Artigos de 2013

De Noel para Fabiano (clique para ler)

30/12/2013 por bonat

Como num ritual, os filhos de Fabiano foram chegando ao cair da noite de 24 de dezembro último. Com eles, noras, genros, netos e bisnetos. Os filhos logo perceberam algo de diferente no velho pai. Seu semblante estava mais jovial. Sequer reclamou das dores na coluna. Nem pronunciou o tradicional “Acho que este será o meu último Natal”. Mesmo que a curiosidade os aguçasse, nada lhe perguntaram. Melhor não tocar no assunto. Era questão de tempo, de esperar que o “velho” se abrisse. Dito e feito. Entre uma troca de presentes e outra, sem que nada lhe fosse perguntado, ele foi matando sua curiosidade.

Primeiro, tirou do bolso um recorte de jornal e mostrou-o ao filho mais velho: “Governo escolhe o caça Gripen NG”. Depois confessou a outros: “Papai Noel me deu um avião”. Estava explicado o bom-humor de Fabiano. Embora já estivesse reformado devido à idade, nada melhor do que um avião de presente para quem servira durante décadas à Força Aérea.

Fabiano, após ter assistido a uma demonstração da Esquadrilha da Fumaça, lá na década de 1950, decidira ser piloto. Foi aprovado em concorrido concurso. Posteriormente, concretizou o sonho de integrar a “Fumaça”. Tempos de dedicação exclusiva, exaustivos treinamentos, de preparo físico e mental, e de trabalho em equipe, pois o sucesso e a segurança de todos dependiam da destreza de cada um.

Sempre se orgulhou da visão estratégica da sua Força que, em suma, não queria que o Brasil fosse apenas um país grande, mas, também, um grande país. A independência tecnológica, especialmente no sensível setor aeroespacial, representaria importante passo para o país imaginado. Por isso, acompanhou a evolução do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) no seu esforço para formar engenheiros aeronáuticos. Viu surgir, em1969, a Embraer, que possibilitaria transformar a ciência e tecnologia do ITA em capacidade industrial. Assistiu ao primeiro voo do Bandeirante, um campeão de vendas. Já não estava mais na “Fumaça” quando, em 1983, ela recebeu o Tucano T27, outro ás da indústria aeronáutica nacional.

Quando passou para a reserva, no início dos anos 2000, a Embraer já estava privatizada. O aporte de novos recursos fez com que ela se recuperasse e tirasse da gaveta alguns projetos. Com isso, pôde ampliar sua participação no mercado de defesa e da aviação comercial. Atualmente, é uma das maiores exportadoras brasileiras e das mais importantes do setor no mercado mundial.

Ultimamente ele andava preocupado com a falta de investimento na Força Aérea. Não admitia que pilotos arriscassem a vida no cockpit dos arcaicos Mirage e F-5, e que a nação não contasse com capacidade mínima de dissuasão. A longa disputa entre o francês Rafale, o norte-americano F18 e o sueco Gripen parecia não ter fim. Dos três, o pior era o francês, que, apesar de caro e obsoleto, quase acabaria levando.

Entre o sueco e o americano, ele, como nove entre dez entendidos, preferia o primeiro. A razão era simples: o Gripen, que acabou escolhido, é o “NG” (Nova Geração), isto é, trata-se de um projeto a ser desenvolvido pela Saab em parceria com a Embraer. Ele possibilitará que a Embraer adquira o Know Why e não somente o Know How. Enquanto o Know Why capacitará a projetar novos aviões, o Know How asseguraria a fabricação de apenas um modelo. Assim, está garantido o avanço tecnológico. Ganharam o Brasil, nossa indústria, nossos técnicos e engenheiros. Ganharam os familiares de Fabiano, pois, por ainda sonhar com um Brasil grande, como por milagre, até sua coluna parou de doer.

