Pagou robalo e comeu sardinha

Pedro e Elpídio são filhos de Jacinto, que era filho de Severino Pescador. Além de Jacinto, Severino teve outros sete filhos. Mesmo madrugando todo dia para desafiar o mar, ficava difícil sustentar a prole. Já naqueles idos 1920, quando a tal da poluição ainda não havia dado as caras, o litoral paranaense não era piscoso. Matinhos, onde viviam, se resumia a uma colônia de pescadores, sem estradas, sem luz e sem escola. Ele e Josefina, por serem analfabetos, e principalmente por isso, queriam que as crianças estudassem. Mas como, se o dinheiro não dava? Foi aí que o compadre Adroaldo se ofereceu. Jacinto, de coração partido, despediu-se para morar na casa do padrinho, deixando chorosos mãe e irmãos. Paranaguá, hoje tão perto, parecia-lhe longe demais. Mas Jacinto soube aproveitar a chance, a mesma que não tiveram os irmãos. Esforçou-se, estudou muito e formou-se em contabilidade. Foi trabalhar no escritório do porto.

Severino não sabia como agradecer a Adroaldo. Dinheiro não tinha. Seu único bem, quando a sorte ajudava, eram os robalos, gostosos de comer, mas difíceis de pescar. Robalo não anda em bando como outros peixes menos saborosos e que se enroscam na rede aos montes. Por isso é mais valorizado. É a tal da oferta e da procura, lei que Severino obedecia, mesmo sem conhecê-la. Para agradar aos compadres, sempre que conseguia fisgar algum, dava um jeito de enviar-lhes. Josefina e a meninada que se contentassem com sardinhas, tainhas e farinha, que ficam bem em versos, mas não no prato nosso de todo dia.

Lá pelo final dos anos 1940, Jacinto casou com Jorgina. Combinou com ela que só teriam dois filhos. Tinha consciência das dificuldades dos pais, e do que isso acarretara aos irmãos: continuaram analfabetos. Nasceram Pedro e Elpídio, e só. Na época certa, mandou-os estudar em Curitiba, que ficava a quase quatro horas de viagem. Elpídio fez engenharia. Pedro, odonto. O primeiro foi em frente, virou engenheiro de renome. O segundo herdou o espírito aventureiro do avô pescador, e não se acostumou em ficar o dia inteiro entre quatro paredes. Juntou umas economias e, com a mulher Silvinha, mudou-se para Natal. Montaram a Pousada Robalo.

No último inverno, Elpídio resolveu fugir do frio curitibano. Aproveitando uma promoção, levou Mariinha e os filhos. Na viagem de ida, a conexão em Guarulhos foi rápida. Desceram de um avião e entraram no outro. De Curitiba até Natal levaram cerca de quatro horas, o mesmo que os irmãos Pedro e Elpídio, quando estudantes, para irem de Paranaguá a Curitiba.

Ficaram uma semana na Robalo, em Ponta Negra, uma das praias da agradável capital potiguar. Gostaram muito, pois, mesmo sem ser luxuosa, Silvinha e Pedro tratam-na com capricho. O irmão nada lhes cobrou, mas disse que os preços são bem em conta, tendo em vista a concorrência. Novamente, oferta e procura, pois, como a da gravidade, é lei que político algum consegue alterar.

Na volta, entretanto, a conexão lhes reservaria uma surpresa. Tiveram que permanecer por mais de três horas no aeroporto. Aí, passaram uma raiva daquelas. Queriam comer alguma coisa. Uma espiada no cardápio de várias lanchonetes os assustou. Se estivessem sós, ele e Mariinha teriam desistido. Mas sabe como é, havia as crianças, e criança quando tem fome, tem fome. Moral da história: gastaram no aeroporto quase o mesmo que para voar três mil quilômetros. Talvez os comerciantes de lá considerem o Euro como a moeda vigente. E, como a procura é maior do que a oferta, o cliente que pague, se puder.

Se as passagens aéreas tinham saído quase de graça, em Guarulhos, Elpídio gastou uma fortuna. Sentiu-se lesado. Ficou imaginando como será durante a Copa. Não se conteve. Mandou um torpedo ao irmão de Natal: “Estamos em Guarulhos. Acabo de ser assaltado. Paguei um robalo para comer uma sardinha”.

