Arquivos do Autor

Quem quer destruir nosso continente? (Juan Koffler)

08/04/2017 por bonat

Tardou, mas aconteceu. O processo iniciado pelo truculento tenente-coronel Hugo Chávez e continuado por seu discípulo – o não menos celerado, Nícolas Maduro (ambos filhotes de Fidel) -, imprimiu à castigada pátria venezolana, a partir de 1999, um regime de terror em sentido lato. Próximo de completar duas décadas de literal tortura a essa castigada sociedade, o fechamento do Poder Legislativo e a transferência das suas responsabilidades para a Corte Suprema, desestruturam grosseiramente a tripartição montesquiana dos poderes, rumando para uma descarada “cubanização”, pesadelo criado por mentes enfermas, alienadas e egocêntricas.

Em concomitância com os movimentos maciços contra a ditadura criminosa e sequer disfarçada de Maduro na Venezuela, a capital do Paraguai assistiu noites atrás sua parcela de “terror vermelho”: a Casa Congressual amanheceu em chamas em razão de outro tipo de golpe: uma manipulação espúria de senadores que, na calada da noite, buscavam aprovar projeto de lei que reabilita a reeleição presidencial, com vistas a trazer novamente o questionável ex-presidente de tendência esquerdista, Fernando Lugo (que tanta polêmica já causou, recentemente), ao poder. Contabilizam-se mortos e feridos nesse confronto sócio-político, que representa mais um grotesco conluio comunista rumo à tomada e destruição de todo o continente.

Brasil, nesta “Era Lulo-Petista” – leia-se “comunista disfarçada” -, já acumula longos 14 anos de governança irracional, destrutiva, populista, incompetente, capciosa, causadora de rombos bilionários aos cofres da União, atrasos sociais, desestabilização econômica, insegurança jurídica, nessa insana zaga dos partidos ditos “de esquerda” (mas que congregam mais capitalistas do que o mais ferrenho e desavergonhado capitalista de direita). Um verdadeiro paradoxo social, digno (se existisse) não de um terceiro, mas de um quinto mundo.

Nestes 14 últimos anos, Brasil literalmente só regrediu (em amplo sentido), embora a grande imprensa (alinhada com as agremiações esquerdistas e regiamente paga por estas) venha tentando disfarçar a monstruosa desconstrução sócio-político-conjuntural da nação, exaurindo-a até seus últimos vinténs e também ao seu povo, em nome de um “socialismo para lunático ver”. Todos os índices, literalmente (econômico, político, social, educativo, laboral, conjuntural, motivacional, etc.), desandaram em queda livre, o que pode ser observado a olho nu e sentido na própria pele por toda a população.

Em suma, tudo o que esses degenerados comunistas já causaram de prejuízo à sociedade brasileira, aponta, inefavelmente, para dois funestos destinos: a quebradeira da nação ou a escravização total da sua sociedade. Tal qual os exemplos inquestionáveis de Cuba (há quase 60 anos), Venezuela, Equador, Colômbia, Argentina (que ainda vive às voltas com essa libertinagem ideológica), Bolívia, Peru, e, alhures, Coreia do Norte, China, Rússia. O continente perdido…

América do Sul e Central, não se negue, formam um continente extremamente rico em amplo sentido: belíssimas costas, banhadas por dois oceanos; opções multi climáticas (temperado, calor, frio, frio extremo – neve -, chuvoso, seco) e uma topografia diversificada e de causar inveja a outros distantes cantos deste castigado planeta Terra. Qual, então, a grande problemática que nos assola, historicamente falando? Nossa herança genética (legada por nossos colonizadores), associada a um nível cultural extremamente díspar, a um sistema educativo paupérrimo (em sentido lato, do grau mais elementar ao mais elevado) e manipulado conforme os interesses políticos vigentes , a níveis de alienação social que beiram o escandaloso e o autofágico.

O velho e surrado adágio popular é certeiro em sua determinação: ‘em terra de cego, quem tem um olho é rei’. Nada mais verdadeiro. Aos três exemplos supracitados, em termos de escândalos sócio-políticos, somam-se praticamente todos os demais países do continente, cada um com sua “lista especial de crimes”. Em situação similar aos países supra, encontram-se, com maior ênfase: Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Chile, Colômbia, Equador, apenas para citar os de maior expressão. Nestes, os governantes são claramente populistas de esquerda e rezam pela cartilha marxista-leninista. A comprovar tal assertiva, está a ostensiva situação sócio-político-econômica dessas nações, cujas economias e políticas sociais transparecem claros e gravíssimos problemas de desequilíbrio ostensivo, fator que os corrói lenta, mas persistentemente, e que está intimamente associado à questão da ideologia, ou melhor, da falsa e capciosa ideologia das massas. Uma das mais grotescas, capciosas e hediondas falácias, calcada no destrutivo e mais que utópico marxismo-leninismo.

Atrevo-me a pontualizar, com bastante segurança, que o “grande vilão” encontra-se, em primeiro termo, nos bancos escolares (do primário ao universitário) e, em segundo termo, no seio familiar. É nestes ambientes que se consolida a influência de ideologias em mentes despreparadas – que eu cognomino de “primitivas” -, pois que instáveis, inseguras e terreno fértil para o inculcamento de doutrinas que propiciem a fácil submissão. Eis o grande “X” da questão social.

Enquanto não tivermos uma substancial reformulação em nossos determinantes educativos (familiar e formalmente), continuaremos a penar pela ignorância inerente às nossas massas alienadas, despreparadas e irresponsáveis pelo próprio futuro que lhes aguarda, no presente e nas futuras gerações de “escravos úteis”.
Quem viver, verá…

JUAN KOFFLER: Jus sociólogo, escritor, professor-orientador de Mestrado e Doutorado, brasileiro naturalizado, amante e defensor ferrenho dos animais (sem exceção) e da natureza, fã incondicional de música (principalmente clássica), leitor incansável, jogador de xadrez, fã incondicional da aviação e do volovelismo. Mora em Santa Catarina.

