Um Turin às avessas (clique para ler)

“Aos 25 dias de janeiro de 1932, nesta cidade de Coritiba, sendo…”. Assim começa o bilhete que João Turin colocou na garrafa que escondeu na base da estátua de Tiradentes. Aberta com toda pompa e o merecido cuidado, ela ocultava o manuscrito do famoso escultor paranaense, informando da existência de outra garrafa, enterrada na posição original da escultura, “… que dista daquela cerca de 35 metros na direção Oeste, contendo uma acta impressa, com diversas assinaturas, autógraphos, a primeira página do jornal O Dia de 21 de Abril de 1927 e algumas moedas de cobre e níquel”.

Semanas atrás, ao retirarem o Tiradentes de Turin para restauro, a tal garrafa foi encontrada. A notícia se espalhou e, durante dias, deu asas à imaginação, desde mesas de bar até redes sociais. Que mistérios ela guardaria? Como a curiosidade é sempre – ou quase sempre – maior do que o próprio segredo, muita gente ficou frustrada quando ele foi revelado.

Frustrações à parte, aos mais atentos a descoberta foi significativa. O manuscrito de Turin chama a atenção pela bela caligrafia do autor. É marca de um tempo em que escrever de próprio punho era importante forma de comunicação. Por isso, as pessoas se esmeravam em fazê-lo de modo elegante, inteligível e, por que não, eterno, muito diferente das gentes de hoje, bem como das nossas palavras, cada vez mais vulgares e efêmeras.

Salto agora para o menos longínquo ano de 1991. Na seção de comunicação social, vivíamos a ebulição do início da semana do centenário da 5ª Região Militar. Um dos meus auxiliares, infelizmente não recordo qual, alertou-me sobre a tradição de se deixar lembranças na base de monumentos. Como estava sendo erguido um obelisco evotivo à relevante data, sugeriu que colocássemos lá uma cápsula do tempo. Quem sabe, dali a milhares de anos, alguém não a encontraria! Mãos à obra: reunimos algumas coisas e, para garantir a necessária inviolabilidade, introduzimos tudo num tubo de PVC e fechamos, herméticamente, com durepoxi.

Tínhamos pressa, pois as fundações estavam em fase adiantada. Terminada a faina, na hora do almoço, antes de ir para o refeitório, nos dirigimos em solene comitiva ao local onde o monumento seria erguido. Porém, o que era para ser um momento triunfal, transformou-se numa decepção muito maior do que a provocada pelo conteúdo da garrafa do Turin: os pedreiros tinham acabado de concretar a base.

Não pretendi aguçar a sua curiosidade. De qualquer forma, decorridos 22 anos, revelo o conteúdo do nosso tubo: a primeira página do jornal A Gazeta do Povo de 30 de junho de 1991, algumas moedas e notas de Cruzeiro (moeda da época), fotografias, cópia da ordem do dia alusiva ao centenário, e uma mensagem, não manuscrita, mas datilografada em moderníssima máquina de escrever elétrica marca Olivetti, repleta de assinaturas, pois, sabedores da notícia, muitos tinham ido à nossa sala para “tornarem-se eternos”. Não lembro exatamente o que deixamos escrito. Entre outras coisas, constava que o comandante era o General Benedito Bezerra Leonel, que a obra tinha sido idealizada por Carlos da Costa e construída pelos Irmãos Mauad.

Nossa cápsula do tempo ainda ficaria guardada durante uns bons anos num dos armários da Quinta Seção. Quando o Exército entrou na era da “excelência gerencial”, alguém deve tê-la considerada inservível. Foi parar na lata do lixo.

Moral da história: nós, como encarregados da comunicação social do quartel-general, simplesmente “esquecemos de comunicar” ao mestre de obras sobre a nossa intenção. O morretense João Zanin Turin, além de grande escultor e de possuir bela caligrafia, foi mais competente. Por isso, tornou-se eterno.

28 Respostas para “Um Turin às avessas (clique para ler)”

  1. Carlos Gama Diz:

    Bonat

    Os pequenos erros são os mais comuns.
    Cuidaram do almoço e se esqueceram da base.
    Uma crônica aparentemente despretensiosa, mas plena de ensinamentos.

