Artigos de ‘Cultura’ Category

Que tal presentear-se com um livro?

26/09/2017 por bonat

Cara(o) amiga(o),
Que tal presentear um amigo (ou a si mesmo) com um livro?
Nas 218 páginas de “Ciscos e Franciscos”, meu último livro de crônicas, ofereço um olhar sobre a realidade política e social em que vivemos, com uma pitada de humor.
Fica a minha sugestão, por apenas R$ 30,00 (com frete já incluso).
Se tiver interesse, basta informar no campo “Deixe um Comentário”, conforme o modelo abaixo, que farei contato para acertar os detalhes sobre a remessa do livro.
Grande abraço!
Hamilton Bonat

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Carta emocionante de um leitor

02/11/2016 por bonat

Brasília, 29 de outubro de 2016
Prezado Bonat

Estou encomendando mais um exemplar de Ciscos e Francisco, naturalmente que autografado pelo autor. Desta vez, peço que o autógrafo não seja dedicado a mim, pois é para presente. Podes autografar para a presenteada. Vou te falar um pouco sobre ela e também do porquê do presente.

O presente é para a minha mãe, para o seu aniversário de 90 anos (isso mesmo, 90 anos). Vou a Porto Alegre, onde ela mora, para a festa. Ah, o nome dela? Pode ser para Mariazinha, como ela é conhecida, ou D. Mariazinha.

Por que resolvi que esse livro será meu presente de aniversário para ela? Ao ler o livro, além dos pontos que já comentei contigo, tive a sensação de que minha mãe iria se identificar com muita coisa que tem ali (tenho certeza de que se encantará com a história da fabulosa engenheira).

Minha mãe é viúva de soldado. Morou no Paraná por duas vezes e tem dois filhos paranaenses (tenho uma irmã nascida em Ponta Grossa e um irmão de Foz do Iguaçu) e há muitas passagens marcantes de sua vida ocorridas em solo paranaense.

Meu pai, primeiro de turma na EsAO, escolheu Foz do Iguaçu (lembre-se, tratamos aqui daquela Foz do Iguaçu da década de 50, pouco mais do que uma aldeia). Em Foz, meu pai, SOZINHO, preparou-se para o concurso de admissão à EsCEME e fez as provas em Curitiba (tenho até hoje as cartas que, nos meus ingênuos oito anos, troquei com ele naquela ocasião) e sua aprovação foi uma verdadeira façanha (naquela época as telecomunicações eram um sonho distante). Daquela época, ficaram alguns grandes amigos paranaenses (talvez tu conheças alguns deles, Gen Vasconcelos, colega de turma do meu velho, Cel Benedito, Cel Assis Brasil, gaúcho casado com uma pontagrossense, Cel Paulo Braga, irmão do Ministro Nei Braga, o próprio ministro e outros). Anos mais tarde, quando o velho serviu em Assunção, no Paraguai, onde chefiou a MBIMP, não foram poucas as visitas ao Paraná (até mesmo porque quando eu fui morar na Usina Hidrelétrica de Salto Osório, eles ainda estavam em Assunção).

O aniversário é em dezembro e, logo em seguida, a mãe vai para a praia veranear, ocasião em que, tenho certeza, Ciscos e Francisco será uma excelente e agradabilíssima companhia.

Bem, aí vão meus dados:
Eduardo Belmonte de Athayde Bohrer
Quadra … Águas Claras … Brasília – DF

Sei que já lançaste outro livro, mas, por enquanto, para esse presente específico, vou ficar com o que eu já conheço, por todos os motivos descritos.

Um abração, Bohrer

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Joguei a toalha

13/07/2016 por bonat

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso sentir-me assim faz algum tempo. As más notícias, que leio e ouço todos os dias, causam-me tanto aborrecimento, que acabaram secando a minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, algo de positivo.

Se, como dizem, a inspiração está em toda parte, creio que a minha fugiu de Curitiba. Escondeu-se em lugar incerto, bem longe do Brasil. Parece não ter suportado a verdadeira avalanche de maus acontecimentos, verdadeira tragédia promovida pelos nossos atuais dirigentes. Escapuliu de tanta corrupção, misturada à incompetência e a mentiras deslavadas. Livrou-se do desemprego e de uma velha e perigosa conhecida: a temida inflação.

E lá se foi a minha inspiração, envergonhada da crise moral que nos assola. Cansei de procurá-la e, há quatro meses, tenho poupado os leitores deste meu blog de qualquer crônica de minha lavra.

