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Feliz Ano-Novo Chinês

04/01/2012 por bonat

Após certa quilometragem, tornei-me comedido ao festejar um novo ano. Não que eu seja tão velho, embora admita ter conhecido Kalashnikov, o inventor do fuzil AK-47, orgulho dos russos. Foi quando estive numa feira de armamento em Vladimir e me deparei com uma longa fila. Todos queriam o autógrafo daquele coronel, arqueado pelo tempo e por dezenas de condecorações. Cumprimentei-o, apenas. Não fotografei, do que me arrependo. Provaria não estar mentindo.

Na ocasião, outro fato me chamou a atenção. Havia comitivas pequenas – uma ou duas pessoas – de vários países. Americanos, exagerados, eram cinco. Chineses? Quase uma centena. Foi espantoso vê-los desembarcar dos ônibus. Seus uniformes os tornavam ainda mais iguais. E olha que chinos e russos nunca se deram muito bem. Porém queriam demonstrar força, não só aos russos, mas ao mundo todo que lá estava. Passados vinte anos, só agora percebo aonde os enigmáticos chineses pretendiam chegar.

O enigma chinês não é fácil de desvendar, mas, por questão de sobrevivência, é impositivo começar a estudá-lo. Quando nos deparamos com algo estranho, precisamos olhar mais profundamente.

Como vivemos os primeiros dias de um novo ano, comecemos pelo calendário. O chinês se relaciona a um dos 12 animais que teriam atendido ao chamamento de Buda. Assim, 2011 foi o ano do coelho; 2012, será do dragão; 2013, da cobra. Animais cada vez mais ferozes, transmitindo uma sensação, pelo menos para mim, de crescente ameaça. Conforta-me saber que, a partir de 2014, os bichos serão mais domáveis: cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco. Tomara!

Outro mistério é o mandarim, com seus inúmeros dialetos. É uma língua tonal e basicamente monossilábica. Diante dos seus símbolos, somos analfabetos. Ainda bem que, no caso do idioma, há certa reciprocidade. Levaríamos o mesmo tempo para aprendê-lo do que para explicar a um trabalhador chinês o significado de “Estado de bem-estar social”, aquele que tem ameaçado a existência da União Europeia. Suas dificuldades seriam imensas, pois seus dirigentes aprenderam com Mao a lhe sonegar informações. Por isso, contenta-se com um salário miserável, coisa inadmissível para trabalhadores do mundo ocidental. Graças a isso, a China despeja seus produtos em nossas lojas a preços irrisórios. Compete com nossa indústria que, taxada de todas as formas, começa a sentir-se ameaçada, assim como os empregos que gera.

O lado cruel do “capitalismo chinês” é a exploração do homem pelo homem. O isolamento a que o povo é submetido pelo governo, sonegando-lhe notícias de além-fronteira, é a face selvagem do “comunismo chinês”. Se perguntássemos a algum deles se ONGs estrangeiras tentaram impedir a construção da barragem das Três Gargantas, a maior do mundo, no rio Yangtze, ele responderia com um sorriso debochado. Se lhe contássemos que isso acontece por aqui, em relação a usina Belo Monte, daria gargalhadas. Conversar sobre aquecimento global? Nem pensar.

Parece complicado, não é? Pois nosso governo que trate logo de decifrar. Não podemos permanecer, com olhos de paisagem, admirando commodities desaparecerem no horizonte, para depois retornarem transformadas em manufaturas. Senão, nas próximas viradas, aqueles que ainda não tiverem perdido seus empregos, terão que comemorar com “cidra made in China”.

AMAN, nous sommes contents de vous!

19/12/2011 por bonat

“Soldats, je suis content de vous!” Paulo Chagas, com a rapidez da sua cavalaria, arremessou-nos com voz firme, reverberada por todos os cantos do imponente auditório acadêmico, até a aula do Coronel Panizzutti. Professor de oratória, ele valia-se de Napoleão para nos revelar os segredos daquele notável soldado-orador no uso das palavras para conquistar mentes e corações.

