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Sobre vaias, lágrimas e cousas (clique)

03/07/2014 por bonat

Há tempo, e bota tempo nisso, no Colégio Militar do Rio de Janeiro, havia uma disciplina de nome estranho: “cousas”. A escolha de quem caberia ministrá-la recaía sobre os decanos do corpo docente, que a acumulavam com as matérias que já ministravam regularmente. Ao pesquisar nos antigos boletins do colégio, descobre-se que as tais “cousas” nada mais eram do que a experiência acumulada ao longo de uma longa vida, que seria transmitida aos jovens alunos pelos professores mais velhos. Assuntos como casamento, economia familiar, poupança, profissões, vícios, importância do estudo, de levantar-se após as quedas, de ser mais do que ter, do respeito devido às pessoas, às crianças, às senhoras, aos mais velhos, do zelo com os bens alheios, fossem públicos ou privados, da ajuda aos mais necessitados, do comportamento em sociedade, dos cuidados com a saúde, enfim, sobre o bem viver. É bem possível que outras escolas, além das militares, adotassem o mesmo procedimento.

Mas para que tratar de um assunto com cheiro de naftalina, de uma figura que, de há muito, deixou de existir? Além do mais, com o tempo, nossa sociedade passou a considerar o velho e seus conselhos dispensáveis. Alguns dirão ainda mais: a maioria deles não consegue, sequer, manusear um “tablet”. E, para reforçar seu argumento, nos lembrarão que as modernas escolas dispõem de equipes multidisciplinares, compostas, entre outros especialistas, por psicólogos e psiquiatras, encarregados de orientar os alunos. Só nos resta concordar, mas apenas parcialmente. Se lhes sobram títulos e diplomas, falta-lhes a experiência, que só a vivência é capaz de proporcionar.

O que me levou ao tema foi o assunto do momento: futebol. Debate-se as razões do choro de alguns badalados jogadores da nossa seleção. Sabe-se da dificuldade de passar pelas peneiras futebolísticas. São milhares de candidatos, a maioria de origem humilde, para pouquíssimas vagas. Os escolhidos têm que dedicar-se integralmente, não sobrando tempo para o estudo. Em torno deles, orbitam empresários e marqueteiros, ávidos por contratos milionários. Para favorecer seus “apadrinhados”, não perdem tempo em atribuir-lhes títulos, como imperador, magnífico, estupendo e outros ainda mais maravilhosos. A repetição é tanta, que o próprio atleta acaba por se enxergar como tal, isto é, ele passa a se considerar um “magnífico”. A partir daí, seu carro tem que ser magnífico, assim como sua casa, suas mulheres, seus brincos, seu penteado, numa ostentação totalmente deslocada da realidade.

Lágrimas são a mais espontânea manifestação do sentimento humano. Suas causas são variadas. Aquelas, após o difícil empate com o Chile, creio terem sido o resultado da constatação de uma realidade: nossos atletas descobriram que não eram assim tão magníficos quanto supunham. Os psicólogos estão tentando encontrar suas razões. A mim parece que foi a ausência do velho professor de cousas.

Das arquibancadas, no mesmo jogo, viria outra constatação de quanto a sua falta nos tem sido prejudicial: as vaias ao hino chileno. Ora, se somos os anfitriões (mesmo se não fôssemos), não caberia tal manifestação de hostilidade aos nossos convidados. Repetiam-se, para comprovar nossa falta de civilidade, os apupos na cerimônia de abertura à presidente da república. Qualquer professor de cousas não os aprovaria, mesmo se a autoridade em questão fosse merecedora. Não era o local nem o momento adequado para aquele tipo de protesto.

O que se espalha por aí, é que a Copa já tem um vencedor: o Japão. Sua torcida, terminados os jogos (acrescente-se que eles não venceram nenhum), preocupava-se em catar o lixo que havia espalhado. Os orientais têm, culturalmente, a tradição de respeitar e ouvir os conselhos dos mais idosos. Quem sabe, sua exemplar atitude não tenha sido aprendida com um velho professor de cousas.

