Artigos de ‘Língua Portuguesa’ Category

Discurso de posse na Academia (Vídeo)

27/07/2015 por bonat

Meu discurso de posse da Cadeira 19 da Academia de Letras José de Alencar, que tem como Patrono o poeta Emílio de Menezes.
Para assistir, clique:

Confrade General Hamilton Bonat

Os votos de Dona Erda

23/11/2011 por bonat

É fácil esquecer-se de algo. Basta confiar na memória. Sempre tive muita dificuldade para lembrar o nome das pessoas. Por isso, ao longo do tempo, tenho-me valido de um velho e eficaz método: o de anotar. Anotar tudo.

Tem gente que recorre a outros artifícios. Para eles, mnemônica é a palavra salvadora. Ela vem de Mnemosine, deusa que personificava a memória na mitologia grega. Daí chamar-se mnemônico o processo que muitos utilizam para lembrar-se de coisas essenciais. Cícero foi dos primeiros a usá-lo em seus famosos discursos, transformando-o em método, em sua obra De Oratore.

Ele baseia-se no princípio de que a mente humana tem mais facilidade de memorizar dados quando estes são associados a informações pessoais, espaciais ou de carácter relativamente importante. Porém, estas informações têm que fazer algum sentido, ou serão igualmente difíceis de memorizar.

É um artifício indispensável a quem pretenda conquistar e manter clientes, seguidores ou, no caso dos políticos, votos. Entretanto, ao lado de sua reconhecida eficácia, mora o perigo dos estragos irreversíveis que pode causar.

O caso que agora passo a contar serve de alerta aos seus adeptos. O fato é real. Usarei nomes fictícios. Não que os tenha esquecido, pois os anotei, mas prefiro preservar a identidade da personagem principal.

Lelé era daqueles políticos falantes. Jurava que não mentia. O problema é que continuava falando, mesmo depois que as verdades haviam terminado. Beijava criancinhas, abraçava idosos e, dizem, dava bom dia a cavalo. Gabava-se da sua memória privilegiada. Bastava ser apresentado a alguém, para não mais esquecer o seu nome. Não revelava o truque. Talvez empregasse o processo mnemônico. Ninguém sabe.

Em campanha para deputado estadual, foi à Vila Tem-Tem, convidado por Dona Erda (pronuncia-se Érda). Líder local, ela era muito respeitada. Nunca fora candidata a nada. Gostava mesmo de ajudar, de fazer o bem, sem nenhum interesse pessoal. Quase uma santa. Por isso era querida.

O salão comunitário estava lotado. Perante mais de trezentas pessoas, Dona Erda foi só elogios ao candidato, a quem pediu votos, pois acreditava em suas promessas de fazer o progresso chegar à Vila Tem-Tem. Encerrou sob aplausos e gritos de “Lelé já ganhou”.

Chegou o grande momento: a vez de o nosso protagonista discursar. Por mais de meia-hora, ele deitou falação, prometendo transformar em paraíso o inferno que era a pobre Vila Tem-Tem . Ao final, sabedor do elevado prestígio de Dona Erda, resolveu pedir aos presentes que a aplaudissem.

Para sua surpresa, fez-se silêncio. Imaginando não ter sido entendido, repetiu: “Antes de encerrar, peço uma salva de palmas a esta brava lutadora, Dona Osta (pronunciou Ósta)”. A essa altura, Dona Erda, constrangida, já tinha saído à francesa, deixando-o a sós com a plateia irada.

Lelé perdeu a eleição. Na Vila Tem-Tem, nenhum voto. Se tivesse usado o velho e eficaz método de anotar, hoje seria deputado. Aprendeu tarde demais. Nunca mais se candidatou. Nem mais voltou à Vila Tem-Tem.

Por uma vida sem futuro

20/05/2011 por bonat

Eles sabem pescar. Conhecem técnicas para criar peixes. Mas não ensinarão nem uma coisa nem outra. Querem apenas que todos recebam peixe de graça, sem esforço algum, nem físico, nem mental. O programa “fome zero” está aí para isso. Desejam todos submissos e cativos à sua vontade.