A partir daí, ao percorrer as linhas da sua bela alocução, Chagas folheou o livro de um tempo vivido há mais de quatro décadas. Sua voz continuou firme, por vezes embargou, mas não o impediu de chegar a 18 de dezembro de 1971. Na mesma toada com que a emoção tentava lhe derrubar, gotas de lágrimas teimavam em umedecer os olhos de todos. Mas, valentes, também conseguimos chegar juntos ao objetivo: o 18 de dezembro daquele ano longínquo.

Antes de a reunião encerrar, convidados a entoar a canção da Academia, enchemos os pulmões. Queríamos, como nos anos setenta, fazer tremer aquelas paredes e os valores que elas representam e preservam. Dessa vez, porém, fracassamos. Embora tentássemos, já no segundo verso as lágrimas uniram-se e, traidoras, viraram cachoeira. O hino, que era para ser de milhões de vozes, reduziu-se a um murmúrio. Que nos desculpem as vetustas paredes. Dessa feita, seus bravos cadetes não conseguiram fazê-las vibrar. Derrotou-nos a emoção.

Fomos para Resende, vindos dos mais remotos brasis, como filhos em busca do aconchego materno. Irmanados, embora distantes, desejávamos matar saudade da velha mãe. Não só dela, mas dos nossos irmãos e da nossa juventude. Sentíamo-nos obrigados a prestar-lhe contas após tantos anos decorridos, pois a sabemos exigente, não apenas com os filhos, mas também consigo mesma.

Fomos surpreendidos pelo rejuvenescimento daquela Senhora de 200 anos. Diante dela, parece que só quem envelheceu fomos nós, embora sejamos ainda sessentões.

Reencontramo-nos não só para rememorar tempos idos, seus personagens, seus fatos, seus desafios. Valho-me novamente do amigo Paulo Chagas: “Reencontramo-nos num lugar onde fomos abrigados, acolhidos, protegidos, instruídos, desafiados e testados. Numa casa que não é apenas uma casa, tampouco uma simples Academia Militar, mas, por sua importância em nossas vidas, pela maneira especial com que forjou nosso caráter, nossos sentimentos e nossos corações, deve ser e é vista e sentida por nós como uma entidade materna, digna do nosso mais puro amor e da nossa eterna e sincera gratidão”.

É justo manifestar o nosso agradecimento e homenagem aos companheiros de turma e aos atuais integrantes da Academia Militar das Agulhas Negras, que se esmeraram para nos proporcionar momentos de inenarrável emoção. A eles e à sempre jovem bicentenária Academia, parodiando Bonaparte, queremos proclamar: “Nous sommes contents de vous!”

Por fim, já que o “content” de Napoleão tem o significado de orgulho, permitam-nos acrescentar, com o coração vibrante de jovens Aspirantes da Turma Marechal Castello Branco: “Nous sommes contents de nous mêmes!”

31 de Março – Sílvio Santos vem aí

18/03/2011 por bonat

O SBT, a rede do senhor Sílvio Santos, levará ao ar mais uma novela que, pelas primeiras imagens, será novo fiasco. Nada a se admirar. Mau gosto é uma tradição da rede.

Admirável mesmo foi a guinada – que considero histórica – de mais um reconhecido capitalista para a esquerda. E, veja bem, não de um capitalista qualquer, mas de um dono de banco. Não há nada mais capitalista do que um banqueiro. Os bancários sabem do que estou falando.

Embora fosse um banco falido, era, afinal, um banco. Falido porque, segundo o sorridente empresário, alguns diretores maquiaram os números. O senhor do baú da felicidade, mostrando ter aprendido a lição, afirmou que de nada sabia. Aquilo não era com ele. Chegou a dizer que nem de dinheiro gostava, afrontando nossa inteligência.

