Artigos de 2016

O Exército do Ponche Verde

18/12/2016 por bonat

O EXÉRCITO DO PONCHE VERDE

Gen Ex Paulo Cesar de Castro

Em uma manhã de três de dezembro de dois mil e dezesseis, na catarinense Chapecó, centenas de pessoas estiveram unidas por emoções, dores e lágrimas. Flores, faixas, cartazes, fotografias de jogadores e camisas da Associação Chapecoense de Futebol foram vistas mundo afora. O povo simples, sincero e ordeiro demonstrou seus sentimentos ao longo do itinerário percorrido pelo cortejo fúnebre do aeroporto até a Arena Condá. Esse modesto estádio abrira seus portões para o velório coletivo de atletas, dirigentes e jornalistas, vítimas fatais de trágico acidente aéreo na Colômbia. Através da televisão, milhões de brasileiros solidarizavam-se com os chapecoenses naqueles momentos de luto. Compartilhavam a mesma dor dos que choravam por entes queridos, amigos e heróis do esporte.

Eis que um verdadeiro dilúvio se abateu sobre a cidade. Chovia torrencialmente, mas um doloroso cerimonial deveria ser cumprido, malgrado o alagamento do pátio de estacionamento de aeronaves e do gramado do estádio.

Nesse cenário, desponta o Exército Brasileiro.

Nossa Força recebeu respeitosamente os caixões com os restos mortais transportados até Chapecó nas asas da Força Aérea Brasileira. A família verde-oliva orgulhou-se do desempenho de sua tropa que, sob aquelas condições de tempestade inclemente, trazia das aeronaves, ritual e impecavelmente, os ataúdes lacrados. Graduados, com braço forte, uniformes encharcados e corações feridos, desfilavam até a guarda de lanceiros. Estes boinas pretas, com garbo e porte marcial, apresentavam armas à passagem pelo tapete vermelho daqueles que tanto fizeram por merecer.

Aqueles guerreiros do Exército eram cavalarianos do velho Corpo da Guarnição da Província de Goiás (1842), atual 14 Regimento de Cavalaria Mecanizado, “Lanceiros do Ponche Verde”, aquartelado em São Miguel do Oeste (Santa Catarina). Evidenciaram rusticidade, responsabilidade e dedicação no cumprimento do dever, sob condições climáticas e afetivas assaz adversas. Podia-se ver a chuva escorrendo pelos rostos e uniformes dos soldados de Caxias e de Osório. As imagens eram transmitidas ao vivo para inúmeros países. Falavam por si mesmas e expressavam, em verdadeira grandeza, o valor da mão amiga de nossos irmãos de armas.

Não hesitaram. Não tremeram. Contudo é certo que sentiram no fundo da alma e no arrepio da pele – e de muito perto – as perdas irreparáveis daquelas vidas inesperadamente ceifadas. Afinal, “a farda não abafa o cidadão no peito do soldado”, afirmou o Marquês do Herval. Legaram exemplos de abnegação, disciplina, persistência, equilíbrio emocional e sobriedade.

Um observador atento salientará que houve exame de situação profissional, meticuloso planejamento, detalhado reconhecimento e árduo treinamento. O mesmo observador afirmará, sem errar, que aquela tropa executou a manobra sob firme liderança militar em diferentes escalões de comando. Nossa gente demonstrara porque o Exército – e as Forças coirmãs – ostentam, junto ao povo brasileiro, índices de credibilidade invejáveis.

O cerimonial não foi apenas integralmente cumprido, foi exemplarmente cumprido por tropa de elevado moral. Orgulhemo-nos dos nossos cavalarianos do 14 RCMec. Eles ultrapassaram o objetivo de cumprir a missão com êxito, foram mais do que o Regimento, transformaram-se e revelaram ao mundo o Exército do Ponche Verde, o Exército Brasileiro.

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Turma Marechal Castello Branco – 45 anos de formatura

14/12/2016 por bonat

Excelentíssimos senhores generais-de-exército Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, Comandante Logístico; João Camilo Pires de Campos, chefe do Departamento de Educação e Cultura; com os quais convivi na cidade do Natal, em 1993 e 1994, quando ambos integravam o Estado-Maior da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada e eu comandava o Batalhão Visconde de Taunay; Fernando Azevedo e Silva, Chefe do Estado-Maior do Exército; Manoel Luiz Narvaz Pafiadache, Chefe do Departamento-Geral do Pessoal e que recentemente comandou o nosso Comando Militar do Nordeste; e João Carlos Vilela Morgero, da Turma Marechal Castello Branco, em nome dos quais eu saúdo os demais generais e autoridades presentes.
Excelentíssimo senhor general-de-brigada André Luís Novaes Miranda, comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, a quem agradeço a abertura desta casa para os seus eternos cadetes. Aqui estão diferentes gerações de soldados, mas todos pertencentes a um só Exército, com os mesmos princípios herdados dos nossos antecessores.

Senhoras, senhores e jovens aqui presentes.