Publicado em Nacional, Política

A Mulher do Piolho (Joaquim Cardoso Filho)

30/03/2017 por bonat

Quando me apareceu o primeiro relógio à prova d’água, foi uma admiração. Tratava-se de um Mido, automático. De pronto, sonhei possuir um, mas estava muito distante de minhas possibilidades. Imaginem, amigos, nos idos de minha adolescência, ter ao pulso um relógio de marca famosa que, além de automático, permitia ao dono entrar na água com ele. Poder mergulhar numa piscina, num rio, no mar, ou ir para debaixo de um prosaico chuveiro, sem necessidade de tirá-lo do braço. Era modernidade para poucos felizardos, considerei, e não me ocorreu perguntar que grande utilidade teria aquilo. Que diferença faria olhar ou não as horas, dentro d’água, em meio à diversão? Restou do episódio o instante de deslumbramento.

A menção ao relógio à prova d’água fica por aqui. Ocorreu casualmente, por correlação algo maluca. Tinha antes, na cabeça, o Brasil, e refletia ser um país à prova de esperança tamanha a degradação que o acomete, e acabou uma coisa puxando outra. Continuemos, pois. Dizia que o Brasil é à prova de esperança. De fato, é preciso muita persistência, muita fé, para continuar acreditando que as coisas poderão se consertar por aqui. As forças do atraso, alimentadas pela ignorância ou pura má-fé, trabalham contra a limpeza moral. Aliás, o Brasil seria uma potência econômica, um país do Primeiro Mundo, não fossem a burrice e corrupção que desgraçadamente nos vitimam desde os tempos cabralinos. Temos abundância de terras férteis, riquezas minerais, grandes rios etc. Tivemos e temos grandes empreendedores, como o saudoso empresário Antônio Ermírio de Morais. Têm-nos faltado, contudo, no mundo da política, os estadistas. Homens de elevada estatura moral e competência para administrar o generoso potencial que a natureza nos oferece. Sobra-nos, por outro lado, a ladroagem. Eis uma combinação letal.

Vemos, agora, as reações contra o governo de Michel Temer, orquestradas pela esquerda deletéria. Antes, é preciso dizer que desgraçado é o país em que uma parcela ponderável de seu povo tem como ídolo um infame corrupto e mentiroso como Lula da Silva, travestido de líder messiânico. De lascar, amigos! Deste jeito, não há Deus que nos ajude. Sigamos. A favor de Temer, sejamos francos, talvez se tenha pouco ou nada a dizer. Basta lembrar que, até poucos meses atrás, ele e seu partido (PMDB) eram sócios da administração petista que afundou o País. No entanto, tornou-se a única porta para se sair do abominável governo de Dilma Roussef. Apesar dos gritos de “golpe! golpe!” dos idiotas vermelhos, era ele ou ele, dentro do que a Constituição Federal permitia, e tivemos de nos resignar com o que foi possível.

Com Temer posto na presidência como pneu socorro no meio da viagem, surgiu a tímida esperança de que pudesse fazer razoável transição até o pleito presidencial de 2018. Reconheça-se que vem tentando. Tem em seu projeto de governo reformas importantes como a da previdência social, a tributária e das leis trabalhistas, mas, para aprová-las, precisa negociar com, segundo muitos, o mais calamitoso Congresso de nossa sofrida história republicana. Piora que o problema não se restringe ao legislativo. A enfermidade moral é generalizada e alcança, inclusive, o judiciário, daí a tremenda dificuldade em remover os privilégios das castas. Todos dizem querer justiça social, mas ninguém aceita abrir mão, por menos que seja, de direitos e regalias corporativas absurdas, traduzidas em ganhos polpudos e aposentadorias generosas pagas com dinheiro público.

Será complicado arrumar a casa. O Brasil conta, a rigor, não com partidos políticos, mas com quadrilhas organizadas preocupadas muito mais em tungar o dinheiro do contribuinte e legislar em cima de interesses eleitoreiros ou espúrios, do que cuidar das urgentes necessidades do País. Agora, sob a ameaça representada pela Operação Lava-Jato, as ratazanas se desesperam e se juntam no esforço em construir esgotos legais que as salvem. É preciso, como declarou o senador Romero Jucá, um dos muitos envolvidos em escândalos financeiros, estancar a sangria. Existem exceções, sem dúvida, em meio aos malandros e rapinantes (preferiria rapineiros, mas o dicionário ainda não anotou o vocábulo) que povoam nosso mundo político, mas quase sempre atuam como fazem os auxiliares dos árbitros de futebol: agitam suas bandeirinhas, mas não apitam nada.

Eis, amigos, o país que parece impermeável a esperanças. Mas não dá para se entregar aos bandidos. Precisamos ter a teimosia da mulher do piolho, de antiga anedota.

Março de 2017.

Publicado em Nacional, Política

Pagou robalo e comeu sardinha

02/02/2017 por bonat

Pedro e Elpídio são filhos de Jacinto, que era filho de Severino Pescador. Além de Jacinto, Severino teve outros sete filhos. Mesmo madrugando todo dia para desafiar o mar, ficava difícil sustentar a prole. Já naqueles idos 1920, quando a tal da poluição ainda não havia dado as caras, o litoral paranaense não era piscoso. Matinhos, onde viviam, se resumia a uma colônia de pescadores, sem estradas, sem luz e sem escola. Ele e Josefina, por serem analfabetos, e principalmente por isso, queriam que as crianças estudassem. Mas como, se o dinheiro não dava? Foi aí que o compadre Adroaldo se ofereceu. Jacinto, de coração partido, despediu-se para morar na casa do padrinho, deixando chorosos mãe e irmãos. Paranaguá, hoje tão perto, parecia-lhe longe demais. Mas Jacinto soube aproveitar a chance, a mesma que não tiveram os irmãos. Esforçou-se, estudou muito e formou-se em contabilidade. Foi trabalhar no escritório do porto.

Severino não sabia como agradecer a Adroaldo. Dinheiro não tinha. Seu único bem, quando a sorte ajudava, eram os robalos, gostosos de comer, mas difíceis de pescar. Robalo não anda em bando como outros peixes menos saborosos e que se enroscam na rede aos montes. Por isso é mais valorizado. É a tal da oferta e da procura, lei que Severino obedecia, mesmo sem conhecê-la. Para agradar aos compadres, sempre que conseguia fisgar algum, dava um jeito de enviar-lhes. Josefina e a meninada que se contentassem com sardinhas, tainhas e farinha, que ficam bem em versos, mas não no prato nosso de todo dia.

