Amor de quatro patas

Por onde eu andava, no quintal da minha casa, El Guapecón sempre me acompanhava. Acompanhava e obedecia. Na ativa, cheguei a comandar mais de oito mil soldados. Depois, já na reserva, apenas El Guapecón cumpria as minhas ordens.

Tive seguranças competentes e leais. El Guapecón estava longe de ser um segurança competente. Sua principal virtude era a lealdade. Até porque ele sabia ser eu quem lhe pagava a ração. Esse foi o meu compromisso com ele, desde o dia em que o recolhi da rua, magro, sujo e pulguento.

Mais tarde, alimentado, vacinado e de banho tomado, mereceria até ter pedigree. Resolvi castrá-lo, a fim de evitar que fugisse do espaçoso quintal, atraído por um cio que estivesse perambulando sobre quatro patas pela vizinhança.

Pois hoje, El Guapecón não me obedeceu. Chamei-o, mas não respondeu. Calou-se para sempre. Meu quintal ficou vazio. Não deixou um guapequinha sequer como herdeiro.

Ainda não decidi se vou procurar outras quatro patas para substituí-lo. A gente se apega tanto a esses seres, que teme passar por novos momentos tristes como o de agora.

Mas se um dia eu resolver adotar, que elas sejam as de outro vira-lata, pois, mesmo não sendo eficazes guardiões, eles são extremamente fiéis e amorosos. E, convenhamos, é o seu amor que nos interessa.

Escurece… Paro por aqui. Munido de uma pá, vou cavar a última morada para El Guapecón no território que foi só dele. Sobre ela, bem que caberia uma lápide com o seguinte epitáfio: “Simplesmente amou, sem nada pedir”.

10 Respostas para “Amor de quatro patas”

  1. Carlos Gama Diz:

    Meu caro amigo, bom dia!
    Nos últimos meses tenho andado tão afastado da internet, que nem mesmo os meus sites estão funcionando.
    É sempre emocionante e triste tomarmos conhecimento do desencarne de um leal amigo de quatro patas, seja ele um cão ou um cavalo.
    Quantas lições eles nos transmitem, sem que consigamos absorver algumas delas, e o amor incondicional é a principal.
    Ainda que a partida de um amigo possa causar muitas dores, as alegrias compartilhadas são sempre em maior número; são insuperáveis e inesquecíveis.
    Oxalá você encontre um novo amigo de quatro patas!
    Fraterno abraço,
    Gama.

  2. Edu C. C. Lucas Diz:

    Caro Bonat
    Gostei do texto. Sei bem o que significa perder estes amigos, pois perdi vários cães e alguns cavalos. Não desejo que encontre outro amigo destes para preservá-lo de tristezas futuras. Eu não desejo mais. Chega de sofrimentos.
    Abraços
    Edu

  3. bonat Diz:

    Caro General Hamilton:
    Parabéns!
    Eis uma homenagem que prestei ao Tiquinho :O vira lata. ” O anjo de quatro patas” que minha mulher Maria Helena acolheu na rua.Faleceu no dia 19 de novembro. Celso

    T iquinho alegria do lar

    I nspiração e amor

    Q uerido só veio somar

    U nião ao integrar calor

    Induzindo todos a amar

    H avendo saudade e ardor

    O sol iluminando nos dá!.. Celso Portugal

  4. anita zippin Diz:

    grande e bela crônica. muito humanista e emocionante.
    El Guapecon ficará para sempre em nossa lembrança, através desta bela crÔnica e, com certeza, ele estará na estrela dos mais queridos, aqueles que nada pedem, apenas amor. parabéns!

  5. Vanderlei F Bomfim Diz:

    Sensacional.

  6. bonat Diz:

    Caro amigo Gen Bonat,

    Você tem toda a razão. Conseguiu exprimir, em poucas frases e de forma bastante sincera e emotiva, a sensação de perda que nos deixa a morte de um animal de estimação que conosco dividiu parte de sua vida, integrando-se à nossa.

