Artigos de ‘Internacional’ Category

Feliz Ano-Novo Chinês

04/01/2012 por bonat

Após certa quilometragem, tornei-me comedido ao festejar um novo ano. Não que eu seja tão velho, embora admita ter conhecido Kalashnikov, o inventor do fuzil AK-47, orgulho dos russos. Foi quando estive numa feira de armamento em Vladimir e me deparei com uma longa fila. Todos queriam o autógrafo daquele coronel, arqueado pelo tempo e por dezenas de condecorações. Cumprimentei-o, apenas. Não fotografei, do que me arrependo. Provaria não estar mentindo.

Na ocasião, outro fato me chamou a atenção. Havia comitivas pequenas – uma ou duas pessoas – de vários países. Americanos, exagerados, eram cinco. Chineses? Quase uma centena. Foi espantoso vê-los desembarcar dos ônibus. Seus uniformes os tornavam ainda mais iguais. E olha que chinos e russos nunca se deram muito bem. Porém queriam demonstrar força, não só aos russos, mas ao mundo todo que lá estava. Passados vinte anos, só agora percebo aonde os enigmáticos chineses pretendiam chegar.

O enigma chinês não é fácil de desvendar, mas, por questão de sobrevivência, é impositivo começar a estudá-lo. Quando nos deparamos com algo estranho, precisamos olhar mais profundamente.

Como vivemos os primeiros dias de um novo ano, comecemos pelo calendário. O chinês se relaciona a um dos 12 animais que teriam atendido ao chamamento de Buda. Assim, 2011 foi o ano do coelho; 2012, será do dragão; 2013, da cobra. Animais cada vez mais ferozes, transmitindo uma sensação, pelo menos para mim, de crescente ameaça. Conforta-me saber que, a partir de 2014, os bichos serão mais domáveis: cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco. Tomara!

Outro mistério é o mandarim, com seus inúmeros dialetos. É uma língua tonal e basicamente monossilábica. Diante dos seus símbolos, somos analfabetos. Ainda bem que, no caso do idioma, há certa reciprocidade. Levaríamos o mesmo tempo para aprendê-lo do que para explicar a um trabalhador chinês o significado de “Estado de bem-estar social”, aquele que tem ameaçado a existência da União Europeia. Suas dificuldades seriam imensas, pois seus dirigentes aprenderam com Mao a lhe sonegar informações. Por isso, contenta-se com um salário miserável, coisa inadmissível para trabalhadores do mundo ocidental. Graças a isso, a China despeja seus produtos em nossas lojas a preços irrisórios. Compete com nossa indústria que, taxada de todas as formas, começa a sentir-se ameaçada, assim como os empregos que gera.

O lado cruel do “capitalismo chinês” é a exploração do homem pelo homem. O isolamento a que o povo é submetido pelo governo, sonegando-lhe notícias de além-fronteira, é a face selvagem do “comunismo chinês”. Se perguntássemos a algum deles se ONGs estrangeiras tentaram impedir a construção da barragem das Três Gargantas, a maior do mundo, no rio Yangtze, ele responderia com um sorriso debochado. Se lhe contássemos que isso acontece por aqui, em relação a usina Belo Monte, daria gargalhadas. Conversar sobre aquecimento global? Nem pensar.

Parece complicado, não é? Pois nosso governo que trate logo de decifrar. Não podemos permanecer, com olhos de paisagem, admirando commodities desaparecerem no horizonte, para depois retornarem transformadas em manufaturas. Senão, nas próximas viradas, aqueles que ainda não tiverem perdido seus empregos, terão que comemorar com “cidra made in China”.

Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê

15/10/2010 por bonat

Países em forma de salsicha, especialmente se alinhados aos Meridianos, tendem a se dividir. É o que dizem os geopolíticos. Além de estreitos, portanto facilmente seccionáveis, a disparidade climática, fruto de diferentes latitudes, afeta a personalidade das pessoas que povoam seu espichado espaço. A metafórica salsicha é apropriada para sintetizar o mapa chileno. De norte a sul, são 4.270 quilômetros, contra apenas 170 de leste a oeste. No sul predominam geladas florestas úmidas. No centro, região mais habitada, o clima é mediterrâneo. Ao norte, o deserto de Atacama é caracterizado pela ausência de chuva.

