Bodas de Ouro de Cida e João – discurso

Caríssimos tia Cida e tio João; prezados parentes e amigos.

É com imensa alegria que lhes dirijo algumas breves palavras nesta noite muito especial para nós todos, parentes e amigos de Cida e João.

Não sei se alguém aqui já ouviu falar num tal de Ogden Nash. Ele é autor de uma definição interessante sobre o casamento. Vejam só o que escreveu: “O casamento é uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece”.

Encontrei dezenas de outras frases, umas sérias, outras engraçadas, que buscam conceituar essa instituição secular, que atualmente vive uma crise alimentada pelos meios de comunicação. Hoje em dia, infelizmente, os artistas de televisão são os grandes conselheiros da maioria dos nossos jovens. Talvez por isso, casais façam festa ao completar cinqüenta meses de casados. Outros chegam até a comemorar seus cinqüenta dias de casamento. “Conseguimos nos aturar por cinqüenta dias”, confessam um para o outro e para os amigos.

Mas, na verdade, eu não procurava frases sobre o casamento. O que eu queria eram pensamentos sobre “cinqüenta anos de casamento”, a fim de enriquecer esta minha fala, para fugir ao lugar comum de apenas agradecer à tia Cida e ao tio João pelo seu exemplo e de cumprimentá-los pela longevidade de sua união. Pesquisei filósofos, poetas, sábios, futurólogos, religiosos, e nada, exatamente nada encontrei.

Daí, cheguei à conclusão de que Bodas de Ouro é um evento tão raro e tão importante, que dispensa qualquer tipo de conceituação. Ele é auto-explicativo. Encerra em si próprio toda uma vida, vivida a dois, durante o longo período de cinqüenta anos. É um acontecimento único e singular na vida de um casal, dos seus filhos e netos e, também, daqueles que lhes querem bem. É, enfim, um momento que funde presente, passado e futuro. Concluí também que, mesmo sem dizer uma só palavra, quem está nos transmitindo u’a mensagem hoje, lá do alto dos seus cinqüenta anos de casados, são Cida e João.

Lembrei então que cada um de nós, pelo menos uma vez, deve ter desejado possuir o dom de parar o tempo em determinada época de sua existência, logicamente que num período particularmente feliz, como o do nascimento de um filho ou de um neto, por exemplo. Se tia Cida e tio João tivessem essa faculdade, suponho que um dos momentos que teriam escolhido, seria o daquele inesquecível entardecer de 17 de janeiro de 1956.

Perante o altar da Igreja do Rocio, os ainda muito jovens noivos disseram o “sim”, sob os olhares atentos e emocionados dos pais Geni, Mina e Reynaldo, dos irmãos e cunhados Carlito e Léa, Albina e Henrique, Elíbio e Ceci, Calmira e Tito, Romilda e José Vanin, Loni e Ruiblas, Edite, Zelinda e Mário, de tios e primos, de alguns sobrinhos, ainda crianças, e de inúmeros amigos.

Se o tempo tivesse parado naquele dia, teríamos a felicidade de ter aqui conosco, a comemorar nesta noite, todas as pessoas muito queridas que lá estavam. Mas não. O tempo não pára. Por isso, hoje bastariam três ou quatro mesas deste salão para acomodar os que tiveram o prazer de presenciar aquela cerimônia inesquecível.

Mas se o relógio tivesse parado, creio que nada teríamos a comemorar. Não teriam chegado os filhos Reynaldo, Regina e Júnior, nem noras e genro, nem os netos, nem tantos outros sobrinhos, nem os filhos e os netos dos sobrinhos, nem tantos novos amigos.

Se tivesse parado o relógio, a vida de Cida e João se resumiria numa foto de casamento amarelada pelo tempo e não teria se transformado num belo e colorido filme. Um filme de muitos capítulos alegres e de outros nem tanto. Um filme de muitas emoções, de incertezas, de angústias talvez. Um filme onde muitos passaram e se foram. Um filme no qual muitos chegaram. Um filme que teve um período em São João do Triunfo, que teve longos dias atrás do balcão da farmácia, teve os Encontros de Casais, os finais-de-semana na Fazenda Thalia, a casa na praia, os Natais, as pescarias, os churrascos, os jogos de baralho e tantas coisas mais.

Um filme que teve Cida e João como protagonistas e nós todos como atores coadjuvantes. Um filme no qual Cida e João não ficaram esperando a “grande felicidade”, mas souberam valorizar as “pequenas alegrias”.

Qual o segredo de Cida e João? Talvez nem eles saibam. O segredo, e aí ouso supor, está no fato de Cida e João não considerarem-se apenas protagonistas. O segredo é que eles foram e são, ao mesmo tempo protagonistas e diretores do filme de sua vida. Diretores com espírito jovem. Que, por terem espírito jovem, têm uma visão otimista do futuro. Por terem uma visão do futuro, souberam, ainda sabem e saberão, dirigi-lo de forma a transformar os desafios em sólidos laços de união e amizade e, a partir deles, escrever novos capítulos cada vez mais felizes para tantos quantos os cercam e, por que não,mais felizes para si próprios.

Creio, mas sem plena certeza, que este foi o segredo. Mas há muitos outros que só eles conhecem. Há ainda outros que nem mesmo eles imaginam. Só Deus poderá um dia nos contar porque, em sua infinita bondade, lhes concedeu tanta saúde e sabedoria para que chegassem juntos até aqui. Se conseguíssemos perguntar ao Criador, ele nos responderia: é porque eles merecem. E todos nós concordaríamos.

Realmente vocês merecem, queridos tios. Todos aqui estão muito felizes de poder compartilhar este momento com vocês, seus filhos e netos. Porque foi a vocês que, muitos de nós, em horas de dificuldade, recorremos em busca de aconselhamento. Porque lhes levamos nossas lamúrias e nunca os ouvimos se lamentar, mesmo quando passavam por momentos difíceis. Porque vocês tornaram mais alegres nossos momentos de alegria, fossem eles pequenos ou grandes.

Queridos tios. A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. Mas ela só pode ser vivida olhando-se para a frente. Olhando para trás, vemos o seu filme ligando aquele longínquo final de tarde de 1956 ao dia de hoje. Tudo mudou, menos o espírito jovem de vocês dois. Olhando para a frente, sentimos que o filme continuará sendo rodado por muito tempo ainda.

Aqueles que estiveram na Igreja do Rocio fazem parte deste filme. Por isso, sinto que todos estão neste salão. Eles, nós e tantos mais estamos aqui para saudá-los e fazer votos de que continuem a ser felizes, a ser ao mesmo tempo protagonistas e diretores deste belo filme, que hoje está tendo um dos seus capítulos mais marcantes. Muito obrigado pelo belo exemplo. É hora de comemorar!

Curitiba, 13 de Janeiro de 2006

Hamilton Bonat