Artigos de ‘Literatura’ Category

Pistoia – por Cecília Meireles

07/09/2017 por bonat

Pistóia – Cemitério Militar Brasileiro
Cecília Meireles

Eles vieram felizes, como
para grandes jogos atléticos,
com um largo sorriso no rosto,
com forte esperança no peito,
- porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém, soprava fogo
por estes campos e estes ares.
E agora estão na calma terra,
sob estas cruzes e estas flores,
cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo
cheias de lágrimas, seus filhos.

Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
- do que foi sonho não se sabe
e a dor vai longe, no vento…

Publicado em Homenagens, Literatura

Troféu Inspiração/2016

26/11/2016 por bonat


Recebendo o Troféu Inspiração, por ocasião da cerimônia comemorativa dos 77 anos de criação da Academia de Letras José de Alencar.

Publicado em Datas marcantes, Literatura

Ciscos e Franciscos: últimos exemplares

18/07/2016 por bonat

Aos amigos que desejarem receber em sua casa um (ou mais) exemplar(es) de “Ciscos e Franciscos”, peço informar-me o endereço no campo “deixe um comentário” abaixo, que terei a satisfação de remeter pelo correio. Custa somente $30, com o frete já incluído. São 226 páginas de crônicas de minha autoria sobre assuntos variados que, acredito, serão do agrado dos amigos. Grato. Hamilton Bonat

Publicado em Literatura

Falta-nos um José de Alencar

13/08/2015 por bonat

Estou à toa. Hoje, mais do que em outros dias. À toa e de baixo astral. Não consigo, sequer, ver as páginas dos jornais e as notícias assustadoras que as lotam. Sinto-me triste, envergonhado, aborrecido, desolado mesmo. Definitivamente, cansei. Preciso afastar-me delas. Tenho que encontrar algo de útil para preencher a minha ociosidade. Tenho pressa. Necessito, urgentemente, de uma overdose de otimismo. Mas que seja aplicada na veia, para surtir efeito rápido.

Se me permitem os amigos, gostaria de dividir o que me aflige. Preocupa-me o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que vieram, não sei exatamente de onde, e alastraram-se ameaçadores pelo Brasil. Por temerem o nosso crescimento, os de fora sopraram com força. Seu sopro, de falsa bela aparência, espalhou-se e nos dividiu. Deixamos de nos ver como irmãos. Por toda a parte, nos enxergamos, uns aos outros, como inimigos. Estamos enfraquecidos. Conseguiram nos desunir.

Meus olhos percorrem com ansiedade a estante em busca de ânimo. Entre centenas de livros, deparo-me com um de José de Alencar. Não com “O Guarani” ou qualquer outra das suas maravilhosas obras, mas com a sua biografia. Nela, tento encontrar alento.

Abro-a com a velocidade de quem não pode perder tempo. Não me interesso por aquilo que meus leitores já sabem. Não resolveria o meu angustiante problema. E, também, nada acrescentaria aos que me leem, pois qual deles nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante cronista, romancista e dramaturgo cearense? Quem entre eles nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Qual deles nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem entre eles não sente orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como se fosse um filho de Ceci e Peri?

O que me interessa da obra de José de Alencar é o seu marcante nacionalismo, no difícil período da consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura própria. Alencar contribuiu para que nos sentíssemos não apenas um povo multirracial e multifacetado, mas, essencialmente, como uma mistura de povos.

Na literatura que criou está evidente u’a maneira de sentir e pensar tipicamente brasileira. Tão grande foi sua preocupação em retratar a nossa terra e o nosso povo, que as páginas dos seus romances revelam o intuito de, cada vez mais, tornar mais abrasileirados os seus textos. Convém lembrar que, isso tudo, deu-se numa época bem mais difícil do que a que vivemos, pois, se acabáramos de proclamar a independência, algo mais era necessário: romper nossa dependência cultural.

Pergunto então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam carentes de novos Josés de Alencar? E, principalmente, se nossa política não estaria clamando por um José Martiniano de Alencar? Mas que surja logo, pois a hora é quase passada. Nosso caso é de emergência. Requer aplicação de choque, sem filtro, na veia.

