De Reynaldos e Elíbios

“O senhor conheceu Elíbio Bonat?” Quem me indagava, por terem servido junto, era o senhor Reynaldo Pontarolli (foto), um dos três heróis anônimos da Força Expedicionária Brasileira a quem eu dava uma carona até o quartel-general da 5ª Região Militar, onde eles teriam uma reunião com o General Adhemar da Costa Machado Filho, seu Comandante à época.

Claro que conheci! E, convenhamos, ele nem precisaria ter dito o sobrenome – Bonat – pois foram pouquíssimos os Elíbios que passaram por este planeta Terra. Um deles foi o meu pai. Ele quase seguiu para a Itália também. Mas teve sorte. Quando chegou a vez de o seu contingente embarcar, a guerra terminara.

Segundo alguns tios, era para ele chamar-se Alípio. Entretanto, nos anos 1920, nem mesmo os escrivães eram alfabetizados, razão para ser até aceitável que recém-nascidos tivessem seus nomes adulterados. Se essa era a realidade nas capitais, imaginem nos cartórios localizados em remotos e isolados pedaços do interior de um Brasil preponderantemente rural de então. Pelo nome – Pangaré – localidade onde meu pai foi registrado, não é de estranhar que até o escrivão fosse, na melhor das hipóteses, semialfabetizado.

Há ainda outra versão, que fica por conta do fantasioso folclore familiar. Segundo ele, meu avô, coincidentemente também chamado Reynaldo, para comemorar a chegada de mais um filho, teria bebido além da conta no dia em que foi registrá-lo. Por isso, teria se confundido na hora de declinar o seu nome, trocando Alípio por Elíbio. Trata-se, no entanto, de hipótese pouco provável, pois nunca o vimos e nem soubemos que tivesse ingerido mais do que uma taça de vinho por refeição.

Voltemos ao senhor Pontarolli. Semana passada, tive que dele me socorrer. Meu neto veio pedir ajuda. Recebera, como trabalho escolar no Colégio Marista, onde estuda, a missão de entrevistar alguém sobre a II Guerra Mundial. Não precisava ser um Pracinha, mas, de imediato, lembrei-me do seu Reynaldo. Sabia que, todas as tardes de quarta-feira, ele ainda se reúne com alguns dos seus raros colegas. Na última quarta-feira, gravador em punho, nos mandamos, eu e João Gustavo, para a Legião Paranaense do Expedicionário, onde ele, com seus 96 anos e com toda a boa-vontade e paciência, teve a gentileza de conversar demoradamente com o meu neto, uma criança de apenas doze anos de idade.

Sua memória é invejável. Narrou em detalhes a sua experiência, desde a madrugada de 21 de abril de 1944, quando o navio que o transportaria (e mais de seis mil jovens colegas seus), zarpou do Rio de Janeiro, até o retorno triunfal, em julho de 1945.

O hilário disso tudo é que o trabalho foi passado para a classe do meu neto pelo professor de português, não pelo de história. Os alunos teriam que produzir uma “reportagem” sobre a participação do Brasil na II Grande Guerra, para ser publicada num “jornalzinho” da escola.

Louvável a iniciativa de um educador, que, espero, venha a ser repetida, com ainda mais razão, pelos de história. Afinal, em um país que tem a mania de procurar heróis no estrangeiro, é sempre bom valorizarmos os que temos em nossas cidades, bem ao nosso lado, e que ficam imensamente gratificados quando alguém se mostra interessado em ouvir as histórias que têm para nos contar.

38 Respostas para “De Reynaldos e Elíbios”

  1. Roncolatto Diz:

    Bravo!!! A LPE fica muito grata.

  2. anita Diz:

    diz o ditado:”o fruto não cai longe da árvore”.
    agora o neto do General Bonat procura a verdadeira História do Brasil, durante a 2a. Guerra Mundial. de parabéns também o professor quem escolhe temas palpitantes, até para a geração internáutica.
    queremos a entrevista com o senhor com mais de 90 anos, se for possível.

  3. Lúcio Wandeck Diz:

    Caro General Bonat
    Saudações
    O senhor escreve simples e claro, e sabe, como poucos, escrever gostoso.
    Sim, é isso mesmo, o senhor escreve gostoso.
    Quantas vezes, após a leitura de um texto árido denunciando essa política gandaia que nos entristece, fico furioso cuspindo marimbondos, precisando de um refrigério literário.
    Estico a mão, pego no seu Ciscos e Franciscos, leio uma crônica e me acalmo.
    Muito obrigado pela página “De Reynaldos e Elíbios”.

