Artigos de ‘Política’ Category

Governador por um dia

30/01/2011 por bonat

“Por que as meninas não puderam participar?” A pergunta da repórter de uma televisão local soava como acusação e quase me derrubou. Ela cobria um dos eventos que realizávamos em Curitiba para comemorar a Semana do Soldado. A ideia tinha partido do meu amigo Britão. A mim, como oficial de comunicação social, coube apenas o mérito, se é que aí existe algum, de ter-lhe batizado: “Soldado por um dia”.

Ofertávamos a diversas escolas vagas para que alunos da 4ª série do ensino fundamental vivenciassem algumas atividades exercidas pelos soldados. Deu um trabalho danado, mas a experiência virou um sucesso. Mais tarde, o Exército sugeriria a todas as suas unidades que a implementassem.

”Porque é um projeto-piloto. Como ainda está em teste, resolvemos realizá-lo somente com meninos. No ano que vem, pretendemos abri-lo também para meninas”. Com essa meia-verdade respondi à repórter. Era, realmente, um programa-piloto, mas não cogitávamos a presença feminina, pois precisaríamos de uma monitora para cada grupo de dez “soldadinhas”. Como, na época (1990), ainda não havia mulheres no Exército, não dispúnhamos desse apoio, imprescindível no caso.

Mas, para não passar por mentiroso, no ano seguinte, 50 meninas participaram do programa, o que só foi viável graças à colaboração de universitárias de educação física.

Por certo, as crianças, de 9 e 10 anos, que passaram pelo programa, conservam na memória aquele dia especial. Devem ter guardado o diploma de participação e inúmeras fotos onde aparecem fardadas, marchando, na pista de cordas, no cabo-de-guerra, na pista de orientação, passeando em blindados, hasteando a bandeira, na fila para o rancho ou dormindo em barracas.

Pois bem, essa pequena historia mostra como, em pouco mais de vinte anos, a presença da mulher na sociedade brasileira cresceu. Uma delas estar exercendo o mais alto cargo da nação sintetiza como evoluímos.

Mas, se caminhamos para a frente em alguns setores, em outros a transformação teve caráter involutivo. A farra com o gasto público é um deles. Prova mais recente são as notícias sobre a pensão de R$ 24,8 mil a que se julgam merecedores os ex-governadores. Alguns passaram quatro anos. Outros, menos. Há casos estarrecedores, como o de um que vai receber por dois estados. Senadores, que já ganham uma bolada, contarão com outro contracheque a ser bancado pelo contribuinte. A lista inclui ainda outro que, por ter respondido pelo governo por apenas nove dias, será contemplado com esse prêmio de uma loteria de cartas marcadas.

De certa forma, lamento ter batizado o nosso evento de “Soldado por um dia”. Se o tivéssemos denominado “Governador por um dia”, bastaria àquelas centenas de crianças de então, hoje adultas, munidas do diploma de participação e de algumas fotos, habilitarem-se a receber uma atraente pensão. Afinal, não faz muita diferença ter sido governador por um ou nove dias. Seria a maneira de transformar em grito o murmúrio de indignação de toda uma sociedade.

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Andradas, um nome de forte

12/01/2011 por bonat

Exatos 299 metros separam os morros do Guaiuba e do Munduba, onde, em 1942, o Forte dos Andradas foi inaugurado para fazer face a possíveis bombardeios nazistas. A 5ª Bateria Independente de Artilharia de Costa, ali instalada, e a Fortaleza de Itaipu, já existente em Praia Grande, passaram a fechar e proteger a entrada do porto de Santos.

Terminada a Guerra, com o passar do tempo, ambos tornaram-se obsoletos. Hoje, Itaipu abriga uma unidade de artilharia antiaérea, enquanto o Forte dos Andradas sedia o quartel-general da Brigada de Artilharia Antiaérea, Comando estratégico do nosso Exército.

Num dos extremos da praia, pouco a pouco, foi sendo edificado um pequeno hotel de trânsito, simples e sem muito luxo, para os militares poderem desfrutar com a família, indenizando, é claro, alguns poucos dias de férias.

