Artigos de ‘Internacional’ Category

I have a dream

07/11/2008 por bonat

Quarenta anos depois, o sonho de Martin Luther King Jr tornou-se realidade. Um negro foi eleito presidente da única superpotência. A imprensa e os líderes mundiais não conseguem esconder seu entusiasmo.

Alguns governos sul-americanos ficaram radiantes. Doutrinados por Fidel, eles agora querem dar uma lição de democracia para Barack Obama. Numa das primeiras aulas, pretendem ensiná-lo como acabar com o embargo comercial a Cuba.

O senhor Obama tem consciência de que o Foro de São Paulo, inspirado nos donos de Cuba, prega abertamente o ódio aos estadounidenses, sejam brancos ou negros. Os membros do Foro parecem não perceber que a população norte-americana é a mais multirracial do mundo. Desconhecem o seu espírito patriótico, tornado bem claro no pronunciamento de Obama que emocionou a todos os americanos: “Não foi a vitória do negro, nem do pobre. Foi a vitória dos Estados Unidos da América”. Ele tem plena consciência de que os afro-descendentes representam apenas 13% da população e que só foi eleito por ser cidadão da maior democracia do planeta.

Se fosse cubano, onde proporcionalmente os negros são muito mais numerosos – 32% da população – não teria chance alguma. A família Castro, branca, diga-se de passagem, instalada há mais de meio século no poder, não admite oposição.

Eu gostaria de dar um conselho ao novo presidente dos Estados Unidos. Quando os tristemente ridículos líderes sul-americanos chegarem com a conversa mole de acabar com o embargo comercial, que apresente sua contraproposta: a de que se levante o embargo sim, mas somente quando for permitido a todos os cubanos, negros inclusive, sonharem com a liberdade e com a possibilidade de um dia chegarem à presidência de Cuba.

Creio que nosso mandatário, que volta e meia se reúne a portas fechadas com Fidel, seria um confiável portador dessa proposta. Aliás, em sua recente visita à Ilha, ele convidou o irmão e sucessor do “comandante” para visitar o Brasil. Quero aqui plagiar Martin Luther King Jr: “I have a dream”. Sonho que o senhor Raul Castro, envergonhado por ter as mãos sujas de tanto sangue humano, resolva não aceitar o convite.

Com a herança que está recebendo de George W. Bush, Barack Obama vai precisar de muita competência, de muito apoio e de muita sorte. Pelas mais diferentes razões, o mundo todo sonha que tenha êxito.

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Guerra no Cáucaso

15/08/2008 por bonat

O que a Rússia tem de grande, também tem de gelada. É possível que isso tenha tornado seus filhos igualmente frios diante da morte. Recebem-na com resignação. Mas, é lógico, preferem que venha para buscar primeiro os outros. Só quem não pode morrer é a “Grande Mãe Rússia”.

Eles sempre olharam com desconfiança os europeus que, historicamente, ficaram à espreita para, na primeira oportunidade, raptar-lhes as lindas mulheres e roubar-lhes os recursos naturais.

Durante a Guerra Fria, o Pacto de Varsóvia serviu-lhes de escudo contra a improvável reencarnação de Napoleão ou Hitler. O gelo, que ajudara a derrotá-los, não foi o único a expulsar os invasores. O destemor do combatente russo diante da morte fora fundamental em meio à tragédia representada por milhões de corpos insepultos.

Ao Sul, outros governos foram forçados a aderir ao Pacto. Ai de quem se negasse. Mas por quê, se os europeus de Napoleão e Hitler estavam a Oeste? Porque, para infortúnio de seus povos, países como a Geórgia estão no caminho dos mares quentes.

A dificuldade para exportar representou um constante gargalo para a economia russa. Para se chegar a Vladivostok, no Mar do Japão, leva-se vários dias sobre os 9.289 quilômetros de trilhos da Transiberiana. Ao Norte, os portos são deseixados das principais rotas comerciais e tornam-se quase impraticáveis durante os rigorosos invernos. Resta-lhes o Sul.

