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1908 - Brasil e Japão abraçam o mundo

27/03/2008 por bonat

No fim da rua havia um campo de pelada e uma velha casa de madeira. O campinho era de terra. O quintal da casa, ao contrário, era verde, não de grama, mas de pés de alface, tomate e cenoura.

Ao cair da tarde, terminados os deveres da escola, alguns meninos da redondeza se dirigiam ao campo careca. Outros, avessos aos estudos, já os aguardavam. Dava a impressão que moravam ali. Quem nunca aparecia eram os garotos da casa de madeira. Eram muito pobres. O mais velho ajudava na horta e, de madrugada, acompanhava o pai na feira. Os mais novos não desgrudavam dos livros. Era comum a bola cair no meio da plantação. Quando demoravam a devolvê-la, a turminha da pelada entoava: “Japonês da cara chata, come queijo com barata”. Se essa história não fosse de meados dos anos cinqüenta, seria válido imaginar tratar-se apenas de maldade de adolescentes, seres sabidamente preconceituosos.

A Segunda Guerra trouxera muita desconfiança em relação aos imigrantes oriundos dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Por terem sido os últimos a chegar, os japoneses e seus descendentes sofreram mais os seus efeitos, que se estenderiam até o pós-guerra. Muitos refugiaram-se no interior. Passaram a viver quase reclusos, dedicando-se ao trabalho e aos estudos. Foi um período difícil. Com o tempo, a aversão foi esmaecendo. Quando o antiniponismo diminuiu, os sanseis estavam prontos para vencer.

Costuma-se brincar que trinta japoneses inscritos para um vestibular representam trinta vagas a menos para os demais candidatos. Isso porque, enquanto alguns dos nossos jovens preferem “morar” num campo de pelada, eles preparam-se para a vida.

Forçados a abandonar seus países por diferentes razões, europeus, africanos e asiáticos vieram aportar no Brasil. Todos enfrentaram desafios, aprenderam uns com os outros, respeitaram a diversidade e uniram-se na adversidade. Deixaram para trás antigas rixas entre suas nações e tornaram-se um só povo. Com os passageiros do Kasato Maru e seus filhos não foi diferente. Hoje os encontramos em diversos setores, integrados à nossa sociedade.

O 18 de junho de 1908 tem um significado mais abrangente do que a chegada dos primeiros isseis – marca o dia em que Brasil e Japão deram-se as mãos e, fraternalmente, abraçaram o mundo. Temos orgulho destes brasileiros.

 

 

 

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2008 sem cassetete

01/01/2008 por bonat

Nunca se sabe direito o que nos reserva um ano que inicia. Certeza mesmo, é que em 2008 não conviveremos com a CPMF. Queria ter coragem de confessar-lhe, caro leitor, que sou favorável a essa contribuição. Gostaria até que fosse aumentada para 10%, desde que todos os impostos fossem extintos. Solução simples demais, lógica demais, óbvia demais, que não consigo comprovar com meus rudimentares conhecimentos de matemática. É apenas “feeling”.

O estrangeirismo “feeling” aí de cima faz-me lembrar de um amigo que está esperançoso com o novo ano. Chama-se Jackson e odeia tanto seu nome, que se apresenta pelo apelido: “muito prazer, Jajá”. Diz que Jackson não é nome, no que está correto. No idioma inglês, é sobrenome. Tentou várias vezes mudá-lo, todas sem sucesso. Agora suas esperanças renascem. Em 2008, deverá ir a plenário projeto-de-lei que veta estrangeirismos, particularmente em documentos oficiais. Como certidão de nascimento é documento oficial, Jajá não precisará nem de advogado para dela tirar o estrangeiríssimo Jackson.

Apesar da alegria por ver um amigo esperançoso, não deixei de estranhar a idéia de preservar a soberania nacional entre os argumentos do propositor da nova lei. Ora, a soberania nacional é conquistada, entre outras coisas, pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Basta lembrar de algumas palavras estrangeiras que já fazem parte do nosso vocabulário: telefone, celular, rádio, televisão, computador, internet, software, hardware. São inventos de sociedades que investem em pesquisa e depois nos exportam os produtos e, logicamente, os nomes. Enquanto isso, nossos legisladores ficam a produzir leis que só servem para comprovar nosso atraso, pelo qual eles são, em grande parte, responsáveis (ou não são?).

 A esta altura, Jackson, o Jajá, deve estar perguntando: e como fica o meu nome-sobrenome? Se a lei for aprovada, Jajá será uma das duas razões para ficarmos felizes. A outra dependerá do chamado “espírito da lei”. Se for discriminatória e abranger apenas palavras inglesas, o que é uma tendência da esquerda nacional, tremendamente influenciada pelos filósofos franceses, não haverá outro motivo para comemorar. Mas, se abranger todos os idiomas, a felicidade se estenderá aos arruaceiros que se infiltram nas torcidas organizadas a fim de cometer atos de vandalismo. Contra eles, a polícia não poderá mais usar seus cassetetes. Esse galicismo, que traduzido para o português significa quebra-cabeças, parece ter sido um dos últimos avanços tecnológicos inventado pelos franceses. No mais, eles ficam a criar leis bizarras, que a esquerda brasileira adora copiar.