29 Respostas para “Pagou robalo e comeu sardinha”

  1. Juan Koffler Diz:

    Caro amigo Bonat,
    Já estava com saudades dos seus inteligentes e criativos textos!
    Este, então, é cristalina reflexão sobre nossa realidade tupiniquim. Efetivamente, aeroportos no Brasil são como butiques: paga-se extremamente caro por produtos de qualidade duvidosa, mas como se está “em trânsito” e não há outra opção, cai-se na obrigatoriedade de, ou comer sanduíche, ou pagar o preço do Rubaiyat por um prato de chuleta de terceira.
    Em realidade e aproveitando o ensejo, os aeroportos viraram um misto de estação rodoviária e parquinho infantil. A popularização (trazida por essas políticas torpes do “governo vermelho” em sua ânsia de se perpetuar no poder, onde também se lambuza) quebrou as companhias aéreas, ademais de tornar um verdadeiro “circo” suas infraestructuras, de há tempos obsoletas. E é com elas que pretendemos promover eventos internacionais de grande público, como a Copa da Fifa e as Olimpíadas. Coisas do “lulo-petismo” desvairado…
    Pagar robalo e comer sardinha, meu caro amigo, passou a ser “usos e costumes” do “novo Brasil”…
    Forte abraço!
    Juan

  2. bonat Diz:

    Prezado Bonat,
    É a mais pura verdade.
    Abr
    Omar

  3. Silvio França Diz:

    Prezado Bonat
    Regressando, ainda esta semana, do exterior,fiz a conexão,para Recife, no aeroporto de Guarulhos. Além de caro o serviço é péssimo.E a falta de estrutura do aeroporto é total.O embarque para Recife foi no portão 17A e vi passageiros sentados no chão esperando por um ônibus que nos levaria ao avião.E estava chovendo.Enquanto a EMBRATEL e a ANAC estiverem aparelhadas por incompetentes do PT E partidos da base aliada não haverá solução.
    Grande abraço.
    Silvio França

  4. Edmar Diz:

    O maior problema é que geralmente os aeroportos ficam em locais isolados, como o nosso em São José do Pinhais. O negócio é levar uns salgadinhos na sacola e restringir-se a um cafezinho. Eu sou “matuto” e não tenho vergonha, pergunto o preço antes de pedir. Talvez a solução venha com a privatização?

  5. Silvio França Diz:

    Amigo Bonat
    Substitua EMBRATEL por INFRAERO no meu comentário.
    França

  6. Carlos Gama Diz:

    Meu caro amigo e notável cronista, Hamilton Bonat.
    Mais um texto inteligente e cativante mas, infelizmente, com um desfecho que é a cara do nosso país e da nossa apatia.
    Votamos mal ou talvez seja mesmo falta de opção e quem administra a coisa pública parece sempre pronto a roubá-lo…Roubar-nos.
    Parabéns pelo excelente conteúdo. Que nos sirva de alerta ou de incentivo contra a indolência crônica.

  7. bonat Diz:

    Ficou “bagual”, como é bom tê-lo como contato: a sua genialidade é cativante.
    Eu adquiri o seu último livro, parece que tem mais um. Se tiver ainda, quero adquiri-lo.
    Abraço! (Ten Edmar)

  8. Reges F. M. Da Cunha Diz:

    Prezado Esc. Hamilton Bonat.
    Neste momento que leio esta sua crônica, sou um homem feliz.
    Tive o privilégio de receber do Grande Arquiteto do Universo , sua agradabilíssima Cia. , ao viajar a seu lado , no vôo, quando iniciou o rascunho dessa “maravilhosa crônica”.
    Neste País, agora dominado pelo vermelho, somos assaltados por Senadores, Deputados, Prefeitos, Vereadores…, e porque não … ” Lanchonetes de Aeroportos”…
    Tecemos que continuar denunciando esses absurdos. Não sei até nossa alcança…,
    Mas é melhor que continuarmos calados.
    Forte abraços
    Réges – Blumenau – SC

  9. Reges F. M. Da Cunha Diz:

    Prezado Esc. Hamilton Bonat.
    Neste momento que leio esta sua crônica, sou um homem feliz.
    Tive o privilégio de receber do Grande Arquiteto do Universo , sua agradabilíssima Cia. , ao viajar a seu lado , no vôo, quando iniciou o rascunho dessa “maravilhosa crônica”.
    Neste País, agora dominado pelo vermelho, somos assaltados por Senadores, Deputados, Prefeitos, Vereadores…, e porque não … ” Lanchonetes de Aeroportos”…
    Temos que continuar denunciando esses absurdos. Não sei até onde nossa voz alcança…,
    Mas é melhor que continuarmos calados.
    Forte abraços
    Réges – Blumenau – SC

  10. Mario Gardano Diz:

    Bonat, é a realidade dos aeroportos brasileiros, pagamos robalos e comemos sardinhas cada vez mais salgadas.
    abraços
    Mario Gardano

  11. André Dambros Diz:

    Meu caro amigo.
    Esta fama dos aeroportos está muito bem colocada, e não é só o Guarulhos não. A coisa é generalizada.
    Onde está a fiscalização ? Será que a Receita Federal vai a fundo nesta ganância?
    Um forte abraço
    André