Aí, veio a Caixa Econômica Federal e adquiriu o falido Banco Panamericano, salvando o senhor do baú. Sílvio Santos ficou muito agradecido aos amigos que, usando o dinheiro do contribuinte, o tiraram de debaixo dos escombros, sem se saber ao certo por quê. Para demonstrar sua gratidão, ele autorizou (ou determinou?) que o seu SBT exibisse uma novela na qual, novamente, os militares serão execrados.

Moral desta história imoral: mais um banco faliu e os milicos pagarão a conta. Porém, ao menos desta vez, eles não estão sozinhos, pois contam com a agradável companhia dos contribuintes.

Acredito que você, caro leitor-telespectador-contribuinte, não conseguirá resistir até o terceiro capítulo do dito folhetim televisivo. Mas, se quiser tentar, informo que o primeiro capítulo parece que irá ao ar, por coincidência, no próximo 31 de março.

A meu ver, seu destino será um fracasso de público, como “Filho do Brasil”, filme patrocinado por capitalistas que vivem de benesses do Estado. Claro que, mesmo sem saber, você também o patrocinou. Ainda bem que nesta obra os milicos, ao menos, não foram execrados. Ou foram? Sei lá. A turma mente tanto que já estamos nos acostumando. Mas acostumar-se não significa aplaudir Pinóquio. Muito menos assistir aos seus grotescos e mentirosos filmes.

Não gostamos nem da direita nem da esquerda. Muito menos de capitalistas e comunistas. Amamos mesmo é o povo brasileiro que, inocentemente, tornou-se vítima de tantas safadezas.

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Monte Castello

27/02/2011 por bonat

O passado certamente não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. Reencontrar, nas comemorações da Tomada – prefiro Conquista – de Monte Castello, os remanescentes dos vinte e cinco mil pracinhas que lutaram na Itália, propiciou-nos retornar a um momento importante da nossa história.

A mistura explosiva de um orador fluente e de um país mergulhado no caos, devido às pesadas restrições que lhe foram impostas em Versalhes, havia levado à ditadura nazista. Com a ajuda de Joseph Goebbels, espécie de marqueteiro da época, tornou-se fácil a conversão do povo alemão. Hitler governou com poderes ilimitados. E deu no que deu: quarenta e cinco milhões de mortos.

O 21 de fevereiro de 1945 foi um dia de glória para os brasileiros. Finalmente, a bandeira verde e amarela fora hasteada em Monte Castello, para não mais sair. As inúmeras baixas sofridas nos quatro ataques anteriores não haviam intimidado nossos soldados. Ao contrário, deram-lhes mais ânimo e coragem para enfrentar as tropas alemãs, entricheiradas em posições elevadas e fortemente artilhadas. A quinta tentativa não poderia falhar, como não falhou. Abria-se, enfim, o caminho para Bolonha. O Exército de Hitler estava agora praticamente derrotado no front italiano.

A serenidade dos octogenários pracinhas fundamenta-se no orgulho de terem ajudado a pôr fim na louca aventura nazista. Eles sabem o frio que passaram, a saudade que sentiram e o medo que venceram. Somente eles, mais ninguém, principalmente os que estavam nas trincheiras opostas, a quem era preciso mostrar, a qualquer custo, que não existe raça superior ou inferior. Só eles sabem o quanto custou a vitória. Só eles vivenciaram aquele momento único, triunfal, de fincar, lá no alto do Monte Castello, a bandeira do Brasil.

A participação brasileira na II Grande Guerra pode ser considerada pequena, mas foi significativa. Fomos o único país da América do Sul a estar efetivamente presente no teatro de operações.

Tivemos 451 mortos, o que não foi pouco. Num exercício de imaginação, vamos supor que os 451 ressuscitassem agora. Iriam surpreender-se, pois o mundo avançou séculos nos sessenta e seis anos que ligam aqueles difíceis tempos aos atuais. Ficariam orgulhosos ao ver como industrializou-se o Brasil rural da década de quarenta. Dos inúmeros avanços tecnológicos, possivelmente a televisão seria o que lhes chamasse mais a atenção.

