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As Forças Armadas são assim. (por Ernesto Caruso)

08/01/2017 por bonat

As Forças Armadas são assim

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Ernesto Caruso

De início, vale lembrar-se do presidente Castello Branco (1964/1967) que ampliou o tempo de serviço dos militares das Forças Armadas, de 25 para 30 anos, conforme a Lei nº 4.902/1965, coerente com a realidade: Art. 12. O militar passa para a Reserva… Art. 13. A transferência para a Reserva, a pedido, poderá ser concedida: ao militar da ativa que contar, no mínimo, 30 anos de efetivo serviço.

Regra de transição: Art. 60. Fica assegurado ao militar que na data de 10 de outubro de 1966 contar 20 ou mais anos de efetivo serviço o direito à transferência, a pedido, para a Reserva Remunerada a partir da data em que completar 25 anos de efetivo serviço.

Anteriormente, pela Lei nº 2.370/1954 e Art. 13, “A transferência para a reserva, a requerimento, só poderá ser concedida ao militar que contar, no mínimo, 25 anos de efetivo serviço…”

Houve quem recorresse, não tendo os vinte anos de serviço, mas diante da “expectativa de direito”, fundamento aceito, cumpriu-se a nova regra normalmente.

Tal fato foi trazido à tona nesta oportunidade em que a Nação debate a necessária reforma da previdência (PEC 287/2016), face ao descompasso entre o arrecadado pela União e os compromissos em manter assistida parte da população que se aposenta ou é pensionista.

A Carta Magna de 1988 faz distinção entre os servidores públicos (Sec. II, Art. 39), os militares dos Estados — policiais e bombeiros — (Art. 42) e, os militares das Forças Armadas (Art. 142), cada conjunto com as suas especificidades. E assim, devem ser apreciadas com as evoluções naturais e as necessidades que satisfaçam a sociedade como um todo.

As atividades dos servidores públicos civis são mais bem conhecidas fruto do relacionamento com a sociedade e das reivindicações rotineiras próximas da legislação que rege as atividades privadas entre empregadores e empregados.

O cerne da atividade das Forças Singulares está na preparação precípua de formar militares para a guerra com as vicissitudes expostas na mídia, fatos do passado e do presente, morte, invalidez, amputações, neuroses. Incontestável que não se faz guerra no carpete e ar condicionado.

Independentemente da iminência da guerra, cenário no Oriente Médio ou, possibilidade remota como historicamente registrada no Continente Americano, a preparação se impõe nos moldes mais realistas possíveis, desde o básico ao tratar da guerra química, bacteriológica e nuclear, aos exercícios de tiros com armamento pesado, canhões, sobrevivência em regiões inóspitas, etc.

E mais, envolvendo material bélico de alta sofisticação tecnológica, como navios, aviões, helicópteros, foguetes e mísseis. Sempre um perigo nas mãos de militares mal formados. Daí, a exigência extrema na prevenção de acidentes e a prioridade no ensino eficiente e seguro para se lidar com artefatos que exigem perícia e com isso, evitar danos materiais e pessoais à sociedade.

Todo quartel é uma escola; os oficiais são instrutores, auxiliados por sargentos e cabos; professores e monitores que transmitem o conhecimento formam combatentes na ordem 100 mil recrutas por ano. Os professores não têm aposentadoria especial?

As organizações mantêm serviços diários que zelam por sua segurança, dos veículos, armamentos e munições. Nesse particular, diferente de outras categorias de servidores, e da iniciativa privada sob a capa protetora das leis trabalhistas que não enquadram os militares.

Um serviço de escala que comece às 7 horas de um domingo e termina na mesma hora na segunda-feira, não isenta o militar de prosseguir no expediente até às 16 horas, que pode não terminar nessa hora por qualquer eventualidade. São 33 horas em atividade; quatro jornadas de 8 horas mais uma hora. No dia seguinte, não tira folga também; vai ao expediente. Na mesma semana pode ser escalado de serviço, em dia útil, ou sábado, ou domingo. Sem hora extra, sem adicional noturno…

Ora, um plantão de 24 horas (três jornadas de trabalho), pressupõe uma folga de 36 ou 48 horas. Não, para o militar, que ao longo do ano de instrução vai participar de vários acampamentos de 3 ou 4 dias, sob calor escaldante, frio ou chuva, manuseando gases, atirando com canhões, explodindo granadas, não contemplados com os mandamentos da Lei Maior (Art. 7º – São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:…XXIII – adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei;). Diferentemente dos celetistas e servidores públicos.

