Artigos de ‘Nacional’ Category

Marta, um nome de dama

15/10/2008 por bonat

Marta era uma das tias do meu pai. Já a conheci viúva, com duas crianças para criar. Da sua casa, lembro-me da máquina de costura. Era nela que a encontrávamos sempre que íamos visitá-la. Fazendo vestidos, conseguiu educar os filhos. Devia levar uma vida difícil. Mesmo assim, nunca a ouvimos se lamuriar. Meus olhos de criança viam nela uma dama. Vestia-se sobriamente, sem chamar atenção, sem excessos, mas com elegância. Durante um bom período, imaginei que todas as Martas eram como ela: senhoras distintas, honestas e trabalhadoras.

Claro que essa imagem não resistiu aos anos. Antes mesmo de uma ministra de estado proferir o célebre “relaxa e goza”, eu já tinha consciência de que as Martas não eram todas iguais. E quanto mais passa o tempo, mais a ex-ministra me convence que o nome não molda a personalidade das pessoas.

Agora, sob pressão, ela extrapolou. Candidata à prefeitura da maior cidade do país, com orçamento superior ao de várias nações - o que representa enorme atrativo -, e em desvantagem nas pesquisas, ela partiu para o ataque em recente debate transmitido pela televisão. Durante os dois primeiros blocos, nada mais fez do que chamar Kassab de mentiroso. É forçoso reconhecer que este é um tema que o partido da senhora Marta domina como poucos. Sempre que uma bomba está prestes a estourar, companheiros do presidente inventam um factóide para atrair a mídia e desviar a atenção da população.

Ainda durante o debate, ela colocou em questão as amizades de Kassab. Aí, levou um contravapor que jogou-a nas cordas e quase a nocauteou. Era de esperar, pois, da mesma forma que os Pittas e Malufes não foram esquecidos, os Delúbios e os dólares na cueca continuam vivos na memória do povo. Há tantas perguntas a fazer sobre o comportamento ético dos amigos e companheiros da senhora Marta, que ela teria feito melhor se não tivesse tocado no assunto.

E como prepotência vicia, a insinuação de que, por não ser casado nem ter filhos, Gilberto Kassab poderia ser gay, espalhou-se por São Paulo. E daí, dona Marta? Ela apressou-se em dizer que não tinha nada com aquilo, que era coisa do seu marqueteiro. Seguiu fielmente o que recomenda a cartilha: “Se algo der errado, ponha a culpa nos outros. Se não puder, minta, minta, minta mil vezes, e pronto”.

Não sei quem vai administrar o vultoso orçamento paulistano. Mas a candidata sabe que, se não for a escolhida, algum bom cargo a espera em Brasília.

Marta não é brincadeira. É um nome que me lembra honestidade. Fazer o quê?

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Eleições - mortos ainda não votam

02/10/2008 por bonat

Há tempos desisti de querer os políticos todos certinhos. E não estou levando em conta apenas aqueles “made in Brazil”. Trata-se de um fenômeno globalizado. Mas, como estamos em clima de eleições municipais, não posso deixar de expressar o meu desconforto com um fato que se repete ano após ano.

Todo 29 de dezembro, chega à nossa caixa de correio um cartão de cumprimentos à minha mãe pelo seu aniversário, enviada por uma vereadora de nossa cidade. Um vereador, a cada 14 de junho, manda votos de felicidade e de vida longa ao meu pai. Sei que ambos não usam o seu dinheiro e sim o do contribuinte, quer dizer o nosso, para fazer “relações públicas”.

O hilário no caso, para não empregar um termo mais grosseiro, é que minha mãe morreu há quinze anos e meu pai há dez. Recentemente, os mesmos edis enviaram aos meus falecidos pais farto material publicitário, pois são candidatos a mais uma reeleição.

Não vou lhes revelar o nome. Gostaria somente de deixar um apelo político para que respeitassem ao menos os sentimentos dos eleitores. Eles poderiam até imputar a falha a algum assessor. No entanto, a bem da verdade, são eles que escolhem os assessores, que também são pagos pelo contribuinte. Já que se avizinha uma crise econômica mundial, seria conveniente um pouco de atenção a fim de se evitar gastos desnecessários, pois mortos ainda não votam.

