Na barbearia com Pavlov


(Ilustração: João Carlos Bonat)

Gegê abre a porta, entra, saúda a todos com um cordial bom-dia. Acomoda-se como pode numa poltrona que, pelo puído do espaldar, deve contar longos anos de bons serviços prestados. Precisa matar o tempo. Pega uma daquelas revistas que toda barbearia tem. Seu conteúdo se resume a um caminhão de fotografias, enquanto as palavras caberiam numa Romi-Isetta. As pessoas não se importam, mesmo que elas não sejam a versão mais recente, Afinal, ninguém vai lá para aumentar sua cultura.

As cerca de cem personalidades, que lotam as páginas desse tipo de publicação semanal, parecem zombar do leitor, se é que podemos chamar de leitor a quem apenas contempla imagens. Elas exibem-se em cinematográficos iates, paradisíacas ilhas, praias ou suntuosos castelos, com um alvíssimo sorriso de felicidade plena, um bronzeado de quem não precisa trabalhar, corpos esculturais abrilhantados por altíssimos quilates e embrulhados para presente em coloridas roupas de grife. O luxo é tanto, que não se consegue imaginá-las acomodadas numa poltrona puída, e nos faz questionar: será que só eu sou pobre, feio, careca e barrigudo?

Mas Gegê não se importa com essas trivialidades. Deixa apenas os olhos percorrerem as belas silhuetas dos famosos, enquanto mantém os ouvidos atentos ao cliente que lhe antecedera. Pelos cabelos brancos, que o barbeiro caprichosamente corta, trata-se de um quase setentão como ele. O homem mostra-se indignado com o aumento da gasolina, da energia e com a descoberta de que mais outros bilhões haviam sido roubados da Petrobras. E a inflação, então… Chega até a conclamar pela volta os militares.

Gegê sente as orelhas esquentarem… Elas escutam, mas somente pela coincidência de estarem ali naquele momento, enquanto os infelizes ouvidos do barbeiro o fazem por dever de ofício. Mas estão acostumados, pois barbearias ou salões de beleza servem, ao mesmo tempo, como consultórios sentimentais. Saber ouvir e pouco falar, eis o segredo de um bom “fígaro”. Se substituíssem sua cadeira por um sofá de psicólogo, não estariam cometendo heresia alguma. Mesmo assim, o bom barbeiro resolve aumentar o ritmo da sua tesoura, pois sabe que aquele seria um papo sem fim, como parece ser o destino da operação lava-jato.

De repente, uma surpresa! Gegê encontra na tal revista das belas celebridades, quem diria, uma página inteirinha de “citações”. Ao percorrê-las, depara-se com um pensamento de Peter Veres (1897-1970), político e escritor húngaro: “Um cachorro velho não deve latir mais, a partir do momento em que não for capaz de morder”. Caía feito uma luva para a ocasião. Por um instante, Gegê pensa em ler em voz alta, mas contem-se. Seu tempo de latir já passara.

O cachorro de Peter Veres faz com que recorde de outros cães, os de Pavlov. Em sua experiência, ele tocava uma sineta cada vez que os bichos eram alimentados. Com o tempo, os cães começaram a associar as badaladas à comida. Chegavam a babar, famintos, só de ouvir o sino, mesmo que o prato estivesse vazio. O objetivo do médico russo era, o que acabaria conseguindo, comprovar cientificamente a possibilidade de se alterar o comportamento humano por meio dos chamados reflexos condicionados.

O barbeiro, enfim, termina o serviço. Gegê faz questão de levantar-se ao mesmo tempo que a cabeça embranquecida. Não pode perder aquela oportunidade.

“O amigo parece interessar-se muito por política. Já ouviu falar nos cães de Pavlov?” E emenda: “E no bolsa-família?”

O barbeiro, nada bobo, finge que não entendeu…

25 Respostas para “Na barbearia com Pavlov”

  1. Gabriel (Oliveira 643) Diz:

    Fantástico meu comandante, aliás, como sempre.

    Abraços Oliveira 643
    Gabriel Luiz Alves de…

  2. Johnson Bertoluci Diz:

    Muito bom.
    Um abraço.
    Johnson.