    Fraterno abraço,

    Carlos Gama.

  2. bonat Diz:

    Amigo Bonat,
    interessante e excelente crônica. Mas, eu ( Asse PEG até alguns anos atrás) nem sabia da história e
    nem ví o tal “tubo”. kkkkkkkkk
    Abs. Paulo Carvalho

  3. Afonso Pires Faria Diz:

    Pois é general. Agora fico a pensar!!! qual teria sido a maior frustração, se a de não ter conseguido eternizar a memória dos tempos nos quais foram feitas as postagens, ou se o fato de terem jogado no lixo, sem ao menos ter dado a chance da leitura mesmo que extemporânea da referida cápsula.
    Bela história general. Pena o final um tanto quanto frustrante.
    Afonso

  4. Deybson Bitencourt Diz:

    Excelente crônica Gen. Bonat!
    Sempre acompanho suas novidades e nunca me decepciono, pois todas são muito boas. Forte abraço

  5. Esther Beatriz Diz:

    Caro Hamilon,

    Excelente crônica, nos faz pensar quão imediatista somos; às vezes um simples detalhe faz toda a diferença.

    Abraços

    Esther Beatriz

  6. bonat Diz:

    Prezado amigo Gen Bonat.
    O túnel do tempo sempre guarda segredos e curiosidades, como o referenciado no seu artigo. A propósito, será que o obelisco idealizado por sua pessoa quando comandante do 3º GAAAe, na praça de São Pelegrino de Caxias, em homenagem aos pracinhas da FEB, guarda segredos em sua base ? Cumprimentos pelo artigo e, abraço do Zartão

  7. Alfredo Cherem Filho Diz:

    Meu Caro General
    Belíssima sua crônica, retrata a nossa necessidade de passarmos aos nossos sucessores noticias de nossas vidas,isto e fascinante, pois também temos a curiosidade de saber como foi a de nossos antepassados.
    Obrigado pelo envio.
    Um Grande Abraço
    Alfredo 14/08/13

  8. Nestor Jesus de Sant'Anna Diz:

    Excelente General Bonat. Uma crônica com um sutil mas primoroso fecho, digno das suas melhores. Não alertar o pedreiro foi a mesma coisa que não combinar a jogada ensaiada com o time adversário. Daí, Vasco/Pedro Ken??? 1 x Coxa 0. kkkk
    Para manter a leveza da sua crônica … kkk
    Desculpai-me a infâmia da comparação.
    Licença – Cb 244

  9. Ariel P. da Fonseca Diz:

    Caro amigo Bonat
    Meus cumprimentos por mais esta interessantíssima crônica.
    A ideia de legar para a posteridade expressivas memórias do centenário da 5ª Região Militar foi genial. O “tubo do tempo” estava muito bem municiado com valiosas lembranças do ano de 1991. Lamentável foi a tal “excelência gerencial” não preservar o histórico tubo. Tais modernismos, muitas vezes, são inconvenientes.
    Abraços calorosos do Ariel.

  10. Paulo Cesar Diz:

    Feliz de você que tem um “causo” destes para contar.

  11. Paulo Cesar de Castro Diz:

    Crônica muito interessante,

    Bonat.

    Neste Século XXI, será que alguém ainda se lembra das “cápsulas do tempo”?

    Um abraço amigo,

    Castro

  12. Enrico Cabral Maggi Diz:

    Prezado Bonat. Belíssima lição do Turin. Esse fato motivou a intenção, mesmo frustrada, de preservar a história da 5ªRM e revelou o nível humanístico do seu idealizador, quando no intuito de manter uma tradição o alertou para registrar, para a posteridade, o “modus vivendi” dos seus antepassados.Esse fato foi tão significativo que você nos brindou, de forma simples e descontraída, com esta crônica da vida real. Parabéns. Gostei muito.A mensagem é excelente. Forte abraço do “barraqueiro” Maggi.