A simplicidade era compensada pela beleza do local, emoldurado pela mata atlântica, ainda preservada e respeitada naquele lugar, e pela existência de um sítio histórico. Mesmo assim, nos anos de 2001 e 2002, quando estive à frente da Brigada, ele não era muito procurado. Quando o Presidente Lula o descobriu, a afluência aumentou. Entre dezembro e março, para se conseguir uma vaga passou a ser necessário reservar com bastante antecedência.

O risco era de o presidente querer hospedar-se lá. Neste caso, todas as reservas seriam canceladas. Foi o que aconteceu agora. Por três semanas, ele ficou bloqueado e pelo menos trinta famílias ficaram frustradas. Provavelmente, tiveram que curtir o verão em casa ou na de parentes.

A questão é se um ex-presidente merece esse tipo de privilégio. Podem até dizer que sim, afinal, ele deixou recentemente o cargo. Mas podia, ao menos, ter esperado chegar a baixa temporada, quando não prejudicaria tanta gente.

Tenho a impressão que os irmãos Andradas, que sabiamente costuraram nossa Independência, agiriam de maneira mais ética. Por isso, mesmo depois de tantos anos, seu nome continua forte e respeitado na Baixada Santista. A denominação do agora famoso Forte dos Andradas é apenas uma das inúmeras honrarias que receberam post-mortem, homenagem evidentemente merecida.

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O olhar da Baronesa

02/01/2011 por bonat

Mais um ano se vai. Neste, como nos anteriores, uma fotografia, a mesma de sempre, de cavalos e cavaleiros perseguindo estudantes no Rio de Janeiro, volta e meia apareceu em revistas, jornais e na internet.

Em 2010, o diferencial foi a UNE ter ganho de presente uma nova sede, que consumirá R$ 44,6 milhões, o que não seria de nossa conta, desde que não saíssem do erário público. A culpa recairia, aparentemente, naqueles da foto de 1968, repetida incessantemente até que a razão maior fosse agora revelada: sacar dos cofres da viúva muito além do necessário para uma obra daquele porte.

Embora pareça patético, não é despropositado defender os equinos, que não merecem continuar a ter a imagem, por mais tempo ainda, maculada. Para você compreendê-los melhor, relato o caso que tive com Baronesa naqueles tempos longínquos.

Disseram que para entrar na baia, bastava dar um tapa na parede, que ela logo se afastaria para o lado. Uma palmada, um coice. Segunda palmada, outro coice. Só depois da terceira é que sua anca moveu-se o suficiente para eu passar espremido. Quando, finalmente, consegui chegar ao lado de sua longa face, ela fulminou-me com um olhar de “aqui não, guri”, o que eu, aos dezoito anos, realmente era.

Assim começou meu relacionamento com Baronesa, uma das inúmeras exigências curriculares da Academia Militar, que custou-me alguns tombos e voltas a pé até a baia. Travamos luta constante, um tentando provar que era mais forte e mais inteligente do que o outro.

No final do ano, Baronesa se revelaria uma campeã. Zerou, comigo em cima, a pista de saltos, ultrapassando com estilo todos os obstáculos, provavelmente para não ter que repeti-los. Queria mesmo era ver-se livre de mim e antecipar suas férias de verão.

Enquanto isso, o pau comia em Paris. “É proibido proibir”, ouvia-se em Champs-Élysées, logo repetido por alguns jovens cariocas. Gravuras de estudantes, cavalos e cavaleiros, de lá e de cá, correram o mundo. Um olhar retrospectivo impõe uma conclusão incômoda: se não havia guerra, com certeza também não havia paz. Mais incômodo ainda é admitir que havia guerra entre as duas potências, enquanto a paz era vitimada em outras nações.

Portanto, apesar de não ter formado com Baronesa o que os especialistas denominam “conjunto”, julgo importante afirmar que ela e seus semelhantes não merecem ser considerados inimigos eternos dos estudantes. Nem eles, nem os que os montavam nos anos sessenta.

