ACCUR: uma rodada de cultura e devaneios (clique para ler)

O ano era 1965. O mês, fevereiro. Cinco curitibanos, eu entre eles, com a idade média de quinze anos, deixávamos o terminal do Guadalupe rumo a Campinas. Havíamos sido aprovados no concorrido concurso para a Escola Preparatória de Cadetes. Seis dias depois, um desistiu, possivelmente devido à saudade, agravada pelas inacabadas instalações do prédio ainda em construção, que nos abrigaria em regime de internato. Nosso alojamento media cerca de cem metros de comprimento por vinte de largura. Nele, perfeitamente alinhadas (e ai se não estivessem!), espalhavam-se mais de duzentas camas. O problema é que, nas janelas, nem vidros havia, deixando o vento, que no inverno sopra intensamente na Princesa d’Oeste, circular livremente.

Lembro como ficávamos orgulhosos quando, no auditório, nos deparávamos, no espaldar das centenas de poltronas, com um logotipo redondo onde se lia: “Móveis Cimo – Curitiba”.

Decorridos três anos, Curitiba teria extraordinária razão para se orgulhar: um dos seus filhos, o Lúcio Tosin, entre mais de 150 alunos, seria o primeiro colocado da turma. Tosin, infelizmente já falecido, não seguiu a carreira. Ao invés de ir para a Academia Militar, retornaria a Curitiba, graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Paraná.

Essas reminiscências afloraram no último dia 19, por ocasião da primeira Rodada Cultural da Academia de Cultura de Curitiba, a ACCUR. Iniciado com a exposição de belas obras da artista plástica Maivilis Amaro, seguido pela homenagem prestada pela escritora Adriana Maria Zanette a Ivo Arzua Pereira, o idealizador e primeiro presidente da ACCUR, e pelo bate-papo com o renomado pintor Celso Copio, o encontro marcou o lançamento da ACCUR-TV, um espaço de esperança pela maior divulgação da cultura curitibana, que merece ser valorizada.

Na reunião, tudo parecia conspirar para a volta à longínqua década de 1960, pois, naquele tempo, nosso prefeito era Ivo Arzua. Além do mais, estávamos, por especial deferência do seu atual presidente, Cassio Macedo, no Instituto de Engenharia do Paraná, que o Tosin deve ter frequentado. Mas um fato, aparentemente insignificante, seria fatal para que eu mergulhasse nas profundezas dos bancos escolares do meu antigo curso colegial: no espaldar das poltronas do auditório onde estávamos, reencontrei o mesmo logotipo redondo, onde ainda se lê: “Móveis Cimo – Curitiba”.

João Darcy Ruggeri, o dinâmico presidente da ACCUR, e seus pares de diretoria têm conseguido motivar os que se dedicam à cultura. No meu caso pessoal, eles foram mais longe: fizeram com que eu relembrasse de um tempo particularmente difícil, mas, nem por isso, menos saudoso. Sei lá se devaneios fazem parte do abrangente e democrático leque da cultura. Mas, como dizem respeito aos nossos sonhos e fantasias, bem que poderiam fazer!

28 Respostas para “ACCUR: uma rodada de cultura e devaneios (clique para ler)”

  1. Paulo Cesar Diz:

    Recordar é sempre reviver sonhos e esperanças! Muito bom.

  2. bonat Diz:

    Bonat,
    parabéns !!
    água com açúcar também age tereapêuticamente. Alfi

  3. Carlos Gama Diz:

    Meu caro amigo Bonat

    Bem-vinda água com açúcar!
    Precisávamos dela para acalmar o espírito, para adoçar a boca e tirar da garganta esse travo amargo das expectativas e das frustrações dos últimos dias.
    Ainda que leve, o texto é muito humano e sensível sem deixar de lado os traços fortes da cidadania.
    O homem que valoriza o seu país é um patriota e o homem que dá valor à sua cidade é um cidadão. Ao menos em minha interpretação!
    Li, há pouco, um texto também interessante, onde o escritor Luciano Pires enaltece o mérito e os dotes morais do jogador Oscar Schmidt e a relação com o momento triste que vive o nosso país. Eu tomo a liberdade de transcrever, aqui, duas linhas desse texto: “Oscar só chegou aonde chegou por defender uma causa, não um negócio”.

    Fraterno abraço,

    Gama.

