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De um Capitão aos seus bravos e jovens Artilheiros

30/08/2017 por bonat

Minhas palavras iniciais são para saudar o Coronel Faccin e os atuais integrantes do 3º GAAAe pelo transcurso, na data de hoje, do Dia do Soldado. Ao mesmo tempo, agradecer-lhe, Comandante, por estar nos prestigiando com a sua presença, abrindo mão do seu merecido repouso, junto à sua família, em uma noite de sexta-feira. Esta noite, que nos é muito especial, torna-se mais especial ainda com a sua presença.

Caríssimos tenentes, subtenente, sargentos, cabos e soldados da nossa saudosa 2ª Bateria de Canhões. Permitam que eu ainda os chame assim. É óbvio que vocês não são mais tenentes, sargentos ou soldados. São mais, muito mais, graças à sua dedicação, ao seu trabalho e, é claro, à sua inteligência. Se assim os chamo, é para que, por alguns minutos apenas, nos sintamos 38 anos rejuvenescidos

Quando o Dal Zotto, o Hugo, o Braga, o Branco e, lá da distante Manaus, o Perraro começaram a divulgar pela internet, alguns meses atrás, a intenção de reunir os integrantes da nossa Bateria, eu disse para a minha mulher: “tenho que ir”.

E essa vontade de reencontrá-los foi aumentado à medida que as notícias foram chegando. Que 40 já haviam confirmado a presença, depois 50 e, finalmente, que cerca de 60 ex-soldados estariam presente… “Encontramos o Tenente Horn e o Sargento Nicolau e eles também irão”. “Localizamos o Subtenente Dall’Agnol e o Sargento Simões…” Depois, noticiaram que os Tenentes Vargas e Roberto estariam presente. E, mais recentemente, os Sargentos Hildo, André e Martins… Falei novamente para a minha mulher: vou de qualquer jeito. Não posso ficar de fora. Tenho que reencontrar essa turma boa.

Ainda ontem, já em Caxias do Sul, encontrei o Sargento Spiandorello e o Cabo Stapassola, que me informaram que estariam conosco.

E hoje, tivemos mais uma agradável surpresa ao encontrar aqui uma pessoa que sempre se esforçava para, com a sua tesoura, nos deixar “ainda mais bonitos”: o nosso querido amigo Modesto.

Vocês não imaginam a alegria que sinto por estar aqui, nesta noite que tem mais do que um sabor de simples nostalgia. Este reencontro dos bravos artilheiros da nossa saudosa 2ª Bateria tem o poder de nos tornar quase quarenta anos mais jovens. Aqui estamos a respirar os ares de um passado que nos é muito caro, que significa muito para cada um de nós.

Esta reunião permite que voltemos, momentaneamente, ao ano de 1979, quando a atual Bateria de Mísseis do 3º GAAAe ainda se chamava 2ª Bateria de Canhões. Uma bateria que foi nossa. Quando digo nossa, refiro-me a todos os seus ex-integrantes, do Capitão aos Soldados. Nos orgulhávamos muito dela.

Viemos para mostrar como o tempo foi generoso conosco. Deu-nos sabedoria, que só a experiência de vida proporciona e nos permite olhar o mundo de maneira mais compreensiva, menos individualista, mais profunda, menos superficial. Ele permite darmos meia-volta volver e olharmos orgulhosos para trás, relembrarmos das coisas boas por que passamos e dos obstáculos que conseguimos superar ao longo da nossa existência. Foram muitos. Cada um teve os seus e os ultrapassou. Todos nos tornamos vitoriosos. O bondoso tempo nos deu esposas, filhos e netos, que nos ajudaram a percorrer o caminho.

Por outro lado, a face cruel do tempo, aquela que não para de marchar em direção ao futuro, deixou-nos marcas, por vezes implacáveis. Algumas são invisíveis. Outras estão estampadas em nossas silhuetas. As mais notáveis estão na falta de cabelo de alguns, na cabeça embranquecida de outros ou, no meu caso e de mais alguns, na barriguinha saliente que teima em não encolher e em não voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Há ainda outros de nós que, lamentavelmente, não podem estar aqui, pois foram requisitados pelo Pai Eterno. A eles, a nossa respeitosa e saudosa reverência.

Viemos para recordar que éramos campeões de tudo. Não havia bateria que nos batesse, qualquer que fosse a competição. Na ordem unida, nos desfiles matinais, nas olimpíadas, nas campanhas de tiro em Cidreira, com os nossos moderníssimos canhões Oerlikon e suas potentes e impressionantes rajadas de 1100 tiros por minuto…

Não lembro se éramos campeões também em indisciplina. Pode ser, pois vocês eram muito jovens e todo jovem tem o direito de possuir um espírito rebelde. Eu, por também ser jovem, possivelmente era o Capitão campeão de punições.

E, por falar em punições, vou recordar de uma música que cantávamos, a fim de tornar menos cansativas e monótonas as nossas corridas. Era mais ou menos assim:
“Bicho danado pra andar de passo errado… E vocês respondiam: “é o soldado, é o soldado”…
“Bicho danado pra nos dar ensinamento… É o sargento…”
“ Bicho danado pra pegar no pé da gente… É o tenente…”
E terminávamos com o “Bicho danado pra nos dar punição… “ Aí vocês aproveitavam para se vingar: “É o capitão…”

Faltou, na época, talvez por falta de inspiração, acrescentar que o nosso estimado Subtenente Dall’Agnol era o bicho danado que afugentava com o seu facão os soldados que estavam perturbando em sua reserva.

Tudo isso, e muito mais, eram coisas de jovem. Foram elas que nos tornaram, principalmente a vocês, os soldados de então, muito unidos. E continuam unidos até hoje. Não esquecem uns dos outros, de cada detalhe, de cada sorriso, de cada lágrima, de cada aflição, de cada apelido. Ajudavam-se, por isso venciam, por isso continuaram vencendo.

Éramos jovens, muito jovens. Jovens que não tinham celulares, nem tablets, nem Whats App, e tudo mais que o avanço tecnológico proporciona aos jovens que hoje ocupam o lugar que foi nosso.

Mas havia, em 1979, algo que o avanço tecnológico tem, de certa forma, abafado: o calor humano. Esse é o grande diferencial. Foi ele, o calor humano, que nos conduziu até aqui, neste 25 de agosto de 2017, para que matássemos a saudade da nossa velha 2ª Bateria e matássemos a saudade de nós mesmos.

Se pudéssemos, entraríamos num túnel do tempo e voltaríamos àquele longínquo ano, para permanecer por alguns dias naquele velho, desconfortável até, pavilhão que foi a nossa casa durante quase um ano. Isso, entretanto, é impossível. Nossa vez já passou. Os jovens, agora, são outros, não nós.

Caros amigos.
O passado não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. É o que estamos fazendo neste momento.

