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Quem quer destruir nosso continente? (Juan Koffler)

08/04/2017 por bonat

Tardou, mas aconteceu. O processo iniciado pelo truculento tenente-coronel Hugo Chávez e continuado por seu discípulo – o não menos celerado, Nícolas Maduro (ambos filhotes de Fidel) -, imprimiu à castigada pátria venezolana, a partir de 1999, um regime de terror em sentido lato. Próximo de completar duas décadas de literal tortura a essa castigada sociedade, o fechamento do Poder Legislativo e a transferência das suas responsabilidades para a Corte Suprema, desestruturam grosseiramente a tripartição montesquiana dos poderes, rumando para uma descarada “cubanização”, pesadelo criado por mentes enfermas, alienadas e egocêntricas.

Em concomitância com os movimentos maciços contra a ditadura criminosa e sequer disfarçada de Maduro na Venezuela, a capital do Paraguai assistiu noites atrás sua parcela de “terror vermelho”: a Casa Congressual amanheceu em chamas em razão de outro tipo de golpe: uma manipulação espúria de senadores que, na calada da noite, buscavam aprovar projeto de lei que reabilita a reeleição presidencial, com vistas a trazer novamente o questionável ex-presidente de tendência esquerdista, Fernando Lugo (que tanta polêmica já causou, recentemente), ao poder. Contabilizam-se mortos e feridos nesse confronto sócio-político, que representa mais um grotesco conluio comunista rumo à tomada e destruição de todo o continente.

Brasil, nesta “Era Lulo-Petista” – leia-se “comunista disfarçada” -, já acumula longos 14 anos de governança irracional, destrutiva, populista, incompetente, capciosa, causadora de rombos bilionários aos cofres da União, atrasos sociais, desestabilização econômica, insegurança jurídica, nessa insana zaga dos partidos ditos “de esquerda” (mas que congregam mais capitalistas do que o mais ferrenho e desavergonhado capitalista de direita). Um verdadeiro paradoxo social, digno (se existisse) não de um terceiro, mas de um quinto mundo.

Nestes 14 últimos anos, Brasil literalmente só regrediu (em amplo sentido), embora a grande imprensa (alinhada com as agremiações esquerdistas e regiamente paga por estas) venha tentando disfarçar a monstruosa desconstrução sócio-político-conjuntural da nação, exaurindo-a até seus últimos vinténs e também ao seu povo, em nome de um “socialismo para lunático ver”. Todos os índices, literalmente (econômico, político, social, educativo, laboral, conjuntural, motivacional, etc.), desandaram em queda livre, o que pode ser observado a olho nu e sentido na própria pele por toda a população.

Em suma, tudo o que esses degenerados comunistas já causaram de prejuízo à sociedade brasileira, aponta, inefavelmente, para dois funestos destinos: a quebradeira da nação ou a escravização total da sua sociedade. Tal qual os exemplos inquestionáveis de Cuba (há quase 60 anos), Venezuela, Equador, Colômbia, Argentina (que ainda vive às voltas com essa libertinagem ideológica), Bolívia, Peru, e, alhures, Coreia do Norte, China, Rússia. O continente perdido…

América do Sul e Central, não se negue, formam um continente extremamente rico em amplo sentido: belíssimas costas, banhadas por dois oceanos; opções multi climáticas (temperado, calor, frio, frio extremo – neve -, chuvoso, seco) e uma topografia diversificada e de causar inveja a outros distantes cantos deste castigado planeta Terra. Qual, então, a grande problemática que nos assola, historicamente falando? Nossa herança genética (legada por nossos colonizadores), associada a um nível cultural extremamente díspar, a um sistema educativo paupérrimo (em sentido lato, do grau mais elementar ao mais elevado) e manipulado conforme os interesses políticos vigentes , a níveis de alienação social que beiram o escandaloso e o autofágico.

O velho e surrado adágio popular é certeiro em sua determinação: ‘em terra de cego, quem tem um olho é rei’. Nada mais verdadeiro. Aos três exemplos supracitados, em termos de escândalos sócio-políticos, somam-se praticamente todos os demais países do continente, cada um com sua “lista especial de crimes”. Em situação similar aos países supra, encontram-se, com maior ênfase: Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Chile, Colômbia, Equador, apenas para citar os de maior expressão. Nestes, os governantes são claramente populistas de esquerda e rezam pela cartilha marxista-leninista. A comprovar tal assertiva, está a ostensiva situação sócio-político-econômica dessas nações, cujas economias e políticas sociais transparecem claros e gravíssimos problemas de desequilíbrio ostensivo, fator que os corrói lenta, mas persistentemente, e que está intimamente associado à questão da ideologia, ou melhor, da falsa e capciosa ideologia das massas. Uma das mais grotescas, capciosas e hediondas falácias, calcada no destrutivo e mais que utópico marxismo-leninismo.

