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O Exército do Ponche Verde

18/12/2016 por bonat

O EXÉRCITO DO PONCHE VERDE

Gen Ex Paulo Cesar de Castro

Em uma manhã de três de dezembro de dois mil e dezesseis, na catarinense Chapecó, centenas de pessoas estiveram unidas por emoções, dores e lágrimas. Flores, faixas, cartazes, fotografias de jogadores e camisas da Associação Chapecoense de Futebol foram vistas mundo afora. O povo simples, sincero e ordeiro demonstrou seus sentimentos ao longo do itinerário percorrido pelo cortejo fúnebre do aeroporto até a Arena Condá. Esse modesto estádio abrira seus portões para o velório coletivo de atletas, dirigentes e jornalistas, vítimas fatais de trágico acidente aéreo na Colômbia. Através da televisão, milhões de brasileiros solidarizavam-se com os chapecoenses naqueles momentos de luto. Compartilhavam a mesma dor dos que choravam por entes queridos, amigos e heróis do esporte.

Eis que um verdadeiro dilúvio se abateu sobre a cidade. Chovia torrencialmente, mas um doloroso cerimonial deveria ser cumprido, malgrado o alagamento do pátio de estacionamento de aeronaves e do gramado do estádio.

Nesse cenário, desponta o Exército Brasileiro.

Nossa Força recebeu respeitosamente os caixões com os restos mortais transportados até Chapecó nas asas da Força Aérea Brasileira. A família verde-oliva orgulhou-se do desempenho de sua tropa que, sob aquelas condições de tempestade inclemente, trazia das aeronaves, ritual e impecavelmente, os ataúdes lacrados. Graduados, com braço forte, uniformes encharcados e corações feridos, desfilavam até a guarda de lanceiros. Estes boinas pretas, com garbo e porte marcial, apresentavam armas à passagem pelo tapete vermelho daqueles que tanto fizeram por merecer.

Aqueles guerreiros do Exército eram cavalarianos do velho Corpo da Guarnição da Província de Goiás (1842), atual 14 Regimento de Cavalaria Mecanizado, “Lanceiros do Ponche Verde”, aquartelado em São Miguel do Oeste (Santa Catarina). Evidenciaram rusticidade, responsabilidade e dedicação no cumprimento do dever, sob condições climáticas e afetivas assaz adversas. Podia-se ver a chuva escorrendo pelos rostos e uniformes dos soldados de Caxias e de Osório. As imagens eram transmitidas ao vivo para inúmeros países. Falavam por si mesmas e expressavam, em verdadeira grandeza, o valor da mão amiga de nossos irmãos de armas.

Não hesitaram. Não tremeram. Contudo é certo que sentiram no fundo da alma e no arrepio da pele – e de muito perto – as perdas irreparáveis daquelas vidas inesperadamente ceifadas. Afinal, “a farda não abafa o cidadão no peito do soldado”, afirmou o Marquês do Herval. Legaram exemplos de abnegação, disciplina, persistência, equilíbrio emocional e sobriedade.

Um observador atento salientará que houve exame de situação profissional, meticuloso planejamento, detalhado reconhecimento e árduo treinamento. O mesmo observador afirmará, sem errar, que aquela tropa executou a manobra sob firme liderança militar em diferentes escalões de comando. Nossa gente demonstrara porque o Exército – e as Forças coirmãs – ostentam, junto ao povo brasileiro, índices de credibilidade invejáveis.

O cerimonial não foi apenas integralmente cumprido, foi exemplarmente cumprido por tropa de elevado moral. Orgulhemo-nos dos nossos cavalarianos do 14 RCMec. Eles ultrapassaram o objetivo de cumprir a missão com êxito, foram mais do que o Regimento, transformaram-se e revelaram ao mundo o Exército do Ponche Verde, o Exército Brasileiro.

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No tempo das aeromoças

02/12/2016 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Dobro a curva. Agora consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, dentre tantos, o único merecedor daquela gentileza.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e de sua bagagem. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preze não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não consegue esconder sua inveja.