  4. Isabel Sprenger Ribas Diz:

    Caro confrade. Atenta aos textos que escreve em referência a tantos e tão variados assuntos, além do prazer que despertam em minha avaliação, vejo sempre no bojo subjetivo dessas questões levantadas, muito de verdade e uma perfeita adequação à conjuntura de fatos, sejam de natureza política, social ou de outra qualquer.
    Não foi diferente em relação as estas últimas ponderações sobre relembranças relativas aos fotos vivenciados no passado.

    Não posso, entretanto impedir o meu desejo de fazer uma colocação. Quando diz: ” Sei lá se devaneios fazem parte do abrangente e democrático leque da cultura” ousaria responder que sim. E justamente porque, como diz, “fazem parte do abrangente e democrático leque da cultura”!
    E como tal devaneios, rememorações, nostalgias ou apenas saudade de situações passadas jamais poderão se inserir na literatura com o rótulo de água com açúcar.

    Os compartimentos da Literatura, em suas mais variadas formas e estilos não poderiam ser medidos ou comparados em sua abrangência e modalidade posto que decorrem do subjetivismo humano. Antes de escrever, pensamos sobre isto. E o que iremos, ato contínuo, tornar de domínio público e divisível é o nosso próprio pensamento.

    Refiro-me, obviamente, à escrita daqueles que não usam negativamente este extraordinário mecanismo de comunicação, entre os quais o incluo e me incluo. São verdadeiros.

    Portanto, caro confrade, esteja certo de que as suas rememorações agradaram muito. Estão longe de ser menos expressivas, literariamente, pelo enfoque a que se ativeram. Parabéns!
    As poltronas dos Móveis Cimo, esta Empresa que se foi tocaram com força, entre tantas, a minha lembrança.

    Consideração e apreço. Isabel Sprenger Ribas

  5. ROSENI TABALIPA Diz:

    Prezado General!!!
    Recordar é viver e transportar-se ao passado, trazendo à tona, todos os nossos sonhos e esperanças.
    Em cada pedaço do nosso viver, o sonho é uma constante.
    Parabéns mais uma vez, gosto muito do seus textos escritos, com muita realidade e com muita sabedoria e inteligencia.
    Uma Boa Noite e grande abraço…Roseni.

  6. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Prezado Hamilton,

    Gosto de repetir: “o doce prazer de lembrar”. E você o cultiva com propriedade. Parabéns!

    Abraços,

    Joaquim

  7. Gustavo Rocha da Silva Diz:

    Prezado General Bonat:

    Se recordar os bons momentos da adolescência é “água com açucar”, viva a dita solução, de preferência saturada! Com frequência relembro aspectos da minha juventude e tenho nisso imenso prazer. Por vezes as recordações doem quando confrontadas com o presente e dou exemplo: havia um piano-armário na minha casa (está comigo até hoje) e à custa de muitas descomposturas maternas e de tabefes idem aprendi uma ou outra coisa. O piano era (continua) muito bom, mas não se comparava em sonoridade ao de uma vizinha, este um “meia-cauda” Essenfelder, curitibano, pelo que sei. E aí reside a tristeza: a fábrica Essenfelder fechou faz tempo e ficamos todos mais pobres.

    Obrigado pela crônica e um abraço

  8. Laura Vaz Diz:

    Caro general:

    A menção aos Móveis Cimo também me trouxe recordações. Nas poltronas do cinema que eu frequentava em minha cidade natal havia o selo dos móveis Cimo e nos meus 6-7 anos de idade me perguntava onde ficaria essa cidade de nome esquisito. A sensação era de que ficava longe, muito longe… do outro lado do mundo. Doces lembranças!

    Grande abraço.
    Laura

  9. GABRIEL CRUZ PIRES RIBEIRO Diz:

    Bonat,
    Eu sou testemunha de que aquele período da Preparatória não foi fácil. Ao seu lado, 035, eu estava lá, 029, e do outro lado o 027, Maggi (pronunciava-se Maaaaggi. O Terada, 036, estava por perto, como sempre, bem calado.
    Seu texto trouxe boas recordações.
    Abs.
    Gabriel (029)

  10. Vicror José Freire Diz:

    Caro Amigo Gen Bonat
    Com tanta poluição visual e auditiva nos meios de comunicações, ler um artigo seu é sempre refrescante para a mente e o espírito. Voltei, no pensamento e nos sentimentos ,
    à saudosa EsPF (Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza),
    aos idos de 12/03/57,aonde o aluno 303 – FREIRE, iniciou sua carreira. Parabéns. Que DEUS o conserve sempre debaixo de sua proteção, juntamente com a Exma Familia. Forte Abraço!VJFreire

