Artigos de 2015

Uma força maior

23/12/2015 por bonat

“Por motivo de força maior, não estamos atendendo. Reabriremos quando possível” Mais uma vez (a quinta, em menos de seis meses), lá estava o aviso. Mais uma vez, tive que procurar outra agência para postar os livros que me haviam encomendado. Mais uma vez, entendi a mensagem escondida nas entrelinhas daquele pedaço de papel. Mensagem triste, que reflete a realidade nacional. Mais uma vez, a agência fora assaltada. Mais uma vez, a força do crime mostrou-se maior do que a força da sociedade em combatê-lo.

Mas o que despertaria a atenção dos assaltantes num simples posto do correio? É que ele é também um banco, uma espécie de filial da Caixa e do Banco do Brasil, sem contar, entretanto, com a segurança de uma agência bancária.

Por falar nisso, avisos como aquele não são únicos. Eles têm-se multiplicado, aos milhares, por todo o país. Podem ser encontrados desde em pequenos comércios de bairro, até em caixas eletrônicos. Já chegaram aos cofres públicos. Estão, mesmo que virtualmente, no edifício sede da Petrobras, empresa que já foi de todos os brasileiros, mas que agora pertence a alguns poucos empoleirados no poder. Rouba-se como “nunca na história deste país”. Um rico país que empobrece.

Tirar do rico para dar ao pobre. Eis a desculpa esfarrapada que os atuais poderosos da política nacional precisam para justificar suas intenções totalitárias. Tentam fazê-la aceitável, a fim de manipular mentes. As sobras da rapinagem oficializada vão parar, a título de distribuição de renda, no bolso de miseráveis. As migalhas, que recebem como forma de cabresto eleitoral, comprometem sua perspectiva de futuro. Não apenas a sua, mas a da própria Nação, pois ela se torna cada vez menos competitiva. Nos contentamos em ser meros fornecedores de commodities. Não investimos em tecnologia e infraestrutura, muito menos em moralidade e ética.

Sequer a poderosa Petrobras conseguiu escapar das garras ávidas por riquezas dos que não as produzem, mas detêm o poder. Ferida em suas entranhas, descapitalizada e desacreditada, quase falida, ela não consegue mais caminhar com as próprias pernas. Sem contar a falta de visão estratégica dos que a comandam, que não enxergam que os combustíveis fósseis estão com os dias contados.

Mas o que tem um simples posto de correio e seus funcionários a ver com isso? Tudo! Quando os que mandam no país pregam a falsa apologia de uma cruzada a Robin Hood, a criminalidade sente-se no direito de tirar do rico para dar ao pobre. No caso da agência em questão, seu dono é considerado um capitalista explorador do povo trabalhador.

O curioso é que aquela agência não é uma franquia. Pertence aos Correios mesmo, cujo patrimônio já vem sendo dilapidado há algum tempo. Ao que parece, a empresa vem sendo roubada tanto por ladrões engravatados quanto pelos sem gravata.

Após sofrer o quarto ataque, o posto ficou fechado durante cerca de um mês. Estive lá quando reabriu. Naquela vez, havia um guarda na entrada. Não sei para quê, pois estava desarmado. Dos três atendentes, só um permaneceu. As duas simpáticas jovens tinham sido substituídas. Em depressão, foram parar num sofá de psicanalista.

Agora, por ocasião do mais recente assalto, o bando fortemente armado obrigou que o guarda permanecesse humilhantemente ajoelhado. Mesmo assim, se a agência reabrir, ele estará lá, desarmado como sempre. Mas tenho dúvidas se os demais funcionários voltarão. Devem estar aterrorizados. Se isso se confirmar, logo nos deparemos com um novo aviso: “Derrotada por uma força maior, esta agência foi definitivamente fechada. Para maiores informações ou reclamações, ligue para Brasília”. E vida que segue… Morro abaixo, mas segue.

Publicado em Segurança Pública

Saudação aos novos acadêmicos

17/12/2015 por bonat

Presidente Anita, Professor Arioswaldo, presidente de honra desta sessão solene, componentes da mesa, senhoras e senhores, caros amigos!

Tem um desses comentaristas esportivos que, ao analisar a performance dos juízes de futebol, costuma dizer: “a regra é clara”. Permitam-me plagiá-lo: “A regra é clara: é muito chato ouvir discursos”. Mas, como todos nós sabemos, existem exceções para confirmar as regras.

Ainda bem que há oradores do porte da nossa nova confreira Sandra Helena Moreira que, ao falar em nome dos novos acadêmicos, brindou-nos com uma bela e cativante mensagem. Sua fala nos encantou a nós todos.

Confesso o meu temor e as razões que tenho para não aborrecê-los com um discurso meu, pois ele, ao contrário da simpática mensagem da Sandra, seria enquadrado na categoria dos chatos.

Proponho-lhes, então, um programa mais agradável: que façamos uma viagem, breve, porém especial, uma viagem no tempo.

