Artigos de 2014

Um Papai Noel Radical (clique)

05/12/2014 por bonat

Março de 1987
Divulgada no jornal, a confusão na Sierra Maestra custara a vida de um garçom. A viúva estava desesperada, pois o patrão não pagara os encargos sociais do falecido. Petrolino dobrou o jornal. Pela janela, viu passarem ônibus, todos lotados. No seu, climatizado, ninguém ia em pé, exceto em dias de protesto, como aquele. Circulando pelo corredor, o representante do sindicato dava instruções de como proceder quando parassem na entrada da refinaria.

Petrolino era extremamente dedicado à Empresa. Ganhava muito bem. Numa época de dólar supervalorizado, os reajustes salariais acompanhavam as variações da moeda americana. O combustível mais caro levava a inflação às alturas. Consciente disso, Petrolino considerava exageradas certas reivindicações. Se pudesse, não desembarcaria. Mas não teve opção. Um carro de som bloqueava a passagem dos ônibus, enquanto piqueteiros ameaçavam quem tentasse prosseguir a pé.

Entusiasmado pela presença da imprensa, o presidente do Sindipetro deitou falação por mais de hora. Lá do alto, bradou por outro reajuste. Entre tantas benesses, exigia ônibus novos para os funcionários (Petrolino lembrou do povão no busão), mais direitos sociais (aqueles negados à pobre viúva do garçom da Sierra Mestra) e o mesmo adicional de periculosidade – inclusive para os membros do sindicato – que, merecidamente, percebiam os petroleiros que se arriscavam nas plataformas da Bacia de Campos. Ao encerrar, sua voz irada ameaçou com nova greve.

De volta ao ônibus, Petrolino foi questionado pelo vizinho de poltrona se ouvira falar na boate Sierra Maestra. – “Li algo a respeito”. – “Sabe quem é o dono? O moço que acaba de deitar falação”. No dia seguinte, o líder petroleiro foi primeira página dos jornais. Do proprietário da Sierra Maestra, embora fossem a mesma pessoa, nunca mais se falou.

Janeiro de 2007
Após 35 anos de trabalho, Petrolino se aposentou. Passou a ser, apenas, o morador do quinto andar. Amargurado, percebeu que ninguém se lembrava da sua dedicação à Empresa, enquanto antigos líderes sindicais tinham alçado aos mais elevados cargos.

Decidiu reagir. Mergulhou nas obras de Jean-Paul Sartre e Rimbaud. Descobriu que sua vocação, como a dos sindicalistas, era ser de esquerda. Mas não queria ser um esquerdinha qualquer. Seria de “gauche”!

Passou a saudar a todos com um “bonjour” e a tratar de modo raivoso aquele burguês, dono da mercearia que o explorava. Precisava mudar o visual, pois imagem é tudo. Deixou crescer barba e cabelo. Eram brancos, mas pouco importava. Inspirado em Fidel, comprou um par de botas, uma boina e uma camisa vermelha. Para impactar, providenciou uma calça igualmente vermelha, ou “rouge”, como dizia para impressionar os vizinhos. Com a radical vestimenta, perambulava ruidosamente pelo bairro, pregando a revolução.

Dezembro de 2007
A filha chegou para passar o Natal. Petrolino queria mostrar-lhe o quanto tinha evoluído. Aguardou-a vestido a caráter. Quando a porta se abriu, os netos correram para abraçá-lo: “Papai Noel, nós te amamos!”

Rendido à pureza das crianças, o radical Petrolino só esperou o Natal passar. Raspou a barba e rasgou a fantasia, que passou a tachar de “ridicule”.

Voltou a ser o velho Petrolino, feliz por ter ajudado, honestamente, a Petrobras, orgulho dos brasileiros, a tornar-se respeitada no mundo todo.

Dezembro de 2014
A Sierra Maestra deixou de existir. Da viúva do garçom nunca mais se ouviu falar. Seu proprietário, porém, agora alto dirigente de empresa estatal, continua vivo.

Em jornais e revistas, o bilionário escândalo descoberto pela Operação Lava Jato é manchete. Petrolino se aborrece. Encontra o nome de antigos sindicalistas envolvidos em supostas falcatruas. Mas não se surpreende, pois, se já nos anos 80, eles procuravam tirar tudo o que podiam da Empresa, agora, que se consideram os seus donos, acreditam que não devem satisfação a ninguém, nem mesmo a Noel, que vem aí, por coincidência, todo de vermelho radical.
ILUSTRAÇÃO DE JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em Nacional, Política

Discurso de Posse da Cadeira de Emílio de Menezes

28/11/2014 por bonat

Senhoras e senhores!