Meus amigos e companheiros.
Inicialmente, os nossos agradecimentos à Comissão Organizadora desta confraternização, tão bem conduzida pelo amigo Ribeiro e composta pelos amigos Manarte, Itamar, Deusdedit, Jeová, Simar e Eliasar, todos responsáveis pelo êxito já alcançado.
O nosso reconhecimento também aos amigos que, com seus contatos frequentes, participações nos eventos, incentivo à realização de encontros anuais e criação de ferramentas para a integração da Turma, a tornam mais unida.
Meus irmãos de farda e de ideais. Novamente, aqui estamos, na majestosa Academia Militar das Agulhas Negras, berço da nossa formação.
Em 1971, nos 160 anos de criação da AMAN, o então cadete do quarto ano Andrade Neves, da Cavalaria, assim se expressou, em sua saudação publicada no jornal Agulhas Negras: “Aqui, neste recanto tranquilo e colorido, sacrário de nobres tradições, testemunha de muitos sacrifícios e acalanto de tantos sonhos, a Nação observa, confiante, a preparação da juventude militar brasileira. Cumpre-nos manter bem alto o nome do nosso Exército, democrático por formação, cuja única ambição é trabalhar por uma Pátria livre e grandiosa, capaz de proporcionar felicidade a seus filhos”.
Éramos aqueles jovens, que agora retornam a esta casa. E voltaremos sempre, enquanto a vida o permitir.
Nesta manhã de alegria,/ No rosto, um sorriso franco,/ Volta à Academia,/ A Turma Castello Branco.
Dos 510 cadetes que inicialmente integraram a nossa Turma, 375 receberam o espadim e 318 foram declarados aspirantes-a-oficial. Mas, todos eles são considerados membros da Turma Marechal Castello Branco. Por diversos motivos, particularmente por vontade própria, vários companheiros partiram para novos desafios na vida civil. E, como os amigos aqui presentes, Jorge Saito e Sérgio Antônio Leme Dias, muitos foram os que se destacaram em outras áreas, contribuindo com o seu trabalho para o engrandecimento do Brasil. Alguns que se formaram posteriormente, também fazem parte da Turma. É o caso do amigo Marco Aurélio dos Santos Amaral, o Pará, que, após um acidente na equitação, não pôde prosseguir conosco, mas aqui está presente, para a nossa alegria, porque ele também sabe que é um dos castelenses da querida “Barraco Preto”. Apenas o emprestamos para a Turma Marechal Mascarenhas de Moraes.
São passados 45 anos, desde a nossa formatura, em 18 de dezembro de 1971.
Naquela época, o então aspirante Bonat, da Artilharia, assim escreveu: “Quatro anos de Academia. Haverá muito a contar: as noites sobre os livros, a saudade dos lares, das namoradas, as noites chuvosas no campo, a camaradagem, os desfiles do Sete de Setembro, as grandes amizades que se fizeram, as brincadeiras nos apartamentos, as boas e as más horas. Quatro anos, muita luta, muitos obstáculos. Vencemos! Podemos continuar de fronte erguida porque o portão de saída dos novos aspirantes se abriu para nós. Sim, já somos oficiais do Exército Brasileiro e podemos dizer, sem medo de errar: o Brasil pode confiar na Turma Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.”
Agora, novamente, podemos repetir: Vencemos!
A vibração do cadete,/ Sentimento tão perfeito,/ Como se fosse um colete,/ Continua presa ao peito.
Daqui saímos, jovens aspirantes, empunhando a espada de oficial do Exército Brasileiro e carregando no coração a chama dos nossos ideais. Bem preparados, física e profissionalmente, nos espalhamos pelos diversos rincões deste país, para a dura labuta dos corpos de tropa, onde, no dia a dia da caserna, iríamos participar da formação militar e cívica de parcela significativa da juventude brasileira, do treinamento constante para o combate, da guarnição de nossas fronteiras, da ajuda ao nosso povo, das obras em prol do desenvolvimento do país, da garantia da lei e da ordem, das missões de imposição e garantia da paz no exterior e de tantas outras.
Sem a tecnologia das comunicações atuais, nos separamos e, por anos a fio, perdemos o contato com muitos companheiros. Por outro lado, especialmente nos cursos de mestrado e doutorado, na Vila Militar e na Praia Vermelha, ou em guarnições maiores, como em Brasília, também foram muitos os reencontros, particularmente com os companheiros de outras armas, quadros e serviço. E nessas ocasiões, parecia que os anos não tinham passado, apesar das marcas deixadas em nossos corpos e das estrelas conquistadas na sequência dos postos da hierarquia militar. E nos transformávamos nos mesmos cadetes de um passado nunca esquecido, com as mesmas brincadeiras, com o mesmo sentimento de fraterna amizade. Ainda assim, há companheiros que alguns nunca mais reviram, desde a nossa partida da AMAN. Foram os muitos desencontros da nossa profissão, na sequência de chegadas e partidas que se sucederam nas muitas organizações militares, algumas distantes demais, e que também atingiram, na formação e consolidação de amizades, as nossas esposas e os nossos filhos, a quem reverenciamos, como o alento principal de nossas ações.
Uma gratidão especial a essas meninas, algumas não mais presentes fisicamente, que, abandonando os seus familiares e as suas origens, acompanharam os seus maridos e foram residir em pequenas vilas militares, até de lugares inóspitos, abdicando, muitas vezes, dos seus estudos, de suas carreiras profissionais e de suas potencialidades, para se tornarem, apenas, mulheres de soldados, compartilhando com os seus maridos o sentimento da caserna e da vida simples do militar. E ainda lhes facilitando os estudos nas escolas militares e o desempenho dos seus cargos de comando, assumindo, na prática, os trabalhos do dia a dia familiar. São os nossos anjos da guarda!
EXISTE UMA PROFISSÃO,/ QUE EXIGE TUDO DA GENTE,/ AMOR E DEDICAÇÃO,/ POR TODO TEMPO CORRENTE.

