Artigos de ‘Política’ Category

I have a dream

07/11/2008 por bonat

Quarenta anos depois, o sonho de Martin Luther King Jr tornou-se realidade. Um negro foi eleito presidente da única superpotência. A imprensa e os líderes mundiais não conseguem esconder seu entusiasmo.

Alguns governos sul-americanos ficaram radiantes. Doutrinados por Fidel, eles agora querem dar uma lição de democracia para Barack Obama. Numa das primeiras aulas, pretendem ensiná-lo como acabar com o embargo comercial a Cuba.

O senhor Obama tem consciência de que o Foro de São Paulo, inspirado nos donos de Cuba, prega abertamente o ódio aos estadounidenses, sejam brancos ou negros. Os membros do Foro parecem não perceber que a população norte-americana é a mais multirracial do mundo. Desconhecem o seu espírito patriótico, tornado bem claro no pronunciamento de Obama que emocionou a todos os americanos: “Não foi a vitória do negro, nem do pobre. Foi a vitória dos Estados Unidos da América”. Ele tem plena consciência de que os afro-descendentes representam apenas 13% da população e que só foi eleito por ser cidadão da maior democracia do planeta.

Se fosse cubano, onde proporcionalmente os negros são muito mais numerosos – 32% da população – não teria chance alguma. A família Castro, branca, diga-se de passagem, instalada há mais de meio século no poder, não admite oposição.

Eu gostaria de dar um conselho ao novo presidente dos Estados Unidos. Quando os tristemente ridículos líderes sul-americanos chegarem com a conversa mole de acabar com o embargo comercial, que apresente sua contraproposta: a de que se levante o embargo sim, mas somente quando for permitido a todos os cubanos, negros inclusive, sonharem com a liberdade e com a possibilidade de um dia chegarem à presidência de Cuba.

Creio que nosso mandatário, que volta e meia se reúne a portas fechadas com Fidel, seria um confiável portador dessa proposta. Aliás, em sua recente visita à Ilha, ele convidou o irmão e sucessor do “comandante” para visitar o Brasil. Quero aqui plagiar Martin Luther King Jr: “I have a dream”. Sonho que o senhor Raul Castro, envergonhado por ter as mãos sujas de tanto sangue humano, resolva não aceitar o convite.

Com a herança que está recebendo de George W. Bush, Barack Obama vai precisar de muita competência, de muito apoio e de muita sorte. Pelas mais diferentes razões, o mundo todo sonha que tenha êxito.

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Marta, um nome de dama

15/10/2008 por bonat

Marta era uma das tias do meu pai. Já a conheci viúva, com duas crianças para criar. Da sua casa, lembro-me da máquina de costura. Era nela que a encontrávamos sempre que íamos visitá-la. Fazendo vestidos, conseguiu educar os filhos. Devia levar uma vida difícil. Mesmo assim, nunca a ouvimos se lamuriar. Meus olhos de criança viam nela uma dama. Vestia-se sobriamente, sem chamar atenção, sem excessos, mas com elegância. Durante um bom período, imaginei que todas as Martas eram como ela: senhoras distintas, honestas e trabalhadoras.

Claro que essa imagem não resistiu aos anos. Antes mesmo de uma ministra de estado proferir o célebre “relaxa e goza”, eu já tinha consciência de que as Martas não eram todas iguais. E quanto mais passa o tempo, mais a ex-ministra me convence que o nome não molda a personalidade das pessoas.

Agora, sob pressão, ela extrapolou. Candidata à prefeitura da maior cidade do país, com orçamento superior ao de várias nações - o que representa enorme atrativo -, e em desvantagem nas pesquisas, ela partiu para o ataque em recente debate transmitido pela televisão. Durante os dois primeiros blocos, nada mais fez do que chamar Kassab de mentiroso. É forçoso reconhecer que este é um tema que o partido da senhora Marta domina como poucos. Sempre que uma bomba está prestes a estourar, companheiros do presidente inventam um factóide para atrair a mídia e desviar a atenção da população.

Ainda durante o debate, ela colocou em questão as amizades de Kassab. Aí, levou um contravapor que jogou-a nas cordas e quase a nocauteou. Era de esperar, pois, da mesma forma que os Pittas e Malufes não foram esquecidos, os Delúbios e os dólares na cueca continuam vivos na memória do povo. Há tantas perguntas a fazer sobre o comportamento ético dos amigos e companheiros da senhora Marta, que ela teria feito melhor se não tivesse tocado no assunto.