Entretanto, no Chile, fatores geográficos atuaram contra a cabalística previsão dos teóricos. A cordilheira dos Andes, barreira quase inexpugnável, o isolou da influência nem sempre desejável de vizinhos, enquanto a placa tectônica de Nazca, muito ativa, gerou violentos sismos, cujas consequências solidificaram a nação.

No início do século 20, o país foi atingido por dois grandes terremotos (1906 e 1939) que o empobreceram e quase o destruíram. Desde então, os chilenos decidiram se preparar. Por isso, os tremores de fevereiro último, dos maiores da história, não tiveram resultados ainda mais catastróficos. Embutida no planejamento para enfrentar esse tipo de situação sempre esteve a ideia de trabalho voluntário, que levou à solidariedade. A solidariedade conduziu a um sentimento de união, a um forte espírito comunitário.

É sabido que das profundezas o deserto de Atacama o Chile extrai sua maior riqueza, o cobre. De lá, em agosto, notícias rapidamente se espalharam. Dessa vez, a catástrofe estava longe das dimensões de um terremoto. De qualquer forma, eram preocupantes, pois estavam em risco 33 vidas: as dos trabalhadores da mina San José, isolados 700 metros debaixo da terra. Seu drama foi acompanhado com apreensão mundo afora. A exitosa operação de resgate, que envolveu técnicos, engenheiros, militares, psicólogos e médicos, foi comandada pessoalmente, desde o início, pelo presidente Sebastián Piñera. Dizem que ele se aproveitou politicamente. Mas poderia ter fracassado.

O fato é que, de norte a sul, as comemorações populares de alegria pela saída do último mineiro demonstraram que o Chile, desdizendo os geopolíticos, tornou-se uma grande família, cujo pai é simbolizado pela figura do presidente, seja de que partido for. Afinal, lá ainda se observa uma saudável alternância no poder.

Resta-nos aguardar pelo filme. Se pudesse, eu o intitularia “Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê”. Claro que terá um final feliz. Agora, se o fato tivesse ocorrido na China, onde não existe alternância, talvez nem notícias tivéssemos. Filme, só se fosse produzido por algum burocrata do governo.

Publicado em Internacional, Política

Mandela e as vidas separadas

16/07/2010 por bonat

Vidas separadas – é o que significa apartheid, regime oficial que perdurou na África do Sul até 1994. Contra ele, Nelson Rolihlahla Mandela se rebelou. Por isso, em 1964, foi condenado à prisão perpétua.

Em 1990, cedendo a pressões internacionais, o Presidente Frederic de Klerk solicitou sua libertação. Durante os vinte e seis anos em que permaneceu preso, Mandela tornou-se o símbolo da antissegregação. Mesmo na prisão, enviou cartas para incentivar a luta, tendo recebido apoio de governos de todo o mundo.

Em 1993, ele e de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Em 1994, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Governou até 1999, sendo responsável pelo fim do apartheid.

Ele poderia ter conduzido uma caça às bruxas. Poderia ter mandado procurar ossadas, que não são poucas. Poderia, até, ter criado um “bolsa-apartheid”, sustentado pelo diamante extraído em abundância das minas sul-africanas. Teria inúmeras razões e tinha poder para isso. Seu espírito humanista e sua visão de estadista, porém, levaram-no a pensar na nação como um todo e buscar sua reconciliação.

Entre as inúmeras frases de Mandela, uma talvez explique o porquê de sua decisão: “Sonho com o dia em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitas para viver como irmãs”.

A presença, mesmo que por apenas alguns minutos, de Nelson Mandela no campo do Soccer City foi um dos momentos mais emocionantes da Copa do Mundo recentemente encerrada. Quando ele sorriu seu sorriso de paz e acenou do alto dos seus 92 anos de idade, recebeu a ovação de carinho e respeito da multidão.

As milhares de pessoas de todo o mundo que estavam lá, provavelmente, tinham na mente outra de suas frases famosas: “A luta é minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim dos meus dias”. Então, que ele demore a chegar!