E olha que assunto é o que não falta para quem, como eu, é metido a cronista. É só abrir o jornal e ele está lá, quase pronto, escrito pelos nossos “representantes”. Basta lapidá-lo um pouquinho, e transformamos a roubalheira generalizada em um belo texto, agradável de ler, como bem merecem os nossos queridos leitores.

Mas lhe confesso: desisti, “joguei a toalha”, pois até a inspiração me roubaram. Assim, você, caro leitor, será poupado de mais uma crônica minha. Até quando? Sinceramente, não tenho ideia. Nem sei se voltarei a escrever algo saboroso de ler e de apreciar, como você merece.

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Além da Praça da Apoteose

03/02/2016 por bonat

Estão chegando ao fim os meus carnavais. Será o epílogo de uma relação, sem choros nem ais. Nunca tive jeito para folião. Ao carnaval nada devo. Ele, a mim, muito menos. Terá sido um jogo insosso, sem gols nem apoteoses, um sonolento zero a zero.

Houve época em que creditei a minha falta de vocação ao fato de ter nascido e sido criado em Curitiba. Mas não poderia ser verdade, pois, durante a infância, ainda havia por aqui animados bailes, aos quais eu era, literalmente, arrastado por minha mãe. O problema não era o carnaval e, sim, eu mesmo.

Com o tempo, fui percebendo que não estava só. Fiz vários amigos cariocas e outros tantos baianos e pernambucanos, que sofriam do mesmo mal. Logo, não se tratava, apenas, de mais uma das minhas curitibanices. Essa percepção acabaria sendo reforçada nos anos em que morei no Rio de Janeiro, a capital do samba. Quem passa lá os dias de folia, encontra turistas do mundo todo, circulando numa cidade esvaziada de cariocas. Então, refugiar-se de Momo na Região dos Lagos seria uma carioquice? Obviamente, não.

Mas, realmente, nunca levei jeito para a coisa. Se não conseguia, sequer, ser um “pé de valsa”, um sambista é que eu nunca iria ser. Não nego a inveja que tenho de quem nasce com o dom de sair flutuando pelos salões, atraindo a atenção de belas mulheres, moças ou velhas, e os olhares invejosos daqueles para quem, como eu, a natureza foi impiedosa.

A verdade é que, com o tempo, o carnaval foi transformado em uma festa midiática, movida por interesses de poderosas fabricantes de cerveja e de empresários dos setores turístico e hoteleiro. Embora sejam eles os que mais faturam, o poder público é quem acaba pagando a conta, com o que nos arranca através de impostos. Claro que o dito poder público – leia-se, os políticos – não poderia perder a chance de angariar votos para as próximas eleições.

É igualmente compreensível que todos precisemos de momentos para fugir da dura realidade do dia a dia. Para esquecer de um mundo que não suporta mais tanto ódio, tanta guerra e intolerância religiosa, de tantas cidades cada vez mais inchadas e violentas. De uma Terra já cansada de ver seus filhos, nós mesmos, que já passamos dos sete bilhões, sugando o que lhe resta de energia.

Tudo bem: tem muita gente boa sobre a sua superfície. Porém, o que se percebe, é que a maioria tornou-se mal-humorada e mal-educada. Os humanos, cada vez mais, se detestam, assim como as suas religiões. As nações se odeiam, da mesma forma que seus políticos. É salutar deixar de lado isso tudo, nem que seja por alguns dias apenas.

Até aqui, tudo muito lógico. Mas existe aí algo mais do que uma simples lógica, que a está transformando em perversa. Por detrás dela, à espreita, camufla-se o aëdes aegypti, pronto para também participar da grande festa. Escondido na falta de educação e de saneamento básico, compromissos esquecidos pela irresponsabilidade do poder público, ele prepara a sua fantasia. Quando retirá-la, ele reaparecerá, já sem máscara, como Zika, Dengue ou Chicungunya.

Desculpem-me se estou sendo profeticamente apocalíptico. Diga-se, de passagem: nem sei se o “Apocalipse” acontecerá. Mas há sinais de que suas previsões vêm ocorrendo, lenta, mas continuadamente. Ele não aparecerá numa praça da apoteose. Quem sabe, um pouco mais além… De qualquer forma, desejo a todos os que não se sentem culpados por nenhum dos nossos males, que divirtam-se durante o carnaval. Afinal, ao contrário da dengue, ele só acontece uma vez por ano.

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Saudação aos novos acadêmicos

17/12/2015 por bonat

Presidente Anita, Professor Arioswaldo, presidente de honra desta sessão solene, componentes da mesa, senhoras e senhores, caros amigos!

Tem um desses comentaristas esportivos que, ao analisar a performance dos juízes de futebol, costuma dizer: “a regra é clara”. Permitam-me plagiá-lo: “A regra é clara: é muito chato ouvir discursos”. Mas, como todos nós sabemos, existem exceções para confirmar as regras.

