Artigos de ‘Sulamericana’ Category

Ao bispo, uma doação

30/07/2009 por bonat

O pessoal anda indignado. Basta dar uma olhada nas “cartas do leitor” para perceber. A generosidade do nosso presidente com seus companheiros do Foro de São Paulo, travestidos de hermanos bolivarianos, tem passado dos limites. Não se trata de patriotada, nem de xenofobia. O caso é de priorizar os interesses nacionais. Nosso governo mostra-se mais atento aos interesses de outros povos do que ao seu, por acaso os brasileiros.
Lula já se sujeitara aos abusos de Hugo Chávez, do boliviano Morales, do casal argentino Kirchner e do equatoriano Correa. Tudo bem que goste de ser cortejado, que esteja deslumbrado com o poder, com aplausos e tapinhas nas costas. Preocupa é nossos vizinhos já terem percebido isso. A cada tapinha nas costas presidenciais, eles nos tomam um pouco de energia.
Energia é um bem estratégico e caro, fundamental não-somente para a economia – saúde, educação, transporte, comunicação, segurança, pesquisa, bem-estar, e qualquer outro setor que o prezado leitor queira levantar, dependem dela. Todos sabem disso, embora sua importância só seja sentida quando falta.
As pessoas da minha geração têm a exata noção de quanto custaram Itaipu e Petrobras. Não seria exagero afirmar que as carregamos nos ombros, convivendo com elevadíssimas taxas de inflação, com racionamentos e pagando pela gasolina mais cara do planeta. Elas são nossas filhas.
O atual governo trata Petrobras e Itaipu como propriedade sua. Parece até que nosso presidente não viveu aqui nos velhos e difíceis tempos. Faz-se de esquecido. Prefere usar o bordão “este país” quando se refere ao Brasil para, então, sentir-se liberado para fazer doações a fim de agradar companheiros estrangeiros – bispos ou não – que estejam em apuro. Depois, brinda gloriosamente e recebe calorosos (e falsos) aplausos e tapinhas.
A conta será paga pelas gerações futuras. Elas herdarão mais do que o prejuízo energético, assim entendido como fonte de progresso material. A perda maior estará no espectro intangível, aquele que, quando se abre mão, dificilmente se resgata. Como rasgar tratados está virando rotina, nossos netos perderão até a capacidade de se indignar, permanecendo cordeiramente calados, mesmo quando o Brasil vier a ser prejudicado pela violação de outros acordos.
Estamos perdendo energia física e moral. Para o nosso presidente, legal mesmo é sentir-se enturmado com os castelhanos e receber tapinhas nas costas. Ele acha mais legal ainda ver sua fotografia estampada nas primeiras páginas. Dessas vaidades aproveitou-se o bispo-garanhão. Era o que precisava. Será reeleito, às nossas custas.

Publicado em Política, Sulamericana

Vizinhos assim, melhor não tê-los!

14/09/2008 por bonat

A Austrália pode se considerar feliz. Não possui vizinhos, nem pobres, nem ricos. Eles simplesmente não existem, e ponto. Ela tem pendências internas com seus aborígenes, mas não precisa se incomodar com os aborígenes dos outros. Está igualmente desobrigada a diminuir a pobreza de alguém, às vezes traiçoeiro, que esteja do outro lado da cerca e de investir bilhões para ajudá-lo a explorar seu subsolo rico em gás. Tampouco precisa firmar contrato, mais tarde contestado pela outra parte, a fim de construir, sobre rio limítrofe, a maior usina hidrelétrica do mundo.

Australianos não têm, como os mexicanos, um gigante a lhes fazer sombra. Brasileiros também não. Nosso problema é que estamos nos apequenando, fazendo com que um vizinho, que só petróleo produz, se autoproclame líder da América do Sul.

A grave crise por que passa a Bolívia é uma das conseqüências da política bolivariana, que se alimenta da desunião. Evo Morales, por seguir a cartilha de Chávez, levou seu país à beira da guerra civil. Se a geografia já conspirava contra, o atual mandatário chegou para dar um empurrãozinho fatal em direção ao abismo que separa o Altiplano do Chaco. A Bolívia já cedeu parte do seu território para todos os seus limítrofes. Agora está prestes a ser derrotada por si mesma. Caso isso se concretize, nada lhe será perdoado, ao senhor Morales, pelas futuras gerações de bolivianos, então pulverizados em diversas nações, ainda menores e mais pobres.

Foi bizarra a expulsão do embaixador americano. A Bolívia não tem relevância internacional. Representa muito mais para o Brasil do que para os Estados Unidos, pois, graças a um erro estratégico, nos tornamos reféns do seu gás.  No entanto, parece que o Brasil pouco poderá fazer, uma vez que nossa política externa tem andado a reboque do senhor Hugo Chávez. Mesmo porque, quando da tomada manu militari de nossas refinarias localizadas na Bolívia, nosso governo posicionou-se a favor de Evo Morales, contra os interesses brasileiros.