Aproveito, sabendo do risco de dizerem que militar não deve se meter em política, para sugerir o fim do voto obrigatório. Creio que já estamos suficientemente maduros para exercer, conscientemente e de modo facultativo, esse direito.

Acredito que, neste 5 de outubro, nosso País dará mais uma prova de fé na democracia. Que assim seja.

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Uma Nação para os quero-queros

17/08/2008 por bonat

Procurou-me um velho amigo para dizer que tinha uma idéia maluca e queria a minha opinião. Ele sabia que, mesmo sem me considerar maluco, adoro idéias malucas.

Perguntou-me o amigo se eu lembrava do triste ocorrido num jogo entre Coritiba e Palmeiras, com um dos quero-queros que moram no Alto da Glória. Claro que eu lembrava. Foi coisa de louco (ou maluco!). A bola, como um meteoro, caiu sobre a pobre ave, que virou capa de revista.

Quero-quero é um animal esperto. Está sempre alerta. Seu campo de visão é de 360 graus. O que foi atingido observava atentamente as quarenta e seis pernas (não se esqueça do árbitro) que o ameaçavam por todos os lados. Entretanto, não conseguiu detectar a ameaça, esta sem pernas porque era bola, que vinha do alto. Acabou estatelado no gramado.

Questionou-me o amigo se eu sabia que há quero-queros em outros estádios. Claro que sim. Eles estão no Beira-Rio, Morumbi, Mineirão, até no Maracanã. Indagou se eu gostaria de fazer alguma coisa para afastá-los das pernas peludas que os amedrontam em centenas de campos de futebol e levá-los de volta ao seu habitat original. “Sensacional!”, respondi com entusiasmo.

Expôs então sua maluca idéia: já que inventaram a Nação  Ianomâmi vamos criar a Nação Quero-Quero. Nesta altura da conversa, senti que chegara a minha vez de fazer perguntas. Incrível como ele tinha prontas todas as respostas.

Onde ficaria tal nação? Como o acidente ocorreu no Paraná, este Estado pagará pelo crime. A metade oeste do seu território será dos quero-queros, seus verdadeiros donos desde os tempos pré-cabralinos. E as pessoas que ali trabalham na agricultura, na indústria, em Itaipu? Terão que sair. Quem se recusar, será removido pela Polícia Federal. E as instalações do Exército, Marinha e Força Aérea? ONGs de Roraima ficaram de mandar alguns assessores com experiência no assunto.

E os quero-queros paraguaios? O governo recém-empossado quer a saída dos brasiguaios. Sairão eles e entrarão os quero-queros. Assim, a nação abrangerá terras de dois países. Quem poderia entrar na área? Bastará ser fluente em inglês, francês, holandês ou alemão. Nosso governo concordaria? Alguns ministros já se declararam simpáticos à causa. E se te internarem num hospício? Denunciarei à ONU.

Estava quase me tornando um ferrenho defensor da Nação Quero-Quero, quando resolvi fazer a última pergunta: “E os brasileiros?”. Ao responder-me com outra pergunta - “Que brasileiros?” - perdeu o aliado e o amigo.

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Tomem a Providência

23/06/2008 por bonat

No tempo em que Curityba se escrevia assim, meu avô era dono da Cervejaria Providência, que já não existe. Não foi graças a ela que o agora famoso Morro da Providência recebeu este nome. Nem o slogan da saborosa cerveja do meu avô - “Se você tem algum problema, tome uma Providência” – se aplicaria ao morro carioca, onde tudo deu errado porque ninguém tomou a  devida providência.

Errou o tenente ao agir por conta própria. Não lhe cabia assumir uma decisão capaz de levar à morte três pessoas, traficantes ou não. Seu capitão também errou por não ter avaliado corretamente a gravidade do problema que lhe apresentou seu comandado.