Quando a imprensa começou a noticiar o início do conflito, foi preciso abrir o atlas para ver onde ficava a minúscula Geórgia. A Rússia, obviamente, todos já sabiam onde ficava e que eram necessários os mapas de dois continentes para vê-la espalhar-se largamente de leste a oeste.

Fixando a atenção apenas nos dois países em guerra, tem-se a imagem de um gigante sendo carregado nas costas por um anão. Deve ter sido essa a intenção de quem, ao rabiscar os primeiros mapas-mundi, convencionou que o Norte ficaria na parte de cima.

As duas mil vidas perdidas em Odisséia do Norte não pesarão na consciência russa. Com a invasão, Moscou quis mostrar quem ainda manda no Cáucaso e, em conseqüência, nos dutos que o atravessam e asseguram o escoamento de um de seus principais produtos de exportação: o petróleo. Mais uma vez, o petróleo!

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Fogo amigo atinge Obama

19/07/2008 por bonat

Escrevi, tempos atrás, que as charges substituem muitas palavras, com a vantagem de serem mais simpáticas. Disse que contam a história de um país. Por isso, afirmei (e continuo acreditando) que os chargistas merecem tornar-se famosos e ricos. Porém, assim como há Militares e militares, Advogados e advogados, Médicos e médicos, existem Chargistas e chargistas.

Parece que o da New Yorker é um chargista com “c” minúsculo. Se sua revista é pró Barack Obama, se o próprio chargista diz que o apóia, se uma charge vale milhares de palavras, ele deveria perder seu emprego. Se fosse eu o seu patrão, estaria despedido. Mandar-lhe-ia estudar e aprender a escrever, para ver como é difícil convencer as pessoas usando argumentos no lugar de desenhos.

O cartum estampado na capa da New Yorker mostra a mulher do senador-candidato, vestida como terrorista, saudando, com punhos cerrados, o marido com vestes muçulmanas. Ao fundo, observa-se a bandeira americana em chamas na lareira. Na parede, há um retrato de Osama Bin Laden. A idéia que transmite é de que Obama não é um patriota, tudo o que qualquer americano odeia. Ser antipatriota, queimar a bandeira, cultuar Bin Laden, vestir-se de terrorista. Você olha e é isso o que vê. Pois essa foi a imagem que se espalhou via Internet por todo o país.

Foi óbvio o desconforto do comitê de campanha do senador. A revista teve que explicar que o desenho era uma sátira aos adversários de Obama. Ora, charge que se preze não precisa de explicação. Ela dispensa, porque as substitui, palavras. Nos estados americanos culturalmente e politicamente mais desenvolvidos (lá também tem disso) é possível que as pessoas leiam e compreendam as razões da revista. Mas, no interiorzão (lá também tem disso), a mensagem que vai prevalecer é a do desenho. Não é demais lembrar que foi ali que George W. Bush ganhou a eleição.

A possível eleição do senhor Barack serviria para demonstrar o vigor da democracia norte-americana. Milhões de americanos, até quem é WASP (branco, anglo-saxão e protestante), gostaria que isso acontecesse. Entretanto, as pesquisas revelam que a diferença pró Obama, que era de 15 pontos (51 para 36%) em 20 de junho, baixou para apenas três pontos (44 para 41%) nos últimos dias. O efeito “cartum” poderá causar ainda mais estrago.

A charge, concebida por quem se diz seu amigo, atingiu-o como uma bala perdida. Será que ele sobreviverá a esse “fogo mui amigo”?

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Mercadinho de bairro

28/02/2007 por bonat

Perto da nossa casa sempre há um mercadinho que vende de tudo um pouco. É careiro, mas nele encontramos o que precisamos em situações de emergência. Adquirimos também artigos não-emergenciais, só para dar uma força ao seu proprietário, normalmente um sujeito simpático e que, afinal de contas, vive em nosso bairro. Entretanto, por economia, fazemos as grandes compras num  hipermercado, normalmente afastado de onde moramos.

O perigo surge quando, por termos alguma afinidade com o vizinho - torcemos para o mesmo time, freqüentamos a mesma igreja ou somos do mesmo partido – resolvemos comprar tudo dele. Ao substituir a razão por fanatismo (futebolístico, religioso ou ideológico), corremos o risco de  ver nosso orçamento ir para o espaço. Trocaremos o sustento dos nossos filhos pelo dos dono do mercadinho. Nossa família empobrecerá. E nem por isso ele ficará rico.

