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Schettino – cherchez la femme

02/02/2012 por bonat

Alexandre Dumas sequer desconfiava que estava criando uma expressão tão ao gosto dos franceses quando, em 1854, publicou em seu livro Les Mohicans: “Il y a une femme dans toutes les affaires; aussitôt qu’on me fait un rapport, je dis: cherchez la femme”.

Cherchez la femme resume um lugar-comum das histórias de detetive. Não importa qual seja a confusão, quase sempre haverá uma mulher envolvida. Em seu sentido mais amplo, significa “procure a raiz do problema”.

Basta recordar alguns escândalos famosos para perceber que os franceses têm certa razão. Os casos das Mônicas, a brasileira de Renan e a americana do salão oval de Clinton. O do governador de Nova York, estrela do Partido Democrata, conhecido por “Cliente Nove” de Ashley Dupré, jovem de 22 anos que acabaria famosa como coelhinha da Playboy, enquanto “Nove” teve que renunciar ao cargo. O affaire de Dona Zélia Cardoso, que após ter deixado os brasileiros com míseros 50 dinheiros no bolso, resolveu dançar de rosto colado com Bernardo Cabral, ao som de “Besame Mucho”. A descoberta, no vizinho Paraguai, que o “bispo dos pobres” havia produzido em série dezenas “luguinhos”.

E, para não cometer a tremenda injustiça de esquecê-lo, é preciso recordar as festanças de Berlusconi, onde prostitutas adaptavam rituais eróticos praticados no harém de Muamar Kadafi. Diante das críticas, o premier italiano reagia: “Vivo uma vida terrível. Se uma vez ou outra preciso de uma noite para relaxar, ninguém tem nada com isso. Melhor gostar de garotinhas bonitas do que ser gay”. Aplausos! Este é o verdadeiro macho italiano, desde os da mais alta corte até os mais simples plebeus. Parece que eles sofrem da “síndrome de narciso”, segundo a qual todas as fêmeas devem adorá-los.

Aqui mesmo, em Curitiba, o presidente da câmara de vereadores, de sobrenome italiano, resolveu gastar 30 milhões em publicidade. Cidadãos indignaram-se pelo fato de ele torrar uma dinheirama, sem qualquer benefício para a população. Mas um jornalista-detetive logo iria desvendar que boa parte da grana pública foi parar no caixa da empresa de uma femme por quem o edil se encantara. Realmente, as mulheres têm o poder de fazer com que homens, honestos ou não, cometam loucuras, sem medir as consequências.

Quando pipocaram as primeiras notícias de que Francesco Schettino havia levado à pique o moderníssimo Costa Concórdia no Mediterrâneo, um mar que qualquer marinheiro conhece como a palma da mão há mais de 10 mil anos, caberia perguntar: “onde está a mulher”? Se fosse eu o seu advogado, usaria este argumento em defesa de Francesco, pois esse é o ponto fraco da maioria dos italianos. Mas, para azar de Schettino, a Itália tem um ponto forte: sua justiça é séria e funciona.

Prezado Francesco: Como acredito que você jamais voltará a bordo, deixo-lhe um conselho. Ligue para seu compatriota Battisti, aquele que assassinou quatro italianos inocentes e acabou acolhido como herói à bordo do Brasil. Quem sabe ele consiga interferir junto às nossas autoridades para você vir morar numa de nossas paradisíacas praias? Aí, não lhe será difícil “chercher une femme”.

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Feliz Ano-Novo Chinês

04/01/2012 por bonat

Após certa quilometragem, tornei-me comedido ao festejar um novo ano. Não que eu seja tão velho, embora admita ter conhecido Kalashnikov, o inventor do fuzil AK-47, orgulho dos russos. Foi quando estive numa feira de armamento em Vladimir e me deparei com uma longa fila. Todos queriam o autógrafo daquele coronel, arqueado pelo tempo e por dezenas de condecorações. Cumprimentei-o, apenas. Não fotografei, do que me arrependo. Provaria não estar mentindo.

