Precisamos de um Deng, mas teimamos com Mao

Até 2025, a demanda por energia irá duplicar na China. Ela passará a consumir 25% da energia mundial. Pode parecer exagero, mas não é, principalmente se levarmos em conta que, durante 18 dos últimos 20 séculos, ela produziu uma parcela do PIB mundial maior do que qualquer sociedade ocidental.

Compreender a história da China não é nada fácil. Trata-se de uma civilização que se origina numa antiguidade tão remota, que são baldados os esforços para descobrir onde iniciou. Sabe-se que o “Império do Meio” entrou em declínio no século XIX. Em parte, por culpa da autoconfiança dos seus dirigentes, que o consideravam o centro da humanidade, portanto, imune às ameaças dos povos bárbaros, como chamavam os demais. Consideravam-na uma civilização tão sofisticada, que nada teria a aprender. As outras que fossem lá para copiá-la.

Entendia que todo o extremo oriente era seu. Mas os vizinhos, especialmente o Japão, os países do sudeste asiático, a Manchúria Exterior e a Mongólia Exterior, negavam-se a se subjugar. Ao norte, a Rússia representava uma terrível e histórica ameaça.

Sua visão sinocêntrica, até certo ponto ingênua, acabou sendo fatal. Enquanto os japoneses, que também consistiam uma sociedade fechada, por temor ao dragão que morava a apenas 200 km de sua pequena ilha, resolveram abrir-se e aprender com os estrangeiros, a China se manteria isolada durante séculos.

Quando sentiu que os europeus, a quem consideravam os bárbaros do leste, a ameaçavam, tentou empregar, mas sem sucesso, a estratégia de usar “bárbaros contra bárbaros”. Sofreu muito com a guerra do ópio e com as invasões japonesas. Não se conforma até hoje com a perda para a Rússia de ampla fatia da Mongólia Exterior, onde se situa o porto de Vladivostok.

A mesma Rússia ajudaria a derrubar o já combalido regime republicano, que, em 1911, havia substituído a última dinastia imperial. Após intensa guerra civil apoiada pelos soviéticos, o Partido Comunista Chinês chegaria ao poder em 1949. Os russos acreditaram ter, enfim, controlado a China, o que seria realidade até certo tempo. Mao Tsé Tung, aos poucos, foi percebendo que Nikita Kruschev se portava mais como o costumeiro ameaçador urso do que como um bom camarada.

Sob Mao os chineses continuariam isolados dos bárbaros, até mesmo os de Moscou, que pretendiam impor sua hegemonia ideológica. Quando, em 1955, a União Soviética criou o Pacto de Varsóvia, Mao se recusou a tomar parte. A China não iria subordinar a defesa de seus interesses nacionais a uma coalizão. Ante a ameaça de milhões de tropas russas desdobradas ao longo da extensa fronteira norte, Mao acabaria se aproximando dos americanos.

Se no passado, usar “bárbaros contra bárbaros” havia sido uma estratégia, Mao, para se manter no poder, usaria chineses contra chineses. Lançando uns contra os outros, implantou o terror interno, até chegar à Revolução Cultural, uma verdadeira carnificina humana.

Deng Xiaoping (foto), apesar de ter sido preso e exilado várias vezes, conseguiu sobreviver. Embora tivesse ideias diferentes, expressava-as reservadamente, pois era inteligente o bastante para não contrariar Mao em público. Esperou sua morte para chegar ao poder e implementar as reformas. Certa vez, conversando com cientistas australianos, disse que a China era um país pobre, necessitado de mudanças científicas e de aprendizado com países avançados, comentário sem precedentes para um líder chinês. Enviou milhões para estudar no exterior, a fim de criar as bases para a inovação tecnológica. Abrindo a China para o mundo e investindo em educação e pesquisa, uniu os chineses e criou as condições para que o país voltasse a ser uma potência.

Com os chineses de Deng, poderíamos buscar ensinamentos para deixarmos de ser meros exportadores de commodities. Porém continuamos impregnados pela ideia de Mao de jogar uns contra os outros, enquanto o povo, mantido ignorante, agradece pelo pão que lhe é doado e aplaude os palhaços de um circo quase falido.

24 Respostas para “Precisamos de um Deng, mas teimamos com Mao”

  1. bonat Diz:

    Amigo Bonat. Como sempre você consegue expor suas idéias de maneira objetiva e clara. Um abraço. Stori

  2. Milton Diz:

    Parabéns Amigo.
    Que DEUS continue te dando essa disposição para nos trazer sempre leituras interessantes.
    UM FELIZ NATAL E UM PROSPERO ANO NOVO.
    Que DEUS continue a nos abençoar.
    Abraços.