Ainda bem que há oradores do porte da nossa nova confreira Sandra Helena Moreira que, ao falar em nome dos novos acadêmicos, brindou-nos com uma bela e cativante mensagem. Sua fala nos encantou a nós todos.

Confesso o meu temor e as razões que tenho para não aborrecê-los com um discurso meu, pois ele, ao contrário da simpática mensagem da Sandra, seria enquadrado na categoria dos chatos.

Proponho-lhes, então, um programa mais agradável: que façamos uma viagem, breve, porém especial, uma viagem no tempo.

Poderíamos seguir juntos em direção ao futuro. Cheguei a cogitar seriamente sobre essa hipótese, mas desisti. O futuro é um desconhecido traiçoeiro, cheio de armadilhas. Haveria ainda o perigo de sermos confundidos com os homens da caverna. Imaginem nós todos desembarcando no ano de 2100, cada um portando o que temos de mais moderno: o celular, com suas múltiplas e variadas funções.

Mas a tecnologia tem avançado num ritmo tão acelerado, que os humanos de 2100, nossos bisnetos e tataranetos, nos enxergariam como verdadeiras peças de museu e, possivelmente nos trancariam, a nós e aos nossos celulares, em um museu de verdade, onde permaneceríamos ad eternum. Nunca mais voltaríamos a este 10 de dezembro de 2015. Perderíamos até o coquetel que será servido após esta cerimônia… Portanto, por razões óbvias, descartei uma ida ao futuro.

Restou-me a opção de uma visita ao passado, para a qual os convido. Para isso, peço que fechem os olhos por alguns segundos apenas. Pronto, já chegamos! Nossa nave é tão rápida, que a maioria sequer conseguiu piscar.

Alguém pode estar estranhando: “como já chegamos, se continuo sentado no mesmo lugar?”. Lembro que estamos viajando apenas no tempo e não no espaço. Logo, permanecemos aqui mesmo, neste imponente Palacete dos Leões, mas já estamos em 1903. E, por acaso, chegamos num dia muito especial para os moradores desta casa.

Se prestarmos atenção, poderemos ouvir, vindo de um dos cômodos, um choro de bebê. É que acaba de nascer Maria Clara Leão, o sétimo filho de Maria Clara de Abreu Leão e de Agostinho Ermelino de Leão. Com um pouquinho mais de atenção, conseguiremos perceber um burburinho de vozes masculinas. É que em uma das salas da frente, o pai Agostinho comemora a chegada da filha com alguns amigos. Entre eles, encontra-se Cândido Ferreira de Abreu. Cândido de Abreu foi o engenheiro responsável pelo projeto deste palacete, onde o estilo renascentista convive com o barroco e o clássico. Aliás, como já sabemos, daqui a alguns anos, Cândido de Abreu será prefeito de Curitiba.

Se formos até uma das janelas, veremos os outros seis filhos do casal, livres, correndo pelo jardim, subindo e caindo das árvores. O mais novo está com três e o mais velho com oito anos de idade. Se nossos netos pudessem conversar com eles, provavelmente lhes perguntariam se eles não teriam um “tablet” para brincar, ao invés de ficar trepando em árvores.

Pena não podermos sair, pois logo teremos que voltar a 2015. Se pudéssemos, perceberíamos que nos encontramos em uma chácara, rodeada por outras tantas, todas muito afastadas do centro da cidade. Se fôssemos ao centro e estivéssemos com sorte, encontraríamos Francisco Fido Fontana exibindo-se para os 25 mil habitantes de Curitiba, a bordo do único automóvel existente, um Royal importado da França. Fora ele, todos os demais meios de transporte são dependentes da tração animal, inclusive os bondes.

Estamos em pleno ciclo da erva-mate. Graças a ele (e ao seu trabalho, é lógico), a família que mora aqui ganhou muito dinheiro. Construiu esta casa, com tudo o que há de mais moderno. Mesmo assim, ela não dispõe de rádio, televisão, muito menos de internet. Seu único meio de comunicação é um aparelho telefônico, só usado pelos donos da casa e apenas para tratar de assuntos importantes.

Nesta época, quase tudo acontece no lar. Aqui as pessoas nascem (hoje, nasceu Maria Clara), aqui se casam e, ao morrerem, aqui são veladas. O lar é o centro de tudo. Creio que nossos marqueteiros governamentais, ao inventarem o slogan “Minha casa, minha vida”, tenham se inspirado nestes tempos.

