Artigos de ‘Homenagens’ Category

Obrigado, Curitiba

12/06/2008 por bonat

Se nos reportarmos ao longínquo ano de 1693, encontraremos Mateus Leme precisando de gente para elaborar leis que atendessem às necessidades da população e punissem os arruaceiros que infernizavam a vida das pessoas. Em conseqüência, foi instalada a Câmara Municipal. Com isso, Curitiba passou a ser reconhecida oficialmente como Vila.  Mais de trezentos e quinze anos depois, na Casa que foi responsável pelo nascimento de Curitiba, fui homenageado com o título de Vulto Emérito da minha cidade.

Entre as mais de duzentas pessoas que estavam no Palácio Rio Branco, não preciso dizer quem era o mais feliz. Mesmo que eu tenha sido alvo de muitas homenagens ao longo da vida, nenhuma teve o mesmo sabor desta, que representa o reconhecimento dos meus conterrâneos.

Até meus netos estavam lá, sem entender exatamente o que acontecia. A verdade é que netos enxergam o avô como um velho, no que têm razão. Eles imaginam, aí sem razão, que o avô nunca foi criança.  Claro que já faz tempo, mas já fui um piá. Foi na década de cinqüenta, quando despertou minha vontade de ser soldado.

Atendendo à minha vocação, fui para a Escola de Cadetes. Foi alto o preço que paguei. Deixei para trás uma confortável vida de classe média. Tive que me despedir da Curitiba dos meus pais, avós, parentes e amigos, de uma cidade provinciana, com cerca de trezentos mil habitantes.

Passei sete anos interno e, não fossem as cartas, quase sem contato com minha terra natal. Depois de formado, vivi uma vida de cigano, mudando de endereço a cada dois anos. No final de 2005, chegou o sonhado momento do definitivo regresso, hora de conferir se eram verdadeiros os elogios sobre a nossa capital que sempre ouvi quando estive longe.

Reencontrei Curitiba enfrentando problemas por ter-se tornado metrópole. Mas, ao saber que metade de sua população é de curitibanos por adoção, concluí que ela continua a atrair gente de todo o Brasil e do exterior. Ainda é uma cidade onde é gostoso viver. Eram, portanto, sinceras as palavras que a enalteciam.

Estou ciente de que não sou o mais emérito dos Vultos Eméritos que a Câmara já escolheu. Porém, de todos, sou dos mais orgulhosos desse título. Aquele piá que se tornou soldado é particularmente grato ao vereador Ângelo Batista por ter proposto o seu nome para receber tão comovente homenagem.

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1908 – Brasil e Japão abraçam o mundo

27/03/2008 por bonat

No fim da rua havia um campo de pelada e uma velha casa de madeira. O campinho era de terra. O quintal da casa, ao contrário, era verde, não de grama, mas de pés de alface, tomate e cenoura.

Ao cair da tarde, terminados os deveres da escola, alguns meninos da redondeza se dirigiam ao campo careca. Outros, avessos aos estudos, já os aguardavam. Dava a impressão que moravam ali. Quem nunca aparecia eram os garotos da casa de madeira. Eram muito pobres. O mais velho ajudava na horta e, de madrugada, acompanhava o pai na feira. Os mais novos não desgrudavam dos livros. Era comum a bola cair no meio da plantação. Quando demoravam a devolvê-la, a turminha da pelada entoava: “Japonês da cara chata, come queijo com barata”. Se essa história não fosse de meados dos anos cinqüenta, seria válido imaginar tratar-se apenas de maldade de adolescentes, seres sabidamente preconceituosos.

A Segunda Guerra trouxera muita desconfiança em relação aos imigrantes oriundos dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Por terem sido os últimos a chegar, os japoneses e seus descendentes sofreram mais os seus efeitos, que se estenderiam até o pós-guerra. Muitos refugiaram-se no interior. Passaram a viver quase reclusos, dedicando-se ao trabalho árduo e aos estudos. Foi um período difícil. Com o tempo, a aversão foi esmaecendo. Quando o antiniponismo diminuiu, os sanseis estavam prontos para vencer.