Atrevo-me a pontualizar, com bastante segurança, que o “grande vilão” encontra-se, em primeiro termo, nos bancos escolares (do primário ao universitário) e, em segundo termo, no seio familiar. É nestes ambientes que se consolida a influência de ideologias em mentes despreparadas – que eu cognomino de “primitivas” -, pois que instáveis, inseguras e terreno fértil para o inculcamento de doutrinas que propiciem a fácil submissão. Eis o grande “X” da questão social.

Enquanto não tivermos uma substancial reformulação em nossos determinantes educativos (familiar e formalmente), continuaremos a penar pela ignorância inerente às nossas massas alienadas, despreparadas e irresponsáveis pelo próprio futuro que lhes aguarda, no presente e nas futuras gerações de “escravos úteis”.
Quem viver, verá…

JUAN KOFFLER: Jus sociólogo, escritor, professor-orientador de Mestrado e Doutorado, brasileiro naturalizado, amante e defensor ferrenho dos animais (sem exceção) e da natureza, fã incondicional de música (principalmente clássica), leitor incansável, jogador de xadrez, fã incondicional da aviação e do volovelismo. Mora em Santa Catarina.

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A Mulher do Piolho (Joaquim Cardoso Filho)

30/03/2017 por bonat

Quando me apareceu o primeiro relógio à prova d’água, foi uma admiração. Tratava-se de um Mido, automático. De pronto, sonhei possuir um, mas estava muito distante de minhas possibilidades. Imaginem, amigos, nos idos de minha adolescência, ter ao pulso um relógio de marca famosa que, além de automático, permitia ao dono entrar na água com ele. Poder mergulhar numa piscina, num rio, no mar, ou ir para debaixo de um prosaico chuveiro, sem necessidade de tirá-lo do braço. Era modernidade para poucos felizardos, considerei, e não me ocorreu perguntar que grande utilidade teria aquilo. Que diferença faria olhar ou não as horas, dentro d’água, em meio à diversão? Restou do episódio o instante de deslumbramento.

A menção ao relógio à prova d’água fica por aqui. Ocorreu casualmente, por correlação algo maluca. Tinha antes, na cabeça, o Brasil, e refletia ser um país à prova de esperança tamanha a degradação que o acomete, e acabou uma coisa puxando outra. Continuemos, pois. Dizia que o Brasil é à prova de esperança. De fato, é preciso muita persistência, muita fé, para continuar acreditando que as coisas poderão se consertar por aqui. As forças do atraso, alimentadas pela ignorância ou pura má-fé, trabalham contra a limpeza moral. Aliás, o Brasil seria uma potência econômica, um país do Primeiro Mundo, não fossem a burrice e corrupção que desgraçadamente nos vitimam desde os tempos cabralinos. Temos abundância de terras férteis, riquezas minerais, grandes rios etc. Tivemos e temos grandes empreendedores, como o saudoso empresário Antônio Ermírio de Morais. Têm-nos faltado, contudo, no mundo da política, os estadistas. Homens de elevada estatura moral e competência para administrar o generoso potencial que a natureza nos oferece. Sobra-nos, por outro lado, a ladroagem. Eis uma combinação letal.

Vemos, agora, as reações contra o governo de Michel Temer, orquestradas pela esquerda deletéria. Antes, é preciso dizer que desgraçado é o país em que uma parcela ponderável de seu povo tem como ídolo um infame corrupto e mentiroso como Lula da Silva, travestido de líder messiânico. De lascar, amigos! Deste jeito, não há Deus que nos ajude. Sigamos. A favor de Temer, sejamos francos, talvez se tenha pouco ou nada a dizer. Basta lembrar que, até poucos meses atrás, ele e seu partido (PMDB) eram sócios da administração petista que afundou o País. No entanto, tornou-se a única porta para se sair do abominável governo de Dilma Roussef. Apesar dos gritos de “golpe! golpe!” dos idiotas vermelhos, era ele ou ele, dentro do que a Constituição Federal permitia, e tivemos de nos resignar com o que foi possível.

