Artigos de ‘História’ Category

Quando foi que perdemos a dignidade?

08/09/2017 por bonat

Quando fui publicar o meu segundo livro, pedi ao eminente jornalista Rafael de Lala que fizesse a fineza de prefaciá-lo.
Além de enriquecer aquela minha segunda obra, ele brindou-me e aos meus leitores com o texto que reproduzo abaixo e que relata como o nosso País já contou com dirigentes e políticos honestos, compromissados com o Brasil e com o seu povo.
Lamentavelmente, o fato narrado aconteceu há quase 200 anos, período suficiente para que, aos poucos, os bons exemplos fossem esquecidos e verdadeiras quadrilhas tomassem conta do poder.
A mentira virou norma. Perderam a vergonha e o medo, pois, ao que parece, fizeram leis que os protegem e lhes asseguram sair impunes dos processos nos quais, sabidamente, são culpados.
Veja que belo exemplo nos deixaram os Irmãos Andrada.

“Lá um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo debaixo
da cartola, José Bonifácio saiu à rua.
Por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas.
Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola,
o dinheiro havia sumido.
Ao retornar ao palácio, contou a D. Pedro o sucedido.
O Imperador chamou Martim Francisco e mandou
que este sacasse do Tesouro outro pagamento
para o irmão descuidado.
O Ministro da Fazenda recusou, dizendo: ‘Nada disso,
o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês,
como qualquer outro funcionário.
Por isso, peço a Vossa Alteza para repartir com ele meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes’.”

Publicado em História, Nacional

De Reynaldos e Elíbios

07/08/2017 por bonat

“O senhor conheceu Elíbio Bonat?” Quem me indagava, por terem servido junto, era o senhor Reynaldo Pontarolli (foto), um dos três heróis anônimos da Força Expedicionária Brasileira a quem eu dava uma carona até o quartel-general da 5ª Região Militar, onde eles teriam uma reunião com o General Adhemar da Costa Machado Filho, seu Comandante à época.

Claro que conheci! E, convenhamos, ele nem precisaria ter dito o sobrenome – Bonat – pois foram pouquíssimos os Elíbios que passaram por este planeta Terra. Um deles foi o meu pai. Ele quase seguiu para a Itália também. Mas teve sorte. Quando chegou a vez de o seu contingente embarcar, a guerra terminara.

Segundo alguns tios, era para ele chamar-se Alípio. Entretanto, nos anos 1920, nem mesmo os escrivães eram alfabetizados, razão para ser até aceitável que recém-nascidos tivessem seus nomes adulterados. Se essa era a realidade nas capitais, imaginem nos cartórios localizados em remotos e isolados pedaços do interior de um Brasil preponderantemente rural de então. Pelo nome – Pangaré – localidade onde meu pai foi registrado, não é de estranhar que até o escrivão fosse, na melhor das hipóteses, semialfabetizado.

Há ainda outra versão, que fica por conta do fantasioso folclore familiar. Segundo ele, meu avô, coincidentemente também chamado Reynaldo, para comemorar a chegada de mais um filho, teria bebido além da conta no dia em que foi registrá-lo. Por isso, teria se confundido na hora de declinar o seu nome, trocando Alípio por Elíbio. Trata-se, no entanto, de hipótese pouco provável, pois nunca o vimos e nem soubemos que tivesse ingerido mais do que uma taça de vinho por refeição.

Voltemos ao senhor Pontarolli. Semana passada, tive que dele me socorrer. Meu neto veio pedir ajuda. Recebera, como trabalho escolar no Colégio Marista, onde estuda, a missão de entrevistar alguém sobre a II Guerra Mundial. Não precisava ser um Pracinha, mas, de imediato, lembrei-me do seu Reynaldo. Sabia que, todas as tardes de quarta-feira, ele ainda se reúne com alguns dos seus raros colegas. Na última quarta-feira, gravador em punho, nos mandamos, eu e João Gustavo, para a Legião Paranaense do Expedicionário, onde ele, com seus 96 anos e com toda a boa-vontade e paciência, teve a gentileza de conversar demoradamente com o meu neto, uma criança de apenas doze anos de idade.

Sua memória é invejável. Narrou em detalhes a sua experiência, desde a madrugada de 21 de abril de 1944, quando o navio que o transportaria (e mais de seis mil jovens colegas seus), zarpou do Rio de Janeiro, até o retorno triunfal, em julho de 1945.

O hilário disso tudo é que o trabalho foi passado para a classe do meu neto pelo professor de português, não pelo de história. Os alunos teriam que produzir uma “reportagem” sobre a participação do Brasil na II Grande Guerra, para ser publicada num “jornalzinho” da escola.

Louvável a iniciativa de um educador, que, espero, venha a ser repetida, com ainda mais razão, pelos de história. Afinal, em um país que tem a mania de procurar heróis no estrangeiro, é sempre bom valorizarmos os que temos em nossas cidades, bem ao nosso lado, e que ficam imensamente gratificados quando alguém se mostra interessado em ouvir as histórias que têm para nos contar.