O avião atinge a altura de cruzeiro. Para demonstrar tranquilidade, finjo que durmo, e acabo pegando no sono de verdade. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada no céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma rampa descendente, em cujo sopé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba indica-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de segui-las… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum os passageiros aplaudirem o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, provavelmente, aplaudiríamos as aeromoças.

À porta do avião, ouço pela derradeira vez aquela voz bem treinada: “Tenha um bom dia”. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito a uma igreja pedir perdão pelos meus pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba me apontará o caminho das aeromoças. Mas, sinceramente, será que elas estarão lá?

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Flores para Enedina

30/01/2016 por bonat

82950060 é apenas um número. Porém, se você digitá-lo no site dos correios, ele se transforma na Engenheira Enedina Alves Marques.

Por tê-la conhecido, fiquei feliz ao saber que nossa cidade fez justiça ao homenageá-la em uma de suas ruas. Ela era amiga da nossa família, mais especificamente da Vó Geni, mãe da tia Cida. A memória do piá que eu era naqueles anos cinquenta guarda a imagem de uma senhora negra, muito elegante, que costumava adornar-se com joias de muitos quilates. Nós, a gurizada, só a víamos na chegada, pois, para as crianças da minha geração, todos os espaços eram nossos. Era para lá que corríamos para gastar nossa energia. Brincávamos ao ar livre como crianças, enquanto os adultos conversavam na sala como adultos.
Mal sabíamos que ali estava uma celebridade, futuro nome de rua. Negra e pobre, Enedina foi uma vencedora graças aos seus méritos: dedicação, inteligência, perseverança. Antes de formar-se (1945) pela Universidade Federal do Paraná – UFPR – e tornar-se a primeira engenheira do Estado, trabalhou como babá, concluiu a escola normal (1931) e, demonstrando sua vocação para heroína, lecionou em grupos escolares de São Mateus do Sul, Cerro Azul, Rio Negro e Curitiba.

Nada foi fácil. Depoimentos contam que passava as noites estudando, copiando assuntos de livros que não podia comprar. Acreditava em si e na importância de estudar. Para reforçar esse seu lado de batalhadora, recorro ao jornalista José Carlos Fernandes. Em brilhante crônica, ele relatou: “Formou-se aos 31 anos, sem refresco, depois de uma saga nas madurezas. Vingou-se ao se aposentar, na década de 1960, como procuradora, respeitada por sua contribuição à autonomia elétrica do Paraná. Conheceu o mundo. Morava num apartamento de 500 metros quadrados. Impôs-se entre os ricos por sua cultura, doze perucas e casacos de pele. Desconhece-se que tenha feito odes feministas ou em prol da igualdade. Ou que fizesse o tipo boazinha para ser aceita. Pelo contrário. Talvez Enedina tenha sido mais admirada que amada. É o que a torna ainda mais intrigante”.

Após ler esse texto na Gazeta do Povo, levei-o para tia Cida que, por ter convivido com ela, certamente ficaria comovida, como ficou. Só fez um reparo: o apartamento de Enedina era grande e confortável, mas estava longe dos 500 metros quadrados. Mas José Carlos Fernandes foi mais do que perdoado pela minha tia. Para ela, o resgate da memória de sua valente amiga não tem preço.

Aliás, esse é o grande mérito do chamado jornalismo-personagem: resgatar o cotidiano, mostrar gente que mora ou morou ao nosso lado, pois é pelo afeto que as pessoas se identificam com a sua cidade. Graças a isso, redescobrimos que a primeira engenheira formada pela UFPR ainda vive em Curitiba, ali na rua Engenheira Enedina Alves Marques. A ela, nossas flores, nosso respeito e nosso afeto.

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Bodas: segredo ou milagre?

13/07/2015 por bonat

Há pouca coisa mais nostálgica do que as seções intituladas “Você Sabia?”. Era comum encontrá-las em jornais e revistas. Seguiam-se, então, informações pouco relevantes como: “Você sabia que um casal, quando completa um ano junto, comemora Bodas de Papel?”.