  3. EDMAR LUIZ KRISTOCHIK Diz:

    Concordo plenamente com a sua visão General, para o Brasil atingir o verdadeiro desenvolvimento, precisa reestruturar a educação. Talvez nem seja necessário buscar qualificações no exterior, mas simplesmente parar de avaliar e promover uma reforma geral. Mudar o currículo, voltando aos utilizados no passado. Fazer uma limpeza nos livros, eliminando aqueles que deixaram de privilegiar a didática. Criar cursos remunerados de especialização de professores nas férias. Tudo isso atacando os dois pontos cruciais: o ensino básico e do 2º grau. Hoje o Brasil é um país dos “ignorantes” com o curso superior, qualquer analfabeto tem acesso ao terceiro grau. O primeiro passo é eleger o Aécio Neves como nosso próximo presidente da República, para isso, basta que os paulistas parem de pensar que quem se elege governador de São Paulo é o virtual candidato ao cargo de mandatário da nação.

  4. Roberto Diz:

    Meu amigo Bonat, é como voce abordou! E aqui, quando vai aparecer um Deng? Deus queira que a nossa revolução cultural chegue rápida…
    Boas festas e mantenha a impulsão em 2013! Um grande abraço. Roberto.

  5. Joaquim Rocha Diz:

    Prezado amigo Bonat
    Não há como negar que a China está no caminho certo.Os países do ocidente que se cuidem, pois, a continuar assim, perderão valiosa fatia no comércio mundial, e passarão a ser clientes dependentes do dragão chines. Eles tem mão-de-obra barata, mas o Brasil tem mais do que isso, em matéria prima, recursos naturais, fontes de energia e turismo.
    Sua comparação é inteligente e oportuna.
    Abraços
    Joaquim Rocha

  6. Gabriel Gondim Diz:

    Prezado Chefe
    Supimpa!!!! Malcomparando, aqui no “Kone” sul não precisamos jogar bárbaros contra bárbaros. Eles se engalfinham sem motivo. Refiro-me, evidentemente, aos “cucarachas” que nos cercam. Entretanto, nós é que, vez por outra, copiamos certas sandices que eles inventam. Precisamos, mesmo, é vencer o complexo de país do futuro…
    Abraços.
    Gondim.

  7. diva malucelli Diz:

    Este Mao (mau) mandou matar todos os intelectuais e professores chineses…ele acabou com as pessoas cultas no país…E mandou todo mundo plantar arroz…e parece que gostavam dele…é um outro Hitler, um outro Stalin…com objetivos diferentes.
    Um dia um professor meu, citou uma frase dele, e eu chamei a atenção do professor…ficou me olhando…
    Excelente crônica…abs.

  8. bonat Diz:

    Bonat,

    Excelente artigo.
    Serve como referência, para a análise da conjuntura internacional.
    Valeu
    Bogoni

  9. bonat Diz:

    Estimado colega Bonat
    Grato pelo interessante resumo sobre a história da CHINA.
    Almiro

  10. Antonio Leonel Diz:

    Texto claro e fluente, que conseguiu resumir com excelência a parte histórica do excelente livro do Henry Kissinger.
    O mais importante é retirarmos aprendizados para o nosso país, mas observando as grandes diferenças existentes entre as situações.

    Abraço do primo,

    Antonio Leonel

  11. André Dambros Diz:

    Realmente, meu amigo e chefe.
    Precisamos de DENG. Mas parece-me que sinto um cheiro de que se busca um MAO fabricante de charutos.
    Um forte abraço.
    André

  12. bonat Diz:

    Caro amigo Gen Bonat.

    Excelente crônica. Bem que o Brasil poderia seguir alguns exemplos do Deng como dás a entender seu artigo, especialmente investindo mais em educação. Parabéns e, forte abraço do Zartão

  13. bonat Diz:

    Ao amigo Bonat
    Uma abordagem milenar em poucas linhas, com conhecimento e objetividade.
    Parabéns.
    Um abraço
    Renato

  14. LauraVaz Diz:

    Caro general:
    Genial! Um texto para ser debatido em sala de aula. Além de abordar a história da China, o texto mostra em seu último parágrafo um resumo de nossa triste situação atual.
    Excelente! Parabéns!
    Abraço.
    Laura

  15. Sérgio Luiz Sottomaior Pereira Diz:

    A Coreia do Sul também investiu maciçamente em educação e hoje vemos a sua pujança. Professores semi analfabetos funcionais e extremamente mal pagos, sem qualquer preparo ou treinamento, são jogados às criONÇAS que os devoram em sala de aula, sem qualquer vestígio de respeito ou gratidão. Esse é o país que alguns propugnam como A Bola da Vez? Só se for a Bola Murcha da vez! Parabéns General.