Na ocasião, outro fato me chamou a atenção. Havia comitivas pequenas – uma ou duas pessoas – de vários países. Americanos, exagerados, eram cinco. Chineses? Quase uma centena. Foi espantoso vê-los desembarcar dos ônibus. Seus uniformes os tornavam ainda mais iguais. E olha que chinos e russos nunca se deram muito bem. Porém queriam demonstrar força, não só aos russos, mas ao mundo todo que lá estava. Passados vinte anos, só agora percebo aonde os enigmáticos chineses pretendiam chegar.

O enigma chinês não é fácil de desvendar, mas, por questão de sobrevivência, é impositivo começar a estudá-lo. Quando nos deparamos com algo estranho, precisamos olhar mais profundamente.

Como vivemos os primeiros dias de um novo ano, comecemos pelo calendário. O chinês se relaciona a um dos 12 animais que teriam atendido ao chamamento de Buda. Assim, 2011 foi o ano do coelho; 2012, será do dragão; 2013, da cobra. Animais cada vez mais ferozes, transmitindo uma sensação, pelo menos para mim, de crescente ameaça. Conforta-me saber que, a partir de 2014, os bichos serão mais domáveis: cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco. Tomara!

Outro mistério é o mandarim, com seus inúmeros dialetos. É uma língua tonal e basicamente monossilábica. Diante dos seus símbolos, somos analfabetos. Ainda bem que, no caso do idioma, há certa reciprocidade. Levaríamos o mesmo tempo para aprendê-lo do que para explicar a um trabalhador chinês o significado de “Estado de bem-estar social”, aquele que tem ameaçado a existência da União Europeia. Suas dificuldades seriam imensas, pois seus dirigentes aprenderam com Mao a lhe sonegar informações. Por isso, contenta-se com um salário miserável, coisa inadmissível para trabalhadores do mundo ocidental. Graças a isso, a China despeja seus produtos em nossas lojas a preços irrisórios. Compete com nossa indústria que, taxada de todas as formas, começa a sentir-se ameaçada, assim como os empregos que gera.

O lado cruel do “capitalismo chinês” é a exploração do homem pelo homem. O isolamento a que o povo é submetido pelo governo, sonegando-lhe notícias de além-fronteira, é a face selvagem do “comunismo chinês”. Se perguntássemos a algum deles se ONGs estrangeiras tentaram impedir a construção da barragem das Três Gargantas, a maior do mundo, no rio Yangtze, ele responderia com um sorriso debochado. Se lhe contássemos que isso acontece por aqui, em relação a usina Belo Monte, daria gargalhadas. Conversar sobre aquecimento global? Nem pensar.

Parece complicado, não é? Pois nosso governo que trate logo de decifrar. Não podemos permanecer, com olhos de paisagem, admirando commodities desaparecerem no horizonte, para depois retornarem transformadas em manufaturas. Senão, nas próximas viradas, aqueles que ainda não tiverem perdido seus empregos, terão que comemorar com “cidra made in China”.

Os votos de Dona Erda

23/11/2011 por bonat

É fácil esquecer-se de algo. Basta confiar na memória. Sempre tive muita dificuldade para lembrar o nome das pessoas. Por isso, ao longo do tempo, tenho-me valido de um velho e eficaz método: o de anotar. Anotar tudo.

Tem gente que recorre a outros artifícios. Para eles, mnemônica é a palavra salvadora. Ela vem de Mnemosine, deusa que personificava a memória na mitologia grega. Daí chamar-se mneumônico o processo que muitos utilizam para lembrar-se de coisas essenciais. Cícero foi dos primeiros a usá-lo em seus famosos discursos, transformando-o em método, em sua obra De Oratore.

Ele baseia-se no princípio de que a mente humana tem mais facilidade de memorizar dados quando estes são associados a informações pessoais, espaciais ou de carácter relativamente importante. Porém, estas informações têm que fazer algum sentido, ou serão igualmente difíceis de memorizar.

É um artifício indispensável a quem pretenda conquistar e manter clientes, seguidores ou, no caso dos políticos, votos. Entretanto, ao lado de sua reconhecida eficácia, mora o perigo dos estragos irreversíveis que pode causar.