A PÁTRIA VIRA ORAÇÃO,/ UMA FÉ INTRANSIGENTE,/ QUE INVADE O CORAÇÃO,/ O CORPO, A ALMA E A MENTE.

ESSE VIVER DEVOTADO,/ POR MUITOS NÃO ENTENDIDO,/ TEM O PESO ALIVIADO

PELO AFETO CORRESPONDIDO/ DE ANJOS POR DEUS ENVIADOS/ PARA AMAR OS SEUS SOLDADOS.

E por que, mais uma vez, retornamos a esta casa?
Para contemplar os picos da Serra da Mantiqueira, como o das Agulhas Negras, que emolduram o cenário desta Academia Militar e cujo perfil estilizado compõe o seu Brasão das Armas?
Para entrar novamente em forma no Pátio Tenente Moura e recordar a rotina diária das formaturas, o avançar para o refeitório, a marcialidade nas datas comemorativas e os inesquecíveis momentos, compartilhados com as pessoas queridas, da entrega dos espadins e das espadas?
Para retornar aos locais de estudo, como a biblioteca, o bosque às margens do Rio Alambari, as salas de aula e os apartamentos, com suas luzes e gagazeiras iluminando muitas madrugadas?
Para lembrar as ordens de marcha e retroceder aos tempos das manobras, dos acampamentos e bivaques acadêmicos e dos duros exercícios especiais de montanhismo, patrulhas e fuga e evasão?
Para rever as nossas alas, os nossos apartamentos, os pavilhões dos diversos cursos, o complexo esportivo, o estande de tiro, os campos e as pistas de instrução, a agência dos correios e telégrafos, tão usada naquela época, as ladeiras das corridas no Monte Castelo e cada pedaço deste chão acadêmico, de tantas recordações?
Sim, por tudo isso, aqui estamos. Mas, principalmente, para reforçar os laços de sadia camaradagem que unem os verdadeiros soldados, e para dizer que, mesmo em retiro das lides castrenses, continuamos vigilantes na construção de uma trincheira instransponível, que impeça o Brasil de cair no abismo das ideologias contrárias aos princípios que formaram a nossa nacionalidade.
E de um modo especial, também estamos aqui, para mostrar o sentimento da nossa gratidão, a todos aqueles que, direta ou indiretamente, participaram de nossa formação acadêmica.
Aos funcionários civis, da cozinha, do refeitório, da granja, da lavanderia, da barbearia, das alas, dos cursos, das seções de ensino, do hospital e de outros setores, o nosso agradecimento. Por intermédio do velho Bráz, do seu Oscar e da doce Irmã Maria, sempre com palavras de carinho para com os seus cadetes, reverenciamos os muitos, que, no anonimato de suas vidas simples, foram importantes em nossa passagem por esta Academia.
Aos militares, desde os generais comandantes, como Paula Couto, Meira Mattos e Fragomeni, até os mais modernos dos recrutas, que cumpriram o serviço militar obrigatório no Batalhão de Comando e Serviços da AMAN, o nosso reconhecimento. Nesse contexto, estão os nossos professores, os comandantes de cursos, os comandantes das companhias, os instrutores e os tenentes comandantes de pelotão. Jamais serão olvidados, pois tiveram uma participação especial na nossa formação, mostrando-nos sempre a importância do exemplo e da lealdade, como os mais caros princípios da carreira militar, facilitadores da compreensão do que seria viver nos ditames da hierarquia e da disciplina, sem prepotência, mas também sem servidão. Não precisarei citá-los, com os seus nomes ou carinhosos apelidos, pois as suas lembranças ainda marcam as nossas vidas. Em nome de um deles, morto tragicamente, aos vinte e oito anos, durante uma atividade de instrução no campo e cujo nome denomina o Pavilhão do Curso Básico, agradecemos a todos eles, muitos já falecidos, pelo monumental esforço, individual e coletivo, na formação dos oficiais da Turma Marechal Castello Branco. O seu sacrifício, na profissão de risco que assumimos, não foi em vão, Tenente Márcio Antônio de Oliveira. E o seu nome será sempre lembrado pelos seus cadetes, mesmo que não constasse em nenhuma placa no interior desta Academia.
Nesse retorno ao passado, não poderíamos deixar de recordar o amor e o incentivo dos nossos pais, que souberam superar a saudade das nossas ausências, substituindo-a pelo orgulho das nossas conquistas.
A todos os nossos familiares, amigos, superiores, pares e subordinados, que enriqueceram, com exemplos de vida, a nossa trajetória, o nosso muito obrigado.
Ao Deus de cada um de nós, a nossa gratidão por termos chegado até aqui, sem diminuir a nossa fé em um Brasil muito melhor para os nossos filhos e netos.
Hoje, já passados muitos anos na inatividade, continua atual a prece da despedida, que o amigo Coronel Higino, da Engenharia, proferiu em 1999:
“Pátria! Os muitos anos de vida que me pediste foram integralmente consumidos. Dedicar-me inteiramente ao teu serviço o fiz muitas vezes, até a exaustão. Fiz da caserna o meu sacrário; da profissão, crença; da vida militar, sacerdócio. Retiro-me, com a mesma alma de soldado dos primeiros passos. Peço ao Criador o descanso justo porque, reconhecendo a minha pequenez, a cada segundo, busquei ser perfeito. No sagrado seio da família, muitas vezes por ti trocada, estarei ao teu dispor, sempre que preciso for.
NON NOBIS, PATRIA, NON NOBIS, SED NOMINI TUO AD GLORIAM! (Não por nós, Pátria, não por nós, mas para a glória de teu nome!). Na adaptação do Salmo de David e do Lema dos Templários”.
E nesta ocasião, prestamos solene continência ao nosso patrono, o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, grande militar, estadista, combatente da Segunda Guerra Mundial nos campos da Itália e primeiro Presidente da República, no período da Contrarrevolução Democrática de 31 de Março de 1964. A sua visão de liberdade, democracia e patriotismo é um exemplo que assumimos. E, usando as suas palavras, reafirmamos que a nossa Turma será “sempre fiel à honra do Brasil”.