  3. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    E nos petistas comunistas de carteirinha, o povo mais alienado desse nosso amado Brasil…

  4. Laura Vaz Diz:

    Rsrsrsrs…Uma crônica com sua marca registrada!Tão boa quanto genial!
    Grande abraço.
    Laura

  5. Monteiro Gomes Diz:

    Muito legal. Obrigado pelo texto… culto, inteligente e divertido.

  6. Juan Koffler Diz:

    Grande amigo Bonat!
    Inteligente, astuto e cômico seu artigo, meu caro! Sem dúvida, Pávlov foi o grande mestre dos estudos de condicionamento, com sua experiência dos cachorros e a alimentação. Isto sempre me chamou a atenção, até por dever de ofício. Tenho escrito sobre o condicionamento de Pávlov, mas em relação aos experimentos humanos, e dessas experiências ressurge a ideia de que os movimentos reflexos no ser humano tanto podem ser condicionados como incondicionados, dependendo do estímulo que se esteja utilizando.
    Em política – ressalvadas as evidentes diferenças -, os condicionamentos são mais que usuais e, na maioria das vezes, utilizados com objetivos espúrios, como você bem lembrou ao citar o bolsa-família como um estimulante que, a meu ver, é condicionado-incondicionado.
    Tema de difícil discussão.
    Forte abraço e parabéns pelo artigo! Remete a profundas reflexões…

  7. Alfredo Cherem Fillho Diz:

    Prezado General
    Brilhante sua comparação, o pt (minúsculo de acordo com sua importância) tem pesquisadores com resultados maquiavélicos, a consequência do condicionamento do bolsa-família é o apoio incondicional a eles, cegando nosso povo mais miserável, espero que Deus os ilumine para enxergar a verdade, abreviando este período negro que estamos vivendo. Obrigado pelo envio.
    Um forte abraço.
    Alfredo 18.5.15

  8. bonat Diz:

    PRESADO GENERAL
    QUANTA VERDADE ESTA CONTIDA NESTE TEXTO. REALMENTE NÓS QUE PAGAMOS A BOLSA FAMÍLIA CUJO VALOR JÁ VEM DESCONTADO NOS NOSSOS CONTRA CHEQUES SABEMOS BEM INTERPRETAR SUA CRÔNICA.
    PORÉM AQUELES QUE SÓ SABEM OUVIR A CAMPAINHA (DISCURSOS DO GOVERNO), NADA PODERIAM ENTENDER SENÃO O TOQUE.
    VEJAMOS AS ÚLTIMAS NOTICIAS DO GOVERNO PRESTADAS NA TELEVISÃO, REALMENTE É A CAMPAINHA.
    FORTE ABRAÇO DO SEU SARGENTEANTE
    Cesar Salomão

  9. bonat Diz:

    Caro amigo Gen Bonat.
    Olha, a bolsa família não tem mais jeito, pois, veio mesmo pra ficar. Nessa senda, pena que não dá pra acelerar a tesoura para livrar desse mal, como fez o barbeiro para se livrar rapidamente do Gegê. Abs. Mário Zart

  10. André Dambros Diz:

    Grande interessante artigo.
    Uma verdade maliciosamente abordada que não é necessário ler duas vezes para entender. E ai, é somente concordar pois as Bolsas mais os 39 ministérios, mais mensalões mais CCs, mais, mais e mais Petrobra-i-s. Tem muito cachorro por ai babando ao som da campainha. Se o cochinho esvaziar, ai começarão a uivar.
    Parabéns pelo texto.
    André

  11. Afonso Pires Faria Diz:

    Como sempre, brilhante general. O final, me fez lembrar os contos de um “contador de causos” daqui do RS, o Nico Fagundes. Tem um final que deixa o leitor em dúvida, se ri, chora ou gargalha.
    Afonso

  12. Zatti Diz:

    Macanudo, tchê!