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Velho Regimento

26/04/2015 por bonat

VELHO REGIMENTO
Alexandre Máximo Chaves Amêndola

Prá vocês amigos que me escuitam
Confesso a verdade: estou morrendo
De saudade da Unidade onde labuitam,
A qual não me sai do pensamento…
Prestem atenção no que vou dizendo,
Porque também servi no Velho Regimento!

Meu Velho Regimento legendário,
O que dizer prá tua glória,
Se tu já é mais que centenário,
Uma velha praça tão modesta,
Que sabe somente um pouco da tua história,
E dês que te deixou, pra nada mais presta?

Piazito inda, eu já bombeava,
Meio arisco… meio curioso… cumé que vô dizê…
Quando ele – o Velho Regimento – desfilava.
E garganteava pros otro (sabe como é…)
“Quando eu for grande, vocês hão de vê,
Vou sentá praça no Regimento Mallet!”

Os ano foi passando, chegô o dia!
Me fui à “Junta”, o coração batendo.
“O que qué?”, disse um cara de cutia
Que tava lá sentado bem na frente.
E eu, meio atrapaiado, meio tremendo…
“Eu quero servi voluntário, seu tenente!

“Sabe lê?”
“Não.”
“Sabe escrevê?”
“Também não dá…”
“Não faz mal. Bota ele no 23 de Infantaria.”

“Pé de poeira? Nessa é que não vão me pegá!
Eu quero mesmo sê é de Artilharia!
Risque o meu nome. Não tá mais aqui o Zé.
Ansim eu perfiro disertá.
Ou morro, ou vou servi no Regimento Mallet!”

O home ficou meio abobaiado
Cum aqueles grito e disse prô sargento:
“Pois bota no Velho Regimento esse tarado.
Mas é uma pena. Isso é mau elemento
Que vai contaminá todos os sordado,
Que é tudo gente buena e de talento.”

Então, subiu uns arrepio.
Os meus óio logo se enchero de água.
E larguei pra ele um desafio:
“Pru minha curpa, nem uma só mágoa
O Velho Regimento há de passá.
Eu hei de sê o seu mió sordado,
Aqui i em quarqué lugá!”

Na guerra, na paz, na disciprina,
Não tem outro como o Velho Regimento.
Mi ajude Deus, qui tudo detremina,
Eu inda hei di chegá inté sargento.

Você guarde bem o que lhe digo:
Eu vô sê o inzempro do Velho Regimento!
I vô passa pur aqui, num tem pirigo,
Amuntado num zaino cosquilhado,
Daqueles qui só tem Chefe de Peça.
Eu vô sê o taura do Velho Regimento.
Iscuite bem i não sisqueça dessa.

Sordado, cabo e, dispois, sargento…
Bem cumo eu tinha dito pru tenente.
E, desde que pisei no Velho Regimento,
(disciprinado, inquadrado, arfabetizado…),
Nunca vi taura nenhum na minha frente,
Nem nunca vi o sol nascê quadrado.

Meu velho Regimento, que saudade…
Da tua história assisti um bom pedaço.
Eu só quiria qui arguém, só pur mardade,
Falasse contra ti na minha frente,
Prá eu li cortá a cara com um reinaço.
Falá de ti? Só argum descrente…

Qual o regimento que possui
A glória que tiveste no passado?
O tempo passa e tudo derrui.
Mas como apagá teu heroísmo
Que constitui pra nóis santo legado,
Numa lição de bravura e de civismo?

1835 – Guerra dos Farrapos –
E lá estava, firme, o Velho Regimento,
Ao lado de heróis que se vestiam de trapo.
Dos bravos, dos idealistas, dos valentes.
Era prôs imperiais um escarmento,
Quando trovejava nas canhadas, em repentes.

1851 – Guerra contra Rosas –
E o Velho Regimento em Caseros,
Frenteando tropas inimigas numerosas,
Destruir tudo por completo ameaçava,
Destroçando pelotões, esquadrões inteiros,
Apoiando a Infantaria que avançava.

Bois de Botas, nos chamavam os companheiros,
Em apelido carinhoso, reparando
Que os bois das peças e os artilheiros,
Ao avançar, forcejando nas estradas,
Cada boca de fogo pesada arrastando,
Erguiam as pernas,
Todas em barro carçadas.

De 1865 a 1870 – Guerra do Paraguai –
Lá está ele, o Velho Regimento.
Queda de bravos, que morrem sem um ai!
Os cavalos a relinchar e a nitrir,
Gritos daqueles que perdero o entendimento,
Toques de clarim, chamando a reunir.

Estrupido de cascos: cavalaria inimiga que carrega,
Urros de ameaça e de vitória;
Fumo e fogo, que a todos cega;
Retinido de lanças e de espadas;
Desafio de homens que procuram a glória;
Promessas de morte, com armas apontadas.

E tudo enebrindo, a tudo apequenando,
A voz de trovão do Velho Regimento,
Rugindo a sua fúria, o aço vomitando…
Ribombam as suas peças em saltos e clarões!
Artilharia Revólver, sem perda de um momento,
Detona e carrega de novo os seus canhões.
Eles que venham… Por aqui não entram!

E mais de vinte cargas de cavalaria,
Que pelo dispositivo brasileiro se adentram,
Vão despedaçar-se, gritando em guarani,
Em face daquela artilharia.
Vencemos a Batalha do Tuiuti!