Lá pelo final dos anos 1940, Jacinto casou com Jorgina. Combinaram que só teriam dois filhos. Jacinto tinha consciência das dificuldades dos pais, e do que isso acarretara aos irmãos: continuaram analfabetos. Nasceram Pedro e Elpídio, e só. Na época certa, mandou-os estudar em Curitiba, que ficava a quase quatro horas de viagem. Elpídio fez engenharia. Pedro, odonto. O primeiro foi em frente, virou engenheiro de renome. O segundo herdou o espírito aventureiro do avô pescador: não se acostumou em ficar o dia inteiro entre quatro paredes. Juntou umas economias e, com a mulher Silvinha, mudou-se para Natal. Montaram a Pousada Robalo.

No último inverno, Elpídio resolveu fugir do frio curitibano. Aproveitando uma promoção, levou Mariinha e os filhos. Na ida, a conexão em Guarulhos foi rápida. Desceram de um avião e entraram no outro. De Curitiba até Natal levaram cerca de quatro horas, o mesmo que os irmãos Pedro e Elpídio, quando estudantes, para irem de Paranaguá a Curitiba.

Ficaram uma semana na Robalo, em Ponta Negra, uma das praias da agradável capital potiguar. Gostaram muito, pois, mesmo sem ser luxuosa, Silvinha e Pedro tratam-na com capricho. O irmão nada lhes cobrou, mas disse que os preços são bem em conta, tendo em vista a concorrência. Novamente, oferta e procura, pois, como a da gravidade, é lei que político algum consegue alterar.

Na volta, entretanto, a conexão lhes reservaria uma surpresa. Tiveram que permanecer por mais de três horas no aeroporto. Aí, passaram uma raiva daquelas. Queriam comer alguma coisa. Uma espiada no cardápio de várias lanchonetes os assustou. Se estivessem sós, ele e Mariinha teriam desistido. Mas sabe como é, havia as crianças, e criança quando tem fome, tem fome. Moral da história: gastaram no aeroporto quase o mesmo que para voar três mil quilômetros. Parece que os comerciantes de lá consideram o Euro como a moeda vigente. E, como a procura é maior do que a oferta, o cliente que pague, se puder.

Se as passagens aéreas tinham saído quase de graça, em Guarulhos, Elpídio gastou uma fortuna. Sentiu-se lesado. Não se conteve. Mandou um torpedo ao irmão de Natal: “Estamos em Guarulhos. Acabo de ser assaltado. Paguei um robalo para comer uma sardinha”.

Publicado em Turismo

Que tal presentear com um livro?

21/01/2017 por bonat

Cara(o) amiga(o),
Que tal presentear com um livro?
Em “Ciscos e Franciscos”, meu último livro de crônicas, ofereço um olhar sobre a realidade política e social em que vivemos, com uma pitada de humor.
Fica a minha sugestão! Por apenas R$ 25,00 (com frete já incluso).
Para adquirir, basta enviar seu endereço para hamiltonbonat@hotmail.com , que providenciarei a remessa.
Grande abraço!
Hamilton Bonat

Publicado em Cultura, Literatura

As Forças Armadas são assim. (por Ernesto Caruso)

08/01/2017 por bonat

As Forças Armadas são assim

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Ernesto Caruso

De início, vale lembrar-se do presidente Castello Branco (1964/1967) que ampliou o tempo de serviço dos militares das Forças Armadas, de 25 para 30 anos, conforme a Lei nº 4.902/1965, coerente com a realidade: Art. 12. O militar passa para a Reserva… Art. 13. A transferência para a Reserva, a pedido, poderá ser concedida: ao militar da ativa que contar, no mínimo, 30 anos de efetivo serviço.

Regra de transição: Art. 60. Fica assegurado ao militar que na data de 10 de outubro de 1966 contar 20 ou mais anos de efetivo serviço o direito à transferência, a pedido, para a Reserva Remunerada a partir da data em que completar 25 anos de efetivo serviço.

Anteriormente, pela Lei nº 2.370/1954 e Art. 13, “A transferência para a reserva, a requerimento, só poderá ser concedida ao militar que contar, no mínimo, 25 anos de efetivo serviço…”

Houve quem recorresse, não tendo os vinte anos de serviço, mas diante da “expectativa de direito”, fundamento aceito, cumpriu-se a nova regra normalmente.

Tal fato foi trazido à tona nesta oportunidade em que a Nação debate a necessária reforma da previdência (PEC 287/2016), face ao descompasso entre o arrecadado pela União e os compromissos em manter assistida parte da população que se aposenta ou é pensionista.

A Carta Magna de 1988 faz distinção entre os servidores públicos (Sec. II, Art. 39), os militares dos Estados — policiais e bombeiros — (Art. 42) e, os militares das Forças Armadas (Art. 142), cada conjunto com as suas especificidades. E assim, devem ser apreciadas com as evoluções naturais e as necessidades que satisfaçam a sociedade como um todo.

As atividades dos servidores públicos civis são mais bem conhecidas fruto do relacionamento com a sociedade e das reivindicações rotineiras próximas da legislação que rege as atividades privadas entre empregadores e empregados.

O cerne da atividade das Forças Singulares está na preparação precípua de formar militares para a guerra com as vicissitudes expostas na mídia, fatos do passado e do presente, morte, invalidez, amputações, neuroses. Incontestável que não se faz guerra no carpete e ar condicionado.

Independentemente da iminência da guerra, cenário no Oriente Médio ou, possibilidade remota como historicamente registrada no Continente Americano, a preparação se impõe nos moldes mais realistas possíveis, desde o básico ao tratar da guerra química, bacteriológica e nuclear, aos exercícios de tiros com armamento pesado, canhões, sobrevivência em regiões inóspitas, etc.

E mais, envolvendo material bélico de alta sofisticação tecnológica, como navios, aviões, helicópteros, foguetes e mísseis. Sempre um perigo nas mãos de militares mal formados. Daí, a exigência extrema na prevenção de acidentes e a prioridade no ensino eficiente e seguro para se lidar com artefatos que exigem perícia e com isso, evitar danos materiais e pessoais à sociedade.