Para negociar é preciso bom-senso e inteligência. Comércio não combina com ideologia, pois todo fanatismo emburrece e embrutece as pessoas.

Escrevo essas obviedades para afirmar que  concordo com as posições do embaixador Roberto Abdenur publicadas na revista Veja e agora confirmadas em seu depoimento no Congresso Nacional. Li a entrevista com toda a atenção que merece uma pessoa que aprendi a admirar nos dois anos que servi sob sua orientação em nossa embaixada em Washington. Inteligente, culto, experiente, sempre levou o Brasil muito a sério e foi incansável na tarefa de promover e defender intransigentemente os interesses do nosso país.

De suas palavras, deduzi que o Brasil deixou de ir ao hiperpermercado para comercializar só com o armazém da esquina.

O fato é que temos extrapolado nossa quota de generosidades para alguns vizinhos. Se é verdadeiro o argumento de  que é para salvar o Mercosul, então por que aceitamos sem negociação prévia a incorporação da Venezuela a um bloco que tem por um dos princípios a democracia? Apenas pela razão de Hugo Chávez – como se fosse exclusividade sua - não gostar dos americanos?

Tão ou mais antiamericano do que Chávez é o Partido Comunista Chinês. Mesmo assim, onde se vá nos EUA, encontra-se produtos “made in China”. Em prol do seu povo, o governo chinês passou do fanatismo ideológico para o pragmatismo econômico.

No seu próximo encontro com Bush, o presidente Lula terá uma ótima oportunidade de usar o seu carisma para aumentar nossa participação num mercado  de dois trilhões de dólares. É desnecessário repetir que o Brasil é contra a guerra do Iraque. Todos  já sabem. É preciso, isto sim, dizer que estamos abertos para negociar nossa contribuição com o esforço norte-americano no sentido de diminuir sua dependência do petróleo e, principalmente, reduzir sua participação na poluição do planeta. Tudo isso, claro, se eles estiverem dispostos a pagar um preço justo, no qual poderá estar incluída a abertura do seu atraente mercado para outros produtos “made in Brazil”.

Maquiavelicamente, nosso presidente bem que poderia assoprar no ouvido de Bush: “Se der certo, murcharemos um pouco a bola do Chávez, o dono do posto de gasolina do bairro, que anda cheia demais. O Mercosul nos agradeceria”.

 

 

 

 

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Líbano - os franceses estão de volta

20/09/2006 por bonat

Início dos anos 80. Ao meu lado, uma voz, baixa para só eu escutar, sussurra com forte acento árabe: “Não pense que os franceses gostam de você. Se lhe tratam bem, é porque você está sob proteção diplomática. Eles não gostam de ninguém, nem deles próprios”. Não respondi. Um bonjour, e fim. Até porque, estávamos em plena corrida e meus pulmões de fumante impunham escolher entre respirar ou falar. Além do mais, quem seria aquele capitão? Sabia que era um dos alunos da escola de Draguignan, que estavam passando uma semana em Nîmes conosco. Nada mais. E, ora bolas, os franceses me tratavam muito bem. Eram meus amigos.

Aproveitando-se do meu silêncio, ele prosseguiu. “Sabe o que eles fizeram no meu país? Obrigaram a extinguir as forças armadas. Só agora estamos nos reestruturando. Veja no que deu”!  Continuei no meu silêncio. Não estava nem um pouco interessado no país dele. Preocupava-me apenas em aprimorar-me na complicada arte (?) de abater aviões. Minha alienação política fez com que se afastasse.