Porém, lamentavelmente, temos que retornar. Nem vou lhes pedir para que fechem os olhos novamente. Vocês já sabem como nossa nave é rápida. Pronto: estamos de volta a 10 de dezembro de 2015!

Gostaria que o casal Maria Clara e Agostinho tivesse nos acompanhado. Algumas coisas os deixariam tristes, outras, assustados. Porém ficariam contentes ao ver a sua mais do que centenária residência restaurada. De constatar que o BRDE a trata com muito zelo e carinho, e que atribuiu-lhe uma relevante tarefa: a de, como espaço cultural, sob a competente direção da nossa nova confreira Ana Teresinha Ribeiro Vicente, dedicar-se à preservação e à divulgação da cultura e da história da nossa cidade.

Certamente, lhes agradaria saber que o seu Palacete dos Leões é mais do que um ícone do ciclo ervateiro. Desde o ano passado, ele abriga a nossa Academia de Letras José de Alencar, pois comunga do mesmo ideal. Ambos, Palacete – patrimônio material – e Academia – patrimônio imaterial -, são ícones da cultura que, sob as suas variadas manifestações, é um ingrediente fundamental para a preservação do nosso jeito de ser e da nossa identidade como grupo humano.

Estou certo de que Maria Clara e Agostinho ficariam imensamente felizes ao encontrar em sua residência, figuras de destaque na literatura, nas artes, na educação, na comunicação e na história do Paraná, que hoje tomam posse.

É um grupo tão pequeno de pessoas, que eu poderia até citá-las, uma a uma. Entretanto, cara Presidente Anita e caros convidados, são pessoas tão notáveis, que faço questão de nominá-las:
Ademir Pascale;
Adriano Siqueira;
Alberto Silva Gomes;
Ana Teresinha Ribeiro Vicente;
Helena Gama Lobo d’Eça;
João Carlos Bonat;
Maria da Luz Dias Séra;
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt;
Rachel Madureira Régnier;
Sandra Helena Moreira; e
Valderez Archegas Ferreira.

Pois saibam, caríssimas novas confreiras e caríssimos novos confrades, que nos sentimos muito felizes por terem aceitado o convite para, juntos, participarmos de uma viagem. Não daquela metafórica viagem de que há pouco lhes falei. Mas sim de uma viagem iniciada em 1939 por um punhado de idealistas reunidos no antigo Ginásio Paternon, que ficava ali na rua Comendador Araújo.

Desde então, o percurso por eles iniciado vem sendo trilhado, não com a frenética rapidez dos tempos atuais, mas na cadência de um simples caminhar. Como uma equipe de revezamento, seus sucessivos integrantes se alternam, cada um portando, no lugar de um bastão, um pequeno tijolo para a construção de um grande monumento. E, como nos ensina a história, não podemos ter pressa, sob pena de ele, o nosso monumento, não ficar com a imponência sonhada. As grandes pirâmides, muralhas e catedrais levaram décadas para serem concluídas. Pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, essas maravilhas da humanidade, um dia, enfim, ficaram prontas.

Porém, em um futuro qualquer, não sabemos se amanhã ou se daqui a alguns séculos ou milênios, elas desaparecerão, destruídas pelo tempo ou pela reconhecida insanidade dos humanos, que, mesmo assim, julgam-se superiores aos demais seres. As trevas que, em 13 de novembro último, se abateram sobre Paris, a Cidade Luz, são um pequeno exemplo do que “nós” somos capazes…

Caros amigos! O monumento que estamos ajudando a erguer é totalmente diferente. Ele é indestrutível. Nossa obra – a cultura – estará sempre inacabada. Por estar em permanente construção, ela é eterna. E é na eternidade que se encontra a sua grandeza. Não é tarefa nada fácil. Ela tem-se mostrado ainda mais difícil após o advento da internet e a consequente globalização da informação e do conhecimento. A avalanche digital torna quase onipresente uma forte influência estrangeira.

Mas lhes peço: por favor, não sintam nessas minhas palavras sabor algum de xenofobia cultural. Nem bairrismo ou “curitibanismo” nelas há. Até porque, e ainda bem, Curitiba não foi, não é e nunca será feita exclusivamente de curitibanos. Elas, as minhas palavras, têm, sim, gosto de pão com “vina”, de chineque, de gasosa de gengibirra, de leitE quentE e de outras curitibices e esquisitices do nosso linguajar, que nada mais são do que um dos legados daqueles idealistas de 1939.

O que gostaríamos, realmente, é que o Mundo todo soubesse que temos um Emílio de Menezes, uma Helena Kolody, um Paulo Leminski, um Teodoro De Bona, um palhaço Chic-Chic, umas balas Zequinha, uma Júlia Wanderley, um João Turin, temos também heróis como os pracinhas Max Wolff Filho e Pérsio Ferreira, temos uma Lala Schneider, um Laurentino Gomes, temos até as “Mocinhas da Cidade” de Nhô Belarmino e Nha Gabriela.