O caso que agora passo a contar serve de alerta aos seus adeptos. O fato é real. Usarei nomes fictícios. Não que os tenha esquecido, pois os anotei, mas prefiro preservar a identidade da personagem principal.

Lelé era daqueles políticos falantes. Jurava que não mentia. O problema é que continuava falando, mesmo depois que as verdades haviam terminado. Beijava criancinhas, abraçava idosos e, dizem, dava bom dia a cavalo. Gabava-se da sua memória privilegiada. Bastava ser apresentado a alguém, para não mais esquecer o seu nome. Não revelava o truque. Talvez empregasse o processo mneumônico. Ninguém sabe.

Em campanha para deputado estadual, foi à Vila Tem-Tem, convidado por Dona Erda (pronuncia-se Érda). Líder local, ela era muito respeitada. Nunca fora candidata a nada. Gostava mesmo de ajudar, de fazer o bem, sem nenhum interesse pessoal. Quase uma santa. Por isso era querida.

O salão comunitário estava lotado. Perante mais de trezentas pessoas, Dona Erda foi só elogios ao candidato, a quem pediu votos, pois acreditava em suas promessas de fazer o progresso chegar à Vila Tem-Tem. Encerrou sob aplausos e gritos de “Lelé já ganhou”.

Chegou o grande momento: a vez de o nosso protagonista discursar. Por mais de meia-hora, ele deitou falação, prometendo transformar em paraíso o inferno que era a pobre Vila Tem-Tem . Ao final, sabedor do elevado prestígio de Dona Erda, resolveu pedir aos presentes que a aplaudissem.

Para sua surpresa, fez-se silêncio. Imaginando não ter sido entendido, repetiu: “Antes de encerrar, peço uma salva de palmas a esta brava lutadora, Dona Osta (pronunciou Ósta)”. A essa altura, Dona Erda, constrangida, já tinha saído à francesa, deixando-o a sós com a plateia irada.

Lelé perdeu a eleição. Na Vila Tem-Tem, nenhum voto. Se tivesse usado o velho e eficaz método de anotar, hoje seria deputado. Aprendeu tarde demais. Nunca mais se candidatou. Nem mais voltou à Vila Tem-Tem.

Verdade: que palavra perigosa!

23/09/2011 por bonat

CapaQue verdades buscará a comissão que está a ponto de nascer? As mesmas de Hitler? Quem sabe, as de Mussolini? Ou, ainda, as de Stalin. Tristes figuras, alquimistas políticos, capazes de transformar mentiras em verdades absolutas. Faz tempo que eles morreram. Mas, no Brasil, continuam influentes, à esquerda e à direita.

Os três pertenciam ao mesmo time: o totalitário. Contavam com o competente assessoramento de pessoas como Goebbels, para quem a mentira repetida à exaustão se tornaria verdade. Teoria que deu certo enquanto durou, sem antes causar a morte de 45 milhões de pessoas. “Ismo” era o sufixo que os irmanava e, ao mesmo tempo, transformava-os em competidores pela liderança mundial. O fascismo, de extrema direita, aliou-se ao nazismo, de esquerda. Ambos lutaram contra outro “ismo” de esquerda, o comunismo de Stalin. Quem pagou o pato, diga-se de passagem, foram os povos italiano, alemão e russo.

Os fascistas italianos foram simples coadjuvantes dos nazistas. Nunca é demais lembrar que nazista é a corruptela de nacional-socialista, como se auto-intitulam os filiados ao partido que hoje comanda o Brasil. Foram seus homólogos alemães que deram luz ao führer. À leste, Stalin usava métodos semelhantes, mais cruéis ainda, pois, quando o assunto era concentração de poder, não importava se milhões de pessoas fossem sacrificadas, mesmo sendo do seu próprio povo.

As monarquias absolutistas tinham ficado no passado. Para aquela turma da pesada – Stalin, Hitler e Mussolini – o importante era tornarem-se os neo-imperadores, donos da vida e da morte dos seus súditos.

