Artigos de ‘Segurança Pública’ Category

Uma força maior

23/12/2015 por bonat

“Por motivo de força maior, não estamos atendendo. Reabriremos quando possível” Mais uma vez (a quinta, em menos de seis meses), lá estava o aviso. Mais uma vez, tive que procurar outra agência para postar os livros que me haviam encomendado. Mais uma vez, entendi a mensagem escondida nas entrelinhas daquele pedaço de papel. Mensagem triste, que reflete a realidade nacional. Mais uma vez, a agência fora assaltada. Mais uma vez, a força do crime mostrou-se maior do que a força da sociedade em combatê-lo.

Mas o que despertaria a atenção dos assaltantes num simples posto do correio? É que ele é também um banco, uma espécie de filial da Caixa e do Banco do Brasil, sem contar, entretanto, com a segurança de uma agência bancária.

Por falar nisso, avisos como aquele não são únicos. Eles têm-se multiplicado, aos milhares, por todo o país. Podem ser encontrados desde em pequenos comércios de bairro, até em caixas eletrônicos. Já chegaram aos cofres públicos. Estão, mesmo que virtualmente, no edifício sede da Petrobras, empresa que já foi de todos os brasileiros, mas que agora pertence a alguns poucos empoleirados no poder. Rouba-se como “nunca na história deste país”. Um rico país que empobrece.

Tirar do rico para dar ao pobre. Eis a desculpa esfarrapada que os atuais poderosos da política nacional precisam para justificar suas intenções totalitárias. Tentam fazê-la aceitável, a fim de manipular mentes. As sobras da rapinagem oficializada vão parar, a título de distribuição de renda, no bolso de miseráveis. As migalhas, que recebem como forma de cabresto eleitoral, comprometem sua perspectiva de futuro. Não apenas a sua, mas a da própria Nação, pois ela se torna cada vez menos competitiva. Nos contentamos em ser meros fornecedores de commodities. Não investimos em tecnologia e infraestrutura, muito menos em moralidade e ética.

Sequer a poderosa Petrobras conseguiu escapar das garras ávidas por riquezas dos que não as produzem, mas detêm o poder. Ferida em suas entranhas, descapitalizada e desacreditada, quase falida, ela não consegue mais caminhar com as próprias pernas. Sem contar a falta de visão estratégica dos que a comandam, que não enxergam que os combustíveis fósseis estão com os dias contados.

Mas o que tem um simples posto de correio e seus funcionários a ver com isso? Tudo! Quando os que mandam no país pregam a falsa apologia de uma cruzada a Robin Hood, a criminalidade sente-se no direito de tirar do rico para dar ao pobre. No caso da agência em questão, seu dono é considerado um capitalista explorador do povo trabalhador.

O curioso é que aquela agência não é uma franquia. Pertence aos Correios mesmo, cujo patrimônio já vem sendo dilapidado há algum tempo. Ao que parece, a empresa vem sendo roubada tanto por ladrões engravatados quanto pelos sem gravata.

Após sofrer o quarto ataque, o posto ficou fechado durante cerca de um mês. Estive lá quando reabriu. Naquela vez, havia um guarda na entrada. Não sei para quê, pois estava desarmado. Dos três atendentes, só um permaneceu. As duas simpáticas jovens tinham sido substituídas. Em depressão, foram parar num sofá de psicanalista.

Agora, por ocasião do mais recente assalto, o bando fortemente armado obrigou que o guarda permanecesse humilhantemente ajoelhado. Mesmo assim, se a agência reabrir, ele estará lá, desarmado como sempre. Mas tenho dúvidas se os demais funcionários voltarão. Devem estar aterrorizados. Se isso se confirmar, logo nos deparemos com um novo aviso: “Derrotada por uma força maior, esta agência foi definitivamente fechada. Para maiores informações ou reclamações, ligue para Brasília”. E vida que segue… Morro abaixo, mas segue.

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Fogo amigo (clique)

13/02/2014 por bonat

- Tome aqui a sua máscara e o seu foguete. Se fizer um bom trabalho, volte para receber R$150,00.