Não tenho dúvida de que esta relação está incompleta. Mesmo assim, eu não posso deixar de acrescentar, pondo de lado a modéstia, que temos também nós mesmos, da Academia de Letras José de Alencar! Gostaríamos, ao mesmo tempo, que muito mais gente soubesse da nossa admiração por José de Alencar, nosso Patrono, e por milhares e milhares de outras brilhantes figuras da cultura nacional. Em suma, não queremos apenas ser globalizados culturalmente. Precisamos também globalizar, um pouco que seja.

Aí é que se evidencia o “tijolo” do nosso confrade João Carlos Cascaes. Com a expertise de quem domina, como poucos jovens, a técnica da informação digital, ele criou e mantém a página da nossa Academia. Precisamos continuar a alimentá-lo com matérias e sugestões. Temos que aproveitar dessa moderna ferramenta e do fascínio que ela exerce, para revelar ao mundo que existimos, quem somos e que, inclusive, produzimos belas obras.

Queridas novas confreiras e caríssimos novos confrades!
É com o espírito aberto, com imenso júbilo e alegria, e com uma visão de futuro, alicerçada nos tijolos daqueles que nos antecederam, que os acolhemos. Nossos braços e nossos corações estão escancarados para transmitir-lhes a mais calorosa das boas-vindas. A Academia de Letras José de Alencar, que agora também lhes pertence, torna-se maior e mais forte com a sua chegada.

Caros amigos!
É hora de encerrar. Antes de fazê-lo, e como os nossos novos colegas já receberam o seu diploma e a sua toga, posso agora revelar-lhes dois segredos.

O primeiro é que a nossa Academia prima pela leveza e pela jovialidade de espírito. O tijolo que carregamos não pode se transformar em pesado fardo para nenhum de nós. Velhas e sisudas eram as academias de outrora, não a nossa!

O segundo segredo é que, na agradável e fraterna convivência em nossa Academia, nos tornamos mais sábios, pois aprendemos muito uns com os outros.

Novas e sábias Confreiras; novos e sábios Confrades!
Aprenderemos muito com vocês. Obrigado por unirem os seus sonhos aos nossos para, juntos, construirmos um belo e eterno monumento. Sejam muito bem-vindos.
Curitiba, 10 de dezembro de 2015

Acadêmico Hamilton Bonat
Cadeira Nº 19 da ALJA

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O mundo clama por um Anjo da Guarda (clique)

15/11/2015 por bonat

Dia de festa no Anjo da Guarda. O “Anjo” (assim a escola é carinhosamente chamada), como faz todos os anos, homenageava as etnias que deram origem à atual população do Paraná.

Logo na chegada, a tarja preta sobre a bandeira azul, branca e vermelha (a Bleu-Blanc-Rouge), no estande da França, atraía a atenção. Aquele pequeno pedaço de pano valia mil palavras. Entre tantas, significava espanto, tristeza e solidariedade.

As crianças, provavelmente, não se deram conta. Ainda bem. É muito cedo para isso. Até porque, estavam ali para exaltar a fraternidade. Em um coro de mais de cinquenta vozes, elas entoaram canções representativas dos diferentes povos, começando pelos indígenas, seguida pelos portugueses, negros e pelos que os sucederam, até chegar aos holandeses. A grand finale – um samba – celebrou o sabor da saudável e gostosa salada de frutas em que nos tornamos. Uma só gente, que aprendeu a se respeitar e a viver em harmonia.

Não estava explícita, apenas subentendida, a homenagem às primeiras gerações, que superaram tremendas dificuldades que lhes foram impostas. Os negros vieram para cá na condição de escravos. Os demais, fugidos da fome e das guerras, vivenciaram uma semiescravidão. Mas nada de rancor, nenhum ódio. Ao contrário, a única mensagem era de irmandade entre os homens, todos, sem exceção.

Após a apresentação musical, os alunos se dirigiram ao estande do “seu país”, onde contavam um pouco dos seus costumes aos que os visitavam. A bela festa foi encerrada com números de danças típicas.

É de se louvar o esforço de professores, pais e alunos. No simples fato de as canções terem sido exibidas em dez idiomas diferentes, tem-se ideia da dimensão do desafio. Três apenas são suficientes para resumir o grau de dificuldade: ucraniano, japonês e árabe. Fácil, não? Obviamente, meus ouvidos de avô perceberam que Guilherme e Rafael – meus netos – foram dos poucos a cantar sem nenhum sotaque, em todas as línguas.