Para que vontade? Tecnologia para quê? Por que se esforçar, se o peixe estará à mesa, pronto para ser consumido? Basta que digam: “Nóis tá cum fome”, e pronto. Porém, aquele que ousar dizer “estamos com fome”, está perdido. Não ganhará seu peixe. Será taxado de preconceituoso, um neo-preconceituoso, apenas por saber se expressar. Chegou a vez de discriminar aqueles que falam e escrevem corretamente.

O que ganham com isso? Muito, a começar pelos milhões de votos nas próximas eleições. Muitíssimo mais, quando mobilizarem os que recebem o peixe, a fim de defendê-los contra a imprensa, a oposição e as pessoas esclarecidas. Quando os acusarem de coisas como mensalão, dólares na cueca, fracasso nas provas do ENEM. Ou quando alguém ousar mostrar escolas aos pedaços, professores ganhando uma miséria, estradas em frangalhos, um dos piores sistemas públicos de saúde, ou a inflação galopante, escamoteada durante muito tempo para que pudessem eleger a senhora Dilma.

Sentimento de culpa, nunca tiveram ou terão. Culpa é e será dos americanos, do agronegócio, dos pecuaristas. Jamais será da dinheirama que entregaram a mais de cem mil ONGs, às centrais sindicais, aos espertalhões agraciados pela bolsa-ditadura, aos malandros do MST. Muito menos do que torraram em propaganda, nas viagens ao redor do mundo no confortável aerolula, regado a scotch importado. Quem sabe a culpada não venha a ser a professorinha que ganha 900 contos por mês?

Mas, se todos os acusados aí de cima conseguirem bons argumentos para se defender, que ponha-se a culpa nos milicos. Pronto, tudo resolvido. A ditadura paga a conta.

Assim, enquanto desviam a atenção do povão, fingindo que estão procurando ossos, podem gastar 1.000 reais por cada (cacofonia não é mais pecado) exemplar de “Por uma vida melhor”.

Sua autora deve estar rindo à toa. Recebeu 700 mil por sua “obra”. Graças à ela, o Brasil voltará mais rapidamente à pré-história da civilização. Nunca antes na história de um país, alguém terá conseguido tamanha proeza.

As grandes vítimas dessa paranoia ideológica governamental serão nossas crianças. Se continuarem assim, elas se transformarão nos dinossauros do III Milênio.

Enquanto isso, felizes da vida, os companheiros comemoram: “eles come os pexe, nóis fica co dinhero”. Coisas dos “intelectuais” do MEC, os mesmos incompetentes, responsáveis-irresponsáveis pelos dois últimos fracassos do caríssimo ENEM. Como não saiu do “borso” deles, dá-lhe festa!

Publicado em Língua Portuguesa

Corto cabelo e pinto

07/10/2010 por bonat

Ele não gostava nem um pouco quando os irmãos o chamavam de Quinzinho. Aos dezoito anos, voluntário, foi servir. Durante um ano, ficaria livre do apelido que detestava. Era agora o soldado número 512, Joaquim, da 2ª Bateria. Torcia para que os irmãos não fossem visitá-lo e revelassem aos seus companheiros aquela detestável alcunha.

Gostava de algumas coisas no quartel. De outras, nem tanto. Cortar o cabelo toda semana era uma delas. A cada sete dias, sentava na cadeira do Valdevino. Em menos de cinco minutos, ele fazia o serviço. Tinha que ser rápido para dar conta da fila. Mas, o que tinha de ligeiro, ele tinha de ruim. Era barato. Por isso poucos reclamavam.

Valdevino adoeceu. Era preciso substituí-lo. Consultaram a soldadesca para saber se havia alguém com prática no ofício. Como não apareceu ninguém, Joaquim resolveu arriscar. Levantou o braço.