Claro que vocês, meus leitores, sábios que são, sabem que boda é uma celebração de casamento. Que é uma palavra mais usada no plural – bodas – e se refere aos votos matrimoniais feitos no dia do casamento. Sabem também que é tradição comemorar aniversários de casamento. Entretanto, talvez não saibam, como eu não sabia antes de consultar o professor google, que o termo tem origem no latim “vota”, que significa promessa. Pois a promessa parece estar cada vez mais difícil de ser cumprida.

“Milagre! Conseguimos nos aturar durante cinquenta dias!”, comemora um casal moderno. Suportar um ao outro sempre foi difícil, mas está virando exceção. Qualquer desavença faz esquecer do prometido diante do altar, perante familiares e amigos. Certo ou errado, antigamente não era bem assim. Casamentos eram para sempre, apesar das rixas, pequenas umas, abissais outras.

Foi nisso que pensei quando, recentemente, estive numa festa de bodas de ouro. Recordei Ogden Nash e sua definição de casamento como sendo “uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece”. Existem dezenas de outros pensamentos, uns sérios, outros engraçados, que buscam definir essa instituição secular, atualmente em crise. Entretanto, são poucos sobre “cinqüenta anos de casamento”. Por ser um evento raro, possivelmente dispense qualquer conceituação. Talvez por isso, poucos filósofos, poetas, sábios, futurólogos e religiosos se aventuraram em conceituá-lo.

Ele é autoexplicativo. Encerra toda uma vida, vivida a dois. Trata-se de acontecimento único e singular. Um momento que funde presente, passado e futuro. Na verdade, mesmo sem dizer uma só palavra, quem transmite u’a mensagem, lá do alto de meio século de convivência, são os cinquentenários “noivos”.

Lembrei, então, que todos nós, pelo menos uma vez, desejamos que o tempo tivesse parado em algum momento da nossa existência. Obviamente numa ocasião feliz, como a do nascimento de um filho ou de um neto. Se eles, os “cinquenta vezes noivos”, tivessem essa faculdade, suponho que escolheriam a inesquecível data de suas bodas. Se o tempo tivesse parado naquele dia, eles teriam a felicidade de ter, comemorando com eles, as pessoas muito queridas que lá estavam. Mas o tempo não para.

Ainda bem, pois se o relógio tivesse deixado de funcionar, sua vida se resumiria a uma fotografia amarelada. Não teria se transformado num belo filme. Uma película de muitos capítulos alegres, outros nem tanto. De emoções, de incertezas, de angústias, de vitórias. De alguns personagens que já partiram, enquanto muitos outros chegaram. Se os ponteiros do relógio tivessem parado, pouco teriam a comemorar. Não haveriam filhos, netos e bisnetos, nem tantos novos amigos.

Mas, afinal, qual o segredo de quem completa cinquenta anos junto? Ouso supor que ele esteja no fato de o casal ter procurado ser mais do que protagonista. De ter sido, ao mesmo tempo, diretor do filme da sua vida. Um diretor com uma visão otimista do futuro. Mas a verdade é que nem mesmo nas antigas seções “Você sabia?” a gente encontraria a resposta.

Aliás, caro e sábio leitor, você sabia que, aos 75 anos de casado, comemoram-se Bodas de Brilhante? Nesse caso, não há segredo. É milagre mesmo!

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A vitória final (clique para ler)

05/10/2013 por bonat

Ao me despedir, pedi ao coronel Gurgel uma cópia da sua alocução. Eu precisava escrever alguma coisa sobre a emoção que acabara de sentir, sem, no entanto, correr o risco de falsear dados factuais sobre a vida do General Ítalo Conti.

A cerimônia que presenciara no pátio do 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado poderia ter sido apenas uma solenidade com roteiro previsível e formato rigidamente definido no cerimonial castrense. Porém, não resumiu-se apenas a isso. Um tempero extra acabaria por transformá-la em um acontecimento único e singular, num momento especial, que fundiu presente, passado e futuro.

De um lado, os nonagenários pracinhas recordavam seu glorioso passado. Junto a eles, os familiares do homenageado, cujo semblante não conseguia dissimular o difuso sentimento que mesclava alegria, tristeza, saudade e gratidão, uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de que ele estivesse ali.