Ao saberem das novidades sobre política, pensariam estar no Saara, tamanho é o atual deserto de dignidade. Nos intervalos dos telejornais, veriam que os marqueteiros continuam em moda, tanto se esbanja o suado dinheirinho do contribuinte para a autopromoção dos nossos dirigentes.

Ao assistirem às matérias sobre a revolta na Líbia, observariam que o Mediterrâneo continua importante e conflituoso. Ficariam indignados quando soubessem que o ditador líbio ordenou à sua força aérea que bombardeasse seus próprios compatriotas.

Se lhes fossem mostradas fotografias de algum ex-presidente do Brasil sorrindo alegremente junto ao senhor Kadaffi, nos perguntariam: ele ri de quê? Não saberíamos responder. Eles, que deram a vida pelo Brasil e pela liberdade, nos olhariam com desprezo e voltariam correndo ao seu altivo passado.

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O olhar da Baronesa

02/01/2011 por bonat

Mais um ano se vai. Neste, como nos anteriores, uma fotografia, a mesma de sempre, de cavalos e cavaleiros perseguindo estudantes no Rio de Janeiro, volta e meia apareceu em revistas, jornais e na internet.

Em 2010, o diferencial foi a UNE ter ganho de presente uma nova sede, que consumirá R$ 44,6 milhões, o que não seria de nossa conta, desde que não saíssem do erário público. A culpa recairia, aparentemente, naqueles da foto de 1968, repetida incessantemente até que a razão maior fosse agora revelada: sacar dos cofres da viúva muito além do necessário para uma obra daquele porte.

Embora pareça patético, não é despropositado defender os equinos, que não merecem continuar a ter a imagem, por mais tempo ainda, maculada. Para você compreendê-los melhor, relato o caso que tive com Baronesa naqueles tempos longínquos.

Disseram que para entrar na baia, bastava dar um tapa na parede, que ela logo se afastaria para o lado. Uma palmada, um coice. Segunda palmada, outro coice. Só depois da terceira é que sua anca moveu-se o suficiente para eu passar espremido. Quando, finalmente, consegui chegar ao lado de sua longa face, ela fulminou-me com um olhar de “aqui não, guri”, o que eu, aos dezoito anos, realmente era.

Assim começou meu relacionamento com Baronesa, uma das inúmeras exigências curriculares da Academia Militar, que custou-me alguns tombos e voltas a pé até a baia. Travamos luta constante, um tentando provar que era mais forte e mais inteligente do que o outro.

No final do ano, Baronesa se revelaria uma campeã. Zerou, comigo em cima, a pista de saltos, ultrapassando com estilo todos os obstáculos, provavelmente para não ter que repeti-los. Queria mesmo era ver-se livre de mim e antecipar suas férias de verão.

Enquanto isso, o pau comia em Paris. “É proibido proibir”, ouvia-se em Champs-Élysées, logo repetido por alguns jovens cariocas. Gravuras de estudantes, cavalos e cavaleiros, de lá e de cá, correram o mundo. Um olhar retrospectivo impõe uma conclusão incômoda: se não havia guerra, com certeza também não havia paz. Mais incômodo ainda é admitir que havia guerra entre as duas potências, enquanto a paz era vitimada em outras nações.

Portanto, apesar de não ter formado com Baronesa o que os especialistas denominam “conjunto”, julgo importante afirmar que ela e seus semelhantes não merecem ser considerados inimigos eternos dos estudantes. Nem eles, nem os que os montavam nos anos sessenta.

O incrível é ver aqueles que hoje se beneficiam do “proibido proibir” francês admirarem um contumaz proibidor, o senhor Hugo Chávez. Existe aí mais do que uma contradição. Há um parodoxo vicioso, tal qual “erário privado”, como eles supõem ser a fonte da qual sorverão milhões para erguer a nova sede.

