Artigos de ‘Literatura’ Category

“Mãe de Candidato e outras crônicas”. Apenas R$ 22,95. SAIBA MAIS.

01/01/2012 por bonat

Para receber esse livro de minha autoria, basta informar-me no campo “Deixe um Comentário” (abaixo), que entrarei em contato com o(a) prezado(a) amigo(a). O custo é de apenas R$ 22,95, com frete incluso para todo o território nacional. Hamilton Bonat

Extrato do Prefácio
“Uma Crônica Engajada” Capa
São crônicas de leitura fácil, sérias umas e saborosas muitas. Entre as primeiras, registro as que discutem as seguidas derrapadas do governo brasileiro, no mandato anterior, em seu relacionamento externo, amenizadas pelo trabalho positivo que o Brasil desempenha no Haiti. Na categoria de ironia saborosa, está a crônica imperdível sobre as aeromoças, o discurso ao poste dos idosos frequentadores de um beco, o boi dos vegetarianos da Lapa e, sobretudo, a crônica que remete ao título – Mãe de Candidato.
(Rafael de Lala, jornalista, Presidente da Associação Paranaense de Imprensa)

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Quando separar, sara

05/02/2011 por bonat

Há coisas que nos pegam com a guarda baixa. Dias atrás, quando meu neto caiu e esfolou o joelho, alguém – logicamente, não um jovem – falou: “quando casar, sara”. São palavras tão antigas que já estavam adormecidas, mas não totalmente apagadas, no meu cérebro.

Não as ouvia há tanto tempo, que olhei fixamente para aquela senhora, mais ou menos da minha idade, bonitona ainda, que as havia pronunciado. Cumprimentei-a com um sorriso simpático e pretensioso.

O fora de moda “quando casar, sara” levou-me a aguardar um pouco. Queria ver se algum jovem que estava por perto perguntaria: “casar para quê?” Qualquer deles, um quase-homem ou uma quase-mulher, poderia ter questionado. O quase, no caso, não tem nada a ver com opção sexual, mas sim com a inexperiência, óbvia da juventude, hoje muito bombardeada por milhares de informações, para as quais ainda não está preparada. E, o que é pior, quer dar lições aos velhos, cuja experiência despreza, esquecendo de que, o que sabe, tem origem na vivência por que passamos.

Ignora que desvendamos, há muito, todos os mistérios que hoje descobre cedo demais. Daquilo que aprende, conhecemos os prazeres e perigos. Tivemos a mesma curiosidade. Cometemos, estagiários como ela, os mesmos erros.

Atualmente, a cortina se abre cedo demais, antes mesmo que os jovens consigam compreender o que ela esconde. Por isso, eles “ficam” ao invés de casar. Julgam isso importante, pois permite se conhecerem. A decisão fica para depois.

Sinto muitíssimo que essa não tenha sido a moda do meu tempo. Na época, menina que ficava era “galinha”. Aos meninos mais atuantes chamavam de “galinhos”. Eram invejados pelos demais. Hoje, eles também são denominados “galinhas”. Sinceramente, me custa entender. Só sei que isso tudo revela como fracassou a Igreja em sua eterna tentativa de proibir o sexo (ah, mas só para as mulheres) antes do casamento.

Se conseguisse encontrar o sonhado túnel do tempo, entraria nele e o percorreria por 40 anos. Mas não iria só. Levaria comigo os usos e costumes atuais, e as velhas senhoras da minha geração, inclusive aquela que dedicou palavras de ânimo ao meu pequeno neto. Convidaria também alguns bons amigos. Só não deixaria entrar aquela turma do Big Brother, pois, apesar de ter evoluído, há baixarias que ainda não consigo aceitar.

Quando conseguíssemos chegar àquele passado e lá encontrássemos alguma criança com o joelho esfolado, diríamos, com toda a nossa modernidade: “quando separar, sara.” Infelizmente, o relógio do tempo só gira em um sentido.