  11. LEONT CARVALHO Diz:

    GEENERAL BONAT, COMO ESTAS LEMBRANÇAS SÃO IMPORTANTES E MARAVILHOSAS PARA QUEM ENFRENTOU A VIDA DA CASERNA (ALGUNS A ACHAVAM DURA MAS NÓS QUE SEGUIMOS A CARREIRA MILITAR, A ACHAMOS E AINDA A LEMBRAMOS COMO MARAVILHOSA, POIS ELA NOS DEU A VERDADEIRA DIMENSÃO DO QUE É SER HOMEM, RESPEITADOR DOS PRINCIPIOS MORAIS E ETICOS E ACIMA DE TUDO, PATRIOTAS AO EXTREMOS, QUE AMAMOS O NOSSO PAÍS E QUEREMOS QUE ELE SEJA PARA OS NOSSOS FILHOS A PATRIA AMADA QUE SEMPRE SONHAMOS.UM ABRAÇO LEONT

  12. Brugalli Diz:

    Caro amigo Bonat. Se não tenho, em minha casa, uma ACCUR, tenho, de longa data, presente de um amigo, uma estante envidraçada, de madeira nobre, com o famoso selo oval de Móveis Cimo. Guarda, ela, especialmente livros que tratam da história de Caxias do Sul, entre eles os do barbeiro Spadari Adami e de Paranhos Antunes, ambos bem anteriores à seu ingresso na EsPC. Neles mato saudades, neles busco informações não encontradas nos atuais historiadores, arvorados em revisionistas de tempos que não viveram… Obrigado pela água com açúcar que, ainda ontem, minha mulher me aconselhou, buscando me tranquilizar de um pequeno dissabor. Hoje, data nobre para o Rio Grande do Sul, reservo-lhe um “abraço bem cinchado”. Brugalli.

  13. Paulo Meyer Diz:

    Prezado Gen Bonat… Recordações tem geralmente a mágica de nos anestesiar um pouco, fazendo-nos esquecer momentaneamente o presente recheado de frustrações, e tonificando nosso ego, a ponto de pedirmos para continuar extasiados, por tempo indeterminado, nesse maravilhoso devaneio. Parece uma espécie de viagem na “máquina do tempo” da qual não gostaríamos de voltar tão cedo… Por isso existe a máxima: “recordar é viver!!!!!!!!!” abçs Paulo Meyer

  14. Mario Gardano Diz:

    Amigo Bonat, recordar é viver, é bom ter boas lembranças.
    abraços
    Mario Gardano

  15. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    A lembrança do nosso passado sempre nos traz felicidade, pois aflora na nossa mente aqueles momentos significativos da nossa vida que foram cruciais para o nosso hoje.

  16. Avelleda Diz:

    Excelente artigo . Parabéns.

  17. bonat Diz:

    Grande Bonat
    O passado mostra o que será o futuro.
    Parabéns.
    Por isso ainda tenho esperenças no nosso Brasil.
    Um abraço
    Renato

  18. Afonso Pires Faria Diz:

    Sempre é bom general, relembrar fatos marcantes da nossa história, que não são só nossas, que são de muitos outros que se sentem contemplados quando a narramos.
    Parabéns pelo texto
    Afonso

  19. Betty Diz:

    É tão bom recordar tempos que já se foram! Te entendo perfeitamente.
    Me lembrei das carteiras do meu colégio que também eram da Cimo e também me trazem recordações, talvez diferentes das tuas mas igualmente marcantes.
    Abraços

  20. Alfredo Cherem Filho Diz:

    Meu Caro General
    Brilhante como sempre suas palavras que reportam recordações que infelizmente não voltam mais, existem momentos que deveriam durar mais tempo para que pudéssemos desfrutar mais.
    Um Grande Abraço
    Alfredo 22.09.13

  21. ENRICO C.MAGGI Diz:

    Recordar é viver.Ao ler tua lavra,reportei-me a 1965,quando conhecemo-nos,ainda bem jóvens.O Gabriel(029),VExª(028), Maaaaaaggi(027,Itaaaaaamar(026)e muitos outros “amigos para sempre”.Mais uma vez Parabéns.Gostei muito.Isso nos faz muito bem,faz-nos remoçar e até esquecer que já estamos com a “validade vencida”.- Claro, que é apenas na teoria (maior de 60 anos/Lei do Idoso).Amigão 028-Prep/67.Abração do 027-Maaaaaggi.PS:”O valor de uma nação é o espírito patriótico do seu povo”.