Embora poucos comentem, muitos os acompanham com o mesmo olhar de indignação da Baronesa, querendo dizer: “que feio, guris”.

Um Papai Noel de Gauche

09/12/2010 por bonat

A confusão na Sierra Maestra custara a vida de um garçom. A viúva estava desesperada, pois o patrão não pagara os encargos sociais do falecido. Petrolino dobrou o jornal e, pela janela, viu ônibus passarem lotados. No seu, climatizado, ninguém ia em pé, exceto em dia de protestos como aquele. Circulando pelo corredor, o representante do sindicato dava instruções de como proceder quando parassem na entrada da refinaria.

Petrolino era extremamente dedicado à empresa. Ganhava muito bem. Numa época de dólar supervalorizado, os reajustes acompanhavam as variações da moeda americana. Quem pagava era o consumidor. O combustível mais caro elevava a inflação às alturas. Por ter consciência disso, Petrolino considerava exageradas certas reivindicações. Se pudesse, não desembarcaria. Mas não tinha opção. Um carro de som bloqueava a passagem do ônibus, enquanto piqueteiros ameaçavam quem tentasse prosseguir à pé.

Entusiasmado com a presença maciça da imprensa, o presidente do sindicato deitou falação por mais de hora. Lá do alto, bradou por outro reajuste. Exigiu ônibus novos para transpotar o pessoal (Petrolino lembrou-se do povão no busão), mais direitos sociais (aqueles negados à pobre viúva do garçom), adicional de periculosidade, inclusive para os dirigentes do sindicato (o mesmo dos colegas que se arriscavam nas plataformas em alto-mar) e outras tantas benesses. Ao encerrar, a voz irada, ampliada pela aparelhagem de som, ameaçou com greve.

De volta ao ônibus, Petrolino foi questionado pelo vizinho de poltrona se ouvira falar na boate Sierra Maestra. “Li algo a respeito”. “Sabe quem é o dono? O moço que acaba de discursar”. No dia seguinte, o líder petroleiro foi primeira página dos jornais. Do proprietário da Sierra Maestra, embora fosse a mesma pessoa, não mais se falou.

Atualmente, os ex-chefões do sindicato, que pouco sofreram com o ar pesado da refinaria, ocupam altos cargos em estatais, enquanto o quase setentão Petrolino é apenas o aposentado do quinto andar. Amargurado, percebe que ninguém se lembra de sua dedicação à empresa. Sente-se um morto-vivo. Decide reagir e mergulha nas obras de Jean-Paul Sartre e Rimbaud. Descobre que sua vocação era ser de “gauche”, não um esquerdista qualquer. Nem por isso deixa de criticar a França por nunca ter aplicado as teorias dos seus brilhantes filósofos, preferindo exportá-las. Se não deram certo na União Soviética, é porque foram mal interpretadas.

Passa a saudar a todos com um “bon jour” e a tratar de modo raivoso aquele burguês, dono da mercearia, que o explora. Precisa mudar o visual, pois imagem é tudo. Deixa crescer barba e cabelo. São brancos, mas pouco importa. Inspirado em Chávez, compra um par de botas, boina e camisa vermelhas. Mas, para impactar, providencia uma calça também vermelha, ou “rouge”, como diz quando quer impressionar os vizinhos. Com a nova vestimenta, perambula ruidosamente pelo bairro, espalhando sua revolução.

Em dezembro, a filha chega para passar o Natal. Ele quer mostrar-lhe como tinha evoluído. Aguarda-a vestido à caráter. Quando a porta se abre, os netos correm para abraçá-lo: “Papai Noel, nós te amamos”!

