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No tempo das aeromoças

02/12/2016 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Dobro a curva. Agora consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, dentre tantos, o único merecedor daquela gentileza.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e de sua bagagem. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preze não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não consegue esconder sua inveja.

O avião atinge a altura de cruzeiro. Para demonstrar tranquilidade, finjo que durmo, e acabo pegando no sono de verdade. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada no céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma rampa descendente, em cujo sopé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba indica-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de segui-las… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum os passageiros aplaudirem o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, provavelmente, aplaudiríamos as aeromoças.

À porta do avião, ouço pela derradeira vez aquela voz bem treinada: “Tenha um bom dia”. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito a uma igreja pedir perdão pelos meus pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba me apontará o caminho das aeromoças. Mas, sinceramente, será que elas estarão lá?

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Sobre vaias, lágrimas e cousas (clique)

03/07/2014 por bonat

Há tempo, e bota tempo nisso, no Colégio Militar do Rio de Janeiro, havia uma disciplina de nome estranho: “cousas”. A escolha de quem caberia ministrá-la recaía sobre os decanos do corpo docente, que a acumulavam com as matérias que já ministravam regularmente. Ao pesquisar nos antigos boletins do colégio, descobre-se que as tais “cousas” nada mais eram do que a experiência acumulada ao longo de uma longa vida, que seria transmitida aos jovens alunos pelos professores mais velhos. Assuntos como casamento, economia familiar, poupança, profissões, vícios, importância do estudo, de levantar-se após as quedas, de ser mais do que ter, do respeito devido às pessoas, às crianças, às senhoras, aos mais velhos, do zelo com os bens alheios, fossem públicos ou privados, da ajuda aos mais necessitados, do comportamento em sociedade, dos cuidados com a saúde, enfim, sobre o bem viver. É bem possível que outras escolas, além das militares, adotassem o mesmo procedimento.

Mas para que tratar de um assunto com cheiro de naftalina, de uma figura que, de há muito, deixou de existir? Além do mais, com o tempo, nossa sociedade passou a considerar o velho e seus conselhos dispensáveis. Alguns dirão ainda mais: a maioria deles não consegue, sequer, manusear um “tablet”. E, para reforçar seu argumento, nos lembrarão que as modernas escolas dispõem de equipes multidisciplinares, compostas, entre outros especialistas, por psicólogos e psiquiatras, encarregados de orientar os alunos. Só nos resta concordar, mas apenas parcialmente. Se lhes sobram títulos e diplomas, falta-lhes a experiência, que só a vivência é capaz de proporcionar.

O que me levou ao tema foi o assunto do momento: futebol. Debate-se as razões do choro de alguns badalados jogadores da nossa seleção. Sabe-se da dificuldade de passar pelas peneiras futebolísticas. São milhares de candidatos, a maioria de origem humilde, para pouquíssimas vagas. Os escolhidos têm que dedicar-se integralmente, não sobrando tempo para o estudo. Em torno deles, orbitam empresários e marqueteiros, ávidos por contratos milionários. Para favorecer seus “apadrinhados”, não perdem tempo em atribuir-lhes títulos, como imperador, magnífico, estupendo e outros ainda mais maravilhosos. A repetição é tanta, que o próprio atleta acaba por se enxergar como tal, isto é, ele passa a se considerar um “magnífico”. A partir daí, seu carro tem que ser magnífico, assim como sua casa, suas mulheres, seus brincos, seu penteado, numa ostentação totalmente deslocada da realidade.

Lágrimas são a mais espontânea manifestação do sentimento humano. Suas causas são variadas. Aquelas, após o difícil empate com o Chile, creio terem sido o resultado da constatação de uma realidade: nossos atletas descobriram que não eram assim tão magníficos quanto supunham. Os psicólogos estão tentando encontrar suas razões. A mim parece que foi a ausência do velho professor de cousas.

Das arquibancadas, no mesmo jogo, viria outra constatação de quanto a sua falta nos tem sido prejudicial: as vaias ao hino chileno. Ora, se somos os anfitriões (mesmo se não fôssemos), não caberia tal manifestação de hostilidade aos nossos convidados. Repetiam-se, para comprovar nossa falta de civilidade, os apupos na cerimônia de abertura à presidente da república. Qualquer professor de cousas não os aprovaria, mesmo se a autoridade em questão fosse merecedora. Não era o local nem o momento adequado para aquele tipo de protesto.