Errou o Exército por não ter sido mais incisivo ao argumentar que, embora fosse nobre a missão de melhorar a qualidade de vida de famílias pobres, ela encontraria resistência, pois iria prejudicar o rentável comércio de quem domina as favelas. Errou o Ministro da Defesa ao colocar em risco a imagem de uma Instituição do Estado a fim de atender interesses personalistas e eleitoreiros.

Errou o Governo quando negou-se a reconhecer as Farc como organização terrorista que precisa do dinheiro do narcotráfico para acabar com a democracia na Colômbia. Com isso, os chefões do tráfico tupiniquim – fonte de renda das Farc – saíram fortalecidos. Sentindo-se acima da lei, erraram os traficantes ao afrontar quem tinha só a intenção de ajudar pessoas que, por falta de opção, vivem no morro.

Errou o carioca, quando elegeu governantes que, a fim de obter o apoio do tráfico, prometeram que a polícia não atrapalharia seu negócio. Eleitos, cumpriram a promessa e o crime tomou conta do Rio.

Erram meus vizinhos, que usam roupa de grife, têm carro importado e só vêem favela pela TV, quando fazem severas críticas a todo o Exército pela desastrada atuação de um só tenente.

Errada é a mania que tenho de preocupar-me com o Brasil. É que manias custam a morrer. Estou de pijama há três anos. Já devia ter aprendido a curtir minha “dolce vita”.

 Errou meu avô ao não repassar para a família a fórmula da sua famosa cerveja. Se o tivesse feito, eu saberia tomar a Providência correta.

 

 

 

 

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Roraima, um país de todos?

25/04/2008 por bonat
 

O General Heleno bem que poderia, mas não criticou a inoperância dos órgãos públicos no combate à dengue. Nem teceu comentários sobre as indenizações imorais recebidas pelos senhores Ziraldo e Jaguar. Limitou-se a um assunto que é de sua responsabilidade: a defesa da Amazônia. Logo, é incompreensível o frisson que suas palavras provocaram em determinadas autoridades da República.

Há décadas o Exército prioriza a Amazônia. Só não transferiu ainda mais tropas para lá por falta de recursos. Também faz tempo que líderes dos países centrais vêm batendo na tecla de transformar a Amazônia numa verdadeira “casa da mãe Joana”, onde todo mundo pode entrar sem pedir licença. O problema é que, além de falar, eles têm atuado, apoiando organizações de fachada. Nos anos setenta, missionários estrangeiros criaram o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Hoje, segundo o site do próprio CIR, ele conta com as seguintes parcerias: CAFOD e Survival International (inglesas), CESE, TNC e Pro Rainforest Foundation (norte-americanas), CCPY e NORAD (norueguesas), Greenpeace (canadense), Movimondo (italiana), OPAN e Regenwald (alemãs), OXFAM (anglo-americana) e Pro Índios di Roraima (do Vaticano). Se você fosse o Comandante da Amazônia não ficaria preocupado com a presença de tantos forasteiros? Pois saiba que existem muitos mais: ninguém sabe quantos e nem o que fazem por lá. Consta que existem milhares de ONGs na região. É mole?

No ano passado, os brasileiros foram surpreendidos com o voto do Brasil favorável à Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da ONU. Veja como inicia um dos seus artigos: “Os povos indígenas têm direito à livre determinação”. Junte-se a assinatura do decreto presidencial homologando a reserva Raposa Serra do Sol e tem-se a impressão de que o Brasil está abrindo mão de imensa e rica porção do seu território, internacionalizando-a, segundo a vontade das grandes potências. É o neo-colonialismo, que se está aceitando por covardia ou interesses menores.

A falsa idéia da existência de um povo ianomâmi, inventada em 1973 por uma jornalista romena, inspirada pela organização suíça “Christian Church World Council”, vai ao encontro dos interesses estrangeiros. Para eles, se há o povo, existe a nação ianomâmi. Para nós, só existe um povo e, em conseqüência, uma só Nação - a Brasileira, que é de todos os brasileiros, inclusive de todos os índios.