Se Emílio de Menezes, Patrono da Cadeira de número 19, que hoje tenho a responsabilidade e o orgulho de assumir, estivesse aqui no meu lugar, creio que iniciaria assim esta minha breve fala: “Caríssimo Presidente Arioswaldo Trancoso Cruz! Veja que bela plateia. São pessoas tão simpáticas, que nem parecem curitibanas!”

Pronto, estaria armada a confusão! Era assim o Emílio: divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta afiada da sua pena.

Curitibano, debocharia da fama, estereotipada um pouco, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Quem sabe, não sejamos mesmo assim… Mas Emílio passava longe de clichês e formalidades.

Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em nossa cidade a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Mesmo assim, nunca esqueceu de suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos em que enaltece a araucária, o pinheiro que nos identifica:

“Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia
Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!
Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia
De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império – República logo em seguida – encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.

Mal sabia o quanto seu lado satírico iria prejudicá-lo no futuro. Além do mais, sua amizade com intelectuais tidos como boêmios, entre eles Olavo Bilac, faria com que o seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.

A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais da Academia. Vejam o que publicou sobre um deles:

“Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha
Nem para intriga igual habilidade.
Eis, em resumo, uma figura estranha.
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 15 de agosto de 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.

Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para alfinetar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse de sua cadeira.

Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado.

”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos de residência no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café ou de uma confeitaria, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria.”

Usando a terminogia atual, Emílio de Menezes foi um polêmico. Um genial polêmico. Um polêmico e imortal curitibano!

A cadeira 19, da qual é o Patrono, foi ocupada pelo poeta Colombo de Souza, que teve dezenas obras publicadas e presidiu a nossa Academia de Letras José de Alencar nos anos de 1946/47. Ocupou-a, posteriormente, o Dr Ruy Noronha Miranda, destacado médico, eminente professor universitário e renomado pesquisador sobre doenças de pele.

Quero manifestar a enorme satisfação em suceder a vultos tão notáveis e em ter-me dirigido, nesta noite, a tão seleta plateia de simpáticos curitibanos e de igualmente simpáticos brasileiros de outros rincões. Muito obrigado.

Curitiba/PR, 27 de novembro de 2014
Hamilton Bonat

(Fotografias: JOÃO CARLOS CASCAES)

Publicado em Cultura, Literatura

Academia de Letras José de Alencar celebra seus 75 anos

25/11/2014 por bonat

Às 19 horas desta quinta-feira (27) tomarão posse os integrantes da nova diretoria da Academia de Letras José de Alencar para o biênio 2015/2016 em solenidade no Palacete dos Leões, à Av. João Gualberto, 530/570. A presidência será ocupada por Anita Zippin, e a vice-presidência por Arioswaldo Trancoso Cruz. Os demais componentes da chapa eleita por aclamação serão os diretores Celso de Macedo Portugal (1º secretário), Francisco Souto Neto (2º secretário), Janske Niemann Schlenker (1ª tesoureira), Nylzamira Cunha Bejes (2ª tesoureira), Hamilton Bonat (diretor de relações públicas), João Carlos Cascaes (diretor de comunicações) e Tânia Rosa Ferreira Cascaes (diretora sócio-cultural).

Na sessão solene, quatro personalidades já membros da Academia assumirão agora na qualidade de associados titulares de cadeiras patronímicas: Luislinda Dias de Valois Santos na Cadeira nº 6, Hamilton Bonat na Cadeira nº 19, Lílian Deise de Andrade Guinski na Cadeira nº 23 e Francisco Souto Neto na Cadeira nº 26. Na mesma oportunidade ingressarão na Academia como associados efetivos: Adriano Pires Ribas, Charyana Gamballe Correia, Claudinei Roncolatto, Estela Carmem Pereira Sandrini (Teca Sandrini) e Iza Zilli. Como associada correspondente assumirá Regina Celi Simões Ângelo, de Campinas, SP.

Nessa mesma sessão magna a Academia de Letras José de Alencar, fundada em 1939, estará comemorando em grande estilo o seu Jubileu de Diamante, agora instalada no Palacete dos Leões por gentileza do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE.

Foto – No Palacete dos Leões, membros da diretoria da Academia de Letras José de Alencar: Hamilton Bonat, Arioswaldo Trancoso Cruz, Anita Zippin e Tânia Rosa Ferreira Cascaes.

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Emílio, um fora da curva genial (clique)

18/11/2014 por bonat

Imaginemos Emílio de Menezes ainda vivo. Imaginemos mais: o poeta passeando pela Boca Maldita. A certa altura, ele levaria a mão ao

Ilustração de João Carlos Bonat

Ilustração de João Carlos Bonat

farto bigode e diria ao amigo ao lado: “Quanta gente simpática. Nem parecem curitibanos.” Emílio era mesmo assim. Divertia-se ao cutucar as pessoas, principalmente os políticos de sua época, com a ponta de uma língua ou de uma pena afiadas.

