Artigos de ‘Segurança Pública’ Category

A mensagem das montanhas

05/12/2010 por bonat

As FARC não perderam tempo. Já em 01 de novembro, mãos que sequestram e matam largaram por alguns minutos o fuzil para saudar nossa primeira Presidente. Com uma coerência bolivariana, chamaram-na de compatriota. Calçaram luva branca de diplomata para falar de paz e de uma saída política para a crise da Colômbia. Em seguida, com as mãos já desnudas, empunharam novamente as armas, argumento não tão pacífico com que buscam pôr fim à democracia em seu país.

Não sei se a candidata vitoriosa tomou conhecimento. Acredito que não, caso contrário já teria manifestado seu repúdio aos fornecedores das drogas que vêm sepultando o futuro da nossa juventude. Mas o texto está no site da ANNCOL, Agência de Notícias Nova Colômbia, para quem quiser ler. Eles buscam com o site conquistar simpatizantes. Penso que, em breve, postarão mensagem autoenaltecendo o caráter social do seu movimento. Dirão que, ao passarem a produzir crack, democratizaram o uso da droga, tornando-a acessível a todas as classes, e não só aos garotos de Ipanema e do Leblon.

Não me preocupo com o que é divulgado por milhares de páginas que circulam pela internet. Essas, ao menos, são visíveis. Você acredita se quiser. Preocupam-me, isto sim, as redes invisíveis, usadas pelos chefões para se comunicar. Elas não chegam aos morros. Aqueles traficantes que assistimos fugindo do Complexo do Alemão não têm acesso a elas. Eles, de certa forma, são vítimas, que fazem outras vítimas com requintes de crueldade. Mas ninguém deve se iludir. Os barões da droga não estão nos morros. Estão nas montanhas.

“Não deixem atrapalhar nosso negócio”, deve ter sido a ordem transmitida em código, nos últimos dias, das montanhas colombianas para as brasileiras.

Portanto, a ação policial, até agora aplaudida, corre sério perigo. Risco ainda maior será do Exército, o mais recente convocado para a batalha. Quando surgir a primeira vítima, já antevejo as manchetes: “suposto traficante é assassinado por militares”. Apesar de armado até os dentes, o falecido passará a ser um “suposto”, e alguém de farda responderá longo e desgastante processo na justiça. Nem quero pensar na repercussão que terão as baixas de inocentes, um dos indesejáveis efeitos colaterais de qualquer guerra.

Tem-se notícia de que soldados que vivem na favela vêm sendo ameaçados por alguns “supostos”. Também pudera! Pelo que ganham, já deveriam ter mudado para o desconforto dos quartéis. É o que alguns estão fazendo. Mas quem protegerá suas famílias?

Dia da música e do arrastão

22/11/2010 por bonat

Final de semana com nova onda de arrastões – cinco ao todo – no Rio de Janeiro. O primeiro ocorreu na noite de sábado, na BR-116, altura de Duque de Caxias. Os bandidos mataram um eletricista em frente à família com um tiro de fuzil.

Um sargento da Aeronáutica estava com um carro oficial enguiçado na lateral da via. Foi ameaçado. Quando apontaram para ele, conseguiu fugir pelo lado do carona.

Na Via Dutra, no domingo, uma quadrilha fortemente armada bloqueou um trecho da estrada. Roubaram um Kia Cerato e um Prisma. Na ação, um jovem de 26 anos foi baleado na cabeça. Levado para o hospital, seu estado é grave.

Como hoje – 22 de novembro – é o Dia da Música no Brasil – não pude deixar de ligar os fatos. Encontrei o responsável, graças a alguém indignado com a onda do politicamente correto. Segundo mensagem que me enviou, nas escolas, alteraram a letra do Samba Lelê. A versão original – “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas” – virou “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Logo, está proibida a palmada na bunda. Ela incita a violência. Se eu fosse a Lelê, torcia para a febre nunca passar. Sabe de quem é Samba Lelê? Simplesmente de um tal de Villa Lobos. A professora podia até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Correta, do Jardim Escola Criança Feliz.

Do mesmo autor, “O cravo brigou com a rosa” também teve a letra adulterada, pois a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre casais. O que vale agora é “O cravo encontrou a rosa/ Debaixo de uma sacada/O cravo ficou feliz /E a rosa ficou encantada”. O próximo passo será enquadrar o Cravo na Lei Maria da Penha. Será que as pessoas sabem que essa obra faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

Assim sendo, não resta a menor dúvida quanto à culpabilidade de Heitor. Graças ao seu incentivo, os bandidões levaram umas palmadas no bum-bum. Agora roubam e matam. Basta o Ministério Público apresentar denúncia.