Com Temer posto na presidência como pneu socorro no meio da viagem, surgiu a tímida esperança de que pudesse fazer razoável transição até o pleito presidencial de 2018. Reconheça-se que vem tentando. Tem em seu projeto de governo reformas importantes como a da previdência social, a tributária e das leis trabalhistas, mas, para aprová-las, precisa negociar com, segundo muitos, o mais calamitoso Congresso de nossa sofrida história republicana. Piora que o problema não se restringe ao legislativo. A enfermidade moral é generalizada e alcança, inclusive, o judiciário, daí a tremenda dificuldade em remover os privilégios das castas. Todos dizem querer justiça social, mas ninguém aceita abrir mão, por menos que seja, de direitos e regalias corporativas absurdas, traduzidas em ganhos polpudos e aposentadorias generosas pagas com dinheiro público.

Será complicado arrumar a casa. O Brasil conta, a rigor, não com partidos políticos, mas com quadrilhas organizadas preocupadas muito mais em tungar o dinheiro do contribuinte e legislar em cima de interesses eleitoreiros ou espúrios, do que cuidar das urgentes necessidades do País. Agora, sob a ameaça representada pela Operação Lava-Jato, as ratazanas se desesperam e se juntam no esforço em construir esgotos legais que as salvem. É preciso, como declarou o senador Romero Jucá, um dos muitos envolvidos em escândalos financeiros, estancar a sangria. Existem exceções, sem dúvida, em meio aos malandros e rapinantes (preferiria rapineiros, mas o dicionário ainda não anotou o vocábulo) que povoam nosso mundo político, mas quase sempre atuam como fazem os auxiliares dos árbitros de futebol: agitam suas bandeirinhas, mas não apitam nada.

Eis, amigos, o país que parece impermeável a esperanças. Mas não dá para se entregar aos bandidos. Precisamos ter a teimosia da mulher do piolho, de antiga anedota.

Março de 2017.

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Vendo caminhão, mas não aceito cartão corporativo

06/10/2016 por bonat

“Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar de segunda a sexta?”. “Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama”. Bino encontrou essas frases de para-choque em uma revista especializada em logística. Mostrou-as à mulher e, como estava para se aposentar, aproveitou para revelar um desejo de criança: sonhava ser caminhoneiro. Convenceu-a a aplicar o dinheiro do fundo de garantia na aquisição de uma carreta. Comprou uma de segunda mão.

“Dirigido por mim, guiado por Deus”, estava estampado na traseira. É a campeã das estradas. Queria mudá-la. Não gostava de clichês. Foi o primeiro problema. Pediu sugestão à família. Nada, além da recomendação de não falar mal da sogra, outra preferida das estradas brasileiras. Igual desafio foi o de alterar a categoria da sua habilitação. Conseguiu somente na terceira tentativa.

Queria enturmar-se com os novos colegas de profissão. Compareceu à reunião do sindicato. Olharam-no com desconfiança. Não tinha pinta de caminhoneiro. Precisava disfarçar. Comprou camiseta, boné e aquela toalhinha, marca registrada da categoria. Suas múltiplas utilidades vão, desde enxugar o suor do rosto, até limpar a vareta de óleo do motor. Mesmo assim, não conseguiu se enturmar.

E o problema da frase continuava a atormentá-lo. Sem ela, o caminhão parecia nu. Só faria o primeiro frete após bolar alguma. Na busca de inspiração, foi à garagem de uma transportadora. “Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar”. “Carioca nem liga mais para bala perdida: entra por um ouvido, sai pelo outro”. “Cabelo ruim é que nem assaltante: ou tá armado ou tá preso”. Não era bem o que procurava.

Matutou muito. Acreditou ter, enfim, encontrado a solução: “Se quem dirige o Brasil tem cartão corporativo, quem dirige caminhão também deveria ter”. Crente que iria abafar, revelou-a na segunda visita que fez ao sindicato. Sonora vaia foi o que recebeu. Nunca mais voltou.

Era o que faltava para tomar a decisão de afixar um “vende-se” no para-brisa. Quem comprasse, ganharia uma camiseta, um boné e a toalhinha famosa. Levaria, também, o “Dirigido por mim, guiado por Deus”, mais apropriado para a rampa do Palácio do Planalto do que para as nossas estradas cheias de buraco.

ALGUMAS ESPIRITUOSAS FRASES DE PARA-CHOQUE DE CAMINHÃO

1.Beijo é igual ferro elétrico: liga em cima e esquenta embaixo.

2.Não mando minha sogra pro inferno porque tenho dó do diabo.

3.A velocidade que emociona é a mesma que mata.

4.Um falso amigo é um inimigo secreto.

5.Quem ama a rosa suporta os espinhos.