Mas deixemos um pouco de lado essa inocente brincadeira de “papo-avô-coruja”. Voltemos à tarja preta, pois creio que ela mexeu com o subconsciente dos avós. Não só deles, mas também de mamães e papais. Num momento qualquer, uma preocupação deve ter passado pela mente de todos: que mundo iremos deixar para os nossos netos?

A barbárie, que no dia anterior havia levado as trevas à Cidade Luz, é apenas a face mais recente e visível de uma crescente desunião. Gostaríamos, mas obviamente não temos este poder, de resolver a grave crise que vem se alastrando pela Europa, Oriente Médio e África. O que se pode fazer, quando notícias nos dão conta de que, por lá, em muitos bancos escolares, as crianças recebem mensagens exatamente opostas àquela que foi transmitida pelos professores do Anjo?

Só nos resta torcer (rezar, orar, suplicar) para que o vento não sopre em nossa direção, trazendo aquelas tenebrosas nuvens. Que elas fiquem por lá mesmo, até se dissiparem um dia. O que gostaríamos, de verdade, antes que seja tarde, é que o vento soprasse em sentido contrário e para lá empurrasse a nuvem radiante que cobria o “Anjo” no último dia 14, e que cobre igualmente milhares e milhares de outras escolas brasileiras.

Mais do que nunca, o mundo anda precisando de um Anjo da Guarda.

Academia de Letras José de Alencar vai ao presídio

26/08/2015 por bonat

Detentas participam de atividades com escritores e músicos
(Matéria publicada pela Agência de Notícias do Paraná)
Fotos: Osvaldo Ribeiro/SESP

As detentas do Presídio Central Estadual Feminino (PCEF), em Piraquara, tiveram uma tarde diferente nesta quarta-feira (19). Cerca de 300 mulheres da unidade participaram de atividades com escritores e músicos que realizaram oficinas e mostraram o próprio trabalho. As ações fazem parte da Semana Cultural do Departamento de Execução Penal (Depen).

A primeira atração foi a apresentação da Academia de Letras José de Alencar, representada pelos escritores João Carlos Cascaes, Dione Mara Souto da Rosa, Claudinei Roncolatto, Hamilton Bonat e Tania Rosa Cascaes, que promoveram uma oficina literária sobre crônicas, contos e poesia.

Segundo a escritora e advogada Dione Mara Souto da Rosa, que falou sobre contos ficcionais, a Semana Cultural representa uma nova oportunidade de vida. “Acredito que a escrita, a leitura e a literatura em geral sejam o único caminho para o sucesso. Essa é uma oportunidade para essas mulheres aprenderem a colocar suas ideias no papel e registrar suas pequenas memórias”, opinou ela.

Renata Damasceno, presa na unidade, conta que a leitura modificou o cotidiano no presídio, melhorando o comportamento coletivo. “As meninas que participam do projeto de remissão de pena pela leitura ficam muito mais calmas, mudam seu comportamento, muitas vezes agressivo, para melhor, passam a ser mais comunicativas e sociáveis”, disse.

Para a diretora da penitenciária, Suely Vieira Santos, projetos como a Semana Cultural e a remição pela leitura são diferenciais. “Desde a inauguração da unidade, em 2012, não tivemos nenhuma situação de crise. Acredito que o trabalho baseado no respeito e um tratamento penal adequado sejam os responsáveis pelo sucesso do Presídio Central Estadual Feminino. A intenção é aperfeiçoar os projetos que contribuam na conscientização dessas mulheres”, afirmou.

MÚSICA – Além da atividade literária, na mesma tarde, o grupo Sopro5 fez um breve concerto que animou a plateia na unidade prisional. Formado por solistas do naipe de madeiras da Orquestra Sinfônica do Paraná, os músicos Fabrício Ribeiro (flauta), João Vitor Silva (fagote), Marcelo Oliveira (clarinete), Marcos Vicenssuto (Oboé) e Fábio Jardim (trompa) fizeram questão de apresentar seus instrumentos, individualmente, além de contar um pouco da história e origem de cada um.

Na Colônia Penal Agrícola, unidade que também participa da Semana Cultural, foram oferecidas aos detentos diversas palestras sobre temas como sexualidade, saúde do homem, autoestima e inteligência emocional, entre outras. Também houve oficinas de xadrez e boxe.