1930 – perseguindo um novo ideal,
O Velho Regimento desloca-se ao combate,
E chega a desfilar até na Capital.
1944 – luta o Brasil na Europa.
O Velho Regimento atende ao rebate
Por seus representantes retirados da tropa.

E agora? Lá está ele vigilante…
Cuidem-se bem os inimigos do Brasil!
O Velho Regimento, altivo e confiante,
Está pronto à desforra da honra maculada.
É velho, mas possui alma juvenil!
Cuidado… ou vão pagar a mula roubada!

E eu, velho sordado, aqui, pronto pra servir.
Prá ele, na hora do fervo, hei de correr,
De novo, voluntário, atendo ao “reunir”,
Prá mostrá aos moços da nova geração
Que um velho sordado ainda sabe morrer,
Se preciso, abraçado ao seu canhão.

Meu Velho Regimento, um último pedido…
O Patrono do Exército fez isso ao expirar,
E quero imitá-lo… tomem bem sentido.
No dia em que a morte me apagá o pensamento,
Quem até o cemitério me há de carregar,
Serão seis soldados velhos do Velho Regimento!

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Adão ainda vive (clique)

14/10/2014 por bonat

Não vou falar do Adão e da Eva, nem de sua maçã. Se alguém inventou essa história, esteja certo de que não fui eu. Ela está nas escrituras sagradas e vale pela mensagem que pretende transmitir. Mas a verdade é que o pecado do primeiro dos homens nos parece insignificante, pois já faz tempo que comer maçãs deixou de ser pecado, muito menos original, mesmo que as frutas pertençam à outra pessoa, como à Eva, por exemplo.

Milênios depois, outro Adão surgiria, o Latorre. A veracidade de sua história está comprovada em fotografias e depoimentos. As imagens em que aparece com sua faca afiada na carótida das vítimas revelam um pecado (ou seria crime?) tremendamente mais grave. Era tempo de Revolução Federalista, também conhecida como revolução das degolas, praticadas cruelmente por ambos os contendores. Enquanto os maragatos (federalistas) contavam com os “serviços” de Latorre, os pica-paus (legalistas) dispunham de Cherengue (ou Xerengue) e seu sempre bem amolado facão. Sei, caro leitor, que lhe dará uma certa coceira no pescoço, mas me permita transcrever o que encontrei no google a respeito.

“Conta a história que numa tarde e noite inteiras, a faca de Adão Latorre não parou um só instante de cortar carótidas. Dos mil prisioneiros encerrados como animais na mangueira de pedra, mais de trezentos foram degolados e castrados. Houve os que foram laçados e arrastados até o chão do sacrifício, ali despidos antes de serem imolados. E dizem os que escaparam, que Adão chamava um a um e mandava-os pronunciar a letra jota. Aquele que, em vez de jota, pronunciava rota, era castelhano e recebia, incontinenti, o aço afiado que lhe abria o talho de orelha a orelha. Adão firmava a ponta da faca bem chairada embaixo do nariz da vítima e quando esta, instintivamente, levava a cabeça para trás, com a perícia de bom conhecedor do ofício, lhe desfechava um rápido e profundo talho no pescoço.”

Antes que você, com toda razão, desista de ler, vou resumir: a Revolução Federalista (1893-1895) foi das mais sangrentas que tivemos. Causou pelo menos 10.000 mortos e incontáveis feridos.

Pensávamos que barbaridades, tão tétricas quanto cabeças decepadas, jamais sairiam do passado. Mas os ditos humanos não têm mesmo jeito. Não é que o barbarismo está de volta? Por sorte, bem longe daqui. Ele agora nos é servido com uma pitada a mais de crueldade: a divulgação pela internet. Os novos Adões, de rosto escondido, espalham-no pelo mundo, de forma a que todos, inclusive os apavorados familiares das vítimas, o presenciem.

Por isso, soou patético o discurso da nossa Presidente na abertura da Assembleia Geral da ONU, pregando um diálogo com tipos com os quais nem mesmo os muçulmanos conseguem conversar. Não deve ter sido redigido por ela mesma, pois sua história de vida e sua personalidade mostram que dialogar nunca foi exatamente o seu forte. É também lógico acreditar não ter sido um diplomata de carreira, pois eles têm uma exata noção das consequências futuras das posições tomadas pelo País. Provavelmente, por ter-se alinhado aos neo-degoladores, seu “ghost writer” (escritor fantasma) deve ter sido alguém que se alimenta do ódio, que espalha ódio e admite o terrorismo como forma contemporânea de “fazer justiça”. Ou, quem sabe, tenha sido escrito pelo próprio fantasma do velho Adão Latorre ou do seu arquirrival Cherengue (ou Xerengue), que aceitavam conversar, desde que antes pudessem dar “um trato na carótida do interlocutor”.

É tanta tragédia, que só nos resta dar vivas e loas ao velho Adão, que, por só gostar de maçã, inspirou John Lenon a pregar “faça amor, não faça guerra”. Lenon acabaria assassinado, e por um fã. Vá entender os humanos!

