Velho Regimento

VELHO REGIMENTO
Alexandre Máximo Chaves Amêndola

Prá vocês amigos que me escuitam
Confesso a verdade: estou morrendo
De saudade da Unidade onde labuitam,
A qual não me sai do pensamento…
Prestem atenção no que vou dizendo,
Porque também servi no Velho Regimento!

Meu Velho Regimento legendário,
O que dizer prá tua glória,
Se tu já é mais que centenário,
Uma velha praça tão modesta,
Que sabe somente um pouco da tua história,
E dês que te deixou, pra nada mais presta?

Piazito inda, eu já bombeava,
Meio arisco… meio curioso… cumé que vô dizê…
Quando ele – o Velho Regimento – desfilava.
E garganteava pros otro (sabe como é…)
“Quando eu for grande, vocês hão de vê,
Vou sentá praça no Regimento Mallet!”

Os ano foi passando, chegô o dia!
Me fui à “Junta”, o coração batendo.
“O que qué?”, disse um cara de cutia
Que tava lá sentado bem na frente.
E eu, meio atrapaiado, meio tremendo…
“Eu quero servi voluntário, seu tenente!

“Sabe lê?”
“Não.”
“Sabe escrevê?”
“Também não dá…”
“Não faz mal. Bota ele no 23 de Infantaria.”

“Pé de poeira? Nessa é que não vão me pegá!
Eu quero mesmo sê é de Artilharia!
Risque o meu nome. Não tá mais aqui o Zé.
Ansim eu perfiro disertá.
Ou morro, ou vou servi no Regimento Mallet!”

O home ficou meio abobaiado
Cum aqueles grito e disse prô sargento:
“Pois bota no Velho Regimento esse tarado.
Mas é uma pena. Isso é mau elemento
Que vai contaminá todos os sordado,
Que é tudo gente buena e de talento.”

Então, subiu uns arrepio.
Os meus óio logo se enchero de água.
E larguei pra ele um desafio:
“Pru minha curpa, nem uma só mágoa
O Velho Regimento há de passá.
Eu hei de sê o seu mió sordado,
Aqui i em quarqué lugá!”

Na guerra, na paz, na disciprina,
Não tem outro como o Velho Regimento.
Mi ajude Deus, qui tudo detremina,
Eu inda hei di chegá inté sargento.

Você guarde bem o que lhe digo:
Eu vô sê o inzempro do Velho Regimento!
I vô passa pur aqui, num tem pirigo,
Amuntado num zaino cosquilhado,
Daqueles qui só tem Chefe de Peça.
Eu vô sê o taura do Velho Regimento.
Iscuite bem i não sisqueça dessa.

Sordado, cabo e, dispois, sargento…
Bem cumo eu tinha dito pru tenente.
E, desde que pisei no Velho Regimento,
(disciprinado, inquadrado, arfabetizado…),
Nunca vi taura nenhum na minha frente,
Nem nunca vi o sol nascê quadrado.

Meu velho Regimento, que saudade…
Da tua história assisti um bom pedaço.
Eu só quiria qui arguém, só pur mardade,
Falasse contra ti na minha frente,
Prá eu li cortá a cara com um reinaço.
Falá de ti? Só argum descrente…

Qual o regimento que possui
A glória que tiveste no passado?
O tempo passa e tudo derrui.
Mas como apagá teu heroísmo
Que constitui pra nóis santo legado,
Numa lição de bravura e de civismo?

1835 – Guerra dos Farrapos –
E lá estava, firme, o Velho Regimento,
Ao lado de heróis que se vestiam de trapo.
Dos bravos, dos idealistas, dos valentes.
Era prôs imperiais um escarmento,
Quando trovejava nas canhadas, em repentes.

1851 – Guerra contra Rosas –
E o Velho Regimento em Caseros,
Frenteando tropas inimigas numerosas,
Destruir tudo por completo ameaçava,
Destroçando pelotões, esquadrões inteiros,
Apoiando a Infantaria que avançava.

Bois de Botas, nos chamavam os companheiros,
Em apelido carinhoso, reparando
Que os bois das peças e os artilheiros,
Ao avançar, forcejando nas estradas,
Cada boca de fogo pesada arrastando,
Erguiam as pernas,
Todas em barro carçadas.

De 1865 a 1870 – Guerra do Paraguai –
Lá está ele, o Velho Regimento.
Queda de bravos, que morrem sem um ai!
Os cavalos a relinchar e a nitrir,
Gritos daqueles que perdero o entendimento,
Toques de clarim, chamando a reunir.