Decorridos 25 anos, a Legião Estrangeira desembarcou em Beirute. Foram os primeiros a se oferecer para integrar as forças da ONU. Os primeiros a chegar. Sinal de que não estão para brincadeiras. Há décadas aguardavam esse momento. Suas cabeças raspadas, estampadas na primeira página dos jornais, fizeram meu subconsciente recuar no tempo para, só agora, entender a incontida revolta daquele capitão que, depois soube, era libanês. Seu país já fora a “Suíça do Oriente”, exemplo de democracia, tolerância religiosa e harmonia étnica. Destino dos europeus em férias, até o dia em que, sob pressão, resolveu seguir o “conselho” francês. Acabou com suas Forças Armadas. Até porque, nem Hitler havia atacado a Suíça…

Quando se foram, os franceses deixaram uma nação desarmada. Nada havia para defendê-la, nem de ameaças externas, nem de si mesma.  A imaginada harmonia interna não resistiu às diferenças étnicas e religiosas. O resultado foi um banho de sangue. Com o pretexto de ajudar o vizinho, a Síria ocupou-o militarmente por quase duas décadas. Só saiu em 2005, sob forte suspeita de ter participado do assassinato de Rafik Hariri, ex-primeiro-ministro, contrário à sua presença. Saiu, mas deixou seu representante, o Hezbollah.

Em 2000, a retirada israelense deu ao Hezbollah o tempo que precisava para reorganizar-se no sul do Líbano. Com mísseis e o apoio de Síria e Irã, saturou comunidades do norte de Israel. Todos se surpreenderam com a intensidade e a violência da resposta. O mundo ficou chocado com as fotos de corpos infantis mutilados.

Logo depois, manchetes anunciavam que, após 38 anos, o Exército Libanês recuperara o controle do sul do país. Tarde demais. Mesmo assim, a notícia mereceu o aplauso da população.

Como gostaria de reencontrar aquele capitão para pedir desculpas por não ter-lhe dado atenção. Dizer que aprovo sua indignação, pois, indefeso, até o paraíso pode virar inferno. Foi o que aconteceu com o Líbano, que tem sofrido com uma guerra que não é sua.

Tomara que tenha mudado o que está dentro das legionárias cabeças raspadas. Que sua intenção seja somente humanitária. Não mais a de tentar impor sua vontade, sua língua, sua filosofia, sua arrogância. Nada de conselhos. O libanês pode até falar francês, mas o fará sempre com acento. Afinal, o Líbano não é a França. Muito menos a Suíça. É apenas o Líbano, cujo povo merece viver feliz. Porém, à sua maneira e em paz.

 

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Mr Bush e o cavalo de Napoleão

26/03/2006 por bonat

É preocupante a teimosia do presidente da única superpotência em manter, depois de três anos, as tropas no Iraque, contrariando a opinião pública mundial e, agora também, a do seu país.

Parece que ele tem dificuldade em reconhecer o desastre que tem sido a presença norte-americana no Oriente Médio e dele retirar as lições que, o bom-senso recomenda, deveriam ser aprendidas.

Vamos, didaticamente, relembrar como os Estados Unidos têm-se complicado nas areias do deserto: milhares de soldados mortos ou mutilados; gastos mensais entre cinco e oito bilhões de dólares; prática de tortura em Abu Ghraib; perda de aliados, entre eles os espanhóis, que integravam a Coalizão; denúncias de massacres perpetrados por soldados americanos; e uma verdadeira guerra civil em curso.

Acrescente-se a comprovação de que foram falsos os argumentos usados para justificar a invasão. Saddam Hussein não estava produzindo armas de destruição em massa nem apoiara os ataques de 11 de setembro.

Apesar de tudo, Mr Bush foi reeleito. Durante a campanha, só falou de guerra. Economia, saúde, educação, nada disso interessava. Perdeu nas cidades onde as pessoas são mais esclarecidas, como Nova York e Washington. Conseguiu, entretanto, convencer o eleitor interiorano (aquele que acredita que todo americano é um “rambo”) de que seria a única opção para salvar os EUA. Ele mesmo, Mr Bush, parece convicto, provavelmente inspirado no livro “Choque de Civilizações”, de ser o novo messias, capaz de liderar o Ocidente Cristão na cruzada contra os fundamentalistas islâmicos.

Alguns dos seus eleitores só agora estão se dando conta do seu equívoco. Mesmo assim, as manifestações têm sido pífias. Uma oposição mais veemente só ocorreria se as forças armadas não fossem constituídas por voluntários. O serviço militar, não sendo obrigatório, faz com que os filhos das elites não estejam morrendo (nem matando) no Iraque.