  4. Diva Diz:

    Conheci e convivi com Elíbio e Cecy… uma boa fase da minha vida!!! Eles eram simpáticos e amáveis. Elíbio não era dentista também? Lembro que sempre foram grandes apoiadores do futuro general. Abraços…

  5. Ernesto Caruso Diz:

    A leveza da narrativa serve de moldura à entrevista de um herói da FEB – Reynaldo Pontarolli – feita por seu netinho de 12 anos – João Gustavo – por feliz iniciativa do vovô Bonat e do professor de Português ao formular a tarefa sobre a Segunda Guerra Mundial que vai redundar na divulgação do fato de relevância histórica, com a participação do Soldado brasileiro, aos demais colegas de sala e da escola.

  6. Alfredo Cherem Filho Diz:

    Prezado General
    Brlihante seu texto, como sempre, as lembranças de particularidades de nossa família muitas vezes ficam confinadas somente aos seus membros, quando contadas e compartilhadas se tornam uma honra em tomar conhecimento aos quais eu me incluo, detalhes da vida pessoal que tem uma importância muito grande acompanhada do carinho a que uma família merece ter, e ainda lembrar dos heróis que compõem a nossa Pátria, foi com grande felicidade que li do início ao fim. Obrigado pelo envio.
    Um forte abraço
    Alfredo Cherem Filho

  7. valderez archegas ferreria Diz:

    Bom dia Gal
    Parabéns pelo texto, pela indicação do Sr. Pontarolli para a entrevista e parabéns ao Professor que, imaginei eu, fosse de História e não de Português.
    Com relação ao início de seu texto, ri de novo. Ri quando o Sr. me contou, lá no Museu a respeito do nome, do vinho e do cartorário!
    Boa semana.
    Abraços

  8. bonat Diz:

    Lindo texto.
    É louvável que um professor (a) de história, entre neste tema de pesquisa para com seus alunos, pois na sua maioria abordam o assunto da Segunda Gerra Mundial de forma geral, sem se aprofundar nos fatos e acontecimentos. Na questão da Força Expedicionária Brasileira então nem se fala.
    Gostaria que o Sr. , se um dia tiver oportunidade de falar com este ou esta educadora, diga a essa pessoa que apesar de eu não a conhecer, que eu lhe mandei um grande beijo e muitos abraços pois ela ganhou a minha profunda admiração.
    Forte e grande abraço e parabéns pelo texto!
    Hugo

  9. GABRIEL CRUZ PIRES RIBEIRO Diz:

    Bonat (035)
    Boas recordações a respeito da participação da FEB na Itália.
    No mês passado, o TC NESTOR, pai do Cel Cav Nestor (AMAN 72), comemorou 100 anos. Houve uma missa comemorativa e uma formatura no Batalhão de Polícia do Exército em sua homenagem.
    Parabéns por mais esta resenha.
    Grande abraço.
    Gabriel (029)

  10. Fogaça Diz:

    Parabéns Bonat por manter viva na memória os heróis nacionais.

  11. Lucíola Pontarolli Diz:

    Lindo texto,lindo relato!
    Seu Reynaldo é meu avô.Temos o privilégio
    de conviver com ele,que mantém sua
    vida cotidiana,seus bons hábitos,sua disposição e alegria de
    viver,aos 96 anos.E isso,mesmo depois de ter passado por uma
    experiência de guerra.
    Agradecemos pelo interesse em ouvi-lo.
    Convivo bastante e aprendo muito com ele.
    Não apenas sobre a guerra,mas sobre o saber viver.
    E ele,sempre curioso,conversa,pergunta,discute,vive!
    Porque na verdade,o espírito dele é também de um
    menino de 12 anos,como o João!
    Muito obrigada,Lucíola

  12. Marcos Henrique (Pontarolli) Dalledonne Diz:

    Parabéns ao pracinha Reynaldo Pontarolli (meu avô) e ao Hamilton Bonat, por registrar essa homenagem merecida aos pracinhas, e especialmente ao meu avô. Parabéns também ao professor de português pela bela iniciativa. Grande abraço!

  13. bonat Diz:

    Prezado amigo Bonat,
    Como filho de ex-combatente da FEB (meu pai integrou o Rgt Sampaio, como 1o. Ten, e combateu na Itália), tudo o que se refere aos nossos heróicos pracinhas sempre me empolga e emociona. Qualquer homenagem a eles prestada (infelizmente tão esquecidos pelas autoridades governamentais) é sempre bem-vinda e representa ainda uma parcela ínfima do reconhecimennto devido aos relevantes serviços prestados ao país, defendendo o nosso Brasil da agressão nazista sofrida pelo torpedeamento de vários navios mercantes em águas oceânicas brasileiras.
    Parabéns a você pelo incentivo dado ao seu neto e a ele também pela reportagem feita com um verdadeiro pracinha da FEB. Transmita ao professor meus efusivos cumprimentos pela bela iniciativa de despertar nas nossas crianças o gosto pela pesquisa histórica, em especial evocando nossos verdadeiros heróis do passado.
    Um forte abraço.
    Amancio.