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Um boi até para vegetarianos

20/05/2010 por bonat

Ele é de 1873. Tem, portanto, cerca de 137 anos. Poderia ter morrido, mas continua vivinho da silva. Aposentadoria, nem pensar! Concordou, no máximo, em ser tombado pelo patrimônio histórico. Embora tenha pinta de museu, está em plena atividade. Sua longevidade pode ser comprovada na grafia do nome: theatro, com “th” mesmo. Para podermos avaliar sua importância, basta lembrar que nos primeiros anos de sua existência nem cinema havia. Era para ele que os lapeanos acorriam quando desejavam se divertir. Até o Imperador Pedro II chegou a visitá-lo, acomodando-se num dos seus aconchegantes camarotes.

É provável que Francisco Therézio Porto Neto, que além de engenheiro civil foi poeta e prosador, ao projetá-lo com tanto charme, quisesse que ele se perpetuasse como centro de cultura, tradição, história e arte. Se esse era o seu sonho, conseguiu realizá-lo. Na época, a Lapa contava com cerca de 2.000 habitantes. Daí o porquê de o Theatro São João ter capacidade para umas duzentas pessoas. Pequeno no tamanho, revelou-se grande na medida em que proporcionou, como ainda proporciona, que artistas, famosos ou não, sintam orgulho e prazer de se apresentar em seu palco.

O pessoal da “Tribuna Regional” e da Secretaria Municipal da Cultura não poderia ter escolhido local mais adequado para o lançamento do meu livro de crônicas. Além do mais, presentearam-me, a mim e aos amigos que foram me prestigiar, com a encenação do “Boi da Lapa”, um número de cordel que emocionou a todos os presentes. Se a Nádia, atual diretora do São João, não nos tivesse alertado, poderíamos pensar tratar-se de coisa de profissionais. Mas era de amadores, pessoas da terra, simples, anônimas e de uma dedicação imensa, que nos brindaram com sua arte e revelaram que o sonho de Francisco Therézio – com “th”também – permanece vivo.

Há um aspecto que não pode deixar de ser lembrado. Como quase todas as edificações existentes na Lapa em 1894, ele não escapou de dar sua contribuição à valente resistência às tropas de Gumercindo Saraiva. Durante o Cerco, transformado em enfermaria, cumpriu a humanitária missão de salvar vidas.

Cabe-me, por justiça, transmitir um sentimento de enorme gratidão aos amigos lapeanos que me propiciaram uma noite particularmente especial e, ao mesmo tempo, recomendar àqueles que ainda não o fizeram, que, na primeira oportunidade, assistam o “Boi da Lapa”. Trata-se de um boi que até mesmo o vegetariano mais radical irá gostar.

Por fim, não há como evitar uma derradeira observação de um velho oficial de artilharia que, de tanto ouvir o ribombar dos canhões, anda meio surdo: a acústica é perfeita.

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Escreva um livro e saiba quem é seu amigo

21/09/2009 por bonat

Pense numa noite fria e chuvosa. Não numa chuvinha qualquer, mas num aguaceiro de molhar até a alma. Pois asseguro-lhe que era muito pior a situação em 10 de setembro último em Caxias do Sul.
O lançamento do meu livro de crônicas estava marcado para as sete. Se eu fosse uma celebridade, literária ou não, o que definitivamente não sou, toda a cidade estaria lá. Deduzi que São Pedro já estava antecipando o meu fracasso editorial, numa noite em que qualquer um pagaria para não sair de casa.

Cheguei meia hora antes para conferir os últimos detalhes. Ao entrar no salão, tive uma surpresa. Aguardava-me um homem com seus oitenta e poucos anos. Lá estava o senhor Finimundi, com sua bengala e seu sorriso largo. Quando ele disse que gostaria de ser o primeiro a receber o meu autógrafo, senti-me o próprio Rubem Braga, para mim o maior cronista brasileiro.