O “bom trabalho” seria infiltrar-se, desde junho de 2013, entre milhões de jovens indignados com a roubalheira. Fingindo ser um deles, a missão seria somente cuspir na polícia, lançar contra ela pedras e foguetes, e claro, contar com a boa-vontade da imprensa, que registraria apenas a reação policial, nunca a sua causa.

- Invada palácios, câmaras de deputados e vereadores. Quem tentar lhe impedir será tratado como antidemocrático. Aponte sempre na direção dos policiais. Se um morrer, tudo bem. Missão cumprida! Policial não tem pai nem mãe, muito menos esposa e filhos. Mande brasa!

Mal sabia, aquele que estava recebendo tais instruções, que era ele o principal alvo. Qualquer mascarado morto seria um troféu, o cadáver perfeito, ao custo de reles R$ 150,00, migalha, se comparada aos milhões que os partidos recebem anualmente do tal fundo partidário, logicamente pago pelo contribuinte.

O que a imprensa realmente buscava, desde junho de 2013, era o cadáver de um black bloc. Seria o grande furo: o “presunto” de um manifestante, como todos, carinhosamente (ou seria covardemente?), os tratavam.

Mas o destino (eita destino!), acabaria transformando o caçador em caça. A vítima fatal seria um repórter, não um policial, muito menos o preferido de todos: um black bloc.

Assim que foram ao ar as primeiras imagens de Santiago Andrade sendo atingido, a rede Globo apressou-se em culpar a PM. Mais do que injusta, a notícia revelava de que lado a emissora estava naquela luta entre baderneiros e sociedade. Enquanto os primeiros (os black blocs) representavam a democracia, a liberdade e a inocência juvenil, os segundos (a polícia) tinham sabor de truculência, de despreparo e de tirania.

As ações criminosas e antidemocráticas, como bloqueio de ruas e avenidas, depredações e saques de lojas comerciais (grandes e pequenas), de agências bancárias e de bens públicos, ataques com pedras, barras de ferro, foguetes e coquetéis molotov, sempre foram tratadas com muita benevolência.

Confesso ter sido a primeira vez que vi William Bonner gaguejar e tropeçar nas palavras. Era preciso justificar o injustificável: que o assassino não tinha sido da PM, mas sim daqueles tratados quase como beatos, manifestantes ou ativistas, jamais como baderneiros e terroristas.

Representantes da imprensa apressaram-se em acorrer ao Ministro da Justiça, o mesmo que recebera, seis meses antes, proposta do Secretário de Segurança do Rio no sentido de que a Lei fosse mais rígida com os vândalos que estavam infernizando a vida dos cidadãos das nossas duas maiores cidades.

Mas como aqueles Estados não são (ainda) governados pelo partido que comanda o país, por acaso o mesmo do senhor ministro, a proposta simplesmente foi engavetada.

Em suma, ao que parece, os líderes da imprensa pediram para a raposa cuidar dos ovos. Ou, em termos militares, confiaram demasiadamente no “fogo amigo”. Creio ter sido bem ele, o fogo amigo do senhor ministro, que sonhava com a morte de um black bloc, que, infelizmente, acabou deixando viúva a esposa do cinegrafista Santiago Andrade.

ILUSTRAÇÃO DE JOÃO CARLOS BONAT

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Descaso: perfeito homônimo maranhense (clique para ler)

16/01/2014 por bonat

Homógrafos são termos que, embora escritos da mesma forma, têm sentido diferente. Se, além disso, tiverem a mesma pronúncia, são ditos homônimos perfeitos.

Descaso é um exemplo. É a primeira pessoa do presente do singular do verbo descasar e, também, o substantivo que denota desprezo e falta de consideração, o mesmo com que nossas autoridades têm tratado a segurança pública. Não somente ela, mas outros setores, como educação, só para citar um.

Há políticos que buscam se esconder sob o pensamento de Victor Hugo, segundo o qual “quem abre uma escola fecha uma prisão”. Victor Hugo, aplicado na Suécia, deu bons resultados. Mas, ao que parece, algumas teorias só dão certo quando aplicadas nos países nórdicos. Por aqui elas teimam em não emplacar. Mas a Suécia é a Suécia. Enquanto seus políticos dão exemplos de ética no trato da coisa pública, os nossos tratam-na como se fosse propriedade sua. A partir daí, procurar levar vantagem passa a contaminar toda a sociedade.

