Artigos de ‘Esportes’ Category

A elegante senhora “y” está de volta

27/06/2008 por bonat

Recordo-me da Copa da França, quando uma repórter, guindada a esta condição graças a sua beleza, cobrindo a comemoração da torcida dona da casa, assim se expressou: “Estamos na Place de La Concordê”. E, confirmando em rede nacional o seu despreparo, errou outras vezes ao tentar dizer Place de La Concorde. Se não fosse bela e namorada de uma celebridade, teria sido sua última aparição. Foi perdoada pelos chefões da emissora. Chacrinha já sabia que mulher bonita dá audiência. Além do mais, tratava-se de outro idioma. Moça bonita não é obrigada a estudar francês. Mas, convenhamos, “Place de La Concordê é dosê”.

Jogador de futebol, ao contrário, não precisa ser bonito. Também não precisa saber falar. Tem somente que jogar bem. Já reparou que eles têm certeza de tudo? A qualquer questão, respondem: “com certeza”. Depois desta afirmação, pronunciam uma série de frases que não guardam relação alguma com a pergunta formulada. Nossos ouvidos sofrem mesmo é quando alguns, ao se aposentar, tornam-se comentaristas.

Como eles, muitos brasileiros não dominam a expressão oral e, logicamente, a escrita. A estes não preocupam as alterações que vêm por aí. Nem adiantaria tentar-lhes explicar que vôo passará a ser voo; anti-semita, antissemita; contra-regra, contrarregra, vêem, veem; jibóia, jiboia; e que não haverá mais viúvas, somente viuvas. Se já não sabiam como era, não lhes interessa como passará a ser.

Entretanto, quem vive da escrita, do discurso ou simplesmente considera a correta comunicação um sinal de consideração para com as demais pessoas, precisa se atualizar.

As alterações não são muitas. Retornam “y”, “w” e “k”, aumentando para vinte e seis as letras do nosso alfabeto. Delas, a mais bem-vinda é o “y”. Ele dá um toque de classe às palavras. Ubiracy é mais elegante que Ubiraci; Paraty, que Parati; Tibagy, que Tibagi. São vocábulos do velho Guarany, idioma que permaneceu vivo ao batizar vários estados, cidades e acidentes geográficos do País.

Se você não é presidente de nada, nem de time de botão, não é uma celebridade, se for um perna-de-pau ou simplesmente considera falta de polidez comunicar-se com incorreção, trate logo de se informar. Se precisar de motivação, lembre-se da elegante senhora “y”, a mais charmosa de todas as letras. Seu aprendizado, “com certeza”, será mais prazeroso.

 

 

 

 

 

 

Pan - a vingança do Almirante

16/07/2007 por bonat

Piadas sobre governantes são imperdíveis. Veja a última que ouvi sobre o atual mandatário, ironizando sua vocação para viajante e  sua aptidão para comparar-se ao Criador:  “Lula e Deus são semelhantes. Só há uma  diferença. Deus está em todos os lugares; nosso presidente já esteve”.

Algumas viagens presidenciais tornam-se inesquecíveis. A recente, ao Rio de Janeiro, para a abertura dos Jogos Pan-americanos, será uma delas. Não apenas pelo belo espetáculo proporcionado pelos organizadores e por milhares de voluntários, mas principalmente pelas vaias.

As vítimas foram as delegações dos Estados Unidos de Bush, pela guerra do Iraque; da Venezuela de Chávez, pela ameaça à democracia; da Bolívia de Evo, pela garfada que deu na Petrobrás; e da Argentina de…. Bem, da Argentina, pelo futebol. Até aí, tudo mais ou menos dentro do script, apesar de ser falta de educação  ofender alguém que se convida para ir à nossa casa.

A surpresa ficou por conta do apupo antipresidencial, a ponto de sua excelência não poder cumprir o protocolo, declarando abertos os jogos. Vaiar era tudo que não caberia na cerimônia. Não era o momento. O silêncio teria sido mais apropriado. Entretanto, já é fato consumado.

Cabe aos ideólogos do partido da situação fazer as conseqüentes ilações. Pelo visto, está desfeito o mito de honestidade com  que  seus  integrantes  se apresentavam antes de chegar ao poder e está se esgotando a paciência e a complacência dos brasileiros com tantas notícias de corrupção.