Poderíamos seguir juntos em direção ao futuro. Cheguei a cogitar seriamente sobre essa hipótese, mas desisti. O futuro é um desconhecido traiçoeiro, cheio de armadilhas. Haveria ainda o perigo de sermos confundidos com os homens da caverna. Imaginem nós todos desembarcando no ano de 2100, cada um portando o que temos de mais moderno: o celular, com suas múltiplas e variadas funções.

Mas a tecnologia tem avançado num ritmo tão acelerado, que os humanos de 2100, nossos bisnetos e tataranetos, nos enxergariam como verdadeiras peças de museu e, possivelmente nos trancariam, a nós e aos nossos celulares, em um museu de verdade, onde permaneceríamos ad eternum. Nunca mais voltaríamos a este 10 de dezembro de 2015. Perderíamos até o coquetel que será servido após esta cerimônia… Portanto, por razões óbvias, descartei uma ida ao futuro.

Restou-me a opção de uma visita ao passado, para a qual os convido. Para isso, peço que fechem os olhos por alguns segundos apenas. Pronto, já chegamos! Nossa nave é tão rápida, que a maioria sequer conseguiu piscar.

Alguém pode estar estranhando: “como já chegamos, se continuo sentado no mesmo lugar?”. Lembro que estamos viajando apenas no tempo e não no espaço. Logo, permanecemos aqui mesmo, neste imponente Palacete dos Leões, mas já estamos em 1903. E, por acaso, chegamos num dia muito especial para os moradores desta casa.

Se prestarmos atenção, poderemos ouvir, vindo de um dos cômodos, um choro de bebê. É que acaba de nascer Maria Clara Leão, o sétimo filho de Maria Clara de Abreu Leão e de Agostinho Ermelino de Leão. Com um pouquinho mais de atenção, conseguiremos perceber um burburinho de vozes masculinas. É que em uma das salas da frente, o pai Agostinho comemora a chegada da filha com alguns amigos. Entre eles, encontra-se Cândido Ferreira de Abreu. Cândido de Abreu foi o engenheiro responsável pelo projeto deste palacete, onde o estilo renascentista convive com o barroco e o clássico. Aliás, como já sabemos, daqui a alguns anos, Cândido de Abreu será prefeito de Curitiba.

Se formos até uma das janelas, veremos os outros seis filhos do casal, livres, correndo pelo jardim, subindo e caindo das árvores. O mais novo está com três e o mais velho com oito anos de idade. Se nossos netos pudessem conversar com eles, provavelmente lhes perguntariam se eles não teriam um “tablet” para brincar, ao invés de ficar trepando em árvores.

Pena não podermos sair, pois logo teremos que voltar a 2015. Se pudéssemos, perceberíamos que nos encontramos em uma chácara, rodeada por outras tantas, todas muito afastadas do centro da cidade. Se fôssemos ao centro e estivéssemos com sorte, encontraríamos Francisco Fido Fontana exibindo-se para os 25 mil habitantes de Curitiba, a bordo do único automóvel existente, um Royal importado da França. Fora ele, todos os demais meios de transporte são dependentes da tração animal, inclusive os bondes.

Estamos em pleno ciclo da erva-mate. Graças a ele (e ao seu trabalho, é lógico), a família que mora aqui ganhou muito dinheiro. Construiu esta casa, com tudo o que há de mais moderno. Mesmo assim, ela não dispõe de rádio, televisão, muito menos de internet. Seu único meio de comunicação é um aparelho telefônico, só usado pelos donos da casa e apenas para tratar de assuntos importantes.

Nesta época, quase tudo acontece no lar. Aqui as pessoas nascem (hoje, nasceu Maria Clara), aqui se casam e, ao morrerem, aqui são veladas. O lar é o centro de tudo. Creio que nossos marqueteiros governamentais, ao inventarem o slogan “Minha casa, minha vida”, tenham se inspirado nestes tempos.

Porém, lamentavelmente, temos que retornar. Nem vou lhes pedir para que fechem os olhos novamente. Vocês já sabem como nossa nave é rápida. Pronto: estamos de volta a 10 de dezembro de 2015!

Gostaria que o casal Maria Clara e Agostinho tivesse nos acompanhado. Algumas coisas os deixariam tristes, outras, assustados. Porém ficariam contentes ao ver a sua mais do que centenária residência restaurada. De constatar que o BRDE a trata com muito zelo e carinho, e que atribuiu-lhe uma relevante tarefa: a de, como espaço cultural, sob a competente direção da nossa nova confreira Ana Teresinha Ribeiro Vicente, dedicar-se à preservação e à divulgação da cultura e da história da nossa cidade.

Certamente, lhes agradaria saber que o seu Palacete dos Leões é mais do que um ícone do ciclo ervateiro. Desde o ano passado, ele abriga a nossa Academia de Letras José de Alencar, pois comunga do mesmo ideal. Ambos, Palacete – patrimônio material – e Academia – patrimônio imaterial -, são ícones da cultura que, sob as suas variadas manifestações, é um ingrediente fundamental para a preservação do nosso jeito de ser e da nossa identidade como grupo humano.

Estou certo de que Maria Clara e Agostinho ficariam imensamente felizes ao encontrar em sua residência, figuras de destaque na literatura, nas artes, na educação, na comunicação e na história do Paraná, que hoje tomam posse.