E como prepotência vicia, a insinuação de que, por não ser casado nem ter filhos, Gilberto Kassab poderia ser gay, espalhou-se por São Paulo. E daí, dona Marta? Ela apressou-se em dizer que não tinha nada com aquilo, que era coisa do seu marqueteiro. Seguiu fielmente o que recomenda a cartilha: “Se algo der errado, ponha a culpa nos outros. Se não puder, minta, minta, minta mil vezes, e pronto”.

Não sei quem vai administrar o vultoso orçamento paulistano. Mas a candidata sabe que, se não for a escolhida, algum bom cargo a espera em Brasília.

Marta não é brincadeira. É um nome que me lembra honestidade. Fazer o quê?

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Eleições - mortos ainda não votam

02/10/2008 por bonat

Há tempos desisti de querer os políticos todos certinhos. E não estou levando em conta apenas aqueles “made in Brazil”. Trata-se de um fenômeno globalizado. Mas, como estamos em clima de eleições municipais, não posso deixar de expressar o meu desconforto com um fato que se repete ano após ano.

Todo 29 de dezembro, chega à nossa caixa de correio um cartão de cumprimentos à minha mãe pelo seu aniversário, enviada por uma vereadora de nossa cidade. Um vereador, a cada 14 de junho, manda votos de felicidade e de vida longa ao meu pai. Sei que ambos não usam o seu dinheiro e sim o do contribuinte, quer dizer o nosso, para fazer “relações públicas”.

O hilário no caso, para não empregar um termo mais grosseiro, é que minha mãe morreu há quinze anos e meu pai há dez. Recentemente, os mesmos edis enviaram aos meus falecidos pais farto material publicitário, pois são candidatos a mais uma reeleição.

Não vou lhes revelar o nome. Gostaria somente de deixar um apelo político para que respeitassem ao menos os sentimentos dos eleitores. Eles poderiam até imputar a falha a algum assessor. No entanto, a bem da verdade, são eles que escolhem os assessores, que também são pagos pelo contribuinte. Já que se avizinha uma crise econômica mundial, seria conveniente um pouco de atenção a fim de se evitar gastos desnecessários, pois mortos ainda não votam.

Aproveito, sabendo do risco de dizerem que militar não deve se meter em política, para sugerir o fim do voto obrigatório. Creio que já estamos suficientemente maduros para exercer, conscientemente e de modo facultativo, esse direito.

Acredito que, neste 5 de outubro, nosso País dará mais uma prova de fé na democracia. Que assim seja.

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Vizinhos assim, melhor não tê-los!

14/09/2008 por bonat

A Austrália pode se considerar feliz. Não possui vizinhos, nem pobres, nem ricos. Eles simplesmente não existem, e ponto. Ela tem pendências internas com seus aborígenes, mas não precisa se incomodar com os aborígenes dos outros. Está igualmente desobrigada a diminuir a pobreza de alguém, às vezes traiçoeiro, que esteja do outro lado da cerca e de investir bilhões para ajudá-lo a explorar seu subsolo rico em gás. Tampouco precisa firmar contrato, posteriormente ameaçado de ser descumprido, a fim de construir, sobre rio limítrofe, a maior usina hidrelétrica do mundo.

Australianos não têm, como os mexicanos, um gigante a lhes fazer sombra. Brasileiros também não. Nosso problema é que estamos nos apequenando, fazendo com que um vizinho, que só petróleo produz, se autoproclame líder da América do Sul.

A grave crise por que passa a Bolívia é uma das conseqüências da política bolivariana, que se alimenta da desunião. Evo Morales, por seguir a cartilha de Chávez, levou seu país à beira da guerra civil. Se a geografia já conspirava contra, o atual mandatário chegou para dar um empurrãozinho fatal em direção ao abismo que separa o Altiplano do Chaco. A Bolívia já cedeu parte do seu território para todos os seus limítrofes. Agora está prestes a ser derrotada por si mesma. Caso isso se concretize, nada lhe será perdoado, ao senhor Morales, pelas futuras gerações de bolivianos, então pulverizados em diversas nações, ainda menores e mais pobres.