  16. Brugalli Diz:

    Caro amigo. Mais uma brilhante aula de história. Sou do tempo em que falar da China de Mao Tsé Tung era sacrilégio. Impossível aceitar um regime de força. Junte-se Hitler, Stalin, Mao, Fidel e outros coreanos menos célebres, porém não menos assassinos, e teremos povos subjugados, escravizados e uma humanidade sofrida. Alguém já disse que o Século XX foi o pior da história. Entretanto, Japão, China e Coréia foram buscar os melhores e mais bem preparados para, pagando bem, vê-los nas cátedras. O resultado aí está. No Brasil “todo mundo” sabe disso. Coragem política para uma decisão é outra coisa. Quem disse que o político pensa na próxima eleição e não na próxima geração, deveria ser elevado às honras dos altares.
    Um faterno abraço ao confrade acadêmico.
    Brugalli.

  17. V. Singh Diz:

    Ilustre Amigo Gen. Bonat,
    Bela e conciente sua crônica, no despertar do “Dragão”.
    Que cada um de nós, faça sua parte: Tenho certeza que tambem
    nós brasileiros, em breve teremos nosso Deng.
    Fraternal Abraço. Singh.

  18. roselene ferreira Diz:

    MEU AMIGO.
    INTELIGENTÍSSIMO! PARABÉNS PELA CULTURA,PELA AULA DE HISTÓRIA E PELA SUGESTÃO.MAIS UMA VEZ TE SUPERASTE.
    UM GARANDE ABRAÇO DA
    ROSELENE

  19. Ze Luiz Diz:

    Parabéns pelo didatismo do texto,sinteticamente explicando as posições totalmente ambíguas desse verdadeiro gigante adormecido.
    Mais um gol de placa.
    Abs. Zé

  20. bonat Diz:

    Prezado Hamilton, Parabéns pelo texto que sintetiza a saga chinesa e propõe oportuna reflexão.De fato, é preciso observar as lições da História, mas o Brasil tem-se recusado a fazê-lo. O salto da Coreia do Sul, por exemplo, nos últimos trinta anos, fundado em investimento forte na educação, é experiência das mais importantes. Todavia, o Brasil continua preso a dois males terríveis: burrice e corrupção. Também a má-fé ideológica. Desde já, aguardo novo texto. Forte abraço, Joaquim

  21. Ze Luiz Diz:

    Hamilton !
    Depois dessa breve e inteligente aula de historia,vai aqui uma sugestão ( desculpe a pretensão).

    Hoje,li no blog do Paulo Henrique Amorim (recomendo,para ver quão patético e ridículo é o papel de um jornalista chapa branca)o discurso do Lula num congresso na Alemanha.
    Ele continua dando opiniões estapafúrdias sobre assuntos que desconhece ( nunca procurou saber).
    O conselho do ilustre é que a ONU deveria criar um pais para os palestinos assim como criou para Israel
    Portanto ,pegando um gancho do seu brilhante artigo sobre a China ,que tal uma analise isenta e didática sobre a divisao da palestina em 1947, que criou DOIS estados .sendo que o dos arabes nunca se viabilizou ,seja pela incompetência politica e cultural ou pela brutal pressao sionista que sempre desiquilibrou a região sem contar os interesses da guerra fria.
    Fica a ideia.
    Abraços Ze

  22. Yonder Diz:

    Grande Hamilton.
    Fantástico o seu texto sobre a China. Temos muito o que aprender com este país milenar e sua cultura complexa.
    Se olharmos para o futuro veremos que logo o eixo economico vai mudar de lado…

    Abs

    Yonder

  23. aaa Diz:

    Prezado General Bonat
    Li sua excelente crônica sobre a cronologia da história política da China e seus desdobramentos inesperados. O fecho foi de muita importância e a comparação com os dias atuais é inevitável. Parabéns e forte abraço. Suas “carapuças” lançadas ao ar são sempre atuais e cabem indiscriminadamente na cabeça de ” TODOS ELLES ”
    Artilharia sempre em guarda …
    Nestor
    Santos-SP

  24. Nestor Diz:

    Prezado General Bonat
    Li sua excelente crônica sobre a cronologia da história política da China e seus desdobramentos inesperados. O fecho foi de muita importância e a comparação com os dias atuais é inevitável. Parabéns e forte abraço. Suas “carapuças” lançadas ao ar são sempre atuais e cabem indiscriminadamente na cabeça de ” TODOS ELLES ”
    Artilharia sempre em guarda …
    Nestor
    Santos-SP

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