Curitibano, debocharia da fama, estereotipada é verdade, de que somos tímidos, introvertidos, formais no linguajar e no vestir, e de falarmos sobre o clima ao invés de darmos bom-dia. Mas, quem sabe, não sejamos assim… Emílio passava longe disso.

Antes mesmo de, aos 18 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, deixou em Curitiba a marca destoante de uma conduta informal no trajar, no falar e nos costumes. Apesar disso, nunca renegou as suas origens. Dedicou inúmeros poemas ao Paraná, como estes versos que enaltecem a araucária, o pinheiro que nos identifica: “Nasceste onde nasci. Creio que ao mesmo dia/Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!/Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia/De seres o maior do verdejante grêmio.”

Na capital do Império (da República, logo em seguida) encontrou solo fértil para destilar sua imaginação, satírica como poucas. Ninguém o ultrapassou na irreverência dilacerante, no dito oportuno e pitoresco. Mas o lado satírico e boêmio foi apenas uma de suas facetas. Certamente não a mais expressiva, pois ninguém o sobrepujou como poeta parnasiano.

Mal sabia ele que o lado satírico o prejudicaria. Além do mais, sua amizade com intelectuais, entre eles Olavo Bilac, tidos como boêmios, faria com que seu nome fosse excluído do grupo que, em 1897, fundaria a Academia Brasileira de Letras.

A partir de então, tornou-se veemente crítico dos imortais. Vejam o que publicou sobre um deles: “Não existe exemplar na atualidade/De corpo tal e de ambição tamanha/Nem para intriga igual habilidade./Eis, em resumo, uma figura estranha./Tem mil léguas quadradas de vaidade/Por milímetro cúbico de banha.”

A mordacidade dos seus versos fez com que a então sisuda Academia protelasse o quanto pôde o seu ingresso, até que, em 1914, ela teve que render-se à genialidade do “mestre dos sonetos”.

Fardão pronto. Igualmente pronto estava o discurso de posse. Com ele, Emílio aproveitaria para contraatacar alguns dos futuros confrades que o taxavam de boêmio e desregrado. Durante quatro anos seu discurso foi e voltou, sem nunca ter sido aprovado. Entre essas idas e vindas, Emílio acabaria falecendo em 1918, sem ter tomado posse.

Vale, como registro, a citação de pequeno trecho do texto que preparou e foi censurado. ”Eu, um boêmio e desregrado, que nunca foi visto em bordéis e espeluncas. Boêmio e desregrado, que, com mais de trinta anos no Rio, não sabe o que seja um desses celebrizados bailes carnavalescos, onde o meretrício elegante se excita. Boêmio e desregrado, porque gosta de fazer a sua hora à mesa de um café, trocando idéias, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito. Posso garantir-vos que essas alegres confabulações literárias, apesar das doses de whisky ou água de coco, ou ambos juntos, são muito mais inocentes que as reuniões de certas portas de livraria…”

Em qualquer lugar em que tivesse nascido, Emílio seria um fora da curva. Pela terminogia atual, foi um polêmico. Um genial polêmico. Por isso, imortal!

Publicado em Cultura, Literatura

Adão ainda vive (clique)

14/10/2014 por bonat

Não vou falar do Adão e da Eva, nem de sua maçã. Se alguém inventou essa história, esteja certo de que não fui eu. Ela está nas escrituras sagradas e vale pela mensagem que pretende transmitir. Mas a verdade é que o pecado do primeiro dos homens nos parece insignificante, pois já faz tempo que comer maçãs deixou de ser pecado, muito menos original, mesmo que as frutas pertençam à outra pessoa, como à Eva, por exemplo.

Milênios depois, outro Adão surgiria, o Latorre. A veracidade de sua história está comprovada em fotografias e depoimentos. As imagens em que aparece com sua faca afiada na carótida das vítimas revelam um pecado (ou seria crime?) tremendamente mais grave. Era tempo de Revolução Federalista, também conhecida como revolução das degolas, praticadas cruelmente por ambos os contendores. Enquanto os maragatos (federalistas) contavam com os “serviços” de Latorre, os pica-paus (legalistas) dispunham de Cherengue (ou Xerengue) e seu sempre bem amolado facão. Sei, caro leitor, que lhe dará uma certa coceira no pescoço, mas me permita transcrever o que encontrei no google a respeito.

“Conta a história que numa tarde e noite inteiras, a faca de Adão Latorre não parou um só instante de cortar carótidas. Dos mil prisioneiros encerrados como animais na mangueira de pedra, mais de trezentos foram degolados e castrados. Houve os que foram laçados e arrastados até o chão do sacrifício, ali despidos antes de serem imolados. E dizem os que escaparam, que Adão chamava um a um e mandava-os pronunciar a letra jota. Aquele que, em vez de jota, pronunciava rota, era castelhano e recebia, incontinenti, o aço afiado que lhe abria o talho de orelha a orelha. Adão firmava a ponta da faca bem chairada embaixo do nariz da vítima e quando esta, instintivamente, levava a cabeça para trás, com a perícia de bom conhecedor do ofício, lhe desfechava um rápido e profundo talho no pescoço.”