Discurso de posse na Academia (Vídeo)

27/07/2015 por bonat

Meu discurso de posse da Cadeira 19 da Academia de Letras José de Alencar, que tem como Patrono o poeta Emílio de Menezes.
Para assistir, clique:

Confrade General Hamilton Bonat

Velho Regimento

26/04/2015 por bonat

VELHO REGIMENTO
Alexandre Máximo Chaves Amêndola

Prá vocês amigos que me escuitam
Confesso a verdade: estou morrendo
De saudade da Unidade onde labuitam,
A qual não me sai do pensamento…
Prestem atenção no que vou dizendo,
Porque também servi no Velho Regimento!

Meu Velho Regimento legendário,
O que dizer prá tua glória,
Se tu já é mais que centenário,
Uma velha praça tão modesta,
Que sabe somente um pouco da tua história,
E dês que te deixou, pra nada mais presta?

Piazito inda, eu já bombeava,
Meio arisco… meio curioso… cumé que vô dizê…
Quando ele – o Velho Regimento – desfilava.
E garganteava pros otro (sabe como é…)
“Quando eu for grande, vocês hão de vê,
Vou sentá praça no Regimento Mallet!”

Os ano foi passando, chegô o dia!
Me fui à “Junta”, o coração batendo.
“O que qué?”, disse um cara de cutia
Que tava lá sentado bem na frente.
E eu, meio atrapaiado, meio tremendo…
“Eu quero servi voluntário, seu tenente!

“Sabe lê?”
“Não.”
“Sabe escrevê?”
“Também não dá…”
“Não faz mal. Bota ele no 23 de Infantaria.”

“Pé de poeira? Nessa é que não vão me pegá!
Eu quero mesmo sê é de Artilharia!
Risque o meu nome. Não tá mais aqui o Zé.
Ansim eu perfiro disertá.
Ou morro, ou vou servi no Regimento Mallet!”

O home ficou meio abobaiado
Cum aqueles grito e disse prô sargento:
“Pois bota no Velho Regimento esse tarado.
Mas é uma pena. Isso é mau elemento
Que vai contaminá todos os sordado,
Que é tudo gente buena e de talento.”

Então, subiu uns arrepio.
Os meus óio logo se enchero de água.
E larguei pra ele um desafio:
“Pru minha curpa, nem uma só mágoa
O Velho Regimento há de passá.
Eu hei de sê o seu mió sordado,
Aqui i em quarqué lugá!”

Na guerra, na paz, na disciprina,
Não tem outro como o Velho Regimento.
Mi ajude Deus, qui tudo detremina,
Eu inda hei di chegá inté sargento.

Você guarde bem o que lhe digo:
Eu vô sê o inzempro do Velho Regimento!
I vô passa pur aqui, num tem pirigo,
Amuntado num zaino cosquilhado,
Daqueles qui só tem Chefe de Peça.
Eu vô sê o taura do Velho Regimento.
Iscuite bem i não sisqueça dessa.

Sordado, cabo e, dispois, sargento…
Bem cumo eu tinha dito pru tenente.
E, desde que pisei no Velho Regimento,
(disciprinado, inquadrado, arfabetizado…),
Nunca vi taura nenhum na minha frente,
Nem nunca vi o sol nascê quadrado.

Meu velho Regimento, que saudade…
Da tua história assisti um bom pedaço.
Eu só quiria qui arguém, só pur mardade,
Falasse contra ti na minha frente,
Prá eu li cortá a cara com um reinaço.
Falá de ti? Só argum descrente…

Qual o regimento que possui
A glória que tiveste no passado?
O tempo passa e tudo derrui.
Mas como apagá teu heroísmo
Que constitui pra nóis santo legado,
Numa lição de bravura e de civismo?

1835 – Guerra dos Farrapos –
E lá estava, firme, o Velho Regimento,
Ao lado de heróis que se vestiam de trapo.
Dos bravos, dos idealistas, dos valentes.
Era prôs imperiais um escarmento,
Quando trovejava nas canhadas, em repentes.