O incrível é ver aqueles que hoje se beneficiam do “proibido proibir” francês admirarem um contumaz proibidor, o senhor Hugo Chávez. Existe aí mais do que uma contradição. Há um parodoxo vicioso, tal qual “erário privado”, como eles supõem ser a fonte da qual sorverão milhões para erguer a nova sede.

Embora poucos comentem, muitos os acompanham com o mesmo olhar de indignação da Baronesa, querendo dizer: “que feio, guris”.

Eleições: atendendo a milhares de pedidos

05/11/2010 por bonat

Um amigo metido a cantor foi quem inspirou o título desta crônica. Quando animava nossas reuniões com seu violão, antes de terminar, ele empostava a voz para anunciar la grande finale: “atendendo a milhares de pedidos, vou apresentar uma canção de minha autoria”. Aí, recebia vaias, pelas quais já aguardava com um sorriso maroto.

Agora chegou a minha vez de receber apupos, nem sempre bem-humorados como os que dirigíamos ao nosso amigo. Tratarei das eleições do último dia 31. Faço-o a contragosto, não por temer vaias, e sim por entender que o tema esteja praticamente esgotado. Mas, “atendendo a milhares de pedidos”, aí está.

Não irei direto ao assunto. Antes, preciso aconselhar aos que pretendam se candidatar no futuro, a não pedir o meu voto. O razão é óbvia: não acerto uma, ou quase nenhuma. Usando de metáfora futebolística, tão em voga, confesso que sempre torço pelo time mais fraco. Se o Arranca Toco Futebol Clube jogar contra qualquer desses times badalados em todas as mídias, meu coração será arrancatoquense desde criancinha. O motivo é simples: o menor salário do time famoso corresponde a toda a folha do Arranca Toco.

Nas eleições ocorre algo semelhante. Tendo a escolher pessoas desconhecidas, cujos currículos e propostas me convençam de que são, e continuarão sendo, “fichas limpas”. O resultado tem-se revelado frustrante. No primeiro turno, dos seis que escolhi, só um levou.

Se você conseguiu ler até aqui, deve estar com suas baterias apontadas na minha direção, prontas para bombardear-me: “afinal, em quem você votou no segundo turno?” Antes que dispare seus canhões, antecipo-me e lanço meus fogos de contrabateria, também na forma de pergunta: “havia algum candidato do Arranca Toco?” Certamente não.

A percepção era de que ambos pertenciam ao mesmo time, a um clube milionário. Declararam-se contra o aborto e a privatização, a favor da distribuição e ampliação de bolsas e de outras benesses recomendadas pelos marqueteiros.

Temas complexos e importantes para a nação receberam tratamento superficial. A necessidade de uma revolução na educação; os escorchantes impostos; a enorme dívida pública (interna e externa); a alarmante invasão das drogas; e a política externa, que contempla ditaduras com generosos recursos do contribuinte, enquanto nossa economia se encontra sufocada por uma infraestrutura caótica.

Caberia ao candidato da oposição ter levantado essas questões. Como não o fez, deu a entender que concordava com o status quo e não pretendia alterá-lo. Sua omissão tornou suave o caminho da candidata situacionista, montada em milionária campanha publicitária iniciada dois anos antes e amparada, em grande parte, por recursos oficiais.

Como trataram pontualmente de temas profundos e, profundamente, de assuntos pontuais, ficou difícil escolher. Mesmo assim, teria o azar de contar com o meu voto quem tivesse prometido uma bolsa para os valorosos atletas do Arranca Toco FC. Mas, como nem isso fizeram…

Pronto, estimado(a) leitor(a). Pode vaiar, mas queira-me bem. Só não queira o meu voto.

Publicado em Nacional, Política

Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê

15/10/2010 por bonat

Países em forma de salsicha, especialmente se alinhados aos Meridianos, tendem a se dividir. É o que dizem os geopolíticos. Além de estreitos, portanto facilmente seccionáveis, a disparidade climática, fruto de diferentes latitudes, afeta a personalidade das pessoas que povoam seu espichado espaço. A metafórica salsicha é apropriada para sintetizar o mapa chileno. De norte a sul, são 4.270 quilômetros, contra apenas 170 de leste a oeste. No sul predominam geladas florestas úmidas. No centro, região mais habitada, o clima é mediterrâneo. Ao norte, o deserto de Atacama é caracterizado pela ausência de chuva.