Alguém escreveu que “En las monarquias, a las familias reales – mayormente parásitas y decorativas – el estado los ayuda a mantener su nivel. Pero en la república (ah, que gran concepto!) democrática (ah, que peligrosa palavra!)…”

A maior ameaça para a verdade são os mentirosos. Da mesma forma, o grande inimigo da democracia são os falsos democratas. Quando estes chegam ao poder, a primeira vítima é a verdade. Se for preciso, compram-na de uma oposição venal.

Eles sabem, exatamente, onde encontrar as verdades que simulam buscar. Elas deveriam estar em suas consciências, mas não estão. Estão em seus fantasmas, mas o importante é o poder, pelo poder. Por isso, nunca revelarão a verdade que só eles conhecem, da qual deveriam se envergonhar. Escondem-na sob a capa da grande mentira que, seguindo Goebbels, vivem incessantemente a propagar. Jamais confessarão que abandonaram à própria sorte jovens que convenceram a se embrenhar em florestas como a do Araguaia.

Ávidos por indenizações milionárias, hoje são como as antigas famílias imperiais: “parásitas y decorativos, como las famílias reales de las monarquias; el estado los ayuda…” E como os ajuda!

Democracia, que bela palavra! Que perigosa palavra na boca de mentirosos!

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Mário Vanin e o dispositivo

28/08/2011 por bonat

Mário não resistiu. Quando o mestre de cerimônias repetiu pela quarta vez a palavra “dispositivo”, ele perguntou: “Bonat, o que é dispositivo?” A crítica, em forma de desafio bem-humorado, educado e inteligente, partia do Prefeito, um homem de letras, que ao meu lado no palanque oficial, assistia a uma formatura no quartel. Capa

Foi o bastante para eu me dar conta de que aquele chavão, que redizíamos várias vezes, era dispensável. Ao invés de “Fulano ocupará o seu lugar no dispositivo”, poderíamos ter dito simplesmente: “Fulano ocupará o seu lugar”. Fácil, não? Mas só depois do alerta do Vanin. Desde então, nunca mais permiti que se usasse “dispositivo” nos eventos do quartel nem das unidades que posteriormente eu viria a comandar.

Essa é apenas uma das várias lembranças que guardo de uma pessoa a quem aprendi a admirar. Por isso, lamentei muito ao saber de sua morte quando estive recentemente em Caxias do Sul para proferir palestra na ADESG.

Lembro do dia em que, mais ou menos às quatro da madrugada, ele me ligou. Ambos havíamos passado a noite em nossos gabinetes, tal a gravidade da situação. Eu contava os prejuízos que um vendaval causara desde a meia-noite. Os telhados de todos os pavilhões do quartel haviam sido destruídos. Do outro lado da linha, Vanin, angustiado com a sua Caxias do Sul, necessitava de apoio. A cidade vivia um caos. Pedi que esperasse um pouco, pois precisava de tempo para organizar-me a fim de conhecer a minha própria desgraça.

Claro que eu não iria deixar Caxias na mão. Uma hora depois, retornei: “Prefeito, posso apoiá-lo com cinco equipes de vinte homens”. Mais tarde, soube que uma delas ficara encarregada de liberar a avenida que margeia os pavilhões da Festa da Uva, interditada pela queda de dezenas de árvores. Logo da Festa da Uva, sua paixão como símbolo dos caxienses, a quem Vanin tanto amava!

Ele sempre foi uma presença marcante na Semana Farroupilha. Algumas vezes, quando todo mundo tinha ido embora, permanecíamos até de madrugada com um restrito grupo de amigos. Saboreávamos, então, as histórias que narrava com sua simpatia de ótimo contador de causos. Era o momento em que deixava a formalidade do cargo, para voltar a ser o que sempre foi: o Mário, homem do povo, simples e fidalgo. Por isso, e para ajudar a sua gente, sem ser demagogo, muito menos populista, havia se tornado prefeito.

Graças ao seu apoio, consegui erguer o monumento em homenagem aos pracinhas caxienses da Força Expedicionária Brasileira que atualmente embeleza o largo de São Pelegrino.