Todo quartel é uma escola; os oficiais são instrutores, auxiliados por sargentos e cabos; professores e monitores que transmitem o conhecimento formam combatentes na ordem 100 mil recrutas por ano. Os professores não têm aposentadoria especial?

As organizações mantêm serviços diários que zelam por sua segurança, dos veículos, armamentos e munições. Nesse particular, diferente de outras categorias de servidores, e da iniciativa privada sob a capa protetora das leis trabalhistas que não enquadram os militares.

Um serviço de escala que comece às 7 horas de um domingo e termina na mesma hora na segunda-feira, não isenta o militar de prosseguir no expediente até às 16 horas, que pode não terminar nessa hora por qualquer eventualidade. São 33 horas em atividade; quatro jornadas de 8 horas mais uma hora. No dia seguinte, não tira folga também; vai ao expediente. Na mesma semana pode ser escalado de serviço, em dia útil, ou sábado, ou domingo. Sem hora extra, sem adicional noturno…

Ora, um plantão de 24 horas (três jornadas de trabalho), pressupõe uma folga de 36 ou 48 horas. Não, para o militar, que ao longo do ano de instrução vai participar de vários acampamentos de 3 ou 4 dias, sob calor escaldante, frio ou chuva, manuseando gases, atirando com canhões, explodindo granadas, não contemplados com os mandamentos da Lei Maior (Art. 7º – São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:…XXIII – adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei;). Diferentemente dos celetistas e servidores públicos.

No artigo “Militar é diferente”, em O Globo/1999, o deputado Aldo Rebelo (PC do B), escreveu: “Em 30 anos, a jornada regular de um civil é de 56.760, enquanto a da caserna soma 83.800 horas. Um militar que vai para a reserva após 30 anos de serviço na verdade trabalhou 44 anos.” Bem antes de ser ministro da Defesa.

A MP 2131, DE 28/12/2000, depois MP 2215, cancelou para efeito de proventos a promoção ao posto seguinte, aumentou o percentual de descontos para o Fundo de Saúde e para a pensão militar (7,5%) e, cancelou a licença especial e a pensão para as filhas, a partir daquela data, criando mais uma cobrança 1,5%, por opção. Uma perda da ordem de 20% ao passar para a reserva,daquele que tinha 15 anos de serviço antes da MP. Perda maior para os que tinham menos tempo de serviço. Os militares ainda arcam com 20% dos gastos com exames laboratoriais, despesas de hospitalização e as consultas, estas, com médicos conveniados.

O Estado não desconta dos militares valores para fins de “aposentadoria”, mas sim, para assistência médica e para a pensão, que advém do Montepio, instituído na Guerra do Paraguai e que desde então todos, na ativa ou na reserva, reformados, contribuem. Os vencimentos e os proventos são considerados como despesas orçamentárias, cabendo à Nação defini-las como investimento em segurança ou não, função do patrimônio físico e histórico do Berço Esplêndido — Brasil Continente.

Ernesto Caruso é Coronel de Artilharia e Estado-Maior, reformado.

Publicado em Segurança Nacional

O Exército do Ponche Verde

18/12/2016 por bonat

O EXÉRCITO DO PONCHE VERDE

Gen Ex Paulo Cesar de Castro

Em uma manhã de três de dezembro de dois mil e dezesseis, na catarinense Chapecó, centenas de pessoas estiveram unidas por emoções, dores e lágrimas. Flores, faixas, cartazes, fotografias de jogadores e camisas da Associação Chapecoense de Futebol foram vistas mundo afora. O povo simples, sincero e ordeiro demonstrou seus sentimentos ao longo do itinerário percorrido pelo cortejo fúnebre do aeroporto até a Arena Condá. Esse modesto estádio abrira seus portões para o velório coletivo de atletas, dirigentes e jornalistas, vítimas fatais de trágico acidente aéreo na Colômbia. Através da televisão, milhões de brasileiros solidarizavam-se com os chapecoenses naqueles momentos de luto. Compartilhavam a mesma dor dos que choravam por entes queridos, amigos e heróis do esporte.

Eis que um verdadeiro dilúvio se abateu sobre a cidade. Chovia torrencialmente, mas um doloroso cerimonial deveria ser cumprido, malgrado o alagamento do pátio de estacionamento de aeronaves e do gramado do estádio.

Nesse cenário, desponta o Exército Brasileiro.

Nossa Força recebeu respeitosamente os caixões com os restos mortais transportados até Chapecó nas asas da Força Aérea Brasileira. A família verde-oliva orgulhou-se do desempenho de sua tropa que, sob aquelas condições de tempestade inclemente, trazia das aeronaves, ritual e impecavelmente, os ataúdes lacrados. Graduados, com braço forte, uniformes encharcados e corações feridos, desfilavam até a guarda de lanceiros. Estes boinas pretas, com garbo e porte marcial, apresentavam armas à passagem pelo tapete vermelho daqueles que tanto fizeram por merecer.

Aqueles guerreiros do Exército eram cavalarianos do velho Corpo da Guarnição da Província de Goiás (1842), atual 14 Regimento de Cavalaria Mecanizado, “Lanceiros do Ponche Verde”, aquartelado em São Miguel do Oeste (Santa Catarina). Evidenciaram rusticidade, responsabilidade e dedicação no cumprimento do dever, sob condições climáticas e afetivas assaz adversas. Podia-se ver a chuva escorrendo pelos rostos e uniformes dos soldados de Caxias e de Osório. As imagens eram transmitidas ao vivo para inúmeros países. Falavam por si mesmas e expressavam, em verdadeira grandeza, o valor da mão amiga de nossos irmãos de armas.

Não hesitaram. Não tremeram. Contudo é certo que sentiram no fundo da alma e no arrepio da pele – e de muito perto – as perdas irreparáveis daquelas vidas inesperadamente ceifadas. Afinal, “a farda não abafa o cidadão no peito do soldado”, afirmou o Marquês do Herval. Legaram exemplos de abnegação, disciplina, persistência, equilíbrio emocional e sobriedade.