Publicado em Internacional, Política

Truque velho

11/06/2010 por bonat

Quando a flotilha dita humanitária partiu de Istambul, estavam presentes inúmeros representantes do Hamas, entre eles Mahmad Tzoalha e Sahar Albirawi, terroristas de primeira linha, operando hoje na Inglaterra. Creio que não foram ao porto apenas para desejar boa viagem. Logo, é desnecessário ter bola de cristal para saber que os navios que se dirigiam à Faixa de Gaza nada tinham de pacifistas. O truque é tão velho quanto o Cavalo de Troia. Os alemães que defendiam Monte Castelo também o aplicaram, usando suas ambulâncias, protegidas por rigorosas convenções internacionais, a fim de levar munição para a sua artilharia, que depois era despejada mortalmente sobre nossos pracinhas.

Claro que o governo israelense às vezes age de tal forma que nem os americanos, seus tradicionais aliados, parecem mais aguentar. Entretanto, não se pode deixar de entender suas preocupações com as comunidades civis sobre as quais, diariamente, o Hamas continua lançando foguetes. Recorde-se que em 1967 a Síria fazia o mesmo a partir de Golan, enquanto o Egito de Nasser se armava com formidáveis blindados, que acabariam dizimados na Guerra dos Seis Dias.

Sob a atual e terrível ameaça de ser varrido do mapa, o que significa seu extermínio, o Estado de Israel enfrenta o dilema de tentar estancar a entrada de armas na Faixa de Gaza. Mas, como em 1967, os foguetes do Hamas pouco representam quando comparados ao novo holocausto que se anuncia no Irã. Nem sempre se pode confiar nas palavras de Mahamoud Ahmadinejad, mas sua manifesta intenção de varrer Israel do mapa deve ser levada a sério. De suas declarações, conclui-se que seu programa nuclear, como um Cavalo de Troia, nada tem de pacífico.

O triste é ver o Brasil, conscientemente ou não, sendo usado para acobertar os reais intentos do mandatário iraniano. O acordo nuclear, que assinamos em maio com Turquia e Irã, tem toda pinta de ser uma farsa. Como a agora tristemente famosa flotilha partiu de Istambul logo após a reunião de Teerã, sou, a contragosto, levado a inferir que, longe de microfones e câmeras, algo mais deve ter sido tramado. A política externa brasileira não mais esconde de que lado está. Quebra, assim, uma tradição de equilíbrio e ponderação na resolução de conflitos internacionais.

Ninguém é santo na Terra Santa. Talvez existam alguns anjos, mas estes não têm poder para interferir nas questões terrenas. Ao tomar partido numa confusão das arábias, quase tão velha quanto a humanidade e com a qual nada temos a lucrar, estamos dando uma de anjo e correndo um sério risco de importar um ódio secular, uma violência sem fim. É disso que precisamos? O mais intrigante é abrirmos mão de um truque cujo segredo só nós conhecemos: o da convivência harmoniosa de todas as raças e credos. Lamentável!

Publicado em Internacional, Política

Parece não haver humanos em Cuba

26/02/2010 por bonat

Que me perdoe a oposição, mas sou obrigado a concordar com o Presidente Lula. As Malvinas têm que pertencer à Argentina e não a um país do qual distam 14 mil quilômetros. Essa, aliás, tem sido de longa data a posição do Brasil, antes mesmo da aventura bélica do General Galtieri em sua tentativa desesperada de unir a nação afundada em problemas políticos e econômicos. Se Cristina Kirchner está retornando ao assunto, é válido imaginar que seus súditos não andam satisfeitos. Mas isso é problema dos hermanos.

Há outro problema que, aparentemente, também não é nosso. Mas, como estamos doando um dinheirão para o governo de certa ilha, podemos dar um pitaco. Meio século atrás, os revolucionários cubanos, cansados da ditadura do sargento Fulgêncio Batista e da influência norte-americana, decidiram trocar de patrão. Coincidentemente, idênticos 14 mil quilômetros separam o Kremlin de Havana. Cuba estabeleceu então acordos comerciais extremamente favoráveis com a URSS. Sem esse apoio, sua revolução e sua economia teriam colapsado. Em compensação, graças a essa dependência, o Kremlin tinha o regime de Castro na mão. Na prática, como “quem paga a banda escolhe a música”, Cuba tornou-se colônia da longínqua Moscou.