É um grupo tão pequeno de pessoas, que eu poderia até citá-las, uma a uma. Entretanto, cara Presidente Anita e caros convidados, são pessoas tão notáveis, que faço questão de nominá-las:
Ademir Pascale;
Adriano Siqueira;
Alberto Silva Gomes;
Ana Teresinha Ribeiro Vicente;
Helena Gama Lobo d’Eça;
João Carlos Bonat;
Maria da Luz Dias Séra;
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt;
Rachel Madureira Régnier;
Sandra Helena Moreira; e
Valderez Archegas Ferreira.

Pois saibam, caríssimas novas confreiras e caríssimos novos confrades, que nos sentimos muito felizes por terem aceitado o convite para, juntos, participarmos de uma viagem. Não daquela metafórica viagem de que há pouco lhes falei. Mas sim de uma viagem iniciada em 1939 por um punhado de idealistas reunidos no antigo Ginásio Paternon, que ficava ali na rua Comendador Araújo.

Desde então, o percurso por eles iniciado vem sendo trilhado, não com a frenética rapidez dos tempos atuais, mas na cadência de um simples caminhar. Como uma equipe de revezamento, seus sucessivos integrantes se alternam, cada um portando, no lugar de um bastão, um pequeno tijolo para a construção de um grande monumento. E, como nos ensina a história, não podemos ter pressa, sob pena de ele, o nosso monumento, não ficar com a imponência sonhada. As grandes pirâmides, muralhas e catedrais levaram décadas para serem concluídas. Pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, essas maravilhas da humanidade, um dia, enfim, ficaram prontas.

Porém, em um futuro qualquer, não sabemos se amanhã ou se daqui a alguns séculos ou milênios, elas desaparecerão, destruídas pelo tempo ou pela reconhecida insanidade dos humanos, que, mesmo assim, julgam-se superiores aos demais seres. As trevas que, em 13 de novembro último, se abateram sobre Paris, a Cidade Luz, são um pequeno exemplo do que “nós” somos capazes…

Caros amigos! O monumento que estamos ajudando a erguer é totalmente diferente. Ele é indestrutível. Nossa obra – a cultura – estará sempre inacabada. Por estar em permanente construção, ela é eterna. E é na eternidade que se encontra a sua grandeza. Não é tarefa nada fácil. Ela tem-se mostrado ainda mais difícil após o advento da internet e a consequente globalização da informação e do conhecimento. A avalanche digital torna quase onipresente uma forte influência estrangeira.

Mas lhes peço: por favor, não sintam nessas minhas palavras sabor algum de xenofobia cultural. Nem bairrismo ou “curitibanismo” nelas há. Até porque, e ainda bem, Curitiba não foi, não é e nunca será feita exclusivamente de curitibanos. Elas, as minhas palavras, têm, sim, gosto de pão com “vina”, de chineque, de gasosa de gengibirra, de leitE quentE e de outras curitibices e esquisitices do nosso linguajar, que nada mais são do que um dos legados daqueles idealistas de 1939.

O que gostaríamos, realmente, é que o Mundo todo soubesse que temos um Emílio de Menezes, uma Helena Kolody, um Paulo Leminski, um Teodoro De Bona, um palhaço Chic-Chic, umas balas Zequinha, uma Júlia Wanderley, um João Turin, temos também heróis como os pracinhas Max Wolff Filho e Pérsio Ferreira, temos uma Lala Schneider, um Laurentino Gomes, temos até as “Mocinhas da Cidade” de Nhô Belarmino e Nha Gabriela.

Não tenho dúvida de que esta relação está incompleta. Mesmo assim, eu não posso deixar de acrescentar, pondo de lado a modéstia, que temos também nós mesmos, da Academia de Letras José de Alencar! Gostaríamos, ao mesmo tempo, que muito mais gente soubesse da nossa admiração por José de Alencar, nosso Patrono, e por milhares e milhares de outras brilhantes figuras da cultura nacional. Em suma, não queremos apenas ser globalizados culturalmente. Precisamos também globalizar, um pouco que seja.

Aí é que se evidencia o “tijolo” do nosso confrade João Carlos Cascaes. Com a expertise de quem domina, como poucos jovens, a técnica da informação digital, ele criou e mantém a página da nossa Academia. Precisamos continuar a alimentá-lo com matérias e sugestões. Temos que aproveitar dessa moderna ferramenta e do fascínio que ela exerce, para revelar ao mundo que existimos, quem somos e que, inclusive, produzimos belas obras.

Queridas novas confreiras e caríssimos novos confrades!
É com o espírito aberto, com imenso júbilo e alegria, e com uma visão de futuro, alicerçada nos tijolos daqueles que nos antecederam, que os acolhemos. Nossos braços e nossos corações estão escancarados para transmitir-lhes a mais calorosa das boas-vindas. A Academia de Letras José de Alencar, que agora também lhes pertence, torna-se maior e mais forte com a sua chegada.

Caros amigos!
É hora de encerrar. Antes de fazê-lo, e como os nossos novos colegas já receberam o seu diploma e a sua toga, posso agora revelar-lhes dois segredos.