No artigo “Militar é diferente”, em O Globo/1999, o deputado Aldo Rebelo (PC do B), escreveu: “Em 30 anos, a jornada regular de um civil é de 56.760, enquanto a da caserna soma 83.800 horas. Um militar que vai para a reserva após 30 anos de serviço na verdade trabalhou 44 anos.” Bem antes de ser ministro da Defesa.

A MP 2131, DE 28/12/2000, depois MP 2215, cancelou para efeito de proventos a promoção ao posto seguinte, aumentou o percentual de descontos para o Fundo de Saúde e para a pensão militar (7,5%) e, cancelou a licença especial e a pensão para as filhas, a partir daquela data, criando mais uma cobrança 1,5%, por opção. Uma perda da ordem de 20% ao passar para a reserva,daquele que tinha 15 anos de serviço antes da MP. Perda maior para os que tinham menos tempo de serviço. Os militares ainda arcam com 20% dos gastos com exames laboratoriais, despesas de hospitalização e as consultas, estas, com médicos conveniados.

O Estado não desconta dos militares valores para fins de “aposentadoria”, mas sim, para assistência médica e para a pensão, que advém do Montepio, instituído na Guerra do Paraguai e que desde então todos, na ativa ou na reserva, reformados, contribuem. Os vencimentos e os proventos são considerados como despesas orçamentárias, cabendo à Nação defini-las como investimento em segurança ou não, função do patrimônio físico e histórico do Berço Esplêndido — Brasil Continente.

Ernesto Caruso é Coronel de Artilharia e Estado-Maior, reformado.

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De Noel para Fabiano (clique para ler)

30/12/2013 por bonat

Como num ritual, os filhos de Fabiano foram chegando ao cair da noite de 24 de dezembro último. Com eles, noras, genros, netos e bisnetos. Os filhos logo perceberam algo de diferente no velho pai. Seu semblante estava mais jovial. Sequer reclamou das dores na coluna. Nem pronunciou o tradicional “Acho que este será o meu último Natal”. Mesmo que a curiosidade os aguçasse, nada lhe perguntaram. Melhor não tocar no assunto. Era questão de tempo, de esperar que o “velho” se abrisse. Dito e feito. Entre uma troca de presentes e outra, sem que nada lhe fosse perguntado, ele foi matando sua curiosidade.

Primeiro, tirou do bolso um recorte de jornal e mostrou-o ao filho mais velho: “Governo escolhe o caça Gripen NG”. Depois confessou a outros: “Papai Noel me deu um avião”. Estava explicado o bom-humor de Fabiano. Embora já estivesse reformado devido à idade, nada melhor do que um avião de presente para quem servira durante décadas à Força Aérea.

Fabiano, após ter assistido a uma demonstração da Esquadrilha da Fumaça, lá na década de 1950, decidira ser piloto. Foi aprovado em concorrido concurso. Posteriormente, concretizou o sonho de integrar a “Fumaça”. Tempos de dedicação exclusiva, exaustivos treinamentos, de preparo físico e mental, e de trabalho em equipe, pois o sucesso e a segurança de todos dependiam da destreza de cada um.

Sempre se orgulhou da visão estratégica da sua Força que, em suma, não queria que o Brasil fosse apenas um país grande, mas, também, um grande país. A independência tecnológica, especialmente no sensível setor aeroespacial, representaria importante passo para o país imaginado. Por isso, acompanhou a evolução do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) no seu esforço para formar engenheiros aeronáuticos. Viu surgir, em1969, a Embraer, que possibilitaria transformar a ciência e tecnologia do ITA em capacidade industrial. Assistiu ao primeiro voo do Bandeirante, um campeão de vendas. Já não estava mais na “Fumaça” quando, em 1983, ela recebeu o Tucano T27, outro ás da indústria aeronáutica nacional.

Quando passou para a reserva, no início dos anos 2000, a Embraer já estava privatizada. O aporte de novos recursos fez com que ela se recuperasse e tirasse da gaveta alguns projetos. Com isso, pôde ampliar sua participação no mercado de defesa e da aviação comercial. Atualmente, é uma das maiores exportadoras brasileiras e das mais importantes do setor no mercado mundial.

Ultimamente ele andava preocupado com a falta de investimento na Força Aérea. Não admitia que pilotos arriscassem a vida no cockpit dos arcaicos Mirage e F-5, e que a nação não contasse com capacidade mínima de dissuasão. A longa disputa entre o francês Rafale, o norte-americano F18 e o sueco Gripen parecia não ter fim. Dos três, o pior era o francês, que, apesar de caro e obsoleto, quase acabaria levando.