Do outro lado, o presente: os jovens soldados que, em forma, rendiam preito ao Major Comandante que, em 1949, transferira o Grupo da central praça Oswaldo Cruz para o longínquo Boqueirão, bairro onde só se chegava a cavalo. Em compensação, a vastidão dos campos mostrava-se ideal para o adestramento das baterias de canhões hipomóveis.

Os 97 anos de Ítalo Conti foram vividos intensamente em vários recantos do Brasil. Como Capitão, esteve no teatro de operações italiano, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Chegou a general, foi eleito deputado federal por quatro legislaturas, batalhou pela construção da Casa do Expedicionário, foi cofundador do Círculo Militar do Paraná, secretário de Estado e, já octogenário, incansável administrador regional da prefeitura do bairro do Portão, onde era o primeiro a chegar e o último a sair. Sua conversa era agradável, atual, cativante e envolvente, de um verdadeiro “general boa-praça”. Tinha memória privilegiada.

Naquela ensolarada manhã, o velho comandante estava retornando. Suas cinzas, como era sua vontade, e os da sua querida Odete, passariam a morar eternamente no quartel. Estavam postos os ingredientes para a emoção tomar conta de todos. Porém, haveria um tempero a mais: a canção do expedicionário, entoada com entusiasmo pela tropa. Se existe algo de arrepiar, ele atende pelo nome de canção do expedicionário. A música de Spartaco Rossi forma um par perfeito com a brilhante letra de Guilherme de Almeida. Almeida, num momento de genialidade, conseguiu abranger todas as regiões brasileiras, pois, de todas, havia soldados na FEB. Ela começa com a pergunta: “Você sabe de onde eu venho?”, para, em seguida, respondê-la com uma abrangente descrição do Brasil preponderantemente rural da década de 1940.

“Venho das selvas, dos cafezais, da boa terra do coco, das praias sedosas, das montanhas alterosas, dos pampas, do seringal… Venho da casa branca da serra, do luar do sertão; venho da minha Maria, cujo nome principia na palma da minha mão… Da Senhora Aparecida e do Senhor do Bonfim!”.

Seu refrão encorajava os pracinhas e acenava-lhes com a esperança do regresso para os braços da família distante: “Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse ‘V’ que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final … a glória do meu Brasil!”.

O Pracinha agora está de volta. Retorna ao seu velho quartel, como um exemplo aos soldados de amanhã. Quando algum deles passar pelo pequeno monumento e, curioso, perguntar quem foi Ítalo Conti, alguém lhe dirá: “Foi, como outros brasileiros, um herói da paz, que atravessou mares e oceanos para lutar pela liberdade. Mas não apenas na Itália. Fez isso por onde passou, durante sua longa e profícua existência”.

ILUSTRAÇÃO: João Carlos Bonat

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Um Turin às avessas (clique para ler)

14/08/2013 por bonat

“Aos 25 dias de janeiro de 1932, nesta cidade de Coritiba, sendo…”. Assim começa o bilhete que João Turin colocou na garrafa que escondeu na base da estátua de Tiradentes. Aberta com toda pompa e o merecido cuidado, ela ocultava o manuscrito do famoso escultor paranaense, informando da existência de outra garrafa, enterrada na posição original da escultura, “… que dista daquela cerca de 35 metros na direção Oeste, contendo uma acta impressa, com diversas assinaturas, autógraphos, a primeira página do jornal O Dia de 21 de Abril de 1927 e algumas moedas de cobre e níquel”.

Semanas atrás, ao retirarem o Tiradentes de Turin para restauro, a tal garrafa foi encontrada. A notícia se espalhou e, durante dias, deu asas à imaginação, desde mesas de bar até redes sociais. Que mistérios ela guardaria? Como a curiosidade é sempre – ou quase sempre – maior do que o próprio segredo, muita gente ficou frustrada quando ele foi revelado.

Frustrações à parte, aos mais atentos a descoberta foi significativa. O manuscrito de Turin chama a atenção pela bela caligrafia do autor. É marca de um tempo em que escrever de próprio punho era importante forma de comunicação. Por isso, as pessoas se esmeravam em fazê-lo de modo elegante, inteligível e, por que não, eterno, muito diferente das gentes de hoje, bem como das nossas palavras, cada vez mais vulgares e efêmeras.