Um observador atento salientará que houve exame de situação profissional, meticuloso planejamento, detalhado reconhecimento e árduo treinamento. O mesmo observador afirmará, sem errar, que aquela tropa executou a manobra sob firme liderança militar em diferentes escalões de comando. Nossa gente demonstrara porque o Exército – e as Forças coirmãs – ostentam, junto ao povo brasileiro, índices de credibilidade invejáveis.

O cerimonial não foi apenas integralmente cumprido, foi exemplarmente cumprido por tropa de elevado moral. Orgulhemo-nos dos nossos cavalarianos do 14 RCMec. Eles ultrapassaram o objetivo de cumprir a missão com êxito, foram mais do que o Regimento, transformaram-se e revelaram ao mundo o Exército do Ponche Verde, o Exército Brasileiro.

Publicado em Homenagens

Turma Marechal Castello Branco – 45 anos de formatura

14/12/2016 por bonat

Excelentíssimos senhores generais-de-exército Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, Comandante Logístico; João Camilo Pires de Campos, chefe do Departamento de Educação e Cultura; com os quais convivi na cidade do Natal, em 1993 e 1994, quando ambos integravam o Estado-Maior da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada e eu comandava o Batalhão Visconde de Taunay; Fernando Azevedo e Silva, Chefe do Estado-Maior do Exército; Manoel Luiz Narvaz Pafiadache, Chefe do Departamento-Geral do Pessoal e que recentemente comandou o nosso Comando Militar do Nordeste; e João Carlos Vilela Morgero, da Turma Marechal Castello Branco, em nome dos quais eu saúdo os demais generais e autoridades presentes.
Excelentíssimo senhor general-de-brigada André Luís Novaes Miranda, comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, a quem agradeço a abertura desta casa para os seus eternos cadetes. Aqui estão diferentes gerações de soldados, mas todos pertencentes a um só Exército, com os mesmos princípios herdados dos nossos antecessores.

Senhoras, senhores e jovens aqui presentes.

Meus amigos e companheiros.
Inicialmente, os nossos agradecimentos à Comissão Organizadora desta confraternização, tão bem conduzida pelo amigo Ribeiro e composta pelos amigos Manarte, Itamar, Deusdedit, Jeová, Simar e Eliasar, todos responsáveis pelo êxito já alcançado.
O nosso reconhecimento também aos amigos que, com seus contatos frequentes, participações nos eventos, incentivo à realização de encontros anuais e criação de ferramentas para a integração da Turma, a tornam mais unida.
Meus irmãos de farda e de ideais. Novamente, aqui estamos, na majestosa Academia Militar das Agulhas Negras, berço da nossa formação.
Em 1971, nos 160 anos de criação da AMAN, o então cadete do quarto ano Andrade Neves, da Cavalaria, assim se expressou, em sua saudação publicada no jornal Agulhas Negras: “Aqui, neste recanto tranquilo e colorido, sacrário de nobres tradições, testemunha de muitos sacrifícios e acalanto de tantos sonhos, a Nação observa, confiante, a preparação da juventude militar brasileira. Cumpre-nos manter bem alto o nome do nosso Exército, democrático por formação, cuja única ambição é trabalhar por uma Pátria livre e grandiosa, capaz de proporcionar felicidade a seus filhos”.
Éramos aqueles jovens, que agora retornam a esta casa. E voltaremos sempre, enquanto a vida o permitir.
Nesta manhã de alegria,/ No rosto, um sorriso franco,/ Volta à Academia,/ A Turma Castello Branco.
Dos 510 cadetes que inicialmente integraram a nossa Turma, 375 receberam o espadim e 318 foram declarados aspirantes-a-oficial. Mas, todos eles são considerados membros da Turma Marechal Castello Branco. Por diversos motivos, particularmente por vontade própria, vários companheiros partiram para novos desafios na vida civil. E, como os amigos aqui presentes, Jorge Saito e Sérgio Antônio Leme Dias, muitos foram os que se destacaram em outras áreas, contribuindo com o seu trabalho para o engrandecimento do Brasil. Alguns que se formaram posteriormente, também fazem parte da Turma. É o caso do amigo Marco Aurélio dos Santos Amaral, o Pará, que, após um acidente na equitação, não pôde prosseguir conosco, mas aqui está presente, para a nossa alegria, porque ele também sabe que é um dos castelenses da querida “Barraco Preto”. Apenas o emprestamos para a Turma Marechal Mascarenhas de Moraes.
São passados 45 anos, desde a nossa formatura, em 18 de dezembro de 1971.
Naquela época, o então aspirante Bonat, da Artilharia, assim escreveu: “Quatro anos de Academia. Haverá muito a contar: as noites sobre os livros, a saudade dos lares, das namoradas, as noites chuvosas no campo, a camaradagem, os desfiles do Sete de Setembro, as grandes amizades que se fizeram, as brincadeiras nos apartamentos, as boas e as más horas. Quatro anos, muita luta, muitos obstáculos. Vencemos! Podemos continuar de fronte erguida porque o portão de saída dos novos aspirantes se abriu para nós. Sim, já somos oficiais do Exército Brasileiro e podemos dizer, sem medo de errar: o Brasil pode confiar na Turma Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.”
Agora, novamente, podemos repetir: Vencemos!
A vibração do cadete,/ Sentimento tão perfeito,/ Como se fosse um colete,/ Continua presa ao peito.
Daqui saímos, jovens aspirantes, empunhando a espada de oficial do Exército Brasileiro e carregando no coração a chama dos nossos ideais. Bem preparados, física e profissionalmente, nos espalhamos pelos diversos rincões deste país, para a dura labuta dos corpos de tropa, onde, no dia a dia da caserna, iríamos participar da formação militar e cívica de parcela significativa da juventude brasileira, do treinamento constante para o combate, da guarnição de nossas fronteiras, da ajuda ao nosso povo, das obras em prol do desenvolvimento do país, da garantia da lei e da ordem, das missões de imposição e garantia da paz no exterior e de tantas outras.
Sem a tecnologia das comunicações atuais, nos separamos e, por anos a fio, perdemos o contato com muitos companheiros. Por outro lado, especialmente nos cursos de mestrado e doutorado, na Vila Militar e na Praia Vermelha, ou em guarnições maiores, como em Brasília, também foram muitos os reencontros, particularmente com os companheiros de outras armas, quadros e serviço. E nessas ocasiões, parecia que os anos não tinham passado, apesar das marcas deixadas em nossos corpos e das estrelas conquistadas na sequência dos postos da hierarquia militar. E nos transformávamos nos mesmos cadetes de um passado nunca esquecido, com as mesmas brincadeiras, com o mesmo sentimento de fraterna amizade. Ainda assim, há companheiros que alguns nunca mais reviram, desde a nossa partida da AMAN. Foram os muitos desencontros da nossa profissão, na sequência de chegadas e partidas que se sucederam nas muitas organizações militares, algumas distantes demais, e que também atingiram, na formação e consolidação de amizades, as nossas esposas e os nossos filhos, a quem reverenciamos, como o alento principal de nossas ações.
Uma gratidão especial a essas meninas, algumas não mais presentes fisicamente, que, abandonando os seus familiares e as suas origens, acompanharam os seus maridos e foram residir em pequenas vilas militares, até de lugares inóspitos, abdicando, muitas vezes, dos seus estudos, de suas carreiras profissionais e de suas potencialidades, para se tornarem, apenas, mulheres de soldados, compartilhando com os seus maridos o sentimento da caserna e da vida simples do militar. E ainda lhes facilitando os estudos nas escolas militares e o desempenho dos seus cargos de comando, assumindo, na prática, os trabalhos do dia a dia familiar. São os nossos anjos da guarda!
EXISTE UMA PROFISSÃO,/ QUE EXIGE TUDO DA GENTE,/ AMOR E DEDICAÇÃO,/ POR TODO TEMPO CORRENTE.