Entretanto, no Chile, fatores geográficos atuaram contra a cabalística previsão dos teóricos. A cordilheira dos Andes, barreira quase inexpugnável, o isolou da influência nem sempre desejável de vizinhos, enquanto a placa tectônica de Nazca, muito ativa, gerou violentos sismos, cujas consequências solidificaram a nação.

No início do século 20, o país foi atingido por dois grandes terremotos (1906 e 1939) que o empobreceram e quase o destruíram. Desde então, os chilenos decidiram se preparar. Por isso, os tremores de fevereiro último, dos maiores da história, não tiveram resultados ainda mais catastróficos. Embutida no planejamento para enfrentar esse tipo de situação sempre esteve a ideia de trabalho voluntário, que levou à solidariedade. A solidariedade conduziu a um sentimento de união, a um forte espírito comunitário.

É sabido que das profundezas o deserto de Atacama o Chile extrai sua maior riqueza, o cobre. De lá, em agosto, notícias rapidamente se espalharam. Dessa vez, a catástrofe estava longe das dimensões de um terremoto. De qualquer forma, eram preocupantes, pois estavam em risco 33 vidas: as dos trabalhadores da mina San José, isolados 700 metros debaixo da terra. Seu drama foi acompanhado com apreensão mundo afora. A exitosa operação de resgate, que envolveu técnicos, engenheiros, militares, psicólogos e médicos, foi comandada pessoalmente, desde o início, pelo presidente Sebastián Piñera. Dizem que ele se aproveitou politicamente. Mas poderia ter fracassado.

O fato é que, de norte a sul, as comemorações populares de alegria pela saída do último mineiro demonstraram que o Chile, desdizendo os geopolíticos, tornou-se uma grande família, cujo pai é simbolizado pela figura do presidente, seja de que partido for. Afinal, lá ainda se observa uma saudável alternância no poder.

Resta-nos aguardar pelo filme. Se pudesse, eu o intitularia “Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê”. Claro que terá um final feliz. Agora, se o fato tivesse ocorrido na China, onde não existe alternância, talvez nem notícias tivéssemos. Filme, só se fosse produzido por algum burocrata do governo.

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Corto cabelo e pinto

07/10/2010 por bonat

Ele não gostava nem um pouco quando os irmãos o chamavam de Quinzinho. Aos dezoito anos, voluntário, foi servir. Durante um ano, ficaria livre do apelido que detestava. Era agora o soldado número 512, Joaquim, da 2ª Bateria. Torcia para que os irmãos não fossem visitá-lo e revelassem aos seus companheiros aquela detestável alcunha.

Gostava de algumas coisas no quartel. De outras, nem tanto. Cortar o cabelo toda semana era uma delas. A cada sete dias, sentava na cadeira do Valdevino. Em menos de cinco minutos, ele fazia o serviço. Tinha que ser rápido para dar conta da fila. Mas, o que tinha de ligeiro, ele tinha de ruim. Era barato. Por isso poucos reclamavam.

Valdevino adoeceu. Era preciso substituí-lo. Consultaram a soldadesca para saber se havia alguém com prática no ofício. Como não apareceu ninguém, Joaquim resolveu arriscar. Levantou o braço.

Na manhã seguinte já estava empunhando uma tesoura e a navalha. Entrou a primeira vítima. Precisava caprichar. Levou vinte minutos, mas saiu-se melhor que Valdevino, o que não era difícil. Na terceira semana, Joaquim já era craque. Para azar, seu e dos demais recrutas, Valdevino ficou bom e voltou.

Quando deu baixa, Joaquim, que nunca fora muito chegado às letras (Português não era seu forte), desistiu de estudar. Resolveu seguir a vocação: abriu uma barbearia. E não é que tinha mesmo jeito para a coisa? Além do mais, era bom de prosa, qualidade indispensável a um bom “fígaro”.