Salto agora para o menos longínquo ano de 1991. Na seção de comunicação social, vivíamos a ebulição do início da semana do centenário da 5ª Região Militar. Um dos meus auxiliares, infelizmente não recordo qual, alertou-me sobre a tradição de se deixar lembranças na base de monumentos. Como estava sendo erguido um obelisco evotivo à relevante data, sugeriu que colocássemos lá uma cápsula do tempo. Quem sabe, dali a milhares de anos, alguém não a encontraria! Mãos à obra: reunimos algumas coisas e, para garantir a necessária inviolabilidade, introduzimos tudo num tubo de PVC e fechamos, herméticamente, com durepoxi.

Tínhamos pressa, pois as fundações estavam em fase adiantada. Terminada a faina, na hora do almoço, antes de ir para o refeitório, nos dirigimos em solene comitiva ao local onde o monumento seria erguido. Porém, o que era para ser um momento triunfal, transformou-se numa decepção muito maior do que a provocada pelo conteúdo da garrafa do Turin: os pedreiros tinham acabado de concretar a base.

Não pretendi aguçar a sua curiosidade. De qualquer forma, decorridos 22 anos, revelo o conteúdo do nosso tubo: a primeira página do jornal A Gazeta do Povo de 30 de junho de 1991, algumas moedas e notas de Cruzeiro (moeda da época), fotografias, cópia da ordem do dia alusiva ao centenário, e uma mensagem, não manuscrita, mas datilografada em moderníssima máquina de escrever elétrica marca Olivetti, repleta de assinaturas, pois, sabedores da notícia, muitos tinham ido à nossa sala para “tornarem-se eternos”. Não lembro exatamente o que deixamos escrito. Entre outras coisas, constava que o comandante era o General Benedito Bezerra Leonel, que a obra tinha sido idealizada por Carlos da Costa e construída pelos Irmãos Mauad.

Nossa cápsula do tempo ainda ficaria guardada durante uns bons anos num dos armários da Quinta Seção. Quando o Exército entrou na era da “excelência gerencial”, alguém deve tê-la considerada inservível. Foi parar na lata do lixo.

Moral da história: nós, como encarregados da comunicação social do quartel-general, simplesmente “esquecemos de comunicar” ao mestre de obras sobre a nossa intenção. O morretense João Zanin Turin, além de grande escultor e de possuir bela caligrafia, foi mais competente. Por isso, tornou-se eterno.

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Um dia bem longe das pedras (clique aqui)

27/05/2013 por bonat

Véspera do feriado de Corpus Christi, 29 de maio é também dia de São Fernando e de Santa Úrsula. Fernando reinou na Espanha no tempo em que o poder terreno dos monarcas dependia da benção papal. Lutou nas Cruzadas. Talvez por isso tenha virado santo. Úrsula Ledochowska era polonesa. Protegia crianças abandonadas. Em 1983, foi beatificada por um conterrâneo, o Papa João Paulo II.

Em respeito, mas sem carolices, hoje não arremessarei pedras, esporte predileto da maioria dos cronistas, nem que sejam, como eu, um dos seus aprendizes. Crônicas têm sabor de crítica. Em suas linhas e, especialmente, nas entrelinhas, o autor expressa sua opinião, geralmente polêmica. Sua munição são pedras, que arremessa contra vidraças. Quem sabe eu as atirasse contra os seis mil médicos cubanos que vêm por aí. Ou, ainda, contra o Rei da Noruega, que visitou a Reserva Ianomâmi mesmo a contragosto das nossas autoridades.

Mas deixemos esses problemas para o Conselho Federal de Medicina e para o Governo. Hoje, prefiro ficar bem longe do meu “depósito de munição”, não sem antes confessar minha dificuldade, pois atirar pedras é muito cômodo, tantas são as mazelas que se escondem por detrás das vidraças.