Antes que você, com toda razão, desista de ler, vou resumir: a Revolução Federalista (1893-1895) foi das mais sangrentas que tivemos. Causou pelo menos 10.000 mortos e incontáveis feridos.

Pensávamos que barbaridades, tão tétricas quanto cabeças decepadas, jamais sairiam do passado. Mas os ditos humanos não têm mesmo jeito. Não é que o barbarismo está de volta? Por sorte, bem longe daqui. Ele agora nos é servido com uma pitada a mais de crueldade: a divulgação pela internet. Os novos Adões, de rosto escondido, espalham-no pelo mundo, de forma a que todos, inclusive os apavorados familiares das vítimas, o presenciem.

Por isso, soou patético o discurso da nossa Presidente na abertura da Assembleia Geral da ONU, pregando um diálogo com tipos com os quais nem mesmo os muçulmanos conseguem conversar. Não deve ter sido redigido por ela mesma, pois sua história de vida e sua personalidade mostram que dialogar nunca foi exatamente o seu forte. É também lógico acreditar não ter sido um diplomata de carreira, pois eles têm uma exata noção das consequências futuras das posições tomadas pelo País. Provavelmente, por ter-se alinhado aos neo-degoladores, seu “ghost writer” (escritor fantasma) deve ter sido alguém que se alimenta do ódio, que espalha ódio e admite o terrorismo como forma contemporânea de “fazer justiça”. Ou, quem sabe, tenha sido escrito pelo próprio fantasma do velho Adão Latorre ou do seu arquirrival Cherengue (ou Xerengue), que aceitavam conversar, desde que antes pudessem dar “um trato na carótida do interlocutor”.

É tanta tragédia, que só nos resta dar vivas e loas ao velho Adão, que, por só gostar de maçã, inspirou John Lenon a pregar “faça amor, não faça guerra”. Lenon acabaria assassinado, e por um fã. Vá entender os humanos!

O 7 de Setembro na boquinha da garrafa (clique)

07/09/2014 por bonat

“Por sua imensidão – que é um presente da natureza – o Brasil é belo e forte, comparado a um gigante destemido. Essa grandeza toda se projeta como esperança de um grande futuro.” Assim explicou Marcelo Franz, professor de letras da PUC-PR, em matéria da Gazeta do Povo de hoje, uma das estrofes do Hino Nacional. Segundo ele, o que o difere do hino de outros países é o fato de enaltecer as belezas naturais do Brasil e não o espírito guerreiro. Mesmo assim, muita gente prefere a sanguinária Marselhesa… Fazer o quê?

A letra de Joaquim Osório Duque Estrada foi escrita logo após a proclamação da República, quando, definitivamente, rompemos nossas amarras com Portugal.

Na mesma matéria, outro professor, este da UFPR, diz que a letra é “empolada” e que ninguém entende absolutamente nada. Ora, caro professor, “desempolar o que parece empolado” não seria missão dos professores, como bem demonstrou o seu colega Marcelo?

Tudo bem que ele seja doutor em letras, mas bem que os de História, como o senhor, poderiam dar uma mãozinha! Ou o senhor também prefere a Marselhesa, cuja letra, certamente, é ainda mais ignorada pelos brasileiros? Ou, quem sabe, sua preferência não recaia sobre um hino à base do “boquinha da garrafa”? Aí talvez todo mundo iria compreender e entenderia melhor aonde o senhor parece querer nos levar: cada vez mais ao fundo do poço.

Apesar de estarmos contaminados pelo “nunca na história deste país” de um influente ex-presidente, não podemos esquecer que Pátria é, acima de tudo, continuidade histórica. Não temos o direito de esquecer das pessoas que já andaram por aqui, enfrentaram muita dificuldade, sofreram, trabalharam e até foram mortas, para que a nossa vez chegasse.

Pois essa gente não merece ser esquecida, muito menos considerada “empolada”. Com os poucos meios e conhecimentos que dispunham à sua época, parece que foram mais dignos do Brasil do que os da nossa geração.

Que história deixaremos como legado. A da “boquinha da garrafa”? Que julgamento os nossos bisnetos farão da nossa geração?

No ano em que comemoramos 192 de independência, ainda não conseguimos nos livrar de fortes influências externas. Quem passou antes de nós fez o possível, às vezes mais do que pôde. Por isso, eles não podem ser esquecidos.