É válida a suposição de que gringos andem interpretando em proveito próprio o slogan “Brasil, um país de todos”. Quanto a Roraima, devem estar pensando que o Estado é de todos, menos dos brasileiros. Nunca é demais recordar o Padre Antônio Vieira: “Os de fora não querem o nosso bem, mas sim os nossos bens”.

As declarações do General Heleno direcionaram os holofotes para um grave problema, propositalmente deixado à sombra a fim de escondê-lo da grande maioria dos brasileiros. Se o governo quisesse respaldo para enfrentar as pressões internacionais, bastaria um plebiscito. Mas, pelo jeito, a opinião da maioria não interessa neste caso. O que interessa então?

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Vendo caminhão. Não aceito cartão corporativo.

21/02/2008 por bonat

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar de segunda a sexta? Carioca nem liga mais pra bala perdida: entra por um ouvido e sai pelo outro. Bino recebeu por e-mail essas frases de pára-choque de caminhão. Mostrou à mulher e aproveitou para revelar um sonho de criança: ser caminhoneiro. Convenceu-a que deveriam aplicar o dinheiro do fundo de garantia na aquisição de uma carreta. Comprou uma de segunda mão.

“Dirigido por mim. Guiado por Deus”, estava escrito em sua traseira. É a frase campeã das estradas. Quase um clichê. Por isso queria mudá-la. Foi o primeiro problema. Pediu sugestão à família. Nada, além da recomendação de não falar mal de sogra, outra preferida dos motoristas. Desafio, também, foi alterar sua carta de habilitação, o que só conseguiu na terceira tentativa.

Como precisava se integrar aos seus novos companheiros, compareceu à reunião do sindicato. Olharam-no com desconfiança. Perceberam que não tinha pinta de caminhoneiro. Para melhorar sua imagem, Bino comprou uma camiseta, um boné e aquela toalhinha que é a marca registrada da categoria. Suas múltiplas utilidades vão desde enxugar o suor do rosto até limpar a vareta do óleo. Mesmo assim, não conseguiu se enturmar.

O problema da frase continuava a atormentá-lo. Sem ela, o caminhão parecia estar nu. Só faria o primeiro carreto quando bolasse alguma. Na busca de inspiração, foi à garagem de uma transportadora. “Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama”. “Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar”. “Cabelo ruim é que nem assaltante: ou tá armado ou tá preso”. Não era bem o que procurava.

Depois de muito matutar, achou a solução: “Se quem dirige o Brasil tem cartão corporativo, quem dirige caminhão também devia ter”. Crente que ia abafar, revelou-a na segunda e última vez que foi ao sindicato. Sonora vaia foi o que recebeu.

Era o que faltava para tomar a decisão de afixar um “vende-se” no pára-brisa. Quem comprasse ganharia uma camiseta, um boné e a toalhinha famosa. Levaria, também, o “Dirigido por mim. Guiado por Deus”, mais apropriado para a rampa do Palácio do Planalto do que para estradas esburacadas.

 

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A morte de Jango - um exercício de lógica

17/02/2008 por bonat

Em 1976 os brasileiros receberam, sem comoção, a notícia da morte de João Goulart. Sabia-se que vivia confortavelmente em sua estância na Argentina e não representava perigo para governo algum. A esquerda o considerava um burguês e não queria saber dele.

Decorridos trinta e um anos, ele volta ao palco para interpretar o papel de vítima numa história macabra narrada por Mário Neira Barreto - a fim de assassiná-lo, Geisel manda misturar veneno nos remédios de Jango. Autores de renome não seriam tão criativos.

Barreto, atual hóspede da penitenciária de Charqueadas, não parece capaz de escrever peça alguma. Com algum esforço, talvez consiga repetir o que lhe dizem  algumas pessoas, como um dos filhos do ex-presidente, que esteve em sua cela de segurança máxima. Quem também o visitou foi um famoso  e esperto articulista carioca, conhecedor do caminho para se chegar aos cofres da viúva.