É triste constatar o quanto estamos mal, muito mal. Além de não abrirmos mais escolas, também não construímos mais prisões, estas sim verdadeiras escolas, mas do crime. Elas deveriam ser minimamente seguras e civilizadas. Não é possível apinhar numa só cela dezenas de pessoas, mesmo sendo criminosas. É preciso separar um simples batedor de carteira, perfeitamente ressocializável, de um traficante com inúmeros assassinatos nas costas, que dificilmente abandonará sua atividade delituosa quando voltar à liberdade. Grosso modo, é o que acontece em todo o país, não só no Maranhão.

Mas a bola da vez foi o Estado governado há meio século pela mesma família. A gota d’água foram as cabeças decepadas na penitenciária de Pedrinhas, terrível imagem que a internet espalhou pelo mundo. Aquelas cabeças tristemente cortadas nos fazem lembrar de outras duas palavras homônimas. Capita e capta, classificadas como homônimas homófonas, pois têm o mesmo som, mas sua grafia é diferente.

Capita é latina e significa cabeça. É ela quem comanda o corpo. Deu origem a capital – onde se situa a cabeça de um país, de um estado – pois é nela que se instalam aqueles que comandam o destino dos cidadãos.

Por comandar, a capital arrecada (capta) dinheiro através dos impostos. Mas o ato de comandar não se esgota aí. Nesta importante ação deve (ou deveria) estar subtendida a aplicação correta dos recursos arrecadados, a fim de promover o desenvolvimento equilibrado e harmonioso de toda a sociedade.

No Brasil, parece que a capita anda separada do corpo, como bem sugerem as tristes cabeças de Pedrinhas. Dessa vez, deram azar os que governam o Estado como se fosse uma capitania hereditária, pois, enquanto as fortes imagens se espalhavam pelo mundo, descobriu-se que a capita maranhense lançara uma licitação a fim de adquirir 2,5 toneladas de camarão, 750 quilos de patinha de caranguejo, 80 de lagosta e 180 de salmão para saciar a fome nas residências oficiais.

Um verdadeiro descaso, deboche mesmo, com o cansado corpo do qual se arrancam aviltantes impostos.

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Meu Black Bloc predileto (clique para ler)

01/11/2013 por bonat

Basta entrar na cozinha para ouvir enérgicas batidas na porta. Saio e ela pula, sei lá se de alegria ou de fome. Sua força é quase capaz de me derrubar no pequeno trajeto até os fundos de casa. Num ritual de bilhões de anos, àquela hora, o Sol começa a iluminar o que ficara escondido sob as sombras da madrugada. Num outro ritual, este de apenas quatro meses, a idade da Lua, me deparo com o quintal, antes cuidado com muito zelo, transformado todo dia num verdadeiro campo de batalha.

Espalhado pela grama, encontro o que restou das plantas e dos vasos que minha mulher tratava com tanto carinho. Misturados a eles, galhos dos pés de figo, laranja, caqui e de café. Nem o limoeiro nem as roseiras escaparam, apesar dos seus ameaçadores espinhos. Mal comparando, o cenário faz lembrar a paulistana avenida Paulista e a carioca avenida Rio Branco, depois da passagem dos black blocs.

Enquanto lhe sirvo a ração, ralho com ela. Mas nem mesmo a ameaça de doá-la a um laboratório de pesquisas adianta. Abana o rabo. Labradores são assim mesmo. Dóceis, mas, antes de atingir certa idade, são desajeitados brincalhões. O problema é que suas brincadeiras têm um quê de destruidor.

Entretanto, diferentemente dos black blocs, eles não representam ameaça a uma sociedade em desintegração, onde as normas que regem a conduta das pessoas têm sido constante e crescentemente agredidas. A mando de quem? De grupos estrangeiros ou nacionais? Com que interesse? Tenho cá a minha opinião, mas, prudentemente, a guardarei comigo.

O grave é que algumas pessoas têm concordado com sua violência e criminalidade, como se elas representassem uma ação democrática legítima.