Foi bizarra a expulsão do embaixador americano. A Bolívia não tem relevância internacional. Representa muito mais para o Brasil do que para os Estados Unidos, pois, graças a um erro estratégico, nos tornamos reféns do seu gás. No entanto, parece que o Brasil pouco poderá fazer, uma vez que nossa política externa tem andado a reboque do senhor Hugo Chávez. Mesmo porque, quando da tomada manu militari de nossas refinarias localizadas na Bolívia, nosso governo posicionou-se a favor de Evo Morales, contra os interesses brasileiros.

Más notícias, vindas de um pouco mais ao sul, ainda estão por chegar. É quase certo que o presidente Lugo apoiará o MST paraguaio - produto brasileiro de exportação, criado pela mesma Igreja da qual ele é ex-bispo - em sua luta declarada contra os brasiguaios. Resta saber de que lado ficará nosso governo: se do MST ou dos brasileiros que vivem no Paraguai. A quem quiser apostar, sugiro que marque coluna um.

Feliz é a Austrália. Não tem vizinhos e, no continente que ocupa por inteiro, a guerra fria, que tantos males já causou pelas bandas de cá, faz parte do passado.

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Uma Nação para os quero-queros

17/08/2008 por bonat

Procurou-me um velho amigo para dizer que tinha uma idéia maluca e queria a minha opinião. Ele sabia que, mesmo sem me considerar maluco, adoro idéias malucas.

Perguntou-me o amigo se eu lembrava do triste ocorrido num jogo entre Coritiba e Palmeiras, com um dos quero-queros que moram no Alto da Glória. Claro que eu lembrava. Foi coisa de louco (ou maluco!). A bola, como um meteoro, caiu sobre a pobre ave, que virou capa de revista.

Quero-quero é um animal esperto. Está sempre alerta. Seu campo de visão é de 360 graus. O que foi atingido observava atentamente as quarenta e seis pernas (não se esqueça do árbitro) que o ameaçavam por todos os lados. Entretanto, não conseguiu detectar a ameaça, esta sem pernas porque era bola, que vinha do alto. Acabou estatelado no gramado.

Questionou-me o amigo se eu sabia que há quero-queros em outros estádios. Claro que sim. Eles estão no Beira-Rio, Morumbi, Mineirão, até no Maracanã. Indagou se eu gostaria de fazer alguma coisa para afastá-los das pernas peludas que os amedrontam em centenas de campos de futebol e levá-los de volta ao seu habitat original. “Sensacional!”, respondi com entusiasmo.

Expôs então sua maluca idéia: já que inventaram a Nação  Ianomâmi vamos criar a Nação Quero-Quero. Nesta altura da conversa, senti que chegara a minha vez de fazer perguntas. Incrível como ele tinha prontas todas as respostas.

Onde ficaria tal nação? Como o acidente ocorreu no Paraná, este Estado pagará pelo crime. A metade oeste do seu território será dos quero-queros, seus verdadeiros donos desde os tempos pré-cabralinos. E as pessoas que ali trabalham na agricultura, na indústria, em Itaipu? Terão que sair. Quem se recusar, será removido pela Polícia Federal. E as instalações do Exército, Marinha e Força Aérea? ONGs de Roraima ficaram de mandar alguns assessores com experiência no assunto.

E os quero-queros paraguaios? O governo recém-empossado quer a saída dos brasiguaios. Sairão eles e entrarão os quero-queros. Assim, a nação abrangerá terras de dois países. Quem poderia entrar na área? Bastará ser fluente em inglês, francês, holandês ou alemão. Nosso governo concordaria? Alguns ministros já se declararam simpáticos à causa. E se te internarem num hospício? Denunciarei à ONU.

Estava quase me tornando um ferrenho defensor da Nação Quero-Quero, quando resolvi fazer a última pergunta: “E os brasileiros?”. Ao responder-me com outra pergunta - “Que brasileiros?” - perdeu o aliado e o amigo.

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Guerra no Cáucaso

15/08/2008 por bonat

O que a Rússia tem de grande, também tem de gelada. É possível que isso tenha tornado seus filhos igualmente frios diante da morte. Recebem-na com resignação. Mas, é lógico, preferem que venha para buscar primeiro os outros. Só quem não pode morrer é a “Grande Mãe Rússia”.