O primeiro é que a nossa Academia prima pela leveza e pela jovialidade de espírito. O tijolo que carregamos não pode se transformar em pesado fardo para nenhum de nós. Velhas e sisudas eram as academias de outrora, não a nossa!

O segundo segredo é que, na agradável e fraterna convivência em nossa Academia, nos tornamos mais sábios, pois aprendemos muito uns com os outros.

Novas e sábias Confreiras; novos e sábios Confrades!
Aprenderemos muito com vocês. Obrigado por unirem os seus sonhos aos nossos para, juntos, construirmos um belo e eterno monumento. Sejam muito bem-vindos.
Curitiba, 10 de dezembro de 2015

Acadêmico Hamilton Bonat
Cadeira Nº 19 da ALJA

Publicado em Cultura

O mundo clama por um Anjo da Guarda (clique)

15/11/2015 por bonat

Dia de festa no Anjo da Guarda. O “Anjo” (assim a escola é carinhosamente chamada), como faz todos os anos, homenageava as etnias que deram origem à atual população do Paraná.

Logo na chegada, a tarja preta sobre a bandeira azul, branca e vermelha (a Bleu-Blanc-Rouge), no estande da França, atraía a atenção. Aquele pequeno pedaço de pano valia mil palavras. Entre tantas, significava espanto, tristeza e solidariedade.

As crianças, provavelmente, não se deram conta. Ainda bem. É muito cedo para isso. Até porque, estavam ali para exaltar a fraternidade. Em um coro de mais de cinquenta vozes, elas entoaram canções representativas dos diferentes povos, começando pelos indígenas, seguida pelos portugueses, negros e pelos que os sucederam, até chegar aos holandeses. A grand finale – um samba – celebrou o sabor da saudável e gostosa salada de frutas em que nos tornamos. Uma só gente, que aprendeu a se respeitar e a viver em harmonia.

Não estava explícita, apenas subentendida, a homenagem às primeiras gerações, que superaram tremendas dificuldades que lhes foram impostas. Os negros vieram para cá na condição de escravos. Os demais, fugidos da fome e das guerras, vivenciaram uma semiescravidão. Mas nada de rancor, nenhum ódio. Ao contrário, a única mensagem era de irmandade entre os homens, todos, sem exceção.

Após a apresentação musical, os alunos se dirigiram ao estande do “seu país”, onde contavam um pouco dos seus costumes aos que os visitavam. A bela festa foi encerrada com números de danças típicas.

É de se louvar o esforço de professores, pais e alunos. No simples fato de as canções terem sido exibidas em dez idiomas diferentes, tem-se ideia da dimensão do desafio. Três apenas são suficientes para resumir o grau de dificuldade: ucraniano, japonês e árabe. Fácil, não? Obviamente, meus ouvidos de avô perceberam que Guilherme e Rafael – meus netos – foram dos poucos a cantar sem nenhum sotaque, em todas as línguas.

Mas deixemos um pouco de lado essa inocente brincadeira de “papo-avô-coruja”. Voltemos à tarja preta, pois creio que ela mexeu com o subconsciente dos avós. Não só deles, mas também de mamães e papais. Num momento qualquer, uma preocupação deve ter passado pela mente de todos: que mundo iremos deixar para os nossos netos?

A barbárie, que no dia anterior havia levado as trevas à Cidade Luz, é apenas a face mais recente e visível de uma crescente desunião. Gostaríamos, mas obviamente não temos este poder, de resolver a grave crise que vem se alastrando pela Europa, Oriente Médio e África. O que se pode fazer, quando notícias nos dão conta de que, por lá, em muitos bancos escolares, as crianças recebem mensagens exatamente opostas àquela que foi transmitida pelos professores do Anjo?

Só nos resta torcer (rezar, orar, suplicar) para que o vento não sopre em nossa direção, trazendo aquelas tenebrosas nuvens. Que elas fiquem por lá mesmo, até se dissiparem um dia. O que gostaríamos, de verdade, antes que seja tarde, é que o vento soprasse em sentido contrário e para lá empurrasse a nuvem radiante que cobria o “Anjo” no último dia 14, e que cobre igualmente milhares e milhares de outras escolas brasileiras.

Mais do que nunca, o mundo anda precisando de um Anjo da Guarda.

Seu Jair: mais do que um fotógrafo

03/09/2015 por bonat

É sempre uma satisfação retornar a esta que foi a minha primeira Unidade e, como tal, será eternamente a primeira no meu coração de soldado.

Agradeço ao Coronel Paixão pela oportunidade de estar aqui para, junto com todos os que atualmente servem em nosso Grupo Salomão da Rocha, comemorar os 81 anos de um dos seus mais antigos e queridos integrantes, o Senhor Jair Mendes de Moraes.