As mais diversas causas, como se fossem nobres, são apontadas para justificar sua agressividade. A tarifa do ônibus, a saúde pública, o salário dos professores, os cães… A questão reside nos métodos: vandalismo, depredação, coquetéis molotov, ruas bloqueadas, mascarados agredindo policiais. Cabe uma pergunta: não vivemos um estado de direito? Mas direito de quem?

Dos políticos corruptos? Do lento judiciário encastelado no ar condicionado, enquanto policiais levam cusparadas e pedradas? Direito da imprensa, que, talvez por medo, trata os mascarados como simples “manifestantes”?

No país da impunidade, são crescentes as violações das normas de civilidade. Ninguém é punido, pois tudo é permitido. Quando atos criminosos são praticados, carros da polícia são incendiados, cachorros são furtados e, se alguém é preso, logo acaba solto, está feito o convite para novos e mais ousados crimes.

Eu teria mais a dizer, mas paro por aqui. Este assunto me faz mal. Porém, antes de encerrar, gostaria de, se não for demais, pedir aos nossos políticos que tratassem o Brasil com mais seriedade. Ao nosso judiciário, um das mais caros do mundo, que fosse um pouco mais ágil. Às poderosas redes de TV, que mostrassem imagens de todos os lados das tais manifestações, e não apenas aquelas de policiais (que têm família, pai, mãe, esposa e filhos) revidando a uma agressão recebida.

Confesso que pensei em rebatizar de Black Bloc o meu desengonçado labrador. Porém, como seu ritual de destruição em breve chegará ao fim, ele continuará a atender por Lua. Fica a esperança de que logo também se encerre o inconcebível e perigoso rito de violência que a todos ameaça.

ILUSTRAÇÃO: JOÃO CARLOS BONAT

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De Bárbara para Maria (clique aqui)

03/02/2013 por bonat

Querida Maria. Ainda no domingo, 27, assim que chegaram as primeiras notícias sobre a tragédia que se abateu sobre a tua cidade, Paulo convocou-nos para uma reunião. Quase todos os colegas, santos e santas que dão nome a várias cidades do estado de São Paulo, compareceram. O temor de Paulo era que colocassem a culpa em ti, pois, como bem sabes, existe uma forte campanha no Brasil para jogar no lixo tudo o que se refere à nossa igreja. Havia o perigo de te acusarem de não estar zelando pelos teus fiéis.

Aberta a palavra, o primeiro a se pronunciar foi André. Ele recordou do aperto que passou quando, em 2002, assassinaram o prefeito do seu município. Ele disse não entender o porquê de o crime ser mantido sob uma cortina de fumaça até hoje. Mas, o que ele destacou como semelhante ao caso da tua cidade foi a rápida mobilização das lideranças do partido que, na época, tinha ótimas perspectivas de chegar ao poder, como chegou. A morte do prefeito poderia definir o rumo das eleições, que estavam na reta final. Transformaram seu caixão em palanque, com ampla difusão pela mídia. André lamentou que nem a chamada imprensa investigativa tenha se preocupado em descobrir o que realmente aconteceu.

Agora, são mais de duzentos e trinta caixões, isto é, duzentos e trinta palanques. Além de lhes dar muita visibilidade, os líderes, ao acorrerem para a tua cidade, segundo André, dão a impressão de estar tentando proteger alguém. Mas é preciso dar um desconto, pois o André, desde 2002, anda traumatizado.

Ao término da reunião, concluímos que não te acusarão de negligência, o que seria uma baita injustiça. Sabemos o quanto és zelosa. Decidiram que caberia a mim, por ser a padroeira dos bombeiros, transmitir-te o sentimento de todos e, em consequência, enviar esta mensagem. Nem preciso dizer o quanto lamentamos a tragédia que enlutou centenas de famílias. Achei melhor fazê-lo de irmã para irmã, sem usar o título que nos diferencia dos demais humanos que já desencarnaram. Assim, posso abrir a ti, que és o Coração do Rio Grande, o meu santo coração.

A verdade é que, de algum tempo para cá, têm sido criadas muitas leis com o intuito de serem dribladas, seja por se contradizerem e, portanto, se autorrevogarem, seja por não preverem adequada estrutura para fiscalizar o seu cumprimento. Parece que foi isso que aconteceu por aí.