Meu pensamento voltou até a manhã de um dia qualquer de 1995. Semanas antes, eu havia assumido o comando do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea. Na porta do meu gabinete, o oficial de relações públicas solicitava para entrar. Estava acompanhado de um senhor que portava um embrulho. Após acomodar-se na poltrona, ele falou, meio sem jeito, que o quartel estava precisando de uma corneta nova. A atual está muito velha e amassada, disse-me; tem até um remendo com durepoxi. Perguntou-me se eu aceitaria uma de presente. Aí, quem ficou sem jeito fui eu, pois cabia ao Exército atender às necessidades da Unidade.

Já naquele tempo as vacas andavam magras. Depois, foi só piorando. Hoje, por falta de comida, os soldados, normalmente de famílias humildes, têm que almoçar em casa. Uma aberração, se levarmos em conta os anunciados bilhões de dólares que o governo usará para gerar empregos na França e alavancar a sua combalida indústria naval e aeronáutica.

Mas retornemos ao meu ex-gabinete. Aceitei a doação. Mandei chamar o corneteiro. Assim que ele entrou, o senhor – o mesmo que há pouco tempo fez-me sentir o Rubem Braga reencarnado – entregou-lhe o embrulho. E lá se foi o corneteiro Daniel Pedro, faceiro como uma criança que acaba de ganhar uma bicicleta novinha em folha.

O frio e a chuva do último dia dez, para a minha alegria, não impediram que mais de uma centena de amigos fossem me prestigiar. Na verdade, publicar um livro é uma louca aventura. Vale pelo prazer que nos dá em deixar registradas as verdades em que acreditamos. Além disso, permite saber quem são os verdadeiros amigos. Em Caxias do Sul, eles estavam lá. Impossível nominá-los na pequenez deste espaço. Creio que compreenderão. Como antiguidade continua sendo posto, cito apenas Carlos Cândido Finimundi, mas com o pensamento voltado para todos os demais corajosos heróis que foram me abraçar.

Se você, caro leitor, é um desconhecido como eu e quer saber quem é seu amigo de verdade, escreva um livro. Você nem imagina quantas emoções terá!

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Cazuza, um baita chão!

11/07/2009 por bonat

“Ao sair da minha Cazuza, como despedida, visualizei meu horizonte. Mal e mal ultrapassava a altura da cerca da mangueira. Era pequeno o meu mundo”. Com essa frase, Luiz Carlos de Lucena iniciou o agradecimento ao receber o título de Cidadão Caxiense. Cazuza Ferreira, onde nasceu, é o 3º Distrito de São Francisco de Paula, um amontoado de casas, onde, segundo o próprio homenageado, no cemitério “mora” mais gente do que na própria vila. E acrescenta: ele é tão bem cuidado que virou atração turística. Lucena sempre foi um homem da comunicação – de jornal, rádio e televisão. Dizem que, quando está inspirado (e está sempre), discorre sobre qualquer assunto, com seu linguajar gaúcho marcante. Na verdade, trata-se de um vitorioso.
Ele tem consciência de que seu êxito não se deve tão-somente à sua vocação, inteligência, esforço e à ajuda de amigos. Sabe que a origem de tudo foi a pequena Cazuza. Veja o que escreveu no livro de causos (Onde amarrei o meu peixe) com que me presenteou: “O Brasil é uma ponchada de terra que cerca Cazuza Ferreira”. E, ainda: “Transporto-me para os Campos de Cima da Serra. Vislumbro os corredores que serpenteiam as coxilhas com suas laterais emolduradas pelos verdes claros campos, tendo como acompanhantes os verdes exclusivos das araucárias”. Nas entrelinhas dos divertidos causos, que narra com a mesma verve e bom-humor com que fala, consegue-se sentir o reconhecimento pelos exemplos recebidos da família, da professorinha, do pároco e, até, do dono do bolicho do pago onde viveu parte da infância.
Passei um bom tempo da minha existência em Caxias do Sul. Fiz amizades. Sempre que posso, vou revê-las. Além de matar a saudade, uns poucos dias no Sul têm o poder de revigorar meu espírito de brasilidade. Desculpem-me os conterrâneos paranaenses e os brasileiros de outros rincões, mas nenhum de nós possui, mais do que o gaúcho, um apego tão forte e sincero a esta grande extensão de terra chamada Brasil. No máximo, ele poderá ser igual.
Em minha última viagem à Serra Gaúcha, reencontrei alguns amigos, uns “pelo duro”, outros “cola fina”. O Lucena se auto-classifica como pertencente ao primeiro grupo, mas nem sempre ele está falando sério. Existem milhares de “Lucenas” espalhados pelo Brasil afora. Ainda bem, pois, saídos de suas diminutas “Cazuzas”, levam na guaiaca um tesouro: o sentimento nativista que receberam quando guri. Carregam, por toda a vida, lições de brasilidade daqueles que, possivelmente, façam o cemitério de sua querência ser hoje mais habitado do que a própria vila. Mais habitado e, em sinal de gratidão, muito bem cuidado.