Rapidamente, os burocratas do Kremlin ensinaram aos seus homólogos cubanos como repartir o bolo, porém não como confeccioná-lo. Enquanto havia riqueza para dividir e antes de o comunismo fazer água na Rússia, a vida no país caribenho transformou-se para melhor. O analfabetismo despencou e a expectativa de vida aumentou. Porém, quando o muro de Berlim caiu, a fonte secou. Cuba virou uma sucata econômica e política. Neste segundo campo, o político, a herança foi tremendamente cruel. Tendo aprendido com os sucessores de Stalin a não admitir qualquer oposição, os irmãos Castro continuaram a sufocar ideias e ideais.

Humanos e animais precisam ter suas necessidades básicas atendidas. O que nos diferencia dos irracionais é o fato de possuirmos consciência. Mas, na ilha, parece não ser bem assim. Todos devem, como o cãozinho de Ivan Pavlov (russo, mas só por acaso), ser doutrinados. Quem não se submete, quem pensa diferente, é punido.

O sorridente encontro de Lula com os irmãos Castro, logo após a morte de Orlando Zapata, preso por ter consciência, foi constrangedor. A declaração de Raul Castro de que nunca houve tortura em Cuba, cínica. O silêncio do nosso mandatário, tristemente submisso.

Assessores diretos do nosso presidente, cujas palavras ele escuta com atenção e repete mundo afora com sua reconhecida eloquência, parecem desejar transformar o Brasil numa grande Cuba. Por que ele, o Homem do Ano do Le Monde, não aproveita sua fama para, ao contrário, tentar transformar Cuba num pequeno Brasil? Condicionar a doação de vultosos recursos, a fim de transformar o porto de Mariel no mais moderno do Caribe, à instalação de uma Comissão dos Direitos Humanos em Cuba seria um bom começo. Ou será que lá não resta nenhum humano?

Publicado em Internacional, Política

Haiti – um desafio ainda maior

16/01/2010 por bonat

Em 1994, uma força multinacional entrara no Haiti, com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, e restaurara Aristide ao poder. Dez anos depois, o esforço parecia ter sido insuficiente. Imperava o caos, refletido na reação instintiva de funcionários da ONU – “O Haiti novamente não! ” – quando tornou-se evidente que o País estava afundando rapidamente em direção ao caos e a ideia de nova intervenção internacional começava a ser discutida.

Em fevereiro de 2004, quando o Presidente Jean Bertrand Aristide saiu, o País encontrava-se, sob todos os aspectos, nas mãos de bandos armados. Os haitianos estavam frustrados e desapontados com a comunidade internacional. Armamentos proliferavam e o tráfico de drogas ganhava apoio.

O pronunciamento de Kofi Annan, Secretário-Geral da ONU, de que “fazer corretamente agora seria fazer diferente do passado”, revelava que nada havia dado certo. O “diferente” do Senhor Annan subtendia a participação brasileira no comando das ações diplomáticas e militares. Nosso desafio era resolver problemas seculares, iniciados quando os franceses abandonaram os haitianos à própria sorte, agravados por ditaduras violentas, e não resolvidos por várias intervenções externas mal sucedidas.

Na condição de Adido Militar em Washington, participei das tratativas iniciais para a criação da Minustah, a Missão de Estabilização. A situação que se apresentava era assustadora. A Polícia Nacional do Haiti, responsável pela segurança pública, era mais virtual do que uma realidade. Suas ações violentas se igualavam às dos bandos armados.

Aos poucos, os brasileiros foram conquistando a confiança. Os haitianos passaram a nos olhar mais como parceiros do que intrusos com interesses hegemônicos. Após os sucessos iniciais, o Exército sentiu que precisava fazer mais do que apenas garantir a ordem. Em 2005, acompanhei nosso Comandante à ONU. Sua visita tinha por objetivo convencer da necessidade de levarmos para lá uma Companhia de Engenharia (autorização necessária, pois a ONU é responsável pela folha de pagamento dos militares). Foi essa Companhia que, construindo estradas, hospitais e escolas, deu novo alento ao povo haitiano.