O juramento prestado,/ No nosso ardor juvenil,/ Permanece imaculado/ Na defesa do Brasil.
Neste encontro de irmãos, nem todos se fazem presentes fisicamente. Espalhados pelos muitos rincões deste país continente, muitos não puderam, por vários motivos, comparecer. Alguns, com problemas de saúde, recebem o nosso pensamento de superação e de vitória nesse grande e belo combate, do qual todos participamos: o da vida. Outros, por compromissos familiares e de trabalho inadiáveis, até mesmo na aprazível tarefa de avô. Alguns, talvez por acomodação, nestes tempos de idosos, quando, algumas vezes, nos trancamos em nós mesmos. Mas, escutem o conselho do filósofo Peninha: “estamos velhos demais para protelar encontros”. Um grupo, com certeza, cumpriu com mais presteza as missões determinadas neste Plano Terrestre e obedeceu ao chamamento do Criador, para novas e importantes tarefas em algumas de suas muitas moradas. Não sei se eles estão presentes neste ambiente físico, mas, no dizer de Camões, no assento etéreo onde subiram, recebem as vibrações que daqui emanam, de carinho, de companheirismo e de uma doce saudade. Como bem diz a nossa Cavalaria, que “os nossos estribos se choquem em cavalgadas futuras, pois assim estarão selados, para sempre, os laços da nossa amizade”.
E quem sabe, montado novamente no meu cavalo Esso, que em certo domingo acadêmico, me levou em disparada, agarrado ao seu pescoço, para o almoço nas baias, eu possa cavalgar em suaves campos verdejantes, ao lado do Britão, agora mais leve, montado em seu Granadeiro, único cavalo que, naquela época, com suas ancas largas, suportava o peso do não tão esbelto infante. E quem sabe, lá também estará a Maísa, a dos olhos tristes, com o seu pelo esbranquiçado e manchas pretas cobrindo parte do seu corpo. Talvez, rejuvenescida, passe a seguir o trote dos cavalos, como fazia, embora já cansada, acompanhando as marchas a pé e os exercícios de campo dos cadetes do Curso Básico, como a incentivá-los nas duras jornadas.
E na alegria desta comemoração, lembramos dos queridos amigos que nos deixaram fisicamente, mas que permanecem em nossos corações. São eles:
Moacir TEIXEIRA de Araújo e RAUL José Haendchen, jovens cadetes falecidos em 1970.
Ângelo José CASTRO Alves Ferreira, Antônio Fernando de Sá Muniz BARRETO, Antônio Geraldo Araújo ÁVILA, ANTÔNIO MARCO Baptista da Silva, Armando GALEMBECK Júnior, Braz Miguel RUSSO, Carlos Eduardo GUTTMANN, CARLOS JORGE do Nascimento, DANILO Tambeiro Guimarães, Elias de OLIVEIRA SANTOS, Geraldo MAGELLA Marques de Vasconcellos, Henrique CLEBER Simões, HILTON Hril Falcão Torres, IRAN Müller Lago Filho, Jairo Roberto Freitas RAMOS, João Batista Farias CARNEIRO, José Antônio QUEIROZ, José BANDEIRA de Melo Filho, José CALAZANS de Carvalho, José Eduardo BRANCO, José Luiz CERAVOLO, José Maria MOURA VIANA, LAUDENIR José Rosa, Luiz Augusto RAGGI, Luiz Eduardo GOUVÊA Alves, Manoel Aloisio de Campos RAMIRO, MAURO Cardoso Canito, NADIN Ferreira da Costa, Osvaldo Roberto DE PAULA, PRIMO Beraldo, Ramão GRALA, Roberto Antônio Pinto COSTA, Ronaldo Medeiros ILHA MOREIRA, Sérgio José Alonso SOCHACKI, Sílvio Sérgio Pereira NATALINO, Tamotsu WATANABE, UBIRATAN Miguel da Silva e WILLIAN Cardoso Espíndola
E, mais recentemente, nesse último quinquênio, particularmente no ano passado: ALBERTO Souza Gonçalves,Carlos Alfredo NEVES, Carlos Cesar Cunha MARTINS, FERNANDO Henrique Pereira Rosa, JAIRO de Castro Freitas, José Antônio BRAGA, José Carlos KRATZER, Laercio Corrêa de NORONHA, Paulo Carvalho ESPINDOLA, Pedro Paulo Molinaro ZACHARIAS e Ronaldo do Vale BRITO
Ó Deus dos Exércitos, tende piedade. Não dizimeis Vós as nossas fileiras. Preservai os meninos da Turma Marechal Castello Branco. Foram muitas as baixas em tão pouco tempo.
Somos soldados! Fomos preparados para as agruras do combate e, consequentemente, para a morte. Mas, agora, quando estamos no retiro das nossas vidas, queremos um pouco mais do tempo que, no passado, a dedicação ao serviço nos tirou. Tempo para brincar com os netos, receber o carinho dos filhos, o amor da companheira e a amizade dos amigos. Tempo ainda para acreditar na grande Pátria dos nossos sonhos juvenis. Tempo para nós mesmos. Um pouco mais, apenas.
Mas, em tudo, seja feita a Vossa vontade. Seremos fortes, pois nos habituamos a cumprir a missão recebida e partir para novos e mais importantes desafios. Mas, deixai que choremos as nossas perdas, as despedidas, as ausências físicas, pois também bate um coração no peito do soldado.
Com muita honra, mas também com muita humildade, recebi da Comissão Organizadora, com o apoio de alguns amigos, a grata missão de expressar o nosso contentamento neste encontro dos 45 anos de formatura da Turma Marechal Castello Branco. Por brincar de ser poeta, com meus versos de rima pobre, no limite do meu esforço e na boa vontade dos companheiros, não poderia deixar de usá-los no meio desta prosa. Por isso, ao encerrar esta tarefa, que procurei cumprir mais com o coração do que com o cérebro, o faço com mais um soneto. Eu o ofereço, como uma singela homenagem à família, célula principal de nossa nacionalidade, e ao Exército, guardião da nossa Pátria.
O QUE ME RESTA DIZER,/ NO MOMENTO DA DESPEDIDA,/ A NÃO SER AGRADECER/ AS JÓIAS GANHAS NA VIDA.