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O livro dos chatos

13/03/2009 por bonat

 Se você é amiga ou amigo da minha mulher, não leia esta crônica. Se é seu parente, por favor, saia de fininho. E, por garantia, se conhece alguma Norma (este, obviamente, é o nome dela), pare de ler agora mesmo. A partir deste ponto, escrevo para os amigos que são somente meus, poucos, mas fiéis o suficiente para guardar o segredo que agora passo a contar.

Norma quis me agradar e deu-me de presente um livro. A intenção era das melhores. Ela sabe que adoro ler e, como tinha escutado falar bem do dito cujo, resolveu comprá-lo. Feliz como criança, desembrulhei ”A menina que roubava livros” e iniciei a leitura.

O prólogo intitula-se “Uma cordilheira de escombros”, que possui subtítulos igualmente complicados: “Morte e Chocolate” é um deles. A muito custo, tendo que voltar a fim de entender alguns parágrafos, cheguei à página quinze, à qual segue-se “O Manual do Coveiro”, esquisito título da Parte Um, que levou-me à nocaute com apenas cinco de suas folhas.

Não pretendo dar uma de crítico literário, mesmo por que, para mim, existem apenas dois tipos de livro: os chatos e os não-chatos, o que se identifica logo nas primeiras páginas. Não-chatos são os que você começa a ler e não consegue mais parar. Chatos são os demais, cujo clássico é “Os Sertões”. Até aqui, tudo muito simples. Agora, se como dizem, as pessoas são aquilo que lêem, os livros chatos tornam chatas as pessoas. Quanto maior o livro chato, mais chato se torna quem o lê.

Vamos à prática. Todos conhecem algum jovem de classe média que não gosta de estudar mas que, por pressão familiar e para garantir a mesada, precisa entrar na faculdade. Presta então vestibular para um curso qualquer, em que a concorrência seja pequena. Aprovado, inicia sua carreira de estudante-charlatão. Logo encontra perambulando pelos corredores da universidade pessoas semelhantes a ele, que lhe indicam “O Capital”. Para quem não o conhece, devo dizer: é o livro que pediu para ser chato e entrou na fila uma centena de vezes. Mas, a fim de se enturmar e dar uma de intelectual, culto e engajado, nosso estudante vai até o fim das milhares de páginas escritas por Marx, mesmo sem entendê-las direito. A partir daí, passa a ter solução para todos os problemas da humanidade. Pobre de quem tiver opinião diferente da dele. Entre as várias manias que adquire, uma é a de tentar convencer as pessoas a se alistarem no Exército Popular e Democrático da Coréia do Norte para lutar contra o Japão.

Caro leitor: já que lhe confiei um segredo, tomo a liberdade de pedir um favor. Se você encontrar a tal menina que roubava livros, diga-lhe para dar uma passadinha aqui em casa. Quero aliviar minha biblioteca de algumas obras. Entre elas, “O Capital”, o mais chato dos livros, e o livro dos mais chatos. É bem provável que se tivesse sido escrito por um brasileiro, nenhum dos nossos intelectuais o tivesse lido.       

 

Publicado em Literatura, Nacional, Política