Aproveito para, enquanto é permitido, enviar a você meus melhores votos de “Happy New Year”.

 

 

 

 

 

 

Secos e molhados

16/01/2007 por bonat

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso estar assim há algum tempo. A transição do ano velho para o novo 2007 trouxe-me tantas preocupações, que acabou secando minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, uma mensagem de otimismo. Notícias tornaram-me incrédulo em relação ao futuro dos nossos filhos e netos.

Autoridades do Judiciário e do Legislativo tentaram furar o teto salarial com sua lança antiética, autoconcedendo-se um gordo presente de Natal. Teriam conseguido, não fossem os protestos da imprensa e de parte da sociedade.

Ainda no final de 2006, foi divulgado o vídeo de uma brasileira fazendo sexo em praia espanhola. Mesmo estando em local público e, portanto, cometendo um crime, a celebridade entrou na justiça para impedir sua divulgação.

Sou do tempo em que o sonho de todo adolescente era ter a primeira noite com uma francesa. Os franceses, sabiamente, passaram o troféu para as brasileiras. Hoje, aconselha-se às nossas compatriotas que, ao viajarem para o exterior, ocultem sua nacionalidade. Senão, logo receberão uma cantada.

  O carnaval se aproxima.  Nossa mais poderosa rede de TV, em suas chamadas para a festa, tem exposto o bumbum de loiras e mulatas, verdadeiro convite ao turismo sexual. Mais tarde, a mesma rede mostrar-se-á hipocritamente preocupada com a vinda de estrangeiros em busca de sexo barato em nosso litoral. O Big Brother, símbolo do nosso atraso intelectual e moral, continua em alta.

Os apagões aéreo e rodoviário (sem falar no ferroviário, já crônico) prenunciam a inviabilidade de nossa expansão. O energético só espera a economia crescer para se manifestar.

O “socialismo o muerte” de Hugo Chávez nos arremessa a um retrógrado passado de violência. “Muerte“ de quem? Por certo, o senhor Chávez, com tanto poder e a riqueza dos petrodólares, não pensa partir tão cedo. Então, que se cuidem seus adversários. Se, além de parodiar, ele pretende imitar o “Comandante”, deve estar imaginando instituir o “paredón” venezuelano.

Uma boa notícia poderia ter-nos alegrado: o Cow Parede, evento realizado em Curitiba a fim de arrecadar recursos para instituições de apoio à criança. Trata-se de idéia surgida em Zurique e repetida mundo afora. Boas idéias devem ser imitadas. No Brasil, as populações de Belo Horizonte e São Paulo já haviam se deliciado com as simpáticas vaquinhas. Mas não é que na minha Curitiba, famosa por ser ordeira e civilizada, algumas das acrílicas mimosas viriam a sofrer atos de vandalismo!

Não esqueçamos de que o gado é dos animais mais globalizados, que nos fornece o leite e o tão apreciado churrasco. Podia estar aí o primeiro indício sobre o autor do crime: um vegetariano, pista logo descartada ao lembrarmos que, por razões óbvias, vacas também são contra o consumo de carne vermelha. Descobrir quem danificou as obras de arte não é o mais importante. O grave no caso é a revelação de como estamos regredindo moral e socialmente.

Todo esse quadro econômico, político e, principalmente, ético e moral, torna-me cético quanto ao futuro. Há soluções. Espero que pessoas responsáveis logo as encontrem. Caso contrário, o velho comércio de secos e molhados vai virar um “armazém de secos”.

 

 

 

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Dia da Pátria

07/09/2006 por bonat

Ao abordar o tema patriotismo, vem-me a preocupação de não transmitir a idéia de que este seja um assunto exclusivo dos militares. Embora tenha vestido farda por mais de 41 anos, o que, vamos convir, exerce enorme influência sobre meus pensamentos e ações, vou tentar falar como um cidadão brasileiro que vive, sofre, alegra-se e sente as conseqüências de tudo o que aqui se faz de certo ou errado.

O Brasil, como qualquer país, passa ora por bons, ora por maus períodos. O problema é algumas pessoas acreditarem que dificuldades conjunturais possam fazer diminuir o sentimento patriótico do nosso povo, quando, na verdade, ele é uma chama interior que nos dá força nas horas de desesperança.