Aliás, é preciso ficar de olho nas bandas militares. Semanas atrás, a da 5ª Região Militar foi animar a festa de uma escola infantil aqui de Curitiba. Sabe o que tocou? “Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel”. Sentiram quanto estímulo à violência? Primeiro, subentende a volta à ditadura. Segundo, ao ameaçar com prisão alguém que simplesmente esteja de passo errado, incentiva a tortura.

Estava à toa na vida. Assim começa a canção que tirou Chico Buarque do anonimato. Pode não ter sido inspirada numa banda militar. Mas que parece, parece. Quem diria. Um dia, até o Chico não foi politicamente correto!

Por isso, os autores brasileiros precisam ter mais cuidado. Estão dizendo por aí que encorajam a bandidagem carioca. Mas não podemos deixar de cumprimentá-los. Eles são notáveis.

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Trânsito – quatro cruzes a mais

10/12/2009 por bonat

Na minha infância curitibana, sempre às três da tarde, eu interrompia os estudos. Munido com a lista dos pães que minha mãe e toda a vizinhança precisavam, montava na Monark aro 26, grande demais para um piá de sete anos, e me mandava para a padaria dos Irmãos Burgel, na Avenida Batel.

O trajeto de ida era tranquilo. Havia poucos carros e muita descida. A mais gostosa era a da rua Francisco Rocha, entre o Hospital Militar e a Batel. Desnecessário pedalar. Bastava inclinar o corpo e, vummm, já estava na esquina. No tal cruzamento, na época, havia uma pequena farmácia, um verdureiro, um armazém e um terreno baldio.

Hoje ainda tem a farmácia, agora bem maior. Há também uma casa noturna onde jovens curtem suas baladas e uma revenda de automóveis caros. No outro canto, o supermercado, igualmente careiro, está fechado. Deveria haver, também, quatro cruzes. Deveria, mas não há.

Imagino-me, agora, não mais na minha Monark, mas blindado no interior de uma Pajero, em total segurança graças aos seus freios ABS e a todos os seus airbags. São seis e pouco da manhã. Embalo na mesma descida da Francisco Rocha. Nada vai me acontecer. O carro me protege. Não lembro de ter bebido durante a madrugada. Mas, se bebi, ninguém me obrigará a fazer o teste do bafômetro nem o exame de dosagem alcoólica. Sinto-me um ser superior. A lei está ao meu lado. Acelero os cavalos que estão à minha disposição, pois tenho dinheiro para pagar bons advogados. Sou imune.

Na mesma esquina que tantas vezes me viu voltando com os pães da Burgel, restam quatro pessoas jovens deitadas para sempre. Minha Pajero as matou. Não fui eu. Nem me interessa saber quem morreu. Continuo ileso, livre do bafômetro e do exame de sangue. Não há provas. Meu advogado é brilhante.

Retorno para casa. A subida da Francisco Rocha foi puxada, ainda mais carregando, além dos pães para a minha família, a encomenda de toda a vizinhança.

Difícil foi ter que voltar aos livros. Pior ainda foi não ter escolhido a carreira de advogado. Quem sabe, à custa de uma legislação que beneficia a quem a transgride, eu não tivesse ficado rico. Além do mais, o que representam quatro cruzes a mais? Cruzes que jamais estarão no cruzamento da Batel com a Francisco Rocha. Em cruzamento que é um point, cruz não pega bem.

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Com afeto

20/11/2008 por bonat

 

As lágrimas não esperaram nem o estribilho terminar para virem molhar-me os olhos.  Você pode pensar que seja coisa da idade, mas desde cedo foi assim. O Hino Nacional me arrepia. Porém, somente o da Bandeira teve sempre o poder de me fazer chorar. Talvez pela música de Francisco Braga. Talvez pela poesia de Olavo Bilac. Talvez por ser raro ouvi-lo. O fato é que, mais uma vez, ao meio dia de 19 de novembro deste 2008, tive que me controlar para não passar vexame.

A comemoração é singela. Hasteia-se a Bandeira, lê-se a ordem do dia e, enquanto se entoa o hino, incinera-se algumas bandeiras esgarçadas pelo tempo. É aí que a coisa pega. Quando chega a hora do “recebe o afeto que se encerra”, elas, as lágrimas, chegam mesmo sem terem sido convidadas.