Eles sempre olharam com desconfiança os europeus que, historicamente, ficaram à espreita para, na primeira oportunidade, raptar-lhes as lindas mulheres e roubar-lhes os recursos naturais.

Durante a Guerra Fria, o Pacto de Varsóvia serviu-lhes de escudo contra a improvável reencarnação de Napoleão ou Hitler. O gelo, que ajudara a derrotá-los, não foi o único a expulsar os invasores. O destemor do combatente russo diante da morte fora fundamental em meio à tragédia representada por milhões de corpos insepultos.

Ao Sul, outros governos foram forçados a aderir ao Pacto. Ai de quem se negasse. Mas por quê, se os europeus de Napoleão e Hitler estavam a Oeste? Porque, para infortúnio de seus povos, países como a Geórgia estão no caminho dos mares quentes.

A dificuldade para exportar representou um constante gargalo para a economia russa. Para se chegar a Vladivostok, no Mar do Japão, leva-se vários dias sobre os 9.289 quilômetros de trilhos da Transiberiana. Ao Norte, os portos são deseixados das principais rotas comerciais e tornam-se quase impraticáveis durante os rigorosos invernos. Resta-lhes o Sul.

Quando a imprensa começou a noticiar o início do conflito, foi preciso abrir o atlas para ver onde ficava a minúscula Geórgia. A Rússia, obviamente, todos já sabiam onde ficava e que eram necessários os mapas de dois continentes para vê-la espalhar-se largamente de leste a oeste.

Fixando a atenção apenas nos dois países em guerra, tem-se a imagem de um gigante sendo carregado nas costas por um anão. Deve ter sido essa a intenção de quem, ao rabiscar os primeiros mapas-mundi, convencionou que o Norte ficaria na parte de cima.

As duas mil vidas perdidas em Odisséia do Norte não pesarão na consciência russa. Com a invasão, Moscou quis mostrar quem ainda manda no Cáucaso e, em conseqüência, nos dutos que o atravessam e asseguram o escoamento de um de seus principais produtos de exportação: o petróleo. Mais uma vez, o petróleo!

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Fogo amigo atinge Obama

19/07/2008 por bonat

Escrevi, tempos atrás, que as charges substituem muitas palavras, com a vantagem de serem mais simpáticas. Disse que contam a história de um país. Por isso, afirmei (e continuo acreditando) que os chargistas merecem tornar-se famosos e ricos. Porém, assim como há Militares e militares, Advogados e advogados, Médicos e médicos, existem Chargistas e chargistas.

Parece que o da New Yorker é um chargista com “c” minúsculo. Se sua revista é pró Barack Obama, se o próprio chargista diz que o apóia, se uma charge vale milhares de palavras, ele deveria perder seu emprego. Se fosse eu o seu patrão, estaria despedido. Mandar-lhe-ia estudar e aprender a escrever, para ver como é difícil convencer as pessoas usando argumentos no lugar de desenhos.

O cartum estampado na capa da New Yorker mostra a mulher do senador-candidato, vestida como terrorista, saudando, com punhos cerrados, o marido com vestes muçulmanas. Ao fundo, observa-se a bandeira americana em chamas na lareira. Na parede, há um retrato de Osama Bin Laden. A idéia que transmite é de que Obama não é um patriota, tudo o que qualquer americano odeia. Ser antipatriota, queimar a bandeira, cultuar Bin Laden, vestir-se de terrorista. Você olha e é isso o que vê. Pois essa foi a imagem que se espalhou via Internet por todo o país.

Foi óbvio o desconforto do comitê de campanha do senador. A revista teve que explicar que o desenho era uma sátira aos adversários de Obama. Ora, charge que se preze não precisa de explicação. Ela dispensa, porque as substitui, palavras. Nos estados americanos culturalmente e politicamente mais desenvolvidos (lá também tem disso) é possível que as pessoas leiam e compreendam as razões da revista. Mas, no interiorzão (lá também tem disso), a mensagem que vai prevalecer é a do desenho. Não é demais lembrar que foi ali que George W. Bush ganhou a eleição.