1851 – Guerra contra Rosas –
E o Velho Regimento em Caseros,
Frenteando tropas inimigas numerosas,
Destruir tudo por completo ameaçava,
Destroçando pelotões, esquadrões inteiros,
Apoiando a Infantaria que avançava.

Bois de Botas, nos chamavam os companheiros,
Em apelido carinhoso, reparando
Que os bois das peças e os artilheiros,
Ao avançar, forcejando nas estradas,
Cada boca de fogo pesada arrastando,
Erguiam as pernas,
Todas em barro carçadas.

De 1865 a 1870 – Guerra do Paraguai –
Lá está ele, o Velho Regimento.
Queda de bravos, que morrem sem um ai!
Os cavalos a relinchar e a nitrir,
Gritos daqueles que perdero o entendimento,
Toques de clarim, chamando a reunir.

Estrupido de cascos: cavalaria inimiga que carrega,
Urros de ameaça e de vitória;
Fumo e fogo, que a todos cega;
Retinido de lanças e de espadas;
Desafio de homens que procuram a glória;
Promessas de morte, com armas apontadas.

E tudo enebrindo, a tudo apequenando,
A voz de trovão do Velho Regimento,
Rugindo a sua fúria, o aço vomitando…
Ribombam as suas peças em saltos e clarões!
Artilharia Revólver, sem perda de um momento,
Detona e carrega de novo os seus canhões.
Eles que venham… Por aqui não entram!

E mais de vinte cargas de cavalaria,
Que pelo dispositivo brasileiro se adentram,
Vão despedaçar-se, gritando em guarani,
Em face daquela artilharia.
Vencemos a Batalha do Tuiuti!

1930 – perseguindo um novo ideal,
O Velho Regimento desloca-se ao combate,
E chega a desfilar até na Capital.
1944 – luta o Brasil na Europa.
O Velho Regimento atende ao rebate
Por seus representantes retirados da tropa.

E agora? Lá está ele vigilante…
Cuidem-se bem os inimigos do Brasil!
O Velho Regimento, altivo e confiante,
Está pronto à desforra da honra maculada.
É velho, mas possui alma juvenil!
Cuidado… ou vão pagar a mula roubada!

E eu, velho sordado, aqui, pronto pra servir.
Prá ele, na hora do fervo, hei de correr,
De novo, voluntário, atendo ao “reunir”,
Prá mostrá aos moços da nova geração
Que um velho sordado ainda sabe morrer,
Se preciso, abraçado ao seu canhão.

Meu Velho Regimento, um último pedido…
O Patrono do Exército fez isso ao expirar,
E quero imitá-lo… tomem bem sentido.
No dia em que a morte me apagá o pensamento,
Quem até o cemitério me há de carregar,
Serão seis soldados velhos do Velho Regimento!

Publicado em Cultura, História, Literatura

Ministério da Noite (clique)

03/01/2015 por bonat

Crônicas registram a história de um tempo. Representam um gênero literário vigoroso e atual. Por isso me atraem. Sabedora disso, minha filha costuma presentear-me com obras de cronistas famosos. Detrás dessa gentileza, existe um motivo subliminar, que, por educação, ela não revela: o de induzir-me a aprender com celebrados autores, de modo que eu não perca os sete pacientes e valorosos leitores que ainda me restam.

Recentemente fui brindado com “O Mais Estranho dos Países”, da lavra do mineiríssimo Paulo Mendes Campos, que amigos íntimos costumavam chamar de PMC. Entre eles, estavam Ari Barroso, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e outros contemporâneos famosos. PMC, além de cronista, foi também poeta e contista.

Vejam o que encontrei na sua obra, que saboreei num vapt-vupt, sobre um conterrâneo seu, lá das Minas Gerais: “Ari Barroso não foi tão assíduo quanto Antônio Maria no Ministério da Noite, mas não chegou a ser um funcionário relapso. Não era de sentar praça em bar e boate por muito tempo; acabava sumindo, espavorido pelos chatos endêmicos.”

Compunham o imaginário Ministério de PMC pessoas que reuniam-se à mesa de um bar, com um olho no copo e outro na vizinhança,os ouvidos sempre atentos, em busca de algo ou de alguém que pudesse virar mote para nova peça literária ou musical. A ele, o Ministério, devemos a Aquarela do Brasil, a Garota de Ipanema, o Samba do Avião e outras tantas preciosidades.