Trinta minutos, não mais, é o que dura a cerimônia. É o tempo certo para se refletir sobre um dos nossos mais marcantes símbolos. Ver suas cores fortes e genuinamente brasileiras. Admirar a proporcionalidade de suas formas. Ler o dístico nela inscrito a fim de nos inspirar. Relembrar sua história. E, por que não, renovar nosso compromisso de amor ao Brasil.

Não faço idéia de como esse dia é comemorado nas escolas. Atualmente parece estar sendo difícil para os professores explicar às crianças os motivos de tanta corrupção, se nosso lema é ordem e progresso.

Ontem mesmo, quando tentava cantar o hino que as lágrimas interromperam, os jornais estampavam manchetes sobre o cumprimento de um Mandado de Busca e Apreensão na casa de um delegado da Polícia Federal. Ao que parece, quando encarregado da chamada Operação Satiagraha, ele acabou desvendando coisas que não deveria. Agora está sendo tratado como um bisbilhoteiro por gente graúda da República.

Quem está se dando bem é um banqueiro, alvo da Satiagraha. Tudo faz crer que ele sabe demais e, por isso mesmo, esteja sendo blindado por pessoas importantes.

A Bandeira, como um espelho, reproduz a nós mesmos, com nossas riquezas e mazelas. Pena que a maioria dos brasileiros não gaste meia hora por ano para reverenciá-la. Pode ser que alguns se comovessem ao ver que nela está representado o maior patrimônio que dispomos: nossa gente, de ontem, de hoje e de sempre. Gente humilde, que espera de quem está no poder menos corrupção, mais ordem e mais progresso.

 

Quem matou Eloá?

22/10/2008 por bonat

 

Nelson Piquet declarou certa vez que o campeão estourar champanhe não atrai o grande público. As pessoas querem mesmo é ver um acidente, uma tragédia durante a corrida. Na esperança de assistir a uma tragédia, muita gente acompanhou o seqüestro de Santo André.  Não era para saber se Lindemberg tinha se entregado, mas sim como ele havia matado Eloá Cristina Pimentel da Silva, estudante, quinze anos, moradora da periferia. Poucos torciam pelo Grupo de Ações Táticas Especiais e para que seus policiais resolvessem mais um caso complicado.

A possibilidade de ocorrer um desastre fez com que a mídia estivesse presente. Uma apresentadora, em busca de audiência, chegou a falar ao vivo por telefone com o seqüestrador. Ela devia supor que entrevistar alguém mentalmente perturbado poderia colocar em risco a vida da jovem. Mas considerou o direito à fama mais importante do que o direito à vida. Azar de Eloá que, diga-se de passagem, nunca foi muito ajudada pela sorte. Aos doze anos, menina ainda, começou um namoro com um homem de dezenove. O precoce fim de sua inocência infantil parece ter sido consentido pelos pais. Agora, julgando-se seu proprietário e inconformado com o desprezo, ele tinha voltado para vingar-se.

No corrente ano, o GATE já atendera a dezessete ocorrências. Em doze delas os seqüestradores eram pessoas emocionalmente perturbadas; vinte e quatro foram presos e dois se suicidaram. Quarenta e sete reféns foram libertados. Toda missão representou uma situação de extrema tensão. A de Santo André não seria diferente. Cada policial sabia que um tiro significaria um processo nas costas. Exige-se da policia 100% de eficácia. Considera-se que ela está, por princípio, errada. E, o que é pior, muita gente torce contra. São pessoas que nem chegam perto da confusão, mas estão sempre prontas a dar opiniões. Numa entrevista, alguém apresentado como instrutor da SWAT, apontou os erros do GATE. E indicou, logicamente depois dos fatos, os procedimentos que deveriam ter sido adotados. Não temos que endossar nem desculpar eventuais falhas. É preciso apontá-las para que sejam corrigidas. Mas deve-se tomar cuidado para não confundir ficção com operação real.

“Por que a polícia não atirou em Lindemberg”?  Pense na reação dos chamados formadores de opinião e da turma dos direitos humanos se ele tivesse levado um tiro na testa. Antes de virar filme, seria transformado num ícone. “Tinha ficha limpa e trabalhava. Só foi morto porque era da periferia”.  Com franqueza, já o estou vendo em breve solto por aí, embora se saiba o assassino de Eloá.  Além dele, matou-a a brandura com que nossos legisladores tratam os verdadeiros criminosos.

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