Agradecemos a Deus por nos propiciar esta visita às alegrias do passado e reavivar em nossa memória os desafios que transformamos em conquistas, graças à união dessa turma, união que superou o tempo.

Agradecemos pela oportunidade de vivenciarmos este momento de emoção de rever amigos, alguns que não víamos há 38 anos.

Para finalizar, tentei encontrar uma frase que pudesse sintetizar o significado deste reencontro para todos nós.

Em pouquíssimas palavras creio que viemos aqui nesta noite especial para declarar que, para nós, ”1979 foi um ano que valeu à pena”!

Nós, oficiais e sargentos de então, alguns, como eu, já chegando ao outono da sua existência, ao ver que os nossos soldados continuaram vencendo, queremos ser ainda mais incisivos e proclamar: “claro que 1979 valeu à pena!”

Somos muito gratos por nos terem convidado. A todos, o nosso forte abraço. Muito obrigado.

“Capitão” Hamilton Bonat – 25 de agosto de 2017

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Turma Marechal Castello Branco – 45 anos de formatura

14/12/2016 por bonat

Excelentíssimos senhores generais-de-exército Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, Comandante Logístico; João Camilo Pires de Campos, chefe do Departamento de Educação e Cultura; com os quais convivi na cidade do Natal, em 1993 e 1994, quando ambos integravam o Estado-Maior da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada e eu comandava o Batalhão Visconde de Taunay; Fernando Azevedo e Silva, Chefe do Estado-Maior do Exército; Manoel Luiz Narvaz Pafiadache, Chefe do Departamento-Geral do Pessoal e que recentemente comandou o nosso Comando Militar do Nordeste; e João Carlos Vilela Morgero, da Turma Marechal Castello Branco, em nome dos quais eu saúdo os demais generais e autoridades presentes.
Excelentíssimo senhor general-de-brigada André Luís Novaes Miranda, comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, a quem agradeço a abertura desta casa para os seus eternos cadetes. Aqui estão diferentes gerações de soldados, mas todos pertencentes a um só Exército, com os mesmos princípios herdados dos nossos antecessores.

Senhoras, senhores e jovens aqui presentes.

Meus amigos e companheiros.
Inicialmente, os nossos agradecimentos à Comissão Organizadora desta confraternização, tão bem conduzida pelo amigo Ribeiro e composta pelos amigos Manarte, Itamar, Deusdedit, Jeová, Simar e Eliasar, todos responsáveis pelo êxito já alcançado.
O nosso reconhecimento também aos amigos que, com seus contatos frequentes, participações nos eventos, incentivo à realização de encontros anuais e criação de ferramentas para a integração da Turma, a tornam mais unida.
Meus irmãos de farda e de ideais. Novamente, aqui estamos, na majestosa Academia Militar das Agulhas Negras, berço da nossa formação.
Em 1971, nos 160 anos de criação da AMAN, o então cadete do quarto ano Andrade Neves, da Cavalaria, assim se expressou, em sua saudação publicada no jornal Agulhas Negras: “Aqui, neste recanto tranquilo e colorido, sacrário de nobres tradições, testemunha de muitos sacrifícios e acalanto de tantos sonhos, a Nação observa, confiante, a preparação da juventude militar brasileira. Cumpre-nos manter bem alto o nome do nosso Exército, democrático por formação, cuja única ambição é trabalhar por uma Pátria livre e grandiosa, capaz de proporcionar felicidade a seus filhos”.
Éramos aqueles jovens, que agora retornam a esta casa. E voltaremos sempre, enquanto a vida o permitir.
Nesta manhã de alegria,/ No rosto, um sorriso franco,/ Volta à Academia,/ A Turma Castello Branco.
Dos 510 cadetes que inicialmente integraram a nossa Turma, 375 receberam o espadim e 318 foram declarados aspirantes-a-oficial. Mas, todos eles são considerados membros da Turma Marechal Castello Branco. Por diversos motivos, particularmente por vontade própria, vários companheiros partiram para novos desafios na vida civil. E, como os amigos aqui presentes, Jorge Saito e Sérgio Antônio Leme Dias, muitos foram os que se destacaram em outras áreas, contribuindo com o seu trabalho para o engrandecimento do Brasil. Alguns que se formaram posteriormente, também fazem parte da Turma. É o caso do amigo Marco Aurélio dos Santos Amaral, o Pará, que, após um acidente na equitação, não pôde prosseguir conosco, mas aqui está presente, para a nossa alegria, porque ele também sabe que é um dos castelenses da querida “Barraco Preto”. Apenas o emprestamos para a Turma Marechal Mascarenhas de Moraes.
São passados 45 anos, desde a nossa formatura, em 18 de dezembro de 1971.
Naquela época, o então aspirante Bonat, da Artilharia, assim escreveu: “Quatro anos de Academia. Haverá muito a contar: as noites sobre os livros, a saudade dos lares, das namoradas, as noites chuvosas no campo, a camaradagem, os desfiles do Sete de Setembro, as grandes amizades que se fizeram, as brincadeiras nos apartamentos, as boas e as más horas. Quatro anos, muita luta, muitos obstáculos. Vencemos! Podemos continuar de fronte erguida porque o portão de saída dos novos aspirantes se abriu para nós. Sim, já somos oficiais do Exército Brasileiro e podemos dizer, sem medo de errar: o Brasil pode confiar na Turma Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.”
Agora, novamente, podemos repetir: Vencemos!
A vibração do cadete,/ Sentimento tão perfeito,/ Como se fosse um colete,/ Continua presa ao peito.
Daqui saímos, jovens aspirantes, empunhando a espada de oficial do Exército Brasileiro e carregando no coração a chama dos nossos ideais. Bem preparados, física e profissionalmente, nos espalhamos pelos diversos rincões deste país, para a dura labuta dos corpos de tropa, onde, no dia a dia da caserna, iríamos participar da formação militar e cívica de parcela significativa da juventude brasileira, do treinamento constante para o combate, da guarnição de nossas fronteiras, da ajuda ao nosso povo, das obras em prol do desenvolvimento do país, da garantia da lei e da ordem, das missões de imposição e garantia da paz no exterior e de tantas outras.
Sem a tecnologia das comunicações atuais, nos separamos e, por anos a fio, perdemos o contato com muitos companheiros. Por outro lado, especialmente nos cursos de mestrado e doutorado, na Vila Militar e na Praia Vermelha, ou em guarnições maiores, como em Brasília, também foram muitos os reencontros, particularmente com os companheiros de outras armas, quadros e serviço. E nessas ocasiões, parecia que os anos não tinham passado, apesar das marcas deixadas em nossos corpos e das estrelas conquistadas na sequência dos postos da hierarquia militar. E nos transformávamos nos mesmos cadetes de um passado nunca esquecido, com as mesmas brincadeiras, com o mesmo sentimento de fraterna amizade. Ainda assim, há companheiros que alguns nunca mais reviram, desde a nossa partida da AMAN. Foram os muitos desencontros da nossa profissão, na sequência de chegadas e partidas que se sucederam nas muitas organizações militares, algumas distantes demais, e que também atingiram, na formação e consolidação de amizades, as nossas esposas e os nossos filhos, a quem reverenciamos, como o alento principal de nossas ações.
Uma gratidão especial a essas meninas, algumas não mais presentes fisicamente, que, abandonando os seus familiares e as suas origens, acompanharam os seus maridos e foram residir em pequenas vilas militares, até de lugares inóspitos, abdicando, muitas vezes, dos seus estudos, de suas carreiras profissionais e de suas potencialidades, para se tornarem, apenas, mulheres de soldados, compartilhando com os seus maridos o sentimento da caserna e da vida simples do militar. E ainda lhes facilitando os estudos nas escolas militares e o desempenho dos seus cargos de comando, assumindo, na prática, os trabalhos do dia a dia familiar. São os nossos anjos da guarda!
EXISTE UMA PROFISSÃO,/ QUE EXIGE TUDO DA GENTE,/ AMOR E DEDICAÇÃO,/ POR TODO TEMPO CORRENTE.