6.Se casamento fosse bom não precisaria de testemunhas.

7.Preguiça é o hábito de descansar antes de estar cansado.

8.Direito tem quem direito anda.

9.Mulher é como índio: pinta-se quando quer “briga”.

10.Por que ficar de braços cruzados se o maior homem morreu de braços abertos??

11.Para que um olho não invejasse o outro, Deus colocou o nariz no meio!!

12.O amor é livre; o sexo é pago.

13.70 me passar, passe 100 atrapalhar.

14.Quando homem valer dinheiro, baixinho serve de troco.

15.Sogro rico e porco gordo só dão lucro quando morrem.

16.Não sou detetive mas só ando na pista.

17.Cada ovo comido é um pinto perdido.

18.Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana.

19.Pobre é como cachimbo: só leva fumo!!

20.Mulher é como remédio: agita-se antes de usar.

21.Casei-me com Maria, mas viajo com Mercedez.

22.Se não fosse o otimista, o pessimista nunca saberia como é infeliz.

23.A calúnia é como carvão: quando não queima, suja.

24.A mata é virgem porque o vento é fresco.

25.Em casa que mulher manda até o galo canta fino.

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$39.000,00 – o astronômico preço de um juiz

25/08/2016 por bonat

Quase toda a população de Lagoa Serena coloria o estádio municipal. Verde Futebol Clube e Esporte Clube Amarelo fariam a grande final. Na tribuna de honra, o presidente da Liga estava ansioso. Como as arbitragens eram alvo de constante crítica, escalara o juiz mais experiente, que valia-se da sua antiguidade no quadro para ter um salário de 39 mil dinheiros. Segundo ele, juízes tinham que ganhar muito bem para não se venderem. O custo era altíssimo. Poderia levar a Liga à falência. Mas, diante da ameaça de paralização do campeonato, ela tivera que ceder: o teto remuneratório pulara para $39 mil.

Quando o trio de arbitragem entrou em campo, 111 mil dinheiros passaram pela cabeça aflita do presidente: 39 do juiz e 36 de cada bandeirinha, que, recém-admitidos, recebiam um pouco menos. Raríssimas pessoas em Lagoa Serena, sequer os principais astros de Verde e de Amarelo, ganhavam tantos dinheiros por mês.

Os locutores das rádios, pouco versados em cerimonial, ficaram confusos ao referir-se ao juiz. Como o seu salário era muito alto, trataram de mostrar respeito. Uns o chamaram de “sua excelência”; outros, de “sua senhoria”. O uniforme era impressionante, todo preto para impor autoridade. Além do escudo da Liga, bordado na altura do coração, exibia outros penduricalhos: a logomarca de uma cerveja, de uma pizzaria e de uma casa lotérica.

Começo de jogo. Marcação cerrada. Muitas faltas. A torcida do Amarelo se impacienta. “Sua senhoria” (ou excelência?) só apita a favor dos verdes. O primeiro tempo termina em zero. Início da segunda etapa. O centroavante do Verde atira-se na área. “Sua excelência” (ou senhoria?) marca pênalti. É a gota d’água… A torcida amarela invade o campo. A verde não deixa por menos: invade também. Rapidamente, o juiz aciona a polícia e sai do campo escoltado. Que ironia: policiais, que ganham míseros mil dinheiros, protegendo um juiz de 39 mil dinheiros!

Nos jornais, o saldo da tragédia. Dois mortos e hospitais lotados. Cadeias abarrotadas. O juiz declara não se sentir responsável pela invasão do campo. Repórteres concordam e põem culpa na polícia.

O pior estava por vir. Vários torcedores acionaram a Liga e os clubes por danos físicos e morais. Ganharam. Verde e Amarelo fecharam as portas. A Liga ainda tentava sobreviver, até que o próprio juiz entrou com uma ação. Não satisfeito, disse que iria se aposentar, mas não para receber apenas 39 mil dinheiros. Queria mais. Que fossem incluídos os “extras” que deixara de lucrar como garoto-propaganda da cerveja, da pizzaria e da casa lotérica. Também ganhou.

Em consequência, a Liga faliu, o verde e o amarelo sumiram das ruas, o povão passou a torcer por times de outra cidade e o juiz, agora aposentado, faz questão de ser ainda chamado de “sua excelência”. Pelo medo que impõe, considera-se merecedor de respeito, inclusive da imprensa, sempre tão corajosa para criticar a turma de farda.

