Lamúrios de uma pracinha (para ler, clique aqui)

Estou aqui há muito tempo, muito antes do que as pessoas que passam por mim apressadas, sem sequer saber o meu nome. Presenciei a chegada do primeiro bonde, que sumiria décadas mais tarde. Vi os barões do café construírem suas mansões, agora transformadas em agências bancárias e em concorridas casas noturnas.

Em 2007, decidiram cortar-me ao meio. Diziam que eu estava atrapalhando o trânsito. Milhares de carros, vindos pela Carneiro Lobo, tinham que me circundar para acessar a avenida Bispo Dom José. Poucos me defenderam, nem os que me consideravam o símbolo do bairro. Entrei em depressão. Fiz terapia, mas não adiantou. Não conseguiram me convencer. À força, fui parar na sala de cirurgia. Quando voltei da anestesia, estava cortada ao meio. Você não tem ideia de como foi difícil. Mas, como era para o bem do povo…

Ultimamente, tenho observado a indignação do mesmo povo. A prefeitura, que em 2007 me levou à sala de cirurgia, está gastando R$ 3,150 milhões para estreitar a Bispo Dom José. Ora, se me amputaram para que o trânsito fluísse nessa avenida, como explicar o seu afunilamento?

Dizem que é por causa da tal da Batel Soho. Como costumo ler a primeira página dos jornais expostos na minha banquinha, sei que Soho, abreviatura de South of Houston, indica a região de Nova York localizada ao sul da rua Houston. Designa, também, badaladas áreas de Londres, Hong Kong e, na Argentina, a Palermo Soho.

Antes que esqueça, e para quem não sabe, possuo uma banquinha (onde há jornais), uma floricultura (ali existem flores), uma cafeteria (lá tem café) e um módulo da guarda municipal (onde nunca se encontra um guarda).

Soube que minha amiga Espanha, praça como eu, também entrou em depressão. Foi quando empresários do ramo imobiliário rebatizaram de Champagnat o bairro onde nasceu. Recentemente, outros empresários, estes do setor de gastronomia e lazer, apelidaram-na de Batel Soho. Ora, minha amiga fica no Bigorrilho, e não renega as suas origens, muito menos a sua província. Ela não é novaiorquina. Ambas nos orgulhamos de sermos curitibanas. Desconfiamos que os tais empresários é que não são.

O que me preocupa é que os comerciantes da região querem que o Batel Soho se espalhe por cerca de 10 quadras ao redor da Espanha. Neste caso, pelo mapa, também faço parte periférica dessa aberração. Como não quero brigar com a minha velha amiga, liguei para ela. Concordamos em fazer uma campanha contra esse golpe baixo de empresários e marqueteiros.

Aliás, outro empresário, este do ramo de shoppings, conseguiu acabar com a única área verde que havia no Batel. Descobri, porque os oito andares do seu novo shopping estão sendo erguidos bem perto de mim. Estranho que ninguém tenha protestado, nem o povo, muito menos as autoridades, aí incluídos os ditos ambientalistas. Árvores centenárias, que vi crescer, aos poucos foram sumindo, normalmente de madrugada. De onde estou, dá para ver o que ainda resta do bosque e visualizar a copa seca de mais um pinheiro que logo irá abaixo. A alardeada capital ecológica não existe mais. Está mais para Nova York do que para Terra dos Pinheirais. Pensando bem, talvez Batel Soho não esteja tão errado assim.

Assina: Praça Miguel Couto ou Pracinha do Batel ou Praça do Soho ou Pracinha Mutilada ou… sei lá quem sou! Só sei que preciso retornar ao meu psicanalista. Levarei a Espanha comigo.

Uma Resposta para “Lamúrios de uma pracinha (para ler, clique aqui)”

  1. Celso do Ó da Silva Diz:

    Meu caro Gen Bonat. Já tinha lido essa sua publicação, mas só agora passo a comentá-la, embora já estivesse querendo desde àquela ocasião. Achei muito oportuna e divertida a sua crônica, mas o que chama mesmo a atenção é a falta de planejamento e continuidade dos projetos, quer nas áreas municipais, estaduais e federais. Porque se executar um projeto se outra pessoa irá modificá-lo ou mesmo interrompê-lo? O senhor tocou na ferida e gostaria que as autoridades ditas “competentes” pudessem lê-lo e pensar. Meus parabéns. Mas, ri mesmo, quando vi no final de sua publicação, a “assinatura” da pracinha. Ela não sabia quem ela era. Muito interessante. Um grande abraço.
    Celso do Ó da Silva – Cel R1 Art

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