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Lavoisier e a tuboteca (clique para ler)

12/05/2013 por bonat

Uma fração de segundo, e lá estava a cabeça separada do corpo. Mas aquela não era uma cabeça qualquer. Os revolucionários franceses, no auge do terror, não perdoaram sequer o brilhante Lavoisier. Seu crime: ter adquirido, em 1768, uma participação na Ferme Général, empresa para a qual a Coroa terceirizara a cobrança de impostos. Mesmo tendo, pouco mais tarde, se retirado da Ferme Général, sua ligação com a cobrança dos impostos que sustentavam as mordomias reais seria utilizada para, de forma sumária, condená-lo.

Só de pensar que a moda venha a ser copiada no Brasil de hoje, alguém pode estar sentindo uma coceira no pescoço. Mas não era essa a minha intenção ao recordar aquele terrível acontecimento. O motivo é outro: o de tão somente lembrar que o Pai da Química continua vivo. Em tempos de conscientização ambiental, sua frase, “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, é atual e importante instrumento capaz de resolver o grave problema do lixo das grandes cidades.

Deve ter sido motivada por ela que, em meados dos anos 1980, a prefeitura de Curitiba descobriu que o lixo poderia ser aproveitado. Instituiu, então, um programa cujo mote era “o lixo que não é lixo”. Diga-se de passagem, foi das poucas campanhas publicitárias, financiadas pelos nossos impostos, visando o bem comum. Infelizmente, com o tempo, ela foi esmaecendo. Atualmente, motivar os moradores a continuarem a separar o lixo, a fim de facilitar sua reciclagem, não faz parte da ordem do dia. Ao que parece, impera a máxima de que tudo o que foi feito de bom em administrações anteriores deve ser esquecido. Afinal, vivemos na era do nunca antes na história.

Os governantes se esforçam para mostrar algo de novo, nem que seja uma cópia repaginada de coisa antiga. Na maioria das vezes, são cópias mesmo, pois, como algum espirituoso, ao transformar a frase de Lavoisier, confirmando-a, nos revelou: “no mundo, nada se cria, tudo se copia”. É compreensível, pois sabe-se que a capacidade de inventar é privilégio de poucos, ainda mais num país nada vocacionado para a leitura.

Recentemente, uma novidade curitibana surgiu: a tuboteca. Para a população, se é cópia, pouco importa. É “ideia nota 10”, resumiu um dos passageiros do sistema de transporte expresso (parece que esta foi realmente uma invenção) da cidade. Para quem não é daqui, é preciso explicar que os ônibus expressos têm capacidade para centenas de passageiros. Eles dispõem de pistas exclusivas. O embarque se dá nas estações tubo. Daí o nome do projeto: tuboteca, que pode ser sintetizado por “se o povo não vai à biblioteca (por falta de tempo ou de hábito), a biblioteca vai ao povo”.

Com o objetivo de incentivar a leitura, em três das estações tubo, de dez previstas, foram instaladas pequenas bibliotecas. Nelas, os passageiros do sistema têm livre acesso às obras disponíveis, sem custo e sem necessidade de fazer cadastro. Após a leitura, o usuário poderá devolver o exemplar em qualquer tuboteca.

O acervo é constituído por doações. São aceitos romances, contos, crônicas, poesias e histórias em quadrinhos. Não são admitidos livros didáticos, técnicos, religiosos, manuais, guias, enciclopédias, bem como qualquer material com teor ofensivo, discriminatório e pornográfico.

Nas primeiras semanas do seu funcionamento, surgiram algumas dificuldades, das quais a não devolução dos livros tem-se mostrado a mais preocupante. Suspeita-se, até, que eles estejam sendo vendidos para sebos, no que não acredito. Mas, se for verdade, um bom e velho carimbo minimizará o problema.

O critério de não aceitar livros didáticos e técnicos exclui as contribuições de Lavoisier para os campos da química, botânica, astronomia e matemática. Tem lógica, pois isso deve ser aprendido em salas de aula e laboratórios. Aliás, o mundo científico fez justiça ao conceder-lhe o título de Pai da Química, pelo qual é mais conhecido do que por ter sido decapitado.