Na manhã seguinte já estava empunhando uma tesoura e a navalha. Entrou a primeira vítima. Precisava caprichar. Levou vinte minutos, mas saiu-se melhor que Valdevino, o que não era difícil. Na terceira semana, Joaquim já era craque. Para azar, seu e dos demais recrutas, Valdevino ficou bom e voltou.

Quando deu baixa, Joaquim, que nunca fora muito chegado às letras (Português não era seu forte), desistiu de estudar. Resolveu seguir a vocação: abriu uma barbearia. E não é que tinha mesmo jeito para a coisa? Além do mais, era bom de prosa, qualidade indispensável a um bom “fígaro”.

Os irmãos resolveram ajudá-lo. Mandaram fazer uma placa e a fixaram na porta do estabelecimento: “Quinzinho’s Barber Shop”. Ficou tão bonita (e ainda por cima em inglês), que ele nem ligou para o apelido. A clientela aumentou. Não cabia mais no salão.

Tudo ia bem, até que decidiu ampliar o negócio. Além de cortar, iria agora pintar cabelos. Para sua decepção, mais nenhum freguês entrou na barbearia. Não conseguia entender por quê.

Caro leitor: você entraria no “Quinzinho’s Barber Shop” ao ler este anúncio: “Corto cabelo e pinto”? Certamente não.

Moral da história: analfabetos funcionais, mesmo sendo profissionais sérios e competentes, acabam falindo. Mas, se forem famosos, serão eleitos deputados federais. Tiririca é apenas um exemplo. Existem muitos outros.

A elegante senhora “y” está de volta

27/06/2008 por bonat

 

Recordo-me da Copa da França, quando uma repórter, guindada a esta condição graças a sua beleza, quando fazia a cobertura da comemoração da torcida dona da casa, assim se expressou: “Estamos na Place de La Concordê”. E, confirmando em rede nacional o seu despreparo, errou outras vezes ao tentar dizer Place de La Concorde. Se não fosse bela e namorada de uma celebridade, teria sido sua última aparição. Foi perdoada pelos chefões da emissora. Chacrinha já sabia que mulher bonita dá audiência. Além do mais, tratava-se de outro idioma. Moça bonita não é obrigada a estudar francês. Mas, convenhamos, “Place de La Concordê é dosê”.

Jogador de futebol, ao contrário, não precisa ser bonito. Também não precisa saber falar. Tem somente que jogar bem. Já reparou que eles têm certeza de tudo? A qualquer questão, respondem: “com certeza”. Depois desta afirmação, pronunciam uma série de frases que não guardam relação alguma com a pergunta formulada. Nossos ouvidos sofrem mesmo é quando alguns, ao se aposentar, tornam-se comentaristas.

Como eles, muitos brasileiros não dominam a expressão oral e, logicamente, a escrita. A estes não preocupam as alterações que vêm por aí. Nem adiantaria tentar-lhes explicar que vôo passará a ser voo; anti-semita, antissemita; contra-regra, contrarregra, vêem, veem; jibóia, jiboia. Se já não sabiam como era, não lhes interessa como passará a ser.

Mas quem vive da escrita, do discurso ou simplesmente considera a correta comunicação um sinal de consideração para com as demais pessoas, precisa se atualizar.

As alterações não são muitas. Retornam “y”, “w” e “k”, aumentando para vinte e seis as letras do nosso alfabeto. Delas, a mais bem-vinda é o “y”. Ela dá um toque de classe às palavras. Ubiracy é mais elegante que Ubiraci; Paraty, que Parati; Tibagy, que Tibagi. São vocábulos do velho Guarany, idioma que permanece vivo por ter batizado vários estados, cidades e acidentes geográficos do País.

Se você não é presidente de nada, nem de time de botão, não é uma celebridade, se for um perna-de-pau ou simplesmente considera falta de polidez comunicar-se com incorreção, trate logo de se informar. Se precisar de motivação, lembre-se da elegante senhora “y”, a mais charmosa de todas as letras. Seu aprendizado, “com certeza”, será mais prazeroso.