de todos os sabores, transporte, shows da Broadway. Ainda há espetáculos sensacionais e gratuitos nas praças, simplesmente porque esperam que você guarde seus dólares para jogar. Se você é daqueles, como eu, que não gostam de cassino, bingo! Já ganhou.
E onde fica Las Vegas? No meio de um deserto. O governo americano, sem recursos para investir numa região pobre e totalmente isolada, decidiu que a iniciativa privada, se quisesse, poderia arriscar. Um milionário maluco topou. Montou a infra-estrutura (aeroporto, estradas, usina elétrica, rede de água e esgoto) e os primeiros hotéis e cassinos. Faliu e suicidou-se. Depois vieram outros e mais outros, até que Vegas se tornasse o que é hoje, sem um centavo do governo, que hoje fatura arrecadando impostos.
Agora que está para ser decidida a abertura de cassinos no Brasil, gostaria de dar um pitaco. A questão é polêmica. Dirão até que será mais uma possibilidade para lavarem dinheiro. Estão menosprezando a capacidade de um dos poucos órgãos eficazes do governo: a Receita Federal. Quem fiscaliza com tanta competência o imposto de renda de milhões de brasileiros não seria capaz de controlar alguns poucos cassinos? E, quando digo poucos, é porque devem ser pouquíssimos mesmo. Que se identifiquem os municípios (cinco, talvez) mais carentes do Brasil, pelos quais ninguém se interessa, onde nada há e tudo falta. A partir daí, que se proponha aos “empresários” do jogo que ali construam o que for necessário, desde a infra-estrutura, para erguer seus cassinos. Se eles são favoráveis ao jogo, que apostem. Se perderem, azar deles. Se ganharem, todos ganharão.

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Bombas, Bombinhas e Bombinenses

31/03/2009 por bonat

Buenas tardes, saúda-me a funcionária da lan house onde vou todos os dias ler meus e-mails. Não pense que estou no exterior. Encontro-me em Bombinhas, brasileiríssima, graças a Deus e às famílias de açorianos mandados para esta região no início dos anos 1700 a fim de garantir sua posse para a Coroa Portuguesa. Como há muitos turistas argentinos, é comum o uso do castelhano pelo comércio local para receber os clientes.
Na contramão do nosso tradicional preconceito em relação aos hermanos, quero elogiar seu bom-gosto na escolha deste maravilhoso recanto para passar as vacaciones. Cheguei a perguntar a alguns se a presença de tantos conterrâneos seus se devia à propaganda veiculada nos meios de comunicação do seu país. Disseram que não. O que houve realmente foi um marketing boca-a-boca, reconhecido como a ação promocional mais eficiente e de menor custo que existe. Sua força está no fato de ser realizado por consumidores verdadeiramente satisfeitos e dispostos a recomendar um produto que superou as mais altas expectativas. Ao que parece, os precursores argentinos espalharam que aqui se podia andar despreocupado com bolsa, carteira, relógio e celular. Que não encontraram flanelinhas, guardadores de carro e pedintes de todo tipo, que incomodam qualquer cidadão, especialmente os estrangeiros que visitam nossas cidades. Que não se tentava obrigar ninguém a comprar uma fita do Senhor do Bonfim. Que não se pretendia arrancar todo o dinheiro que alguém estivesse carregando. Por isso, tornou-se desnecessário gastar fortunas em campanhas publicitárias para que turistas disputassem à tapa uma vaga nas pousadas de Bombinhas.
Aqui você sente-se seguro. Quase não vê polícia. Nem parece que está no Brasil. Disse isso ao Marinho, o simpático proprietário da imobiliária que fica no térreo do prédio onde estou hospedado. Como bombinense da cepa, ele não gostou. Não me aborreci. A gente não se aborrece facilmente quando está nesta península que invade o Atlântico formando belas enseadas, cuja areia rigorosamente branca é banhada por um mar azul-brilhante. Aliás, o Marinho desenvolve há três anos um projeto que visa à conscientização no sentido de preservar a areia impecavelmente limpa. Parece que está dando certo. Entretanto não se pode abrir a guarda, pois nós, humanos, somos sabidamente poluidores.
Tempos atrás, quando alguém afirmava que Santa Catarina pouco se parecia com o Brasil, catarinenses como o Marinho ficavam revoltados. Hoje, infelizmente, essa afirmação chega a ser quase um elogio. Bom seria se o Brasil conseguisse copiar o comportamento dos bombinenses. É provável que outros “brasis” não precisassem gastar tanto com publicidade, que às vezes soa enganosa. No entanto, dizer que não há problemas em Bombinhas seria leviano. Ontem mesmo, uma abelha picou meu neto de quatro anos. Praia não é lugar de abelha. Abelhas nasceram para trabalhar. E, para aguçar a inveja de quem, mesmo não sendo abelha, tem que pegar no batente, comunico que agora vou à praia, à praia mais linda do mundo. Hasta la vista.

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