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Joguei a toalha

13/07/2016 por bonat

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso sentir-me assim faz algum tempo. As más notícias, que leio e ouço todos os dias, causam-me tanto aborrecimento, que acabaram secando a minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, algo de positivo.

Se, como dizem, a inspiração está em toda parte, creio que a minha fugiu de Curitiba. Escondeu-se em lugar incerto, bem longe do Brasil. Parece não ter suportado a verdadeira avalanche de maus acontecimentos, verdadeira tragédia promovida pelos nossos atuais dirigentes. Escapuliu de tanta corrupção, misturada à incompetência e a mentiras deslavadas. Livrou-se do desemprego e de uma velha e perigosa conhecida: a temida inflação.

E lá se foi a minha inspiração, envergonhada da crise moral que nos assola. Cansei de procurá-la e, há quatro meses, tenho poupado os leitores deste meu blog de qualquer crônica de minha lavra.

E olha que assunto é o que não falta para quem, como eu, é metido a cronista. É só abrir o jornal e ele está lá, quase pronto, escrito pelos nossos “representantes”. Basta lapidá-lo um pouquinho, e transformamos a roubalheira generalizada em um belo texto, agradável de ler, como bem merecem os nossos queridos leitores.

Mas lhe confesso: desisti, “joguei a toalha”, pois até a inspiração me roubaram. Assim, você, caro leitor, será poupado de mais uma crônica minha. Até quando? Sinceramente, não tenho ideia. Nem sei se voltarei a escrever algo saboroso de ler e de apreciar, como você merece.

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Minha utópica candidata

13/02/2016 por bonat

O combate à dengue de 2001, na Baixada Santista, não alcançara os resultados esperados. Apesar da seriedade e dedicação dos agentes de saúde, muitos moradores, temerosos por sua segurança, não os autorizaram a entrar em suas residências, fossem humildes barracos ou casas luxuosas.

Em 2002, a Brigada Antiaérea participou da campanha. Por confiarem nos soldados, as pessoas abriram para eles os seus portões de ferro. O “aedes aegypti” finalmente foi neutralizado.

Sempre que pude, acompanhei algumas das minhas equipes. À medida que elas se deslocavam no sentido centro-periferia, observava o gradativo aumento do número de crianças. Nas favelas, vi soldados cercados por verdadeiros batalhões de brasileirinhos atraídos pela farda que, via de regra, faz parte do imaginário infantil. Ali pude constatar a dura realidade da nossa pirâmide social, cuja base se amplia de forma preocupante.

Militares, por formação (ou deformação), são exageradamente otimistas em relação ao seu país. Não sou exceção. No entanto, cada vez que entrava no único cômodo de um barraco onde se amontoavam seis, sete ou mais pessoas, meu lado pessimista resmungava: como pode uma família tão numerosa sobreviver com algo em torno do salário mínimo? Como se sustenta, educa, veste e cuida da saúde de tantas pessoas? Como poderá a nossa economia, por mais pujante que venha a ser, gerar emprego para tanta gente?

Os atuais presidenciáveis parecem ter resposta para as minhas aflições. Discursam horas, explicando como resolver os problemas da educação, fome, saúde, do desemprego, da segurança, reforma agrária, distribuição de renda e da prostituição infantil. Brilhantes projetos, porém meros paliativos se for mantido o ritmo de crescimento daqueles batalhões mirins das favelas.

Preocupa-me o fato de candidato algum abordar, de forma séria e responsável, o tema demografia. Acredito, não sem lamentar, que alguns daqueles meninos de 2002 já foram cooptados pelo crime organizado. Que, das meninas, algumas foram arrastadas para a prostituição infantil. O que mais falta para acionar o sinal de alerta? Que mais crianças sigam o caminho sem volta do tráfico e da prostituição?

Dias atrás, meu lado otimista, aquele que é deformado, teve novo alento. Ao ser questionada pelo repórter Pedro Bial, da Globo, sobre a razão de as coisas funcionarem em Nova Pádua, uma professora foi taxativa: “é porque aqui existe controle da natalidade”. O que ela quis dizer, e disse com outras palavras, é que naquela pequena cidade gaúcha pratica-se a paternidade responsável.

A lição da jovem professora parece bem clara: a de que todas as soluções para o Brasil não passarão de devaneios enquanto não for estendido à base da pirâmide social o direito já adquirido pelas classes média e alta – o de poder decidir quantos filhos se deseja ter. Se isso não ocorrer, a sina de muita criança da periferia será a de continuar a viver amontoada – no barraco, na febem e, depois, na casa de detenção.