O que se espalha por aí, é que a Copa já tem um vencedor: o Japão. Sua torcida, terminados os jogos (acrescente-se que eles não venceram nenhum), preocupava-se em catar o lixo que havia espalhado. Os orientais têm, culturalmente, a tradição de respeitar e ouvir os conselhos dos mais idosos. Quem sabe, sua exemplar atitude não tenha sido aprendida com um velho professor de cousas.

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1950 não se repetirá (clique)

09/06/2014 por bonat

Se é verdadeiro o que circula pela internet, os membros da Famiglia Scolari recebem por mês o que outros mortais passarão a vida inteira sem ao menos chegar perto. E olha que na lista não consta o salário do chefe do clã. Resta aos outros mortais o consolo de que seus salários não saem do seu bolso. Além do mais, é forçoso concordar com o Romário. Deus deve ter colocado a mão sobre suas cabeças e dito: “Esses são os caras”. Dá até para compreender e justificar as ardentes paixões das Marias Chuteiras. Mesmo assim, tomara que sejam campeões e não se repita o Maracanazo, que levou o Brasil às lágrimas.

Correm o mundo notícias de que a Copa será outra vez no Brasil, o que não chega a ser exatamente uma verdade. Heráclito, provavelmente inspirado em antigo provérbio chinês, ensinou que “Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, pois tanto o homem quanto o rio nunca são os mesmos”. O pensamento do filósofo grego (talvez dispensável para se chegar a esta conclusão) deixa claro que o Brasil não sediará “novamente” a Copa do Mundo, pois, passados sessenta e quatro anos, ambos não são os mesmos.

A de 1950 foi a primeira pós-guerra. A insanidade de líderes europeus havia levado ao cancelamento da competição em 1942 e 1946. A FIFA chegava com nobres e sinceras intenções. O futebol, popularíssimo, serviria para reaproximar as nações, principalmente as europeias, que tentavam ressurgir das cinzas de sua brutal autodestruição. A disputa se daria no campo de jogo, menos violenta, sem mortos nem feridos. Bola em lugar de armas.

Agora, 2014, a Copa é um produto gerador de lucros exorbitantes. A atrativa ética do fair play, exigida dentro de campo, mais parece um véu que encoberta a realidade, não tão ética assim, de uma instituição que se tornou bilionária. Não por coincidência, aqui ela acabaria encontrando companheiros e espaço fértil para agir.

O Brasil de 1950 ainda era preponderantemente rural, mas iniciava a sua industrialização e a consequente urbanização. Nossa autoestima estava em alta: éramos miscigenados, ordeiros, desprovidos de preconceitos e estávamos construindo um grande país. Em nosso subconsciente coletivo, a Copa serviria para ensinarmos aos “gringos” como viver em harmonia. Nós éramos os civilizados que estavam acolhendo os bárbaros europeus. Razões de sobra para o Maracanazo nos ter feito chorar.

O Brasil de 2014, ao contrário, é um país dividido, violento e descrente, tal como a Europa pré-guerra. A história agora se repete, porém invertida. Enquanto os europeus se aproximaram e cresceram, nós estamos caminhando na direção oposta, àquela que conduz ao caos. Tudo é motivo para bloquear estradas e avenidas, prejudicando milhares de pessoas. Incendiar, depredar e saquear virou moda. São sinais de incivilidade, que beiram as raias de guerra civil.

Em 1950, a campanha “O petróleo é nosso” tinha no General Felicíssimo Cardoso um dos seus mais ferrenhos defensores. O interessante é que Felicíssimo, conhecido como “general do petróleo”, era tio de Fernando Henrique Cardoso, mais tarde o presidente da república que quase privatizaria a Petrobras. De “O petróleo é nosso”, surgiu e prosperou a estratégica Petrobras, que, apesar de oficialmente continuar estatal, na prática foi privatizada, pois quem a controla é um pequeno grupo para quem o proveito próprio está acima dos interesses maiores do país.