  13. renato balen Diz:

    Bom dia, caro amigo!
    Como sempre, o brilhantismo acompanha as palavras escritas em suas crônicas, e eu, sempre ávido para lê-las.
    um abraço, do amigo
    renato balen

  14. maieco moura Diz:

    Meu caro General…Que crônica fantástica ! Ela se aplica bem a situação atual, em que os cães famintos PTralhas, ficam esperando o badalar do sino da Chefe, para inescrupulosamente avançar nas finanças do Brasil por meio de contratos superfaturados, propinas e outras ações fraudulentas, enchendo os bolsos e rindo copiosamente deste povo que nada faz para reverter o quadro caótico que o País vive…

  15. Joaquim Rocha Diz:

    Prezado amigo Bonat
    Interessante a manifestação do “seu” Gegê, que não era bobo, e conhecido do barbeiro, não foi entendido pelo outro freguês. Este, estava mais para os cães de Pavlov, do que para os de Peter Veres.
    Abraços do amigo
    Joaquim Rocha

  16. Fagundes Diz:

    Prezado Bonat.
    Muito bom seu texto. Os anos de vida e bem vividos, como os nossos, ampliam o entendimento do comportamento humano, principalmente daquilo que não se vê. Essas “muletas” oferecidas pelos governantes não só não resolvem nada como estimulam a preguiça. Precisamos mesmo é de povo com educação suficiente para lutar pelos seus anseios, sem a dependência de terceiros.

  17. Carlos Gama Diz:

    Fantástico! Como já disse o autor do primeiro comentário.
    A mim, pessoalmente, preocupa menos o bolsa-família, que os “BOLSOS-FAMÍLIA”, aqueles enormes e sem fundos, por onde se escoam os frutos do trabalho de mais de duzentos milhões de brasileiros honestos.
    Os bolsistas reais, coitados, são apenas fruto da miséria – moral, cultural e econômica – que nos açoita.
    Os cães de Pavlov continuam fiéis e famintos, embora nunca lhes falte um osso do erário.
    Já “devorei” “Ciscos e Franciscos” e estou aguardando o próximo.

  18. Roberto Diz:

    Amigo Bonat, leitura digestiva! Fica uma pergunta: condicionando os novos Cães de Guerra? Rsss…
    Roberto.

  19. Adonai A. Camargo Diz:

    Gostei muito, caro amigo. Parabéns !!! Abrs.

  20. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Prezado Hamilton,

    A propósito do tema de seu ótimo texto, José Dirceu, perguntado certa vez por Helio Bicudo sobre o significado social do Bolsa-Família, respondeu direto ao ponto: o programa representava quarenta e tantos milhões de votos para o PT.
    Parabéns por sua parabólica abordagem.
    Abraços,

    Joaquim

  21. Brugalli Diz:

    Caro (mais do que caro, preclaro) amigo.
    Acho que sei quem é o Gegê… porém, cala-te, boca. Acontece que ele se traiu ao dizer que “seu tempo de de latir já passara”. O Gegê é aposentado rsrsrsrsr… O ambiente da barbearia é bem brasileiro, quiçá universal. A pachorra do barbeiro em mais ouvir do que falar, também. Afinal a vida lhe ensinou que “em boca fechada não entra mosca” (nem broca de dentista, acrescentaria eu).A frase reproduzida em “citações” daquela vazia revista recheou o bolo e ainda colocou confetes em cima, como o faço agora cumprimentando-o por nos oferecer mais uma sensata, inteligente e perspicaz crônica.
    Meu mais cordial abraço.
    Brugalli.

  22. Nestor Jesus de Sant'Anna Diz:

    Concordo ipsis litteris com o Sr. Brugalli. kkkk
    Essa cadeira de barbeiro foi o cenário ideal para a ambientação da parábola. Para os bons entendedores a mensagem é direta e objetiva. Muito boa, General.
    Abraço Artilheiro da Baixada Santista.
    Nestor

  23. Robert Henriques Diz:

    Caro amigo Bonat,

    Parece-me que o próximo livro, já deve ter bastante material, incluindo este texto muito oportuno e brilhante como sempre. Um forte abraço,
    Robert

  24. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Bravíssimo, Bonat!

    Brilhante, atraente do início ao fim.

    Gen Castro

  25. Juvenal Correia Filho Diz:

    Barbearia e salão de beleza são espaços incríveis para a criação e difusão da sabedoria popular. Muito bom! Abraços, Correia

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