A esquecida morte de 50 mil vira-latas (clique)

19/08/2014 por bonat

Por que atacar o Brasil, se a disputa era entre Assunção e Buenos Aires, que sufocava a economia paraguaia? Seria esta a pergunta que, se pudesse, eu faria a Francisco Solano López. Vai completar 150 anos que ele mandou aprisionar o vapor Marquês de Olinda e trancafiou sua tripulação e passageiros, entre eles o Presidente da Província de Mato Grosso, que sucumbiriam à fome e aos maus tratos na prisão. Pouco mais tarde, milhares de suas fanatizadas tropas tomariam Forte Coimbra, Dourados, Nioaque, Miranda e Coxim, não sem antes ceifar inúmeras vidas.

López deve ter-se apercebido da nossa fragilidade. Éramos um país dividido. A Corte, centralizadora, e as oligarquias regionais, ávidas por autonomia, olhavam-se com desconfiança. Do Imperador tinham tirado o exército. Fracionaram-no em guardas nacionais, subordinadas aos propósitos da elite escravista. O efetivo terrestre não chegava a 20 mil. López deve ter imaginado que seria presa fácil para os seus 50 mil bravos. Havia, ainda, uma cruel divisão entre homens livres e escravos. Ele confiava na sublevação destes últimos. Não contava, aí o seu erro, com o poder aglutinador e a capacidade de mobilização da Coroa.

Apesar de estarem documentalmente registradas, evidências históricas parecem nada valer para certos autores, que, numa autofagia incompreensível, insistem em atribuir ao Brasil a culpabilidade pela sangrenta guerra que se prolongaria por quase seis anos. Segundo eles, influenciados pelos ingleses, fomos os responsáveis, não só por ela, mas pelo extermínio da população masculina do vizinho país.

Não lembram dos mais de 50 mil brasileiros, a maioria muito jovem, que deixaram suas vidas longe do pedaço de chão onde eram amados. Tratam-nos como vira-latas, termo recorrente em demagógicos discursos de líderes políticos nacionais. O eufemista “complexo de vira-latas”, rotineiramente usado, parece-lhes mais agradável do que afirmar que não somos de nada. A conclusão que se tira disso tudo é que somos realmente vira-latas!

Enquanto nossos irmãos paraguaios enaltecem seus mais de 150 mil mortos, não permitimos que os nossos 50 mil descansem, condenando-os ao fogo eterno. Com sua ideologia, carcomido instrumento de dominação externa, brasileiros tentam impor ideias, que não são deles, mas importadas, baseadas em suposições que mascaram a realidade.

Ainda bem que autores há para desmenti-los. “A Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto, é resultado de séria pesquisa e revela inexistir comprovação da industrialização guarani. Seu consumo interno era ínfimo. Portanto, afirmar que a Inglaterra queria abrir mercado, patrocinando uma guerra, é algo totalmente ilógico. A falta de lógica é reforçada quando Doratioto revela que, quando o conflito começou, o Brasil tinha relações rompidas com a Inglaterra.Ilustração de João Carlos Bonat
(Ilustração de João Carlos Bonat)

Passa longe de mim a intenção de defender os ingleses, os donos do mundo de então. Muito menos pretendo elevá-los ao altar, pois santos eles nunca foram. Que o digam os indígenas da América do Norte, ou as vítimas chinesas da guerra do Ópio. Com o tempo, sua influência foi diminuindo, menos por aqui, onde continuam dando as cartas, num jogo de um perdedor só: o vira-lata. Quem dá as cartas são suas organizações ambientalistas, aquelas que agem contra o progresso em todo o mundo, menos, e estranhamente, na Europa Ocidental. Fez bem o senhor Putin ao dar-lhes um “chega prá lá” quando tentaram invadir uma plataforma de petróleo russa. Fazem bem os chineses ao não admitirem sua intromissão em sua cozinha. Mas no território brasileiro elas têm livre trânsito, contando com a cumplicidade de autoridades do alto escalão e, até, de pretendentes a tal. Quantos brasileiros mais irão morrer no trecho da Serra do Cafezal da Régis Bittencourt? Até quando permaneceremos sem a energia da usina de Belo Monte? Até quando durará a nossa submissão? A resposta é simples: até o dia em que deixarmos de ser vira-latas.

Mas até mesmo guerras geram avanços. Após a do Paraguai, o Brasil passaria por sua maior revolução política e social. Antecipou-se o fim de quase 400 anos de escravidão, mancha com que os lusitanos e seus descendentes marcaram a nossa história. Sentindo que iriam perder a mão de obra gratuita, apressaram-se em incentivar, com falsas promessas, a imigração de europeus. Entre outros, chegaram poloneses, ucranianos, suíços, alemães e italianos, gente que nunca escravizou e que passaria a viver aqui em regime de quase escravidão.

Os que mandavam no pedaço não demoraram em alcunhá-los coxas-brancas, com o subliminar intento de taxá-los como racistas. Uma vez mais, invertia-se a realidade. Por não conseguir entender, acrescento mais um vira-lata nessa história: este guaipeca que vos fala.

ILUSTRAÇÃO: JOÃO CARLOS BONAT

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Gratidão aos valorosos Pracinhas (clique)

08/05/2014 por bonat

Peço licença às autoridades e a todos os convidados para dirigir-me àqueles que, verdadeiramente, nos fazem estar aqui no dia de hoje. Permitam-me falar às pessoas mais importantes presentes nesta cerimônia, a este punhado de bravos, que portam, altivos, suas boinas e suas medalhas, a quem, respeitosa e carinhosamente, chamamos de pracinhas.