Não fosse Vanin e a perimetral que construiu, os caxienses viveriam hoje engarrafados num trânsito sufocante. Não fosse ele, e os moradores da Sinimbu e de outros logradouros não suportariam o odor vindo das entupidas galerias subterrâneas de água e esgoto.

Ele deveria ter alardeado isso e muito mais que fez. Mas, ético, preferiu não gastar dinheiro público em propaganda. Esperava que alguém falasse por ele. Ninguém falou. Pois hoje eu proclamo: o meu amigo Mário David Vanin foi um dos maiores prefeitos de Caxias do Sul. E afirmo isso com um olhar crítico de forasteiro, que passou aí somente cinco anos, e tem uma percepção muito desconfiada a respeito dos políticos em geral. Entre eles, Vanin foi exceção.

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O trem-bala não saiu da gare, por enquanto

14/07/2011 por bonat

Enfim, uma boa notícia. Ninguém apareceu. Por enquanto, o trem-bala permanecerá na gare. Os empresários, que não são bobos, acharam pouco os 34 bi avaliados pelo governo. Segundo eles, tocar a obra não sairá por menos de 50 bi. Parece que têm razão, pois não deve ser fácil escavar mais de 100 quilômetros de túneis.

O diminuto “bi”, que vem depois do 50 aí de cima, não transmite a verdadeira grandeza dos valores em discussão. Se eu tivesse escrito 50 bilhões, ainda assim não provocaria muito impacto. Para ser mais incisivo, usarei todos os zeros que a cifra contém: R$ 50.000.000.000,00. Isso mesmo. Excluindo os desprezíveis centavos, são 10 poderosos zeros. Sempre é bom lembrar que o orçamento do Ministério dos Transportes contem ainda outros atraentes zeros.O amplo leque sob a responsabilidade dessa estratégica Pasta reflete-se no seu orçamento e explica a atração que ela exerce sobre os políticos em geral.

Esclareço que não foram as últimas notícias de corrupção no Ministério dos Transportes que me tornaram um crítico do trem-bala. Mas elas deram um empurrãozinho na decisão de expressar o que penso. O recente escândalo, envolvendo o ex-ministro Alfredo Nascimento, faz desconfiar que ele e seu time de confiança podem ter embolsado muito dinheiro ao longo dos mais dos 6 anos que ficaram por lá. Mesmo que o Supremo, mais uma vez, venha a concluir pela ausência de provas, todos os cidadãos sentem-se roubados.

Como desgraça pouca é bobagem, circula na internet (nem sempre confiável, é verdade) denúncia sobre o uso, pelo ministro afastado, de dinheiro público num affaire amoroso capaz de fazer até Derci Gonçalves ruborizar. Mas este é outro assunto e, além do mais, carente de comprovação.

Voltando ao trem-bala, a euforia causada pela boa notícia de ninguém ter aparecido foi imediatamente anulada pela persistência do governo, que já anunciou mudanças no modelo de licitação. Sua insistência aponta na direção dos cofres da união. Em tempos idos, empreendimentos desse porte seriam taxados de faraônicos. Hoje, não mais, embora existam inúmeras outras prioridades. Vou poupá-lo, caro leitor, de listar nossas carências nas áreas da saúde, educação, saneamento e segurança pública.

Tratarei apenas do igualmente carente setor dos transportes. Nele encontramos não só ferrovias, mas também aeroportos, rodovias, portos, metrôs e aquavias, estrangulando, como um gargalo, a circulação de pessoas e cargas, diminuindo nossa competitividade, elevando preços, maximizando o custo Brasil e ceifando milhares de vidas a cada ano. Os 50 bi, com seus 10 zeros, resolveriam muitos desses problemas.

Resta perguntar: quem tem mais pressa? Alguns poucos privilegiados que irão do Rio a São Paulo em apenas uma hora e meia? Ou, por exemplo, a carga do trem que sai de Cascavel para, somente depois de 18 dias, chegar a Paranaguá? Não podemos esquecer que cargas significam emprego para milhões de brasileiros. Para preservá-los, o faraônico bala poderia esperar mais um pouco em sua luxuosa gare.