A possível eleição do senhor Barack serviria para demonstrar o vigor da democracia norte-americana. Milhões de americanos, até quem é WASP (branco, anglo-saxão e protestante), gostaria que isso acontecesse. Entretanto, as pesquisas revelam que a diferença pró Obama, que era de 15 pontos (51 para 36%) em 20 de junho, baixou para apenas três pontos (44 para 41%) nos últimos dias. O efeito “cartum” poderá causar ainda mais estrago.

A charge, concebida por quem se diz seu amigo, atingiu-o como uma bala perdida. Será que ele sobreviverá a esse “fogo mui amigo”?

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Tomem a Providência

23/06/2008 por bonat

No tempo em que Curityba se escrevia assim, meu avô era dono da Cervejaria Providência, que já não existe. Não foi graças a ela que o agora famoso Morro da Providência recebeu este nome. Nem o slogan da saborosa cerveja do meu avô - “Se você tem algum problema, tome uma Providência” – se aplicaria ao morro carioca, onde tudo deu errado porque ninguém tomou a  devida providência.

Errou o tenente ao agir por conta própria. Não lhe cabia assumir uma decisão capaz de levar à morte três pessoas, traficantes ou não. Seu capitão também errou por não ter avaliado corretamente a gravidade do problema que lhe apresentou seu comandado.

Errou o Exército por não ter sido mais incisivo ao argumentar que, embora fosse nobre a missão de melhorar a qualidade de vida de famílias pobres, ela encontraria resistência, pois iria prejudicar o rentável comércio de quem domina as favelas. Errou o Ministro da Defesa ao colocar em risco a imagem de uma Instituição do Estado a fim de atender interesses personalistas e eleitoreiros.

Errou o Governo quando negou-se a reconhecer as Farc como organização terrorista que precisa do dinheiro do narcotráfico para acabar com a democracia na Colômbia. Com isso, os chefões do tráfico tupiniquim – fonte de renda das Farc – saíram fortalecidos. Sentindo-se acima da lei, erraram os traficantes ao afrontar quem tinha só a intenção de ajudar pessoas que, por falta de opção, vivem no morro.

Errou o carioca, quando elegeu governantes que, a fim de obter o apoio do tráfico, prometeram que a polícia não atrapalharia seu negócio. Eleitos, cumpriram a promessa e o crime tomou conta do Rio.

Erram meus vizinhos, que usam roupa de grife, têm carro importado e só vêem favela pela TV, quando fazem severas críticas a todo o Exército pela desastrada atuação de um só tenente.

Errada é a mania que tenho de preocupar-me com o Brasil. É que manias custam a morrer. Estou de pijama há três anos. Já devia ter aprendido a curtir minha “dolce vita”.

 Errou meu avô ao não repassar para a família a fórmula da sua famosa cerveja. Se o tivesse feito, eu saberia tomar a Providência correta.

 

 

 

 

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Roraima, um país de todos?

25/04/2008 por bonat
 

O General Heleno bem que poderia, mas não criticou a inoperância dos órgãos públicos no combate à dengue. Nem teceu comentários sobre as indenizações imorais recebidas pelos senhores Ziraldo e Jaguar. Limitou-se a um assunto que é de sua responsabilidade: a defesa da Amazônia. Logo, é incompreensível o frisson que suas palavras provocaram em determinadas autoridades da República.

Há décadas o Exército prioriza a Amazônia. Só não transferiu ainda mais tropas para lá por falta de recursos. Também faz tempo que líderes dos países centrais vêm batendo na tecla de transformar a Amazônia numa verdadeira “casa da mãe Joana”, onde todo mundo pode entrar sem pedir licença. O problema é que, além de falar, eles têm atuado, apoiando organizações de fachada. Nos anos setenta, missionários estrangeiros criaram o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Hoje, segundo o site do próprio CIR, ele conta com as seguintes parcerias: CAFOD e Survival International (inglesas), CESE, TNC e Pro Rainforest Foundation (norte-americanas), CCPY e NORAD (norueguesas), Greenpeace (canadense), Movimondo (italiana), OPAN e Regenwald (alemãs), OXFAM (anglo-americana) e Pro Índios di Roraima (do Vaticano). Se você fosse o Comandante da Amazônia não ficaria preocupado com a presença de tantos forasteiros? Pois saiba que existem muitos mais: ninguém sabe quantos e nem o que fazem por lá. Consta que existem milhares de ONGs na região. É mole?