A PÁTRIA VIRA ORAÇÃO,/ UMA FÉ INTRANSIGENTE,/ QUE INVADE O CORAÇÃO,/ O CORPO, A ALMA E A MENTE.

ESSE VIVER DEVOTADO,/ POR MUITOS NÃO ENTENDIDO,/ TEM O PESO ALIVIADO

PELO AFETO CORRESPONDIDO/ DE ANJOS POR DEUS ENVIADOS/ PARA AMAR OS SEUS SOLDADOS.

E por que, mais uma vez, retornamos a esta casa?
Para contemplar os picos da Serra da Mantiqueira, como o das Agulhas Negras, que emolduram o cenário desta Academia Militar e cujo perfil estilizado compõe o seu Brasão das Armas?
Para entrar novamente em forma no Pátio Tenente Moura e recordar a rotina diária das formaturas, o avançar para o refeitório, a marcialidade nas datas comemorativas e os inesquecíveis momentos, compartilhados com as pessoas queridas, da entrega dos espadins e das espadas?
Para retornar aos locais de estudo, como a biblioteca, o bosque às margens do Rio Alambari, as salas de aula e os apartamentos, com suas luzes e gagazeiras iluminando muitas madrugadas?
Para lembrar as ordens de marcha e retroceder aos tempos das manobras, dos acampamentos e bivaques acadêmicos e dos duros exercícios especiais de montanhismo, patrulhas e fuga e evasão?
Para rever as nossas alas, os nossos apartamentos, os pavilhões dos diversos cursos, o complexo esportivo, o estande de tiro, os campos e as pistas de instrução, a agência dos correios e telégrafos, tão usada naquela época, as ladeiras das corridas no Monte Castelo e cada pedaço deste chão acadêmico, de tantas recordações?
Sim, por tudo isso, aqui estamos. Mas, principalmente, para reforçar os laços de sadia camaradagem que unem os verdadeiros soldados, e para dizer que, mesmo em retiro das lides castrenses, continuamos vigilantes na construção de uma trincheira instransponível, que impeça o Brasil de cair no abismo das ideologias contrárias aos princípios que formaram a nossa nacionalidade.
E de um modo especial, também estamos aqui, para mostrar o sentimento da nossa gratidão, a todos aqueles que, direta ou indiretamente, participaram de nossa formação acadêmica.
Aos funcionários civis, da cozinha, do refeitório, da granja, da lavanderia, da barbearia, das alas, dos cursos, das seções de ensino, do hospital e de outros setores, o nosso agradecimento. Por intermédio do velho Bráz, do seu Oscar e da doce Irmã Maria, sempre com palavras de carinho para com os seus cadetes, reverenciamos os muitos, que, no anonimato de suas vidas simples, foram importantes em nossa passagem por esta Academia.
Aos militares, desde os generais comandantes, como Paula Couto, Meira Mattos e Fragomeni, até os mais modernos dos recrutas, que cumpriram o serviço militar obrigatório no Batalhão de Comando e Serviços da AMAN, o nosso reconhecimento. Nesse contexto, estão os nossos professores, os comandantes de cursos, os comandantes das companhias, os instrutores e os tenentes comandantes de pelotão. Jamais serão olvidados, pois tiveram uma participação especial na nossa formação, mostrando-nos sempre a importância do exemplo e da lealdade, como os mais caros princípios da carreira militar, facilitadores da compreensão do que seria viver nos ditames da hierarquia e da disciplina, sem prepotência, mas também sem servidão. Não precisarei citá-los, com os seus nomes ou carinhosos apelidos, pois as suas lembranças ainda marcam as nossas vidas. Em nome de um deles, morto tragicamente, aos vinte e oito anos, durante uma atividade de instrução no campo e cujo nome denomina o Pavilhão do Curso Básico, agradecemos a todos eles, muitos já falecidos, pelo monumental esforço, individual e coletivo, na formação dos oficiais da Turma Marechal Castello Branco. O seu sacrifício, na profissão de risco que assumimos, não foi em vão, Tenente Márcio Antônio de Oliveira. E o seu nome será sempre lembrado pelos seus cadetes, mesmo que não constasse em nenhuma placa no interior desta Academia.
Nesse retorno ao passado, não poderíamos deixar de recordar o amor e o incentivo dos nossos pais, que souberam superar a saudade das nossas ausências, substituindo-a pelo orgulho das nossas conquistas.
A todos os nossos familiares, amigos, superiores, pares e subordinados, que enriqueceram, com exemplos de vida, a nossa trajetória, o nosso muito obrigado.
Ao Deus de cada um de nós, a nossa gratidão por termos chegado até aqui, sem diminuir a nossa fé em um Brasil muito melhor para os nossos filhos e netos.
Hoje, já passados muitos anos na inatividade, continua atual a prece da despedida, que o amigo Coronel Higino, da Engenharia, proferiu em 1999:
“Pátria! Os muitos anos de vida que me pediste foram integralmente consumidos. Dedicar-me inteiramente ao teu serviço o fiz muitas vezes, até a exaustão. Fiz da caserna o meu sacrário; da profissão, crença; da vida militar, sacerdócio. Retiro-me, com a mesma alma de soldado dos primeiros passos. Peço ao Criador o descanso justo porque, reconhecendo a minha pequenez, a cada segundo, busquei ser perfeito. No sagrado seio da família, muitas vezes por ti trocada, estarei ao teu dispor, sempre que preciso for.
NON NOBIS, PATRIA, NON NOBIS, SED NOMINI TUO AD GLORIAM! (Não por nós, Pátria, não por nós, mas para a glória de teu nome!). Na adaptação do Salmo de David e do Lema dos Templários”.
E nesta ocasião, prestamos solene continência ao nosso patrono, o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, grande militar, estadista, combatente da Segunda Guerra Mundial nos campos da Itália e primeiro Presidente da República, no período da Contrarrevolução Democrática de 31 de Março de 1964. A sua visão de liberdade, democracia e patriotismo é um exemplo que assumimos. E, usando as suas palavras, reafirmamos que a nossa Turma será “sempre fiel à honra do Brasil”.