Publicado em Segurança Nacional

Discurso de posse na Academia de Letras José de Alencar

30/11/2013 por bonat

Vídeo: clique aqui para assistir
Senhoras e senhores… caros amigos!
Bem que eu gostaria que em minhas veias fluísse um sangue de poeta. Os poetas, com sensibilidade, como a do nosso presidente Arioswaldo Trancoso Cruz, conseguem descobrir belezas muitas vezes escondidas, transformam o feio em bonito, o triste em alegre, o velho em moço, o caos em esperança, a guerra em paz.
Como não possuo este dom, limito-me a escrever crônicas, e, como todos sabem, nas veias de um cronista corre o ácido tempero da crítica. Já no final do século XIX, Jean Sibelius, compositor finlandês, um dos mais populares da Europa, aconselhava: “Não prestem atenção ao que os críticos dizem. Nunca nenhum prêmio foi dado a um crítico”.
Estava explicado por que, espalhadas mundo a fora, há estátuas de escritores de diferentes gêneros literários, especialmente de poetas, dificilmente de cronistas.
O meu caso é mais grave ainda: além de não ser poeta, sou péssimo declamador.
Com esse introito, aparentemente desnecessário, busco conquistar a boa-vontade das senhoras e dos senhores, pois vou tentar declamar uma poesia da lavra do Desembargador Joatan Marcos de Carvalho, ocupante da cadeira 36 desta Academia.
A Inspiração: “Ninguém sabe, ninguém viu./ Se existe ou não existe./Se ficou ou se partiu./Para mim é uma musa./Diáfana visto a bruma./Bela como o silêncio./Caprichosa fala lusa.”.
Entre tantas outras, igualmente belas, encontrei-a ao folhear o quinto livro da Estante José de Alencar, recentemente publicado. O que me atraiu, realmente, foi o título: “Inspiração”, pois era o que eu procurava desde o momento em que fui “escolhido” para dirigir-lhes a palavra nesta noite especial.
Confesso ter chegado até a recolher-me à demorada meditação, e nada… Dirão as más línguas, e eu hei de concordar, que militares são pouco afeitos a meditações. Possivelmente por isso mesmo, eu tenha acordado de sobressalto em madrugadas mal dormidas. Zanzei pela casa tentando encontrá-la. Saí, fui para o quintal. Quem sabe a lua e as estrelas não ajudavam… Vaguei por ruas, praças e parques da nossa querida Curitiba, mas nem assim…
Dizem que a inspiração está em toda parte, mas, por ser tão rápida, quando chegamos, ela já partiu. Parece que é verdade.
Minha última e desesperada tentativa de encontrá-la foi neste auditório. Entrei por aquela porta e, rapidamente, a fechei. Se ela estivesse aqui, daquela vez não escaparia. Procurei-a no teto, nas paredes, debaixo das poltronas e, num repente, a vi. Sabem onde ela estava? Sentada exatamente nas mesmas poltronas em que as senhoras e os senhores encontram-se agora.
Quando minha imaginação, naquela fração de segundo, os viu a todos, embora não estivessem aí, eu acabara de agarrar a inspiração com as duas mãos.
Seria óbvio estarem conosco pessoas queridas, que nos ajudaram a chegar até aqui. Pessoas a quem confiamos nossos primeiros rabiscos. Pessoas que nos incentivaram a tirar do fundo da gaveta nossos escritos para transformá-los em livro.
Livros, nossos filhos de papel e tinta, são como nossos filhos de carne e osso: será neles que permaneceremos vivos, que garantiremos a nossa perenidade, pois eles carregam os nossos genes.
Nas linhas e, principalmente nas entrelinhas, de suas poesias, sonetos, trovas, romances, contos, reportagens, crônicas ou, até, em obras de cunho científico, o autor revela o que está escondido no fundo da sua alma. Ele, mesmo sem querer, mostra quem realmente é, no que acredita. Ele se expõe. Para isso é preciso coragem. E vocês nos transmitiram coragem.
Naquela mesma fração de segundo em que senti a presença dos amigos que, pacientemente, haviam lido os nossos primeiros rabiscos, deparei-me com outras pessoas: aquelas que abriram as portas, os braços e o coração desta Academia para nos acolher.
Por um momento, cheguei a pensar em falar-lhes sobre o nosso Patrono, José de Alencar. Porém, deduzi que nada acrescentaria, mesmo se lhes narrasse toda a trajetória de sua vida, pois quem aqui nunca ouviu falar do famoso jornalista, político, advogado, inflamado orador, brilhante romancista e dramaturgo cearense? Quem aqui nunca saboreou a doçura dos lábios de mel de Iracema? Quem nunca sonhou com a delicadeza da Viuvinha de olhos negros e brilhantes? Quem aqui não sentiu orgulho de ser brasileiro, brasileiro e miscigenado, como um filho de Ceci e Peri?
Da obra de José de Alencar, limitar-me-ei a relembrar-lhes do seu marcante nacionalismo, em um momento de consolidação da nossa independência. Pungente de brasilidade, ela representou um esforço em povoar o Brasil com cultura e conhecimento próprios, e contribuiu para que nos sentíssemos não apenas como um povo multirracial e multifacetado, mas essencialmente como uma mistura de povos.
Se me permitem, gostaria de dividir com os amigos minha preocupação com o momento atual. Incomodam-me os ventos de discórdia e violência que sopram, vindos não sei exatamente de onde, e se alastram cada vez mais ameaçadores pelo Brasil.
Pergunto, então, e deixo para a reflexão de todos, se não estaria na hora de a obra de José de Alencar ser mais revisitada? Ou, ainda, se nossa literatura e nosso país não estariam clamando pelo surgimento de novos Josés de Alencar?
Mas quando percebi ser desnecessário falar-lhes sobre o nosso Patrono, pensei em aventurar-me em divagações sobre teorias literárias. Porém, todos logo perceberiam que eu estaria querendo demonstrar uma falsa erudição.
Além do mais, seria deselegante aborrecer a amigos que nos são tão caros, numa noite de festa, num momento que é único, em que menos vale mais, em que falar bem, falar bonito seria, definitivamente, falar pouco.
Cheguei à conclusão – eis a grande inspiração que recebemos de vocês todos que nos prestigiam com suas presenças – que a única mensagem que teríamos a lhes transmitir seria a nossa mais sincera e profunda gratidão.
Não poderíamos deixar de estender o agradecimento às confreiras e aos confrades que nos acolhem, e de manifestar a imensa honra em portar essa toga que, ao cobrir nossos ombros, alerta-nos de que sobre eles pesa agora a responsabilidade de zelar pela cultura brasileira, paranaense e curitibana.
Antes de finalizar, vou revelar-lhes um pequeno segredo. Erroneamente, chamei esta toga de pelerine e fui prontamente corrigido pela minha madrinha Anita Zippin. Creio que, por ter vivido muitos anos no Rio Grande do Sul, cometi essa falha.
Já que citei o Rio Grande, peço licença para usar uma expressão bem gaudéria a fim de tentar expressar a nossa emoção.
Nós todos, Cláudia Cristina Freitas Resende, Dione Mara Souto da Rosa, Lilian Deise Guinski, Luislinda Dias de Valois Santos, Walderez Escobar, Dálio Zippin Filho, José Geraldo da Fonseca, Ney Leprevost Filho e Hamilton Bonat, estamos “mais faceiros que guri de bombacha nova”.
Entretanto, na condição de novéis acadêmicos e, como tal, corresponsáveis pela valorização da cultura curitibana, não poderíamos deixar de citar um conterrâneo. Escolhi Paulo Chaves, poeta e compositor que, apesar de recentemente falecido, permanece vivo em “Piá Curitibano”, verdadeiro hino extraoficial da nossa cidade.
Em um dos seus versos ele afirma: “O piá curitibano cuida da cidade como gente grande”. Brincando com suas palavras, queremos proclamar que nós, como gente grande, cuidaremos da cultura da nossa cidade com a jovialidade de um piá.
Ao encerrar, manifesto a nossa admiração aos que dirigem, com elevado altruísmo, esta Academia. Seu rico acervo, construído ao longo de 74 anos, representa um patrimônio cultural que merece ser mais divulgado. Para isso, eles buscam agora inseri-la no ambiente das mídias digitais, desafio que nem mesmo a falta de recursos os fará desanimar. Nem a eles, nem a nós, principalmente agora que estamos fortalecidos com a inteligência, o bom humor e a simpatia baiana.
Queridos amigos! Devemos a alegria deste momento a todos vocês. Aceitem, portanto, nosso especial apreço e recebam a nossa mais calorosa e sincera gratidão.
Muito obrigado.
Hamilton Bonat Curitiba/PR, 29 de novembro de 2013