Analisado com um mínimo de isenção, o roteiro peca pela falta de coerência. Geisel foi bem claro desde os primeiros dias de governo. Por convicções pessoais e religiosas, proclamou ser radicalmente contra perseguições políticas, cassações, torturas e mortes. Ansiava construir os alicerces para o retorno do poder aos civis. Difícil imaginar que mandasse matar alguém, como declarou o senhor Barreto. Muito menos João Goulart, que vivia seu ostracismo político.

O enredo é inconsistente. O único protagonista vivo é Neira Barreto, por isso mesmo guindado à condição de dono da verdade. Ele deve estar ávido para obter algum dinheirinho a fim usufruir quando for posto em liberdade. Pode-se confiar no bico de uma pessoa que resolva abri-lo três décadas depois?

Temporariamente, a história é ilógica. Entretanto, é conveniente ficar atento ao noticiário. Alguma lógica será encontrada no dia em que a imprensa divulgar que a comissão de anistia brindou a família Goulart com uma indenização milionária.

Não me importarei se os autores dessa brilhante obra de ficção ganhem muito dinheiro. Se pudesse, lhes daria uma só sugestão – a de que tirassem Geisel do palco. Ele nunca teve vocação para ator. Muito menos para assassino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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El guapecón

01/01/2008 por bonat

Por onde ando, no quintal da minha casa, El Guapecón me acompanha. Acompanha e obedece. Na ativa, cheguei a comandar mais de oito mil militares. Hoje, na reserva, apenas El Guapecón cumpre minhas ordens.

Tive seguranças competentes e leais. El Guapecón está longe de ser um segurança competente. Sua única virtude é a lealdade. Até porque, ele sabe que sou eu quem lhe paga a ração. É meu compromisso com ele, além do respeito que lhe dedico.

 El Guapecón não é soldado. Mas é calado como um soldado. Tem  a sorte de muitos falarem por ele. Ninguém fala pelos soldados. Ninguém os defende, nem o Ministro da Defesa.

Há universidades onde prega-se o menosprezo aos soldados. De El Guapecón, ensina-se a gostar. Mesmo sem saber o que venha a ser Brasil, ele vira herói. Aos soldados, que defendem o Brasil, trata-se como vilões.

El Guapecón, como os padres, não tem mulher. Soldados têm mulher e filhos. Suas mulheres reclamam da falta de dinheiro para o leite, a roupa e a escola das crianças. Mães não aceitam ver seus filhos passarem fome.

A fim de resolver o problema dos soldados, proponho que seja-lhes proibido, como aos padres e a El Guapecón, de se casar.

El Guapecón, meu cão-de- guarda fiel e vira-lata, é castrado. Os soldados não.

Aí, haja pedofilia. É das poucas acusações que faltam impingir aos soldados!

 

 

 

 

 

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2008 sem cassetete

01/01/2008 por bonat

Nunca se sabe direito o que nos reserva um ano que inicia. Certeza mesmo, é que em 2008 não conviveremos com a CPMF. Queria ter coragem de confessar-lhe, caro leitor, que sou favorável a essa contribuição. Gostaria até que fosse aumentada para 10%, desde que todos os impostos fossem extintos. Solução simples demais, lógica demais, óbvia demais, que não consigo comprovar com meus rudimentares conhecimentos de matemática. É apenas “feeling”.

O estrangeirismo “feeling” aí de cima faz-me lembrar de um amigo que está esperançoso com o novo ano. Chama-se Jackson e odeia tanto seu nome, que se apresenta pelo apelido: “muito prazer, Jajá”. Diz que Jackson não é nome, no que está correto. No idioma inglês, é sobrenome. Tentou várias vezes mudá-lo, todas sem sucesso. Agora suas esperanças renascem. Em 2008, deverá ir a plenário projeto-de-lei que veta estrangeirismos, particularmente em documentos oficiais. Como certidão de nascimento é documento oficial, Jajá não precisará nem de advogado para dela tirar o estrangeiríssimo Jackson.