Os irmãos resolveram ajudá-lo. Mandaram fazer uma placa e a fixaram na porta do estabelecimento: “Quinzinho’s Barber Shop”. Ficou tão bonita (e ainda por cima em inglês), que ele nem ligou para o apelido. A clientela aumentou. Não cabia mais no salão.

Tudo ia bem, até que decidiu ampliar o negócio. Além de cortar, iria agora pintar cabelos. Para sua decepção, mais nenhum freguês entrou na barbearia. Não conseguia entender por quê.

Caro leitor: você entraria no “Quinzinho’s Barber Shop” ao ler este anúncio: “Corto cabelo e pinto”? Certamente não.

Moral da história: analfabetos funcionais, mesmo sendo profissionais sérios e competentes, acabam falindo. Mas, se forem famosos, serão eleitos deputados federais. Tiririca é apenas um exemplo. Existem muitos outros.

Pai Eterno

03/10/2010 por bonat

Não se preocupe. Aleluias, tampouco. Mesmo crendo na existência do Pai Eterno, não tratarei de religião. Quanto mais os anos passam, leitores compulsivos tendem a duvidar dos intermediários da fé. É o meu caso. Por isso, estabeleci um contato direto com Ele. Veja o e-mail que Lhe enviei.

“De: um filho eterno. Para: Pai Eterno. Pessoas que se intitulam Seus representantes aqui na Terra têm usado o seu Santo Nome para cometer atos que me deixaram perplexo. Dirijo-me ao Senhor, o Todo-Poderoso, para saber se são verdadeiras duas histórias que contaram. Primeira: foi o Senhor que, durante a Santa Inquisição, determinou que humanos fossem jogados na fogueira? Segunda: foi o Senhor quem mandou que fiéis assumissem o comando de aviões repletos de passageiros e se lançassem sobre as torres gêmeas? Aguardo a resposta, com fé inabalável em sua infinita bondade, orando para que ela seja negativa”.

Ele ainda não se pronunciou. Certamente, por absoluta falta de tempo. É compreensível, tendo em vista que incontáveis filhos eternos como eu devem lotar Sua caixa de entrada.

A propósito de filhos eternos, num país de poucos leitores, é impossível deixar de comemorar a premiadíssima obra de Cristovão Tezza. Passear pelas páginas de seu romance autobiográfico nos leva a questionar sobre padrões de normalidade fortemente enraizados, que nos impedem de enxergar humanidade naqueles que não se encaixam em seus modelos. Isso nos tira do sério.

Algo mais nos tira do sério: constatar que o governo não tem dado aos “filhos eternos” a mesma atenção que dedica a outros filhos, estes sem nenhuma necessidade especial. São os que sofrem de “autismo de conveniência”, julgam-se merecedores das benesses governamentais, incapazes de sair da sombra do Estado, pai eterno para quem vive num confortável mundo à parte.

Temendo não ter sido entendido, citarei apenas um exemplo: os sindicalistas, cujas centrais, mesmo nadando em dinheiro, recebem o agrado de polpudos recursos oficiais. Por isso, decidi enviar outra mensagem ao (verdadeiro) Pai Eterno. Aí está.

“De: um filho eterno. Para: Pai Eterno. Tomo a liberdade de dirigir-me novamente ao Senhor, Todo-Poderoso. Quero fazer uma denúncia. Mais uma vez (o Senhor, claro, vai lembrar-se de Stalin, Hitler, Mussolini, Mao e outros tantos que hoje vivem com o Demo), humanos poderosos tentam substituí-Lo aqui na Terra. Com o dinheiro arrancado de seus semelhantes, dominam a quem a eles se submete. O Senhor sabe, claro que sabe, da desgraça que seres desse naipe já causaram. Agora mesmo, querem obrigar os habitantes de certa ilha, há cinqüenta anos acostumados às sombras dos coqueiros, a trabalhar, a ter iniciativa empresarial. Claro que, se Deus (rsss, o Senhor) quiser, será possível. Mas vai demorar. Por aqui, na América do Sul, promete-se um coqueiro por cidadão. Na Venezuela já é realidade. O Brasil ainda resiste, graças à parte da imprensa que ainda não aceitou receber seu coqueiro. Estou confuso, inseguro. O que devo fazer? Concordar? Por quantos coqueiros? Com fé, aguardo a orientação de sua infinita bondade.”