De qualquer forma, estão tentando imputar as responsabilidades. No início, alguns repórteres tentaram direcioná-las para os seguranças da Kiss. Parece que não deu certo. Seria uma solução simplista demais, que protegeria os verdadeiros culpados, capazes de pagar excelentes advogados.

Recomendamos que tomes cuidado com as pirotecnias que, iniciadas pela banda no interior da boate, estão tendo sequência por políticos ávidos por microfones e holofotes. Lembres de que, para eles, tudo pode se transformar em palanque, verdadeiro altar de oferendas, do qual acenam com seus milagres.

Sempre que puder, aproveites para divulgar alguns dos mandamentos básicos que andam esquecidos nesta Terra de Santa Cruz: honrar pai e mãe; não matar; não roubar; e não levantar falso testemunho.

PS: aguente firme, pois o carnaval está chegando e é para ele que logo estarão voltados os holofotes. Depois, virão outras pirotecnias – a Copa do Mundo, as eleições – e o passado ficará no passado.

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Contestado: 100 anos de uma guerra cabocla

23/09/2012 por bonat

No início de novembro, uma Companhia de Florianópolis e uma Brigada de Curitiba estarão chegando a Três Barras. Ambas se autodenominam indestrutíveis. Logicamente, vão querer provar sua indestrutibilidade quando estiverem frente a frente. Há cem anos, essa notícia provocaria, no mínimo, inquietação. Havia iniciado a Guerra do Contestado, com a morte, no combate de Irani, do coronel João Gualberto e do monge José Maria, em 22 de outubro de 1912.

As “indestrutíveis” acima são viaturas militares antigas, recuperadas por pessoas abnegadas, dedicadas à preservação da história. Cuidam-nas com tanto carinho, que elas aparentam ter acabado de sair da fábrica. Segundo seus restauradores, o importante é preservar a “alma da viatura”. Sempre que chamadas, as associações sem fim lucrativo que eles criaram se fazem presente em eventos de natureza cultural, histórica e cívica. Abrilhantam, por exemplo, os desfiles de sete de setembro.

Agora, com a Guerra do Contestado completando 100 anos, eles estarão em Três Barras, a fim de prestar homenagem aos cerca de 20 mil brasileiros, soldados e civis, que tombaram naquele conflito.

A região contestada abrangia uma rica área, motivo de disputa entre Paraná e Santa Catarina. A questão de limites, desde meados do século XIX, punha em litígio os dois estados. Políticos locais interesseiros e a tradicional lentidão do judiciário em resolvê-la, prolongavam indefinidamente a sua solução.

Para complicar, como forma de pagamento pela construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, o governo federal – com a chancela dos estaduais – havia permitido que a Brazil Railway Company explorasse a madeira existente numa faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. O problema é que na região atravessada pelos trilhos habitavam caboclos, pessoas simples, que viviam em total abandono por parte das autoridades. Tratava-se de uma terra de ninguém, onde, devido à ausência do estado, imperava o banditismo. Foi esta gente abandonada que teve que sair da terra da qual, ao menos, conseguia tirar o seu sustento.

Logo, não foi difícil para figuras místicas de monges, que perambulavam pelo sul do país com o dom de curar multidões sofredoras, atraí-la com seu messianismo. A Igreja os abominava, uma vez que suas práticas não se coadunavam com a ortodoxia católica. Um desses monges foi José Maria. Alfabetizado, conhecedor de ervas medicinais, milagreiro, logo passou a ter um batalhão de seguidores, muitos dos quais haviam sido expulsos de suas terras.

Quando José Maria tombou em Irani, a fim de facilitar a sua ressurreição, os fiéis o sepultaram apenas com tábuas. Os caboclos acreditavam que ele voltaria acompanhado de um “exército encantado”, que os ajudaria a fortalecer a “monarquia celeste” e a derrubar a república, para eles um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos “coronéis”.

As atrocidades chegaram a um ponto tal, que o Exército foi chamado a intervir. O conflito já estava radicalizado. O comando coube ao General Setembrino de Carvalho. As tropas cercaram a área e, à medida em que o cerco apertava, foi-se reduzindo o poder do “exército encantado”. Após a conquista dos redutos de Pedras Brancas e de São Pedro, deu-se uma debandada geral dos revoltosos. A guerra chegara ao fim.