Como, ao que parece, não entenderam a lição, nossos presidenciáveis continuam com seus utópicos discursos. Utopia por utopia, meu voto vai para a corajosa professorinha gaúcha, minha utópica candidata.

Publicado em Nacional, Política

Mãe de Candidato

27/01/2016 por bonat

Ela amava o filho. Por isso, andava inquieta. Desde que ele resolvera entrar para a política, começara a preocupar-se. Agora, na antevéspera das eleições, não conseguia pegar no sono. Vestiu uma roupa qualquer, passou um pente no cabelo, pegou a bolsa e saiu.

Fazia noite escura, muito escura. Sequer lua havia. Quando deu por si, estava no canteiro que separa as pistas da avenida que margeia o cemitério.Vagou durante algum tempo entre as centenas de cartazes espalhados pelo gramado. Com eles, os candidatos visavam atrair os olhares embarcados nos milhares de automóveis que diariamente trafegavam por ali. Àquela hora, porém, tudo estava deserto.

Sentou-se num banco, de costas para o portão do cemitério e de frente para um dos cartazes do filho: nome, número e foto, com um sorriso que o deixava ainda mais bonito. Encimando tudo, lia-se: “100% Ficha Limpa”. Que bom se fosse verdade. Por amá-lo tanto, conhecia bem as suas fraquezas.
Súbito, um alarido de vozes femininas às suas costas causou-lhe medo. Não se virou. Tirou da bolsa o espelho de maquiagem. Nele, refletia-se a imagem de dezenas de caveiras. Após o ranger do pesado portão de ferro, percebeu que vinham em sua direção. Ficou apavorada. Quis levantar. Não conseguiu…

Paralisada, testemunhou uma cena tétrica. Com a ponta do osso, que um dia fora seu indicador, as corcundas e esqueléticas figuras escreviam sobre alguns cartazes: “Não Eleja”. Em seguida, cada uma procurava outros cartazes, sempre do mesmo candidato, para repetir o ato, um verdadeiro crime eleitoral.

Quando completaram sua obra, elas novamente se reuniram em alarido, passaram pelo portão de ferro e o fecharam. Voltou o silêncio.

Vagarosamente, a mãe que amava o filho-candidato foi-se recuperando do susto. Faltava pouco para o sol nascer, quando tomou uma decisão radical. Olhou em volta. Ninguém por perto. Da mesma bolsa que sacara o espelho pegou o batom e, um a um, traçou enorme “X” sobre o “100% Ficha Limpa” dos vários cartazes do filho.

Na manhã seguinte, os candidatos que se sentiram prejudicados apelaram para a justiça eleitoral. Aqueles que tiveram suas propagandas mantidas intactas eram os principais suspeitos. De nada adiantou. Não havia tempo hábil para investigar, nem era possível adiar a eleição.

Terminada a apuração, constatou-se vexatório erro nas pesquisas. Mais tarde, aprofundando os estudos, os afamados institutos chegaram à conclusão de que todos os candidatos órfãos de mãe haviam perdido. Outro derrotado foi o candidato que tivera seus cartazes manchados de batom. Mas, para surpresa dos analistas, a mãe deste último ainda era viva. Muito viva por sinal.

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Uruguaiana: desempregada, mas campeã.

29/08/2015 por bonat

Quem foi Rowan? Talvez poucos saibam ou se lembrem. Pode ser que “Uma Mensagem a Garcia” reavive a memória dos mais velhos. Foi esse o título da matéria do jornalista Elbert Hubbard para a revista “Philistine”. Escrita em 1889, sem muitas pretensões, alcançou tanto sucesso que se multiplicou em milhões de cópias, nos mais diferentes idiomas. Em síntese, Rowan, tendo recebido a missão quase impossível de entregar uma mensagem ao chefe dos insurretos cubanos, o General Garcia, deu conta do recado, após ter atravessado a pé um país totalmente hostil. A partir daí, ele é tido como padrão para todos os mensageiros e, também, um exemplo para outros profissionais.

Desde as mais priscas eras, o homem tem sido o mensageiro mais confiável. Entretanto, quando a rapidez era necessária, o pombo o substituía. Com o tempo, os pombos-correios, apesar de sua capacidade de voltar para casa, mesmo a muitos quilômetros de distância, tornaram-se vítimas do “desemprego funcional”: acabaram substituídos pela máquina. Consta que, até recentemente, o exército russo mantinha uma “divisão” de pombos-correios. Na Inglaterra, há cerca de dez anos, um hospital os usava para levar amostras ao seu laboratório, por serem rápidos e não precisarem enfrentar o trânsito. E só…

Impossível resistir ao avanço tecnológico. O telégrafo, o rádio, o telefone, o fac-símile, a internet e, obviamente, os meios de transporte – navio, trem, automóvel e avião – seriam capazes de levar mensagens e cargas cada vez mais longe e com maior velocidade. Ao pombo-correio restou o consolo de ficar lembrado na voz de Moraes Moreira: “Pombo correio voa depressa/E esta carta leva para o meu amor…” Sua última esperança, remotíssima, de voltar ao batente, será no dia em que todos os demais meios deixarem de funcionar.