  14. Edu C. C. Lucas Diz:

    Parabéns Gen Bonat pelo tema desta crônica, pela maneira diferente e agradável como o apresentou e, ainda, pela orientação cívica que está dando a seu neto. Tomara que a geração desse menino aprenda a valorizar os feitos da FEB e dar-lhe o devido destaque que a nossa, lamentavelmente, não deu. Os pracinhas, heróis anônimos, foram esquecidos rapidamente, como soe acontecer no nosso pais.

  15. Aramis Chagas Borges Diz:

    General Bonat seus textos são muito envolventes e dão gosto de ler. Este com assunto relativo a FEB e ao Veterano Reynaldo Pontarolli ficou ótimo, parabéns.

  16. Mário Gardano Diz:

    Que encontro bacana Bonat o Sr Pontarolli com 96 anos de idade e o João Gustavo teu neto com 12, duas gerações abordando o orgulho de um pracinha, que sorte teve o João Gustavo em conhecer o Sr Pontarolli , e mais sorte ele em ter conhecido uma pessoa como você que valorizou com muita ternura a heróica figura.
    Abraços
    Mario Gardano

  17. bonat Diz:

    Muito grato, caro Gen. Bonat
    Mais um agradável relato que nos encanta.
    Forte abraço,
    Soares

  18. Turra Diz:

    Bom dia Gen. nao podia deixar aqui a minhas sinceras felicitaçoes, por sempre patrioticamente suas colocaçoes, principalmente da nossa FEB, muito obrigado pelo seu Blog.

  19. Gustavo Aguiar Rocha da Silva Diz:

    Como sempre um texto informativo, agradável e, coisa rara hoje, em Português impecável. A menção ao General Adhemar da Costa Machado Filho me lembrou seu pai, também General de Exército, primeiro colocado entre os Aspirantes de Infantaria de 01/03/1943, turma do meu pai, “febiano”, que foi para a Itália no Segundo Escalão.

    Quanto a nomes estranhos, meu pai (Wilson Rocha da Silva) teve duas irmãs: Análpia (existem outras, quase sempre em Minas Gerais) e Ajubelvina, esta morta aos sete meses, segundo toda a família, “de vergonha”.

    Ademais, nunca é demais lembrar os heróis da FEB.

  20. maria elisabeth Diz:

    Bom dia Hamilton!
    Tinha lido essa crônica quando o João Gustavo, orgulhosamente, me mostrou. Adorei.
    Ótima como sempre. Parabéns amigo!
    Abraços.

  21. Juan Koffler Diz:

    Preclaro amigo Bonat!
    Que bom saber que em sua família há um honroso membro da FEB! Parabéns ao seu pai! Meu pai (já falecido há anos) também esteve na II Guerra, mas era parte (infelizmente) da Alemanha. Migrou para a Argentina (como muitos oficiais também o fizeram) já nos estertores do conflito.
    *
    Em tempo e passando para tema mais ameno, tenho sentido falta dos seus artigos. Não os tenho recebido mais, então, refiz meu registro, embora meu endereço eletrônico continue o mesmo.
    Grande e caloroso abraço!

  22. lucia helena nascimento tonon Diz:

    Caro seu Hamilton:

    Para variar, o senhor produz um texto muito prazeroso de ser lido, faz com que eu relembre o plural das palavras terminadas em “ão”(escrivães!), auxilia o meu filho, seu neto, e nos ensina algo mais sobre a família, sobre seu pai e seu avô. OBRIGADA!
    Vou repassar este texto para a coordenadora do 7o ano da escola Marista Paranaense agora mesmo, acredito que será importante se chegar aos alunos!

    Parabéns,
    Lúcia.

  23. Paulo Erwin Hübbe Diz:

    Gostei, temos que parabenizar o professor pelo incentivo ao
    patriotismo de seus alunos. Abraços Paulo

  24. bonat Diz:

    GAL BONAT
    SEMPRE BOM LER OS SEUS TEXTOS
    E BOM SABER QUE VOLTOU A EXERCITAR A PENA NOVAMENTE.
    LUIZ ROBERTO

  25. André Dambros Diz:

    Caro e saudoso amigo Gen Bonat.
    Nossos valorosos Pracinhas realmente precisam ser relembrados com frequência, pois ficaram no anonimato para as novas gerações. Como muito bem colocado na sua explanação. Verdadeiros heróis anônimos.
    Parabéns pela sua iniciativa de levar seu neto até um deles e tomara que esta “reportagem” seja difundida no meio estudantil.
    Meu forte abraço. e até o dia 25.
    André