As coisas caminhavam bem. A realização de eleições gerais havia sido uma importante conquista. No entanto, o terremoto do último dia 12 pôs tudo abaixo, levando, junto com milhares de haitianos, a vida de quase vinte dos nossos soldados.

Se em 2004 a situação era difícil, agora ela é trágica. Atender às necessidades elementares de centenas de milhares de desabrigados e famintos é um enorme desafio a ser enfrentado pela comunidade internacional. Neste contexto, cresce de importância a experiência acumulada pelos brasileiros que lá estão há mais de cinco anos. Espero que eles encontrem forças para ajudar o sofrido povo haitiano a suplantar a tragédia que se abateu sobre ele.

Publicado em Internacional, Política

Neo ianques “go home”!

24/09/2009 por bonat

A situação em Honduras está cada vez mais complicada. Segundo os entendidos, o senhor Zelaya tentou rasgar a Constituição. Judiciário e Legislativo não deixaram. Portanto, parece exagero afirmar que houve um golpe de estado. Exagero maior é classificar o evento como golpe militar. Não vou me intrometer nessa discussão, pois, a meu ver, caberia à Honduras – Nação Democrática e Soberana – resolver seus problemas.

Vou me fixar somente no fato de a nossa embaixada em Tegucigalpa ter acolhido (dá até para desconfiar que tudo estava combinado) o bigode do chapeludo Don Zelaya. Nada tenho contra o chapéu, a não ser o fato de seu dono, ao que consta, não retirá-lo nem em enterro. É seu marketing. Com o “Panamá” na cabeça, ele sente-se superior aos demais viventes. Mas isso é assunto para professor de boas maneiras, não para mim.

Preocupa-me mesmo é o bigode, ou melhor, são seus fios. Claro que já vai longe o tempo em que um fio de bigode garantia a palavra empenhada. As coisas mudaram tanto, que ele e a própria palavra perderam credibilidade. Atualmente, nem mesmo um contrato assinado, com todos os carimbos e protocolos que servem para oficializá-lo, tem valor.

A Constituição, na condição de Carta Magna, deveria ser cumprida, em especial pelos mandatários dos chamados “Estados Democráticos de Direito”. Mas, como são poucos os bigodes confiáveis – e o do senhor Zelaya não é um deles – alguns líderes têm tentado driblá-la.
Foi esse o bigode que acolhemos, interferindo diretamente na política interna da pequenina Honduras. Resta saber que interesses estratégicos, humanitários, econômicos ou mesmo políticos levaram o Brasil a essa aventura. Sinceramente, não os consigo visualizar.

Vamos seguir algumas pistas para tentar encontrar a explicação. Pista 1: Honduras situa-se na rota do tráfico de drogas entre Colômbia e Estados Unidos. Pista 2: Interessa às Farc ter um “amigo”, para qualquer eventualidade, no comando daquele País. Pista 3: Hugo Chávez apóia as Farc. Pista 4: Nossa política externa anda à reboque do “líder bolivariano”. Pista 5: Chávez sugeriu que déssemos uma de ianque. Conclusão: esta é com você, caro leitor-detetive. Poderão até dizer que meu raciocínio é simplista demais, e é mesmo. Mas, ao mesmo tempo, é lógico.

Há décadas temos lido e ouvido o bordão “Yankees go home”! Por todos os cantos, inclusive no Brasil, a frase tem soado como protesto à onipresença norte-americana. Agora, graças às trapalhadas do senhor Celso Amorim, porta-voz de Marco Aurélio Garcia, o “ministro de fato” das Relações Exteriores, estamos virando “neo ianques”. Talvez, logo, logo, voltemos a nos denominar “Estados Unidos do Brasil”!