Publicado em Cultura

Meu Black Bloc predileto (clique para ler)

01/11/2013 por bonat

Basta entrar na cozinha para ouvir enérgicas batidas na porta. Saio e ela pula, sei lá se de alegria ou de fome. Sua força é quase capaz de me derrubar no pequeno trajeto até os fundos de casa. Num ritual de bilhões de anos, àquela hora, o Sol começa a iluminar o que ficara escondido sob as sombras da madrugada. Num outro ritual, este de apenas quatro meses, a idade da Lua, me deparo com o quintal, antes cuidado com muito zelo, transformado todo dia num verdadeiro campo de batalha.

Espalhado pela grama, encontro o que restou das plantas e dos vasos que minha mulher tratava com tanto carinho. Misturados a eles, galhos dos pés de figo, laranja, caqui e de café. Nem o limoeiro nem as roseiras escaparam, apesar dos seus ameaçadores espinhos. Mal comparando, o cenário faz lembrar a paulistana avenida Paulista e a carioca avenida Rio Branco, depois da passagem dos black blocs.

Enquanto lhe sirvo a ração, ralho com ela. Mas nem mesmo a ameaça de doá-la a um laboratório de pesquisas adianta. Abana o rabo. Labradores são assim mesmo. Dóceis, mas, antes de atingir certa idade, são desajeitados brincalhões. O problema é que suas brincadeiras têm um quê de destruidor.

Entretanto, diferentemente dos black blocs, eles não representam ameaça a uma sociedade em desintegração, onde as normas que regem a conduta das pessoas têm sido constante e crescentemente agredidas. A mando de quem? De grupos estrangeiros ou nacionais? Com que interesse? Tenho cá a minha opinião, mas, prudentemente, a guardarei comigo.

O grave é que algumas pessoas têm concordado com sua violência e criminalidade, como se elas representassem uma ação democrática legítima.

As mais diversas causas, como se fossem nobres, são apontadas para justificar sua agressividade. A tarifa do ônibus, a saúde pública, o salário dos professores, os cães… A questão reside nos métodos: vandalismo, depredação, coquetéis molotov, ruas bloqueadas, mascarados agredindo policiais. Cabe uma pergunta: não vivemos um estado de direito? Mas direito de quem?

Dos políticos corruptos? Do lento judiciário encastelado no ar condicionado, enquanto policiais levam cusparadas e pedradas? Direito da imprensa, que, talvez por medo, trata os mascarados como simples “manifestantes”?

No país da impunidade, são crescentes as violações das normas de civilidade. Ninguém é punido, pois tudo é permitido. Quando atos criminosos são praticados, carros da polícia são incendiados, cachorros são furtados e, se alguém é preso, logo acaba solto, está feito o convite para novos e mais ousados crimes.

Eu teria mais a dizer, mas paro por aqui. Este assunto me faz mal. Porém, antes de encerrar, gostaria de, se não for demais, pedir aos nossos políticos que tratassem o Brasil com mais seriedade. Ao nosso judiciário, um das mais caros do mundo, que fosse um pouco mais ágil. Às poderosas redes de TV, que mostrassem imagens de todos os lados das tais manifestações, e não apenas aquelas de policiais (que têm família, pai, mãe, esposa e filhos) revidando a uma agressão recebida.