Entre o sueco e o americano, ele, como nove entre dez entendidos, preferia o primeiro. A razão era simples: o Gripen, que acabou escolhido, é o “NG” (Nova Geração), isto é, trata-se de um projeto a ser desenvolvido pela Saab em parceria com a Embraer. Ele possibilitará que a Embraer adquira o Know Why e não somente o Know How. Enquanto o Know Why capacitará a projetar novos aviões, o Know How asseguraria a fabricação de apenas um modelo. Assim, está garantido o avanço tecnológico. Ganharam o Brasil, nossa indústria, nossos técnicos e engenheiros. Ganharam os familiares de Fabiano, pois, por ainda sonhar com um Brasil grande, como por milagre, até sua coluna parou de doer.

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Contestado: 100 anos de uma guerra cabocla

23/09/2012 por bonat

No início de novembro, uma Companhia de Florianópolis e uma Brigada de Curitiba estarão chegando a Três Barras. Ambas se autodenominam indestrutíveis. Logicamente, vão querer provar sua indestrutibilidade quando estiverem frente a frente. Há cem anos, essa notícia provocaria, no mínimo, inquietação. Havia iniciado a Guerra do Contestado, com a morte, no combate de Irani, do coronel João Gualberto e do monge José Maria, em 22 de outubro de 1912.

As “indestrutíveis” acima são viaturas militares antigas, recuperadas por pessoas abnegadas, dedicadas à preservação da história. Cuidam-nas com tanto carinho, que elas aparentam ter acabado de sair da fábrica. Segundo seus restauradores, o importante é preservar a “alma da viatura”. Sempre que chamadas, as associações sem fim lucrativo que eles criaram se fazem presente em eventos de natureza cultural, histórica e cívica. Abrilhantam, por exemplo, os desfiles de sete de setembro.

Agora, com a Guerra do Contestado completando 100 anos, eles estarão em Três Barras, a fim de prestar homenagem aos cerca de 20 mil brasileiros, soldados e civis, que tombaram naquele conflito.

A região contestada abrangia uma rica área, motivo de disputa entre Paraná e Santa Catarina. A questão de limites, desde meados do século XIX, punha em litígio os dois estados. Políticos locais interesseiros e a tradicional lentidão do judiciário em resolvê-la, prolongavam indefinidamente a sua solução.

Para complicar, como forma de pagamento pela construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, o governo federal – com a chancela dos estaduais – havia permitido que a Brazil Railway Company explorasse a madeira existente numa faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. O problema é que na região atravessada pelos trilhos habitavam caboclos, pessoas simples, que viviam em total abandono por parte das autoridades. Tratava-se de uma terra de ninguém, onde, devido à ausência do estado, imperava o banditismo. Foi esta gente abandonada que teve que sair da terra da qual, ao menos, conseguia tirar o seu sustento.

Logo, não foi difícil para figuras místicas de monges, que perambulavam pelo sul do país com o dom de curar multidões sofredoras, atraí-la com seu messianismo. A Igreja os abominava, uma vez que suas práticas não se coadunavam com a ortodoxia católica. Um desses monges foi José Maria. Alfabetizado, conhecedor de ervas medicinais, milagreiro, logo passou a ter um batalhão de seguidores, muitos dos quais haviam sido expulsos de suas terras.

Quando José Maria tombou em Irani, a fim de facilitar a sua ressurreição, os fiéis o sepultaram apenas com tábuas. Os caboclos acreditavam que ele voltaria acompanhado de um “exército encantado”, que os ajudaria a fortalecer a “monarquia celeste” e a derrubar a república, para eles um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos “coronéis”.

As atrocidades chegaram a um ponto tal, que o Exército foi chamado a intervir. O conflito já estava radicalizado. O comando coube ao General Setembrino de Carvalho. As tropas cercaram a área e, à medida em que o cerco apertava, foi-se reduzindo o poder do “exército encantado”. Após a conquista dos redutos de Pedras Brancas e de São Pedro, deu-se uma debandada geral dos revoltosos. A guerra chegara ao fim.

Como agravante, durante o conflito, um surto de tifo levou à morte cerca de seis mil pessoas. Para evitar que ele se alastrasse ainda mais, foram improvisados fornos, onde os corpos eram cremados logo após o óbito.

Além dos milhares de mortos, quem também saiu perdendo foi o Paraná. O acordo de limites, assinado em 1916, estabeleceu que a área contestada, que corresponde à metade oeste do Estado, ficaria com Santa Catarina.