Proponho-me, então, a homenagear os aniversariantes do dia, tarefa tão complicada quanto prestar a prova do ENEM. Sinceramente, temo ser reprovado. Eu teria alguma chance, se simplesmente transcrevesse o hino de um time de futebol ou uma receita de bolo. Alguns fizeram isso e se deram bem. Mas, mesmo agradando aos torcedores do time cujo hino eu reproduzisse, desagradaria aos dos seus adversários. A receita talvez fosse mais apreciada, pois serviria para confeccionar uma doce iguaria para brindar os aniversariantes. Mas, cá entre nós, não seria mais prático comprar na padaria da esquina?

Claro que aniversariantes não faltam. Vejam só quanta gente importante nasceu hoje: Dante Alighieri, Papa Pio III, Rei Carlos II, John Kennedy, o treinador Jair Pereira, a cantora Gretchen, a atriz Débora Bloch e Sandra Macaggi, minha amiga no facebook.

De acordo com os astrólogos, quem veio ao mundo nesta data é do signo de Gêmeos e tem algumas qualidades: é extremamente intelectual, sutil, racional, inteligente, astucioso, flexível e versátil. São pessoas possuidoras de certa inquietude. Sua personalidade demonstra inclinação à leitura e a todos os tipos de atividades que envolvam a imaginação.

Sei lá se isso é verdade. Acredita quem quer. Por conveniência, prefiro duvidar, pois, se eles forem realmente intelectuais, inteligentes e astuciosos, rapidamente perceberão a minha dificuldade em formular-lhes os melhores votos de felicidade. Aí, quem vira vidraça sou eu, contra a qual arremessarão suas indignadas pedras. Por isso, peço-lhes: afastem-se, como eu, do seu “depósito de munição”, porque, mais do que santo, hoje é um dia especial, aquele em que vocês chegaram a este mundo para torná-lo melhor. Parabéns às Sandras, Alessandras, Cassandras, enfim, a todos os que sopram velinhas neste 29 de maio.

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Flores para Enedina (clique para ler)

06/04/2013 por bonat

82950060 é apenas um número. Porém, se você digitá-lo no site dos correios, ele se transforma na Engenheira Enedina Alves Marques.

Por tê-la conhecido, fiquei feliz ao saber que nossa cidade fez justiça ao homenageá-la em uma de suas ruas. Ela era amiga da nossa família, mais especificamente da Vó Geni, mãe da tia Cida. A memória do piá que eu era naqueles anos cinquenta e sessenta guarda a imagem de uma senhora negra, muito elegante, que costumava adornar-se com joias de muitos quilates. Nós, a gurizada, só a víamos na chegada, pois, para as crianças da minha geração, todos os espaços eram nossos. Era para lá que corríamos para gastar nossa energia. Brincávamos ao ar livre como crianças, enquanto os adultos conversavam na sala como adultos.

Mal sabíamos que ali estava uma celebridade, futuro nome de rua. Negra e pobre, Enedina foi uma vencedora graças aos seus méritos: dedicação, inteligência, perseverança. Antes de formar-se (1945) pela Universidade Federal do Paraná – UFPR – e tornar-se a primeira engenheira do Estado, trabalhou como babá, concluiu a escola normal (1931) e, demonstrando sua vocação para heroína, lecionou em grupos escolares de São Mateus do Sul, Cerro Azul, Rio Negro e Curitiba.

Nada foi fácil. Depoimentos contam que passava as noites estudando, copiando assuntos de livros que não podia comprar. Acreditava em si e na importância de estudar. Para reforçar esse seu lado de batalhadora, recorro ao jornalista José Carlos Fernandes. Em brilhante crônica, ele relatou: “Formou-se aos 31 anos, sem refresco, depois de uma saga nas madurezas. Vingou-se ao se aposentar, na década de 1960, como procuradora, respeitada por sua contribuição à autonomia elétrica do Paraná. Conheceu o mundo. Morava num apartamento de 500 metros quadrados. Impôs-se entre os ricos por sua cultura, doze perucas e casacos de pele. Desconhece-se que tenha feito odes feministas ou em prol da igualdade. Ou que fizesse o tipo boazinha para ser aceita. Pelo contrário. Talvez Enedina tenha sido mais admirada que amada. É o que a torna ainda mais intrigante”.