Quando me apresentei para servir neste 5º Grupo de Artilharia Autopropulsado, em Fevereiro de 1972, já o encontrei com sua máquina pendurada no pescoço. Desde então, e mesmo antes, Seu Jair tem registrado a passagem de cada um de nós pelo Grupo, seja nas atividades comuns do dia a dia, seja em momentos importantes e históricos da nossa Unidade, como esta foto que trouxe comigo, onde estão retratados os oficiais e sargentos que participaram, em dezembro de 1973, da execução do primeiro tiro com o então recém-chegado obuseiro 105 mm autopropulsado. Como este, guardo comigo dezenas de outros momentos captados pelas lentes do Seu Jair.

Mas não só eu. Sem exagerar, creio que todos os que passaram por aqui nos últimos cinquenta anos têm em seus lares um pouco do trabalho do seu Jair. Ele está presente na casa de milhares de pessoas, desde os Comandantes até os Soldados. São lembranças guardadas com muito cuidado, com muito zelo, com muita saudade, seja num álbum, seja num quadro emoldurado pendurado na parede. Este fato, por si só, serve para realçar a importância do nosso aniversariante para o nosso Grupo e seus integrantes de ontem e de hoje.

Pode estar certo, seu Jair, que são pessoas que o estimam e que aprenderam a admirá-lo pela sua dedicação, honestidade, seriedade, simpatia e educação. Com o suor do seu trabalho, o senhor criou e educou seus filhos. Não deve ter sido fácil, mas o senhor venceu. Para alguns dos filhos, o senhor transmitiu a vocação e os conhecimentos da sua profissão. Eles hoje também são fotógrafos.

Seus filhos e netos devem sentir muito orgulho do senhor. Pois saiba que todos nós também nos sentimos orgulhosos e felizes em poder contar com a sua amizade.

Bravos Artilheiros do Grupo Salomão da Rocha!
Sempre que venho aqui, uma das primeiras pessoas que encontro, para a minha satisfação, é o Seu Jair, acompanhado do seu sorriso, da sua simpatia e da inseparável câmera que o caracteriza e identifica. E é recorrente perguntar-lhe: “Seu Jair, o senhor não envelhece! Qual é o seu segredo?” Ele apenas sorri e não responde. Pois hoje vou tentar responder por ele.

É que o Seu Jair sempre procurou fazer o bem, sempre tratou a todos, sem exceção, com muito respeito, carinho e educação. Pessoas assim recebem em troca fluidos espirituais positivos dos que com elas convivem. Por isso, merecidamente, permanecem sempre jovens. Portanto, sempre jovem Seu Jair, é uma grande satisfação estar aqui neste que é o seu dia.

Receba, em nome do pessoal da antiga (que somam milhares) que serviu no Grupo, os cumprimentos, a admiração, o agradecimento por sua permanente presença em nossos lares, e os votos de saúde e felicidade. Cumprimento-o não só pelo aniversário, mas, principalmente, pelo seu belo exemplo de vida. Que o amigo prossiga, durante muito tempo ainda, registrando com a sua inseparável lente, a história do nosso quartel e de cada um dos que por aqui passarem.

Parabéns! Continue sempre jovem e feliz!
Curitiba, 14 de agosto de 2015

Publicado em Datas marcantes

Uruguaiana: desempregada, mas campeã.

29/08/2015 por bonat

Quem foi Rowan? Talvez poucos saibam ou se lembrem. Pode ser que “Uma Mensagem a Garcia” reavive a memória dos mais velhos. Foi esse o título da matéria do jornalista Elbert Hubbard para a revista “Philistine”. Escrita em 1889, sem muitas pretensões, alcançou tanto sucesso que se multiplicou em milhões de cópias, nos mais diferentes idiomas. Em síntese, Rowan, tendo recebido a missão quase impossível de entregar uma mensagem ao chefe dos insurretos cubanos, o General Garcia, deu conta do recado, após ter atravessado a pé um país totalmente hostil. A partir daí, ele é tido como padrão para todos os mensageiros e, também, um exemplo para outros profissionais.

Desde as mais priscas eras, o homem tem sido o mensageiro mais confiável. Entretanto, quando a rapidez era necessária, o pombo o substituía. Com o tempo, os pombos-correios, apesar de sua capacidade de voltar para casa, mesmo a muitos quilômetros de distância, tornaram-se vítimas do “desemprego funcional”: acabaram substituídos pela máquina. Consta que, até recentemente, o exército russo mantinha uma “divisão” de pombos-correios. Na Inglaterra, há cerca de dez anos, um hospital os usava para levar amostras ao seu laboratório, por serem rápidos e não precisarem enfrentar o trânsito. E só…

Impossível resistir ao avanço tecnológico. O telégrafo, o rádio, o telefone, o fac-símile, a internet e, obviamente, os meios de transporte – navio, trem, automóvel e avião – seriam capazes de levar mensagens e cargas cada vez mais longe e com maior velocidade. Ao pombo-correio restou o consolo de ficar lembrado na voz de Moraes Moreira: “Pombo correio voa depressa/E esta carta leva para o meu amor…” Sua última esperança, remotíssima, de voltar ao batente, será no dia em que todos os demais meios deixarem de funcionar.

Porém, o mais importante dos mensageiros, o humano, continua em atividade. Existem mensagens e cargas que os meios eletrônicos (ainda) não conseguem enviar. Os carteiros representam a face mais emblemática do homem-mensageiro. E, apesar de menos relevantes, os correios continuam a desempenhar importante papel.