Neste 2014, se houver outro Maracanazo, poucos irão chorar. Tomara que não ocorra, pois forneceria mais combustível aos que se alimentam do ódio e da violência, dos quais já chegamos ao limite. Por isso, esperamos que a Famiglia Scolari faça jus ao seu milionário salário. Além do mais, o impune desmonte da Petrobras já nos tem provocado suficientes lágrimas.

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Das ruas, um susto nos marqueteiros (clique para ler)

23/06/2013 por bonat

A presidente ficou emburrada. Qualquer um ficaria, pois a Copa, alardeada como nossa grande conquista, transformou-se em milhares de vaias no superfaturado Mané Garrincha, praça esportiva que é um luxo só. Ao seu lado, o impoluto Joseph Blatter, tal qual um arauto da moralidade, teve ainda o descaramento de dar um pito nos brasileiros, recomendando fair play, belo slogan sob o qual se camuflam as falcatruas da esperta FIFA, a senhora que está faturando bilhões de dólares, arrancados, por meio de impostos, dos trabalhadores brasileiros.

Agora teremos arenas com cadeiras confortáveis, capazes de acomodar macios bumbuns de primeiro mundo, enquanto, em salas de aula terceiro-mundistas, nossas crianças continuarão condenadas à ignorância, de forma a, no futuro, contentarem-se com variados tipos de bolsas e a considerarem normal conviver com saúde de péssima qualidade, com estradas assassinas e sem segurança pública.

Mas as vaias não se esgotaram no Mané Garrincha. Espraiaram-se do norte ao sul. Os marqueteiros oficiais, que consomem boa parte dos impostos que pagamos, ficaram assustados. O que teria dado errado?

Tudo começou com uma pressão do até então pouco conhecido Movimento Passe Livre (MPL). Segundo seus dirigentes, trata-se de um movimento social que luta por um transporte verdadeiramente público. A ideia pareceu boa ao governo federal. Seria mais uma oportunidade para desgastar o governador de São Paulo, um oposicionista. O MPL paralisaria a maior cidade do país. Provocaria o caos, obrigando a polícia a agir, enquanto a imprensa replicaria, sem cessar, a sua “truculência”. Um problemão para Alckmin. Tudo por causa de 20 centavos. Um plano quase perfeito.

Mas o governo não contava com a adesão de milhões de jovens pelo Brasil afora, até mesmo em estados comandados por seus aliados. Esqueceram-se, o governo e seus marqueteiros, de que a juventude mais intelectualizada do país vinha acompanhando o que acontecia. Sentindo que sua inteligência estava sendo insultada, decidiu ir às ruas. Creio que considerou um acinte o fato de o partido que nos governa comemorar seus dez anos no poder. Ora, se em dez anos não conseguiu resolver os problemas que nos afligem e, ainda, por total falta de austeridade, está trazendo de volta a famigerada inflação, deveria ter sido econômico, coisa que não consegue, nas comemorações. Essa mesma juventude não se deixou enganar pela propaganda, não esqueceu dos vários escândalos de corrupção sem julgamento, muito menos da PEC 37, tentativa de um deputado da situação para aniquilar os poderes investigativos do ministério público sobre os políticos.

Em sua recente fala à nação, nossa mandatária repetiu promessas, velhas de uma década. E, ainda, para resolver o problema do SUS, reiterou sua pretensão de importar médicos, outra bofetada no rosto dos nossos competentes profissionais de saúde.

Talvez esses mesmos jovens que foram para as ruas até simpatizem com o slogan marqueteiro do governo: “País rico é país sem pobreza”. Entretanto, sua opção parece ser outra: “País rico é país sem corrupção”. Ouviu, Mr Blatter?

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Fuleco ou Tolypeutes? (clique aqui para ler)

09/01/2013 por bonat

Um grande amigo, Joaquim Correa Santos Rocha, Coronel que prestou relevantes serviços aos gaúchos como oficial do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar, sugeriu que eu escrevesse sobre o túnel de Santa Fé. Corri para o Google. Não podia revelar minha ignorância, faceta que procuro esconder dos amigos.

Porém, caro leitor, se você concordar, vou manter o suspense sobre o que descobri naquele site de busca até o final desta crônica. Antes, prefiro dar uma de Rolando Lero, falando sobre os pensamentos que a palavra túnel fez aflorar no meu cérebro, numa verdadeira tempestade mental ou, se preferir, brainstorm.