Porém, o mais importante dos mensageiros, o humano, continua em atividade. Existem mensagens e cargas que os meios eletrônicos (ainda) não conseguem enviar. Os carteiros representam a face mais emblemática do homem-mensageiro. E, apesar de menos relevantes, os correios continuam a desempenhar importante papel.

Mas não é que os pombos-correios ainda têm alguma chance? Pelo menos é o que pensam os columbófilos (criadores de pombos). Descontando-se o seu amor às aves, pode ser que tenham razão. Vejam só o que alguém postou recentemente no facebook: “O que está acontecendo com os correios? Há alguns dias, apresentei-lhes uma reclamação pela demora: levaram cerca de duas semanas para entregar uma simples carta postada em Ribeirão Preto e destinada a Batatais, ambas no Estado de São Paulo e distantes cerca de 30 Km, ligadas por excelente estrada asfaltada de pista dupla. Ontem recebi sua resposta. Incrível! Reconheceram explicitamente sua incompetência. Fizeram-me duas sugestões. Primeira: que eu postasse a carta quinze dias antes. Ou seja, confessaram que é este o prazo que leva uma correspondência para percorrer 30 Km, na incrível velocidade de 2 Km/dia! Segunda: que eu utilizasse outros meios, como internet, fax, etc… Sugeriram que eu não utilizasse seus serviços. Que pena! Os correios já nos encheram de orgulho. Por que cairam tanto? “

Pois que se cuidem os correios! Os pombos continuam por aí, exercitando-se. Segundo a Federação Nacional de Columbofilia, somente em Minas Gerais, são distribuídas mais de cem mil anilhas por ano (elas representam o número de pombos nascidos).

E tem mais! Em 2012, a Federação Catarinense de Columbofilia bateu novo recorde. Em uma competição, as aves viajaram 871 quilômetros, a uma velocidade de aproximadamente 70 quilômetros por hora.

Os 91 pombos-atletas partiram de Uruguaiana ao amanhecer de 18 de novembro. Antes das 19 horas, a pomba campeã já estava em casa, na Ilha Encantada. Como prêmio, batizaram-na de “Uruguaiana”. Tão orgulhosa ela ficou, que o seu peito, já naturalmente estufado, quase explodiu!

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Falta-nos um José de Alencar

13/08/2015 por bonat

Estou à toa. Hoje, mais do que em outros dias. À toa e de baixo astral. Não consigo, sequer, ver as páginas dos jornais e as notícias assustadoras que as lotam. Sinto-me triste, envergonhado, aborrecido, desolado mesmo. Definitivamente, cansei. Preciso afastar-me delas. Tenho que encontrar algo de útil para preencher a minha ociosidade. Tenho pressa. Necessito, urgentemente, de uma overdose de otimismo. Mas que seja aplicada na veia, para surtir efeito rápido.

Se me permitem os amigos, gostaria de dividir o que me aflige. Preocupa-me o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que vieram, não sei exatamente de onde, e alastraram-se ameaçadores pelo Brasil. Por temerem o nosso crescimento, os de fora sopraram com força. Seu sopro, de falsa bela aparência, espalhou-se e nos dividiu. Deixamos de nos ver como irmãos. Por toda a parte, nos enxergamos, uns aos outros, como inimigos. Estamos enfraquecidos. Conseguiram nos desunir.

Meus olhos percorrem com ansiedade a estante em busca de ânimo. Entre centenas de livros, deparo-me com um de José de Alencar. Não com “O Guarani” ou qualquer outra das suas maravilhosas obras, mas com a sua biografia. Nela, tento encontrar alento.

Abro-a com a velocidade de quem não pode perder tempo. Não me interesso por aquilo que meus leitores já sabem. Não resolveria o meu angustiante problema. E, também, nada acrescentaria aos que me leem, pois qual deles nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante cronista, romancista e dramaturgo cearense? Quem entre eles nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Qual deles nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem entre eles não sente orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como se fosse um filho de Ceci e Peri?