Também não podemos esquecer que esta “Terra adorada/Entre outras mil/És tu, Brasil/Ó Pátria amada!”, ou, se preferirem: “Entre tantas outras que há no mundo, a terra que amamos é o Brasil”. Ao menos, deveria ser… Afinal, o Brasil é a nossa casa!

Publicado em Datas marcantes

A esquecida morte de 50 mil vira-latas (clique)

19/08/2014 por bonat

Por que atacar o Brasil, se a disputa era entre Assunção e Buenos Aires, que sufocava a economia paraguaia? Seria esta a pergunta que, se pudesse, eu faria a Francisco Solano López. Vai completar 150 anos que ele mandou aprisionar o vapor Marquês de Olinda e trancafiou sua tripulação e passageiros, entre eles o Presidente da Província de Mato Grosso, que sucumbiriam à fome e aos maus tratos na prisão. Pouco mais tarde, milhares de suas fanatizadas tropas tomariam Forte Coimbra, Dourados, Nioaque, Miranda e Coxim, não sem antes ceifar inúmeras vidas.

López deve ter-se apercebido da nossa fragilidade. Éramos um país dividido. A Corte, centralizadora, e as oligarquias regionais, ávidas por autonomia, olhavam-se com desconfiança. Do Imperador tinham tirado o exército. Fracionaram-no em guardas nacionais, subordinadas aos propósitos da elite escravista. O efetivo terrestre não chegava a 20 mil. López deve ter imaginado que seria presa fácil para os seus 50 mil bravos. Havia, ainda, uma cruel divisão entre homens livres e escravos. Ele confiava na sublevação destes últimos. Não contava, aí o seu erro, com o poder aglutinador e a capacidade de mobilização da Coroa.

Apesar de estarem documentalmente registradas, evidências históricas parecem nada valer para certos autores, que, numa autofagia incompreensível, insistem em atribuir ao Brasil a culpabilidade pela sangrenta guerra que se prolongaria por quase seis anos. Segundo eles, influenciados pelos ingleses, fomos os responsáveis, não só por ela, mas pelo extermínio da população masculina do vizinho país.

Não lembram dos mais de 50 mil brasileiros, a maioria muito jovem, que deixaram suas vidas longe do pedaço de chão onde eram amados. Tratam-nos como vira-latas, termo recorrente em demagógicos discursos de líderes políticos nacionais. O eufemista “complexo de vira-latas”, rotineiramente usado, parece-lhes mais agradável do que afirmar que não somos de nada. A conclusão que se tira disso tudo é que somos realmente vira-latas!

Enquanto nossos irmãos paraguaios enaltecem seus mais de 150 mil mortos, não permitimos que os nossos 50 mil descansem, condenando-os ao fogo eterno. Com sua ideologia, carcomido instrumento de dominação externa, brasileiros tentam impor ideias, que não são deles, mas importadas, baseadas em suposições que mascaram a realidade.

Ainda bem que autores há para desmenti-los. “A Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto, é resultado de séria pesquisa e revela inexistir comprovação da industrialização guarani. Seu consumo interno era ínfimo. Portanto, afirmar que a Inglaterra queria abrir mercado, patrocinando uma guerra, é algo totalmente ilógico. A falta de lógica é reforçada quando Doratioto revela que, quando o conflito começou, o Brasil tinha relações rompidas com a Inglaterra.Ilustração de João Carlos Bonat
(Ilustração de João Carlos Bonat)

Passa longe de mim a intenção de defender os ingleses, os donos do mundo de então. Muito menos pretendo elevá-los ao altar, pois santos eles nunca foram. Que o digam os indígenas da América do Norte, ou as vítimas chinesas da guerra do Ópio. Com o tempo, sua influência foi diminuindo, menos por aqui, onde continuam dando as cartas, num jogo de um perdedor só: o vira-lata. Quem dá as cartas são suas organizações ambientalistas, aquelas que agem contra o progresso em todo o mundo, menos, e estranhamente, na Europa Ocidental. Fez bem o senhor Putin ao dar-lhes um “chega prá lá” quando tentaram invadir uma plataforma de petróleo russa. Fazem bem os chineses ao não admitirem sua intromissão em sua cozinha. Mas no território brasileiro elas têm livre trânsito, contando com a cumplicidade de autoridades do alto escalão e, até, de pretendentes a tal. Quantos brasileiros mais irão morrer no trecho da Serra do Cafezal da Régis Bittencourt? Até quando permaneceremos sem a energia da usina de Belo Monte? Até quando durará a nossa submissão? A resposta é simples: até o dia em que deixarmos de ser vira-latas.