Ao mesmo tempo em que me deliciava com a leitura, eu acompanhava nossa presidente reeleita afirmando que, como o país vivia grave crise econômica, teríamos que apertar o cinto. A cada anúncio, a conta-gotas, dos novos ministros, pela janela entreaberta da minha sala, surgia uma réstia de esperança de que ela iria dar o exemplo. O primeiro passo seria reduzir a exagerada quantidade de ministérios, alguns sem importância alguma, a não ser a de arrumar emprego para políticos desocupados. Quem sabe, num segundo passo, ela não acenaria com a redução das dezenas de milhares de cargos comissionados, outro improdutivo sugadouro dos recursos públicos.

Minhas esperanças nasciam e morriam a cada nova lista de nomeados. Quando a última foi anunciada, constatando que o cinto presidencial definitivamente não seria apertado, lembrei-me de PMC. Decidi sugerir a criação do Ministério da Noite. Chegaríamos, enfim, ao cabalístico número de Ali Babá: quarenta ministros.

Afinal, há milhões de brasileiros, abandonados e desassistidos, que trocam o dia pela noite. Não se trata apenas dos que frequentam os bares da vida noturna. Há os profissionais das madrugadas. Por dever de justiça, pois antiguidade é posto, destaco as prostitutas. Mas há muitas outras categorias de dedicados trabalhadores, como os plantonistas da área da saúde e da segurança, os radialistas, os taxistas, os motoristas de ônibus e, fechando o circuito, os garçons que servem aos que se reúnem à mesa de bar, à caça, ou não, de inspiração. Peço desculpas aos profissionais de outras categorias, aqui omitidos por imperdoável falha da minha memória.

Se dissesse isto no começo deste texto, nem mesmo os meus sete leitores teriam me acompanhado até este último parágrafo. Mas, na verdade, já que a decisão foi mesmo a de continuar esbanjando dinheiro público, que se crie o Ministério da Noite! Quanto ao melhor nome para ser nosso quadragésimo ministro, deixo a escolha a cargo dos meus sete e fiéis últimos leitores.

ILUSTRAÇÃO DE JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em Literatura, Nacional, Política

Discurso de Posse da Cadeira de Emílio de Menezes

28/11/2014 por bonat

Senhoras e senhores!

Se Emílio de Menezes, Patrono da Cadeira de número 19, que hoje tenho a responsabilidade e o orgulho de assumir, estivesse aqui no meu lugar, creio que iniciaria assim esta minha breve fala: “Caríssimo Presidente Arioswaldo Trancoso Cruz! Veja que bela plateia. São pessoas tão simpáticas, que nem parecem curitibanas!”

Pronto, estaria armada a confusão! Era assim o Emílio: divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta afiada da sua pena.

Curitibano, debocharia da fama, estereotipada um pouco, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Quem sabe, não sejamos mesmo assim… Mas Emílio passava longe de clichês e formalidades.

Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em nossa cidade a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Mesmo assim, nunca esqueceu de suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos em que enaltece a araucária, o pinheiro que nos identifica:

“Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia
Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!
Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia
De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império – República logo em seguida – encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.

Mal sabia o quanto seu lado satírico iria prejudicá-lo no futuro. Além do mais, sua amizade com intelectuais tidos como boêmios, entre eles Olavo Bilac, faria com que o seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.

A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais da Academia. Vejam o que publicou sobre um deles:

“Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha
Nem para intriga igual habilidade.
Eis, em resumo, uma figura estranha.
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 15 de agosto de 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.

Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para alfinetar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse de sua cadeira.

Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado.

”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos de residência no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café ou de uma confeitaria, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria.”

Usando a terminogia atual, Emílio de Menezes foi um polêmico. Um genial polêmico. Um polêmico e imortal curitibano!

A cadeira 19, da qual é o Patrono, foi ocupada pelo poeta Colombo de Souza, que teve dezenas obras publicadas e presidiu a nossa Academia de Letras José de Alencar nos anos de 1946/47. Ocupou-a, posteriormente, o Dr Ruy Noronha Miranda, destacado médico, eminente professor universitário e renomado pesquisador sobre doenças de pele.