E NO ÂMAGO DO MEU SER,/ AS GUARDO BEM ESCONDIDAS./ MAS DEIXO TRANSPARECER/ O QUE A ALMA DÁ GUARIDA

POR VOCAÇÃO, SER SOLDADO./ SERVIR À ARMA DE CABRITA,/ AMAR A MINHA FATITA

E OS FILHOS POR NÓS GERADOS./ E TER SEGURO ABRIGO,/ NO PEITO DE CADA AMIGO.

Resende, RJ, em 10 de dezembro de 2016

Luiz OSÓRIO Marinho Silva – Cel Eng Refm da TMCB – AMAN 1971

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No tempo das aeromoças

02/12/2016 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Dobro a curva. Agora consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, dentre tantos, o único merecedor daquela gentileza.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e de sua bagagem. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preze não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não consegue esconder sua inveja.

O avião atinge a altura de cruzeiro. Para demonstrar tranquilidade, finjo que durmo, e acabo pegando no sono de verdade. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada no céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma rampa descendente, em cujo sopé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba indica-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de segui-las… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum os passageiros aplaudirem o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, provavelmente, aplaudiríamos as aeromoças.

À porta do avião, ouço pela derradeira vez aquela voz bem treinada: “Tenha um bom dia”. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito a uma igreja pedir perdão pelos meus pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba me apontará o caminho das aeromoças. Mas, sinceramente, será que elas estarão lá?

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Troféu Inspiração/2016

26/11/2016 por bonat


Recebendo o Troféu Inspiração, por ocasião da cerimônia comemorativa dos 77 anos de criação da Academia de Letras José de Alencar.

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Carta emocionante de um leitor

02/11/2016 por bonat

Brasília, 29 de outubro de 2016
Prezado Bonat

Estou encomendando mais um exemplar de Ciscos e Francisco, naturalmente que autografado pelo autor. Desta vez, peço que o autógrafo não seja dedicado a mim, pois é para presente. Podes autografar para a presenteada. Vou te falar um pouco sobre ela e também do porquê do presente.