  22. ROSELENE FERREIRA Diz:

    MUITO GOSTOSA TUA CRÔNICA…..
    É MUITO BOM RECORDAR AS COISAS DE NOSSA JUVENTUDE.
    SAUDADES.
    BJS.
    ROSELENE.

  23. Nestor Jesus de Sant'Anna Diz:

    Prezado General Bonat.
    Coincidentemente ao entrar no tal face book procurei escolher uma foto para identificar-me visualmente. E lá achei uma de outubro-novembro de 1965, na 2a.Bia.Can., 6o.GaCosM,Fortaleza de Itaipu, Praia Grande/SP, CB 244,Nestor, em serviço de cabo de dia, pistola na cintura, cara de “brabo”,solerte, altivo, coração de criança, espírito cheio de esperanças no futuro da Pátria. Meus amigos e familiares postaram alguns comentários bem surpresos, pois muitos não conheciam a fundo essa minha passagem pelo Exército Brasileiro e todos aprovaram a imagem e se interessaram em saber o que aquele “garoto” fazia armado daquela maneira. Fato é que “formamos” muitos colegas que se transformaram em amigos leais e irrestritos, que até hoje se confraternizam, conforme V.Excia é testemunha e nos deu a importância e o prazer da sua presença nesta última edição. Brevemente faremos 50 anos do serviço militar, naquele já longinquo 1965. De lá pra cá a SAUDADE só fez aumentar …
    Parabéns pela sua CRÔNICA e pelas imagens que conserva em sua privilegiada retina. Licença !!!
    AAAARTILHARIAAAAAAAAAAAAAAA !!!!

  24. Luiz Carlos Soluchinsky Diz:

    Passei uns dias sem poder sentar no computador, em virtude de uma prótese de joelho que fiz no dia 09 p.p.Por isso somente hoje estou verificando os Emails e lendo esta sua última crônica. Sendo eu ardoroso apreciador de reminiscências gostei muito. Ah! Móveis Cimo. Me faz lembrar que em uma ocasião foi construida uma nova Sala de Instrução na antiga Subsistência. Foi quando eu fui lá no extinto Cine Oásis na Vila Hauer ( R. Mal Floriano por volta do n° 5.900) para comprar as poltronas usadas do cinema, que estava fechando. E lá foram as poltronas para a Avenida Silva Jardim 110. O que tinha no espaldar delas? Móveis Cimo Curitiba. Estão lá até hoje. Podemos dizer com tristeza que Curitiba é a terra da latinha. Lá tinha uma fábrica de móveis, lá tinha uma fábrica de pianos (Essenfelder), e por aí vai. Um abraço

  25. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Recordar é viver, Bonat!
    Parabéns e muito obrigado.
    Você me fez recordar da minha de solteiro e a de meu irmão, ambas Cimo. Fez-me lembrar da longínqua década de 60,na qual saí aspirante de Artilharia e fui para o, então, longínquo e pouco povoado bairro do Boqueirão. A unidade era o novíssimo 2º/5º RO 105, muito mais conhecido pelos curitibanos como RAM. Tempos saudosos e inesquecíveis. À época, lá servia o Ten Ruggeri, talvez parente do Ruggeri que você citou.
    Parabéns uma vez mais e não deixe de nos brindar com suas crônicas.
    Gen Castro

  26. bonat Diz:

    Bonat,
    Os registros fazem a história.
    Envolto em cultura e arte … isto faz bem!
    Parabéns, amigo.
    Bogoni

  27. Katia Diz:

    Bonat,sempre digo que feliz é o homem que tem boas recordações da vida.Você mostra que é feliz e fico contente.
    Abraços.Katia.

  28. Eli Wade Diz:

    A Cimo foi pioneira na introdução da tecnologia da laminação diferenciando-se de seus concorrentes. Seu produto dominou o mercado nacional de móveis para instalações comerciais e institucionais, com repercussão na América Latina, tornando-a a maior fábrica do ramo de mobiliário na América Latina da década de 30 até 1970. Na década de 80, a empresa perdeu força e fechou as portas, porém, seu legado é incontestável e histórico: as inovações tecnológicas e a funcionalidade dos seus móveis são utilizadas até hoje, demarcando um período da história e da cultura brasileira. Apesar de muitos cinemas já terem passado por reformas, ainda hoje podemos encontrar por este país afora cinemas e escolas mobiliados com os seus móveis de imbuia. Sem dúvida, foi a maior produtora de cadeira para cinemas do Brasil e a pioneira na política de reaproveitamento de material e reflorestamento num tempo em que nem se falava nisso. Realmente, uma empresa à frente do seu tempo.

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