Estrupido de cascos: cavalaria inimiga que carrega,
Urros de ameaça e de vitória;
Fumo e fogo, que a todos cega;
Retinido de lanças e de espadas;
Desafio de homens que procuram a glória;
Promessas de morte, com armas apontadas.

E tudo enebrindo, a tudo apequenando,
A voz de trovão do Velho Regimento,
Rugindo a sua fúria, o aço vomitando…
Ribombam as suas peças em saltos e clarões!
Artilharia Revólver, sem perda de um momento,
Detona e carrega de novo os seus canhões.
Eles que venham… Por aqui não entram!

E mais de vinte cargas de cavalaria,
Que pelo dispositivo brasileiro se adentram,
Vão despedaçar-se, gritando em guarani,
Em face daquela artilharia.
Vencemos a Batalha do Tuiuti!

1930 – perseguindo um novo ideal,
O Velho Regimento desloca-se ao combate,
E chega a desfilar até na Capital.
1944 – luta o Brasil na Europa.
O Velho Regimento atende ao rebate
Por seus representantes retirados da tropa.

E agora? Lá está ele vigilante…
Cuidem-se bem os inimigos do Brasil!
O Velho Regimento, altivo e confiante,
Está pronto à desforra da honra maculada.
É velho, mas possui alma juvenil!
Cuidado… ou vão pagar a mula roubada!

E eu, velho sordado, aqui, pronto pra servir.
Prá ele, na hora do fervo, hei de correr,
De novo, voluntário, atendo ao “reunir”,
Prá mostrá aos moços da nova geração
Que um velho sordado ainda sabe morrer,
Se preciso, abraçado ao seu canhão.

Meu Velho Regimento, um último pedido…
O Patrono do Exército fez isso ao expirar,
E quero imitá-lo… tomem bem sentido.
No dia em que a morte me apagá o pensamento,
Quem até o cemitério me há de carregar,
Serão seis soldados velhos do Velho Regimento!

13 Respostas para “Velho Regimento”

  1. bonat Diz:

    Bom Dia General,
    É uma linda poesia de um grande oficial de artilharia q me ensinou muito sobre a Hipo nos tempos da Caiena!
    Aço!
    Moisés

  2. bonat Diz:

    Grande Bonat,
    Parabéns, mesmo para quem lá não serviu é uma grata recordação.
    Enviei para o site da minha turma.
    Um abraço. Renato

  3. Medeiros Dias Diz:

    Para quem conheceu o Cel Alexabdre Amendola, quem esteve em Sta Maria no translado de Mallet e é um Artilheiro de coração parabenizo-te Bonnat por essa lembrança que me faz recordar daquele velho comando: Peça pronta, Peça. FOGO !

  4. André Dambros Diz:

    Caro Chefe e Amigo.
    Já havia lido esta maravilha, lá mesmo no Mallet em Sta. Maria, quando servi por algum tempo no Parque de Moto naquela cidade.
    Visitando um amigo que lá servia, entre outras belas peças me deliciei com esta. Que bom encontra-la novamente.
    Obrigado por ternos dado esta oportunidade de reencontra-la.
    Meu forte abraço.
    André

  5. Joaquim Rocha Diz:

    Prezado amigo Bonat
    Lembrar e prestigiar os colegas da caserna é cultuar o nosso próprio sentimento. Desde guri, no Alegrete, eu queria entrar pro quartel e “sê sargento”, influência dos vários quartéis que havia lá e herança da família. Meu avô, meu tio e vários primos foram militares, eu e meu filho também; uns foram Sargentos, outros, Oficiais, mas o sentimento é o mesmo. Tá no sangue, e lá na caserna, vivemos metade das nossas vidas. Ao ler a poesia do Maj Alexandre, me lembrei dessa vida bem vivida.
    Abraços
    Joaquim Rocha

  6. Luiz Antonio Gonzaga Diz:

    Parabéns Gen Bonat pela transcrição dessa bela peça literária.
    Eu que tenho cá meu Regimento, o Deodoro, senti n’alma a emoção de um velho Soldado ao relembrar seu velho quartel….

    LAGonzaga

  7. Manoel Theophilo Diz:

    Meu velho amigo, ler uma ode ao velho regimento faz o coração de qualquer artilheiro explodir de vibração, mesmo sem lá ter servido.
    Servi na Artilharia de Aspira a general, de Aux CLF a Cmt AD, o ronco do canhão ainda faz estremecer este velho e cansado coraçao.