O presente é para a minha mãe, para o seu aniversário de 90 anos (isso mesmo, 90 anos). Vou a Porto Alegre, onde ela mora, para a festa. Ah, o nome dela? Pode ser para Mariazinha, como ela é conhecida, ou D. Mariazinha.

Por que resolvi que esse livro será meu presente de aniversário para ela? Ao ler o livro, além dos pontos que já comentei contigo, tive a sensação de que minha mãe iria se identificar com muita coisa que tem ali (tenho certeza de que se encantará com a história da fabulosa engenheira).

Minha mãe é viúva de soldado. Morou no Paraná por duas vezes e tem dois filhos paranaenses (tenho uma irmã nascida em Ponta Grossa e um irmão de Foz do Iguaçu) e há muitas passagens marcantes de sua vida ocorridas em solo paranaense.

Meu pai, primeiro de turma na EsAO, escolheu Foz do Iguaçu (lembre-se, tratamos aqui daquela Foz do Iguaçu da década de 50, pouco mais do que uma aldeia). Em Foz, meu pai, SOZINHO, preparou-se para o concurso de admissão à EsCEME e fez as provas em Curitiba (tenho até hoje as cartas que, nos meus ingênuos oito anos, troquei com ele naquela ocasião) e sua aprovação foi uma verdadeira façanha (naquela época as telecomunicações eram um sonho distante). Daquela época, ficaram alguns grandes amigos paranaenses (talvez tu conheças alguns deles, Gen Vasconcelos, colega de turma do meu velho, Cel Benedito, Cel Assis Brasil, gaúcho casado com uma pontagrossense, Cel Paulo Braga, irmão do Ministro Nei Braga, o próprio ministro e outros). Anos mais tarde, quando o velho serviu em Assunção, no Paraguai, onde chefiou a MBIMP, não foram poucas as visitas ao Paraná (até mesmo porque quando eu fui morar na Usina Hidrelétrica de Salto Osório, eles ainda estavam em Assunção).

O aniversário é em dezembro e, logo em seguida, a mãe vai para a praia veranear, ocasião em que, tenho certeza, Ciscos e Francisco será uma excelente e agradabilíssima companhia.

Bem, aí vão meus dados:
Eduardo Belmonte de Athayde Bohrer
Quadra … Águas Claras … Brasília – DF

Sei que já lançaste outro livro, mas, por enquanto, para esse presente específico, vou ficar com o que eu já conheço, por todos os motivos descritos.

Um abração, Bohrer

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Vendo caminhão, mas não aceito cartão corporativo

06/10/2016 por bonat

“Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar de segunda a sexta?”. “Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama”. Bino encontrou essas frases de para-choque em uma revista especializada em logística. Mostrou-as à mulher e, como estava para se aposentar, aproveitou para revelar um desejo de criança: sonhava ser caminhoneiro. Convenceu-a a aplicar o dinheiro do fundo de garantia na aquisição de uma carreta. Comprou uma de segunda mão.

“Dirigido por mim, guiado por Deus”, estava estampado na traseira. É a campeã das estradas. Queria mudá-la. Não gostava de clichês. Foi o primeiro problema. Pediu sugestão à família. Nada, além da recomendação de não falar mal da sogra, outra preferida das estradas brasileiras. Igual desafio foi o de alterar a categoria da sua habilitação. Conseguiu somente na terceira tentativa.

Queria enturmar-se com os novos colegas de profissão. Compareceu à reunião do sindicato. Olharam-no com desconfiança. Não tinha pinta de caminhoneiro. Precisava disfarçar. Comprou camiseta, boné e aquela toalhinha, marca registrada da categoria. Suas múltiplas utilidades vão, desde enxugar o suor do rosto, até limpar a vareta de óleo do motor. Mesmo assim, não conseguiu se enturmar.

E o problema da frase continuava a atormentá-lo. Sem ela, o caminhão parecia nu. Só faria o primeiro frete após bolar alguma. Na busca de inspiração, foi à garagem de uma transportadora. “Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar”. “Carioca nem liga mais para bala perdida: entra por um ouvido, sai pelo outro”. “Cabelo ruim é que nem assaltante: ou tá armado ou tá preso”. Não era bem o que procurava.

Matutou muito. Acreditou ter, enfim, encontrado a solução: “Se quem dirige o Brasil tem cartão corporativo, quem dirige caminhão também deveria ter”. Crente que iria abafar, revelou-a na segunda visita que fez ao sindicato. Sonora vaia foi o que recebeu. Nunca mais voltou.

Era o que faltava para tomar a decisão de afixar um “vende-se” no para-brisa. Quem comprasse, ganharia uma camiseta, um boné e a toalhinha famosa. Levaria, também, o “Dirigido por mim, guiado por Deus”, mais apropriado para a rampa do Palácio do Planalto do que para as nossas estradas cheias de buraco.

ALGUMAS ESPIRITUOSAS FRASES DE PARA-CHOQUE DE CAMINHÃO

1.Beijo é igual ferro elétrico: liga em cima e esquenta embaixo.