Rendido à pureza das crianças, o radical Petrolino espera só o Natal passar para voltar a ser o velho Petrolino, orgulhoso por ter ajudado, honestamente, o país a alcançar a autossuficiência. Raspa a barba e rasga a fantasia, que tacha de “ridicule”. Por sorte, os netos ainda lhe perdoam certos galicismos.

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Avenida Independência

31/08/2010 por bonat

“A quarenta metros, entre à esquerda na Avenida Brasil”. A ordem parte do GPS (Global Positioning System ou, em português, Geo-Posicionamento por Satélite) afixado no painel do carro. Se não obedecermos, uma voz, suave para não melindrar nosso brio nacionalista, chamará à atenção, o aparelho recalculará a rota e continuará a comandar nosso destino.

Embora o Sete de Setembro seja festejado como a data da independência política, ela só se concretizou de fato alguns anos mais tarde. A proclamação de D. Pedro, em 1822, às margens do Ipiranga, não foi aceita pelas tropas portuguesas ainda fortes em várias Províncias. Obrigá-las a voltar para Portugal custou muitas vidas. Para não me alongar, recordarei apenas das 252 (para alguns foram 254) asfixiadas nos porões do brigue “São José Diligente”, no porto de Belém. Faço questão de mencioná-las nestes tempos de “nunca antes na história”, pois andamos com a sensação de que surgimos do nada e, por isso mesmo, somos obrigados a importar heróis como guevaras e outros quetais, além de avanços como o GPS.

Entretanto, se alcançamos a independência no campo político, o mesmo não ocorreu no econômico. Teríamos obtido se, ao longo do tempo, houvéssemos investido em educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Culpa das elites, tanto as do período imperial quanto do republicano. Fortemente influenciadas pela Igreja, elas se encantaram com o brilho do ouro e não com o da ciência, para quem os papas sempre fizeram careta, temerosos de ver seus dogmas desmentidos, como aquele de que a Terra era o centro do universo. Induziram-nos a crer que Deus era brasileiro. Portanto, nada nos faltaria.

Nossas elites políticas (elas detestam ser assim denominadas) contemporâneas estão tornando a realidade ainda pior. É só olhar nossa pauta de exportações para perceber. Tendo como carro-chefe o minério de ferro, ela reflete uma crescente subordinação ao humor econômico mundial e ao avanço de outras nações. Para não ficar na mesmice de velhos exemplos, cito os recentes da Coreia do Sul e da China. Durante décadas, elas investiram maciçamente em educação. Agora colhem os resultados. Enquanto isso, por aqui, filosofia e sociologia são acrescidas aos currículos do ensino médio, com prejuízo para as já mal-ensinadas ciências exatas.

Não nos faltam recursos. Faltassem, e o governo não doaria todo ano um montão de dinheiro para as centrais sindicais, que, diga-se de passagem, nada produzem. Ao priorizá-las, em detrimento da educação e do fomento à pesquisa científica e tecnológica, está nos condenando ao atraso. Essa dinheirama toda representaria um investimento se fosse aplicada na oferta de mais bolsas de estudos pelo CNPq. Somente assim as gerações futuras teriam alguma chance de ouvir dos seus GPS: “Entrem na Avenida Independência e sigam em frente”.

De Norma para Norma

03/02/2010 por bonat

Abro uma exceção neste site para transcrever a mensagem que minha sogra (Norma) escreveu para minha mulher (Norma Tereza). De certa forma, tento compensar a frustração da primeira. Explico: fomos comemorar os 55 anos da segunda Norma no famoso Restaurante Madalosso, aqui em Curitiba. Além de nós, meus filhos, noras e cunhados, havia uma multidão jantando. E ela queria porque queria ler o texto abaixo. Claro que era impossível, inimaginável fazer as centenas de outras pessoas, desconhecidas para nós, que lá estavam ficarem em silêncio para que ela pudesse “discursar”.
Assim, aí vai esta bonita declaração de amor de uma mãe para sua filha. Espero que você goste.
Hamilton Bonat