O que me interessa da obra de José de Alencar é o seu marcante nacionalismo, no difícil período da consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura própria. Alencar contribuiu para que nos sentíssemos não apenas um povo multirracial e multifacetado, mas, essencialmente, como uma mistura de povos.

Na literatura que criou está evidente u’a maneira de sentir e pensar tipicamente brasileira. Tão grande foi sua preocupação em retratar a nossa terra e o nosso povo, que as páginas dos seus romances revelam o intuito de, cada vez mais, tornar mais abrasileirados os seus textos. Convém lembrar que, isso tudo, deu-se numa época bem mais difícil do que a que vivemos, pois, se acabáramos de proclamar a independência, algo mais era necessário: romper nossa dependência cultural.

Pergunto então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam carentes de novos Josés de Alencar? E, principalmente, se nossa política não estaria clamando por um José Martiniano de Alencar? Mas que surja logo, pois a hora é quase passada. Nosso caso é de emergência. Requer aplicação de choque, sem filtro, na veia.

A pauta-bomba de cada um

06/08/2015 por bonat

A dificuldade de expressão da nossa presidente é de doer. Suas falas são ininteligíveis. Mas de pauta ela é boa. Na campanha presidencial, pautada por caríssimos (e, reconheçamos, competentes) marqueteiros, ela conseguiu, ao menos uma vez, fazer-se entender. Embora chula, a frase “nem que a vaca tussa” não deixava dúvidas. No seu segundo mandato, continuaríamos vivendo num país dourado.

No último dia 3, decorridos apenas sete meses da sua nova gestão, a presidente convocou os 27 governadores. O salão palaciano, onde se deu a reunião, provavelmente devia parecer vazio. Se levarmos em conta que dispomos de 39 ministros, doze cadeiras ficaram desocupadas.

Assunto: a pauta-bomba do Congresso. Mas que perigosa bomba estaria contida na tal pauta? Nada mais, nada menos, do que as promessas de campanha, aquelas que não iriam mudar nem que a vaca tossisse.

Pois não é que até o boi voou, a Petrobras quebrou, o PAC empacou, a inflação disparou e o PIB despencou? E nada de o cinto apertar. Os 39 ministros e seus milhares de assessores permanecem em seus cargos, “imexíveis” no linguajar de um ex-ministro. Afinal, eles são de confiança… Além do mais, devem ser muito competentes: conseguiram a proeza de fazer até a vaca tossir. Por isso devem custar tão caro.

Pautar é um verbo fácil de conjugar. Difícil mesmo é ser pautado. Muito tempo atrás, um garoto de 19 anos estava pautado para morrer e não sabia. Ingenuamente, ele correu para socorrer as pessoas que estariam num automóvel que havia se chocado contra o muro do quartel onde dava guarda. Mas não havia ninguém dentro. Apenas bombas. Quando explodiram, nada sobrou do pobre menino. Os que haviam pautado o seu assassinato devem ter comemorado numa verdadeira festa de arromba. É de supor terem ligado logo para Fidel, comunicando ao “comandante” sobre o sucesso da sua pauta-bomba.

Tempos depois, Celso Daniel, “companheiro” e prefeito de Santo André, teve um surto de honestidade. Por isso, também seria pautado para morrer. Mas, como devia ter importantes informações, sofreu alguns dias, antes de pagar com a vida, de ser justiçado.

Você já percebeu, caríssimo leitor, que hoje estou com dificuldade para me expressar. Creio que “peguei a doença”… Preciso me ver logo livre desse mal, pois parece contagioso.

Só resta apelar para Cícero, grande orador, advogado, filósofo e político romano. Vamos supô-lo ressuscitado aqui mesmo no Brasil. Inteligente, dispensaria marqueteiros. Culto, perceberia que as falas presidenciais são sem pé nem cabeça. Astuto, se candidataria à presidência da república. Mesmo sendo o “orador dos oradores”, decidiria falar de modo que ninguém o entendesse. Ao invés de “sem pé nem cabeça”, optaria pelo latino: “nec caput nec pedes”.

Quem sabe, não resolveria encerrar um dos seus comícios com o agora famoso “nem que a vaca tussa”? Mas o pronunciaria também em latim – “vel bovis tussis” – de forma que todos o aplaudissem, mesmo que ninguém tivesse entendido.

Compreendeu? Creio que não. Se pudesse, eu desenharia. Mas não possuo esse dom. Nem um simples traço meu, você entenderia. Uma vaca, então… Tossindo, menos ainda…

Ilustração: JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em Nacional, Política