Mas até mesmo guerras geram avanços. Após a do Paraguai, o Brasil passaria por sua maior revolução política e social. Antecipou-se o fim de quase 400 anos de escravidão, mancha com que os lusitanos e seus descendentes marcaram a nossa história. Sentindo que iriam perder a mão de obra gratuita, apressaram-se em incentivar, com falsas promessas, a imigração de europeus. Entre outros, chegaram poloneses, ucranianos, suíços, alemães e italianos, gente que nunca escravizou e que passaria a viver aqui em regime de quase escravidão.

Os que mandavam no pedaço não demoraram em alcunhá-los coxas-brancas, com o subliminar intento de taxá-los como racistas. Uma vez mais, invertia-se a realidade. Por não conseguir entender, acrescento mais um vira-lata nessa história: este guaipeca que vos fala.

ILUSTRAÇÃO: JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em História

Voo MH17, um covarde ato de terror (clique)

22/07/2014 por bonat

Estávamos em rigorosa prontidão, numa espera angustiante. Radares e observadores, espalhados por extensa área ao redor da refinaria, vasculhavam atentamente o céu para dar o alerta. Computadores prontos para calcular os dados a serem transmitidos eletronicamente para dezenas de peças, guarnecidas por artilheiros ansiosos para entrar em ação. Apesar de tratar-se de mais um exercício, havia certa tensão. Como nas corridas de Fórmula 1, o que separaria sucesso e fracasso seriam frações de segundo. Não poderíamos falhar. Não queríamos falhar!

O “inimigo” tinha a seu favor a surpresa. Seria dele a escolha sobre o momento e a direção do ataque. Provavelmente, os Super Tucanos surgiriam ao mesmo tempo, de várias direções. Estávamos em nítida desvantagem, o que é normal, pois armas antiaéreas são essencialmente defensivas.

Não é nada fácil abater um avião. Claro que estou tratando de aviões de combate. Derrubar aviões de carreira é ato de covardia, digno de terroristas, que nem passa pela cabeça de tropas regulares, principalmente das brasileiras. Mas sobre isso, falarei mais tarde.

Desde que Santos Dumont (ou os irmãos Wright, segundo os americanos) inventou a maravilhosa máquina que tornaria o mundo pequeno, ela vem sendo aprimorada como estratégico vetor de combate. A Itália foi a primeira a empregá-la. Em 2 de novembro de 1911, seus aviões bombardearam uma coluna militar otomana, na Primeira Guerra dos Balcãs.

Na I Primeira Guerra Mundial, os aviões seriam empregados com mais intensidade. Se, no início do conflito, não ultrapassavam 110 km/h, ao seu final muitos já alcançavam 230. Foram os franceses que primeiro os armaram, de forma a transformá-los, realmente, num vetor de guerra. Roland Garros (ele mesmo, que dá o nome aos famosos torneios de tênis!) afixou uma metralhadora no bico do seu avião, o que lhe permitia voar e, ao mesmo tempo, mirar sobre outra aeronave. Até aí, as ações aéreas, cada vez mais estratégicas e destruidoras, seriam levadas a efeito sem grandes riscos, pois pouco havia em terra para enfrentá-las.

A II Guerra Mundial caracterizou-se por drástico crescimento na produção e desenvolvimento da tecnologia da aviação. Surgiram os primeiros bombardeiros de longa distância e o primeiro caça a jato. A velocidade passou dos 480 para 640 Km/h. A altitude, de 9 mil para 12 mil metros. Porém, havia agora meios capazes de fazer-lhes frente: os canhões antiaéreos. Só para o amigo leitor ter uma ideia, quando comandei a nossa Brigada de Artilharia Antiaérea, conheci, em Guarujá, um senhor já bem idoso, que havia servido numa bateria antiaérea alemã. Segundo me revelou, sua unidade chegou a abater 94 aviões aliados durante toda a campanha. Mas a evolução dos meios de defesa antiaérea não impediria que as populações de importantes cidades fossem castigadas, até o fim do conflito, por violentos bombardeios.

O pós-guerra foi marcado pela corrida espacial. Com ela, houve exponencial aumento das ameaças vindas do ar: mísseis balísticos percorrem milhares de quilômetros; versáteis helicópteros armados estão prontos para realizar traiçoeiras e mortais emboscadas; aeronaves controladas remotamente – os drones – garantem a execução de ataques precisos, com risco zero. Para fazer face a esse crescente perigo, os meios antiaéreos foram sendo aperfeiçoados. Aumentou-se a capacidade de detecção, alcance, potência e precisão. Ao mesmo tempo, observa-se uma tendência à miniaturização do armamento. Já existem mísseis potentes que cabem dentro de uma sacola de viagem. O perigo está aí!