Publicado em Internacional, Política

Entre aspas

15/08/2009 por bonat

Abro aspas. Muitos já ouviram essa frase e ficaram torcendo para que as tais aspas fossem logo fechadas e o discurso chegasse ao fim. Por ter escutado inúmeros deles, julgo que chegou a minha hora de abrir algumas aspas.
“É preciso levar em conta o passado de Sarney antes de condená-lo”. O autor é de todos conhecido. “Vossa Excelência tem que engolir e digerir como quiser suas palavras”. De autor também muito e tristemente famoso. “Esqueçam de mim”. Este ao menos foi sincero. Era o que todos queriam ouvir. “Os nacionalistas retrógrados são contra as privatizações” Epa! Nacionalista sou eu. Retrógrado não. Ele ficou rico. Eu não. “Todos são iguais perante a lei”. E os sem-terra? “A ministra Dilma possui o título de Mestre pela Unicamp“. Sendo condescendente, foi u’a mentirinha a mais, uma falha dos assessores de quem não lê o próprio currículo.
Por fim: “Foi o ano do Brasil na França. Agora é o ano da França no Brasil”. Quer dizer, a Força Aérea Brasileira terá que aceitar o Rafale (avião no qual nem os pilotos franceses confiam) e a Marinha receberá de presente a ultrapassada tecnologia naval francesa para produzir submarinos.
Se, no governo passado, o Exército foi obrigado a aceitar os complicadíssimos e ainda não testados em combate helicópteros Super Puma, por que Marinha e Aeronáutica ficariam de fora da invasão intelectual francesa? Mas intelectual não entende de avião, de submarino e de helicóptero. Não é demais lembrar que a França teve suas últimas conquistas com Napoleão, quando nada disso existia e os intelectuais se limitavam a pensar. A questão é: quem sairá ganhando? Respondo, agora sem aspas: logicamente que não serão as nossas Forças Armadas.
Respeito os francólilos de coração. Ao mesmo tempo, temo os de ocasião, pois seus interesses nem sempre se confundem com os do Brasil. Particularmente, eu preferiria que os franceses se limitassem a nos mandar seus queijos e vinhos. Aí, estaria aqui mais um francófilo bradando entre saborosas aspas: “Vive la France”!
A Rússia assimilou da França uma ideologia que ela mesma, a França, nunca chegaria a implementar, e virou uma sucata conhecida como União Soviética. Nosso caso é ainda mais grave. Além da ideologia, estamos importando tecnologia, ambas caducas e ultrapassadas ou, se preferirem, demodés. Antes de encerrar, julgo conveniente avisar aos desavisados que ninguém é bobo de transferir seu avanço tecnológico mais recente.
Termino aqui o meu discurso. É possível que você não tenha concordado. Mas, ao menos, ele foi curto. Curto e sincero.

Osso – um palíndromo duro de roer

30/05/2009 por bonat

“A mala nada na lama”. “Anotaram a data da maratona”. O que têm essas frases em comum? Nada, além de ambas serem palíndromos, quer dizer, lidas da esquerda para a direita ou, ao contrário, da direita para a esquerda, têm o mesmo significado. Há também palavras-palíndromos. Osso é uma delas. Osso nos remete ao cartaz que, dizem, foi afixado na porta do gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro (PP): “quem procura osso é cachorro”. Segundo o noticiário, trata-se de um protesto aos que defendem o resgate dos restos dos militantes que participaram da guerrilha do Araguaia, nos anos setenta.
Alguns parlamentares do PCdoB ficaram irados. Ameaçaram Bolsonaro de entrar com um processo no conselho de ética, aquele que sequer puniu os deputados do mensalão. Mostraram-se incongruentes, pois sempre foram assíduos frequentadores de Cuba. Chegaram mesmo a prestar subservientes homenagens a Fidel, este sim um grande produtor de ossadas. Sabem até que cadáveres, cubanos ou não, nunca foram motivo para que El Comandante tivesse qualquer sentimento de culpa. Serviram apenas para que se garantisse no poder e exportasse sua revolución. Seu produto de exportação levou à morte jovens brasileiros e de outros países da América do Sul e da África. O certo é que assassinatos nunca pesaram na consciência dos irmãos Castro e nem na de outro ditador de quem o Brasil está agora se aproximando. Seu regime acaba de afrontar a ONU com mais um teste nuclear. Abrir uma embaixada brasileira em Piongyang significa apoiar a escalada belicosa de Kim Jong II, que, para manter-se no poder, ocasionou a morte de nada menos do que dois milhões de norte-coreanos.
Em Cuba e na República Democrática Popular da Coreia, produzir ossos tem sido parte de uma rotina de governo. No Brasil não. Mesmo assim, o governo que o PCdoB hoje integra faz questão de se aproximar de seus impiedosos títeres. Considera-os seres mais próximos de deus do que do diabo. Por isso, acha que lhes deve pagar o dízimo. Entretanto, bastaria consultar a história para se aperceber da falsidade que há em seus ares angelicais.
Acreditar que, por terem envelhecido, tornaram-se anjos seria tão ingênuo quanto aceitar os argumentos dos senadores José Sarney (PMDB), João Pedro (PT), Cícero Lucena (PSDB) e Gilberto Gollner (DEM) por terem recebido indevidamente quase quatro mil Reais por mês a título de auxílio moradia. Por que o PCdoB não entra com um processo contra eles? Seria aplaudidíssimo. Mas duvido que o faça. Seria mais fácil outro palíndromo – o ovo – parar em pé. Político não é bobo. Não atira no próprio pé. Nem na galinha dos ovos de ouro.