  13. Sant Ana Diz:

    E eu fico a pensar na frustração daqueles, que um dia irão cavar e escavar, a procura da “capsula do tempo” que nunca irão encontrar…

  14. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    O tempo é inexorável, isso é um fato, mas perpetuar momentos passados nos permite “viajar” no futuro. Seria interessante espalharmos diversas cápsulas com mensagens marcando os momentos significativos da vida, com isso, perpetuaríamos a nossa existência.

  15. Mário Ivan Diz:

    Excelente crônica. Parabéns pelo talento. Vá em frente.

  16. bonat Diz:

    Caro amigo Bonat,

    muito grato, pela remessa e parabéns por mais uma lição.
    Abraço forte, Marco Antônio

  17. Betty Diz:

    Muito engraçado! Chegaram tarde!
    Abraços

  18. Joaquim Rocha Diz:

    Prezado amigo Bonat
    Assim como a última estrofe de um soneto, o último parágrafo da sua crônica sintetizou toda a mensagem. A idéia foi ótima, ficou o ensinamento. Um amigo que já nos deixou prematuramente dizia: “se não quizer comer poeira, faça poeira!”, isto é, corra na frente, não fique para tráz. No caso do Turin às avessas, faltou este detalhe.
    Abraços do amigo
    Joaquim Rocha.

  19. bonat Diz:

    Gostei, pois o acontecido mostra que não somos infalíveis, mas sim humanos. Abç. JN

  20. bonat Diz:

    Sabe que eu ainda penso que tal “Cápsula” esteja dentro do monumento? Não estou lembrado desse episódio de ter sido esquecida a colocação dela no monumento. Para mim está sendo uma surpresa. Fiquei triste com esta sua crônica. Abraços. Emerson

  21. Joaquim Cardoso da Silveira Filho Diz:

    Prezado Hamilton,

    Caso divertido, sem dúvida,embora o prejuízo à posteridade.
    Mas rendeu mais um ótimo texto de sua lavra.
    Forte abraço,

    Joaquim

  22. Luiz Carlos Soluchinsky Diz:

    É uma pena que não deu tempo de colocar o material. Mas não há de ser nada. Valeu a intenção. Nessa ocasião eu fui visitar as bandas de música da Região, acompanhando o Maestro Cap. Guimarães (já na Reserva) para combinar a junção de todas as Bandas para uma apresentação aqui em Curitiba, comemorando o Centenário da 5ª RM. Um abraço

  23. Nina Maria Marach Carpentieri Diz:

    Muito interessante a cronica sobre Turin. Como sempre você sabe como alinhavar uam história! Cada dia melhor, primo! Abraços a todos, ótimo domingo.

  24. João Carlos Bonat Diz:

    Muito bom ,tenho que rir.Mas…não posso”esquecer de comunicar ao meu cérebro sobre a garrafa que esta nos alicerces de nossa antiga casa no bairro capão raso(casa de muitos Bonates).Se-gundo os mais velhos ela existe.Que fatos haverão? Informarei se avisar os demolidores com antecedência.
    Oportuna e sincera crônica. Abraços.

  25. ROSENI TABALIPA Diz:

    Prezado Gal Bonat:

    A cada dia que passa, lendo suas crônicas, vou ficando mais aprimorada nas escritas dos meus livros. A sua sabedoria é inspiradora e muito instrutiva. Aprendi muito com seus textos e espero aprender muito ainda.
    Suas crônicas são muito inteligentes e interessantes…Todas elas…Parabéns e um abraço.

  26. bonat Diz:

    Caro Acadêmico, General Bonat. Sempre leio os seus artigos, crônicas, textos. Sem dúvida foi aquinhoado pela facilidade de enfocar situações simples e transformá-las em aprazível leitura para todos nós. “Um João Turin às avessas” não foge à regra que é a sua tônica. Obrigada pela ótima leitura. Agradeço. Peço que nos recomende à sua esposa. Um grande abraço. isabel Sprenger Ribas.

  27. Mario Gardano Diz:

    Bonat, Parabens, só lamento os pedreiros terem concretado antes de voces terem guardado.
    abraços
    Mario Gardano

  28. Diva Diz:

    João Zanin Turin, foi um grande morretense…abs.

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