Senhores Pracinhas!
Vocês não estão sós. Podemos sentir a presença de mais de 1.500 dos seus colegas paranaenses. Percebemos, ainda, muito mais gente ao seu redor, brasileiros de todos os rincões. Juntos, os senhores somam 25.334 pessoas. Parece que todos os que partiram para a Itália vieram comemorar.

Valorosos Pracinhas!
Somente vocês sabem o frio que passaram, a saudade que choraram e o medo que sentiram. Só vocês, mais ninguém, muito menos aqueles que estavam nas trincheiras opostas, pois era preciso lhes mostrar, a qualquer preço, que não existe raça superior ou inferior.

Só os senhores testemunharam a tragédia que punhos cerrados, sinistros punhos cerrados, haviam espalhado pela Itália, por toda a Europa e por boa parte do mundo.

Só vocês podem avaliar o quanto lhes custou chegar àquele 8 de maio de 1945, dia em que a notícia da vitória espalhou-se, feito nuvem de felicidade, por suas desconfortáveis trincheiras. Vocês acabavam de ajudar a Europa e o mundo a se ver livre de líderes totalitários que, com seu punho cerrado, haviam espalhado destruição e morte.

Só vocês, ninguém mais, experimentaram o sabor daquele momento único, triunfal, inesquecível, de novamente pisar o solo pátrio!

Só vocês, pracinhas paranaenses, vivenciaram a angústia de saber que um conterrâneo, o Sargento Max Wolff Filho, havia tombado. Vocês, mais que os outros, orgulham-se da coragem e da bravura, que levaram-no ao sacrifício supremo, em prol do ideal de liberdade.

Pois saibam que comungamos do mesmo sentimento. Nós e também o Exército, que o homenageou de várias formas, entre elas, denominando Sargento Max Wolff Filho a Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações, e o 20º Batalhão de Infantaria Blindado, o tradicional 20 RI, ou simplesmente o 20, da nossa querida Curitiba.

Os senhores e a sua Legião Paranaense do Expedicionário também manifestam o seu reconhecimento àquele valoroso conterrâneo, concedendo, no Dia da Vitória, a medalha que leva o seu nome.

Neste ano, coube a nós o imenso privilégio de recebê-la. Quero, em nome de todos os agraciados, apresentar-lhes a nossa mais profunda gratidão, aos senhores e à Dra Valderez Archegas Ferreira, que, como Presidente desta Casa, dignifica a memória do seu saudoso pai, o Coronel Pérsio Ferreira, para os senhores, o Tenente Pérsio, admirável líder no teatro de operações italiano.

Esta medalha, afixada junto ao nosso coração, nele ficará eternamente guardada, como eterno é o legado de coragem dos senhores para todas as gerações.

Tê-la recebido diante deste verdadeiro monumento à paz, erguido e mantido com muito carinho e zelo pelos senhores, e cuja suntuosidade espelha a sua importância para nossa cidade e para o nosso país, é motivo de inenarrável emoção.

Esta edificação existirá para sempre, em consagração a 25.334 jovens brasileiros que atravessaram o Atlântico, para, com o seu generoso sangue, assinar o tratado de paz.

Nós os cumprimentamos. Nós lhes agradecemos.
Parabéns! Muito obrigado.

FOTOS: TENENTE RENATA GUERRA, da 5ª Seção do Comando da 5ª DE.

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31 de Março (ou 1º de Abril?) – clique -

19/03/2014 por bonat

Fins de março. Ano, 1964. Sete horas da manhã. À entrada do colégio, um monitor esperava para informar aos alunos que as aulas estavam suspensas. Todos deveriam aguardar em casa até serem avisados sobre o reinício das atividades escolares. Melhor notícia impossível! Adolescentes não gostam de madrugar todo dia para enfrentar maçantes aulas, professores exigentes e cobranças nas provas que definiriam, ao final do ano, quem fora aprovado e quem teria que explicar-se aos pais.

A situação devia ser grave, pois até os professores e monitores haviam sido mobilizados. O que eu e meus colegas guardamos na memória, é que tivemos quase trinta dias de inesperadas férias, tempo disponível para jogar nossas peladas e vagar de bicicleta pelas ruas seguras de uma Curitiba com pouca gente e raros automóveis.

Nossa moleza acabaria na segunda metade de abril. Foi preciso recuperar o tempo perdido, com aulas inclusive aos sábados. Nada se falou à respeito da situação política. O importante era preparar-nos intelectualmente para o futuro. Em quartel, e colégio militar não deixa de sê-lo, até hoje, política e religião não se discute. Podem gerar polêmicas acaloradas, levam à discórdia. Além do mais, como gato escaldado, as Forças Armadas sabiam quantas vidas lhes custara a politização dos quartéis. Só para citar um exemplo, em 1935, centenas de militares haviam sido assassinados por outros militares.