A PÁTRIA VIRA ORAÇÃO,/ UMA FÉ INTRANSIGENTE,/ QUE INVADE O CORAÇÃO,/ O CORPO, A ALMA E A MENTE.

ESSE VIVER DEVOTADO,/ POR MUITOS NÃO ENTENDIDO,/ TEM O PESO ALIVIADO

PELO AFETO CORRESPONDIDO/ DE ANJOS POR DEUS ENVIADOS/ PARA AMAR OS SEUS SOLDADOS.

E por que, mais uma vez, retornamos a esta casa?
Para contemplar os picos da Serra da Mantiqueira, como o das Agulhas Negras, que emolduram o cenário desta Academia Militar e cujo perfil estilizado compõe o seu Brasão das Armas?
Para entrar novamente em forma no Pátio Tenente Moura e recordar a rotina diária das formaturas, o avançar para o refeitório, a marcialidade nas datas comemorativas e os inesquecíveis momentos, compartilhados com as pessoas queridas, da entrega dos espadins e das espadas?
Para retornar aos locais de estudo, como a biblioteca, o bosque às margens do Rio Alambari, as salas de aula e os apartamentos, com suas luzes e gagazeiras iluminando muitas madrugadas?
Para lembrar as ordens de marcha e retroceder aos tempos das manobras, dos acampamentos e bivaques acadêmicos e dos duros exercícios especiais de montanhismo, patrulhas e fuga e evasão?
Para rever as nossas alas, os nossos apartamentos, os pavilhões dos diversos cursos, o complexo esportivo, o estande de tiro, os campos e as pistas de instrução, a agência dos correios e telégrafos, tão usada naquela época, as ladeiras das corridas no Monte Castelo e cada pedaço deste chão acadêmico, de tantas recordações?
Sim, por tudo isso, aqui estamos. Mas, principalmente, para reforçar os laços de sadia camaradagem que unem os verdadeiros soldados, e para dizer que, mesmo em retiro das lides castrenses, continuamos vigilantes na construção de uma trincheira instransponível, que impeça o Brasil de cair no abismo das ideologias contrárias aos princípios que formaram a nossa nacionalidade.
E de um modo especial, também estamos aqui, para mostrar o sentimento da nossa gratidão, a todos aqueles que, direta ou indiretamente, participaram de nossa formação acadêmica.
Aos funcionários civis, da cozinha, do refeitório, da granja, da lavanderia, da barbearia, das alas, dos cursos, das seções de ensino, do hospital e de outros setores, o nosso agradecimento. Por intermédio do velho Bráz, do seu Oscar e da doce Irmã Maria, sempre com palavras de carinho para com os seus cadetes, reverenciamos os muitos, que, no anonimato de suas vidas simples, foram importantes em nossa passagem por esta Academia.
Aos militares, desde os generais comandantes, como Paula Couto, Meira Mattos e Fragomeni, até os mais modernos dos recrutas, que cumpriram o serviço militar obrigatório no Batalhão de Comando e Serviços da AMAN, o nosso reconhecimento. Nesse contexto, estão os nossos professores, os comandantes de cursos, os comandantes das companhias, os instrutores e os tenentes comandantes de pelotão. Jamais serão olvidados, pois tiveram uma participação especial na nossa formação, mostrando-nos sempre a importância do exemplo e da lealdade, como os mais caros princípios da carreira militar, facilitadores da compreensão do que seria viver nos ditames da hierarquia e da disciplina, sem prepotência, mas também sem servidão. Não precisarei citá-los, com os seus nomes ou carinhosos apelidos, pois as suas lembranças ainda marcam as nossas vidas. Em nome de um deles, morto tragicamente, aos vinte e oito anos, durante uma atividade de instrução no campo e cujo nome denomina o Pavilhão do Curso Básico, agradecemos a todos eles, muitos já falecidos, pelo monumental esforço, individual e coletivo, na formação dos oficiais da Turma Marechal Castello Branco. O seu sacrifício, na profissão de risco que assumimos, não foi em vão, Tenente Márcio Antônio de Oliveira. E o seu nome será sempre lembrado pelos seus cadetes, mesmo que não constasse em nenhuma placa no interior desta Academia.
Nesse retorno ao passado, não poderíamos deixar de recordar o amor e o incentivo dos nossos pais, que souberam superar a saudade das nossas ausências, substituindo-a pelo orgulho das nossas conquistas.
A todos os nossos familiares, amigos, superiores, pares e subordinados, que enriqueceram, com exemplos de vida, a nossa trajetória, o nosso muito obrigado.
Ao Deus de cada um de nós, a nossa gratidão por termos chegado até aqui, sem diminuir a nossa fé em um Brasil muito melhor para os nossos filhos e netos.
Hoje, já passados muitos anos na inatividade, continua atual a prece da despedida, que o amigo Coronel Higino, da Engenharia, proferiu em 1999:
“Pátria! Os muitos anos de vida que me pediste foram integralmente consumidos. Dedicar-me inteiramente ao teu serviço o fiz muitas vezes, até a exaustão. Fiz da caserna o meu sacrário; da profissão, crença; da vida militar, sacerdócio. Retiro-me, com a mesma alma de soldado dos primeiros passos. Peço ao Criador o descanso justo porque, reconhecendo a minha pequenez, a cada segundo, busquei ser perfeito. No sagrado seio da família, muitas vezes por ti trocada, estarei ao teu dispor, sempre que preciso for.
NON NOBIS, PATRIA, NON NOBIS, SED NOMINI TUO AD GLORIAM! (Não por nós, Pátria, não por nós, mas para a glória de teu nome!). Na adaptação do Salmo de David e do Lema dos Templários”.
E nesta ocasião, prestamos solene continência ao nosso patrono, o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, grande militar, estadista, combatente da Segunda Guerra Mundial nos campos da Itália e primeiro Presidente da República, no período da Contrarrevolução Democrática de 31 de Março de 1964. A sua visão de liberdade, democracia e patriotismo é um exemplo que assumimos. E, usando as suas palavras, reafirmamos que a nossa Turma será “sempre fiel à honra do Brasil”.