  26. Laura Vaz Diz:

    Caro General:
    Fico feliz com atitudes como a desse professor. Sinal que sua mente não foi deteriorada como a de muitos por aí que insistem em enaltecer heróis cubanos e outros que tais. Meus filhos quando jovenzinhos, também tiveram que apresentar, na escola, trabalho semelhante que foi enriquecido com relatos por parte de um de meus tios que lutou nessa guerra.
    Parabéns pelo seu texto!
    Forte abraço.
    Laura

  27. Lúcia Helena Tonon Diz:

    Eu estava lendo os comentarios e gostaria de deixar aqui registrada a minha admiracao pelos ex-combatentes da 2a Guerra, como o sr. Reynaldo. Como mae do joao gustavo, agradeco imensamente a oportunidade que ele teve de conhecer e ouvir os relatos de um heroi! Que orgulho para ele e seus familiares, parabéns!

  28. roselene ferreira Diz:

    Parabéns pelo teu texto. COMO SEMPRE,ÓTIMO.
    Parabéns para este professor que teve esta idéia majestosa.
    Que delícia o João poder entrevistar uma figura da época.
    Abraços.
    roselene.

  29. Manuel Rosete Gonçalves Diz:

    Caro Hamilton:Sua estória sobre o Elíbio, me trouxe recordaçãoes sobre o Tenente Galileu que estava na fortaleza de Itaipú em 1.960.
    Foi um grande amigo e tenho boas lembranças sobre êle.

  30. bonat Diz:

    Grande Bonat
    Criativo e brilhante, nunca é demais repetir, pela variedade de assuntos abordados, aproveitando oportunidades, as vezes muito simples, para criar textos agradáveis, elucidativos, que resgatam nossa história.
    Parabéns.
    Um abraço. Renato

  31. MARIO VASQUES Diz:

    CARO GENERAL BONAT.
    BRILHANTE ARTIGO, PRECISAMOS MANTER VIVA A MEMORIA DE NOSSA FEB
    MEU PAI ERA 2 TEN R/2 INF CPOR-RJ E IRIA EMBARCAR NO ULTIMO ESCALAO SEMPRE REUNIA-SE COM SEUS CONTEMPORANEOS E ME LEVAVA NAS SOLENIDADES E DESFILES DE 7 DE SETEMBRO. HERDEI E HOJE SOU UM ASSIDUO LEITOR E ESTUDIOSO DO ASSUNTO SDS MVASQUES

  32. Luiz Carlos Soluchinsky Diz:

    Temos mais alguma coisa em comum. Meu pai Vicente Soluchinsky servia no 15 BC já ha 7anos e estava para ir para a Itália quando a guerra terminou. Como aconteceu com o Seu Elibio. Quanto a cronica foi mais uma gostosa historia vinda da sua competência de escritor. Bela homenagem. Abraço do Solu.

  33. Nina Maria Marach Carpentieri Diz:

    Doces estórias de nossa infância! Ouvi diversas vezes o “relato” do registro do nascimento de seu pai. Tive o maior prazer em relembra-lo! Você sempre traz á tona os causos de nossa família. Adorei. Parabéns Hamilton, mais uma crônica perfeita, bem a calhar homenageando pai e avô, Reynaldo e Elibio. Abração.

  34. bonat Diz:

    Bonat,
    meu velho pai, veterano da Força Expedicionária , sentir-se-ia extremamente homenageado com seu texto.
    Parabéns. Machado

  35. Edmar Diz:

    Uma semelhança interessante com seu Elíbio foi o meu registro de nascimento, nasci em 14 de setembro, mas fui registrado como tendo nascido em 14 de outubro, também, o sobrenome da família (polonesa) é Kristoschek, mas o meu sobrenome ficou kristochik, inclusive, também dizem que o Sr. Chico (meu pai Francisco) tinha bebidos umas… KKKK.

  36. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Estimado Bonat,
    Crônica agradável, suave, plena de sensibilidade e que transmite belas lições ao leitor, como a da preservação e transmissão da história do Brasil e da família.
    Homenagear a FEB é sempre necessário e honrar o nome dos pais é mandamento da lei de Deus. Parabéns pelo texto que atinge ambos os alvos com precisos “NA!”

  37. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Prezado Hamilton,

    Sou um camarada tocado pelas lembranças acerca dos pracinhas da FEB, como você sabe. Ler sua crônica, que passeia por preciosas lembranças familiares e relembra os nossos valorosos febeano, me foi muito prazeroso. A par disso, seu texto sempre bonito, limpo e, digamos, redondo, faz a leitura do ainda mais saborosa. Parabém, meu amigo!
    Forte abraço,
    Joaquim

  38. MARILUZ SCHIER Diz:

    Primo, parabéns pelo texto. Adorei as lembranças :)

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