Parece que os atuais governantes estão colhendo o que plantaram. As vaias do Maracanã nos remetem ao tempo em que, na oposição, eles eram verdadeiros estraga-festas.  Recordo das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, quando se uniram a índios,  sem-terra e sindicalistas  para bloquear a BR 367, entre Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Ante a real ameaça de agressão física, muitos convidados nacionais e estrangeiros deixaram de comparecer à cerimônia que relembraria a chegada das naus cabralinas. As reivindicações poderiam até ser justas. O momento é que não era adequado.  

De qualquer forma, os manifestantes conseguiram o que queriam – lotaram as páginas dos jornais. Pedro Álvares Cabral quase virou nota de rodapé. Para vingar-se, é possível que o almirante lusitano tenha voltado no último dia treze para insuflar o Maracanã lotado.

O Maraca não é bobo. É apenas malcriado. Dizem que apupa até minuto de silêncio. Se bobear, inclusive Deus é vaiado. Se fosse educado, teria aplaudido os não-remunerados voluntários que ajudaram a fazer um grande espetáculo. Aí, talvez, algumas das nossas autoridades se mancassem.

 

 

 

Publicado em Esportes, Nacional, Política

Triângulo mágico na seleção

26/05/2006 por bonat

Não sei quem a teve. Mas não foi feliz a idéia do quadrado mágico. Quadrado lembra uma figura rígida. Impõe lados todos iguais e ângulos inflexivelmente retos, imexíveis, no dizer de um ex-ministro. Quatro lados com o mesmo peso, idade e habilidade, o que certamente não ocorre quando eles são seres humanos, sabidamente diferentes.

Porém, a magia do quadrado foi a de ter-nos feito tirar a bandeira do armário e pendurá-la na janela, coisa inimaginável em outras ocasiões. Ele uniu os brasileiros. Pobres e ricos, gordos e magros, governo e oposição, bêbados e sóbrios, velhos e moços, sogras e genros, todos vestiram com orgulho o verde-amarelo.

Pudera! Pertencemos ao G-7 do futebol. Somos potência. Todos nos invejam e, ao mesmo tempo, querem nos derrotar. Por isso nos enrolamos na mesma bandeira, símbolo que tem o poder de nos unir, pois nela estamos todos representados, os de Copacabana e os dos grotões.

Não a desfraldamos em outros momentos, preocupados com o que iriam pensar os vizinhos, parentes e amigos. Tememos não estar agindo de forma politicamente correta. Afinal, expor nosso amor ao Brasil nos submete a essa nova forma de censura que impera nos dias de hoje.

O brasileiro é frustrado por não pertencer a um país de primeiro mundo. Frustram-no também os desmandos dos políticos que, salvo raras exceções, governam pensando em si próprios e no pequeno grupo que os cerca. Daí, termos nosso espírito patriótico adormecido. A Copa do Mundo representa a oportunidade  para  acordar   esse sentimento.

Há, porém, outra frustração, que  atinge sobretudo os homens brasileiros – a de não ser um jogador de futebol. Afinal, antes mesmo de nascermos, nossos pais já decidiram para que time iremos torcer. Quando chegamos ao mundo, nosso primeiro presente é uma camisa de futebol. Em seguida, ganhamos uma bola. E todos sonham em ver-nos fazendo lindas jogadas e belos gols. Primeiro, no clube. Depois, na seleção. Normalmente, a decepção não tarda a chegar. Nas primeiras peladas, sentimos que a redonda não é tão fácil assim de ser dominada. Para nossa tristeza e de nossos pais, estes se vêem obrigados a nos convencer de que é melhor estudar do que continuar insistindo.

Na Copa, nos incorporamos nos Ronaldos e Robinhos. Enxergamo-nos recebendo vultosos salários, dirigindo carrões, vivendo em castelos, hospedando-nos em hotéis cinco estrelas, freqüentando finos restaurantes e sendo perseguidos por belas mulheres. Descobrimos também que até mesmo alguns políticos, que sobrevivem dando gorjetas aos miseráveis, nos perdoam pelo crime de, pelos nossos méritos, termos ficado rico.

Depois do fracasso do quadrado e apesar de ainda não saber quem será o técnico da seleção em 2026, deixo-lhe a sugestão para escalar um triângulo mágico formado por João Gustavo, Guilherme e Rafael - meus netos. Embora de tenra idade, já ganharam a amarelinha, uma bola e estão treinando com afinco. Se der certo e viver ate lá, este avô, que nas peladas foi um esforçado lateral direito, deixará de ser um boleiro frustrado.

 

 

 

Publicado em Esportes