No ano passado, os brasileiros foram surpreendidos com o voto do Brasil favorável à Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da ONU. Veja como inicia um dos seus artigos: “Os povos indígenas têm direito à livre determinação”. Junte-se a assinatura do decreto presidencial homologando a reserva Raposa Serra do Sol e tem-se a impressão de que o Brasil está abrindo mão de imensa e rica porção do seu território, internacionalizando-a, segundo a vontade das grandes potências. É o neo-colonialismo, que se está aceitando por covardia ou interesses menores.

A falsa idéia da existência de um povo ianomâmi, inventada em 1973 por uma jornalista romena, inspirada pela organização suíça “Christian Church World Council”, vai ao encontro dos interesses estrangeiros. Para eles, se há o povo, existe a nação ianomâmi. Para nós, só existe um povo e, em conseqüência, uma só Nação - a Brasileira, que é de todos os brasileiros, inclusive de todos os índios.

É válida a suposição de que gringos andem interpretando em proveito próprio o slogan “Brasil, um país de todos”. Quanto a Roraima, devem estar pensando que o Estado é de todos, menos dos brasileiros. Nunca é demais recordar o Padre Antônio Vieira: “Os de fora não querem o nosso bem, mas sim os nossos bens”.

As declarações do General Heleno direcionaram os holofotes para um grave problema, propositalmente deixado à sombra a fim de escondê-lo da grande maioria dos brasileiros. Se o governo quisesse respaldo para enfrentar as pressões internacionais, bastaria um plebiscito. Mas, pelo jeito, a opinião da maioria não interessa neste caso. O que interessa então?

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As FARC e seus reféns

05/03/2008 por bonat

Imagina-te gravemente enfermo, vivendo anos a fio numa floresta quente e úmida como refém de pessoas que não te deixam ser medicado. E, o mais grave, que presidentes de países vizinhos usem teu sofrimento para se promover. É o que acontece com Ingrid Bettancourt. Por acreditar na democracia e candidatar-se à presidência da Colômbia, acabou condenada pelas Farc.

O pecado colombiano foi não ter cortado a raiz da sua “guerrilha do Araguaia”. Acreditou que guerrilheiros pudessem ansiar por democracia. Eles chegaram a dominar quase 40% do país.

Mutatis mutandis, se as ossadas do Araguaia, intensamente procuradas, tivessem sido ressuscitadas e reproduzidas aos milhares, nosso vice-presidente, José Alencar, poderia ser hoje refém das Farc brasileiras. Elas teriam o apoio de Chávez e de Fidel. Nosso vice, com câncer, coitado, não poderia se tratar no Hospital Sírio-Libanês. Estaria com os dias contados e sofreria muito antes de morrer. Além dele, mais de setecentos brasileiros estariam na mesma floresta, alguns doentes, padecendo sob a mira dos seus algozes.

Se as ossadas do Araguaia, hipoteticamente revividas e multiplicadas, se refugiassem em outro país, nosso presidente pouco poderia fazer. Mas, corajoso como é, tentaria salvar Alencar, nem que para isso tivesse que entrar em território estrangeiro. Foi o que fez o presidente da Colômbia.

Rafael Corrêa sabia que havia bases de guerrilha em seu país. Claro que sabia. Sabia e concordava. Depois deu uma de nacionalista, embora não o tenha sido quando guerrilheiros colombianos, fortemente armados, invadiram o Equador.

Não demorou muito para aqueles que gostam de cadáveres saíssem às ruas. Hugo Chávez foi o primeiro. Era tudo que precisava. Ao armar-se até os dentes, sob o argumento de defender-se dos Estados Unidos, seu alvo era a democracia colombiana. Junte-se a necessidade de o mandatário venezuelano reverter a tendência de queda de sua popularidade e temos os ingredientes de uma receita apreciada pelos caudilhos.

A dubiedade com que o Itamaraty se posicionou deu a entender que estava ao lado dos guerrilheiros. Trafegou, assim, na contra-mão de uma estrada historicamente humanitária. Ainda mais dúbio, para não dizer falso, do que a posição brasileira foi o aperto de mão de Chávez, Corrêa e Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, ao término da 20ª Cúpula do Rio. Pelo visto, os setecentos reféns não conseguem sensibilizar ninguém.

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