Após ler esse texto na Gazeta do Povo, levei-o para tia Cida que, por ter convivido com ela, certamente ficaria comovida, como ficou. Só fez um reparo: o apartamento de Enedina era grande e confortável, mas estava longe dos 500 metros quadrados. Mas José Carlos Fernandes foi mais do que perdoado pela minha tia. Para ela, o resgate da memória de sua valente amiga, que teria completado 100 anos em 5 de janeiro passado, não tem preço.

Aliás, esse é o grande mérito do chamado jornalismo-personagem: resgatar o cotidiano, mostrar gente que mora ou morou ao nosso lado, pois é pelo afeto que as pessoas se identificam com a sua cidade. Graças a isso, redescobrimos que a primeira engenheira formada pela UFPR ainda vive em Curitiba, ali na rua Engenheira Enedina Alves Marques. A ela, nossas flores, nosso respeito e nosso afeto.

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Gratidão à Academia de Cultura de Curitiba

29/11/2012 por bonat

Recebam todos as nossas saudações. Ou, pensando bem, pois agora já podemos dizer: recebam nossas saudações accureanas!

Embora eu não tenha recebido delegação para escrever em nome dos colegas recém-empossados, vou tentar resumir o sentimento que nos invade, que, se não é de todas e de todos, acredito ser da maioria.

Alegria, orgulho, satisfação e gratidão habitam nossa alma pela deferência de termos sido escolhidos para fazer parte da prestigiosa Academia de Cultura de Curitiba. Se eu fosse gaúcho, diria que estamos “mais faceiros que piá de bombacha nova”.

Mas há, também, em cada um de nós um confuso sentimento que mescla surpresa e espanto. Paira, sobretudo, uma interrogação que nos incomoda: por que fomos eleitos para integrar uma academia de cultura?

A cultura, até onde sabemos, está por toda parte. Nas artes, no construir, no falar, no pensar, no agir, no ensinar, no governar, no portar-se, no comportar-se… Cultura representa continuidade histórica…

Em busca da resposta para a dúvida que nos aflige, folheei o estatuto da ACCUR que nos foi entregue. Creio tê-la encontrado ao me deparar com nomes como os de Ivo Arzua Pereira, Luís Renato Pedroso e João Darcy Ruggeri. Estou citando apenas os presidentes, mas, claro, poderia ter nominado qualquer um dos seus acadêmicos e acadêmicas. São nomes tão honrados, que fizeram-me relembrar de um episódio, que faço questão de lhes recordar.

Logo após a independência, José Bonifácio de Andrada e Silva era titular da Pasta do Império e seu irmão Martim Francisco, da Pasta da Fazenda. Um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo na cartola, Bonifácio saiu à rua e, por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas. Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola, o dinheiro havia sumido. Retornando ao palácio, contou o sucedido a D. Pedro. O imperador, lamentando a perda, chamou Martim Francisco e mandou que ele sacasse do Tesouro outro pagamento para o irmão descuidado. O ministro da Fazenda se recusou: “Nada disso, o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês, como qualquer outro funcionário. Por isso, peço licença a Vossa Alteza para repartir com ele o meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes”.

Minhas amigas e meus amigos: nesse episódio, poderíamos substituir, sem medo de errar, a figura de Martim Francisco pela de Ivo Arzua Pereira, de Luís Renato Pedroso ou de João Darcy Ruggeri, ou ainda, de qualquer outra acadêmica ou acadêmico da Casa que agora nos acolhe.

Cultura é um bem intangível. É imortal, como imortais são os exemplos de seriedade no trato da coisa pública deixados por mulheres e homens, brasileiros que forjaram esta Nação. As páginas vivas que escreveram deveriam ressoar como ensinamento perene sobre o caráter das pessoas.

Nós, feliz ou infelizmente, somos mortais. Imortal é a Academia de Cultura de Curitiba, é o legado de honradez que pretende transmitir às gerações futuras.

Se foi para contribuir para que ela atinja esse mister que fomos convocados, então nos sentimos imensamente gratificados.