Não foi exatamente nesta ordem, mas vamos lá: túnel lembrou tatu, que lembrou copa do mundo, dinheiro público, multidões, praias lotadas e, por fim, me fez cantarolar o Samba do Arnesto.

Que túnel nos remete a tatu é óbvio. Porém, tatu nos lembrar da Copa do Mundo no Brasil merece alguma explicação. É que o tatu-bola foi escolhido como seu mascote. As razões são louváveis: trata-se de um animal ameaçado de extinção, que passará a ser mais conhecido, aumentando, assim, suas chances de sobrevivência.

Apesar disso, creio que ele não deve ter gostado do nome que lhe deram. Após votação popular, batizaram-no de Fuleco. Se esse foi o vencedor, dá para ter uma noção do horror que eram seus concorrentes. Imagine, a partir de agora, o porco-espinho zoando do pobre tatu-bola: “E aí, Fuleco, como vai aquela fuleca da tua irmã?” Se soubesse disso, ele teria pedido para que o chamassem de Tolypeutes Tricinctus, como fazem os cientistas. Apesar de igualmente feio, ao menos, não seria vulgar.

Mas o futebol me arremessou no meio de uma multidão, como as que lotam os estádios e, todo final de ano, as nossas praias. Só de assistir pela tevê, dá medo. Por isso, durante o verão, permaneço numa altitude segura, bem acima de zero. Creio que sofro de agorafobia (do grego ágora – assembleia, multidão; e phobos – temor), medo de estar no meio da multidão. Nesse ponto, eu e o tatu-bola nos identificamos, pois ele padece do mesmo mal. Minha aversão é tanta, que vou a Santos, uma cidade que adoro, somente na baixa temporada. Na última vez que estive lá, fiquei impressionado com a gigantesca fila para a balsa que a liga ao Guarujá. E nem tinha chegado o verão!

A fila da balsa empurrou-me para o interior de um túnel eternamente prometido, mas sempre esquecido. O argumento de que não há dinheiro para construí-lo jogou-me de volta à Copa do Mundo e a tanto recurso público sendo usado para construir e reformar estádios, alguns particulares, futuros elefantes brancos.

Termina aqui o meu lero-lero. Vou, finalmente, atender ao pedido do amigo Rocha. O túnel de Santa Fé foi construído, ainda na década de sessenta, para ligar as cidades de Santa Fé e Paraná, localizadas na Mesopotâmia Argentina. Ele passa sob o rio Paraná e sua extensão é de mais de três quilômetros.

Só para concluir: por que, até hoje, o Estado de São Paulo, muito mais pujante do que a Mesopotâmia, ainda não construiu um túnel para ligar Santos à Guarujá, num trecho de poucas centenas de metros, onde, diariamente, penam milhares de pessoas e veículos? Se a justificativa for falta de dinheiro, que me perdoe o Fuleco da Copa, mas só mesmo parodiando o eterno Adoniran Barbosa: “ Nóis num semo tatu!”

FIFA, ponha-se na rua!

24/03/2012 por bonat

PR, iniciais de Príncipe Regente, marcava a porta de muitas casas do Rio de Janeiro de 1808. Era a forma nada sutil de comunicar ao morador que sua residência não era mais sua e sim dos “valentes” que acabavam de chegar, os mesmos que semanas antes, em Lisboa, se apinhavam no cais do porto para conseguir uma vaguinha nos navios que tinham por destino a colônia. Escaparam, assim, da fúria de Napoleão, cujas tropas já estavam a caminho. Fugiram e deixaram seus súditos abandonados à própria sorte. Covardes em relação ao corso francês, mostravam-se, agora em solo brasileiro, corajosos contra os cariocas. Estes, com sua habitual perspicácia, traduziram aquelas iniciais para “Ponha-se na Rua”. Mesmo sem se conformar, tiveram que abandonar os seus lares.

O Brasil beneficiou-se por ter sido escolhido como local de homizio. Viramos sede do Reino Unido. Nossos portos foram abertos à navegação internacional, traduza-se para a Inglaterra, a senhora dos mares. Mais tarde, sob o risco de perder a Coroa Portuguesa, D. João, acompanhado por aqueles que lhe beijavam a mão, viu-se obrigado a retornar. Voltou levando ouro e deixando aqui o seu filho, que se tornaria o nosso primeiro imperador. O preço que habilmente nos cobraram pela independência foi a enorme dívida que a família real tinha com os ingleses.