Confesso que pensei em rebatizar de Black Bloc o meu desengonçado labrador. Porém, como seu ritual de destruição em breve chegará ao fim, ele continuará a atender por Lua. Fica a esperança de que logo também se encerre o inconcebível e perigoso rito de violência que a todos ameaça.

ILUSTRAÇÃO: JOÃO CARLOS BONAT

Publicado em Segurança Pública

A vitória final (clique para ler)

05/10/2013 por bonat

Ao me despedir, pedi ao coronel Gurgel uma cópia da sua alocução. Eu precisava escrever alguma coisa sobre a emoção que acabara de sentir, sem, no entanto, correr o risco de falsear dados factuais sobre a vida do General Ítalo Conti.

A cerimônia que presenciara no pátio do 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado poderia ter sido apenas uma solenidade com roteiro previsível e formato rigidamente definido no cerimonial castrense. Porém, não resumiu-se apenas a isso. Um tempero extra acabaria por transformá-la em um acontecimento único e singular, num momento especial, que fundiu presente, passado e futuro.

De um lado, os nonagenários pracinhas recordavam seu glorioso passado. Junto a eles, os familiares do homenageado, cujo semblante não conseguia dissimular o difuso sentimento que mesclava alegria, tristeza, saudade e gratidão, uma sensação de vazio, um sentimento de perda, uma tentadora vontade de que ele estivesse ali.

Do outro lado, o presente: os jovens soldados que, em forma, rendiam preito ao Major Comandante que, em 1949, transferira o Grupo da central praça Oswaldo Cruz para o longínquo Boqueirão, bairro onde só se chegava a cavalo. Em compensação, a vastidão dos campos mostrava-se ideal para o adestramento das baterias de canhões hipomóveis.

Os 97 anos de Ítalo Conti foram vividos intensamente em vários recantos do Brasil. Como Capitão, esteve no teatro de operações italiano, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Chegou a general, foi eleito deputado federal por quatro legislaturas, batalhou pela construção da Casa do Expedicionário, foi cofundador do Círculo Militar do Paraná, secretário de Estado e, já octogenário, incansável administrador regional da prefeitura do bairro do Portão, onde era o primeiro a chegar e o último a sair. Sua conversa era agradável, atual, cativante e envolvente, de um verdadeiro “general boa-praça”. Tinha memória privilegiada.

Naquela ensolarada manhã, o velho comandante estava retornando. Suas cinzas, como era sua vontade, e os da sua querida Odete, passariam a morar eternamente no quartel. Estavam postos os ingredientes para a emoção tomar conta de todos. Porém, haveria um tempero a mais: a canção do expedicionário, entoada com entusiasmo pela tropa. Se existe algo de arrepiar, ele atende pelo nome de canção do expedicionário. A música de Spartaco Rossi forma um par perfeito com a brilhante letra de Guilherme de Almeida. Almeida, num momento de genialidade, conseguiu abranger todas as regiões brasileiras, pois, de todas, havia soldados na FEB. Ela começa com a pergunta: “Você sabe de onde eu venho?”, para, em seguida, respondê-la com uma abrangente descrição do Brasil preponderantemente rural da década de 1940.

“Venho das selvas, dos cafezais, da boa terra do coco, das praias sedosas, das montanhas alterosas, dos pampas, do seringal… Venho da casa branca da serra, do luar do sertão; venho da minha Maria, cujo nome principia na palma da minha mão… Da Senhora Aparecida e do Senhor do Bonfim!”.

Seu refrão encorajava os pracinhas e acenava-lhes com a esperança do regresso para os braços da família distante: “Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse ‘V’ que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final … a glória do meu Brasil!”.

O Pracinha agora está de volta. Retorna ao seu velho quartel, como um exemplo aos soldados de amanhã. Quando algum deles passar pelo pequeno monumento e, curioso, perguntar quem foi Ítalo Conti, alguém lhe dirá: “Foi, como outros brasileiros, um herói da paz, que atravessou mares e oceanos para lutar pela liberdade. Mas não apenas na Itália. Fez isso por onde passou, durante sua longa e profícua existência”.

ILUSTRAÇÃO: João Carlos Bonat

Publicado em História, Homenagens

ACCUR: uma rodada de cultura e devaneios (clique para ler)

20/09/2013 por bonat

O ano era 1965. O mês, fevereiro. Cinco curitibanos, eu entre eles, com a idade média de quinze anos, deixávamos o terminal do Guadalupe rumo a Campinas. Havíamos sido aprovados no concorrido concurso para a Escola Preparatória de Cadetes. Seis dias depois, um desistiu, possivelmente devido à saudade, agravada pelas inacabadas instalações do prédio ainda em construção, que nos abrigaria em regime de internato. Nosso alojamento media cerca de cem metros de comprimento por vinte de largura. Nele, perfeitamente alinhadas (e ai se não estivessem!), espalhavam-se mais de duzentas camas. O problema é que, nas janelas, nem vidros havia, deixando o vento, que no inverno sopra intensamente na Princesa d’Oeste, circular livremente.

Lembro como ficávamos orgulhosos quando, no auditório, nos deparávamos, no espaldar das centenas de poltronas, com um logotipo redondo onde se lia: “Móveis Cimo – Curitiba”.