Costuma-se brincar que trinta japoneses inscritos num vestibular representam trinta vagas a menos para os demais candidatos. Isso por que, enquanto alguns dos nossos jovens preferem “morar” num campo de pelada, eles preparam-se para a vida.

Forçados a abandonar seus países por diferentes razões, europeus, africanos e asiáticos vieram aportar no Brasil. Todos enfrentaram desafios, aprenderam uns com os outros, respeitaram a diversidade e uniram-se na adversidade. Deixaram para trás antigas rixas entre suas nações e tornaram-se um só povo. Com os passageiros do Kasato Maru e seus filhos não foi diferente. Hoje os encontramos em diversos setores, integrados à nossa sociedade.

O 18 de junho de 1908 tem um significado mais abrangente do que a chegada dos primeiros isseis – marca o dia em que Brasil e Japão deram-se as mãos e, fraternalmente, abraçaram o mundo. Temos orgulho destes brasileiros.

 

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Parabéns, senhora Maria da Luz

05/11/2006 por bonat

Você conhece Maria da Luz? Muitos responderão “sim, é aquela que, em 1976, quando casou-se com o saudoso Ito Séra, mudou de São Paulo para a Lapa”. Membro atuante da comunidade, ela divide o seu tempo dando aula nos colégios General Carneiro e São José e no Kumon. Ainda auxilia, como ministra da eucaristia, a paróquia de Santo Antônio e cuida da mãe, que mora com ela ali na esquina da rua Barão do Rio Branco com Nossa Senhora do Rocio.
Mas não é dela que vamos falar. É sobre sua mãe, que também se chama Maria da Luz. Por duas razões, ela é menos conhecida. Primeiro, porque mora na Lapa há apenas seis anos. A segunda, porque quase não sai mais de casa. Pudera, ela completa noventa e cinco anos de idade neste 12 de novembro!
Quem a vê agora sequer imagina quanta energia tinha essa lapeana que saiu daqui em 1924 para casar-se com o gaúcho Elpídio Pereira Dias. E não é que o Elpídio era chegado numa “revoluçãozinha”? Participou das de 30 e 32, perambulando pelos sertões paranaenses, naqueles tempos em que nem estrada havia. E dona Maria junto. Viajando em carroça ou no lombo de um cavalo, dormindo em barracas ou debaixo da ponte, sob sol ou chuva, lá estava ela, corajosa, ao lado do marido, para o que desse ou viesse. Nem balas perdidas a amedrontavam. As cidades onde os filhos nasceram dão uma idéia dos caminhos percorridos pelo casal: três em Ortigueira, um em Itapeva e dois em Londrina.
Depois de uma vida de muita aventura, decidiram fixar-se na capital paulista, para poder criar e educar os seis filhos – Antônio, Élida, Vildenei, Idema, Maria da Luz e Luís Carlos. Você acha muito? Pois bem, ainda havia a Zoraide, a Maria, a Helena e o Jorge, todos filhos de criação (e de coração).
Os filhos foram casando, chegaram vinte e seis netos, trinta e cinco bisnetos e quatro tataranetos, atualmente espalhados Brasil afora. Todos gostariam de estar aqui, para vê-la apagar as noventa e cinco velinhas. Mas seria muita emoção. Por conselho médico, virão apenas os que moram em Curitiba. Não fora isso, a parentada toda viria e a Lapa seria invadida por gente de Curitiba, Brasília, Cuiabá, Caxias do Sul, Natal, São Paulo, Londrina e Campinas.
O interessante é que após a morte de Elpídio, reacendeu em dona Maria da Luz o espírito cigano que a fizera acompanhar o marido sertões afora. Apesar de que a idade já estivesse avançando, ela fazia questão de visitar todos os parentes. E ia de ônibus mesmo. Avião era caro. Brinca-se, em família, que ela chegava com suas economias no guichê da rodoviária e pedia: “me dá cem reais de passagem”. Com isso, conseguia passar, ao menos uma vez por ano, alguns dias na casa dos filhos e netos que moravam longe de São Paulo.
Noventa e cinco parabéns, Vó Maria, e noventa e cinco vezes obrigado pelo belo exemplo de vida.

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