2.Não mando minha sogra pro inferno porque tenho dó do diabo.

3.A velocidade que emociona é a mesma que mata.

4.Um falso amigo é um inimigo secreto.

5.Quem ama a rosa suporta os espinhos.

6.Se casamento fosse bom não precisaria de testemunhas.

7.Preguiça é o hábito de descansar antes de estar cansado.

8.Direito tem quem direito anda.

9.Mulher é como índio: pinta-se quando quer “briga”.

10.Por que ficar de braços cruzados se o maior homem morreu de braços abertos??

11.Para que um olho não invejasse o outro, Deus colocou o nariz no meio!!

12.O amor é livre; o sexo é pago.

13.70 me passar, passe 100 atrapalhar.

14.Quando homem valer dinheiro, baixinho serve de troco.

15.Sogro rico e porco gordo só dão lucro quando morrem.

16.Não sou detetive mas só ando na pista.

17.Cada ovo comido é um pinto perdido.

18.Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana.

19.Pobre é como cachimbo: só leva fumo!!

20.Mulher é como remédio: agita-se antes de usar.

21.Casei-me com Maria, mas viajo com Mercedez.

22.Se não fosse o otimista, o pessimista nunca saberia como é infeliz.

23.A calúnia é como carvão: quando não queima, suja.

24.A mata é virgem porque o vento é fresco.

25.Em casa que mulher manda até o galo canta fino.

Publicado em Nacional, Política

$39.000,00 – o astronômico preço de um juiz

25/08/2016 por bonat

Quase toda a população de Lagoa Serena coloria o estádio municipal. Verde Futebol Clube e Esporte Clube Amarelo fariam a grande final. Na tribuna de honra, o presidente da Liga estava ansioso. Como as arbitragens eram alvo de constante crítica, escalara o juiz mais experiente, que valia-se da sua antiguidade no quadro para ter um salário de 39 mil dinheiros. Segundo ele, juízes tinham que ganhar muito bem para não se venderem. O custo era altíssimo. Poderia levar a Liga à falência. Mas, diante da ameaça de paralização do campeonato, ela tivera que ceder: o teto remuneratório pulara para $39 mil.

Quando o trio de arbitragem entrou em campo, 111 mil dinheiros passaram pela cabeça aflita do presidente: 39 do juiz e 36 de cada bandeirinha, que, recém-admitidos, recebiam um pouco menos. Raríssimas pessoas em Lagoa Serena, sequer os principais astros de Verde e de Amarelo, ganhavam tantos dinheiros por mês.

Os locutores das rádios, pouco versados em cerimonial, ficaram confusos ao referir-se ao juiz. Como o seu salário era muito alto, trataram de mostrar respeito. Uns o chamaram de “sua excelência”; outros, de “sua senhoria”. O uniforme era impressionante, todo preto para impor autoridade. Além do escudo da Liga, bordado na altura do coração, exibia outros penduricalhos: a logomarca de uma cerveja, de uma pizzaria e de uma casa lotérica.

Começo de jogo. Marcação cerrada. Muitas faltas. A torcida do Amarelo se impacienta. “Sua senhoria” (ou excelência?) só apita a favor dos verdes. O primeiro tempo termina em zero. Início da segunda etapa. O centroavante do Verde atira-se na área. “Sua excelência” (ou senhoria?) marca pênalti. É a gota d’água… A torcida amarela invade o campo. A verde não deixa por menos: invade também. Rapidamente, o juiz aciona a polícia e sai do campo escoltado. Que ironia: policiais, que ganham míseros mil dinheiros, protegendo um juiz de 39 mil dinheiros!

Nos jornais, o saldo da tragédia. Dois mortos e hospitais lotados. Cadeias abarrotadas. O juiz declara não se sentir responsável pela invasão do campo. Repórteres concordam e põem culpa na polícia.

O pior estava por vir. Vários torcedores acionaram a Liga e os clubes por danos físicos e morais. Ganharam. Verde e Amarelo fecharam as portas. A Liga ainda tentava sobreviver, até que o próprio juiz entrou com uma ação. Não satisfeito, disse que iria se aposentar, mas não para receber apenas 39 mil dinheiros. Queria mais. Que fossem incluídos os “extras” que deixara de lucrar como garoto-propaganda da cerveja, da pizzaria e da casa lotérica. Também ganhou.

Em consequência, a Liga faliu, o verde e o amarelo sumiram das ruas, o povão passou a torcer por times de outra cidade e o juiz, agora aposentado, faz questão de ser ainda chamado de “sua excelência”. Pelo medo que impõe, considera-se merecedor de respeito, inclusive da imprensa, sempre tão corajosa para criticar a turma de farda.