Caro leitor: você conhece uma praia com belos coqueiros? Onde?

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Mãe de Candidato

29/09/2010 por bonat

Ela amava o filho. Por isso, andava inquieta. Desde que ele resolvera entrar para a política, começara a preocupar-se. Agora, na antevéspera das eleições, não conseguia pegar no sono. Vestiu uma roupa qualquer, passou um pente no cabelo, pegou a bolsa e saiu.

Fazia noite escura, muito escura. Não havia lua. Quando deu por si, estava no canteiro que separa as pistas da avenida que margeia o cemitério.Vagou durante algum tempo entre as centenas de cartazes espalhados pelo gramado. Com eles, os candidatos visavam atrair os olhares embarcados nos milhares de automóveis que trafegam diariamente por ali. Àquela hora, porém, tudo estava deserto.

Sentou-se num banco, de costas para o portão do cemitério e de frente para um cartaz do filho: nome, número e foto, com um sorriso que o deixava ainda mais bonito. Encimando tudo, lia-se: “100% Ficha Limpa”. Que bom se fosse verdade. Por amá-lo tanto, conhecia suas fraquezas.

Súbito, um alarido de vozes femininas atrás de si causou-lhe medo. Não se virou. Tirou da bolsa o espelho de maquiagem. Nele, viu refletida a imagem de dezenas de caveiras. Após ouvir o ranger do pesado portão de ferro, assistiu-as vindo em sua direção. Ficou apavorada. Quis levantar, mas não conseguiu.

Petrificada, testemunhou uma cena tétrica. Com a ponta do osso que um dia fora seu indicador, as corcundas figuras esqueléticas escreviam sobre alguns cartazes: “Não Eleja”. Em seguida, cada uma procurava outros cartazes, sempre do mesmo candidato, para repetir aquele ato de crime eleitoral.

Quando completaram a obra, elas novamente se reuniram em alarido, passaram pelo portão de ferro e o fecharam. Voltou o silêncio.

Vagarosamente, a mãe que amava o filho-candidato foi-se recuperando do susto. Faltava pouco para o sol nascer, quando tomou uma decisão radical. Olhou à volta. Não havia ninguém por perto. Da mesma bolsa, sacou o batom e, um a um, traçou enorme “X” sobre o “100% Ficha Limpa” dos cartazes do filho.

Na manhã seguinte, os candidatos que se sentiram prejudicados apelaram para a justiça eleitoral. Aqueles que tiveram suas propagandas mantidas intactas eram os principais suspeitos. De nada adiantou. Não havia tempo hábil para investigar, nem era possível adiar a eleição.

Terminada a apuração, constatou-se vexatório erro nas pesquisas. Mais tarde, aprofundando os estudos, os afamados institutos chegaram à conclusão de que todos os candidatos órfãos de mãe haviam perdido. Outro derrotado foi o candidato que tivera seus cartazes manchados de batom. Mas, para surpresa dos analistas, a mãe deste último ainda era viva. Muito viva por sinal.

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Ventos de esquerda movem moinho

11/09/2010 por bonat

Pequeno, menor do que qualquer anão, compulsoriamente eu acompanhava meu pai e seus amigos em suas pescarias. Era no Miringuava, um riacho próximo de Curitiba. Ficava com pena ao ver centenas de lambaris serem retirados do seu habitat. Empregando “tecnologia de ponta” – anzóis e iscas – os pescadores atraíam seres minúsculos e indefesos. Essa desproporção tecnológica me fazia mal. Questão de princípios… Aí, eu me afastava do pesqueiro. Preferia fugir, seguindo as margens do rio.

Numa das fugas, deparei-me com uma roda d’água. Curioso, resolvi conferir como funcionava aquela traquitana que girava teimosamente lenta. Minhas pernas curtas de piá escalaram alguns degraus e me levaram a uma grande descoberta. Os polacos que viviam por ali usavam a força das águas suaves do Miringuava para transformar em farinha o milho que tinham cultivado com seu suor.