Quero manifestar a enorme satisfação em suceder a vultos tão notáveis e em ter-me dirigido, nesta noite, a tão seleta plateia de simpáticos curitibanos e de igualmente simpáticos brasileiros de outros rincões. Muito obrigado.

Curitiba/PR, 27 de novembro de 2014
Hamilton Bonat

(Fotografias: JOÃO CARLOS CASCAES)

Publicado em Cultura, Literatura

Academia de Letras José de Alencar celebra seus 75 anos

25/11/2014 por bonat

Às 19 horas desta quinta-feira (27) tomarão posse os integrantes da nova diretoria da Academia de Letras José de Alencar para o biênio 2015/2016 em solenidade no Palacete dos Leões, à Av. João Gualberto, 530/570. A presidência será ocupada por Anita Zippin, e a vice-presidência por Arioswaldo Trancoso Cruz. Os demais componentes da chapa eleita por aclamação serão os diretores Celso de Macedo Portugal (1º secretário), Francisco Souto Neto (2º secretário), Janske Niemann Schlenker (1ª tesoureira), Nylzamira Cunha Bejes (2ª tesoureira), Hamilton Bonat (diretor de relações públicas), João Carlos Cascaes (diretor de comunicações) e Tânia Rosa Ferreira Cascaes (diretora sócio-cultural).

Na sessão solene, quatro personalidades já membros da Academia assumirão agora na qualidade de associados titulares de cadeiras patronímicas: Luislinda Dias de Valois Santos na Cadeira nº 6, Hamilton Bonat na Cadeira nº 19, Lílian Deise de Andrade Guinski na Cadeira nº 23 e Francisco Souto Neto na Cadeira nº 26. Na mesma oportunidade ingressarão na Academia como associados efetivos: Adriano Pires Ribas, Charyana Gamballe Correia, Claudinei Roncolatto, Estela Carmem Pereira Sandrini (Teca Sandrini) e Iza Zilli. Como associada correspondente assumirá Regina Celi Simões Ângelo, de Campinas, SP.

Nessa mesma sessão magna a Academia de Letras José de Alencar, fundada em 1939, estará comemorando em grande estilo o seu Jubileu de Diamante, agora instalada no Palacete dos Leões por gentileza do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE.

Foto – No Palacete dos Leões, membros da diretoria da Academia de Letras José de Alencar: Hamilton Bonat, Arioswaldo Trancoso Cruz, Anita Zippin e Tânia Rosa Ferreira Cascaes.

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Emílio, um fora da curva genial (clique)

18/11/2014 por bonat

Imaginemos Emílio de Menezes ainda vivo. Imaginemos mais: o poeta passeando pela Boca Maldita. A certa altura, ele levaria a mão ao

Ilustração de João Carlos Bonat

Ilustração de João Carlos Bonat

farto bigode e diria ao amigo ao lado: “Quanta gente simpática. Nem parecem curitibanos.” Emílio era mesmo assim. Divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta de uma língua ou de uma pena afiadas.

Curitibano, debocharia da fama, estereotipada é verdade, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Mas, quem sabe, não sejamos assim… Emílio passava longe disso.

Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em Curitiba a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Apesar disso, nunca renegou as suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos que enaltecem a araucária, o pinheiro que nos identifica: “Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia/Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!/Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia/De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império (da República, logo em seguida) encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.

Mal sabia ele que o lado satírico o prejudicaria. Além do mais, sua amizade com intelectuais, entre eles Olavo Bilac, tidos como boêmios, faria com que seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.

A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais. Vejam o que publicou sobre um deles: “Não existe exemplar na atualidade/De corpo tal e de ambição tamanha/Nem para intriga igual habilidade./Eis, em resumo, uma figura estranha./Tem mil léguas quadradas de vaidade/Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.

Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para contraatacar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse.

Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado. ”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria…”

Em qualquer lugar em que tivesse nascido, Emílio seria um fora da curva. Pela terminogia atual, foi um polêmico. Um genial polêmico. Por isso, imortal!

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