Decorridos três anos, Curitiba teria extraordinária razão para se orgulhar: um dos seus filhos, o Lúcio Tosin, entre mais de 150 alunos, seria o primeiro colocado da turma. Tosin, infelizmente já falecido, não seguiu a carreira. Ao invés de ir para a Academia Militar, retornaria a Curitiba, graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Paraná.

Essas reminiscências afloraram no último dia 19, por ocasião da primeira Rodada Cultural da Academia de Cultura de Curitiba, a ACCUR. Iniciado com a exposição de belas obras da artista plástica Maivilis Amaro, seguido pela homenagem prestada pela escritora Adriana Maria Zanette a Ivo Arzua Pereira, o idealizador e primeiro presidente da ACCUR, e pelo bate-papo com o renomado pintor Celso Copio, o encontro marcou o lançamento da ACCUR-TV, um espaço de esperança pela maior divulgação da cultura curitibana, que merece ser valorizada.

Na reunião, tudo parecia conspirar para a volta à longínqua década de 1960, pois, naquele tempo, nosso prefeito era Ivo Arzua. Além do mais, estávamos, por especial deferência do seu atual presidente, Cassio Macedo, no Instituto de Engenharia do Paraná, que o Tosin deve ter frequentado. Mas um fato, aparentemente insignificante, seria fatal para que eu mergulhasse nas profundezas dos bancos escolares do meu antigo curso colegial: no espaldar das poltronas do auditório onde estávamos, reencontrei o mesmo logotipo redondo, onde ainda se lê: “Móveis Cimo – Curitiba”.

João Darcy Ruggeri, o dinâmico presidente da ACCUR, e seus pares de diretoria têm conseguido motivar os que se dedicam à cultura. No meu caso pessoal, eles foram mais longe: fizeram com que eu relembrasse de um tempo particularmente difícil, mas, nem por isso, menos saudoso. Sei lá se devaneios fazem parte do abrangente e democrático leque da cultura. Mas, como dizem respeito aos nossos sonhos e fantasias, bem que poderiam fazer!

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Arapongagem: canina ou digital? (clique para ler)

10/09/2013 por bonat

“Diga ao seu comandante que, na hora que eu quiser, posso saber onde se encontra cada um dos generais do seu exército. Consigo identificar, até, quantas estrelas eles portam nos ombros”. Essa declaração, aparentemente atual, é de 1991. Poderia ter sido pronunciada em Washington/DC, mas eu, na época tenente-coronel, estava ouvindo-a em Moscou. E quem falava não era alguém da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) americana, mas o general russo encarregado do comércio exterior de material de defesa, que ainda acrescentaria: “Estamos oferecendo este serviço ao Brasil”.

O velho general foi prudente, a ponto de não ter revelado que eles acompanhavam, com muito mais razão, os passos de Itamar Franco, nosso presidente, e dos seus ministros.

Claro que a proposta me surpreendeu, pois me encontrava em sua sala apenas para trocar ideias sobre a visita que fizera a fim de avaliar um míssil que nos interessava e que sabíamos ter sido resultado de uma bem-sucedida operação de espionagem conduzida pelo serviço secreto soviético.

Russos e americanos haviam investido maciçamente na corrida espacial, a face limpa da suja guerra fria, que tantas mortes havia causado em países periféricos. Foi graças a ela que passaram a dominar o mundo. Desde aquele ano, e mesmo antes, eles nos bisbilhotam, pois o Brasil é o principal país da América Latina. Não só eles, mas outros também. Manter-se bem informado faz parte do eterno compromisso dos governantes para com sua nação. Para isso, cada qual utiliza os meios que sua tecnologia é capaz de inventar e produzir.

Permitam-me citar um exemplo recente: embora a imprensa e o Itamaraty, não sei por que, tenham se calado, o fato é que Evo Morales mandou invadir o avião do nosso ministro da defesa que estava taxiado no aeroporto de La Paz. Agentes bolivianos usaram cães farejadores (um avanço tecnológico para eles), o que sugere desconfiarem que nosso ministro estaria traficando drogas, o que, convenhamos, é ridículo, principalmente partindo de quem partiu.

Foi uma agressão à nossa soberania. O Brasil deveria ter reagido com a altivez de um leão, a mesma que agora, corretamente, demonstra em relação à arapongagem digital americana. Mas não o fez. Parece que ao senhor Evo tudo é permitido.

Obviamente, pouco adianta rugir como leão se leão não formos. Para virarmos leão de verdade, só existe um caminho: investir em nossos cientistas, em suas pesquisas e, claro, em educação de qualidade para as nossas crianças.

Caso contrário, continuaremos a ser o grande bobo da América Latina, submissos às vontades de Evo, das FARC e de outros fornecedores da droga que está destruindo o futuro da nossa juventude. A eles não interessa a evolução dos nossos jovens. Ao invés da evolução, acenam com a revolução, onde o prefixo “re” tem o sentido de recuo, de retorno a um passado retrógrado, o mesmo que levou, depois de setenta anos, a desgraça ao sofrido povo russo, a quem tinha sido prometido o céu.