O juramento prestado,/ No nosso ardor juvenil,/ Permanece imaculado/ Na defesa do Brasil.
Neste encontro de irmãos, nem todos se fazem presentes fisicamente. Espalhados pelos muitos rincões deste país continente, muitos não puderam, por vários motivos, comparecer. Alguns, com problemas de saúde, recebem o nosso pensamento de superação e de vitória nesse grande e belo combate, do qual todos participamos: o da vida. Outros, por compromissos familiares e de trabalho inadiáveis, até mesmo na aprazível tarefa de avô. Alguns, talvez por acomodação, nestes tempos de idosos, quando, algumas vezes, nos trancamos em nós mesmos. Mas, escutem o conselho do filósofo Peninha: “estamos velhos demais para protelar encontros”. Um grupo, com certeza, cumpriu com mais presteza as missões determinadas neste Plano Terrestre e obedeceu ao chamamento do Criador, para novas e importantes tarefas em algumas de suas muitas moradas. Não sei se eles estão presentes neste ambiente físico, mas, no dizer de Camões, no assento etéreo onde subiram, recebem as vibrações que daqui emanam, de carinho, de companheirismo e de uma doce saudade. Como bem diz a nossa Cavalaria, que “os nossos estribos se choquem em cavalgadas futuras, pois assim estarão selados, para sempre, os laços da nossa amizade”.
E quem sabe, montado novamente no meu cavalo Esso, que em certo domingo acadêmico, me levou em disparada, agarrado ao seu pescoço, para o almoço nas baias, eu possa cavalgar em suaves campos verdejantes, ao lado do Britão, agora mais leve, montado em seu Granadeiro, único cavalo que, naquela época, com suas ancas largas, suportava o peso do não tão esbelto infante. E quem sabe, lá também estará a Maísa, a dos olhos tristes, com o seu pelo esbranquiçado e manchas pretas cobrindo parte do seu corpo. Talvez, rejuvenescida, passe a seguir o trote dos cavalos, como fazia, embora já cansada, acompanhando as marchas a pé e os exercícios de campo dos cadetes do Curso Básico, como a incentivá-los nas duras jornadas.
E na alegria desta comemoração, lembramos dos queridos amigos que nos deixaram fisicamente, mas que permanecem em nossos corações. São eles:
Moacir TEIXEIRA de Araújo e RAUL José Haendchen, jovens cadetes falecidos em 1970.
Ângelo José CASTRO Alves Ferreira, Antônio Fernando de Sá Muniz BARRETO, Antônio Geraldo Araújo ÁVILA, ANTÔNIO MARCO Baptista da Silva, Armando GALEMBECK Júnior, Braz Miguel RUSSO, Carlos Eduardo GUTTMANN, CARLOS JORGE do Nascimento, DANILO Tambeiro Guimarães, Elias de OLIVEIRA SANTOS, Geraldo MAGELLA Marques de Vasconcellos, Henrique CLEBER Simões, HILTON Hril Falcão Torres, IRAN Müller Lago Filho, Jairo Roberto Freitas RAMOS, João Batista Farias CARNEIRO, José Antônio QUEIROZ, José BANDEIRA de Melo Filho, José CALAZANS de Carvalho, José Eduardo BRANCO, José Luiz CERAVOLO, José Maria MOURA VIANA, LAUDENIR José Rosa, Luiz Augusto RAGGI, Luiz Eduardo GOUVÊA Alves, Manoel Aloisio de Campos RAMIRO, MAURO Cardoso Canito, NADIN Ferreira da Costa, Osvaldo Roberto DE PAULA, PRIMO Beraldo, Ramão GRALA, Roberto Antônio Pinto COSTA, Ronaldo Medeiros ILHA MOREIRA, Sérgio José Alonso SOCHACKI, Sílvio Sérgio Pereira NATALINO, Tamotsu WATANABE, UBIRATAN Miguel da Silva e WILLIAN Cardoso Espíndola
E, mais recentemente, nesse último quinquênio, particularmente no ano passado: ALBERTO Souza Gonçalves,Carlos Alfredo NEVES, Carlos Cesar Cunha MARTINS, FERNANDO Henrique Pereira Rosa, JAIRO de Castro Freitas, José Antônio BRAGA, José Carlos KRATZER, Laercio Corrêa de NORONHA, Paulo Carvalho ESPINDOLA, Pedro Paulo Molinaro ZACHARIAS e Ronaldo do Vale BRITO
Ó Deus dos Exércitos, tende piedade. Não dizimeis Vós as nossas fileiras. Preservai os meninos da Turma Marechal Castello Branco. Foram muitas as baixas em tão pouco tempo.
Somos soldados! Fomos preparados para as agruras do combate e, consequentemente, para a morte. Mas, agora, quando estamos no retiro das nossas vidas, queremos um pouco mais do tempo que, no passado, a dedicação ao serviço nos tirou. Tempo para brincar com os netos, receber o carinho dos filhos, o amor da companheira e a amizade dos amigos. Tempo ainda para acreditar na grande Pátria dos nossos sonhos juvenis. Tempo para nós mesmos. Um pouco mais, apenas.
Mas, em tudo, seja feita a Vossa vontade. Seremos fortes, pois nos habituamos a cumprir a missão recebida e partir para novos e mais importantes desafios. Mas, deixai que choremos as nossas perdas, as despedidas, as ausências físicas, pois também bate um coração no peito do soldado.
Com muita honra, mas também com muita humildade, recebi da Comissão Organizadora, com o apoio de alguns amigos, a grata missão de expressar o nosso contentamento neste encontro dos 45 anos de formatura da Turma Marechal Castello Branco. Por brincar de ser poeta, com meus versos de rima pobre, no limite do meu esforço e na boa vontade dos companheiros, não poderia deixar de usá-los no meio desta prosa. Por isso, ao encerrar esta tarefa, que procurei cumprir mais com o coração do que com o cérebro, o faço com mais um soneto. Eu o ofereço, como uma singela homenagem à família, célula principal de nossa nacionalidade, e ao Exército, guardião da nossa Pátria.
O QUE ME RESTA DIZER,/ NO MOMENTO DA DESPEDIDA,/ A NÃO SER AGRADECER/ AS JÓIAS GANHAS NA VIDA.