  8. bonat Diz:

    Belíssimo, General Bonat! Já assisti sua declamação por vários militares diferentes, durante os 20 anos em que servi no Regimento Mallet (1971 a 1991).
    Forte e fraterno abraço. Ivan

  9. TEN J.PEREIRA Diz:

    CARO GEN BONAT!
    SEM DÚVIDA, UMA BELÍSSIMA POESIA QUE TRADUZ O SENTIMENTO NATIVO DE UM VALOROSO SOLDADO DE ARTLHARIA. AO LONGO DE MINHA VIDA MILITAR PASSEI POR VÁRIAS FUNÇÕES ADMINISTRATIVAS E JÁ COMO SUBTENENTE FUI DESEMPENHAR AS MINHAS FUNÇÕES DE ENCARREGADO DE MATERIAL DA 1ª CIA FZO DO 30º BIMTZ EM APUCARANA. MAIS TARDE, JÁ COMO OFICIAL DE ADMINISTRAÇÃO SERVI NO QG DA ARTLHARIA DIVISIONÁRIA/5 SOB O COMANDO DO GEN ABREU DE MORAIS, E LÁ EU TIVE O PRIVILÉGIO DE RECEBER O BATISMO DE FOGO, DISPARANDO UM CANHÃO 105MM E UM 155MM, NO CAMPO DE INSTRUÇÃO MARECHAL HERMES. SERVIR NA ARTILHARIA FOI UMA GRATA EXPERIÊNCIA, ONDE ENCONTREI BONS COMPANHEIROS ARTILHEIROS. *ONDE FICA A BATERIA, FICA O SEU CAPITÃO”. MINHAS SAUDAÇÕES GEN BONAT.

  10. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    Desde das 6h desta manhã estou na frente do computador e escutando o barulho da instrução no 5 GAC AP (moro a cem metros do muro do quartel). Brotou-me uma saudade do meu tempo, servi mais de vinte anos nessa OM como sargento, foram momentos sublimes, posso dizer que sou uma pessoa realizada profissionalmente… tudo começo em 31 de março de 1973, com a minha chegada num fim de semana para o CFS, peguei o Sgt Jô de serviço, de cara me fez pintar aquelas duas portas da sala de Comunicações e do Subten, ali nasceu a primeira amizade (que perdurou até a morte dele)… bem, feliz é aquele que abraça a carreira militar, desde que tenha o sangue verde…

  11. Brugalli Diz:

    Caro amigo. Quanto mais singelas as palavras, mais fundo calam em nossos corações. Lembrei-me do poema O Canhão e o Arado, de Luiz Emílio Léo. O canhão e o arado travam um belo diálogo. São 16 estrofes de quatro versos. A última, após cada um puxar a brasa para o próprio assado, diz:
    “E tu, na ânsia incontida da defesa,
    Do solo pátrio contra estranho ousado,
    Darás todo o teu ferro para balas
    E serás um canhão em vez de arado”

    Um cordial abraço do Brugalli.

  12. anita zippin Diz:

    lindo texto e soneto em seis linhas, muito difícil.
    deveria constar do curriculo do “velho regimento” e todas as turmas conhecerem esta Ode à Pátria, Ode ao Exército, Ode ao Civismo.
    genial!!!!
    tomara algum comandante faça como você, multiplique estas palavras no local, quiçá para ecoar para sempre. abs

  13. Nestor Jesus de Sant'Anna Diz:

    PREZADO AMIGO GENERAL BONAT. Parabéns pela iniciativa.Através dela eu pude conhecer um pouco mais do Exército e da Arma da Artilharia, inclusive com a alusão do Sr.BRUGALLI eu pude tomar conhecimento do belo poema O CANHÃO E O ARADO. Uma vez soldado, eternamente soldado.Uma vez artilheiro, eternamente artilheiro. “ABRAÇADO AO CANHÃO MORRE O ARTILHEIRO, EM DEFESA DA PÁTRIA E DA BANDEIRA, O MAIS ALTO VALOR DE UMA NAÇÃO,VIBRA N’ALMA DO SOLDADO, RUGE N’ALMA DO CANHÃO” HURRA,HURRA,HURRA!!!
    cb 244 Nestor, classe de 46, Fortaleza de Itaipu,Praia Grande/SP, Artilharia de Costa.

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