Mas, além de Santa Catarina, quem ganhou? Obviamente que não foram os soldados e revoltosos mortos. Na verdade, poucos lucraram. No parágrafo abaixo estão dois, embora haja mais.

Em Três Barras, sede da Southerm Brazil Lumber and Colonization Company, os americanos montaram a maior serraria da América Latina para transformar em madeira as árvores derrubadas às margens da ferrovia. O secretário de obras públicas do Paraná, José Niepce da Silva, por não ser conivente com tal situação, pediu demissão. Já o vice-governador do Estado, Affonso Camargo, que era também advogado da Lumber, defendia os interesses da companhia em detrimento do interesse público. Enquanto o primeiro caiu no ostracismo, Affonso Camargo tornar-se-ia governador por dois mandatos. Em Santa Catarina, o advogado Nereu de Oliveira Ramos, filho do governador Vidal Ramos, também defendia os interesses da Lumber. Fez brilhante carreira política, chegando à Presidência da República.

Claro está que não será a esses, nem a outros do mesmo time, que os “indestrutíveis” pretendem prestar homenagem em Três Barras!

A mãe de todas as engenharias

18/07/2012 por bonat

Boa notícia não é notícia. As racionalmente lógicas também não. Estudantes de jornalismo aprendem, desde cedo, que um cachorro morder uma criança não chama atenção. No entanto, se a criança morder o cachorro…

Mas, atualmente, são tantas as manchetes sobre superfaturamento em obras públicas, que um cachorro morder uma criança deveria ser capa de revista, como poderia ter acontecido com a entrega à Infraero, pela engenharia do Exército, da pista principal do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP). Pouca gente tomou conhecimento de que o Exército não só concluiu a obra com quatro meses de antecedência, como, principalmente, a um custo 30% menor do valor previsto. Foram construídas duas pistas secundárias de saída rápida, reasfaltados 1.060 m, além dos trabalhos de iluminação, sinalização e grooving (ranhuras para facilitar a frenagem). Mas como era um cachorro mordendo uma criança…

É sabido que a mãe de todas as engenharias são os exércitos. A primeira civilização a possuir uma força especialmente dedicada à engenharia militar foi a romana. Suas legiões contavam com os “architecti”, corpo de engenheiros responsável por feitos notáveis, como a construção, em algumas semanas, de fortificações de 60 quilômetros de extensão. Na costa mediterrânea da Europa, deixaram obras que podem ser visitadas até hoje. No sul da França, construíram, antes de Cristo, um aqueduto de 50 quilômetros para abastecer a cidade de Nîmes. A ponte sobre o rio Gard, com seus 49 metros de altura, patrimônio da UNESCO, ainda resiste para comprovar a sua capacidade.

Entretanto, foi com Napoleão que a engenharia militar tornou-se ciência. Em 1747, surgiu a École Nationale de Ponts e Chaussés (Escola Nacional de Pontes e Estradas), primeira escola de engenharia do mundo, até hoje das mais prestigiosas da Europa. Grandes matemáticos foram engenheiros do Pequeno Corso. Entre eles, Gaspard Monge, criador da geometria descritiva, solução de um problema de fortificações, mantida como segredo militar durante 15 anos.

No Brasil Colônia, os engenheiros militares brasileiros absorveram e aprimoraram a arte portuguesa de planejar e construir fortificações, edificações e estradas. Algumas de suas obras ainda fazem parte da nossa paisagem, como bastiões de nossas fronteiras marítimas e terrestres. Em 1792, foi criada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, primeira escola de engenharia das Américas, que deu origem ao Instituto Militar de Engenharia e à Escola Politécnica da UFRJ. Em 1874, a Real Academia estendeu o acesso a civis, resultando na separação do ensino civil do militar, fazendo surgir os engenheiros civis.

A universidade mais antiga do Brasil, a Federal do Paraná, que agora comemora seu centenário, teve como criadores, além do médico Victor Ferreira do Amaral, outros idealistas. Entre eles, alguns militares, como Nilo Cairo da Silva, que antes de tornar-se médico formara-se engenheiro militar, Manuel de Cerqueira Daltro Filho, Mário Tourinho e Guilherme Baeta de Faria, o projetista do prédio da praça Santos Andrade, um dos símbolos da capital paranaense.

Quem conhece o extraordinário acervo de realizações da engenharia militar brasileira ao longo dos tempos não se surpreendeu ao saber que ela concluiu a obra de Cumbica antes do prazo e a um custo menor. Mal comparando, foi o mesmo que um cachorro ter mordido uma criança. Fazer o quê? Isso não interessa à imprensa. Seu único intuito é vender jornal. Se não conseguir, jornalista perde o emprego.