Más notícias, vindas de um pouco mais ao sul, ainda estão por chegar.  É quase certo que o presidente Lugo apoiará o MST paraguaio – produto brasileiro de exportação, criado pela mesma Igreja da qual ele é ex-bispo – em sua luta declarada contra os brasiguaios. Resta saber de que lado ficará nosso governo: se do MST ou dos brasileiros que vivem no Paraguai.  A quem quiser apostar, sugiro que marque coluna um.

Feliz é a Austrália. Não tem vizinhos e, no continente que ocupa por inteiro, a guerra fria, que tantos males já causou pelas bandas de cá, faz parte do passado.

 

Publicado em Política, Sulamericana

As FARC e seus reféns

05/03/2008 por bonat

Imagina-te gravemente enfermo, vivendo anos a fio numa floresta quente e úmida como refém de pessoas que não te deixam ser medicado. E, o mais grave, que presidentes de países vizinhos usem teu sofrimento para se promover. É o que acontece com Ingrid Bettancourt. Por acreditar na democracia e candidatar-se à presidência da Colômbia, acabou condenada pelas Farc.

O pecado colombiano foi não ter cortado a raiz da sua “guerrilha do Araguaia”. Acreditou que guerrilheiros pudessem ansiar por democracia. Chegaram a dominar quase quarenta por cento do país.

Mutatis mutandis, se as ossadas do Araguaia, intensamente procuradas, tivessem sido ressuscitadas e reproduzidas aos milhares, nosso vice-presidente, José Alencar, poderia ser hoje refém das Farc brasileiras. Elas teriam o apoio de Chávez e de Fidel. Nosso vice, com câncer, coitado, não poderia se tratar no Hospital Sírio-Libanês. Estaria com os dias contados e sofreria muito antes de morrer. Além dele, mais de setecentos brasileiros estariam na mesma floresta, alguns doentes, padecendo sob a mira dos seus algozes.

Se as ossadas do Araguaia, hipoteticamente revividas e multiplicadas, se refugiassem em outro país, nosso presidente pouco poderia fazer. Mas, corajoso como é, tentaria salvar Alencar, nem que para isso tivesse que entrar em território estrangeiro. Foi o que fez o presidente da Colômbia.

Rafael Corrêa sabia que havia bases de guerrilha em seu país. Claro que sabia. Sabia e concordava. Depois deu uma de nacionalista, embora não o tenha sido quando guerrilheiros colombianos, fortemente armados, invadiram o Equador.

Não demorou muito para aqueles que gostam de cadáveres saíssem às ruas. Hugo Chávez foi o primeiro. Era tudo que precisava. Ao armar-se até os dentes, sob o argumento de defender-se dos Estados Unidos, seu alvo era a democracia colombiana. Junte-se a necessidade de o mandatário venezuelano reverter a tendência de queda de sua popularidade e temos os ingredientes de uma receita apreciada pelos caudilhos.

A dubiedade com que o Itamaraty se posicionou deu a entender que estava ao lado dos guerrilheiros. Trafegou assim na contra-mão de uma estrada historicamente humanitária. Ainda mais dúbio, para não dizer falso, do que a posição brasileira foi o aperto de mão de Chávez, Corrêa e Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, ao término da 20ª Cúpula do Rio.  Pelo visto, setecentos reféns não conseguem sensibilizar ninguém.

 