O juramento prestado,/ No nosso ardor juvenil,/ Permanece imaculado/ Na defesa do Brasil.
Neste encontro de irmãos, nem todos se fazem presentes fisicamente. Espalhados pelos muitos rincões deste país continente, muitos não puderam, por vários motivos, comparecer. Alguns, com problemas de saúde, recebem o nosso pensamento de superação e de vitória nesse grande e belo combate, do qual todos participamos: o da vida. Outros, por compromissos familiares e de trabalho inadiáveis, até mesmo na aprazível tarefa de avô. Alguns, talvez por acomodação, nestes tempos de idosos, quando, algumas vezes, nos trancamos em nós mesmos. Mas, escutem o conselho do filósofo Peninha: “estamos velhos demais para protelar encontros”. Um grupo, com certeza, cumpriu com mais presteza as missões determinadas neste Plano Terrestre e obedeceu ao chamamento do Criador, para novas e importantes tarefas em algumas de suas muitas moradas. Não sei se eles estão presentes neste ambiente físico, mas, no dizer de Camões, no assento etéreo onde subiram, recebem as vibrações que daqui emanam, de carinho, de companheirismo e de uma doce saudade. Como bem diz a nossa Cavalaria, que “os nossos estribos se choquem em cavalgadas futuras, pois assim estarão selados, para sempre, os laços da nossa amizade”.
E quem sabe, montado novamente no meu cavalo Esso, que em certo domingo acadêmico, me levou em disparada, agarrado ao seu pescoço, para o almoço nas baias, eu possa cavalgar em suaves campos verdejantes, ao lado do Britão, agora mais leve, montado em seu Granadeiro, único cavalo que, naquela época, com suas ancas largas, suportava o peso do não tão esbelto infante. E quem sabe, lá também estará a Maísa, a dos olhos tristes, com o seu pelo esbranquiçado e manchas pretas cobrindo parte do seu corpo. Talvez, rejuvenescida, passe a seguir o trote dos cavalos, como fazia, embora já cansada, acompanhando as marchas a pé e os exercícios de campo dos cadetes do Curso Básico, como a incentivá-los nas duras jornadas.
E na alegria desta comemoração, lembramos dos queridos amigos que nos deixaram fisicamente, mas que permanecem em nossos corações. São eles:
Moacir TEIXEIRA de Araújo e RAUL José Haendchen, jovens cadetes falecidos em 1970.
Ângelo José CASTRO Alves Ferreira, Antônio Fernando de Sá Muniz BARRETO, Antônio Geraldo Araújo ÁVILA, ANTÔNIO MARCO Baptista da Silva, Armando GALEMBECK Júnior, Braz Miguel RUSSO, Carlos Eduardo GUTTMANN, CARLOS JORGE do Nascimento, DANILO Tambeiro Guimarães, Elias de OLIVEIRA SANTOS, Geraldo MAGELLA Marques de Vasconcellos, Henrique CLEBER Simões, HILTON Hril Falcão Torres, IRAN Müller Lago Filho, Jairo Roberto Freitas RAMOS, João Batista Farias CARNEIRO, José Antônio QUEIROZ, José BANDEIRA de Melo Filho, José CALAZANS de Carvalho, José Eduardo BRANCO, José Luiz CERAVOLO, José Maria MOURA VIANA, LAUDENIR José Rosa, Luiz Augusto RAGGI, Luiz Eduardo GOUVÊA Alves, Manoel Aloisio de Campos RAMIRO, MAURO Cardoso Canito, NADIN Ferreira da Costa, Osvaldo Roberto DE PAULA, PRIMO Beraldo, Ramão GRALA, Roberto Antônio Pinto COSTA, Ronaldo Medeiros ILHA MOREIRA, Sérgio José Alonso SOCHACKI, Sílvio Sérgio Pereira NATALINO, Tamotsu WATANABE, UBIRATAN Miguel da Silva e WILLIAN Cardoso Espíndola
E, mais recentemente, nesse último quinquênio, particularmente no ano passado: ALBERTO Souza Gonçalves,Carlos Alfredo NEVES, Carlos Cesar Cunha MARTINS, FERNANDO Henrique Pereira Rosa, JAIRO de Castro Freitas, José Antônio BRAGA, José Carlos KRATZER, Laercio Corrêa de NORONHA, Paulo Carvalho ESPINDOLA, Pedro Paulo Molinaro ZACHARIAS e Ronaldo do Vale BRITO
Ó Deus dos Exércitos, tende piedade. Não dizimeis Vós as nossas fileiras. Preservai os meninos da Turma Marechal Castello Branco. Foram muitas as baixas em tão pouco tempo.
Somos soldados! Fomos preparados para as agruras do combate e, consequentemente, para a morte. Mas, agora, quando estamos no retiro das nossas vidas, queremos um pouco mais do tempo que, no passado, a dedicação ao serviço nos tirou. Tempo para brincar com os netos, receber o carinho dos filhos, o amor da companheira e a amizade dos amigos. Tempo ainda para acreditar na grande Pátria dos nossos sonhos juvenis. Tempo para nós mesmos. Um pouco mais, apenas.
Mas, em tudo, seja feita a Vossa vontade. Seremos fortes, pois nos habituamos a cumprir a missão recebida e partir para novos e mais importantes desafios. Mas, deixai que choremos as nossas perdas, as despedidas, as ausências físicas, pois também bate um coração no peito do soldado.
Com muita honra, mas também com muita humildade, recebi da Comissão Organizadora, com o apoio de alguns amigos, a grata missão de expressar o nosso contentamento neste encontro dos 45 anos de formatura da Turma Marechal Castello Branco. Por brincar de ser poeta, com meus versos de rima pobre, no limite do meu esforço e na boa vontade dos companheiros, não poderia deixar de usá-los no meio desta prosa. Por isso, ao encerrar esta tarefa, que procurei cumprir mais com o coração do que com o cérebro, o faço com mais um soneto. Eu o ofereço, como uma singela homenagem à família, célula principal de nossa nacionalidade, e ao Exército, guardião da nossa Pátria.
O QUE ME RESTA DIZER,/ NO MOMENTO DA DESPEDIDA,/ A NÃO SER AGRADECER/ AS JÓIAS GANHAS NA VIDA.

