Emílio, um fora da curva genial (clique)

Imaginemos Emílio de Menezes ainda vivo. Imaginemos mais: o poeta passeando pela Boca Maldita. A certa altura, ele levaria a mão ao

Ilustração de João Carlos Bonat

Ilustração de João Carlos Bonat

farto bigode e diria ao amigo ao lado: “Quanta gente simpática. Nem parecem curitibanos.” Emílio era mesmo assim. Divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta de uma língua ou de uma pena afiadas.

Curitibano, debocharia da fama, estereotipada é verdade, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Mas, quem sabe, não sejamos assim… Emílio passava longe disso.

Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em Curitiba a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Apesar disso, nunca renegou as suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos que enaltecem a araucária, o pinheiro que nos identifica: “Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia/Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!/Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia/De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império (da República, logo em seguida) encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.

Mal sabia ele que o lado satírico o prejudicaria. Além do mais, sua amizade com intelectuais, entre eles Olavo Bilac, tidos como boêmios, faria com que seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.

A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais. Vejam o que publicou sobre um deles: “Não existe exemplar na atualidade/De corpo tal e de ambição tamanha/Nem para intriga igual habilidade./Eis, em resumo, uma figura estranha./Tem mil léguas quadradas de vaidade/Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.

Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para contraatacar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse.

Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado. ”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria…”

Em qualquer lugar em que tivesse nascido, Emílio seria um fora da curva. Pela terminogia atual, foi um polêmico. Um genial polêmico. Por isso, imortal!

28 Respostas para “Emílio, um fora da curva genial (clique)”

  1. anita zippin Diz:

    genialllll!!!!
    de onde estiver, Emília de Menezes está a brindar este cronista que se tornará imortal das letras e, ao contrário do seu patrono, é muito bem quisto nos meios culturais e sociais, plantando sorriso e colhendo abraços por onde passa com sua encantadora Norma.
    sua madrinha da Academia de Letras José de Alencar, presidente eleita, Anita Zippin

  2. bonat Diz:

    Adoreiiiiii!!!!
    Muito feliz sua crônica, a provar que apesar de a Academia Brasileira o rejeitar, nós o estamos reverenciando através de suas palavras, tantas décadas depois.
    O genial Emílio, como todo gênio, incompreendido, fora da curva.
    Assim foi Paulo Leminski, amigo de meus irmãos e criado lá em casa no Seminário.
    Este era também um gênio, bebia mas produzia.
    Passou na Universidade Federal, em Direito, em 3ºlugar.
    mas daí, saiu da curva.
    Paulo foi morar no Rio com a esposa, com quem teve de se casar de repente, tudo pelo meu Dálio Pai que não queria ver uma criança sem pais e fez o casamento deles numa manhã de sábado.
    Mas no Rio, a esposa de Paulo colocou para morar lá uma amiga, Alice Ruiz, com que ele “fugiu”, que tal esta historinha?
    Conto para ver que o Emílio fora da curva como tão bem você descreve, está em todas as gerações, com nome diferente.
    Grande abraço. Ana

  3. bonat Diz:

    Caro amigo Gen Bonat,
    Belo resgate da memória do poeta Emílio, apesar de boêmio e desregrado, como refere seu artigo. Abs. Mário Zart

  4. bonat Diz:

    Caro Confrade,
    Parabéns pelo texto.
    Att,
    Dione

  5. Gustavo Silva Diz:

    Prezado General Bonat:

    Agradeço as recordações saborosas sobre Emílio de Menezes (que eu supunha carioca pela irreverência bem-humorada, veja só!) e pelas lembranças de sua leitora Ana sobre Paulo Leminski, este, sem qualquer dúvida, um “fora da curva”, “fora de esquadro”, único, inimitável, completamente desenquadrado, nas próprias palavras “zen-marxista”, capaz de escrever em minutos um poema sobre uma árvore e outro sobre Trótski, uma das suas admirações. E, não esqueçamos, faixa-preta de Judô.

    Grande abraço.
    Gustavo

  6. Gustavo Silva Diz:

    Não resisto à menção de Paulo Leminski e aqui vai um pequeno poema dele, muito característico da nossa (minha e dele) geração:

    Pariso
    Novayorquiso
    Moscoviteio
    Sem sair do bar.

    Só não me levanto
    E vou embora
    Porque tem países
    Que eu nem chego
    A Madagascar.