Entretanto, o éden por ele sonhado seria um lugar reservado apenas para alguns poucos chefões do onipresente e dominador partido único, mesmo depois de o sonho ter acabado. Entre eles, estava o velho general que fez aquela surpreendente proposta, que acabei incluindo no meu relatório, mesmo sabendo que não seria levada em conta.

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Um Turin às avessas (clique para ler)

14/08/2013 por bonat

“Aos 25 dias de janeiro de 1932, nesta cidade de Coritiba, sendo…”. Assim começa o bilhete que João Turin colocou na garrafa que escondeu na base da estátua de Tiradentes. Aberta com toda pompa e o merecido cuidado, ela ocultava o manuscrito do famoso escultor paranaense, informando da existência de outra garrafa, enterrada na posição original da escultura, “… que dista daquela cerca de 35 metros na direção Oeste, contendo uma acta impressa, com diversas assinaturas, autógraphos, a primeira página do jornal O Dia de 21 de Abril de 1927 e algumas moedas de cobre e níquel”.

Semanas atrás, ao retirarem o Tiradentes de Turin para restauro, a tal garrafa foi encontrada. A notícia se espalhou e, durante dias, deu asas à imaginação, desde mesas de bar até redes sociais. Que mistérios ela guardaria? Como a curiosidade é sempre – ou quase sempre – maior do que o próprio segredo, muita gente ficou frustrada quando ele foi revelado.

Frustrações à parte, aos mais atentos a descoberta foi significativa. O manuscrito de Turin chama a atenção pela bela caligrafia do autor. É marca de um tempo em que escrever de próprio punho era importante forma de comunicação. Por isso, as pessoas se esmeravam em fazê-lo de modo elegante, inteligível e, por que não, eterno, muito diferente das gentes de hoje, bem como das nossas palavras, cada vez mais vulgares e efêmeras.

Salto agora para o menos longínquo ano de 1991. Na seção de comunicação social, vivíamos a ebulição do início da semana do centenário da 5ª Região Militar. Um dos meus auxiliares, infelizmente não recordo qual, alertou-me sobre a tradição de se deixar lembranças na base de monumentos. Como estava sendo erguido um obelisco evotivo à relevante data, sugeriu que colocássemos lá uma cápsula do tempo. Quem sabe, dali a milhares de anos, alguém não a encontraria! Mãos à obra: reunimos algumas coisas e, para garantir a necessária inviolabilidade, introduzimos tudo num tubo de PVC e fechamos, herméticamente, com durepoxi.

Tínhamos pressa, pois as fundações estavam em fase adiantada. Terminada a faina, na hora do almoço, antes de ir para o refeitório, nos dirigimos em solene comitiva ao local onde o monumento seria erguido. Porém, o que era para ser um momento triunfal, transformou-se numa decepção muito maior do que a provocada pelo conteúdo da garrafa do Turin: os pedreiros tinham acabado de concretar a base.

Não pretendi aguçar a sua curiosidade. De qualquer forma, decorridos 22 anos, revelo o conteúdo do nosso tubo: a primeira página do jornal A Gazeta do Povo de 30 de junho de 1991, algumas moedas e notas de Cruzeiro (moeda da época), fotografias, cópia da ordem do dia alusiva ao centenário, e uma mensagem, não manuscrita, mas datilografada em moderníssima máquina de escrever elétrica marca Olivetti, repleta de assinaturas, pois, sabedores da notícia, muitos tinham ido à nossa sala para “tornarem-se eternos”. Não lembro exatamente o que deixamos escrito. Entre outras coisas, constava que o comandante era o General Benedito Bezerra Leonel, que a obra tinha sido idealizada por Carlos da Costa e construída pelos Irmãos Mauad.

Nossa cápsula do tempo ainda ficaria guardada durante uns bons anos num dos armários da Quinta Seção. Quando o Exército entrou na era da “excelência gerencial”, alguém deve tê-la considerada inservível. Foi parar na lata do lixo.

Moral da história: nós, como encarregados da comunicação social do quartel-general, simplesmente “esquecemos de comunicar” ao mestre de obras sobre a nossa intenção. O morretense João Zanin Turin, além de grande escultor e de possuir bela caligrafia, foi mais competente. Por isso, tornou-se eterno.

Publicado em História, Homenagens

Ciscos e Franciscos (clique para ler)

29/07/2013 por bonat

Quem visita o Vaticano fica impressionado com o número de pedintes que perambulam pela Praça de São Pedro. O mesmo se dá em Aparecida do Norte. Ali, é chocante a quantidade de gente que, aos pés do monumental templo, abalroa os peregrinos. Talvez por isso, para se sentir em casa, o Papa Francisco tenha incluído em seu roteiro a basílica da Padroeira do Brasil. Na verdade, as criaturas que vivem ao redor de templos, famosos ou não, colocam a Igreja em xeque. Se as expulsa, estará se contradizendo. Se as acolhe, logo aparecerão outras e mais outras, milhares, que não terá como sustentar.

No dia de sua chegada ao Rio, o Papa foi ovacionado por milhões de pessoas. Como bom jesuíta, não se importou com os ciscos, aí entendidos como pequenas falhas encontradas aqui e acolá durante o trajeto. No Palácio Guanabara recebeu as boas-vindas oficiais. Fez ouvidos moucos para outro cisco: a palavra “presidenta”, como exige ser chamada a nossa mandatária, marca de arrogância repetida por puxa-sacos de plantão.