Como são coisas do passado, imaginou-se que jamais voltariam a acontecer. Mas não é que, mais de 200 anos depois, a história está se repetindo aqui em Curitiba? Onze imóveis nos arredores de um estádio de futebol tiveram seus muros pichados, não com um PR, mas com um símbolo digno dos piores grafiteiros, para informar aos seus moradores, alguns há décadas, que têm que sair. Segundo um deles, “Será tudo desapropriado, por bem ou por mal. A prefeitura está irredutível. A quantia a ser paga é menor do que vale o imóvel”.

Simultaneamente, a imprensa tem noticiado que, em reunião de 2010 do conselho deliberativo do clube que receberá dinheiro do BNDES para ampliar sua arena, um então vereador e hoje secretário de estado já afirmava que não será necessário pagar o empréstimo. O que ocorre em Curitiba provavelmente esteja acontecendo em outras paróquias. Logo, todos os paroquianos gostariam de ser consultados se concordam com esse tipo de calote, se o prioritário é usar dinheiro público para construir estádios particulares, ou se hospitais, escolas, estradas ou segurança pública não seriam mais necessários.

Lá em Brasília, o presidente da FIFA foi recebido cordialmente pela nossa mandatária. Ele é exigente: quer, inclusive, que mudemos algumas leis. O Congresso já lavou as mãos ao não se posicionar quanto ao consumo de cerveja nos estádios. Passou a bola para os estados. Quem teria a obrigação de defender nossa soberania, o governo federal e o congresso, curva-se à vontade da poderosa FIFA. Normalmente tão valentes para rabiscar muros de lares curitibanos, nossos dirigentes se submetem aos que comandam o futebol mundial.

Como última esperança, restaria o Judiciário. Mas sua lentidão faz crer que só decidiria depois de 2014. Aí, a “família real” já terá retornado, levando nosso dinheiro e deixando, mais uma vez, a conta para os brasileiros pagarem.

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Saturation

23/06/2010 por bonat

Faturation, faturation… Era meu neto de cinco anos cantando, enquanto eu o levava para a escola. Nossos marqueteiros são realmente geniais. Souberam aproveitar o clima de copa do mundo e tornaram o rebolation dos garotos do Santos num bem-bolado jingle. Por não ter a genialidade dos marqueteiros, limito-me a transformar seu jingle. Saturation, saturation… Vivemos uma enxurrada de futebol. Um mês antes da Copa já éramos submetidos a uma lavagem cerebral. Estamos saturados. Os estrategistas da comunicação precisam entender que exageraram na dose.

Até parece que todos os problemas acabaram, que foi descoberta a cura para o câncer, que não há mais políticos corruptos, que não foram graves as recentes tragédias em Pernambuco e Alagoas. Devemos nos preocupar apenas com a qualidade da Jabulani, com as vuvuzelas e com o apartheid. O resto, num passe de mágica, foi parar na cartola dos cartolas.

No país da Copa, há batalhões de repórteres, com efetivos maiores do que a também numerosa comitiva da seleção, que, além dos jogadores e da comissão técnica, inclui dirigentes e seus apadrinhados. O elevado custo da cobertura jornalística é bancado por grandes empresas. Logo, os profissionais que lá estão têm que mostrar serviço. Na guerra pela audiência, acreditam que tudo é válido. Cassam os pobres(?) jogadores por todos os cantos. Qualquer declaração é transformada numa bomba, cujo alvo somos nós, pobres (agora sem interrogação) cidadãos, submetidos a incessante bombardeio.

Recordemos do que aconteceu na Alemanha. Nossos atletas eram mostrados sambando no ônibus que os levava aos estádios. A felicidade era a de quem comemorava uma conquista antecipada. Um oba-oba frente às câmeras, sob a aquiescência de Parreira e seus asseclas, que confundiam carnaval com futebol. Tudo ia bem, até o gol de Henry. Vive La France! Adeus carnaval. Adeus Copa.