Não quero encerrar sem antes tentar reparar uma injustiça que, possivelmente, o nome “guilhotina” possa sugerir. Ele se deve ao médico Joseph Ignace Guillotin (1738-1814), que propôs o uso desse, digamos, aparelho. Guillotin o considerava mais humano do que a forca e o machado, que, por vezes, aumentavam consideravelmente o sofrimento da vítima.

Portanto, já que estamos falando em bibliotecas, em defesa do Dr Guillotin, peço que esqueçam da guilhotina cortadora de cabeças. Fiquem apenas com aquela que corta papel, a “guilhotina do bem”, essencial para a produção de livros.

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A noite calada dos pichadores (para ler, clique aqui)

22/01/2013 por bonat

Marechal Hermes, Janeiro de 1983, 8 horas da manhã. Eu estava em frente de casa, no final do “de Janeiro”, como é costume denominar a região para a qual até a estátua do Cristo Redentor deu as costas. Seus braços estão abertos para abençoar apenas os bairros nobres da Zona Sul, o badalado “Rio”, onde a brisa do mar torna mais amenos os verões cariocas. Atrás dele, a temperatura sobe na medida em que a distância aumenta. Em Marechal Hermes, situada próximo ao “eiro”, final do Rio de Janeiro, a dezenas de quilômetros do Corcovado, nem o vento costuma passear. Era bem ali que eu me encontrava.

Mas, naquela manhã, o clima senegalês não me incomodava. Minha preocupação era outra: entregar a casa em que eu morava de aluguel. Tinha, enfim, conseguido um imóvel funcional na Vila Militar, onde eu já servia há dois anos. O proprietário, um verdadeiro chato de galocha, iria lá para receber a casa. Conhecedor de suas galochas, eu havia caprichado na pintura, interna e externa. O problema era o muro. Ele, como os de toda a vizinhança, vivia pichado. Depois de a casa pintada, tive que recobrir umas três vezes o que haviam rabiscado durante a madrugada. Naquela manhã, nada havia mudado. Por sorte, até mesmo as galochas têm seu dia de coração mole. O proprietário concordou em ficar com o resto de tinta para, quando encontrasse outro locatário, cobrir aquela “obra de arte”.

Vila Militar, Março de 1983, 8 horas da noite. Na sala do imóvel funcional para onde me mudara, eu assistia o primeiro capítulo de mais uma novela da Globo. Na chamada, em destaque, apareciam muros e fachadas de edifícios pichados, uma febre no Rio de Janeiro de então. Estava tendo início mais uma campeã de audiência, formadora de opinião, hábitos e atitudes. As realidades que mostrasse, virariam moda. Como seria de esperar, a febre da pichação espalhou-se. O que era um costume carioca tornou-se mania nacional. A partir dali, por todo o Brasil, não só os muros, mas também obras de arte, igrejas, monumentos, museus e tudo mais que pudesse servir de “tela”, tornar-se-ia vítima daquele modismo. A poderosa rede talvez pudesse, numa autocrítica, ter-se questionado sobre a conveniência de mostrar todas as realidades. Mas creio que não o fez.

Curitiba, 10 de janeiro de 2013, 10 horas da manhã. Passo diante da residência de um velho senhor. Na semana anterior, o havia visto, apesar dos seus mais de oitenta anos, pintando a casa onde mora. Agora, percebo que alguns “artistas” escolheram o muro, por ele caprichosamente pintado, para, na calada da noite, expressar sua criatividade. Toco a campainha. Ele atende e não esconde sua indignação. Como ele, milhares de brasileiros não conseguem entender como alguém gasta tanto tempo e dinheiro para dilapidar bens alheios, mantidos com muito sacrifício e carinho.