Mas não é que os pombos-correios ainda têm alguma chance? Pelo menos é o que pensam os columbófilos (criadores de pombos). Descontando-se o seu amor às aves, pode ser que tenham razão. Vejam só o que alguém postou recentemente no facebook: “O que está acontecendo com os correios? Há alguns dias, apresentei-lhes uma reclamação pela demora: levaram cerca de duas semanas para entregar uma simples carta postada em Ribeirão Preto e destinada a Batatais, ambas no Estado de São Paulo e distantes cerca de 30 Km, ligadas por excelente estrada asfaltada de pista dupla. Ontem recebi sua resposta. Incrível! Reconheceram explicitamente sua incompetência. Fizeram-me duas sugestões. Primeira: que eu postasse a carta quinze dias antes. Ou seja, confessaram que é este o prazo que leva uma correspondência para percorrer 30 Km, na incrível velocidade de 2 Km/dia! Segunda: que eu utilizasse outros meios, como internet, fax, etc… Sugeriram que eu não utilizasse seus serviços. Que pena! Os correios já nos encheram de orgulho. Por que cairam tanto? “

Pois que se cuidem os correios! Os pombos continuam por aí, exercitando-se. Segundo a Federação Nacional de Columbofilia, somente em Minas Gerais, são distribuídas mais de cem mil anilhas por ano (elas representam o número de pombos nascidos).

E tem mais! Em 2012, a Federação Catarinense de Columbofilia bateu novo recorde. Em uma competição, as aves viajaram 871 quilômetros, a uma velocidade de aproximadamente 70 quilômetros por hora.

Os 91 pombos-atletas partiram de Uruguaiana ao amanhecer de 18 de novembro. Antes das 19 horas, a pomba campeã já estava em casa, na Ilha Encantada. Como prêmio, batizaram-na de “Uruguaiana”. Tão orgulhosa ela ficou, que o seu peito, já naturalmente estufado, quase explodiu!

Publicado em Nacional, Política

Academia de Letras José de Alencar vai ao presídio

26/08/2015 por bonat

Detentas participam de atividades com escritores e músicos
(Matéria publicada pela Agência de Notícias do Paraná)
Fotos: Osvaldo Ribeiro/SESP

As detentas do Presídio Central Estadual Feminino (PCEF), em Piraquara, tiveram uma tarde diferente nesta quarta-feira (19). Cerca de 300 mulheres da unidade participaram de atividades com escritores e músicos que realizaram oficinas e mostraram o próprio trabalho. As ações fazem parte da Semana Cultural do Departamento de Execução Penal (Depen).

A primeira atração foi a apresentação da Academia de Letras José de Alencar, representada pelos escritores João Carlos Cascaes, Dione Mara Souto da Rosa, Claudinei Roncolatto, Hamilton Bonat e Tania Rosa Cascaes, que promoveram uma oficina literária sobre crônicas, contos e poesia.

Segundo a escritora e advogada Dione Mara Souto da Rosa, que falou sobre contos ficcionais, a Semana Cultural representa uma nova oportunidade de vida. “Acredito que a escrita, a leitura e a literatura em geral sejam o único caminho para o sucesso. Essa é uma oportunidade para essas mulheres aprenderem a colocar suas ideias no papel e registrar suas pequenas memórias”, opinou ela.

Renata Damasceno, presa na unidade, conta que a leitura modificou o cotidiano no presídio, melhorando o comportamento coletivo. “As meninas que participam do projeto de remissão de pena pela leitura ficam muito mais calmas, mudam seu comportamento, muitas vezes agressivo, para melhor, passam a ser mais comunicativas e sociáveis”, disse.

Para a diretora da penitenciária, Suely Vieira Santos, projetos como a Semana Cultural e a remição pela leitura são diferenciais. “Desde a inauguração da unidade, em 2012, não tivemos nenhuma situação de crise. Acredito que o trabalho baseado no respeito e um tratamento penal adequado sejam os responsáveis pelo sucesso do Presídio Central Estadual Feminino. A intenção é aperfeiçoar os projetos que contribuam na conscientização dessas mulheres”, afirmou.

MÚSICA – Além da atividade literária, na mesma tarde, o grupo Sopro5 fez um breve concerto que animou a plateia na unidade prisional. Formado por solistas do naipe de madeiras da Orquestra Sinfônica do Paraná, os músicos Fabrício Ribeiro (flauta), João Vitor Silva (fagote), Marcelo Oliveira (clarinete), Marcos Vicenssuto (Oboé) e Fábio Jardim (trompa) fizeram questão de apresentar seus instrumentos, individualmente, além de contar um pouco da história e origem de cada um.

Na Colônia Penal Agrícola, unidade que também participa da Semana Cultural, foram oferecidas aos detentos diversas palestras sobre temas como sexualidade, saúde do homem, autoestima e inteligência emocional, entre outras. Também houve oficinas de xadrez e boxe.