O desastre de 2006 levou a CBF a uma decisão radical. Desde cedo, Dunga vem recebendo críticas, que persistem apesar da sequência de vitórias. Vacinado, ele tem procurado preservar os jogadores do assédio dos que terão que prestar contas aos patrocinadores. Do recente entrevero com um repórter, resultou, pelo menos na internet, um maciço apoio a Dunga. Chegaram até ao exagero de sugerir que se erguesse uma estátua em sua homenagem.

Passamos do ponto de saturação futebolística. Só falta os mais jovens estarem pensando que vuvuzela seja uma novidade e, como tal, que seu terrível ruído volte aos nossos estádios para saturar nossos ouvidos. Parafraseando o sábio filósofo e comentarista Neto: “É brrrincadeirrra”!

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O urubu bebum

28/01/2010 por bonat

Apesar do título, esta crônica não falará do Mengão, hexacampeão para sua torcida e penta para os fanáticos pelo Sport. Se as sedes da CBF e da Rede Globo fossem no Recife, muita gente daria razão aos pernambucanos. Mas não são.

Trata-se de uma discussão interminável que, desde a tragédia de 6 de dezembro no Alto da Glória, tornou-se banal para mim. Tragédia anunciada, diga-se de passagem, pois a Globo já convencera o Brasil inteiro que o Flu não merecia cair.

Mesmo assim, não há como perdoar a incompetência Coxa-Branca, que deixou para definir sua vida na última rodada, e logo contra um carioca. A sensação de cartas marcadas levou à revolta. Todos sabiam o que iria acontecer. Todos, menos os responsáveis pela segurança. Ao posicionarem quase todo o seu efetivo do lado externo do estádio, deixando pouco mais de uma dezena de policiais dentro do campo, eles desprezaram uma ameaça que era gritante. Bastariam seis PMs com meia dúzia de cães junto ao fosso, e nenhum marginal que se escondia no anonimato das torcidas organizadas se atreveria a atravessá-lo. Em consequência, hoje (e por enquanto), futebol é para mim coisa fútil de um passado tristonho.

Quero mesmo é falar do urubu bebum. Parece história de pescador, mas me garantiram que é verdadeira. Quem quiser conferir, basta visitar Antonina, cidade litorânea do Paraná que já teve importante porto, mas hoje se limita a nos oferecer boas pousadas, pratos típicos e acolhedores habitantes que vivem do artesanato e da pesca. Diversão mesmo, eles só têm por ocasião do Carnaval (tido como o mais animado do Estado), das festas folclóricas, como a de Nossa Senhora do Pilar, ou quando, em julho, a Universidade Federal do Paraná promove o festival de inverno de arte e cultura.

Fora isso, os moradores têm que inventar algo para se entreter. Dizem que foi o que alguns fizeram. Num momento de ócio, enquanto bebiam sua cachacinha, decidiram que um urubu deveria se juntar a eles. Não sei como conseguiram mas, se você for lá, é provável que encontre a pobre ave, com ares de pescador, passeando bêbada próximo ao mercado municipal.

Essa desumana agressão faz-me recordar de algo que pagaria para esquecer: uma ave agourenta levou a desgraça ao Alto da Glória. Certamente não foi o urubu antoninense. Este, desde que passou a beber, deixou de voar e, logicamente, de pousar na sorte alheia.

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A elegante senhora “y” está de volta

27/06/2008 por bonat

 

Recordo-me da Copa da França, quando uma repórter, guindada a esta condição graças a sua beleza, quando fazia a cobertura da comemoração da torcida dona da casa, assim se expressou: “Estamos na Place de La Concordê”. E, confirmando em rede nacional o seu despreparo, errou outras vezes ao tentar dizer Place de La Concorde. Se não fosse bela e namorada de uma celebridade, teria sido sua última aparição. Foi perdoada pelos chefões da emissora. Chacrinha já sabia que mulher bonita dá audiência. Além do mais, tratava-se de outro idioma. Moça bonita não é obrigada a estudar francês. Mas, convenhamos, “Place de La Concordê é dosê”.

Jogador de futebol, ao contrário, não precisa ser bonito. Também não precisa saber falar. Tem somente que jogar bem. Já reparou que eles têm certeza de tudo? A qualquer questão, respondem: “com certeza”. Depois desta afirmação, pronunciam uma série de frases que não guardam relação alguma com a pergunta formulada. Nossos ouvidos sofrem mesmo é quando alguns, ao se aposentar, tornam-se comentaristas.