Foi bem esse o ambiente que eu posteriormente vivenciaria por mais de 41 anos de serviço. No quartel, só deveria existir uma religião, um partido e uma ideologia, que atendia pelo nome de Brasil. Sua defesa e, por que não, o seu progresso, representavam um ideal. As Forças Armadas, por serem instituições nacionais, tinham que ser integradas por nacionalistas. Até hoje nos criticam por isso, mas em todo o mundo é assim. Estaria errado se não fosse.

Críticas também sempre houve quanto à presença fardada na política. Historicamente, desde a Independência, ela influenciou e, ao mesmo tempo, foi influenciada pelos políticos. As tentativas de cortar essa relação podem ser sintetizadas pelas mudanças de endereço da escola encarregada de formar os oficiais do exército. Em 1904, a Escola Militar saiu da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, Capital da República, para o então longínquo bairro do Realengo. A experiência não daria resultado, pois o movimento tenentista, iniciado na década de 1920, seria conduzido por ex-cadetes do Realengo. Diga-se de passagem, ele mostrou-se fundamental para a evolução da república e da democracia.

Mais tarde, os próprios chefes militares, sob aplausos acalorados de políticos interesseiros, decidiram afastar ainda mais os cadetes do centro do poder. Assim, em 1944, foi inaugurada a Escola Militar de Resende, atual Academia Militar das Agulhas Negras. Seu currículo voltou-se, essencialmente, para a formação de profissionais das armas. A política, que se deixasse para os políticos. Foi lá, numa das melhores academias militares do mundo, que se moldaram as novas gerações de oficiais, inclusive a minha. Mas, ao que parece, quanto mais essas gerações passaram a dedicar-se somente à defesa da Nação e menos à política partidária, mais foram sendo menosprezadas pelos políticos (dos quais se afastaram) e, sistematicamente, criticadas pela imprensa, que parece não entender-lhes o papel.

Confesso que não pretendia escrever sobre os 50 anos do 31 de março. Muita gente, bem ou mal intencionada, tem-no feito. Só decidi ao deparar-me com o texto de um brilhante articulista, onde se lê: “Março de 1964 marca o início de uma escalada que culminou em 1º de abril e instalou uma ‘sangrenta’ ditadura militar…” Ora, se houve por aqui cerca de trezentas lamentáveis mortes, cabe questionar: ao taxá-la de “sangrenta”, a que país ele estaria se referindo? À França da guilhotina, à União Soviética de Stalin e seus gulags, à China da revolução cultural de Mao, à Cuba do paredón de Fidel, ao Chile ou, quem sabe, à Argentina?

Essas, e muitas outras, são histórias que, por conta do 1º de Abril, ficam escondidas e que as dezenas (sustentadas pelo pobre contribuinte) de comissões da verdade fazem questão de não mostrar. Não resta dúvida de que, até o fim deste mês, haverá um bombardeio de críticas. Muito mais se contará. Mais ainda se esconderá.

Se os jovens adolescentes da década de 1960 pudessem fazer apenas um pedido à classe política, creio que seria no sentido de que, passado o 31 de março, ela assegurasse aos jovens de hoje a mesma paz que tiveram para crescer. Afinal, não seria “sangrento” um país, como o nosso, onde ocorrem mais de 50 mil mortes violentas por ano?

À imprensa, o apelo pessoal do meu deformado nacionalismo seria no sentido de que, cessado o bombardeio, ela aprofundasse mais as informações sobre as ONGs estrangeiras, instrumentos do neocolonialismo a que estamos sendo submetidos e que visa, em última instância, impedir nosso desenvolvimento.

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A vitória final (clique para ler)

05/10/2013 por bonat

Ao me despedir, pedi ao coronel Gurgel uma cópia da sua alocução. Eu precisava escrever alguma coisa sobre a emoção que acabara de sentir, sem, no entanto, correr o risco de falsear dados factuais sobre a vida do General Ítalo Conti.

A cerimônia que presenciara no pátio do 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado poderia ter sido apenas uma solenidade com roteiro previsível e formato rigidamente definido no cerimonial castrense. Porém, não resumiu-se apenas a isso. Um tempero extra acabaria por transformá-la em um acontecimento único e singular, num momento especial, que fundiu presente, passado e futuro.

De um lado, os nonagenários pracinhas recordavam seu glorioso passado. Junto a eles, os familiares do homenageado, cujo semblante não conseguia dissimular o difuso sentimento que mesclava alegria, tristeza, saudade e gratidão, uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de que ele estivesse ali.

Do outro lado, o presente: os jovens soldados que, em forma, rendiam preito ao Major Comandante que, em 1949, transferira o Grupo da central praça Oswaldo Cruz para o longínquo Boqueirão, bairro onde só se chegava a cavalo. Em compensação, a vastidão dos campos mostrava-se ideal para o adestramento das baterias de canhões hipomóveis.

Os 97 anos de Ítalo Conti foram vividos intensamente em vários recantos do Brasil. Como Capitão, esteve no teatro de operações italiano, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Chegou a general, foi eleito deputado federal por quatro legislaturas, batalhou pela construção da Casa do Expedicionário, foi cofundador do Círculo Militar do Paraná, secretário de Estado e, já octogenário, incansável administrador regional da prefeitura do bairro do Portão, onde era o primeiro a chegar e o último a sair. Sua conversa era agradável, atual, cativante e envolvente, de um verdadeiro “general boa-praça”. Tinha memória privilegiada.

