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Poluidores: agora somos 7 bilhões

30/10/2011 por bonat

A Demografia estuda, entre outras coisas, as dimensões e a distribuição da população. Apesar de atraente, essa área da ciência só chama a nossa atenção de tempos em tempos, como agora, com o recente anúncio do Fundo da População das Nações Unidas de que o planeta terá 7 bilhões de habitantes.

Por ironia, esse desinteresse se deve, de certa forma, a Malthus, um estudioso do assunto. Ao não se confirmarem suas previsões catastróficas de que a superpopulação levaria a guerras em busca do “pão nosso de cada dia”, ele caiu em descrédito. A carnificina na Europa, provocada logo em seguida por Napoleão, atribuiu uma credibilidade inicial aos seus argumentos. No entanto, mesmo com as terríveis duas guerras mundiais do século XX, o tempo e a ciência se encarregaram de desmenti-lo.

O perigo é o debate demográfico permanecer totalmente fora das pautas, lembrado somente quando cifras expressivas, como 7 bilhões, são anunciadas.

O crescimento populacional tem dois extremos. Num deles está o bebê embarcado em algum ponto do planeta, em data próxima ao recente 31 de outubro. Ele pode ter sido festejado tanto por alguma família do nosso bairro, quanto por outra da Ásia superpopulosa ou, ainda, da faminta África, onde as populações aumentam a taxas alarmantes.

Seja de onde for, apenas para atender às suas necessidades básicas, o novo passageiro consumirá energia. No entanto, como se espera que ele tenha uma boa qualidade de vida, de muito mais energia ele precisará. E só existe uma fonte para obtê-la: o planeta. Daí o nosso pecado original: somos todos poluidores, agora somando a expressiva quantidade de 7 bilhões.

No outro extremo encontram-se os que já embarcaram há muito tempo. Cada vez mais numerosos, igualmente graças aos avanços da ciência, eles (inclusive eu) não pretendem chegar tão cedo ao ponto final. Passageiros de primeira ou de última classe, todos (quase todos) optam por continuar embarcados nesta aeronave chamada Terra.

Entre esses dois extremos, os recém-chegados e os viajantes calejados, estão aqueles que devem se preocupar com a solução do problema: cientistas, ecologistas, pensadores, filósofos, sambistas, formadores de opinião e artistas. Sua missão: propiciar uma vida feliz aos milhões de humanos que nascem a cada ano e fazer com que, para todos, a hora do desembarque demore para chegar. Achou difícil? Pois acrescento outro desafio: sem exigir ainda mais energia do nosso querido e já cansado planeta.

Por isso, a demografia não pode ser um assunto menosprezado. Ela sinaliza que logo chegaremos aos assustadores 8 bilhões, mas que, por volta de 2040, a tendência será de encolher. Talvez nunca cheguemos à bomba dos 9 bilhões. Aí, muitos de nós já terão desembarcado. Mas nossos netos continuarão a viagem. Em nome deles, pedimos: não ignorem a questão populacional. Seria suicídio ou, no mínimo, uma tolice.

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A esperança está no gelo

05/06/2007 por bonat

Segundo os chineses, um homem nunca se banha no mesmo rio. O homem nunca é o mesmo. O rio, também, nunca é o mesmo. Isso é igualmente válido para as palavras. Elas, da mesma forma que águas e humanos, são mutantes. Com o tempo, adquirem novos significados.
“Enquanto houver gelo, haverá esperança”. Sob essa frase na parede de sua churrasqueira, quando servi no Guarujá, Carlos Borges Cano reunia seus amigos. Existia algo de verdade nas bem-humoradas palavras. Depois do primeiro gole que o gelo resfriara, ficávamos tão inteligentes que encontrávamos solução para os mais graves problemas do Brasil e do mundo.
Um dos temas que não abordamos naquelas reuniões foi o aquecimento global. Não pela preconceituosa razão do ilustre deputado Paulo Pereira da Silva de que “meio-ambiente era coisa de veado”. Não o discutíamos, simplesmente, por não fazer parte das preocupações de então. Quando o Carlos nos reunir novamente em sua churrasqueira, perceberemos que a frase da parede admite outra leitura: a de que, enquanto as geleiras dos Pólos se mantiverem intactas, haverá esperança para a humanidade.
Relatório recente da ONU trouxe à tona o problema. Em Bangcoc, no último painel sobre mudanças climáticas, o Brasil foi até elogiado. Temo que, por isso, venhamos a ser enrolados na bandeira e resolvamos, ingenuamente, pagar o pato sozinhos. Não devemos esquecer de quem mais contribui para o efeito estufa: EUA, China e Europa. É preciso lembrar que a América do Sul detém 41,4% das florestas mundiais, contra 0,1% da Europa, 3,4% da África e 5,5% da Ásia. Por termos preservado, os que sempre desmataram, volta e meia, querem nos punir, ameaçando o nosso crescimento.
Seria o caso de se questionar ONGs como Greenpeace e WWF sobre o porquê de elas não terem ainda lançado uma campanha para o reflorestamento da Europa com o mesmo vigor com que se empenham na Amazônia. Enquanto buscassem explicações para a ambigüidade de sua atuação, teríamos tempo para encontrar soluções brasileiras no sentido de continuarmos a participar do esforço para conter o aquecimento global.
Como ponto de partida, deveríamos levar em conta que o Brasil precisa de energia para se desenvolver. Até o IBAMA sabe disso. Como órgão do governo, ele tem o dever de buscar saídas para a questão de gerar energia com impacto ambiental mínimo. Parece simples, desde que o IBAMA se posicione como parte da solução e não, como às vezes o faz, parte do problema.
Outro ponto a ser considerado, falando-se especificamente da Amazônia, seria o desenvolvimento sustentável. Neste caso, deve-se partir do princípio de que não há soluções, se não se colocar, no centro de tudo, os milhões de brasileiros que têm a natureza como única fonte de sobrevivência. A criação de vários centros de pesquisa, com a participação do IBAMA, da EMBRAPA, de outros órgãos e, essencialmente, da sabedoria dos habitantes da floresta, mostra-se recomendável na busca de soluções locais que contemplem a proteção ambiental e o desenvolvimento.
Finalmente, para as demais regiões do país, seria necessária uma ação pro-ativa no sentido de se levar a cabo uma vigorosa campanha de reflorestamento. Nos estados do Sul, por exemplo, que já foram um extenso pinheiral, governos e sociedade bem que poderiam incentivar as pessoas a plantar araucárias. Ainda há muito espaço para isso. Cadê o Partido Verde?
Equacionadas essas questões, quando as ONGs voltassem com a resposta à nossa pergunta, veríamos que sua ausência teria preenchido uma grande lacuna. Ontém, como hoje, elas têm muito menos a ensinar do que a aprender conosco. Ou não têm humildade suficiente para reconhecer essa realidade, ou seus interesses vão além (ou aquém?) de simplesmente salvar o planeta.

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