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Falta-nos um José de Alencar

13/08/2015 por bonat

Estou à toa. Hoje, mais do que em outros dias. À toa e de baixo astral. Não consigo, sequer, ver as páginas dos jornais e as notícias assustadoras que as lotam. Sinto-me triste, envergonhado, aborrecido, desolado mesmo. Definitivamente, cansei. Preciso afastar-me delas. Tenho que encontrar algo de útil para preencher a minha ociosidade. Tenho pressa. Necessito, urgentemente, de uma overdose de otimismo. Mas que seja aplicada na veia, para surtir efeito rápido.

Se me permitem os amigos, gostaria de dividir o que me aflige. Preocupa-me o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que vieram, não sei exatamente de onde, e alastraram-se ameaçadores pelo Brasil. Por temerem o nosso crescimento, os de fora sopraram com força. Seu sopro, de falsa bela aparência, espalhou-se e nos dividiu. Deixamos de nos ver como irmãos. Por toda a parte, nos enxergamos, uns aos outros, como inimigos. Estamos enfraquecidos. Conseguiram nos desunir.

Meus olhos percorrem com ansiedade a estante em busca de ânimo. Entre centenas de livros, deparo-me com um de José de Alencar. Não com “O Guarani” ou qualquer outra das suas maravilhosas obras, mas com a sua biografia. Nela, tento encontrar alento.

Abro-a com a velocidade de quem não pode perder tempo. Não me interesso por aquilo que meus leitores já sabem. Não resolveria o meu angustiante problema. E, também, nada acrescentaria aos que me leem, pois qual deles nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante cronista, romancista e dramaturgo cearense? Quem entre eles nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Qual deles nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem entre eles não sente orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como se fosse um filho de Ceci e Peri?

O que me interessa da obra de José de Alencar é o seu marcante nacionalismo, no difícil período da consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura própria. Alencar contribuiu para que nos sentíssemos não apenas um povo multirracial e multifacetado, mas, essencialmente, como uma mistura de povos.

Na literatura que criou está evidente u’a maneira de sentir e pensar tipicamente brasileira. Tão grande foi sua preocupação em retratar a nossa terra e o nosso povo, que as páginas dos seus romances revelam o intuito de, cada vez mais, tornar mais abrasileirados os seus textos. Convém lembrar que, isso tudo, deu-se numa época bem mais difícil do que a que vivemos, pois, se acabáramos de proclamar a independência, algo mais era necessário: romper nossa dependência cultural.

Pergunto então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam carentes de novos Josés de Alencar? E, principalmente, se nossa política não estaria clamando por um José Martiniano de Alencar? Mas que surja logo, pois a hora é quase passada. Nosso caso é de emergência. Requer aplicação de choque, sem filtro, na veia.

Discurso de posse na Academia (Vídeo)

27/07/2015 por bonat

Meu discurso de posse da Cadeira 19 da Academia de Letras José de Alencar, que tem como Patrono o poeta Emílio de Menezes.
Para assistir, clique:

Confrade General Hamilton Bonat

Velho Regimento

26/04/2015 por bonat

VELHO REGIMENTO
Alexandre Máximo Chaves Amêndola

Prá vocês amigos que me escuitam
Confesso a verdade: estou morrendo
De saudade da Unidade onde labuitam,
A qual não me sai do pensamento…
Prestem atenção no que vou dizendo,
Porque também servi no Velho Regimento!

Meu Velho Regimento legendário,
O que dizer prá tua glória,
Se tu já é mais que centenário,
Uma velha praça tão modesta,
Que sabe somente um pouco da tua história,
E dês que te deixou, pra nada mais presta?

Piazito inda, eu já bombeava,
Meio arisco… meio curioso… cumé que vô dizê…
Quando ele – o Velho Regimento – desfilava.
E garganteava pros otro (sabe como é…)
“Quando eu for grande, vocês hão de vê,
Vou sentá praça no Regimento Mallet!”

Os ano foi passando, chegô o dia!
Me fui à “Junta”, o coração batendo.
“O que qué?”, disse um cara de cutia
Que tava lá sentado bem na frente.
E eu, meio atrapaiado, meio tremendo…
“Eu quero servi voluntário, seu tenente!

“Sabe lê?”
“Não.”
“Sabe escrevê?”
“Também não dá…”
“Não faz mal. Bota ele no 23 de Infantaria.”

“Pé de poeira? Nessa é que não vão me pegá!
Eu quero mesmo sê é de Artilharia!
Risque o meu nome. Não tá mais aqui o Zé.
Ansim eu perfiro disertá.
Ou morro, ou vou servi no Regimento Mallet!”

O home ficou meio abobaiado
Cum aqueles grito e disse prô sargento:
“Pois bota no Velho Regimento esse tarado.
Mas é uma pena. Isso é mau elemento
Que vai contaminá todos os sordado,
Que é tudo gente buena e de talento.”