  7. Carlos Gama Diz:

    Você, Bonat, genial nos textos, reto nas linhas da escrita, do comportamento e do caráter, mas ainda assim flexível bastante para vir nos apresentar com tanta leveza e clareza as curvas, a inteligência e a vida – mais que interessante – de Emílio de Menezes.

  8. Francisco Souto Neto Diz:

    Caríssimo confrade Bonat!
    É ótimo que, às vésperas de ocupar a cadeira patronímica nº 19 da Academia de Letras José de Alencar, esteja nos trazendo um tanto da deliciosa e genial irreverência de Emílio de Menezes, patrono do espaço que passará a ser ocupado pelo amigo. Meus parabéns por sua excelente e inspirada crônica.
    Abraço do
    Francisco Souto Neto.

  9. Salazar Diz:

    Excelente meu amigo BONAT- como sempre!
    Na Praça Osório tinha(ou ainda tem)um busto de Emilio de Menezes. A placa com uma frase sua desapareceu!(Mais ou menos dizia o seguinte: Do bem que sempre busquei, do mal que nunca fiz, hoje sofro a ingratidão…..

  10. Arioswaldo Trancoso Cruz Diz:

    Caríssimo amigo e confrade, vejo que a incumbência foi dada à pessoa certa. Em poucas linhas você fez o resgate cultural do genial poeta, resgatando, também, um enorme débito de gratidão da sociedade paranaense para com o insuperável Emílio de Menezes e sua memória.
    Parabéns,

    Arioswaldo Trancoso Cruz

  11. valderez archegas ferreira Diz:

    Gal Hamilton, boa tarde.
    Mais uma vez parabéns pelo texto a respeito de Emílio de Menezes.
    Abraços

  12. ROSELENE FERREIRA Diz:

    ÓTIMO,COMO SEMPRE……
    ABRAÇOS.

  13. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Prezado amigo, Bonat,

    Cumprimentos efusivos! O título é atraente chamamento para o também atraente texto.

  14. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Prezado amigo, Bonat,
    Parabéns!
    Atraente título para não menos atraente texto.
    Cumprimentos,
    Gen Castro

  15. Mario Gardano Diz:

    Amigo Bonat, obrigado por nos informar sobre o poeta Emílio de Menezes, eu como paulistano, desconhecia a existência dele, e você, como sempre nos ilustrou com mais um relato interessante, e na verdade, todo gênio, é um fora da curva.
    abraços
    Mario Gardano

  16. bonat Diz:

    CARO GENERAL BONAT
    EM 1955. AO INCORPORAR DO EXÉRCITO, COMPREI NO SEBO ESSE LIVRO E PASSEI APRECIAR AS POESIAS DE EMÍLIO DE MENESES.
    GOSTEI MUITO EM LER A SUA CRÔNICA, POIS EMÍLIO ESTÁ SENDO ENALTECIDO E COMO ADMIRADOR DESSE GRANDE POETA PARANAENSE, FIQUEI FELIZ EM SABER DE SUA ADMIRAÇÃO POR ELE.
    Cesar Salomão

  17. bonat Diz:

    Grande Bonat
    Parabéns. Como sempre, honrando o patrono da cadeira que merecidamente ocupa.
    Um abraço
    Renato

  18. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    Precisávamos de de um Emílio de Menezes nos tempos atuais, para nos ajudar a meter a lenha nesse governo incompetente, manipulador e corrupto. Não consigo aceitar a reeleição da Presidente Dilma, como podem, os eleitores dela, ser tão cegos, mudos e surdos…

  19. renato balen Diz:

    Caro amigo!
    Parabéns pelo resgate cultural deste poeta. Parabenizo-o por ocupar um lugar nesta Academia de Letras – justamente merecido.
    renato balen – caxias do sul

  20. Brugalli Diz:

    Obrigado pela aula. Aí está um poeta (boêmio como convém aos poetas) de quem pouco se ouve falar, mas que envergou o fardão da Academia Brasileira de Letras. Deixou um legado cultural importante através de suas obras. Um abraço do Brugalli.