AMAN, nous sommes contents de vous!

19/12/2011 por bonat

“Soldats, je suis content de vous!” Paulo Chagas, com a rapidez da sua cavalaria, arremessou-nos com voz firme, reverberada por todos os cantos do imponente auditório acadêmico, até a aula do Coronel Panizzutti. Professor de oratória, ele valia-se de Napoleão para nos revelar os segredos daquele notável soldado-orador no uso das palavras para conquistar mentes e corações.

A partir daí, ao percorrer as linhas da sua bela alocução, Chagas folheou o livro de um tempo vivido há mais de quatro décadas. Sua voz continuou firme, por vezes embargou, mas não o impediu de chegar a 18 de dezembro de 1971. Na mesma toada com que a emoção tentava lhe derrubar, gotas de lágrimas teimavam em umedecer os olhos de todos. Mas, valentes, também conseguimos chegar juntos ao objetivo: o 18 de dezembro daquele ano longínquo.

Antes de a reunião encerrar, convidados a entoar a canção da Academia, enchemos os pulmões. Queríamos, como nos anos setenta, fazer tremer aquelas paredes e os valores que elas representam e preservam. Dessa vez, porém, fracassamos. Embora tentássemos, já no segundo verso as lágrimas uniram-se e, traidoras, viraram cachoeira. O hino, que era para ser de milhões de vozes, reduziu-se a um murmúrio. Que nos desculpem as vetustas paredes. Dessa feita, seus bravos cadetes não conseguiram fazê-las vibrar. Derrotou-nos a emoção.

Fomos para Resende, vindos dos mais remotos brasis, como filhos em busca do aconchego materno. Irmanados, embora distantes, desejávamos matar saudade da velha mãe. Não só dela, mas dos nossos irmãos e da nossa juventude. Sentíamo-nos obrigados a prestar-lhe contas após tantos anos decorridos, pois a sabemos exigente, não apenas com os filhos, mas também consigo mesma.

Fomos surpreendidos pelo rejuvenescimento daquela Senhora de 200 anos. Diante dela, parece que só quem envelheceu fomos nós, embora sejamos ainda sessentões.

Reencontramo-nos não só para rememorar tempos idos, seus personagens, seus fatos, seus desafios. Valho-me novamente do amigo Paulo Chagas: “Reencontramo-nos num lugar onde fomos abrigados, acolhidos, protegidos, instruídos, desafiados e testados. Numa casa que não é apenas uma casa, tampouco uma simples Academia Militar, mas, por sua importância em nossas vidas, pela maneira especial com que forjou nosso caráter, nossos sentimentos e nossos corações, deve ser e é vista e sentida por nós como uma entidade materna, digna do nosso mais puro amor e da nossa eterna e sincera gratidão”.

É justo manifestar o nosso agradecimento e homenagem aos companheiros de turma e aos atuais integrantes da Academia Militar das Agulhas Negras, que se esmeraram para nos proporcionar momentos de inenarrável emoção. A eles e à sempre jovem bicentenária Academia, parodiando Bonaparte, queremos proclamar: “Nous sommes contents de vous!”

Por fim, já que o “content” de Napoleão tem o significado de orgulho, permitam-nos acrescentar, com o coração vibrante de jovens Aspirantes da Turma Marechal Castello Branco: “Nous sommes contents de nous mêmes!”

A mensagem das montanhas

05/12/2010 por bonat

As FARC não perderam tempo. Já em 01 de novembro, mãos que sequestram e matam largaram por alguns minutos o fuzil para saudar nossa primeira Presidente. Com uma coerência bolivariana, chamaram-na de compatriota. Calçaram luva branca de diplomata para falar de paz e de uma saída política para a crise da Colômbia. Em seguida, com as mãos já desnudas, empunharam novamente as armas, argumento não tão pacífico com que buscam pôr fim à democracia em seu país.

Não sei se a candidata vitoriosa tomou conhecimento. Acredito que não, caso contrário já teria manifestado seu repúdio aos fornecedores das drogas que vêm sepultando o futuro da nossa juventude. Mas o texto está no site da ANNCOL, Agência de Notícias Nova Colômbia, para quem quiser ler. Eles buscam com o site conquistar simpatizantes. Penso que, em breve, postarão mensagem autoenaltecendo o caráter social do seu movimento. Dirão que, ao passarem a produzir crack, democratizaram o uso da droga, tornando-a acessível a todas as classes, e não só aos garotos de Ipanema e do Leblon.