Já faz muito tempo que isso aconteceu. Tanto, que fomos induzidos a crer que princípios são dispensáveis aos humanos. Os poloneses do Miringuava já morreram. Seus lambaris estão desaparecendo. E as obsoletas rodas d’água perderam o encanto. São moinhos de vento que agora atraem as atenções.

Mas por quê, se, como as rodas-d’água, baseiam-se em mesmos e antigos princípios? Porque, para sua sorte, os moinhos de vento viraram nome de um hospital voltado para a classe “A” de Porto Alegre. Foi lá que nasceu o neto de uma das candidatas de esquerda (ser de esquerda é a nova mania nacional, tão chique quanto a clientela do Moinhos de Vento) à presidência da república.

Para a felicidade de todos, ele chegou a este mundo numa maternidade de primeira linha. Inteligente, de muito bom-gosto, a família contrariou os princípios que a avó-candidata apregoa abertamente. Mostrou possuir, acima de tudo, juízo.

Se eu fosse da direção do Moinhos de Vento, mandava um cartão para a suíte do pimpolho. Escreveria de próprio punho, com a melhor das minhas letras: “Seja bem-vindo, Gabriel. Hasta la vitória! Mas, cuidado, nunca pelo SUS”.

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Avenida Independência

31/08/2010 por bonat

“A quarenta metros, entre à esquerda na Avenida Brasil”. A ordem parte do GPS (Global Positioning System ou, em português, Geo-Posicionamento por Satélite) afixado no painel do carro. Se não obedecermos, uma voz, suave para não melindrar nosso brio nacionalista, chamará à atenção, o aparelho recalculará a rota e continuará a comandar nosso destino.

Embora o Sete de Setembro seja festejado como a data da independência política, ela só se concretizou de fato alguns anos mais tarde. A proclamação de D. Pedro, em 1822, às margens do Ipiranga, não foi aceita pelas tropas portuguesas ainda fortes em várias Províncias. Obrigá-las a voltar para Portugal custou muitas vidas. Para não me alongar, recordarei apenas das 252 (para alguns foram 254) asfixiadas nos porões do brigue “São José Diligente”, no porto de Belém. Faço questão de mencioná-las nestes tempos de “nunca antes na história”, pois andamos com a sensação de que surgimos do nada e, por isso mesmo, somos obrigados a importar heróis como guevaras e outros quetais, além de avanços como o GPS.

Entretanto, se alcançamos a independência no campo político, o mesmo não ocorreu no econômico. Teríamos obtido se, ao longo do tempo, houvéssemos investido em educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Culpa das elites, tanto as do período imperial quanto do republicano. Fortemente influenciadas pela Igreja, elas se encantaram com o brilho do ouro e não com o da ciência, para quem os papas sempre fizeram careta, temerosos de ver seus dogmas desmentidos, como aquele de que a Terra era o centro do universo. Induziram-nos a crer que Deus era brasileiro. Portanto, nada nos faltaria.

Nossas elites políticas (elas detestam ser assim denominadas) contemporâneas estão tornando a realidade ainda pior. É só olhar nossa pauta de exportações para perceber. Tendo como carro-chefe o minério de ferro, ela reflete uma crescente subordinação ao humor econômico mundial e ao avanço de outras nações. Para não ficar na mesmice de velhos exemplos, cito os recentes da Coreia do Sul e da China. Durante décadas, elas investiram maciçamente em educação. Agora colhem os resultados. Enquanto isso, por aqui, filosofia e sociologia são acrescidas aos currículos do ensino médio, com prejuízo para as já mal-ensinadas ciências exatas.

Não nos faltam recursos. Faltassem, e o governo não doaria todo ano um montão de dinheiro para as centrais sindicais, que, diga-se de passagem, nada produzem. Ao priorizá-las, em detrimento da educação e do fomento à pesquisa científica e tecnológica, está nos condenando ao atraso. Essa dinheirama toda representaria um investimento se fosse aplicada na oferta de mais bolsas de estudos pelo CNPq. Somente assim as gerações futuras teriam alguma chance de ouvir dos seus GPS: “Entrem na Avenida Independência e sigam em frente”.