Se consultarmos a lista de baixas, encontraremos nomes latinos, como o do soldado Jesús Fonseca, cidadão mexicano de dezenove anos, morto em março de 2005. “Ele perdeu a vida por outra bandeira. Pessoalmente, penso que deveria ter sido pelo México”, declarou seu primo. Mas foi a maneira que encontrou para deixar sua família amparada. Assim como o mexicano Fonseca, no início de 2005, havia 41.000 forasteiros nas forças armadas americanas. Muitos dessa “legião estrangeira” estão no Iraque. Suas mortes não sensibilizam a sociedade americana e Mr Bush sente-se à vontade para prolongar a guerra.

Aspecto no mínimo curioso dessa história é que o ex-presidente Carter, aquele que vive a pregar sobre direitos humanos, principalmente ao sul do Equador, continua calado quanto aos abusos cometidos contra os prisioneiros de Abu Ghraib e Guantânamo. 

No passado, Napoleão e seu cavalo participaram juntos das mesmas batalhas. Napoleão aproveitou-se da experiência, usou seu cérebro, tornou-se Imperador. Seu cavalo, porém, usou apenas os músculos. Continuou cavalo.

Na atualidade, Mr Bush entrou como arbusto (bush, em inglês) e parece que sairá arbusto. Se aprendesse com seus próprios erros, poderia transformar-se numa árvore cujos frutos iriam tornar menos prováveis as inquietantes previsões do “Choque de Civilizações”.

 

 

 

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Los Rusos también hacen pipi

02/02/2006 por bonat

O Muro de Berlim havia caído em 1989. Em 1993, o Exército buscava uma arma antiaérea barata e eficaz. Por ser especialista nessa área, fui enviado à Rússia, tendo sido o primeiro oficial brasileiro, depois de muitos anos, a visitá-la oficialmente.

Acompanhado por três russos e um uruguaio, viajei de Moscou para Vladimir. A meio-caminho, paramos no acostamento. Os russos nos convidaram para fazer xixi. Não aceitamos. Enquanto eles molhavam as árvores à beira da estrada, o uruguaio saiu-se com esta: “Mira, brasileño, los rusos también hacen pipi”. E arrematou: “Ellos son casi humanos”!

Apesar de cômica, sua observação refletia a imagem que anos de Guerra Fria haviam incutido em nosso subconsciente. Tínhamos, principalmente aos integrantes das forças armadas soviéticas, como seres sem coração, quase máquinas, capazes das maiores barbaridades. Exageros à parte, não se lhes pode eximir de culpa. De fato, quando invadiu a Alemanha na II Guerra, o Exército Vermelho cometeu inúmeras atrocidades. Tantas, que os alemães, já derrotados, preferiam render-se a qualquer soldado aliado. Exceto ao russo.

Tristemente famosos também ficaram os agentes do serviço secreto soviético, a temida KGB. Por certo, não por se comportarem como bons samaritanos. A FSB, sua sucessora, aparentemente usa métodos mais humanos. Mesmo assim tem-se mostrado eficaz. Pelo menos foi o que revelaram as recentes notícias sobre o flagrante que seus agentes deram em diplomatas e funcionários da embaixada britânica em Moscou.  Inspirados em 007, súditos de Sua Majestade usavam um transmissor, embutido numa falsa pedra, para comunicarem-se com agentes secretos e com representantes de ONGs russas a soldo de Londres.

A globalização fez multiplicar o número de ONGs. Os objetivos da imensa maioria delas são incontestáveis. Buscam humanizar governos, evitando seus excessos. Defendem minorias. Zelam pelo futuro do planeta.

A questão levantada pela descoberta da pedra-transmissor é se uma ONG, que aceita apoio de diplomatas e é financiada por um governo, merece continuar a ser intitulada não-governamental. Até onde sei há poucas figuras mais governamentais do que um diplomata.

 E tem mais. Algumas são sustentadas por membros da Coroa Britânica. É racional ficar desconfiado. Se existe algo de louvável na família real é sua visão estratégica. Por isso a Inglaterra continua, ainda, a ter tanta influência. Por isso apóia algumas ONGs.

