Pistoia – por Cecília Meireles

Pistóia – Cemitério Militar Brasileiro
Cecília Meireles

Eles vieram felizes, como
para grandes jogos atléticos,
com um largo sorriso no rosto,
com forte esperança no peito,
- porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém, soprava fogo
por estes campos e estes ares.
E agora estão na calma terra,
sob estas cruzes e estas flores,
cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo
cheias de lágrimas, seus filhos.

Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
- do que foi sonho não se sabe
e a dor vai longe, no vento…

4 Respostas para “Pistoia – por Cecília Meireles”

  1. Ultemir Dutra Diz:

    Lindo,comovente e oportuno!

  2. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Belíssima e pungente poesia, que toca a sensibilidade e emoção dos que reverenciam nossos soldados mortos na II Guerra Mundial.
    Resgate poético precioso, meu prezado amigo Hamilton.
    Forte abraço,

    Joaquim

  3. bonat Diz:

    Prezado amigo Gen Bonat
    Agradeço sinceramente a consideração e a gentileza demonstradas para comigo, enviando mais uma vez outra de suas mensagens, sempre bem-vindas e devidamente apreciadas. Mais ainda quando, como esta, trata de um tema que me é muito caro, conforme já é do seu conhecimento: a FEB, seus pracinhas e gloriosa atuação nos campos de batalha da Itália.
    Para aqueles que se interessam pelo tema e buscam pesquisar a fundo sobre o mesmo, ficarão espantados ao descobrirem quantos e tamanhos obstáculos tiveram que ser superados, desde o início da formação da FEB (dificuldades para a seleção e nomeação de um CMT e para o recrutamento de pessoal, fardamento inadequado para o clima da futura zona de atuação, deficiência de equipamentos, armamento obsoleto, falta de treinamento de combate, dentre outros) até a série de gloriosas vitórias dos Apeninos ao Vale do Pó, culminando com a rendição simultânea de duas Divisões, uma alemã e outra italiana. Isto só pôde ser conseguido através do valor, do exemplo e da capacidade de liderança dos nossos Oficiais e graduados, aliados à coragem, ao destemor e à bravura dos nossos pracinhas. Estes, embora oriundos, em sua grande maioria, de origens simples e humildes e com baixos graus de instrução, souberam muito bem superar os óbices opostos por um clima cruel e um inimigo obstinado e experiente através do emprego de meios e recursos improvisados pelo gênio inteligente do brasileiro em geral.
    Infelizmente, porém, apesar de ser previsto em qualquer ação bélica, sofremos as baixas que ficaram temporariamente enterradas em Pistóia e hoje encontram-se no Aterro do Flamengo e que se tornaram o motivo desse poema de Cecília Meireles. Muito emotivo e oportuno em sua homenagem, merece todo o nosso reconhecimento e agradecimentos pela lembrança que nos traz do sacrifício daqueles jovens que deram a sua vida pela Pátria e da tristeza das famílias que os perderam.
    Parabéns à poetisa pela inspiração e pela dedicação à evocação aos nossos gloriosoa pracinhas da FEB. A eles, HONRA e GLÓRIA eternas!
    Mais uma vez, muito obrigado.
    Fraternal abraço. Amancio.

  4. Edmar Diz:

    Ainda não sabemos lidar com a morte, mas é a consequência da vida.

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