Publicado em Política, Sulamericana

Carta para Evo

07/11/2007 por bonat

Caro Presidente Morales.
Espero que esta o encontre com saúde, para que possa continuar exercendo, com toda a energia que dispõe, a sua liderança.
Por aqui, tudo como dantes. A novidade fica por conta do lançamento do filme Tropa de Elite. É sensacional. Recomendo-o ao amigo. Porém, devo avisá-lo de que o chefão do tráfico morre no final. Se quiser, mando uma cópia (serve pirata?).
Soube que o presidente Lula vai visitá-lo. Levando em conta a amizade entre vocês, nascida nos bons tempos do Foro de São Paulo, bastaria um telefonema. Seria mais barato. Mas não se preocupe. Não vai sair do bolso dele.
Acredito que pretenda recebê-lo com toda a fidalguia. Para não cometer nenhuma gafe, aconselho-o a não falar sobre futebol. A diretoria do Corinthians, time do nosso presidente, envolveu-se numa confusão danada e foi demitida. Dizem que foi corrupção. Você sabe muito bem como ele odeia esse tipo de assunto.
Sabia que Bush andou por aqui? Veio conversar sobre biocombustíveis. Fidel ficou com ciúme. Foi logo dizendo que vai faltar comida. Você não acha que o Comandante anda meio caduco? Ele pensa que o Brasil é do tamanho da Ilha? Se tiver chance, diga-lhe que ando preocupado. Recebi umas fotos de Cuba. Achei algumas pessoas magras demais. Será que não estava na hora de plantarem mais batata no lugar de fumo para seus famosos charutos? Agora, se os raquíticos das fotos não forem filiados ao partido, tudo bem.
Mas, voltando ao Brasil, parece que o pessoal do Rio e São Paulo anda meio chateado. Está faltando gás. Cá entre nós, quem mandou os taxistas converterem o motor dos seus carros? E os empresários então? Só para economizar, a classe dominante investiu em usinas à gás. Bem feito para eles.
Aliás, é sobre o fornecimento de gás que nosso presidente vai conversar com o amigo. Good news! Parece que há intenção de investir de novo na Bolívia. Como não é bobo, sei que você vai topar. Depois, é só mandar o exército tomar conta.
E aí, como andam as coisas? Os venezuelanos estão cuidando bem das nossas refinarias que você… digamos, usurpou? Parece que tudo o que você, Fidel, Lula, e Chávez combinaram no Foro de São Paulo está dando certo. Que bom!
Último alerta ao amigo. Se a cumpanherada que está na direção da Petrobras for competente e tiver vontade, logo, logo estaremos produzindo o gás que necessitamos. Imagine se isso acontecer? O que você fará com o seu gás? Aborde isso com o Lula.
Saudações Bolivarianas.

Publicado em Política, Sulamericana

Dia da Vitória – até tu, Bolívia?

08/05/2006 por bonat

O passado certamente não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. Encontrar, nas comemorações do Dia da Vitória, os remanescentes dos vinte e cinco mil pracinhas que lutaram na Itália propiciou-nos retornar a um momento importante da nossa história.
A mistura explosiva de um fluente orador e de um país mergulhado no caos, causado pelas pesadas restrições impostas em Versalhes, havia levado à ditadura nazista. Com a ajuda de Joseph Goebbels, espécie de marqueteiro da época, tornou-se fácil a conversão do povo alemão. Hitler governou com poderes ilimitados. E deu no que deu: quarenta e cinco milhões de mortos.
O oito de maio de 1945 foi um dia de festa nas trincheiras. Hitler e seu Partido Nacional Socialista estavam derrotados. A serenidade dos octogenários pracinhas fundamenta-se no orgulho de terem ajudado a pôr fim na louca aventura nazista. Eles sabem o frio que passaram, a saudade que sentiram e o medo que venceram. Somente eles e mais ninguém, principalmente os que estavam nas trincheiras opostas, a quem era preciso mostrar, a qualquer custo, que não existe raça superior ou inferior. Só eles sabem o quanto custou a vitória. Só eles vivenciaram aquele momento único, triunfal, de pisar de novo o solo pátrio.
A participação brasileira pode ser considerada pequena. Mesmo assim, tivemos quatrocentos e cinqüenta e uma baixas, o que não é pouco. Num exercício de imaginação, vamos supor que eles ressuscitassem agora. Iriam surpreender-se, pois o mundo avançou séculos nos sessenta e um anos que ligam aqueles difíceis tempos aos atuais. Ficariam admirados de ver como industrializou-se o Brasil rural da Década de Quarenta. Dos inúmeros avanços tecnológicos, possivelmente a televisão lhes chamaria mais a atenção. Ficariam interessados nos noticiários. Ao ouvirem as novidades da política, pensariam estar no Saara, tamanho é o atual deserto de dignidade. Nos intervalos, veriam que os marqueteiros continuam em moda, tanto se esbanja o nosso suado dinheirinho para a autopromoção dos nossos dirigentes.
Ao assistirem a matéria sobre a reunião de Puerto Iguazú, reconheceriam logo o presidente da Argentina, com seu jeitão de Perón. Acreditariam, pela liderança que exerce sobre os demais, ser Hugo Chávez o presidente do Brasil. Após lhes informarmos que aquele era o mandatário da Venezuela, imaginariam que o brasileiro seria Evo Morales. Afinal, ele havia tomado conta de refinarias da Petrobrás. Explicaríamos que estavam enganados: aquele era boliviano. Por exclusão, concluiriam ser o sorridente senhor de barba o presidente do maior país da América Latina. Aí, nos perguntariam: ele ri de quê? Não saberíamos responder. Eles, que deram a vida pelo Brasil e pela liberdade, nos olhariam com desprezo e voltariam correndo ao seu altivo passado.
Após esse tremendo mico, nós continuaríamos aqui, com o complexo de “colonizados” que há algum tempo tomou conta das nossas mentes. Tal síndrome nos impede de assumir o papel de liderança que, de forma natural, deveríamos exercer na América do Sul. E todos se aproveitam disso para nos passar rasteira: Argentina, Venezuela, Paraguai e, agora também, a Bolívia. Até tu, Bolívia, a quem o Brasil sempre procurou ajudar! Quem diria!