De Norma para Norma
Por Norma Calderaro (Curitiba, 14Jan2010)

A forma de amar da pessoa a quem me dirijo é bem diferente das outras.
Hoje, 14 de janeiro, é seu aniversário. Dirijo-me a ela, perfeita e maravilhosamente bem. Isso quando ela quer me escutar.
Seu coração foi feito para amar e ser amado, e não para odiar.
A certeza de amar os seus traz para o seu coração euforia, alegria
para a alma e felicidade para a sua vida.
Todo amor está em seu ser: o amor de Deus, o amor conjugal, o amor
materno e o amor a si mesma, este, incontido e permanente.
Não corre dos obstáculos. Pelo contrário, é estimulada por eles.
Seu amor difere de qualquer outro por ser único e seletivo.
Ele é importante e se propaga em todos os sentidos. Sua manutenção é a sua família.
Seu amor em alta expressão é o Hamilton, seu maridão, que deve ser
respeitado. Feri-lo é cometer falta imperdoável.
E seu amor materno… Este não conhece limites e constrangimentos. É tão importante ser mãe, que Deus elegeu uma mulher para ser a mãe do seu Filho aqui na Terra.
Norma, saiba falar de si mesma, não tenha medo dos próprios sentimentos.
Seja feliz, monte um oásis no recôndito de sua alma e agradeça a Deus
pelo milagre do amor e da vida.
Tenha sentimentos afáveis com os amigos, mesmo que eles a magoem.
Tenha coragem para ouvir um não.
Tenha segurança para ouvir uma crítica, mesmo que injusta.
Tenha maturidade para dizer “me perdoe”.
Tenha ousadia para dizer “eu preciso de você”.
E tenha capacidade para dizer “eu te amo”.
Você pode ter defeitos, viver ansiosa e ficar irritada, mas não
esqueça que sua vida é a maior empresa do mundo. Só você pode evitar que ela vá à falência.
Há muitas pessoas que a admiram, procuram e torcem por você. Reconheça que vale à pena viver a vida com amor.
Lembre-se de que ser feliz não é ter um céu sem tempestades, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas e relacionamentos sem decepções.
Ser feliz não é uma obra do destino, mas uma conquista de quem luta para viver.
Deixe de ser vítima dos problemas e torne-se a autora da sua própria história.
Que você tenha sabedoria em seus invernos. Quando errar o caminho,
recomece tudo de novo, pois assim ficará apaixonada pelo seu viver,
descobrirá que você é uma heroína e tem uma vida perfeita.
Use suas lágrimas para irrigar a tolerância. Use as perdas para
refinar sua paciência. Use suas falhas para manter sua serenidade.
Use os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Jamais desista de si mesma. Jamais deixe de ser feliz.
Sua vida é um espetáculo e você, Norma Tereza, é a atriz principal.
Você é especial!
Receba minha bênção em 2010.

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Aos amigos que me visitaram em 2009

11/01/2010 por bonat

Blogs, sites ou páginas na internet são especialidades da Intime, empresa do meu filho. Em abril de 2008, como eu já escrevia crônicas para alguns jornais, ele propôs criar um Blog (alguns dizem que é site) onde eu as postaria.

Relutei. Lembro bem da pergunta que fiz a ele (meu filho): “Como não sou nenhuma celebridade, quem acessará o meu Blog”? Ele convenceu-me explicando que as pessoas, ao digitarem uma palavra num site de busca (o Google é o mais conhecido), poderiam encontrar o que procuravam num dos meus textos.

Meio desconfiado, topei a parada. Além das crônicas, decidi incluir alguns discursos que proferi ao longo dos meus mais de quarenta anos de serviço e outros em eventos familiares. Seria a maneira de deixar registrados momentos importantes da minha vida bem como de agradecer a inúmeros amigos que me ajudaram a percorrer uma jornada que já vai longa.