Ouviu pacientemente a fala presidencial. Por ser bem informado, como é do seu dever, já sabia das manifestações dos jovens brasileiros contra a corrupção que está nas entranhas da atual política tupiniquim. Portanto, seria desnecessário a presidente ter dito coisas como “A juventude brasileira tem clamado por mais educação, melhor saúde, segurança, qualidade de vida. Os jovens exigem ética. Querem que a política atenda aos interesses da população e não seja território das regalias. Estão cansados da violência que muitas vezes os tornam as principais vítimas”.

Repetiu a lenga-lenga da reunião, que chamou de “pacto”, com governadores e prefeitos. Sem ao menos ter-lhes pedido opinião, passou-lhes a batata quente, mas não reduziu, por exemplo, o número de ministérios. No mensalão, sequer tocou. Fingiu não ter entendido que o clamor dos jovens era contra a corrupção.

Mas, se era para contar a Francisco o que ele já sabia, poderia ter-lhe dito que, atendendo a pressões do CIR (Conselho Indígena de Roraima), em 2009, os três Poderes da República abriram mão de metade de Roraima. Lá, o Vaticano está de braços dados com americanos, ingleses, holandeses, noruegueses, canadenses, alemães e italianos, cujos “missionários” parecem mais interessados na riqueza que se esconde no subsolo do que nos esparsos índios que vivem na região. Por isso, é curioso que, só agora, após ter vindo à tona a espionagem digital americana, o governo se mostre preocupado com nossa soberania.

A presidente poderia ter dito também que tem atendido às reivindicações do católico Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entregando a alguns poucos índios enormes extensões de terra, de onde expulsa quem, mesmo sendo indígena, planta e, com isso, ajuda a combater a fome mundial, projeto para o qual, ironicamente, ela pediu ajuda ao Pontífice.

Quem sabe na próxima vez, para se sentir em casa, o papa visite capitais como Boa Vista e Campo Grande. Nelas poderá encontrar-se com neopedintes, expulsos de reservas controladas pelo CIR e pelo CIMI.

Mesmo assim, há razões para “botar fé” em Francisco. Sul-americano, ele sabe o quanto temos sido espoliados, durante séculos, pela turma do hemisfério norte. Carismático como é, seria importante que vestisse a camisa dos miscigenados destas bandas, jovens ou não, crentes ou não, que sonham voltar a conviver em comunhão. Amém!

Zequinha, o da bala (clique para ler)

01/07/2013 por bonat

Lúcio é de pouca conversa. Mas só agora, quase perto da nonagésima velinha, pois, como advogado e professor da Universidade Federal do Paraná, já foi de muito falar. Só não é recomendável criticar o seu Atlético. Aí ele volta à cátedra, como nos bons tempos de fórum ou de mestre.

Em recente visita que fiz a ele e à minha prima Yone, sua esposa há mais de 50 anos, a conversa enveredou para as balas Zequinha, assunto sobre o qual ele tem muito a contar. Não por acaso, pois é filho de João Sobania, o mentor intelectual – e olha que estamos regredindo à década de 1920 – de uma campanha publicitária digna de figurar em estudos de caso para modernos marqueteiros. Como era preciso incrementar as vendas, seu pai teve a ideia de substituir a embalagem das balas, que os irmãos Sobania fabricavam nos galpões da rua Nunes Machado, por figurinhas coloridas de um personagem que atraísse a piazada.

Na verdade, as estampas – com cara simpática de palhaço (provavelmente do Piolin) e sua inseparável gola – eram mais atraentes do que as próprias guloseimas, simples água com açúcar, que embalavam. Quem quisesse produto de melhor qualidade, que pagasse mais pelas finas Wanda, Neli ou Olga, que também fabricavam, assim batizadas em homenagem a filhas dos donos. Mas, neste caso, não levaria para casa o charme do Zequinha e, se fosse seu dia de sorte, uma bicicleta como prêmio.

Lúcio contou que o pai morrera muito jovem, deixando-o órfão aos onze anos. Enquanto ele recordava do tempo em que, ainda criança, operava a máquina de cortar balas, Yone saiu à francesa. Ao voltar, trazia um tesouro, verdadeiro segredo de estado: um álbum completo das famosas figurinhas.

Ao folhear aquela preciosidade com 200 estampas coloridas, percebi o que atraía a gurizada: as diferentes habilidades do versátil Zequinha. Ele era, ao mesmo tempo, fotógrafo, dentista, advogado e pedreiro, visitava locais históricos, gostava de folclore, era bom garfo, educado no trânsito, bom nos esportes, participava da política e de inúmeras outras atividades. Se isso atraía, os ensinamentos que transmitia agradavam ainda mais. Segundo a Yone, uma única figura foi objeto de crítica, pois nela o nosso herói aparecia embriagado, deitado ao lado de uma garrafa de cachaça, o que, convenhamos, não causaria nenhuma estranheza nos tempos atuais. Mas esta não constava do álbum.

É importante frisar que os Sobania não criaram álbum algum. Aquele que eu folheava era do final da década de setenta, muito tempo depois de a empresa ter encerrado (1968) suas atividades. Tinha sido uma tentativa do governo do estado de, valendo-se da fama de Zequinha, aumentar a arrecadação do ICM. Estimulava as crianças a trocarem notas fiscais por figurinhas.