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Brasília, um exemplo para o País

07/06/2011 por bonat

Nos anos 1950, o Brasil encontrava-se diante de um desafio. Sair do mundo rural e atrasado em que vivia, para entrar de vez na era industrial. Brasília simbolizaria essa passagem.

Bem antes, em meados do século XVIII, a necessidade de interiorizar a capital havia sido sugerida pelo Marquês de Pombal. A ideia foi retomada pelos inconfidentes e reforçada logo após a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808.

Em 1822, José Bonifácio já tinha um projeto de Brasil. Abolicionista convicto, defendia a transformação dos escravos em “cidadãos ativos e virtuosos”, e uma reforma agrária que substituísse o latifúndio improdutivo pela pequena propriedade. Propunha uma educação primária e gratuita para todos. Pregava pela transferência da sede do governo do Rio de Janeiro para uma cidade a ser construída nas cabeceiras do rio São Francisco.

Mais tarde, em 1883, na cidade italiana de Turim, o padre João Bosco teve um sonho profético: a capital do Brasil seria construída entre os paralelos 15 e 20.

Juscelino, astuto, perceberia que a hora havia chegado. Carismático, até hoje é aplaudido inclusive pelos cariocas, os grandes prejudicados por deixarem de ser o centro das decisões políticas.

Brasília teria que dar o exemplo ao Brasil. Assim imaginou Lúcio Costa ao traçar, numa folha de papel, dois eixos cruzando-se em ângulo reto, tal qual o próprio sinal da cruz, para, a partir dele, conceber o arrojado projeto que seria o escolhido para dar vida ao que muitos haviam sonhado. Em torno daquela imaginária cruz, se encontrariam diversas culturas atraídas para o Brasil Central. No máximo, quinhentas mil pessoas que, vindas de todos os cantos, seriam transformadas numa só alma.

Não há por que duvidar da honestidade do sonho de tantas pessoas. Mas, o que deu errado? Como Brasília chegou a uma perversa desigualdade social, sendo a quarta nesse critério entre todas as cidades brasileiras? Como explicar que, com tanta desigualdade, praticamente sem indústria e agricultura, representa hoje o segundo maior PIB per capita entre as capitais brasileiras? As respostas para essas questões, possivelmente, pessoas como Francenildo, o humilde e honesto caseiro, poderiam nos dar.

Na verdade, os sonhos começaram a ser desvirtuados assim que as obras iniciaram. Gastou-se muitíssimo mais do que o necessário. Talvez por isso, ao ser inaugurada em 1960, ela estava mais para avião do que para uma singela cruz. Os braços haviam se transformado em asas, balizando o setor residencial. O traço vertical passou a simbolizar o corpo de uma aeronave, cuja tripulação passou a sorver cada vez mais recursos da nação. Na Esplanada, já são poucos edifícios para tantos Ministérios. No Congresso, não cabem todos os senadores, deputados e assessores de todo tipo.

Com o tempo, em torno do belo avião que haviam construído, milhares de operários, denominados candangos, foram sendo amontoados nos diversos acampamentos das empreiteiras, dos quais Candangolândia e Novacap tornaram-se os mais famosos. Posteriormente, outros candangos chegaram com a esperança de receber algumas migalhas dos banquetes servidos a bordo. A população atingiu mais de 2,5 milhões, que, definitivamente, não formam uma só alma.

O mais intrigante é ter-se uma aeronave bonita, luxuosa, extremamente dispendiosa, mas que não decola. Como, segundo Lúcio Costa, Brasília deveria servir de espelho, ela não deixa o Brasil também decolar. Claro que não foi bem assim que ele sonhou.

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Governador por um dia

30/01/2011 por bonat

“Por que as meninas não puderam participar?” A pergunta da repórter de uma televisão local soava como acusação e quase me derrubou. Ela cobria um dos eventos que realizávamos em Curitiba para comemorar a Semana do Soldado. A ideia tinha partido do meu amigo Britão. A mim, como oficial de comunicação social, coube apenas o mérito, se é que aí existe algum, de ter-lhe batizado: “Soldado por um dia”.