Naquela ensolarada manhã, o velho comandante estava retornando. Suas cinzas, como era sua vontade, e os da sua querida Odete, passariam a morar eternamente no quartel. Estavam postos os ingredientes para a emoção tomar conta de todos. Porém, haveria um tempero a mais: a canção do expedicionário, entoada com entusiasmo pela tropa. Se existe algo de arrepiar, ele atende pelo nome de canção do expedicionário. A música de Spartaco Rossi forma um par perfeito com a brilhante letra de Guilherme de Almeida. Almeida, num momento de genialidade, conseguiu abranger todas as regiões brasileiras, pois, de todas, havia soldados na FEB. Ela começa com a pergunta: “Você sabe de onde eu venho?”, para, em seguida, respondê-la com uma abrangente descrição do Brasil preponderantemente rural da década de 1940.

“Venho das selvas, dos cafezais, da boa terra do coco, das praias sedosas, das montanhas alterosas, dos pampas, do seringal… Venho da casa branca da serra, do luar do sertão; venho da minha Maria, cujo nome principia na palma da minha mão… Da Senhora Aparecida e do Senhor do Bonfim!”.

Seu refrão encorajava os pracinhas e acenava-lhes com a esperança do regresso para os braços da família distante: “Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse ‘V’ que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final … a glória do meu Brasil!”.

O Pracinha agora está de volta. Retorna ao seu velho quartel, como um exemplo aos soldados de amanhã. Quando algum deles passar pelo pequeno monumento e, curioso, perguntar quem foi Ítalo Conti, alguém lhe dirá: “Foi, como outros brasileiros, um herói da paz, que atravessou mares e oceanos para lutar pela liberdade. Mas não apenas na Itália. Fez isso por onde passou, durante sua longa e profícua existência”.

ILUSTRAÇÃO: João Carlos Bonat

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Um Turin às avessas (clique para ler)

14/08/2013 por bonat

“Aos 25 dias de janeiro de 1932, nesta cidade de Coritiba, sendo…”. Assim começa o bilhete que João Turin colocou na garrafa que escondeu na base da estátua de Tiradentes. Aberta com toda pompa e o merecido cuidado, ela ocultava o manuscrito do famoso escultor paranaense, informando da existência de outra garrafa, enterrada na posição original da escultura, “… que dista daquela cerca de 35 metros na direção Oeste, contendo uma acta impressa, com diversas assinaturas, autógraphos, a primeira página do jornal O Dia de 21 de Abril de 1927 e algumas moedas de cobre e níquel”.

Semanas atrás, ao retirarem o Tiradentes de Turin para restauro, a tal garrafa foi encontrada. A notícia se espalhou e, durante dias, deu asas à imaginação, desde mesas de bar até redes sociais. Que mistérios ela guardaria? Como a curiosidade é sempre – ou quase sempre – maior do que o próprio segredo, muita gente ficou frustrada quando ele foi revelado.

Frustrações à parte, aos mais atentos a descoberta foi significativa. O manuscrito de Turin chama a atenção pela bela caligrafia do autor. É marca de um tempo em que escrever de próprio punho era importante forma de comunicação. Por isso, as pessoas se esmeravam em fazê-lo de modo elegante, inteligível e, por que não, eterno, muito diferente das gentes de hoje, bem como das nossas palavras, cada vez mais vulgares e efêmeras.

Salto agora para o menos longínquo ano de 1991. Na seção de comunicação social, vivíamos a ebulição do início da semana do centenário da 5ª Região Militar. Um dos meus auxiliares, infelizmente não recordo qual, alertou-me sobre a tradição de se deixar lembranças na base de monumentos. Como estava sendo erguido um obelisco evotivo à relevante data, sugeriu que colocássemos lá uma cápsula do tempo. Quem sabe, dali a milhares de anos, alguém não a encontraria! Mãos à obra: reunimos algumas coisas e, para garantir a necessária inviolabilidade, introduzimos tudo num tubo de PVC e fechamos, herméticamente, com durepoxi.

Tínhamos pressa, pois as fundações estavam em fase adiantada. Terminada a faina, na hora do almoço, antes de ir para o refeitório, nos dirigimos em solene comitiva ao local onde o monumento seria erguido. Porém, o que era para ser um momento triunfal, transformou-se numa decepção muito maior do que a provocada pelo conteúdo da garrafa do Turin: os pedreiros tinham acabado de concretar a base.

Não pretendi aguçar a sua curiosidade. De qualquer forma, decorridos 22 anos, revelo o conteúdo do nosso tubo: a primeira página do jornal A Gazeta do Povo de 30 de junho de 1991, algumas moedas e notas de Cruzeiro (moeda da época), fotografias, cópia da ordem do dia alusiva ao centenário, e uma mensagem, não manuscrita, mas datilografada em moderníssima máquina de escrever elétrica marca Olivetti, repleta de assinaturas, pois, sabedores da notícia, muitos tinham ido à nossa sala para “tornarem-se eternos”. Não lembro exatamente o que deixamos escrito. Entre outras coisas, constava que o comandante era o General Benedito Bezerra Leonel, que a obra tinha sido idealizada por Carlos da Costa e construída pelos Irmãos Mauad.