Apesar da alegria por ver um amigo esperançoso, não deixei de estranhar a idéia de preservar a soberania nacional entre os argumentos do propositor da nova lei. Ora, a soberania nacional é conquistada, entre outras coisas, pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Basta lembrar de algumas palavras estrangeiras que já fazem parte do nosso vocabulário: telefone, celular, rádio, televisão, computador, internet, software, hardware. São inventos de sociedades que investem em pesquisa e depois nos exportam os produtos e, logicamente, os nomes. Enquanto isso, nossos legisladores ficam a produzir leis que só servem para comprovar nosso atraso, pelo qual eles são, em grande parte, responsáveis (ou não são?).

 A esta altura, Jackson, o Jajá, deve estar perguntando: e como fica o meu nome-sobrenome? Se a lei for aprovada, Jajá será uma das duas razões para ficarmos felizes. A outra dependerá do chamado “espírito da lei”. Se for discriminatória e abranger apenas palavras inglesas, o que é uma tendência da esquerda nacional, tremendamente influenciada pelos filósofos franceses, não haverá outro motivo para comemorar. Mas, se abranger todos os idiomas, a felicidade se estenderá aos arruaceiros que se infiltram nas torcidas organizadas a fim de cometer atos de vandalismo. Contra eles, a polícia não poderá mais usar seus cassetetes. Esse galicismo, que traduzido para o português significa quebra-cabeças, parece ter sido um dos últimos avanços tecnológicos inventado pelos franceses. No mais, eles ficam a criar leis bizarras, que a esquerda brasileira adora copiar.

Aproveito para, enquanto é permitido, enviar a você meus melhores votos de “Happy New Year”.

 

 

 

 

 

 

Um país surrealista

04/12/2007 por bonat

O Brasil é surrealista. Não acredita? Você conhece algum lugar em que um carro usado seja mais caro do que um novo? Se ainda não era nascido, saiba que aqui, no início dos anos noventa, um seminovo chegou a custar mais do que um zero.

Nosso surrealismo está também no fato de brasileiros não poderem circular livremente numa reserva em que índios falam francês e estrangeiros sentem-se em casa. Parece que contagiamos inclusive as ONGs forasteiras. Não há nenhuma ajudando os dez milhões de nordestinos vítimas da seca. Em compensação, 350 delas estão na Amazônia cuidando de apenas 230 mil índios, que não passam sede nem fome.

Nem a Igreja escapou de nossa vocação para Salvador Dalí. Você conhece a posição dela contra o aborto, o uso de anticoncepcionais, a pena de morte e a eutanásia. Tudo em defesa da vida. Logo, não dá para entender que um representante seu faça greve de fome. O bispo de Barra, na Bahia, está na segunda. Se levar a sério, ele cometerá suicídio. Como ficamos nós, os leigos? Devemos acreditar no direito à vida ou  ao aborto?

As razões do religioso devem ser fortes. Ele considera mais importante a revitalização do Velho Chico do que a transposição de suas águas. Prioriza os ribeirinhos de sua diocese e discrimina a população do semi-árido. Cristo, ao multiplicar e distribuir pão e vinho, deixou uma lição que seria bem aplicada neste caso. Deve faltar muita  coisa  para  os  ribeirinhos  do  bispo. Mas água não. Desviar uma diminuta parte  de  seu  volume,  a fim de aplacar a sede dos sertanejos do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, parece mais sensato e cristão.

O Embaixador Mário Gibson Barbosa, recentemente falecido, deixou um exemplo de visão estratégica. Pernambucano de Olinda, ele foi um dos principais artífices do tratado binacional que viabilizou o maior empreendimento hidrelétrico do mundo. A força de suas idéias, valores e ideais foi essencial para que se concretizasse aquilo que para seus contemporâneos parecia utópico, megalomaníaco e irrealizável. Projeto muito criticado na época, hoje não se consegue imaginar o Brasil sem Itaipu.

Espero que o governo Lula tenha a mesma visão e conquiste seu lugar na história, resolvendo o secular problema social e humano nordestino. Nem que para isso tenha que contrariar o Papa.

Por falar em papa, nosso país é tão surrealista que, por estas bandas, acredito que Dalí, o papa do surrealismo, seria matriculado no jardim da infância.

 

 

 

 

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