Ofertávamos a diversas escolas vagas para que alunos da 4ª série do ensino fundamental vivenciassem algumas atividades exercidas pelos soldados. Deu um trabalho danado, mas a experiência virou um sucesso. Mais tarde, o Exército sugeriria a todas as suas unidades que a implementassem.

”Porque é um projeto-piloto. Como ainda está em teste, resolvemos realizá-lo somente com meninos. No ano que vem, pretendemos abri-lo também para meninas”. Com essa meia-verdade respondi à repórter. Era, realmente, um programa-piloto, mas não cogitávamos a presença feminina, pois precisaríamos de uma monitora para cada grupo de dez “soldadinhas”. Como, na época (1990), ainda não havia mulheres no Exército, não dispúnhamos desse apoio, imprescindível no caso.

Mas, para não passar por mentiroso, no ano seguinte, 50 meninas participaram do programa, o que só foi viável graças à colaboração de universitárias de educação física.

Por certo, as crianças, de 9 e 10 anos, que passaram pelo programa, conservam na memória aquele dia especial. Devem ter guardado o diploma de participação e inúmeras fotos onde aparecem fardadas, marchando, na pista de cordas, no cabo-de-guerra, na pista de orientação, passeando em blindados, hasteando a bandeira, na fila para o rancho ou dormindo em barracas.

Pois bem, essa pequena historia mostra como, em pouco mais de vinte anos, a presença da mulher na sociedade brasileira cresceu. Uma delas estar exercendo o mais alto cargo da nação sintetiza como evoluímos.

Mas, se caminhamos para a frente em alguns setores, em outros a transformação teve caráter involutivo. A farra com o gasto público é um deles. Prova mais recente são as notícias sobre a pensão de R$ 24,8 mil a que se julgam merecedores os ex-governadores. Alguns passaram quatro anos. Outros, menos. Há casos estarrecedores, como o de um que vai receber por dois estados. Senadores, que já ganham uma bolada, contarão com outro contracheque a ser bancado pelo contribuinte. A lista inclui ainda outro que, por ter respondido pelo governo por apenas nove dias, será contemplado com esse prêmio de uma loteria de cartas marcadas.

De certa forma, lamento ter batizado o nosso evento de “Soldado por um dia”. Se o tivéssemos denominado “Governador por um dia”, bastaria àquelas centenas de crianças de então, hoje adultas, munidas do diploma de participação e de algumas fotos, habilitarem-se a receber uma atraente pensão. Afinal, não faz muita diferença ter sido governador por um ou nove dias. Seria a maneira de transformar em grito o murmúrio de indignação de toda uma sociedade.

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Andradas, um nome de forte

12/01/2011 por bonat

Exatos 299 metros separam os morros do Guaiuba e do Munduba, onde, em 1942, o Forte dos Andradas foi inaugurado para fazer face a possíveis bombardeios nazistas. A 5ª Bateria Independente de Artilharia de Costa, ali instalada, e a Fortaleza de Itaipu, já existente em Praia Grande, passaram a fechar e proteger a entrada do porto de Santos.

Terminada a Guerra, com o passar do tempo, ambos tornaram-se obsoletos. Hoje, Itaipu abriga uma unidade de artilharia antiaérea, enquanto o Forte dos Andradas sedia o quartel-general da Brigada de Artilharia Antiaérea, Comando estratégico do nosso Exército.

Num dos extremos da praia, pouco a pouco, foi sendo edificado um pequeno hotel de trânsito, simples e sem muito luxo, para os militares poderem desfrutar com a família, indenizando, é claro, alguns poucos dias de férias.

A simplicidade era compensada pela beleza do local, emoldurado pela mata atlântica, ainda preservada e respeitada naquele lugar, e pela existência de um sítio histórico. Mesmo assim, nos anos de 2001 e 2002, quando estive à frente da Brigada, ele não era muito procurado. Quando o Presidente Lula o descobriu, a afluência aumentou. Entre dezembro e março, para se conseguir uma vaga passou a ser necessário reservar com bastante antecedência.