Publicado em Cultura

Falta-nos um José de Alencar

13/08/2015 por bonat

Estou à toa. Hoje, mais do que em outros dias. À toa e de baixo astral. Não consigo, sequer, ver as páginas dos jornais e as notícias assustadoras que as lotam. Sinto-me triste, envergonhado, aborrecido, desolado mesmo. Definitivamente, cansei. Preciso afastar-me delas. Tenho que encontrar algo de útil para preencher a minha ociosidade. Tenho pressa. Necessito, urgentemente, de uma overdose de otimismo. Mas que seja aplicada na veia, para surtir efeito rápido.

Se me permitem os amigos, gostaria de dividir o que me aflige. Preocupa-me o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que vieram, não sei exatamente de onde, e alastraram-se ameaçadores pelo Brasil. Por temerem o nosso crescimento, os de fora sopraram com força. Seu sopro, de falsa bela aparência, espalhou-se e nos dividiu. Deixamos de nos ver como irmãos. Por toda a parte, nos enxergamos, uns aos outros, como inimigos. Estamos enfraquecidos. Conseguiram nos desunir.

Meus olhos percorrem com ansiedade a estante em busca de ânimo. Entre centenas de livros, deparo-me com um de José de Alencar. Não com “O Guarani” ou qualquer outra das suas maravilhosas obras, mas com a sua biografia. Nela, tento encontrar alento.

Abro-a com a velocidade de quem não pode perder tempo. Não me interesso por aquilo que meus leitores já sabem. Não resolveria o meu angustiante problema. E, também, nada acrescentaria aos que me leem, pois qual deles nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante cronista, romancista e dramaturgo cearense? Quem entre eles nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Qual deles nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem entre eles não sente orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como se fosse um filho de Ceci e Peri?

O que me interessa da obra de José de Alencar é o seu marcante nacionalismo, no difícil período da consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura própria. Alencar contribuiu para que nos sentíssemos não apenas um povo multirracial e multifacetado, mas, essencialmente, como uma mistura de povos.

Na literatura que criou está evidente u’a maneira de sentir e pensar tipicamente brasileira. Tão grande foi sua preocupação em retratar a nossa terra e o nosso povo, que as páginas dos seus romances revelam o intuito de, cada vez mais, tornar mais abrasileirados os seus textos. Convém lembrar que, isso tudo, deu-se numa época bem mais difícil do que a que vivemos, pois, se acabáramos de proclamar a independência, algo mais era necessário: romper nossa dependência cultural.

Pergunto então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam carentes de novos Josés de Alencar? E, principalmente, se nossa política não estaria clamando por um José Martiniano de Alencar? Mas que surja logo, pois a hora é quase passada. Nosso caso é de emergência. Requer aplicação de choque, sem filtro, na veia.

A pauta-bomba de cada um

06/08/2015 por bonat

A dificuldade de expressão da nossa presidente é de doer. Suas falas são ininteligíveis. Mas de pauta ela é boa. Na campanha presidencial, pautada por caríssimos (e, reconheçamos, competentes) marqueteiros, ela conseguiu, ao menos uma vez, fazer-se entender. Embora chula, a frase “nem que a vaca tussa” não deixava dúvidas. No seu segundo mandato, continuaríamos vivendo num país dourado.

No último dia 3, decorridos apenas sete meses da sua nova gestão, a presidente convocou os 27 governadores. O salão palaciano, onde se deu a reunião, provavelmente devia parecer vazio. Se levarmos em conta que dispomos de 39 ministros, doze cadeiras ficaram desocupadas.

Assunto: a pauta-bomba do Congresso. Mas que perigosa bomba estaria contida na tal pauta? Nada mais, nada menos, do que as promessas de campanha, aquelas que não iriam mudar nem que a vaca tossisse.

Pois não é que até o boi voou, a Petrobras quebrou, o PAC empacou, a inflação disparou e o PIB despencou? E nada de o cinto apertar. Os 39 ministros e seus milhares de assessores permanecem em seus cargos, “imexíveis” no linguajar de um ex-ministro. Afinal, eles são de confiança… Além do mais, devem ser muito competentes: conseguiram a proeza de fazer até a vaca tossir. Por isso devem custar tão caro.

Pautar é um verbo fácil de conjugar. Difícil mesmo é ser pautado. Muito tempo atrás, um garoto de 19 anos estava pautado para morrer e não sabia. Ingenuamente, ele correu para socorrer as pessoas que estariam num automóvel que havia se chocado contra o muro do quartel onde dava guarda. Mas não havia ninguém dentro. Apenas bombas. Quando explodiram, nada sobrou do pobre menino. Os que haviam pautado o seu assassinato devem ter comemorado numa verdadeira festa de arromba. É de supor terem ligado logo para Fidel, comunicando ao “comandante” sobre o sucesso da sua pauta-bomba.

Tempos depois, Celso Daniel, “companheiro” e prefeito de Santo André, teve um surto de honestidade. Por isso, também seria pautado para morrer. Mas, como devia ter importantes informações, sofreu alguns dias, antes de pagar com a vida, de ser justiçado.

