Despedida de Washington-DC – discurso

Embaixada do Brasil em Washington

Senhoras e senhores.

A prudência aconselha-me a ser muito breve.

Não posso correr o risco de ser traído pela emoção neste momento de despedida. Também, não pretendo aborrecê-los com reminiscências, que a bem da verdade, só têm valor para mim próprio. Até porque, uma recordação nostálgica poderia fazer aflorar, involuntariamente, algum possível ressentimento guardado no fundo do meu ser. E, definitivamente, não são as lamúrias de um velho soldado que pretendo lhes transmitir, pois apenas a gratidão e a sensação do dever cumprido habitam na minha alma neste momento especial.

A imagem que pretendo deixar, principalmente aos mais jovens, imagem que é verdadeira, é a de um soldado profundamente orgulhoso de ter, por mais de quarenta anos, servido ao seu Exército. Para resumir essas últimas quatro décadas, poucas palavras bastam. Entrei no Exército para servi-lo e à Pátria. Saio consciente de que, em todas as minhas ações e pensamentos, guiaram-me apenas esses dois faróis; Pátria e Exército. Acredito ter cumprido a missão…

Caros amigos, chegou o momento de partir. É hora de agradecimentos…

Faço questão de iniciar, externando-os, como nunca o fizera anteriormente, à Norma. Por onde andamos nesta vida nômade, ela procurou congregar a família militar. Aqui em Washington, não foi diferente. Ela foi incansável na tentativa de amainar a dor da saudade que nossas famílias sentiam dos entes queridos deixados no Brasil. Mas devo lhes confessar que essa foi uma via de mão-dupla. Vocês todos, muitas vezes e mesmo sem o saber, representaram para nós um filho, um irmão, um amigo lá no Brasil. Portanto, ao agradecer à Norma, agradeço a todos da família militar pelo que fizeram por nós nesse ano e meio de convivência.

O cargo que ora deixo permitiu-me conviver com o pessoal do Itamaraty, comprovando, na prática, tudo o que escutara e lera ao longo do tempo: da competência profissional e do elevado espírito patriótico dos seus quadros. Agradeço, portanto, ao Sr Embaixador Roberto Abdnur, aos Ministros Conselheiros Evandro Didonet, Carlos Alfredo e Edgar Casciano e a todos os que servem nesta Embaixada, aí incluída a Dra Lytha Spindola, nossa Adida Tributária, pessoas a quem aprendi a admirar, pelas inúmeras provas de dedicação ao nosso país e de consideração ao Exército e a mim próprio.

Na pessoa do Almirante Fernandes, novo e dileto amigo, agradeço aos integrantes da Marinha do Brasil. Na do Brigadeiro Sérgio, velho amigo de outras jornadas, aos integrantes da Força Aérea Brasileira. Neste agradecimento estão incluídos não só os militares, mas também os civis que trabalham nas suas aditâncias e comissões, e na Representação do Brasil na Junta Interamericana de Defesa. Sou grato não só por sua camaradagem, amizade e integração, mas também, pela identidade de propósitos e por sua atenção totalmente voltada para os interesses das nossas Forças e do Brasil.

Aos militares e civis da CEBW, capitaneados pelo Coronel Schons, manifesto o meu profundo reconhecimento pela proficiência do planejamento bem elaborado e pela execução eficiente e eficaz. Pelo apoio, pelo grau de excelência que souberam atingir e pela dedicação e competência com que conduzem seus importantes e sensíveis trabalhos.

Ao manifestar o meu agradecimento ao General Albuquerque, Comandante do Exército, por ter-me confiado, como última missão, o honroso cargo de Adido em Washington, quero render minha homenagem a todos os chefes que tive ao longo de mais de quatro décadas e de quem recebi os mais nobres exemplos de dignidade e de retidão de caráter.

Na pessoa de cada um de vocês, militares do Exército que percorreram comigo esta última jornada, rendo a mais calorosa gratidão a milhares de companheiros que tive o privilégio de ter tido como subordinados e colaboradores.

Na gratidão ao General Armando, deixo a minha homenagem especial aos meus contemporâneos da Academia Militar e a certeza de que os companheiros escolhidos para prosseguir a jornada representarão à altura a Turma Castello Branco, à qual tenho orgulho de pertencer.

Por fim, sou grato, de todo o coração, à minha pequena-grande equipe. Tão pequena ela é, que eu poderia citar cada um dos seus integrantes. Tão grande ela foi, que faço questão de nominá-la: o Coronel Megid, o Subtenente Giovani, o Rodrigo, o Vilson e, com a permissão do Roberto e do Sílvio, as “queridas” Edília e Cristina. Vocês foram grandes, porque incansáveis no afã de cumprir, com perfeição, as mais difíceis e diversificadas missões. Creio que formamos mais do que uma equipe. Fomos uma família, na qual todos deram de si o máximo para que o nosso Exército, por nosso intermédio, fosse muito bem representado. Jamais esquecerei do seu silente e dedicado trabalho. Jamais esquecerei sua lealdade, seus conselhos, sua amizade, seu integral apoio e sua compreensão, principalmente nestes últimos dias, quando meu mau humor tornou-me uma pessoa de difícil convívio. Aceitem minha eterna gratidão.

Prezado amigo, General Peret.

Ainda que esta solenidade tenha um roteiro previsível, com um formato definido no cerimonial castrense, este é um acontecimento único e singular. Mais do que uma rotina, é um momento especial, que funde presente, passado e futuro, e garante o processo de renovação do nosso Exército.

De um lado, um general que representa o passado, invariavelmente emocionado, com o semblante que não consegue dissimular o difuso sentimento que mescla alegria, tristeza, saudade e gratidão. Há também uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de continuar…

Do outro lado, o futuro! Um general tomado pela vibração, preparado para vencer mais um desafio. Aqui encontram-se pessoas especiais, com quem o senhor terá o privilégio de conviver nos próximos dois anos, findos os quais o senhor, ao se despedir, com certeza dirá, como eu, que teve orgulho de ter sido o Adido do Exército Brasileiro em Washington. Não tenho dúvidas do seu sucesso. Todos só têm a ganhar com a sua chegada e de sua querida família. Estou muito feliz em poder entregar o cargo a mãos tão honradas.

Senhoras e senhores.

Na minha vida castrense, vivi muitas experiências e aprendi muito. Fui muito feliz…

No entanto, este cargo que agora entrego e o período que aqui passei, foram dos melhores da minha existência.

Finalmente, meus amigos, nosso louvor a Deus, que em sua infinita bondade, permitiu-me ter servido ao meu Exército por mais de quatro décadas. Que Ele continue a iluminar os caminhos de todos nós.

Muito obrigado.

Washington – DC, 14 de setembro de 2005.

General Hamilton Bonat

Adido Militar nos Estados Unidos e Canadá