Flores para Enedina

82950060 é apenas um número. Porém, se você digitá-lo no site dos correios, ele se transforma na Engenheira Enedina Alves Marques.

Por tê-la conhecido, fiquei feliz ao saber que nossa cidade fez justiça ao homenageá-la em uma de suas ruas. Ela era amiga da nossa família, mais especificamente da Vó Geni, mãe da tia Cida. A memória do piá que eu era naqueles anos cinquenta guarda a imagem de uma senhora negra, muito elegante, que costumava adornar-se com joias de muitos quilates. Nós, a gurizada, só a víamos na chegada, pois, para as crianças da minha geração, todos os espaços eram nossos. Era para lá que corríamos para gastar nossa energia. Brincávamos ao ar livre como crianças, enquanto os adultos conversavam na sala como adultos.
Mal sabíamos que ali estava uma celebridade, futuro nome de rua. Negra e pobre, Enedina foi uma vencedora graças aos seus méritos: dedicação, inteligência, perseverança. Antes de formar-se (1945) pela Universidade Federal do Paraná – UFPR – e tornar-se a primeira engenheira do Estado, trabalhou como babá, concluiu a escola normal (1931) e, demonstrando sua vocação para heroína, lecionou em grupos escolares de São Mateus do Sul, Cerro Azul, Rio Negro e Curitiba.

Nada foi fácil. Depoimentos contam que passava as noites estudando, copiando assuntos de livros que não podia comprar. Acreditava em si e na importância de estudar. Para reforçar esse seu lado de batalhadora, recorro ao jornalista José Carlos Fernandes. Em brilhante crônica, ele relatou: “Formou-se aos 31 anos, sem refresco, depois de uma saga nas madurezas. Vingou-se ao se aposentar, na década de 1960, como procuradora, respeitada por sua contribuição à autonomia elétrica do Paraná. Conheceu o mundo. Morava num apartamento de 500 metros quadrados. Impôs-se entre os ricos por sua cultura, doze perucas e casacos de pele. Desconhece-se que tenha feito odes feministas ou em prol da igualdade. Ou que fizesse o tipo boazinha para ser aceita. Pelo contrário. Talvez Enedina tenha sido mais admirada que amada. É o que a torna ainda mais intrigante”.

Após ler esse texto na Gazeta do Povo, levei-o para tia Cida que, por ter convivido com ela, certamente ficaria comovida, como ficou. Só fez um reparo: o apartamento de Enedina era grande e confortável, mas estava longe dos 500 metros quadrados. Mas José Carlos Fernandes foi mais do que perdoado pela minha tia. Para ela, o resgate da memória de sua valente amiga não tem preço.

Aliás, esse é o grande mérito do chamado jornalismo-personagem: resgatar o cotidiano, mostrar gente que mora ou morou ao nosso lado, pois é pelo afeto que as pessoas se identificam com a sua cidade. Graças a isso, redescobrimos que a primeira engenheira formada pela UFPR ainda vive em Curitiba, ali na rua Engenheira Enedina Alves Marques. A ela, nossas flores, nosso respeito e nosso afeto.

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