Nossa cápsula do tempo ainda ficaria guardada durante uns bons anos num dos armários da Quinta Seção. Quando o Exército entrou na era da “excelência gerencial”, alguém deve tê-la considerada inservível. Foi parar na lata do lixo.

Moral da história: nós, como encarregados da comunicação social do quartel-general, simplesmente “esquecemos de comunicar” ao mestre de obras sobre a nossa intenção. O morretense João Zanin Turin, além de grande escultor e de possuir bela caligrafia, foi mais competente. Por isso, tornou-se eterno.

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Zequinha, o da bala (clique para ler)

01/07/2013 por bonat

Lúcio é de pouca conversa. Mas só agora, quase perto da nonagésima velinha, pois, como advogado e professor da Universidade Federal do Paraná, já foi de muito falar. Só não é recomendável criticar o seu Atlético. Aí ele volta à cátedra, como nos bons tempos de fórum ou de mestre.

Em recente visita que fiz a ele e à minha prima Yone, sua esposa há mais de 50 anos, a conversa enveredou para as balas Zequinha, assunto sobre o qual ele tem muito a contar. Não por acaso, pois é filho de João Sobania, o mentor intelectual – e olha que estamos regredindo à década de 1920 – de uma campanha publicitária digna de figurar em estudos de caso para modernos marqueteiros. Como era preciso incrementar as vendas, seu pai teve a ideia de substituir a embalagem das balas, que os irmãos Sobania fabricavam nos galpões da rua Nunes Machado, por figurinhas coloridas de um personagem que atraísse a piazada.

Na verdade, as estampas – com cara simpática de palhaço (provavelmente do Piolin) e sua inseparável gola – eram mais atraentes do que as próprias guloseimas, simples água com açúcar, que embalavam. Quem quisesse produto de melhor qualidade, que pagasse mais pelas finas Wanda, Neli ou Olga, que também fabricavam, assim batizadas em homenagem a filhas dos donos. Mas, neste caso, não levaria para casa o charme do Zequinha e, se fosse seu dia de sorte, uma bicicleta como prêmio.

Lúcio contou que o pai morrera muito jovem, deixando-o órfão aos onze anos. Enquanto ele recordava do tempo em que, ainda criança, operava a máquina de cortar balas, Yone saiu à francesa. Ao voltar, trazia um tesouro, verdadeiro segredo de estado: um álbum completo das famosas figurinhas.

Ao folhear aquela preciosidade com 200 estampas coloridas, percebi o que atraía a gurizada: as diferentes habilidades do versátil Zequinha. Ele era, ao mesmo tempo, fotógrafo, dentista, advogado e pedreiro, visitava locais históricos, gostava de folclore, era bom garfo, educado no trânsito, bom nos esportes, participava da política e de inúmeras outras atividades. Se isso atraía, os ensinamentos que transmitia agradavam ainda mais. Segundo a Yone, uma única figura foi objeto de crítica, pois nela o nosso herói aparecia embriagado, deitado ao lado de uma garrafa de cachaça, o que, convenhamos, não causaria nenhuma estranheza nos tempos atuais. Mas esta não constava do álbum.

É importante frisar que os Sobania não criaram álbum algum. Aquele que eu folheava era do final da década de setenta, muito tempo depois de a empresa ter encerrado (1968) suas atividades. Tinha sido uma tentativa do governo do estado de, valendo-se da fama de Zequinha, aumentar a arrecadação do ICM. Estimulava as crianças a trocarem notas fiscais por figurinhas.

Fato é que o nome Zequinha sempre foi popular. José não tem como fugir: vira Zé, Zeca ou, para os mais íntimos, Zequinha. Até as Marias Josés, na intimidade, tornam-se Zequinhas. Quem não tem um amigo, geralmente gente boa, que atende por Zé? Pois os irmãos Sobania souberam aproveitar de tamanha popularidade. Sua bala, durante cinco décadas, liderou as paradas de sucesso em Curitiba e arredores. Nesse longo período, as figurinhas foram disputadas no jogo do “bafo” e do “tique”, ou, até mesmo, no tapa. Um fenômeno!

Antes de me despedir, comentei que, atualmente, Zequinha teria um concorrente de peso: o Joãozinho. Todo internauta já deve ter recebido alguma história sua. O diferencial é a falta de versatilidade e de educação do novo herói. Seu espaço se limita a uma sala de aula, onde Joãozinho – esperto, malandro e agressivo – não economiza palavrões e atitudes desrespeitosas a colegas e professores.

Em defesa do Zequinha, Yone foi categórica: “Nenhum outro personagem terá o seu encanto. Até porque, ele era real, enquanto os atuais são virtuais. Além do mais, Zequinha nunca diria palavrão diante de uma mulher. Ele ficaria rubro se ouvisse o que sai da boca das meninas de hoje. Mais ainda: Zequinha jamais foi vulgar!”. Concordei, mas, só para provocar, lembrei-a de que o criador do Zequinha foi um João. Será que, lá nos anos 1920, ele já antevia a futura má-fama do Joãozinho? Não esperei pela resposta. Despedi-me e, feliz da vida, voltei p’ra casa, pois acabara de ser presenteado com a figurinha número 31, a do Zequinha no Exército.

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