Se o faz na Rússia, por que deixaria de fazê-lo no Brasil? Espalhados pela imensidão amazônica estão representantes de ONGs e missionários de todos os credos. Fazendo exatamente o quê, ninguém sabe. Nem o Estado nem a sociedade brasileira. Historicamente, nossos governos não gostam de aborrecê-los. Consta que defendem os índios e as florestas. Bom seria se fosse só isso. Soltaríamos foguetes de alegria!

Chegará o dia em que nosso governo, nossas ONGs e nós todos, como sociedade, tomaremos consciência do valor  estratégico e econômico da Amazônia. Aí, nós mesmos, do jeito que é só nosso, iremos zelar pelos nossos índios, nossas florestas e nossos rios. Estou sonhando, logicamente… Todos já perceberam. Em breve devo acordar. Quando isso acontecer, tornarei pública minha inquietação - ao financiar uma ONG que atua na Amazônia, um príncipe estrangeiro está pensando em nosso bem ou em nossos bens ?

E, antes que alguém pergunte: príncipes também fazem pipi.

 

 

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Haiti – Jean Sibelius tinha razão

20/01/2006 por bonat

A confirmação pela ONU do General Elito para comandar a MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) representa o reconhecimento dos países que a integram ao trabalho desenvolvido por brasileiros e mais uma vitória da nossa diplomacia.

Por gratidão e pela amizade que lhe dedicava, quero deixar registrada minha admiração pelo General Bacellar, cuja recente morte no Haiti foi lamentável sob vários aspectos.

Graças ao seu apoio, quando comandei nossa brigada antiaérea, pude testar o emprego de mísseis na Amazônia. Apesar de mais antigo, ele foi, de madrugada, dar-me as boas-vindas no aeroporto de Porto Velho. Acompanhou-me durante boa parte da manobra. Juntos, visitamos posições de mísseis, a fim de verificar como estavam se virando nossos soldados, isolados dez dias na selva, enfrentando os F-5 e Super Tucanos da FAB. Homem culto, generoso e estimado pelos que comandava. A todos conquistava pela simplicidade de seus hábitos e pelo sorriso fácil.

O General Elito, que terá a difícil tarefa de substituí-lo, é habituado a missões espinhosas. Em 1993, quando alguns integrantes da PM de Alagoas envolveram-se com o crime organizado, foi a ele que o Exército confiou a missão de comandá-la.  

No Haiti, terá que coordenar a ação de militares de treze países, nem todos com o mesmo preparo e serenidade dos nossos. Terá que viver num país miserável, cuja população necessita de esperança e dos recursos da ONU, distribuídos em conta-gotas. Terá que suportar as pressões de ONGs que discursam sobre direitos humanos, quando, na verdade, desejam a volta do ex-presidente Aristide. Terá que viver num país cuja economia, tempos atrás, pasmem, era baseada no comércio de sangue humano com os Estados Unidos e no tráfico de drogas. Com o advento da AIDS, restou apenas a segunda opção, tendo Aristide se tornado um dos seus chefões.

A seu favor, além de suas qualidades, o General Elito contará com a experiência dos militares brasileiros em missões de paz. Iniciada em Suez e na República Dominicana (anos 60), ela foi sendo aprimorada em dezenas de outras, como em Angola (89/91), Moçambique (93/94) e Timor Leste (1999/2005). Em 1999, graças à liderança do Brasil, evitou-se uma guerra entre Equador e Peru.

A diferença, agora, é o elevado efetivo (cerca de 6.200 soldados) e a diversidade dos países que representam – além do Brasil, a MINUSTAH conta com Argentina, Chile, Equador, Espanha, Filipinas, Guatemala, Jordânia, Marrocos, Nepal, Peru, Sri Lanka e Uruguai.

Sou daqueles que julgam importante um país ter assento no Conselho de Segurança da ONU. Só assim ele terá voz ativa nas grandes decisões mundiais. Porém, não sou daqueles que acham a presença do Brasil no Haiti suficiente para essa pretensão. Todos sabem que aquele Conselho foi criado em conseqüência do mais sangrento conflito da história. Seria necessário algo tão grave quanto a II Guerra Mundial para alterar o atual “status quo”. Entretanto, considero inevitável a crescente e gradual inserção mundial do Brasil.  E isso passa pelo Haiti.