  21. Ailson Oliveira Colossi Diz:

    Mestre e meu guru Bonat sua falta no Instituto é notada pois gostamos de vê-lo e aprender mais com V.Excia.
    Mas não conhecia o poeta Emilio foi grande mas o atual ocupante da cadeira certamente não fica devendo nada para o patrono, basta ver o que proporcionou de produção até aqui, e certamente vamos ler muito mais.
    Forte Abração
    Ailson

  22. bonat Diz:

    Caro Gen. Bonat
    Parabéns pelo elogio à memoria do poeta.
    A propósito, estivemos empenhados, neste início de mês, numa operação para salvar o tumulo do Emílio de Menezes.
    A Prefeitura havia colocado aviso de que os ossos seriam “despejados” se nenhum parente se apresentasse para reivindicar o jazigo.
    Atuamos, em nome da comunidade cultural de Curitiba – Pró-Paraná, Instituto Histórico, Academia de Letras, etc – junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente, responsável pelos cemitérios e seu titular, prof. Renato Eugenio de Lima, enviou a diretora da área para nos assegurar:
    o tumulo de Emilio de Menezes será preservado como de interesse históico-cultural.
    Sds. Rafael

  23. ALFREDO CHEREM FILHO Diz:

    Meu Caro General
    Belas palavras a enaltecer um grande homem, escritas por outro grande homem.
    Um Grande Abraço, obrigado pelo envio
    Alfredo 21.11.2014

  24. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Prezado Hamilton,

    Bela contribuição à preservação da memória de Emílio de Menezes, feita pela pena brilhante do autor (façamos de conta que ainda vivemos os nostálgicos dias das canetas-tinteiro). Parabéns!
    Forte abraço,

    Joaquim

  25. maria elisabeth nascimento Diz:

    Bom dia Hamilton!
    Só agora li a crônica: bem escrita e me informando mais. Não sabia tanto de Emílio de Menezes!
    Vou ler mais sobre ele agora!
    Abraços.

  26. bonat Diz:

    Meu caro BONAT. Esse é o trecho que estava na placa de bronze no busto de E.M na Praça Osório

    A arte de Emílio de Menezes não se parece, em verdade, com qualquer outra da sua época. Se os gigantes cantassem, cantariam com aquela sonoridade. Polifemo, chorando sangue e lágrimas pelo olho vazado, devia ter, à beira do mar, o choro das suas blasfêmias. O seu verso, largo, severo, musical, dá-nos na sua impassibilidade majestosa uma impressão de oceano rolante. Os próprios estos do seu amor são austeros, sombrios, de uma grande harmonia descompassada, como se subissem do fundo das ondas. Se Adamastor, assentando no promontório tormentoso, soprasse a sua saudade, entre os uivos das ondas, no côncavo de um búzio tempestuoso, a sua voz não seria, talvez, mais grave e mais triste. Ecoavam na sua boca, blasfemando ou gemendo, as vozes dos titães soterrados. Os seus alexandrinos tinham, na gravidade da música, rebôos de caverna:

    Este leito, que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
    Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
    E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
    Ambos cheios de anelo, ambos cheios de susto;
    Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
    Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
    Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
    Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!…

    Louco e só! Desvairado!… A noite vai sem termo,
    E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
    Envolve a Natureza, e penetra o meu ermo.

    E mal julgas, talvez, quando, acaso, te vais,
    Quanto me punge e corta o coração enfermo
    Este horrível temor de que não voltes mais!…

    Neste soneto, instrumentado com a mesma harmonia larga, trovejam os mesmos ecos:

    Tomba às vezes meu ser. De tropeço a tropeço,
    Unidos, alma e corpo, ambos rolando vão.
    É o abismo, e eu não sei si cresço ou si descreço,
    À proporção do mal, do bem à proporção.

    Sobe às vezes meu ser. De arremesso a arremesso,
    Unidos, estro e pulso, ambos fogem ao chão,
    E eu ora encaro a luz, ora à luz estremeço,
    E não sei onde o mal e o bem me levarão.

    Fim, qual deles será? Qual deles é começo?
    Prêmio, qual deles é? Qual deles é expiação?
    Por qual deles ventura ou castigo mereço?

    Entre o perpétuo sim e ante o perpétuo não,
    Do bem que sempre fiz, nunca busquei o preço,
    Do mal que nunca fiz, sofro a condenação

    Salazar

  27. Francisco Diz:

    General Bonat,
    Realmente belas palavras a um grande poeta.
    Abraço, Xiquinho.

  28. bonat Diz:

    Meu amigo Gal. Bonat: fiquei feliz qdo recebí seu email, porque são poucas as pessoas que se preocupam c/ os paranaenses. Fiquei feliz tbém p/ saber que o sr. ocupa a CADEIRA que pertenceu a este poeta, tão esquecido e desconhecido ( somente sabem o nome da rua e devem pensar que ele é o dono ). Abraços HG

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