Pátria não é apenas o país onde nascemos, ao qual nosso ser está preso pelas mais profundas raízes. Representa muito mais – é continuidade histórica, patrimônio comum, emoção, é coração. Não é de ninguém, pois a todos pertence.

 O Sete de Setembro oferece a oportunidade para demonstrarmos o orgulho de ser brasileiro. É o momento de nos questionarmos sobre o que podemos fazer para o engrandecimento da nossa Pátria. E a resposta me parece simples - basta que cada um de nós procure ser uma pessoa de bem, termo em desuso, mas que resume o compromisso que devemos ter com nossos compatriotas.

Um país nunca será maior do que o amor que lhe dedicam seus filhos. Nosso dever com as futuras gerações é o de lhes transmitir o valor das coisas que são somente nossas e que nos caracterizam como nação. Assim fazendo, a cada Sete de Setembro teremos uma Pátria mais forte e mais independente.

Quantos nos invejam por sermos um povo inteligente, criativo e desprovido de toda ordem de preconceito! Quantos gostariam de possuir imensas riquezas naturais como as nossas! Quantos admiram nossa história, rica de vultos que merecem ser reverenciados e imitados! Será que somente nós não conseguimos reconhecer o nosso valor? É hora de nos olharmos no espelho e enxergar, também, o que temos de bom. É hora de aumentar nossa auto-estima para podermos passar às novas gerações a maior herança que recebemos dos nossos pais: o orgulho de ser brasileiro!

 

 

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Dia da Vitória – até tu, Bolívia?

08/05/2006 por bonat

O passado certamente não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. Encontrar, nas comemorações do Dia da Vitória, os remanescentes dos 25 mil pracinhas que lutaram na Itália propiciou-nos retornar a um momento importante da nossa história.

A mistura explosiva de um fluente orador e de um país mergulhado no caos, causado pelas pesadas restrições impostas em Versalhes, havia levado à ditadura nazista. Com a ajuda de Joseph Goebbels, espécie de marqueteiro da época, tornou-se fácil a conversão do povo alemão. Hitler governou com poderes ilimitados. E deu no que deu: 45 milhões de mortos.

O 8 de maio de 1945 foi um dia de festa nas trincheiras.  Hitler e seu Partido Nacional Socialista estavam derrotados.

A serenidade dos octogenários pracinhas fundamenta-se no orgulho de terem ajudado a pôr fim na louca aventura nazista. Eles sabem o frio que passaram, a saudade que sentiram e o medo que venceram. Somente eles e mais ninguém, principalmente os que estavam nas trincheiras opostas, a quem era preciso mostrar, a qualquer custo, que não existe raça superior ou inferior. Só eles sabem o quanto custou a vitória. Só eles vivenciaram aquele momento único, triunfal, de pisar de novo o solo pátrio.

A participação brasileira pode ser considerada pequena. Mesmo assim, tivemos 451 baixas, o que não é pouco. Num exercício de imaginação, vamos supor que eles ressuscitassem agora. Iriam surpreender-se, pois o mundo avançou séculos nos 61 anos que ligam aqueles difíceis tempos aos atuais.

Ficariam admirados de ver como industrializou-se o Brasil rural da década de 40.   Dos  inúmeros  avanços   tecnológicos, possivelmente a televisão lhes chamaria mais a atenção. Ficariam interessados nos noticiários. Ao ouvirem as novidades da política, pensariam estar no Saara, tamanho é o atual deserto de dignidade. Nos intervalos, veriam que os marqueteiros continuam em moda, tanto se esbanja o nosso suado dinheirinho para a autopromoção dos nossos dirigentes.

Ao assistirem a matéria sobre a reunião de Puerto Iguazú, reconheceriam logo o presidente da Argentina, com seu jeitão de Perón. Acreditariam, pela liderança que exerce sobre os demais, ser Hugo Chávez o presidente do Brasil. Após lhes informarmos  que aquele era o mandatário da Venezuela, imaginariam que o brasileiro seria Evo Morales. Afinal, ele havia tomado conta de refinarias da Petrobrás. Explicaríamos que estavam enganados: aquele era boliviano. Por exclusão, concluiriam ser o sorridente senhor de barba o presidente do maior país da América Latina. Aí, nos perguntariam: ele ri de quê?  Não saberíamos responder….

Eles, que deram a vida pelo Brasil e pela liberdade, nos olhariam com desprezo e voltariam correndo ao seu altivo passado.

Após esse tremendo mico, nós continuaríamos aqui, com o complexo de “colonizados” que há algum tempo tomou conta das nossas mentes.

Tal síndrome nos impede de assumir o papel de liderança que, de forma natural, deveríamos exercer na América do Sul. E todos se aproveitam disso para nos passar rasteira: Argentina, Venezuela, Paraguai e, agora também, a Bolívia.  Até tu, Bolívia, a quem o Brasil sempre procurou ajudar!  Quem diria!