Como agravante, durante o conflito, um surto de tifo levou à morte cerca de seis mil pessoas. Para evitar que ele se alastrasse ainda mais, foram improvisados fornos, onde os corpos eram cremados logo após o óbito.

Além dos milhares de mortos, quem também saiu perdendo foi o Paraná. O acordo de limites, assinado em 1916, estabeleceu que a área contestada, que corresponde à metade oeste do Estado, ficaria com Santa Catarina.

Mas, além de Santa Catarina, quem ganhou? Obviamente que não foram os soldados e revoltosos mortos. Na verdade, poucos lucraram. No parágrafo abaixo estão dois, embora haja mais.

Em Três Barras, sede da Southerm Brazil Lumber and Colonization Company, os americanos montaram a maior serraria da América Latina para transformar em madeira as árvores derrubadas às margens da ferrovia. O secretário de obras públicas do Paraná, José Niepce da Silva, por não ser conivente com tal situação, pediu demissão. Já o vice-governador do Estado, Affonso Camargo, que era também advogado da Lumber, defendia os interesses da companhia em detrimento do interesse público. Enquanto o primeiro caiu no ostracismo, Affonso Camargo tornar-se-ia governador por dois mandatos. Em Santa Catarina, o advogado Nereu de Oliveira Ramos, filho do governador Vidal Ramos, também defendia os interesses da Lumber. Fez brilhante carreira política, chegando à Presidência da República.

Claro está que não será a esses, nem a outros do mesmo time, que os “indestrutíveis” pretendem prestar homenagem em Três Barras!

A cólera das legiões baianas

08/02/2012 por bonat

Jacques Wagner ignorou a insatisfação dos policiais baianos. Preferiu ir a Cuba, onde nosso governo presentearia a ditadura dos irmãos Castro com alguns milhões de dólares. Dizem que um pouco mais do valor doado (ninguém acredita que Cuba irá pagar) cobriria os gastos do governo federal, caso a PEC 300, aquela que iguala os vencimentos de todas as PM à do Distrito Federal, fosse aprovada.

Baiano é festeiro. Pelo menos são as imagens que nos vendem. Nelas, enquanto milhares se divertem atrás do trio elétrico, alguns trabalham. Entre eles, policiais, tentando fazer o que podem num mar de pessoas, muitas movidas a álcool e droga. Na verdade, simulam representar papel de bobo, pois sabem que nosso governo deu dinheiro para que a Bolívia construísse a transcocaleira, rodovia que facilita o escoamento de sua produção para o mercado brasileiro.

Mas a insatisfação não se restringe à Bahia. Há risco de alastrar-se, embora a constituição proíba, com razão, aos militares fazerem greve. Talvez esteja aí o motivo de serem, quase sempre, deixados à margem pelos detentores do poder.

Num país onde tanto se fala em diminuir as injustiças e as disparidades sociais e regionais, o governo é o primeiro a dar mau exemplo. Basta comparar as abissais diferenças entre as remunerações no judiciário e no legislativo em relação ao executivo. E, neste último, os militares estão no fim da fila.

A situação em Salvador é preocupante e, ao mesmo tempo, bizarra. Policiais Militares, que ocupam a Assembléia Legislativa, têm vencimentos superiores aos dos militares federais que os cercam. O que se pode esperar? Na hipótese mais otimista, que se chegue a um acordo e cesse o movimento. Noutra, que as tropas federais recebam ordem para desocupar o prédio e haja mais confronto e vítimas. E, numa terceira e mais grave: que amotinados e tropas federais se unam em protesto contra o fato de serem permanentemente tratados como servidores de segunda categoria.

No início dos anos noventa, o Chefe do Estado-Maior do Exército usou, como alerta, estas palavras de um legionário romano: “Não hesitamos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar nossa juventude. Enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem que em Roma muitos cedem com facilidade às piores tentações. Não posso acreditar que tudo isso seja verdade. Se for, se tivermos que deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre a areia do deserto, então, cuidado com a cólera das legiões.”

Elas expressavam a indignação de todos os brasileiros em relação ao escândalo dos anões do orçamento, deputados que montaram um esquema fraudulento para receber propinas.