Então, subiu uns arrepio.
Os meus óio logo se enchero de água.
E larguei pra ele um desafio:
“Pru minha curpa, nem uma só mágoa
O Velho Regimento há de passá.
Eu hei de sê o seu mió sordado,
Aqui i em quarqué lugá!”

Na guerra, na paz, na disciprina,
Não tem outro como o Velho Regimento.
Mi ajude Deus, qui tudo detremina,
Eu inda hei di chegá inté sargento.

Você guarde bem o que lhe digo:
Eu vô sê o inzempro do Velho Regimento!
I vô passa pur aqui, num tem pirigo,
Amuntado num zaino cosquilhado,
Daqueles qui só tem Chefe de Peça.
Eu vô sê o taura do Velho Regimento.
Iscuite bem i não sisqueça dessa.

Sordado, cabo e, dispois, sargento…
Bem cumo eu tinha dito pru tenente.
E, desde que pisei no Velho Regimento,
(disciprinado, inquadrado, arfabetizado…),
Nunca vi taura nenhum na minha frente,
Nem nunca vi o sol nascê quadrado.

Meu velho Regimento, que saudade…
Da tua história assisti um bom pedaço.
Eu só quiria qui arguém, só pur mardade,
Falasse contra ti na minha frente,
Prá eu li cortá a cara com um reinaço.
Falá de ti? Só argum descrente…

Qual o regimento que possui
A glória que tiveste no passado?
O tempo passa e tudo derrui.
Mas como apagá teu heroísmo
Que constitui pra nóis santo legado,
Numa lição de bravura e de civismo?

1835 – Guerra dos Farrapos –
E lá estava, firme, o Velho Regimento,
Ao lado de heróis que se vestiam de trapo.
Dos bravos, dos idealistas, dos valentes.
Era prôs imperiais um escarmento,
Quando trovejava nas canhadas, em repentes.

1851 – Guerra contra Rosas –
E o Velho Regimento em Caseros,
Frenteando tropas inimigas numerosas,
Destruir tudo por completo ameaçava,
Destroçando pelotões, esquadrões inteiros,
Apoiando a Infantaria que avançava.

Bois de Botas, nos chamavam os companheiros,
Em apelido carinhoso, reparando
Que os bois das peças e os artilheiros,
Ao avançar, forcejando nas estradas,
Cada boca de fogo pesada arrastando,
Erguiam as pernas,
Todas em barro carçadas.

De 1865 a 1870 – Guerra do Paraguai –
Lá está ele, o Velho Regimento.
Queda de bravos, que morrem sem um ai!
Os cavalos a relinchar e a nitrir,
Gritos daqueles que perdero o entendimento,
Toques de clarim, chamando a reunir.

Estrupido de cascos: cavalaria inimiga que carrega,
Urros de ameaça e de vitória;
Fumo e fogo, que a todos cega;
Retinido de lanças e de espadas;
Desafio de homens que procuram a glória;
Promessas de morte, com armas apontadas.

E tudo enebrindo, a tudo apequenando,
A voz de trovão do Velho Regimento,
Rugindo a sua fúria, o aço vomitando…
Ribombam as suas peças em saltos e clarões!
Artilharia Revólver, sem perda de um momento,
Detona e carrega de novo os seus canhões.
Eles que venham… Por aqui não entram!

E mais de vinte cargas de cavalaria,
Que pelo dispositivo brasileiro se adentram,
Vão despedaçar-se, gritando em guarani,
Em face daquela artilharia.
Vencemos a Batalha do Tuiuti!

1930 – perseguindo um novo ideal,
O Velho Regimento desloca-se ao combate,
E chega a desfilar até na Capital.
1944 – luta o Brasil na Europa.
O Velho Regimento atende ao rebate
Por seus representantes retirados da tropa.

E agora? Lá está ele vigilante…
Cuidem-se bem os inimigos do Brasil!
O Velho Regimento, altivo e confiante,
Está pronto à desforra da honra maculada.
É velho, mas possui alma juvenil!
Cuidado… ou vão pagar a mula roubada!

E eu, velho sordado, aqui, pronto pra servir.
Prá ele, na hora do fervo, hei de correr,
De novo, voluntário, atendo ao “reunir”,
Prá mostrá aos moços da nova geração
Que um velho sordado ainda sabe morrer,
Se preciso, abraçado ao seu canhão.

Meu Velho Regimento, um último pedido…
O Patrono do Exército fez isso ao expirar,
E quero imitá-lo… tomem bem sentido.
No dia em que a morte me apagá o pensamento,
Quem até o cemitério me há de carregar,
Serão seis soldados velhos do Velho Regimento!

Publicado em Cultura, História, Literatura