E NO ÂMAGO DO MEU SER,/ AS GUARDO BEM ESCONDIDAS./ MAS DEIXO TRANSPARECER/ O QUE A ALMA DÁ GUARIDA

POR VOCAÇÃO, SER SOLDADO./ SERVIR À ARMA DE CABRITA,/ AMAR A MINHA FATITA

E OS FILHOS POR NÓS GERADOS./ E TER SEGURO ABRIGO,/ NO PEITO DE CADA AMIGO.

Resende, RJ, em 10 de dezembro de 2016

Luiz OSÓRIO Marinho Silva – Cel Eng Refm da TMCB – AMAN 1971

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Troféu Inspiração/2016

26/11/2016 por bonat


Recebendo o Troféu Inspiração, por ocasião da cerimônia comemorativa dos 77 anos de criação da Academia de Letras José de Alencar.

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Seu Jair: mais do que um fotógrafo

03/09/2015 por bonat

É sempre uma satisfação retornar a esta que foi a minha primeira Unidade e, como tal, será eternamente a primeira no meu coração de soldado.

Agradeço ao Coronel Paixão pela oportunidade de estar aqui para, junto com todos os que atualmente servem em nosso Grupo Salomão da Rocha, comemorar os 81 anos de um dos seus mais antigos e queridos integrantes, o Senhor Jair Mendes de Moraes.

Quando me apresentei para servir neste 5º Grupo de Artilharia Autopropulsado, em Fevereiro de 1972, já o encontrei com sua máquina pendurada no pescoço. Desde então, e mesmo antes, Seu Jair tem registrado a passagem de cada um de nós pelo Grupo, seja nas atividades comuns do dia a dia, seja em momentos importantes e históricos da nossa Unidade, como esta foto que trouxe comigo, onde estão retratados os oficiais e sargentos que participaram, em dezembro de 1973, da execução do primeiro tiro com o então recém-chegado obuseiro 105 mm autopropulsado. Como este, guardo comigo dezenas de outros momentos captados pelas lentes do Seu Jair.

Mas não só eu. Sem exagerar, creio que todos os que passaram por aqui nos últimos cinquenta anos têm em seus lares um pouco do trabalho do seu Jair. Ele está presente na casa de milhares de pessoas, desde os Comandantes até os Soldados. São lembranças guardadas com muito cuidado, com muito zelo, com muita saudade, seja num álbum, seja num quadro emoldurado pendurado na parede. Este fato, por si só, serve para realçar a importância do nosso aniversariante para o nosso Grupo e seus integrantes de ontem e de hoje.

Pode estar certo, seu Jair, que são pessoas que o estimam e que aprenderam a admirá-lo pela sua dedicação, honestidade, seriedade, simpatia e educação. Com o suor do seu trabalho, o senhor criou e educou seus filhos. Não deve ter sido fácil, mas o senhor venceu. Para alguns dos filhos, o senhor transmitiu a vocação e os conhecimentos da sua profissão. Eles hoje também são fotógrafos.

Seus filhos e netos devem sentir muito orgulho do senhor. Pois saiba que todos nós também nos sentimos orgulhosos e felizes em poder contar com a sua amizade.

Bravos Artilheiros do Grupo Salomão da Rocha!
Sempre que venho aqui, uma das primeiras pessoas que encontro, para a minha satisfação, é o Seu Jair, acompanhado do seu sorriso, da sua simpatia e da inseparável câmera que o caracteriza e identifica. E é recorrente perguntar-lhe: “Seu Jair, o senhor não envelhece! Qual é o seu segredo?” Ele apenas sorri e não responde. Pois hoje vou tentar responder por ele.

É que o Seu Jair sempre procurou fazer o bem, sempre tratou a todos, sem exceção, com muito respeito, carinho e educação. Pessoas assim recebem em troca fluidos espirituais positivos dos que com elas convivem. Por isso, merecidamente, permanecem sempre jovens. Portanto, sempre jovem Seu Jair, é uma grande satisfação estar aqui neste que é o seu dia.

Receba, em nome do pessoal da antiga (que somam milhares) que serviu no Grupo, os cumprimentos, a admiração, o agradecimento por sua permanente presença em nossos lares, e os votos de saúde e felicidade. Cumprimento-o não só pelo aniversário, mas, principalmente, pelo seu belo exemplo de vida. Que o amigo prossiga, durante muito tempo ainda, registrando com a sua inseparável lente, a história do nosso quartel e de cada um dos que por aqui passarem.

Parabéns! Continue sempre jovem e feliz!
Curitiba, 14 de agosto de 2015

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Bodas: segredo ou milagre?

13/07/2015 por bonat

Há pouca coisa mais nostálgica do que as seções intituladas “Você Sabia?”. Era comum encontrá-las em jornais e revistas. Seguiam-se, então, informações pouco relevantes como: “Você sabia que um casal, quando completa um ano junto, comemora Bodas de Papel?”.

Claro que vocês, meus leitores, sábios que são, sabem que boda é uma celebração de casamento. Que é uma palavra mais usada no plural – bodas – e se refere aos votos matrimoniais feitos no dia do casamento. Sabem também que é tradição comemorar aniversários de casamento. Entretanto, talvez não saibam, como eu não sabia antes de consultar o professor google, que o termo tem origem no latim “vota”, que significa promessa. Pois a promessa parece estar cada vez mais difícil de ser cumprida.

“Milagre! Conseguimos nos aturar durante cinquenta dias!”, comemora um casal moderno. Suportar um ao outro sempre foi difícil, mas está virando exceção. Qualquer desavença faz esquecer do prometido diante do altar, perante familiares e amigos. Certo ou errado, antigamente não era bem assim. Casamentos eram para sempre, apesar das rixas, pequenas umas, abissais outras.

Foi nisso que pensei quando, recentemente, estive numa festa de bodas de ouro. Recordei Ogden Nash e sua definição de casamento como sendo “uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece”. Existem dezenas de outros pensamentos, uns sérios, outros engraçados, que buscam definir essa instituição secular, atualmente em crise. Entretanto, são poucos sobre “cinqüenta anos de casamento”. Por ser um evento raro, possivelmente dispense qualquer conceituação. Talvez por isso, poucos filósofos, poetas, sábios, futurólogos e religiosos se aventuraram em conceituá-lo.

Ele é autoexplicativo. Encerra toda uma vida, vivida a dois. Trata-se de acontecimento único e singular. Um momento que funde presente, passado e futuro. Na verdade, mesmo sem dizer uma só palavra, quem transmite u’a mensagem, lá do alto de meio século de convivência, são os cinquentenários “noivos”.

Lembrei, então, que todos nós, pelo menos uma vez, desejamos que o tempo tivesse parado em algum momento da nossa existência. Obviamente numa ocasião feliz, como a do nascimento de um filho ou de um neto. Se eles, os “cinquenta vezes noivos”, tivessem essa faculdade, suponho que escolheriam a inesquecível data de suas bodas. Se o tempo tivesse parado naquele dia, eles teriam a felicidade de ter, comemorando com eles, as pessoas muito queridas que lá estavam. Mas o tempo não para.