O Cara e a Coroa

14/04/2009 por bonat

Castelo de Windsor, bom dia.
Bom dia, mamãe. Sou eu, seu filho mais velho.
Qual o problema, para você ligar tão cedo num sábado?
Nada urgente. Só queria voltar a falar sobre a foto. Lembra? A foto da reunião do G20.
Filhinho querido. Cá entre nós, quando você trocou Diana por Camilla, pensei que não me daria mais aborrecimento. Agora você quer que eu pose ao lado dele? Assim não dá!
Mas, mãezinha, trata-se apenas de uma foto. Não vai durar nada. Poucos segundos e pronto. Não vai doer, posso garantir.
Com tanta gente importante e perfumada, você quer que eu saia ao lado de quem falou mal dos brancos de olhos claros?
Ora, mamãe, ele estava falando dos banqueiros americanos e não de nós, pobres integrantes da realeza. Até porque, Diana é quem tinha olhos claros, não nós. Ou não?
Teu argumento terá que ser muito convincente.
Está bem. Vou contar, porque a culpa é mesmo sua. Por obrigar-me a estudar, descobri que quando protegemos de Napoleão a família real portuguesa em sua fuga para o Brasil, encontramos uma gente frágil, subornável e para a qual Pátria não representa valor pelo qual se deva sacrificar. A partir dessa constatação, tenho usado a mesada que a senhora me dá para financiar ONGs inglesas que atuam na Amazônia e para subornar autoridades brasileiras. Desde o governo Collor faço isso. Não lhe contei antes para não aborrecê-la. Mas papai, que não faz nada, sabe de tudo. Ele sabe até que estive no Brasil na semana em que o STF votou o caso da Raposa Serra do Sol, a fim de dar uma pressãozinha na turma. Tive inclusive que, ridiculamente, sambar. Mas deu certo. O futuro do nosso Reino e a mordomia da nossa família estão garantidos por mais alguns séculos. Agora é preciso demonstrar o nosso reconhecimento aos brasileiros por nos terem entregue uma das províncias minerais mais ricas do mundo. É fundamental que Mr Presidente saia bem na foto. Você nem imagina a repercussão que isso terá no Brasil.
Barack não ficará chateado?
Já conversei com ele. Temos uma estratégia. Durante um dos intervalos da reunião, na frente de todos e, principalmente, da imprensa, ele revelará quem é o “cara”. Não esqueça de que os americanos são extremamente profissionais. Aí, estará fechado o circuito. Para completar, mandarei um agradinho para Brasília: uma caixa do nosso melhor scotch. A senhora sabe que, embora tenha cara de bobo, sou muito esperto (só bobeei no caso de Diana).
Sugiro que mamita faça uma pesquisa no google a fim de saber o que representa o nióbio e onde se encontram suas maiores reservas. Verá que estou cheio de razão.
Ok, filhinho querido. Tudo pela Coroa. Mas, por favor, nunca mais peça nada parecido. Já estou velha demais para tanto sacrifício.
P.S.: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas e instituições reais terá sido mera coincidência. Ou não?

Publicado em Internacional, Política