Publicado em Nacional, Política

Ciscos e Franciscos: últimos exemplares

18/07/2016 por bonat

Aos amigos que desejarem receber em sua casa um (ou mais) exemplar(es) de “Ciscos e Franciscos”, peço informar-me o endereço no campo “deixe um comentário” abaixo, que terei a satisfação de remeter pelo correio. Custa somente $25, com o frete já incluído. São 226 páginas de crônicas de minha autoria sobre assuntos variados que, acredito, serão do agrado dos amigos. Grato. Hamilton Bonat

Publicado em Literatura

Joguei a toalha

13/07/2016 por bonat

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso sentir-me assim faz algum tempo. As más notícias, que leio e ouço todos os dias, causam-me tanto aborrecimento, que acabaram secando a minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, algo de positivo.

Se, como dizem, a inspiração está em toda parte, creio que a minha fugiu de Curitiba. Escondeu-se em lugar incerto, bem longe do Brasil. Parece não ter suportado a verdadeira avalanche de maus acontecimentos, verdadeira tragédia promovida pelos nossos atuais dirigentes. Escapuliu de tanta corrupção, misturada à incompetência e a mentiras deslavadas. Livrou-se do desemprego e de uma velha e perigosa conhecida: a temida inflação.

E lá se foi a minha inspiração, envergonhada da crise moral que nos assola. Cansei de procurá-la e, há quatro meses, tenho poupado os leitores deste meu blog de qualquer crônica de minha lavra.

E olha que assunto é o que não falta para quem, como eu, é metido a cronista. É só abrir o jornal e ele está lá, quase pronto, escrito pelos nossos “representantes”. Basta lapidá-lo um pouquinho, e transformamos a roubalheira generalizada em um belo texto, agradável de ler, como bem merecem os nossos queridos leitores.

Mas lhe confesso: desisti, “joguei a toalha”, pois até a inspiração me roubaram. Assim, você, caro leitor, será poupado de mais uma crônica minha. Até quando? Sinceramente, não tenho ideia. Nem sei se voltarei a escrever algo saboroso de ler e de apreciar, como você merece.

Publicado em Cultura, Nacional

Minha utópica candidata

13/02/2016 por bonat

O combate à dengue de 2001, na Baixada Santista, não alcançara os resultados esperados. Apesar da seriedade e dedicação dos agentes de saúde, muitos moradores, temerosos por sua segurança, não os autorizaram a entrar em suas residências, fossem humildes barracos ou casas luxuosas.

Em 2002, a Brigada Antiaérea participou da campanha. Por confiarem nos soldados, as pessoas abriram para eles os seus portões de ferro. O “aedes aegypti” finalmente foi neutralizado.

Sempre que pude, acompanhei algumas das minhas equipes. À medida que elas se deslocavam no sentido centro-periferia, observava o gradativo aumento do número de crianças. Nas favelas, vi soldados cercados por verdadeiros batalhões de brasileirinhos atraídos pela farda que, via de regra, faz parte do imaginário infantil. Ali pude constatar a dura realidade da nossa pirâmide social, cuja base se amplia de forma preocupante.

Militares, por formação (ou deformação), são exageradamente otimistas em relação ao seu país. Não sou exceção. No entanto, cada vez que entrava no único cômodo de um barraco onde se amontoavam seis, sete ou mais pessoas, meu lado pessimista resmungava: como pode uma família tão numerosa sobreviver com algo em torno do salário mínimo? Como se sustenta, educa, veste e cuida da saúde de tantas pessoas? Como poderá a nossa economia, por mais pujante que venha a ser, gerar emprego para tanta gente?

Os atuais presidenciáveis parecem ter resposta para as minhas aflições. Discursam horas, explicando como resolver os problemas da educação, fome, saúde, do desemprego, da segurança, reforma agrária, distribuição de renda e da prostituição infantil. Brilhantes projetos, porém meros paliativos se for mantido o ritmo de crescimento daqueles batalhões mirins das favelas.

Preocupa-me o fato de candidato algum abordar, de forma séria e responsável, o tema demografia. Acredito, não sem lamentar, que alguns daqueles meninos de 2002 já foram cooptados pelo crime organizado. Que, das meninas, algumas foram arrastadas para a prostituição infantil. O que mais falta para acionar o sinal de alerta? Que mais crianças sigam o caminho sem volta do tráfico e da prostituição?

Dias atrás, meu lado otimista, aquele que é deformado, teve novo alento. Ao ser questionada pelo repórter Pedro Bial, da Globo, sobre a razão de as coisas funcionarem em Nova Pádua, uma professora foi taxativa: “é porque aqui existe controle da natalidade”. O que ela quis dizer, e disse com outras palavras, é que naquela pequena cidade gaúcha pratica-se a paternidade responsável.

A lição da jovem professora parece bem clara: a de que todas as soluções para o Brasil não passarão de devaneios enquanto não for estendido à base da pirâmide social o direito já adquirido pelas classes média e alta – o de poder decidir quantos filhos se deseja ter. Se isso não ocorrer, a sina de muita criança da periferia será a de continuar a viver amontoada – no barraco, na febem e, depois, na casa de detenção.

Como, ao que parece, não entenderam a lição, nossos presidenciáveis continuam com seus utópicos discursos. Utopia por utopia, meu voto vai para a corajosa professorinha gaúcha, minha utópica candidata.

Publicado em Nacional, Política