Não me preocupo com o que é divulgado por milhares de páginas que circulam pela internet. Essas, ao menos, são visíveis. Você acredita se quiser. Preocupam-me, isto sim, as redes invisíveis, usadas pelos chefões para se comunicar. Elas não chegam aos morros. Aqueles traficantes que assistimos fugindo do Complexo do Alemão não têm acesso a elas. Eles, de certa forma, são vítimas, que fazem outras vítimas com requintes de crueldade. Mas ninguém deve se iludir. Os barões da droga não estão nos morros. Estão nas montanhas.

“Não deixem atrapalhar nosso negócio”, deve ter sido a ordem transmitida em código, nos últimos dias, das montanhas colombianas para as brasileiras.

Portanto, a ação policial, até agora aplaudida, corre sério perigo. Risco ainda maior será do Exército, o mais recente convocado para a batalha. Quando surgir a primeira vítima, já antevejo as manchetes: “suposto traficante é assassinado por militares”. Apesar de armado até os dentes, o falecido passará a ser um “suposto”, e alguém de farda responderá longo e desgastante processo na justiça. Nem quero pensar na repercussão que terão as baixas de inocentes, um dos indesejáveis efeitos colaterais de qualquer guerra.

Tem-se notícia de que soldados que vivem na favela vêm sendo ameaçados por alguns “supostos”. Também pudera! Pelo que ganham, já deveriam ter mudado para o desconforto dos quartéis. É o que alguns estão fazendo. Mas quem protegerá suas famílias?

Leite materno – beba sem moderação

27/07/2010 por bonat

Levantamentos recentes revelam que a juventude brasileira bebe cada vez mais precocemente e em maior volume. Os marqueteiros sabem aproveitar a principal característica da adolescência – a insegurança – e aliam o consumo de bebida alcoólica ao esporte, apresentando-os como a grande fórmula para a saúde e a felicidade. É uma realidade que preocupa, pois sabemos que o álcool é a porta para outras drogas mais pesadas, lícitas ou não. A frase “beba com moderação”, ao final das propagandas de cerveja, embora represente um avanço da nossa legislação, é esquecida logo após o primeiro gole e soa quase como um deboche quando comparada à atraente peça publicitária que a antecedeu. Se estivesse escrito “beba sem moderação”, o efeito seria o mesmo. Na verdade, nossa sociedade está perdendo a guerra para os adolescentes.

Vitórias mesmo têm sido alcançadas na conscientização sobre a importância da amamentação materna. Até o final do século XIX, os filhos da nobreza europeia eram sustentados pelas amas de leite; os da plebe, com leite de vaca. Na mesma época, no Brasil, os bebês da casa grande dispunham de escravas para amamentá-los. Mesmo com a descoberta de novas medidas de higiene, pouca coisa mudou, pois as crianças da nobreza passaram também a ser alimentadas com leite de vaca. Nem era preciso ter ido tão longe. Dia desses, minha sogra mostrou-me a caderneta de bebê que recebeu na maternidade após dar a luz à minha mulher. Patrocinada pelas “mamadeiras Pyrex”, em sua capa está estampado: “O que toda mãe deve saber sobre a alimentação do bebê”. Claro que nada consta sobre amamentação materna e sim sobre as vantagens do uso da mamadeira.

Essa situação perdurou até pouco tempo. Nos últimos anos, felizmente, ela tem mudado. A legislação, criando, entre outras coisas, a licença-maternidade, tem-se mostrado uma aliada dos pediatras. Na mesma direção está a iniciativa de várias empresas de instalar berçários e salas de amamentação nos locais de trabalho. Exemplos, como o da Dra Zilda Arns, de como o problema da mortalidade infantil pode ser minimizado com medidas simples e baratas, das quais a mais eficaz é a amamentação materna, têm contribuído para a conscientização das mamães.

O Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos, publicado em 2002 pelo Ministério da Saúde, é bem claro em sua orientação: “Dar somente leite materno até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento. A partir dos seis meses, oferecer de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais. A partir dos seis meses, dar alimentos complementares três vezes ao dia se a criança receber leite materno e cinco vezes ao dia se estiver desmamada”.

Entretanto, é preciso avançar mais. Todas as classes sociais têm que ser sensibilizadas. Talvez alterando alguns ditos populares, como trocando o “Quem pariu Mateus que o embale” por “Quem pariu Mateus que o amamente”, ou, ainda, obrigando a constar nas embalagens de produtos destinados a lactentes, e nas cadernetas de saúde e álbuns de bebês, a frase “Leite materno – beba sem moderação”.