O risco era de o presidente querer hospedar-se lá. Neste caso, todas as reservas seriam canceladas. Foi o que aconteceu agora. Por três semanas, ele ficou bloqueado e pelo menos trinta famílias ficaram frustradas. Provavelmente, tiveram que curtir o verão em casa ou na de parentes.

A questão é se um ex-presidente merece esse tipo de privilégio. Podem até dizer que sim, afinal, ele deixou recentemente o cargo. Mas podia, ao menos, ter esperado chegar a baixa temporada, quando não prejudicaria tanta gente.

Tenho a impressão que os irmãos Andradas, que sabiamente costuraram nossa Independência, agiriam de maneira mais ética. Por isso, mesmo depois de tantos anos, seu nome continua forte e respeitado na Baixada Santista. A denominação do agora famoso Forte dos Andradas é apenas uma das inúmeras honrarias que receberam post-mortem, homenagem evidentemente merecida.

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O olhar da Baronesa

02/01/2011 por bonat

Mais um ano se vai. Neste, como nos anteriores, uma fotografia, a mesma de sempre, de cavalos e cavaleiros perseguindo estudantes no Rio de Janeiro, volta e meia apareceu em revistas, jornais e na internet.

Em 2010, o diferencial foi a UNE ter ganho de presente uma nova sede, que consumirá R$ 44,6 milhões, o que não seria de nossa conta, desde que não saíssem do erário público. A culpa recairia, aparentemente, naqueles da foto de 1968, repetida incessantemente até que a razão maior fosse agora revelada: sacar dos cofres da viúva muito além do necessário para uma obra daquele porte.

Embora pareça patético, não é despropositado defender os equinos, que não merecem continuar a ter a imagem, por mais tempo ainda, maculada. Para você compreendê-los melhor, relato o caso que tive com Baronesa naqueles tempos longínquos.

Disseram que para entrar na baia, bastava dar um tapa na parede, que ela logo se afastaria para o lado. Uma palmada, um coice. Segunda palmada, outro coice. Só depois da terceira é que sua anca moveu-se o suficiente para eu passar espremido. Quando, finalmente, consegui chegar ao lado de sua longa face, ela fulminou-me com um olhar de “aqui não, guri”, o que eu, aos dezoito anos, realmente era.

Assim começou meu relacionamento com Baronesa, uma das inúmeras exigências curriculares da Academia Militar, que custou-me alguns tombos e voltas a pé até a baia. Travamos luta constante, um tentando provar que era mais forte e mais inteligente do que o outro.

No final do ano, Baronesa se revelaria uma campeã. Zerou, comigo em cima, a pista de saltos, ultrapassando com estilo todos os obstáculos, provavelmente para não ter que repeti-los. Queria mesmo era ver-se livre de mim e antecipar suas férias de verão.

Enquanto isso, o pau comia em Paris. “É proibido proibir”, ouvia-se em Champs-Élysées, logo repetido por alguns jovens cariocas. Gravuras de estudantes, cavalos e cavaleiros, de lá e de cá, correram o mundo. Um olhar retrospectivo impõe uma conclusão incômoda: se não havia guerra, com certeza também não havia paz. Mais incômodo ainda é admitir que havia guerra entre as duas potências, enquanto a paz era vitimada em outras nações.

Portanto, apesar de não ter formado com Baronesa o que os especialistas denominam “conjunto”, julgo importante afirmar que ela e seus semelhantes não merecem ser considerados inimigos eternos dos estudantes. Nem eles, nem os que os montavam nos anos sessenta.

O incrível é ver aqueles que hoje se beneficiam do “proibido proibir” francês admirarem um contumaz proibidor, o senhor Hugo Chávez. Existe aí mais do que uma contradição. Há um parodoxo vicioso, tal qual “erário privado”, como eles supõem ser a fonte da qual sorverão milhões para erguer a nova sede.

Embora poucos comentem, muitos os acompanham com o mesmo olhar de indignação da Baronesa, querendo dizer: “que feio, guris”.