Volto agora aos aviões de carreira e à covardia, digna de terroristas, em abatê-los. Armamentos letais, como mísseis antiaéreos, ao caírem nas mãos desse tipo de gente, tornam-se perigosa ameaça. De essencialmente defensivos, transformam-se em mortais armas de ataque contra alvos indefesos. Por tudo isso, creio que o disparo que derrubou o avião da Malaysia Airlines, só pode ter partido de uma mente terrorista. Matou 298 pessoas, que nada tinham a ver com o imperialismo russo, que vem do tempo dos czares. Sua tentativa de esconder as caixas pretas só reforça essa percepção.

É sabido que o senhor Putin deseja que a Rússia – riquíssimo país, o mais extenso do planeta – volte a ser um protagonista mundial. Azar de quem mora ao lado. Os ucranianos (e outros) sabem bem disso, e há muito tempo. A mesma Rússia que, enquanto União Soviética, apoiava ações terroristas mundo afora, inclusive no Brasil, parece ter voltado aos bons tempos da velha KGB de Putin. Tudo leva a crer que ele tentará acobertar seus aliados da pobre Ucrânia. Mas, se não foram eles que mataram os passageiros do voo MH17, quem mais poderia ter sido? Militares russos? Talvez… Os familiares das vítimas jamais os perdoarão, mesmo que justifiquem seu ato criminoso como sendo uma prova de amor à eternamente expansionista Grande Mãe Rússia.
(A terceira e a quarta fotografias são de aviões controlados remotamente – “drones” – fabricados por uma equipe de militares do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea, de Caxias do Sul. Eles são utilizados como alvo em exercícios de tiro real)


(Pintura de Jean Baptiste Debret, gentilmente enviada pelo Tenente Paulo Geraldo Meyer, e que representa as origens da Artilharia Antiaérea no Brasil)

Publicado em Internacional, Política

Sobre vaias, lágrimas e cousas (clique)

03/07/2014 por bonat

Há tempo, e bota tempo nisso, no Colégio Militar do Rio de Janeiro, havia uma disciplina de nome estranho: “cousas”. A escolha de quem caberia ministrá-la recaía sobre os decanos do corpo docente, que a acumulavam com as matérias que já ministravam regularmente. Ao pesquisar nos antigos boletins do colégio, descobre-se que as tais “cousas” nada mais eram do que a experiência acumulada ao longo de uma longa vida, que seria transmitida aos jovens alunos pelos professores mais velhos. Assuntos como casamento, economia familiar, poupança, profissões, vícios, importância do estudo, de levantar-se após as quedas, de ser mais do que ter, do respeito devido às pessoas, às crianças, às senhoras, aos mais velhos, do zelo com os bens alheios, fossem públicos ou privados, da ajuda aos mais necessitados, do comportamento em sociedade, dos cuidados com a saúde, enfim, sobre o bem viver. É bem possível que outras escolas, além das militares, adotassem o mesmo procedimento.

Mas para que tratar de um assunto com cheiro de naftalina, de uma figura que, de há muito, deixou de existir? Além do mais, com o tempo, nossa sociedade passou a considerar o velho e seus conselhos dispensáveis. Alguns dirão ainda mais: a maioria deles não consegue, sequer, manusear um “tablet”. E, para reforçar seu argumento, nos lembrarão que as modernas escolas dispõem de equipes multidisciplinares, compostas, entre outros especialistas, por psicólogos e psiquiatras, encarregados de orientar os alunos. Só nos resta concordar, mas apenas parcialmente. Se lhes sobram títulos e diplomas, falta-lhes a experiência, que só a vivência é capaz de proporcionar.

O que me levou ao tema foi o assunto do momento: futebol. Debate-se as razões do choro de alguns badalados jogadores da nossa seleção. Sabe-se da dificuldade de passar pelas peneiras futebolísticas. São milhares de candidatos, a maioria de origem humilde, para pouquíssimas vagas. Os escolhidos têm que dedicar-se integralmente, não sobrando tempo para o estudo. Em torno deles, orbitam empresários e marqueteiros, ávidos por contratos milionários. Para favorecer seus “apadrinhados”, não perdem tempo em atribuir-lhes títulos, como imperador, magnífico, estupendo e outros ainda mais maravilhosos. A repetição é tanta, que o próprio atleta acaba por se enxergar como tal, isto é, ele passa a se considerar um “magnífico”. A partir daí, seu carro tem que ser magnífico, assim como sua casa, suas mulheres, seus brincos, seu penteado, numa ostentação totalmente deslocada da realidade.

Lágrimas são a mais espontânea manifestação do sentimento humano. Suas causas são variadas. Aquelas, após o difícil empate com o Chile, creio terem sido o resultado da constatação de uma realidade: nossos atletas descobriram que não eram assim tão magníficos quanto supunham. Os psicólogos estão tentando encontrar suas razões. A mim parece que foi a ausência do velho professor de cousas.