Ainda bem, pois se o relógio tivesse deixado de funcionar, sua vida se resumiria a uma fotografia amarelada. Não teria se transformado num belo filme. Uma película de muitos capítulos alegres, outros nem tanto. De emoções, de incertezas, de angústias, de vitórias. De alguns personagens que já partiram, enquanto muitos outros chegaram. Se os ponteiros do relógio tivessem parado, pouco teriam a comemorar. Não haveriam filhos, netos e bisnetos, nem tantos novos amigos.

Mas, afinal, qual o segredo de quem completa cinquenta anos junto? Ouso supor que ele esteja no fato de o casal ter procurado ser mais do que protagonista. De ter sido, ao mesmo tempo, diretor do filme da sua vida. Um diretor com uma visão otimista do futuro. Mas a verdade é que nem mesmo nas antigas seções “Você sabia?” a gente encontraria a resposta.

Aliás, caro e sábio leitor, você sabia que, aos 75 anos de casado, comemoram-se Bodas de Brilhante? Nesse caso, não há segredo. É milagre mesmo!

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ASMIR – 25 anos (clique)

16/05/2015 por bonat

Mal o ano começara e os brasileiros foram surpreendidos com um confisco. A inflação beirava incríveis 28% ao mês. Os Anões do Orçamento ocupavam as páginas dos jornais. Fatos como esses faziam parte da conjuntura nacional por ocasião da criação, em 10 de março de 1990, da Associação dos Militares da Reserva, Reformados e Pensionistas da Forças Armadas do Paraná, a ASMIR/PR.

Dois anos antes, uma Constituição extremamente detalhista havia sido promulgada. Os constituintes, com o olhar num embaçado espelho retrovisor, buscaram punir os militares que, embora tenham impedido a implantação de um regime totalitário e tentado tirar o país do atraso, acabariam levando a pecha de cruéis, sanguinários e implacáveis ditadores. Mas quem viveu entre 1964 e 1985 sabe: não há nada mais falso. Como nunca foram bobos, os Constituintes tinham, ao mesmo tempo, um olhar para o futuro. Para o seu futuro! Visando à frente, buscaram assegurar à classe política, de prefeito a presidente, de vereador a senador, todos os direitos e imunidades, régios salários e fartos recursos públicos para distribuir entre os partidos e para quantos apadrinhados quisessem nomear para cargos ditos de confiança. Tínhamos, agora, um Estado democrático de direito, era o que alardeavam. Talvez a denominação Estado democrático de justiça fosse a mais apropriada, mas não interessava.

No início de 1990, os Anões do Orçamento, como ficaram conhecidos alguns congressistas que armaram uma trama fraudulenta, estavam sendo investigados. Apesar de comprovado o seu crime, não foram condenados, muito menos devolveram a dinheirama roubada. A “Constituição Cidadã” os protegeu. Se vivêssemos num Estado democrático e de justiça, é bem possível que o resultado tivesse sido outro.

Na época, Collor havia deixado os brasileiros com míseros 50 Cruzados Novos no banco, fossem de simples contas correntes, fossem das cadernetas de poupança, até então garantidas pelo governo. Nem mesmo as empresas escaparam do confisco, que duraria 18 meses. O Plano Collor levaria à recessão, ao aumento do desemprego e à quebradeira geral. Estava posta a primeira, mas não a principal, razão para que, mais tarde, o primeiro presidente eleito, após 29 anos, de forma direta, fosse apeado do poder. O verdadeiro e inconfessável motivo foi o de ele ter contrariado interesses de poderosos grupos políticos e econômicos, alguns da grande mídia. Acusação: roubo de uma modesta FIAT Elba.

Mas nem tudo era má notícia em 1990. A produção de energia elétrica, ancorada em Itaipu e Tucuruí, era mais do que suficiente para sustentar o crescimento industrial. Investimentos pesados em pesquisa, iniciados após os choques do petróleo que, em 1973 e 1979, haviam desorganizado a nossa economia, acabaram por levar a Petrobras ao domínio da tecnologia de exploração em águas profundas e de produção de um combustível alternativo: o etanol. A produção de petróleo batia sucessivos recordes. Ultrapassava os 230 mil barris/dia, com perspectivas de crescimento. A Petrobras caminhava para tornar-se gigante.

Mesmo assim, o ambiente era de desencanto. Foi ele e a preocupação com os destinos da Nação, com o absurdo abismo salarial entre o três poderes e com o sentimento de desamparo dos que vestiam farda, que levaram um grupo de 109 militares da reserva e pensionistas das Forças Armadas a fundar a ASMIR – Paraná.

Aliada a suas congêneres espalhadas pelo Brasil, ela seria um instrumento para maior representatividade política, para mais efetiva participação nas decisões e para proteger a família militar e as Forças. Sua atuação não se limitaria ao campo político. Ela prestaria, também, assistência jurídica aos associados que dela necessitassem.

Ao longo dos últimos 25 anos, apesar de dificuldades de toda ordem, ela vem buscando cumprir o papel de representar e defender a coletividade militar; de manter vivos os laços de fraternidade, camaradagem e união, herança comum dos seus associados; de proporcionar assessoria jurídica e apoio sociocultural; e de ser a sua voz no meio politico, nas esferas municipal, estadual e federal.

Se mais não fez e mais não faz, não é por falta de dedicação e entusiasmo, que, aliás, possui de sobra. Talvez careça de mais compreensão e apoio do pessoal da reserva, ingrediente que estará ausente no bolo das Bodas de Prata que ora completa. Mesmo assim, há o que se comemorar. E muito!

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O 7 de Setembro na boquinha da garrafa (clique)

07/09/2014 por bonat

“Por sua imensidão – que é um presente da natureza – o Brasil é belo e forte, comparado a um gigante destemido. Essa grandeza toda se projeta como esperança de um grande futuro.” Assim explicou Marcelo Franz, professor de letras da PUC-PR, em matéria da Gazeta do Povo de hoje, uma das estrofes do Hino Nacional. Segundo ele, o que o difere do hino de outros países é o fato de enaltecer as belezas naturais do Brasil e não o espírito guerreiro. Mesmo assim, muita gente prefere a sanguinária Marselhesa… Fazer o quê?

A letra de Joaquim Osório Duque Estrada foi escrita logo após a proclamação da República, quando, definitivamente, rompemos nossas amarras com Portugal.

Na mesma matéria, outro professor, este da UFPR, diz que a letra é “empolada” e que ninguém entende absolutamente nada. Ora, caro professor, “desempolar o que parece empolado” não seria missão dos professores, como bem demonstrou o seu colega Marcelo?