Críticos alegam que o governo federal tem gasto lá mais do que na segurança do Rio. Por que não comparam com o que se gastou com o inócuo referendo sobre venda de armas?

Enquanto se critica nossa presença no Caribe, diplomatas e soldados continuam a cumprir sua sensível missão. Criticar é fácil. Jean Sibelius tinha razão ao aconselhar: “Não ligue para o que os críticos dizem. Jamais foi erguida uma estátua para um crítico”.

 

 

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Carro-bomba à francesa

15/11/2005 por bonat

Estava decidido: não compraria um carro. Por não conhecer bem as manias do trânsito, poderia me envolver num acidente. Além do mais, estava num país onde o sistema de transporte, ancorado no metrô e no trem, era dos mais eficientes.

Os primeiros dias, permaneci em Paris. Os trilhos do metrô e minhas pernas levaram-me aonde eu queria – Tour Eiffel, Louvre, Notre Dame, Les Invalides e outros lugares famosos. Recomendaram-me não ir ao subúrbio (la banlieu). Era perigoso. Não fora esse alerta, talvez eu tivesse conhecido os locais onde, no início deste mês, os primeiros de milhares de carros viraram “bomba”.

No décimo dia, segui para Nîmes, para fazer um curso. No sul, região daquela aconchegante cidade, era forte a presença árabe, principalmente de argelinos e seus descendentes.

Nos finais-de-semana transformava-me num “piéton”, verdadeiro andarilho a perambular pelas ruas da cidade e seus arredores. De vez em quando, viajava pela bela costa do Mediterrâneo.

Inúmeras vezes, nesses passeios, minha atenção voltou-se para a algazarra provocada por uma pequena multidão. Ao me aproximar do tumulto, presenciava um árabe sendo agredido. A eficiente gendarmerie chegava logo depois e conduzia todos à delegacia.

Franceses me confidenciavam que Miterrand havia sido eleito pelas minorias. Por isso, reclamavam, enquanto nós temos todas as obrigações (pagar impostos, água, luz, telefone), árabes gozam de todos os privilégios. Recebem tudo de graça, inclusive a casa onde moram e o alimento que comem.

Uma vez, vivi o outro lado da moeda. Ao embarcar num trem, encontrei uma família árabe – marido, mulher e quatro filhos. Como estava em dúvida, perguntei ao marido se o destino era Marselha. A resposta veio na forma de gritos: “se você sabe, por que está perguntando”? Por ter a pele branca e já estar dominando o idioma, ele tomou-me por francês. Daí, tratar-me como tal – inimigo! Não o faria, provavelmente, se soubesse que eu era brasileiro.

Apesar de sentir-me um perfeito idiota, pude entender o lado francês da história – se a França lhe dá tudo que necessita, por que trata assim a um francês? Aquele homem e seus filhos nunca se tornaram franceses. Jamais apreciaram um bom vinho.

O fato é que francês e árabe são de culturas diferentes. Não combinam. O pior – não se suportam. Apenas vivem no mesmo território.

O incrível não é o que está acontecendo hoje, mas no tempo que demorou para explodir um ódio que já em 1982 era latente. Pode-se imaginar que a crise seja somente econômica. Suas raízes são muito mais profundas. Um problema que se alastrou por todo o país e começa a ser notícia em outros pontos da Europa. Não se trata, para o governo francês, de simplesmente criar empregos. A questão é mais grave.

Os brasileiros têm muito a ensinar a árabes e franceses. Nós, e mais ninguém, somos os únicos a poder proclamar: “vive la différence”!  Pena que eles, ambos, não nos queiram ouvir.

Torna-se óbvia a decisão de não comprar um carro, nos dias atuais, na França – ele pode virar cinzas. Quando lá vivi, nem tanto. Mas acertei. Afinal, graças à vida de “piéton” que levei, posso afirmar, inspirado na erudição dos nossos estádios: “eu já sabia”!

 

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