Você já percebeu, caríssimo leitor, que hoje estou com dificuldade para me expressar. Creio que “peguei a doença”… Preciso me ver logo livre desse mal, pois parece contagioso.

Só resta apelar para Cícero, grande orador, advogado, filósofo e político romano. Vamos supô-lo ressuscitado aqui mesmo no Brasil. Inteligente, dispensaria marqueteiros. Culto, perceberia que as falas presidenciais são sem pé nem cabeça. Astuto, se candidataria à presidência da república. Mesmo sendo o “orador dos oradores”, decidiria falar de modo que ninguém o entendesse. Ao invés de “sem pé nem cabeça”, optaria pelo latino: “nec caput nec pedes”.

Quem sabe, não resolveria encerrar um dos seus comícios com o agora famoso “nem que a vaca tussa”? Mas o pronunciaria também em latim – “vel bovis tussis” – de forma que todos o aplaudissem, mesmo que ninguém tivesse entendido.

Compreendeu? Creio que não. Se pudesse, eu desenharia. Mas não possuo esse dom. Nem um simples traço meu, você entenderia. Uma vaca, então… Tossindo, menos ainda…

Ilustração: JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em Nacional, Política

Discurso de posse na Academia (Vídeo)

27/07/2015 por bonat

Meu discurso de posse da Cadeira 19 da Academia de Letras José de Alencar, que tem como Patrono o poeta Emílio de Menezes.
Para assistir, clique:

Confrade General Hamilton Bonat

Bodas: segredo ou milagre?

13/07/2015 por bonat

Há pouca coisa mais nostálgica do que as seções intituladas “Você Sabia?”. Era comum encontrá-las em jornais e revistas. Seguiam-se, então, informações pouco relevantes como: “Você sabia que um casal, quando completa um ano junto, comemora Bodas de Papel?”.

Claro que vocês, meus leitores, sábios que são, sabem que boda é uma celebração de casamento. Que é uma palavra mais usada no plural – bodas – e se refere aos votos matrimoniais feitos no dia do casamento. Sabem também que é tradição comemorar aniversários de casamento. Entretanto, talvez não saibam, como eu não sabia antes de consultar o professor google, que o termo tem origem no latim “vota”, que significa promessa. Pois a promessa parece estar cada vez mais difícil de ser cumprida.

“Milagre! Conseguimos nos aturar durante cinquenta dias!”, comemora um casal moderno. Suportar um ao outro sempre foi difícil, mas está virando exceção. Qualquer desavença faz esquecer do prometido diante do altar, perante familiares e amigos. Certo ou errado, antigamente não era bem assim. Casamentos eram para sempre, apesar das rixas, pequenas umas, abissais outras.

Foi nisso que pensei quando, recentemente, estive numa festa de bodas de ouro. Recordei Ogden Nash e sua definição de casamento como sendo “uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece”. Existem dezenas de outros pensamentos, uns sérios, outros engraçados, que buscam definir essa instituição secular, atualmente em crise. Entretanto, são poucos sobre “cinqüenta anos de casamento”. Por ser um evento raro, possivelmente dispense qualquer conceituação. Talvez por isso, poucos filósofos, poetas, sábios, futurólogos e religiosos se aventuraram em conceituá-lo.

Ele é autoexplicativo. Encerra toda uma vida, vivida a dois. Trata-se de acontecimento único e singular. Um momento que funde presente, passado e futuro. Na verdade, mesmo sem dizer uma só palavra, quem transmite u’a mensagem, lá do alto de meio século de convivência, são os cinquentenários “noivos”.

Lembrei, então, que todos nós, pelo menos uma vez, desejamos que o tempo tivesse parado em algum momento da nossa existência. Obviamente numa ocasião feliz, como a do nascimento de um filho ou de um neto. Se eles, os “cinquenta vezes noivos”, tivessem essa faculdade, suponho que escolheriam a inesquecível data de suas bodas. Se o tempo tivesse parado naquele dia, eles teriam a felicidade de ter, comemorando com eles, as pessoas muito queridas que lá estavam. Mas o tempo não para.

Ainda bem, pois se o relógio tivesse deixado de funcionar, sua vida se resumiria a uma fotografia amarelada. Não teria se transformado num belo filme. Uma película de muitos capítulos alegres, outros nem tanto. De emoções, de incertezas, de angústias, de vitórias. De alguns personagens que já partiram, enquanto muitos outros chegaram. Se os ponteiros do relógio tivessem parado, pouco teriam a comemorar. Não haveriam filhos, netos e bisnetos, nem tantos novos amigos.

Mas, afinal, qual o segredo de quem completa cinquenta anos junto? Ouso supor que ele esteja no fato de o casal ter procurado ser mais do que protagonista. De ter sido, ao mesmo tempo, diretor do filme da sua vida. Um diretor com uma visão otimista do futuro. Mas a verdade é que nem mesmo nas antigas seções “Você sabia?” a gente encontraria a resposta.

Aliás, caro e sábio leitor, você sabia que, aos 75 anos de casado, comemoram-se Bodas de Brilhante? Nesse caso, não há segredo. É milagre mesmo!

Publicado em Datas marcantes, Homenagens