Não sei como o faremos, pois não existe uma fórmula pronta. Só sei que a cultura que tentaremos ajudar a transmitir é aquela fundamentada nos valores da honestidade, da ética, da moralidade e da honradez, bases para uma sociedade que se deseja democrática e de direito, mas que, ultimamente, tem-se revelado, a cada dia, mais injusta.

Que Deus, em sua infinita bondade, nos conceda força, inspiração e sabedoria para, na atual e difícil conjuntura nacional, cumprirmos, cada qual a seu modo e à sua forma, com esse nosso imortal compromisso com os brasileiros de amanhã!

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Santos, seus fortes, fortalezas e suas cartolas

16/11/2012 por bonat

Ao fundar a vila de São Vicente, Martim Afonso daria início à rica história da Baixada Santista, cuja trajetória poderia ser contada pelas fortificações que foram sendo erguidas como parte de um complexo plano de defesa. A primeira foi Santo Amaro, a fortaleza (foto) que, desde 1584, vigia a expansão das comunidades em torno do mais importante porto do país. Com o tempo, várias outras surgiriam, até a inauguração, em 1942, do Forte dos Andradas. Durante a Segunda Guerra, seus canhões cruzariam fogos com os da Fortaleza de Itaipu,para proteger a barra das ameaçadoras belonaves do Eixo.

Um presente que recebi de José Roberto Garcia, um entusiasta de Itaipu, motivou-me a discorrer sobre ela. Na obra Belezas da Fortaleza, com sensibilidade e talento, amantes da fotografia nos revelam detalhes despercebidos por quem não tem o dom de enxergar o belo, mesmo que esteja a centímetros dos seus olhos. Com a pontaria certeira de suas objetivas, eles retrataram a centenária Itaipu, não só sob o aspecto arquitetônico, mas e sobretudo, com uma visão humana e ambiental.

Ao folheá-la, sente-se a presença dos desbravadores, que há mais de um século enfrentaram a densa mata, abrindo caminho para a passagem dos canhões Schneider-Canet de 150 mm. Depois dos pioneiros, vieram milhares de outros, cada qual com sua própria experiência de uma nada fácil vida de soldado. Lembro-me de um, a quem tive o privilégio de conhecer, quando ali servi nos anos de 1974/75: o Capitão Galileu Ramos, ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Recordo-o, já idoso, fazendo questão de cumprir o expediente. Soube que, mais tarde, doente e praticamente cego, continuaria a desfilar nas paradas diárias, à frente da sua banda de música. São pessoas como ele que vêm à mente quando se visita qualquer dos baluartes espalhados pela costa paulista.

Mas a história da Baixada poderia, ainda, ser contada a partir da determinante atuação dos irmãos Andradas no processo da independência e, também, por sua visão de estadistas e sua postura ética em relação à coisa pública.

Há um episódio revelador de sua honestidade. José Bonifácio era titular da Pasta do Império e Martim Francisco, da Fazenda. Um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo na cartola, Bonifácio saiu à rua e, por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas. Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola, o dinheiro havia sumido. Retornando ao palácio, contou o sucedido a D. Pedro. O imperador, lamentando a perda, chamou Martim e mandou que ele sacasse do Tesouro outro pagamento para o irmão descuidado. O ministro da Fazenda se recusou: “Nada disso, o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês, como qualquer outro funcionário. Por isso, peço licença a Vossa Alteza para repartir com ele o meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes”.

Por essa e outras, os Andradas são tão admirados. Por isso mesmo, são evocados em duas unidades que lhes trazem o nome: o Forte dos Andradas, no Guarujá, e o Grupo José Bonifácio, aquartelado na Fortaleza de Itaipu.

Fortificações não se aposentam. Nem morrem. Da mesma forma, são imortais os exemplos dos Andradas e de outros brasileiros, homens e mulheres, que forjaram esta Nação. Eles deveriam ressoar como ensinamento perene sobre o caráter das pessoas. Infelizmente, tudo leva a crer que os atuais responsáveis pela condução dos nossos destinos não leram as páginas vivas que eles escreveram.

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