Tudo bem que ele seja doutor em letras, mas bem que os de História, como o senhor, poderiam dar uma mãozinha! Ou o senhor também prefere a Marselhesa, cuja letra, certamente, é ainda mais ignorada pelos brasileiros? Ou, quem sabe, sua preferência não recaia sobre um hino à base do “boquinha da garrafa”? Aí talvez todo mundo iria compreender e entenderia melhor aonde o senhor parece querer nos levar: cada vez mais ao fundo do poço.

Apesar de estarmos contaminados pelo “nunca na história deste país” de um influente ex-presidente, não podemos esquecer que Pátria é, acima de tudo, continuidade histórica. Não temos o direito de esquecer das pessoas que já andaram por aqui, enfrentaram muita dificuldade, sofreram, trabalharam e até foram mortas, para que a nossa vez chegasse.

Pois essa gente não merece ser esquecida, muito menos considerada “empolada”. Com os poucos meios e conhecimentos que dispunham à sua época, parece que foram mais dignos do Brasil do que os da nossa geração.

Que história deixaremos como legado. A da “boquinha da garrafa”? Que julgamento os nossos bisnetos farão da nossa geração?

No ano em que comemoramos 192 de independência, ainda não conseguimos nos livrar de fortes influências externas. Quem passou antes de nós fez o possível, às vezes mais do que pôde. Por isso, eles não podem ser esquecidos.

Também não podemos esquecer que esta “Terra adorada/Entre outras mil/És tu, Brasil/Ó Pátria amada!”, ou, se preferirem: “Entre tantas outras que há no mundo, a terra que amamos é o Brasil”. Ao menos, deveria ser… Afinal, o Brasil é a nossa casa!

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Formatura do Faz de Conta

08/12/2012 por bonat

Um dia, quando os jardins de infância ainda não se denominavam escolas infantis, Milton Karam teve uma rara inspiração e compôs um hino que começa assim: “Faz de Conta, que o mundo cabe todo num jardim/ Faz de Conta, que o tempo é o mais lindo mandarim/ Faz de Conta, que a vida não tem começo nem fim”.

Pois hoje, Guilherme e Rafael, de beca e tudo, estão colando grau no Faz de Conta, nome que poderia nos remeter à situação atual do ensino no Brasil, onde se finge que ensina e se brinca que se aprende. Mas, ao contrário do que o nome possa sugerir, o “Faz”, como é carinhosamente chamado, é uma escola onde realmente se ensina e aprende, logicamente, de acordo com a faixa etária do “corpo discente”, que varia dos dois aos seis anos.

Como todo avô, sinto-me orgulhoso em ver os netos, praticamente alfabetizados, receberem o seu primeiro diploma. Ao mesmo tempo, sei que sentirão falta do local onde foram acolhidos, orientados, motivados e preparados para seguirem o seu caminho, agora em outra escola.

Durante cinco anos, imaginando que estavam brincando, eles aprenderam. Formaram alicerces morais e éticos, valores que os acompanharão ao longo da vida. Sentirão saudade de um espaço físico cuidadosamente mantido, acolhedor e das dedicadas “tias” que, fingindo que estavam brincando, lhes transmitiram muito ensinamento.

Recorro novamente a Milton Karam: ” … é o desejo /Que toda criança/Nunca se cansa de ter/É a vontade/Que nessa idade/A gente pare de crescer”.

Isso faz com que nós, os avós, retornemos a um passado que já vai distante, para relembrar da nossa inesquecível e saudosa primeira professora. Como lembrou o autor do hino, “como seria bom se, naquela idade, a gente tivesse parado de crescer”.

Claro, todos sabem ser impossível, pois o tempo continua sua marcha implacável em direção ao futuro. Por termos acompanhado o crescimento dos netos nessa sua primeira escola, estamos confiantes de que eles continuarão a crescer, sob todos os significados que esse verbo possa abranger.

Só nos resta agradecer à Professora Margaret Mehl Müller e a sua dedicada e competente equipe, que cuidam com tanto carinho do Faz de Conta e do que ele tem de mais valioso: os seus alunos, filhos dos nossos filhos, que são nossa imagem aprimorada, refletida num espelho. Por isso, e por me julgar, pela idade, no direito de ser repetitivo, volto ao Milton Karam: “Faz de Conta, que o mundo é um espelho de marfim/Faz de Conta, que o tempo saltou de um trampolim…”.

Durante a bela festa de final de ano que assistimos, emocionados ao ver nossos netos recebendo o “canudo”, por alguns momentos, saltamos de um trampolim e mergulhamos profundamente em nossa primeira sala de aula.

Pena termos tido que voltar ao presente. Mas quando o fizemos, vimos nossa imagem, rejuvenescida e aprimorada, com sua alegria, sua beca e o diploma, que não é de faz de conta. Nem ele, nem o futuro dessa gurizada, para quem a equipe do “Faz” construiu um firme e profundo alicerce, para ela não parar de crescer.

Que o Faz de Conta, assim como nossos netos, nunca pare de crescer!

Por fim, quero deixar o meu mais forte abraço a todos os avós, em especial à “Vó Hilma”, a eterna avó do Faz De Conta.

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Contestado: 100 anos de uma guerra cabocla

23/09/2012 por bonat

No início de novembro, uma Companhia de Florianópolis e uma Brigada de Curitiba estarão chegando a Três Barras. Ambas se autodenominam indestrutíveis. Logicamente, vão querer provar sua indestrutibilidade quando estiverem frente a frente. Há cem anos, essa notícia provocaria, no mínimo, inquietação. Havia iniciado a Guerra do Contestado, com a morte, no combate de Irani, do coronel João Gualberto e do monge José Maria, em 22 de outubro de 1912.

As “indestrutíveis” acima são viaturas militares antigas, recuperadas por pessoas abnegadas, dedicadas à preservação da história. Cuidam-nas com tanto carinho, que elas aparentam ter acabado de sair da fábrica. Segundo seus restauradores, o importante é preservar a “alma da viatura”. Sempre que chamadas, as associações sem fim lucrativo que eles criaram se fazem presente em eventos de natureza cultural, histórica e cívica. Abrilhantam, por exemplo, os desfiles de sete de setembro.

Agora, com a Guerra do Contestado completando 100 anos, eles estarão em Três Barras, a fim de prestar homenagem aos cerca de 20 mil brasileiros, soldados e civis, que tombaram naquele conflito.

A região contestada abrangia uma rica área, motivo de disputa entre Paraná e Santa Catarina. A questão de limites, desde meados do século XIX, punha em litígio os dois estados. Políticos locais interesseiros e a tradicional lentidão do judiciário em resolvê-la, prolongavam indefinidamente a sua solução.

