Há coisas que nos pegam com a guarda baixa. Dias atrás, quando meu neto caiu e esfolou o joelho, alguém – logicamente, não um jovem – falou: “quando casar, sara”. São palavras tão antigas que já estavam adormecidas, mas não totalmente apagadas, no meu cérebro.
Não as ouvia há tanto tempo, que olhei fixamente para aquela senhora, mais ou menos da minha idade, bonitona ainda, que as havia pronunciado. Cumprimentei-a com um sorriso simpático e pretensioso.
O fora de moda “quando casar, sara” levou-me a aguardar um pouco. Queria ver se algum jovem que estava por perto perguntaria: “casar para quê?” Qualquer deles, um quase-homem ou uma quase-mulher, poderia ter questionado. O quase, no caso, não tem nada a ver com opção sexual, mas sim com a inexperiência, óbvia da juventude, hoje muito bombardeada por milhares de informações, para as quais ainda não está preparada. E, o que é pior, quer dar lições aos velhos, cuja experiência despreza, esquecendo de que, o que sabe, tem origem na vivência por que passamos.
Ignora que desvendamos, há muito, todos os mistérios que hoje descobre cedo demais. Daquilo que aprende, conhecemos os prazeres e perigos. Tivemos a mesma curiosidade. Cometemos, estagiários como ela, os mesmos erros.
Atualmente, a cortina se abre cedo demais, antes mesmo que os jovens consigam compreender o que ela esconde. Por isso, eles “ficam” ao invés de casar. Julgam isso importante, pois permite se conhecerem. A decisão fica para depois.
Sinto muitíssimo que essa não tenha sido a moda do meu tempo. Na época, menina que ficava era “galinha”. Aos meninos mais atuantes chamavam de “galinhos”. Eram invejados pelos demais. Hoje, eles também são denominados “galinhas”. Sinceramente, me custa entender. Só sei que isso tudo revela como fracassou a Igreja em sua eterna tentativa de proibir o sexo (ah, mas só para as mulheres) antes do casamento.
Se conseguisse encontrar o sonhado túnel do tempo, entraria nele e o percorreria por 40 anos. Mas não iria só. Levaria comigo os usos e costumes atuais, e as velhas senhoras da minha geração, inclusive aquela que dedicou palavras de ânimo ao meu pequeno neto. Convidaria também alguns bons amigos. Só não deixaria entrar aquela turma do Big Brother, pois, apesar de ter evoluído, há baixarias que ainda não consigo aceitar.
Quando conseguíssemos chegar àquele passado e lá encontrássemos alguma criança com o joelho esfolado, diríamos, com toda a nossa modernidade: “quando separar, sara.” Infelizmente, o relógio do tempo só gira em um sentido.