Uma rápida comparação das estatísticas de 2009 com as do ano anterior permite constatar que houve uma evolução. Foram 12.123 visitas, isto é, 33,2 por dia ou 1.010 por mês (contra15,7 e 452 em 2008). Foram acessadas 37.265 páginas, o que representa 102,1 por dia ou 3.105 por mês (69,5 e 2.085 em 2008).

Portanto, faço questão de comemorar com todos os que acessaram, leram e comentaram as matérias que escrevi. Sou grato aos que sugeriram e deram força para que eu transformasse algumas das crônicas por mim assinadas num livro que a Editora Ithala publicou. Aos que me prestigiaram, comparecendo ao seu lançamento em Curitiba, Caxias do Sul, Brasília, Guarujá e Santos, sou particularmente reconhecido. Gostaria de enviar o “Sessenta Crônicas”aos amigos que ainda não tiveram a oportunidade de recebê-lo. Aos interessados, peço que informem o endereço por e-mail para – hamiltonbonat@hotmail.com -, que ficarei muito feliz em remeter um exemplar.

Por fim, formulo votos de um Feliz 2010, ano em que espero continuar a contar com suas importantes visitas e estimulantes comentários. Aceitem meu abraço fraterno.

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Papai Noel existe

22/12/2009 por bonat

Ao saber que Papai Noel não existia, Pedrinho ficou desapontado. Descobrira que seus pais o haviam enganado durante muito tempo. Como, além disso, obrigaram-no a mentir – ato que classificavam como pecado – para o irmão caçula, passou a desconfiar de todo mundo. Dizem estar aí o nosso pecado original. A partir dele, outros podem ser admitidos e, até, perdoados.

Os pais se justificam sob o argumento de que se trata de uma mentirinha inocente, com o intuito de ter as crianças comportadas na esperança de ganhar presentes do bom velhinho. A questão que se põe é como ficam os meninos pobres que, mesmo sendo comportados, nada recebem.

Em defesa dos pais, afirmo que Papai Noel existe. Para comprovar, relato um fato ocorrido em Guarujá.

Eu comandava a Brigada Antiaérea. Meu relações públicas – Tenente Pablo Moitinho – disse-me que uma pessoa estava solicitando seis soldados para escoltá-la numa favela. Minha resposta foi um seco não. Pablo insistiu que era por uma boa causa. Sugeriu-me que a escutasse. Concordei.

Vejam o que me contou a dita pessoa: “Passo o ano arrecadando brinquedos. Em dezembro, me visto de Papai Noel e os distribuo em bairros da periferia. No ano passado, quase houve uma tragédia. A criançada se atirava na frente do caminhão. Algumas quase foram atropeladas. Além do mais, foi difícil organizar a fila, pois todas temiam que os brinquedos terminassem antes de chegar a sua vez. Para evitar que isso se repita, resolvi pedir sua ajuda”.

Desconfiado, perguntei-lhe se não estaria preparando o seu ingresso na política.

“De jeito nenhum. Há dez anos faço isso e ninguém sabe, e nem vai saber, que sou eu o Papai Noel”.

Senti sinceridade naquele homem, a quem passarei a chamar pelo fictício nome de Natal. Acreditei e topei a parada. Cedi-lhe cinco soldados, sob o comando de um sargento. Este, após a “missão”, relatou-me da emoção que sentiu ao ver o brilho nos olhos da meninada.

Até hoje, no Guarujá, ninguém sabe quem é Natal, embora ele continue a levar alegria para muitas crianças. Além dele, deve haver milhares de “Natais” por aí. São os Papais Noéis de verdade. Ignorá-los seria o mesmo que duvidar da existência do Bem, ente que ninguém vê porque ele não é candidato a nada, mas está por todos os cantos e em todas as classes sociais.

Tomara que algum dos meus jovens soldados que escoltaram Natal tenha seguido o seu exemplo e se tornado, também, um Papai Noel de verdade. Seria outro ótimo presente de Natal.

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