    Também passei por essa fase, há alguns anos, quando perdemos sucessivamente e quase que simultaneamente dois desses seres animais que se transformam em amigos sinceros e leais, dando-nos todo o seu amor, sem nada pedir em troca. Grandes exemplos para muitos outros “amigos” que vamos encontrando pela vida afora…

    Um desses animais era uma recém nascida cachorrinha “Fox Terrier” que me fora presenteada por um fazendeiro amigo, quando eu ainda era Cap, servindo em Nioaque. Ela era brava e rosnava em tom ameaçador de defesa, sempre que alguém se aproximava da gente (eu, esposa e filhos). Viveu conosco durante 15 anos. O outro animal era uma macaca da raça “Prego”, herança das minhas andanças pela Amazônia (17a. Bda Inf Selva, em Rondônia, já como Maj QEMA). Viveu conosco 10 anos. As duas conviveram muito bem e gostavam de brincar juntas, com a macaca, sempre mais danada e esperta, levando a melhor sobre a cachorrinha. Esta morreu primeiro, já velha e quase sem forças para andar. Alguns meses depois, morreu a macaca, aparentemente sem nenhuma razão: apenas apareceu inerte dentro da caixa que lhe servia de casa. Creio que ela morreu por sentir a falta da cachorrinha que fora sua amiga por tantos anos, pois, desde a morte desta, a macaca nunca mais fora a mesma e deixara de ser alegre e brincar como era seu costume, permanecendo quieta no seu canto, parecendo triste e abandonada. A solidão também mata…

    Restou-nos a saudade das demonstrações sinceras de carinho e amor desses animais pelas nossas pessoas, tão espontâneas neles quanto raras entre os humanos. Não posso me esquecer das lambidas que a cachorrinha dava nas minhas mãos e no meu rosto ou do abraço apertado da macaca, todos os dias, e que era difícil de separar porque ela nào queria soltar.

    Por isso, concordamos com você e decidimos não ter mais animais de estimação porque nos apegamos muito a eles, quase como se fossem da própria família e a dor do sentimento de perda que nos deixam quando se vão é imensa. É preferível evitar ter que passar novamente por esse mesmo transe doloroso.

    Enfim, meus parabéns por mais esta bela crônica, comovente e verdadeira em sua essência.

    Um abraço fraterno. Queiroz

  7. bonat Diz:

    Querido amigo Bonat,
    Adorei seu texto, aliás, como todos os seus textos, mas Amor de 4 patas me tocou fundo.
    Grande abraço de sua fã
    Lilian

  8. Alfredo Cherem Filho Diz:

    Prezado General
    Seu texto nos brinda com o enaltecimento oferecido a tão pura criatura que a todo momento, se preciso, entrega sua vida para proteger seu dono com só uma exigência: comida com carinho.
    Um forte abraço,obrigado pelo envio
    Alfredo

  9. Monteiro Gomes Diz:

    Fantástico! Um poema sem versos e sem rima. Uma justa homenagem a um amigo.

  10. Francisco Souto Neto Diz:

    Caro colega acadêmico Bonat!
    Belo texto. Somente pessoas como nós, que convivem ou conviveram com animais de estimação – particularmente os cães – sabem como é difícil quando eles morrem. Meu último amigo de quatro patas chamava-se Paco, um chihuahua que representou uma grande alegria para mim durante 13 anos. Quando ele morreu, recebi da minha prima Lúcia Helena (ela reside em Paulínia e é minha coautora na biografia do Visconde de Souto) as seguintes palavras, muito sensíveis, que aqui transcrevo: ” “Consternada e triste. Sim, eu sei como é. E é aí que eu me pergunto: se existisse uma pílula do esquecimento, que apagasse todas – todas – as lembranças, você tomaria? Claro que não. Nem eu. O legado de amor e carinho que eles deixam é grande demais para ser esquecido, mesmo que isso pudesse evitar a dor. Sempre sabemos que um dia eles vão embora, mas nunca estamos preparados. Esses anjos são teimosos: um belo dia voam pra dentro do nosso coração e lá ficam para sempre”.
    Um abraço.

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