Curitiba, manhã de 22 de janeiro de 2013. No momento em que escrevo este texto, são passados trinta anos desde que pichar virou mania que não para de crescer. Parece-me que o tempo e o dinheiro, que sobram aos pichadores, poderiam muito bem ser aplicados em algo mais nobre, como, por exemplo, num trabalho voluntário, ansiosamente aguardado por inúmeros asilos, creches e hospitais. Quem sabe, um dia desses, nossa grande rede de televisão não produz um folhetim para mudar uma triste realidade, que ela mesma ajudou a espalhar e, até hoje, emporcalha nossas cidades. Só ela teria o poder de realizar um milagre desses. E ela sabe disso.

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Formatura do Faz de Conta

08/12/2012 por bonat

Um dia, quando os jardins de infância ainda não se denominavam escolas infantis, Milton Karam teve uma rara inspiração e compôs um hino que começa assim: “Faz de Conta, que o mundo cabe todo num jardim/ Faz de Conta, que o tempo é o mais lindo mandarim/ Faz de Conta, que a vida não tem começo nem fim”.

Pois hoje, Guilherme e Rafael, de beca e tudo, estão colando grau no Faz de Conta, nome que poderia nos remeter à situação atual do ensino no Brasil, onde se finge que ensina e se brinca que se aprende. Mas, ao contrário do que o nome possa sugerir, o “Faz”, como é carinhosamente chamado, é uma escola onde realmente se ensina e aprende, logicamente, de acordo com a faixa etária do “corpo discente”, que varia dos dois aos seis anos.

Como todo avô, sinto-me orgulhoso em ver os netos, praticamente alfabetizados, receberem o seu primeiro diploma. Ao mesmo tempo, sei que sentirão falta do local onde foram acolhidos, orientados, motivados e preparados para seguirem o seu caminho, agora em outra escola.

Durante cinco anos, imaginando que estavam brincando, eles aprenderam. Formaram alicerces morais e éticos, valores que os acompanharão ao longo da vida. Sentirão saudade de um espaço físico cuidadosamente mantido, acolhedor e das dedicadas “tias” que, fingindo que estavam brincando, lhes transmitiram muito ensinamento.

Recorro novamente a Milton Karam: ” … é o desejo /Que toda criança/Nunca se cansa de ter/É a vontade/Que nessa idade/A gente pare de crescer”.

Isso faz com que nós, os avós, retornemos a um passado que já vai distante, para relembrar da nossa inesquecível e saudosa primeira professora. Como lembrou o autor do hino, “como seria bom se, naquela idade, a gente tivesse parado de crescer”.

Claro, todos sabem ser impossível, pois o tempo continua sua marcha implacável em direção ao futuro. Por termos acompanhado o crescimento dos netos nessa sua primeira escola, estamos confiantes de que eles continuarão a crescer, sob todos os significados que esse verbo possa abranger.

Só nos resta agradecer à Professora Margaret Mehl Müller e a sua dedicada e competente equipe, que cuidam com tanto carinho do Faz de Conta e do que ele tem de mais valioso: os seus alunos, filhos dos nossos filhos, que são nossa imagem aprimorada, refletida num espelho. Por isso, e por me julgar, pela idade, no direito de ser repetitivo, volto ao Milton Karam: “Faz de Conta, que o mundo é um espelho de marfim/Faz de Conta, que o tempo saltou de um trampolim…”.

Durante a bela festa de final de ano que assistimos, emocionados ao ver nossos netos recebendo o “canudo”, por alguns momentos, saltamos de um trampolim e mergulhamos profundamente em nossa primeira sala de aula.

Pena termos tido que voltar ao presente. Mas quando o fizemos, vimos nossa imagem, rejuvenescida e aprimorada, com sua alegria, sua beca e o diploma, que não é de faz de conta. Nem ele, nem o futuro dessa gurizada, para quem a equipe do “Faz” construiu um firme e profundo alicerce, para ela não parar de crescer.

Que o Faz de Conta, assim como nossos netos, nunca pare de crescer!

Por fim, quero deixar o meu mais forte abraço a todos os avós, em especial à “Vó Hilma”, a eterna avó do Faz De Conta.

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