Como eles, muitos brasileiros não dominam a expressão oral e, logicamente, a escrita. A estes não preocupam as alterações que vêm por aí. Nem adiantaria tentar-lhes explicar que vôo passará a ser voo; anti-semita, antissemita; contra-regra, contrarregra, vêem, veem; jibóia, jiboia. Se já não sabiam como era, não lhes interessa como passará a ser.

Mas quem vive da escrita, do discurso ou simplesmente considera a correta comunicação um sinal de consideração para com as demais pessoas, precisa se atualizar.

As alterações não são muitas. Retornam “y”, “w” e “k”, aumentando para vinte e seis as letras do nosso alfabeto. Delas, a mais bem-vinda é o “y”. Ela dá um toque de classe às palavras. Ubiracy é mais elegante que Ubiraci; Paraty, que Parati; Tibagy, que Tibagi. São vocábulos do velho Guarany, idioma que permanece vivo por ter batizado vários estados, cidades e acidentes geográficos do País.

Se você não é presidente de nada, nem de time de botão, não é uma celebridade, se for um perna-de-pau ou simplesmente considera falta de polidez comunicar-se com incorreção, trate logo de se informar. Se precisar de motivação, lembre-se da elegante senhora “y”, a mais charmosa de todas as letras. Seu aprendizado, “com certeza”, será mais prazeroso.

Pan – a vingança do Almirante

16/07/2007 por bonat

Piadas sobre governantes são imperdíveis. Veja a última que ouvi sobre o atual mandatário, ironizando sua vocação para viajante e sua aptidão para comparar-se ao Criador: “Lula e Deus são semelhantes. Só há uma diferença. Deus está em todos os lugares; nosso presidente já esteve”.
Algumas viagens presidenciais tornam-se inesquecíveis. A recente, ao Rio de Janeiro, para a abertura dos Jogos Pan-americanos, será uma delas. Não apenas pelo belo espetáculo proporcionado pelos organizadores e por milhares de voluntários, mas principalmente pelas vaias.
As vítimas foram as delegações dos Estados Unidos de Bush, pela guerra do Iraque; da Venezuela de Chávez, pela ameaça à democracia; da Bolívia de Evo, pela garfada que deu na Petrobrás; e da Argentina de…. Bem, da Argentina, pelo futebol. Até aí, tudo mais ou menos dentro do script, apesar de ser falta de educação ofender alguém que se convida para ir à nossa casa.
A surpresa ficou por conta do apupo antipresidencial, a ponto de sua excelência não poder cumprir o protocolo, declarando abertos os jogos. Vaiar era tudo que não caberia na cerimônia. Não era o momento. O silêncio teria sido mais apropriado. Entretanto, já é fato consumado.
Cabe aos ideólogos do partido da situação fazer as conseqüentes ilações. Pelo visto, está desfeito o mito de honestidade com que seus integrantes se apresentavam antes de chegar ao poder e está se esgotando a paciência e a complacência dos brasileiros com tantas notícias de corrupção.
Parece que os atuais governantes estão colhendo o que plantaram. As vaias do Maracanã nos remetem ao tempo em que, na oposição, eles eram verdadeiros estraga-festas. Recordo das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, quando se uniram a índios, sem-terra e sindicalistas para bloquear a BR 367, entre Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Ante a real ameaça de agressão física, muitos convidados nacionais e estrangeiros deixaram de comparecer à cerimônia que relembraria a chegada das naus cabralinas. As reivindicações poderiam até ser justas. O momento é que não era adequado.
De qualquer forma, os manifestantes conseguiram o que queriam – lotaram as páginas dos jornais. Pedro Álvares Cabral quase virou nota de rodapé. Para vingar-se, é possível que o almirante lusitano tenha voltado no último dia treze para insuflar o Maracanã lotado.
O Maraca não é bobo. É apenas malcriado. Dizem que apupa até minuto de silêncio. Se bobear, inclusive Deus é vaiado. Se fosse educado, teria aplaudido os não-remunerados voluntários que ajudaram a fazer um grande espetáculo. Aí, talvez, algumas das nossas autoridades se mancassem.

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