Para complicar, como forma de pagamento pela construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, o governo federal – com a chancela dos estaduais – havia permitido que a Brazil Railway Company explorasse a madeira existente numa faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. O problema é que na região atravessada pelos trilhos habitavam caboclos, pessoas simples, que viviam em total abandono por parte das autoridades. Tratava-se de uma terra de ninguém, onde, devido à ausência do estado, imperava o banditismo. Foi esta gente abandonada que teve que sair da terra da qual, ao menos, conseguia tirar o seu sustento.

Logo, não foi difícil para figuras místicas de monges, que perambulavam pelo sul do país com o dom de curar multidões sofredoras, atraí-la com seu messianismo. A Igreja os abominava, uma vez que suas práticas não se coadunavam com a ortodoxia católica. Um desses monges foi José Maria. Alfabetizado, conhecedor de ervas medicinais, milagreiro, logo passou a ter um batalhão de seguidores, muitos dos quais haviam sido expulsos de suas terras.

Quando José Maria tombou em Irani, a fim de facilitar a sua ressurreição, os fiéis o sepultaram apenas com tábuas. Os caboclos acreditavam que ele voltaria acompanhado de um “exército encantado”, que os ajudaria a fortalecer a “monarquia celeste” e a derrubar a república, para eles um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos “coronéis”.

As atrocidades chegaram a um ponto tal, que o Exército foi chamado a intervir. O conflito já estava radicalizado. O comando coube ao General Setembrino de Carvalho. As tropas cercaram a área e, à medida em que o cerco apertava, foi-se reduzindo o poder do “exército encantado”. Após a conquista dos redutos de Pedras Brancas e de São Pedro, deu-se uma debandada geral dos revoltosos. A guerra chegara ao fim.

Como agravante, durante o conflito, um surto de tifo levou à morte cerca de seis mil pessoas. Para evitar que ele se alastrasse ainda mais, foram improvisados fornos, onde os corpos eram cremados logo após o óbito.

Além dos milhares de mortos, quem também saiu perdendo foi o Paraná. O acordo de limites, assinado em 1916, estabeleceu que a área contestada, que corresponde à metade oeste do Estado, ficaria com Santa Catarina.

Mas, além de Santa Catarina, quem ganhou? Obviamente que não foram os soldados e revoltosos mortos. Na verdade, poucos lucraram. No parágrafo abaixo estão dois, embora haja mais.

Em Três Barras, sede da Southerm Brazil Lumber and Colonization Company, os americanos montaram a maior serraria da América Latina para transformar em madeira as árvores derrubadas às margens da ferrovia. O secretário de obras públicas do Paraná, José Niepce da Silva, por não ser conivente com tal situação, pediu demissão. Já o vice-governador do Estado, Affonso Camargo, que era também advogado da Lumber, defendia os interesses da companhia em detrimento do interesse público. Enquanto o primeiro caiu no ostracismo, Affonso Camargo tornar-se-ia governador por dois mandatos. Em Santa Catarina, o advogado Nereu de Oliveira Ramos, filho do governador Vidal Ramos, também defendia os interesses da Lumber. Fez brilhante carreira política, chegando à Presidência da República.

Claro está que não será a esses, nem a outros do mesmo time, que os “indestrutíveis” pretendem prestar homenagem em Três Barras!

Curitiba sem carnaval e sem natal

01/08/2012 por bonat

Pessoas que fugiam da miséria e das guerras em seus países foram chegando e instalaram-se no primeiro planalto paranaense, juntando-se a portugueses, índios e negros que já viviam por aqui. Poloneses, alemães, ucranianos, russos, italianos, japoneses, holandeses, sírios, libaneses e muitos outros passaram a cultivar a terra, a produzir verduras, hortaliças, carnes, laticínios e móveis. Montaram pequenas indústrias. Algumas cresceram. A maioria já não existe, como Prosdócimo (refrigeradores), Providência (cervejas), Cimo (móveis), Essenfelder (pianos). Outras mantiveram o nome, mas acabaram vendidas. Essas mesmas pessoas chegaram até a controlar um banco de amplitude nacional, o Bamerindus, que também desapareceu.

A questão, para a qual não se encontra resposta, é como uma gente trabalhadora, corajosa para se embrenhar no sertão e transformá-lo em progresso, até hoje não conquistou o mesmo êxito em outros setores.

A justificativa mais comum tem sido sua timidez. Para comprová-la, citam o desanimado carnaval curitibano. Apesar do insistente apoio do poder público, os desfiles revelam total ausência de entusiasmo. Nem as crianças das escolas de samba conseguem disfarçar sua tristeza. Nas imagens em que aparecem em close, chama mais atenção a atraente publicidade das bebidas alcoólicas que patrocinam a pobre festa de um Momo, via de regra, também desalentado.

Outra suposição é a autofagia que impera entre os políticos paranaenses. Mais preocupados com seus projetos pessoais, não defendem os interesses do Estado. Autodestruindo-se, acabam destruindo o Estado.

Foi o que aconteceu com o Bamerindus. Apesar dos erros cometidos em sua gestão, havia como salvá-lo. Mas nem o governador nem os representantes em Brasília, por serem adversários políticos de José Eduardo de Andrade Vieira, o presidente do banco, moveram uma palha em sua defesa. Para azar de José Eduardo, o próprio presidente Fernando Henrique, de quem era ministro e para cuja eleição havia contribuído, virou-lhe as costas. Adepto da globalização, FHC a dizia inevitável. O Brasil, concordasse ou não, seria globalizado. O mais interessante é que não globalizava ninguém! Só quem podia globalizar eram as grandes potências. Sobrou para o Paraná. Falido em 1997, o Bamerindus foi parar, embalado para presente, no colo dos ingleses.

Ainda bem que, mesmo tendo desaparecido, ele deixou um legado que é orgulho dos curitibanos. Um dos poucos eventos da capital paranaense merecedor de figurar no calendário turístico nacional, o coral Bamerindus, hoje HSBC, é um espetáculo emocionante que se repete a cada ano. Resultado de um projeto social, ele é formado por crianças carentes, que saíram dos seus lares por determinação judicial por se encontrarem em situação de risco. Não sei se a contragosto dos novos proprietários, mas as crianças continuaram a ser apoiadas pelo banco.

Uma recente notícia foi recebida com preocupação pelos curitibanos: a de que o Ministério Público do Trabalho, tendo recebido denúncia (com que interesse?) de que os menores estão sendo explorados, deu início a uma investigação. Teme-se que as crianças, que se orgulham de participar do coral, que têm alegria de se sentirem artistas, que são apoiadas e cobradas em relação aos estudos, percam tudo isso.

Caso o pior venha a acontecer, algumas talvez migrem para os desanimados desfiles de carnaval. Neste caso, em breve veremos imagens de seus olhares tristes, emoldurados por propagandas de cerveja. Aí, como criança e álcool não combinam, espero que o Ministério Público receba, e acate, nova denúncia.

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