Gerou um frisson. Políticos, na ânsia corporativa de garantir seus privilégios, apressaram-se em defender seus colegas. Parte da imprensa deturpou o sentido da mensagem: o que era um conselho foi interpretado como ameaça à democracia.

Provavelmente não tenham se dado conta à época, mas ali estavam os ingredientes – armas e insatisfação – desse verdadeiro angu à baiana, infelizmente perigoso, porque tem gente que aprecia.

A mensagem das montanhas

05/12/2010 por bonat

As FARC não perderam tempo. Já em 01 de novembro, mãos que sequestram e matam largaram por alguns minutos o fuzil para saudar nossa primeira Presidente. Com uma coerência bolivariana, chamaram-na de compatriota. Calçaram luva branca de diplomata para falar de paz e de uma saída política para a crise da Colômbia. Em seguida, com as mãos já desnudas, empunharam novamente as armas, argumento não tão pacífico com que buscam pôr fim à democracia em seu país.

Não sei se a candidata vitoriosa tomou conhecimento. Acredito que não, caso contrário já teria manifestado seu repúdio aos fornecedores das drogas que vêm sepultando o futuro da nossa juventude. Mas o texto está no site da ANNCOL, Agência de Notícias Nova Colômbia, para quem quiser ler. Eles buscam com o site conquistar simpatizantes. Penso que, em breve, postarão mensagem autoenaltecendo o caráter social do seu movimento. Dirão que, ao passarem a produzir crack, democratizaram o uso da droga, tornando-a acessível a todas as classes, e não só aos garotos de Ipanema e do Leblon.

Não me preocupo com o que é divulgado por milhares de páginas que circulam pela internet. Essas, ao menos, são visíveis. Você acredita se quiser. Preocupam-me, isto sim, as redes invisíveis, usadas pelos chefões para se comunicar. Elas não chegam aos morros. Aqueles traficantes que assistimos fugindo do Complexo do Alemão não têm acesso a elas. Eles, de certa forma, são vítimas, que fazem outras vítimas com requintes de crueldade. Mas ninguém deve se iludir. Os barões da droga não estão nos morros. Estão nas montanhas.

“Não deixem atrapalhar nosso negócio”, deve ter sido a ordem transmitida em código, nos últimos dias, das montanhas colombianas para as brasileiras.

Portanto, a ação policial, até agora aplaudida, corre sério perigo. Risco ainda maior será do Exército, o mais recente convocado para a batalha. Quando surgir a primeira vítima, já antevejo as manchetes: “suposto traficante é assassinado por militares”. Apesar de armado até os dentes, o falecido passará a ser um “suposto”, e alguém de farda responderá longo e desgastante processo na justiça. Nem quero pensar na repercussão que terão as baixas de inocentes, um dos indesejáveis efeitos colaterais de qualquer guerra.

Tem-se notícia de que soldados que vivem na favela vêm sendo ameaçados por alguns “supostos”. Também pudera! Pelo que ganham, já deveriam ter mudado para o desconforto dos quartéis. É o que alguns estão fazendo. Mas quem protegerá suas famílias?

Dia da música e do arrastão

22/11/2010 por bonat

Final de semana com nova onda de arrastões – cinco ao todo – no Rio de Janeiro. O primeiro ocorreu na noite de sábado, na BR-116, altura de Duque de Caxias. Os bandidos mataram um eletricista em frente à família com um tiro de fuzil.

Um sargento da Aeronáutica estava com um carro oficial enguiçado na lateral da via. Foi ameaçado. Quando apontaram para ele, conseguiu fugir pelo lado do carona.

Na Via Dutra, no domingo, uma quadrilha fortemente armada bloqueou um trecho da estrada. Roubaram um Kia Cerato e um Prisma. Na ação, um jovem de 26 anos foi baleado na cabeça. Levado para o hospital, seu estado é grave.

Como hoje – 22 de novembro – é o Dia da Música no Brasil – não pude deixar de ligar os fatos. Encontrei o responsável, graças a alguém indignado com a onda do politicamente correto. Segundo mensagem que me enviou, nas escolas, alteraram a letra do Samba Lelê. A versão original – “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas” – virou “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Logo, está proibida a palmada na bunda. Ela incita a violência. Se eu fosse a Lelê, torcia para a febre nunca passar. Sabe de quem é Samba Lelê? Simplesmente de um tal de Villa Lobos. A professora podia até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Correta, do Jardim Escola Criança Feliz.