Ora, se o leite de vaca é bom para o bezerro, o da ovelha, para o cordeiro, é óbvio que, para humanos, o ideal só pode ser o leite humano. Mesmo o da mais famélica das mães constitui a única fonte completa para o desenvolvimento de filhos saudáveis e inteligentes. Mas até essa obviedade precisa ser mais divulgada. Quem sabe algum dos nossos mundialmente reconhecidos marqueteiros não se habilita a ajudar? Fica aqui o desafio de um leigo que se preocupa com o assunto.

Publicado em Saúde

Um gol bizarro

26/11/2009 por bonat

Quando a “bleu-blanc-rouge” marca, sua torcida grita “but”, com biquinho e tudo. Os franceses, até hoje ressentidos com a derrota em Waterloo, rejeitam qualquer palavra inglesa. Nós, ao contrário, abrasileiramos “goal”, que significa meta, objetivo. Não fosse isso, você, fanático torcedor, gritaria “metaaaa”, cada vez que o seu time do coração balançasse as redes. Seria bizarro.

Futebol é uma das muitas coisas que importamos (inclusive a palavra football) e é das poucas de que podemos nos orgulhar por termos aprimorado. Somos os melhores do mundo.

Fizemos aquilo em que japoneses e russos foram mestres. O Japão copiava, aperfeiçoava e miniaturizava. A União Soviética copiava e aumentava. Exemplos não faltam. O radinho transistor tomou o lugar do grandalhão valvulado. O gigante Tupolev Tu-114, o maior avião de passageiros do mundo, entrou em serviço nos anos 50. Como conseguiam isso? Estabelecendo metas para suas nações e investindo em pesquisa a fim de alcançá-las.

Uma das atuais metas da política externa brasileira é ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nossa projeção econômica e política mundial tem sido notória. É meio-caminho andado. Para percorrer a outra metade, torna-se fundamental o respaldo de um poder dissuasório à altura da dimensão estratégica que pretendemos ter. Ela, porém, não pode se limitar a forças armadas equipadas com o que há de mais moderno. Vai além. Precisamos dominar as principais tecnologias bélicas.

O que se tem observado, governo após governo, é um total e irresponsável menosprezo com a defesa da Nação. Se não tivesse havido, durante quase duas décadas, brutais cortes no orçamento da Marinha, é provável que já dispuséssemos do nosso submarino à propulsão nuclear. Seríamos hoje exportadores e não importadores dessa temida arma.

Outra meta, esta permanente, é a de assegurar nossa integridade territorial. Convém lembrar que as sociedades que atingiram elevado nível de vida consomem imensa quantidade de recursos que não possuem. Elas dependem de matérias-primas, muitas das quais são encontradas em nosso território, uma razão a mais para darmos atenção aos assuntos de defesa.

Uma Nação que se deseja influente tem que dominar a tecnologia, que, por sua vez, depende de maciços investimentos em educação. Não adianta ser grande e continuar ignorante.
Neste ano da França no Brasil, uma curiosidade de milhares de olhos nos observam desde a Torre Eiffel. Talvez eles conheçam nosso potencial e nossas metas. Portanto, não conseguem entender (e até gostam disso) como ainda não as atingimos. Devem estar murmurando, agora sem biquinho: “c’est bizarre”. Tão bizarro quanto o gol que os classificou para a Copa da África do Sul.