Fato é que o nome Zequinha sempre foi popular. José não tem como fugir: vira Zé, Zeca ou, para os mais íntimos, Zequinha. Até as Marias Josés, na intimidade, tornam-se Zequinhas. Quem não tem um amigo, geralmente gente boa, que atende por Zé? Pois os irmãos Sobania souberam aproveitar de tamanha popularidade. Sua bala, durante cinco décadas, liderou as paradas de sucesso em Curitiba e arredores. Nesse longo período, as figurinhas foram disputadas no jogo do “bafo” e do “tique”, ou, até mesmo, no tapa. Um fenômeno!

Antes de me despedir, comentei que, atualmente, Zequinha teria um concorrente de peso: o Joãozinho. Todo internauta já deve ter recebido alguma história sua. O diferencial é a falta de versatilidade e de educação do novo herói. Seu espaço se limita a uma sala de aula, onde Joãozinho – esperto, malandro e agressivo – não economiza palavrões e atitudes desrespeitosas a colegas e professores.

Em defesa do Zequinha, Yone foi categórica: “Nenhum outro personagem terá o seu encanto. Até porque, ele era real, enquanto os atuais são virtuais. Além do mais, Zequinha nunca diria palavrão diante de uma mulher. Ele ficaria rubro se ouvisse o que sai da boca das meninas de hoje. Mais ainda: Zequinha jamais foi vulgar!”. Concordei, mas, só para provocar, lembrei-a de que o criador do Zequinha foi um João. Será que, lá nos anos 1920, ele já antevia a futura má-fama do Joãozinho? Não esperei pela resposta. Despedi-me e, feliz da vida, voltei p’ra casa, pois acabara de ser presenteado com a figurinha número 31, a do Zequinha no Exército.

Publicado em História

Das ruas, um susto nos marqueteiros (clique para ler)

23/06/2013 por bonat

A presidente ficou emburrada. Qualquer um ficaria, pois a Copa, alardeada como nossa grande conquista, transformou-se em milhares de vaias no superfaturado Mané Garrincha, praça esportiva que é um luxo só. Ao seu lado, o impoluto Joseph Blatter, tal qual um arauto da moralidade, teve ainda o descaramento de dar um pito nos brasileiros, recomendando fair play, belo slogan sob o qual se camuflam as falcatruas da esperta FIFA, a senhora que está faturando bilhões de dólares, arrancados, por meio de impostos, dos trabalhadores brasileiros.

Agora teremos arenas com cadeiras confortáveis, capazes de acomodar macios bumbuns de primeiro mundo, enquanto, em salas de aula terceiro-mundistas, nossas crianças continuarão condenadas à ignorância, de forma a, no futuro, contentarem-se com variados tipos de bolsas e a considerarem normal conviver com saúde de péssima qualidade, com estradas assassinas e sem segurança pública.

Mas as vaias não se esgotaram no Mané Garrincha. Espraiaram-se do norte ao sul. Os marqueteiros oficiais, que consomem boa parte dos impostos que pagamos, ficaram assustados. O que teria dado errado?

Tudo começou com uma pressão do até então pouco conhecido Movimento Passe Livre (MPL). Segundo seus dirigentes, trata-se de um movimento social que luta por um transporte verdadeiramente público. A ideia pareceu boa ao governo federal. Seria mais uma oportunidade para desgastar o governador de São Paulo, um oposicionista. O MPL paralisaria a maior cidade do país. Provocaria o caos, obrigando a polícia a agir, enquanto a imprensa replicaria, sem cessar, a sua “truculência”. Um problemão para Alckmin. Tudo por causa de 20 centavos. Um plano quase perfeito.

Mas o governo não contava com a adesão de milhões de jovens pelo Brasil afora, até mesmo em estados comandados por seus aliados. Esqueceram-se, o governo e seus marqueteiros, de que a juventude mais intelectualizada do país vinha acompanhando o que acontecia. Sentindo que sua inteligência estava sendo insultada, decidiu ir às ruas. Creio que considerou um acinte o fato de o partido que nos governa comemorar seus dez anos no poder. Ora, se em dez anos não conseguiu resolver os problemas que nos afligem e, ainda, por total falta de austeridade, está trazendo de volta a famigerada inflação, deveria ter sido econômico, coisa que não consegue, nas comemorações. Essa mesma juventude não se deixou enganar pela propaganda, não esqueceu dos vários escândalos de corrupção sem julgamento, muito menos da PEC 37, tentativa de um deputado da situação para aniquilar os poderes investigativos do ministério público sobre os políticos.

Em sua recente fala à nação, nossa mandatária repetiu promessas, velhas de uma década. E, ainda, para resolver o problema do SUS, reiterou sua pretensão de importar médicos, outra bofetada no rosto dos nossos competentes profissionais de saúde.

Talvez esses mesmos jovens que foram para as ruas até simpatizem com o slogan marqueteiro do governo: “País rico é país sem pobreza”. Entretanto, sua opção parece ser outra: “País rico é país sem corrupção”. Ouviu, Mr Blatter?

Publicado em Esportes, Nacional, Política