Das arquibancadas, no mesmo jogo, viria outra constatação de quanto a sua falta nos tem sido prejudicial: as vaias ao hino chileno. Ora, se somos os anfitriões (mesmo se não fôssemos), não caberia tal manifestação de hostilidade aos nossos convidados. Repetiam-se, para comprovar nossa falta de civilidade, os apupos na cerimônia de abertura à presidente da república. Qualquer professor de cousas não os aprovaria, mesmo se a autoridade em questão fosse merecedora. Não era o local nem o momento adequado para aquele tipo de protesto.

O que se espalha por aí, é que a Copa já tem um vencedor: o Japão. Sua torcida, terminados os jogos (acrescente-se que eles não venceram nenhum), preocupava-se em catar o lixo que havia espalhado. Os orientais têm, culturalmente, a tradição de respeitar e ouvir os conselhos dos mais idosos. Quem sabe, sua exemplar atitude não tenha sido aprendida com um velho professor de cousas.

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1950 não se repetirá (clique)

09/06/2014 por bonat

Se é verdadeiro o que circula pela internet, os membros da Famiglia Scolari recebem por mês o que outros mortais passarão a vida inteira sem ao menos chegar perto. E olha que na lista não consta o salário do chefe do clã. Resta aos outros mortais o consolo de que seus salários não saem do seu bolso. Além do mais, é forçoso concordar com o Romário. Deus deve ter colocado a mão sobre suas cabeças e dito: “Esses são os caras”. Dá até para compreender e justificar as ardentes paixões das Marias Chuteiras. Mesmo assim, tomara que sejam campeões e não se repita o Maracanazo, que levou o Brasil às lágrimas.

Correm o mundo notícias de que a Copa será outra vez no Brasil, o que não chega a ser exatamente uma verdade. Heráclito, provavelmente inspirado em antigo provérbio chinês, ensinou que “Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, pois tanto o homem quanto o rio nunca são os mesmos”. O pensamento do filósofo grego (talvez dispensável para se chegar a esta conclusão) deixa claro que o Brasil não sediará “novamente” a Copa do Mundo, pois, passados sessenta e quatro anos, ambos não são os mesmos.

A de 1950 foi a primeira pós-guerra. A insanidade de líderes europeus havia levado ao cancelamento da competição em 1942 e 1946. A FIFA chegava com nobres e sinceras intenções. O futebol, popularíssimo, serviria para reaproximar as nações, principalmente as europeias, que tentavam ressurgir das cinzas de sua brutal autodestruição. A disputa se daria no campo de jogo, menos violenta, sem mortos nem feridos. Bola em lugar de armas.

Agora, 2014, a Copa é um produto gerador de lucros exorbitantes. A atrativa ética do fair play, exigida dentro de campo, mais parece um véu que encoberta a realidade, não tão ética assim, de uma instituição que se tornou bilionária. Não por coincidência, aqui ela acabaria encontrando companheiros e espaço fértil para agir.

O Brasil de 1950 ainda era preponderantemente rural, mas iniciava a sua industrialização e a consequente urbanização. Nossa autoestima estava em alta: éramos miscigenados, ordeiros, desprovidos de preconceitos e estávamos construindo um grande país. Em nosso subconsciente coletivo, a Copa serviria para ensinarmos aos “gringos” como viver em harmonia. Nós éramos os civilizados que estavam acolhendo os bárbaros europeus. Razões de sobra para o Maracanazo nos ter feito chorar.

O Brasil de 2014, ao contrário, é um país dividido, violento e descrente, tal como a Europa pré-guerra. A história agora se repete, porém invertida. Enquanto os europeus se aproximaram e cresceram, nós estamos caminhando na direção oposta, àquela que conduz ao caos. Tudo é motivo para bloquear estradas e avenidas, prejudicando milhares de pessoas. Incendiar, depredar e saquear virou moda. São sinais de incivilidade, que beiram as raias de guerra civil.

Em 1950, a campanha “O petróleo é nosso” tinha no General Felicíssimo Cardoso um dos seus mais ferrenhos defensores. O interessante é que Felicíssimo, conhecido como “general do petróleo”, era tio de Fernando Henrique Cardoso, mais tarde o presidente da república que quase privatizaria a Petrobras. De “O petróleo é nosso”, surgiu e prosperou a estratégica Petrobras, que, apesar de oficialmente continuar estatal, na prática foi privatizada, pois quem a controla é um pequeno grupo para quem o proveito próprio está acima dos interesses maiores do país.

Neste 2014, se houver outro Maracanazo, poucos irão chorar. Tomara que não ocorra, pois forneceria mais combustível aos que se alimentam do ódio e da violência, dos quais já chegamos ao limite. Por isso, esperamos que a Famiglia Scolari faça jus ao seu milionário salário. Além do mais, o impune desmonte da Petrobras já nos tem provocado suficientes lágrimas.

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