Publicado em Segurança Nacional

Entre aspas

15/08/2009 por bonat

Abro aspas. Muitos já ouviram essa frase e ficaram torcendo para que as tais aspas fossem logo fechadas e o discurso chegasse ao fim. Por ter escutado inúmeros deles, julgo que chegou a minha hora de abrir algumas aspas.
“É preciso levar em conta o passado de Sarney antes de condená-lo”. O autor é de todos conhecido. “Vossa Excelência tem que engolir e digerir como quiser suas palavras”. De autor também muito e tristemente famoso. “Esqueçam de mim”. Este ao menos foi sincero. Era o que todos queriam ouvir. “Os nacionalistas retrógrados são contra as privatizações” Epa! Nacionalista sou eu. Retrógrado não. Ele ficou rico. Eu não. “Todos são iguais perante a lei”. E os sem-terra? “A ministra Dilma possui o título de Mestre pela Unicamp“. Sendo condescendente, foi u’a mentirinha a mais, uma falha dos assessores de quem não lê o próprio currículo.
Por fim: “Foi o ano do Brasil na França. Agora é o ano da França no Brasil”. Quer dizer, a Força Aérea Brasileira terá que aceitar o Rafale (avião no qual nem os pilotos franceses confiam) e a Marinha receberá de presente a ultrapassada tecnologia naval francesa para produzir submarinos.
Se, no governo passado, o Exército foi obrigado a aceitar os complicadíssimos e ainda não testados em combate helicópteros Super Puma, por que Marinha e Aeronáutica ficariam de fora da invasão intelectual francesa? Mas intelectual não entende de avião, de submarino e de helicóptero. Não é demais lembrar que a França teve suas últimas conquistas com Napoleão, quando nada disso existia e os intelectuais se limitavam a pensar. A questão é: quem sairá ganhando? Respondo, agora sem aspas: logicamente que não serão as nossas Forças Armadas.
Respeito os francólilos de coração. Ao mesmo tempo, temo os de ocasião, pois seus interesses nem sempre se confundem com os do Brasil. Particularmente, eu preferiria que os franceses se limitassem a nos mandar seus queijos e vinhos. Aí, estaria aqui mais um francófilo bradando entre saborosas aspas: “Vive la France”!
A Rússia assimilou da França uma ideologia que ela mesma, a França, nunca chegaria a implementar, e virou uma sucata conhecida como União Soviética. Nosso caso é ainda mais grave. Além da ideologia, estamos importando tecnologia, ambas caducas e ultrapassadas ou, se preferirem, demodés. Antes de encerrar, julgo conveniente avisar aos desavisados que ninguém é bobo de transferir seu avanço tecnológico mais recente.
Termino aqui o meu discurso. É possível que você não tenha concordado. Mas, ao menos, ele foi curto. Curto e sincero.

Uma tal Capitão Carla

30/06/2009 por bonat

Por que não “Uma certa Capitão Carla”? Porque Fernando M. Lopes – a quem, infelizmente, não conheço – assim já intitulara um artigo seu, parte do qual transcrevo: “Num País onde faltam heróis e sobram cafajestes, teimamos em ignorar os bons exemplos. Como sou mais teimoso ainda, vou falar de dois desconhecidos: a capitão médica Carla Maria Clausi e o cabo Ricardo. Sabem quem são eles? Certamente não, mas devem ter visto algo sobre o desabamento de uma escola de Porto Príncipe, em novembro, no qual mais de 90 pessoas perderam a vida. Foi um horror; sobreviventes estavam sob toneladas de escombros, sem muita chance de salvamento. O que fazer? Em desespero, os haitianos se lembraram dos brasileiros; chamados, eles enviaram uma equipe médica composta por soldados e fuzileiros navais. Foi a salvação de 4 crianças, de 6 a 7 anos de idade. A capitão médica Carla e o cabo enfermeiro Ricardo se esgueiraram pelos escombros, ignorando o perigo e, a muito custo, conseguiram salvar as crianças. As fotos são impressionantes. Mostram o grau de coragem de dois heróis que arriscaram a vida por pobres crianças. Desafiaram a morte não por glória, dinheiro, fama ou medalhas. O agradecimento das famílias levou os bravos soldados às lágrimas”.
Por que transcrevo isso? Primeiro, por tomar conhecimento, pelos médicos do Hospital Militar de Curitiba, de quem atualmente sou um paciente assíduo e onde a capitão Carla serviu, que ela é um ser humano extraordinário. Segundo, pelas também impressionantes fotos que recebi dos estafados integrantes do Para-Sar logo após terem concluído a delicada missão de resgatar, em plena floresta, 154 corpos de vítimas do acidente entre o Boeing da Gol (todo certinho) e o Legacy (fora da altitude programada) pilotado por americanos. Nenhum deles, nem a capitão, nem o cabo, muito menos o pessoal do Para-Sar, foi notícia. Segundo as más línguas, apenas cumpriram seu dever. Por isso, devem estar em paz consigo mesmo.
Agora, após o acidente do Air-Bus da Air France no meio do Atlântico, as equipes da Marinha e da Força Aérea tiveram mais visibilidade. Apareceram até no Fantástico. Ainda bem, pois foi um trabalho árduo. Apesar de todo o corte em seu orçamento, Marinha e Força Aérea, rapidamente, fizeram o que parecia impossível: deslocaram uma força-tarefa para Fernando de Noronha a fim de participar das operações de resgate. Mesmo sabendo que ganham menos do que um ascensorista do Congresso, comandantes e tripulações conduziram seus navios e aeronaves para a área da tragédia a fim de cumprir mais uma delicada missão. Tarefa com risco muito maior do que ser mordomo, a quem pagamos 12 mil reais por mês, da governadora filha do presidente do senado.

Publicado em Segurança Nacional