E NO ÂMAGO DO MEU SER,/ AS GUARDO BEM ESCONDIDAS./ MAS DEIXO TRANSPARECER/ O QUE A ALMA DÁ GUARIDA

POR VOCAÇÃO, SER SOLDADO./ SERVIR À ARMA DE CABRITA,/ AMAR A MINHA FATITA

E OS FILHOS POR NÓS GERADOS./ E TER SEGURO ABRIGO,/ NO PEITO DE CADA AMIGO.

Resende, RJ, em 10 de dezembro de 2016

Luiz OSÓRIO Marinho Silva – Cel Eng Refm da TMCB – AMAN 1971

Publicado em Datas marcantes

No tempo das aeromoças

02/12/2016 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Dobro a curva. Agora consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, dentre tantos, o único merecedor daquela gentileza.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e de sua bagagem. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preze não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não consegue esconder sua inveja.

O avião atinge a altura de cruzeiro. Para demonstrar tranquilidade, finjo que durmo, e acabo pegando no sono de verdade. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada no céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma rampa descendente, em cujo sopé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba indica-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de segui-las… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum os passageiros aplaudirem o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, provavelmente, aplaudiríamos as aeromoças.

À porta do avião, ouço pela derradeira vez aquela voz bem treinada: “Tenha um bom dia”. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito a uma igreja pedir perdão pelos meus pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba me apontará o caminho das aeromoças. Mas, sinceramente, será que elas estarão lá?

Publicado em Esportes, Homenagens

Troféu Inspiração/2016

26/11/2016 por bonat


Recebendo o Troféu Inspiração, por ocasião da cerimônia comemorativa dos 77 anos de criação da Academia de Letras José de Alencar.

Publicado em Datas marcantes, Literatura

Carta emocionante de um leitor

02/11/2016 por bonat

Brasília, 29 de outubro de 2016
Prezado Bonat

Estou encomendando mais um exemplar de Ciscos e Francisco, naturalmente que autografado pelo autor. Desta vez, peço que o autógrafo não seja dedicado a mim, pois é para presente. Podes autografar para a presenteada. Vou te falar um pouco sobre ela e também do porquê do presente.

O presente é para a minha mãe, para o seu aniversário de 90 anos (isso mesmo, 90 anos). Vou a Porto Alegre, onde ela mora, para a festa. Ah, o nome dela? Pode ser para Mariazinha, como ela é conhecida, ou D. Mariazinha.

Por que resolvi que esse livro será meu presente de aniversário para ela? Ao ler o livro, além dos pontos que já comentei contigo, tive a sensação de que minha mãe iria se identificar com muita coisa que tem ali (tenho certeza de que se encantará com a história da fabulosa engenheira).

Minha mãe é viúva de soldado. Morou no Paraná por duas vezes e tem dois filhos paranaenses (tenho uma irmã nascida em Ponta Grossa e um irmão de Foz do Iguaçu) e há muitas passagens marcantes de sua vida ocorridas em solo paranaense.

Meu pai, primeiro de turma na EsAO, escolheu Foz do Iguaçu (lembre-se, tratamos aqui daquela Foz do Iguaçu da década de 50, pouco mais do que uma aldeia). Em Foz, meu pai, SOZINHO, preparou-se para o concurso de admissão à EsCEME e fez as provas em Curitiba (tenho até hoje as cartas que, nos meus ingênuos oito anos, troquei com ele naquela ocasião) e sua aprovação foi uma verdadeira façanha (naquela época as telecomunicações eram um sonho distante). Daquela época, ficaram alguns grandes amigos paranaenses (talvez tu conheças alguns deles, Gen Vasconcelos, colega de turma do meu velho, Cel Benedito, Cel Assis Brasil, gaúcho casado com uma pontagrossense, Cel Paulo Braga, irmão do Ministro Nei Braga, o próprio ministro e outros). Anos mais tarde, quando o velho serviu em Assunção, no Paraguai, onde chefiou a MBIMP, não foram poucas as visitas ao Paraná (até mesmo porque quando eu fui morar na Usina Hidrelétrica de Salto Osório, eles ainda estavam em Assunção).

O aniversário é em dezembro e, logo em seguida, a mãe vai para a praia veranear, ocasião em que, tenho certeza, Ciscos e Francisco será uma excelente e agradabilíssima companhia.

Bem, aí vão meus dados:
Eduardo Belmonte de Athayde Bohrer
Quadra … Águas Claras … Brasília – DF

Sei que já lançaste outro livro, mas, por enquanto, para esse presente específico, vou ficar com o que eu já conheço, por todos os motivos descritos.

Um abração, Bohrer

Publicado em Cultura