Do mesmo autor, “O cravo brigou com a rosa” também teve a letra adulterada, pois a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre casais. O que vale agora é “O cravo encontrou a rosa/ Debaixo de uma sacada/O cravo ficou feliz /E a rosa ficou encantada”. O próximo passo será enquadrar o Cravo na Lei Maria da Penha. Será que as pessoas sabem que essa obra faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

Assim sendo, não resta a menor dúvida quanto à culpabilidade de Heitor. Graças ao seu incentivo, os bandidões levaram umas palmadas no bum-bum. Agora roubam e matam. Basta o Ministério Público apresentar denúncia.

Aliás, é preciso ficar de olho nas bandas militares. Semanas atrás, a da 5ª Região Militar foi animar a festa de uma escola infantil aqui de Curitiba. Sabe o que tocou? “Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel”. Sentiram quanto estímulo à violência? Primeiro, subentende a volta à ditadura. Segundo, ao ameaçar com prisão alguém que simplesmente esteja de passo errado, incentiva a tortura.

Estava à toa na vida. Assim começa a canção que tirou Chico Buarque do anonimato. Pode não ter sido inspirada numa banda militar. Mas que parece, parece. Quem diria. Um dia, até o Chico não foi politicamente correto!

Por isso, os autores brasileiros precisam ter mais cuidado. Estão dizendo por aí que encorajam a bandidagem carioca. Mas não podemos deixar de cumprimentá-los. Eles são notáveis.

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Trânsito – quatro cruzes a mais

10/12/2009 por bonat

Na minha infância curitibana, sempre às três da tarde, eu interrompia os estudos. Munido com a lista dos pães que minha mãe e toda a vizinhança precisavam, montava na Monark aro 26, grande demais para um piá de sete anos, e me mandava para a padaria dos Irmãos Burgel, na Avenida Batel.

O trajeto de ida era tranquilo. Havia poucos carros e muita descida. A mais gostosa era a da rua Francisco Rocha, entre o Hospital Militar e a Batel. Desnecessário pedalar. Bastava inclinar o corpo e, vummm, já estava na esquina. No tal cruzamento, na época, havia uma pequena farmácia, um verdureiro, um armazém e um terreno baldio.

Hoje ainda tem a farmácia, agora bem maior. Há também uma casa noturna onde jovens curtem suas baladas e uma revenda de automóveis caros. No outro canto, o supermercado, igualmente careiro, está fechado. Deveria haver, também, quatro cruzes. Deveria, mas não há.

Imagino-me, agora, não mais na minha Monark, mas blindado no interior de uma Pajero, em total segurança graças aos seus freios ABS e a todos os seus airbags. São seis e pouco da manhã. Embalo na mesma descida da Francisco Rocha. Nada vai me acontecer. O carro me protege. Não lembro de ter bebido durante a madrugada. Mas, se bebi, ninguém me obrigará a fazer o teste do bafômetro nem o exame de dosagem alcoólica. Sinto-me um ser superior. A lei está ao meu lado. Acelero os cavalos que estão à minha disposição, pois tenho dinheiro para pagar bons advogados. Sou imune.

Na mesma esquina que tantas vezes me viu voltando com os pães da Burgel, restam quatro pessoas jovens deitadas para sempre. Minha Pajero as matou. Não fui eu. Nem me interessa saber quem morreu. Continuo ileso, livre do bafômetro e do exame de sangue. Não há provas. Meu advogado é brilhante.

Retorno para casa. A subida da Francisco Rocha foi puxada, ainda mais carregando, além dos pães para a minha família, a encomenda de toda a vizinhança.

Difícil foi ter que voltar aos livros. Pior ainda foi não ter escolhido a carreira de advogado. Quem sabe, à custa de uma legislação que beneficia a quem a transgride, eu não tivesse ficado rico. Além do mais, o que representam quatro cruzes a mais? Cruzes que jamais estarão no cruzamento da Batel com a Francisco Rocha. Em cruzamento que é um point, cruz não pega bem.

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