  12. brugalli Diz:

    Caro amigo. Se algum aloprado ler sua crônica-crítica ou sua crítica em forma de crônica, dará um sonoro arroto (desculpe, isso é falta de educação à mesa) e mandará dizer por algum portavoz iluminado:” Eles que agradeçam as sardinhas que oferecemos, aliás, o bolsa-sardinha, mais um brilhante programa de inclusão social do nosso governo”.
    Depois, com a hipocrisia de sempre, irá receber cardumes de robalos, junto às águas das cachoeiras que correm copiosas por Brasília e adjacências. Paciência, com tanta indecência e tenha clemência, bravo povo braileiro.
    Brugalli.

  13. roselene ferreira Diz:

    MEU QUERIDO
    EM PRIMEIRO LUGAR,MINHAS DESCULPAS,SE É QUE É DESCULPÁVEL,NÃO TER TE LIGADO ,PELO TEU NÍVER.`E QUE EU, SEM MINHA AGENDA, NÃO SOU NADA , E AGORA DEI P/ PERDE-LA,COM UMA FREQUÊNCIA QUE ESTÁ ME ASSUSTANDO.NÃO QUE EU ACHE QUE SEJA PROBLEMA DE IDADE ,MAS SIM, COMPROMISSOS DEMAIS E NETOS DEMAIS,PARA UMA PESSOA SÓ, COM UM FILHO QUE RESOLVEU VOLTAR E CONTINUAR A SER FILHO….. SEI QUE ME ENTENDES. SEI TAMBÉM ,QUE SABES TUDO O QUE TE DESEJO DE BOM P/ ESTE NOVO ANO. QUE DEUS COLOQUE SUAS MÃOS SOBRE TUA CABEÇA E TE DÊ MUITA SAUDE,SUCESSO,PROSPERIDADE,ALEGRIAS E PRESERVE ESTE DOM BRILHANTE QUE É ESCREVERES CADA DIA MELHOR. ACHO QUE TENS O DOM DE AGLUTINAR AS PALAVRAS ,FECHANDO OS TEXTOS COM UMA BREVIDADE QUE IMPRESSIONA.
    QUANTO AO ASSUNTO DOS PREÇOS DOS AEROPORTOS,NAÕ SEI SE O PROBLEMA É SO NO BRASIL,POIS NA ÚLTIMA VEZ QUE DESCI NO CHARLES DE GAULLE PAGUEI ONZE EUROS POR UM CAFEZINHO PRETO. ENTÃO…….
    BJS DA AMIGA DE SEMPRE
    ROSELENE

  14. Afonso Diz:

    É assim mesmo general. E vai tentar fiscalizar ali. Eu como ando pouco de avião, pouco senti estas “facadas”. Fostes de uma felicidade enorme na comparação. É bem isto mesmo
    Saudações
    Afonso

  15. durval santos Diz:

    Meu Caro General Bonat

    Eu li recentemente, que a Infraero iria instalar lanchonetes populares nos aeroportos, em virtude da “grita” geral decorrente dos preços exorbitantes dos lanches de péssima qualidade. Pelo visto, diante da cronica , me parece que nada foi feito. abcs durval santos

  16. ALFREDO CHEREM FILHO Diz:

    Meu Caro Geneal
    Como sempre sua leitura e lembrança dos momentos passados em sua vida são explêndidos, concordo plenamente com suas afirmativas, vivemos entre pessoas que sempre estão tirando vantagens imediatas, aproveitando a inexistência de opção para se aproveitar, mas acredito que são minoria entre nós brasileiros.
    Obrigado pelo envio.
    Um Grande abraço,
    Alfredo 05.4.12

  17. Adão Diz:

    Prezado Gen Bonat
    Realmente, somos assaltdos nessas lanchonetes ou pequenos restaurantes dos aeroportos. É um absudo os preços praticados. Gostei da estória de pescador(Ironia).
    Parabéns e Abraços
    Adão

  18. Mandrup Larsen Diz:

    Adorei. Estamos todos nas mãos de ladrões. Cada um acha que pode mais que o outro. O exemplo vem dos políticos.
    Abraços e Parabens.

  19. bonat Diz:

    Rio de Janeiro, RJ, 05 Maio 12

    Prezado amigo,
    Ótima crônica, como sempre!
    Eu e minha esposa também fomos vítimas em Guarulhos quando regressamos de Porto Seguro para o Rio e, por problemas de mau tempo, passamos várias horas esperando e sendo assaltados a preços de robalos, comendo sardinhas e bebendo caldo de sardinhas.
    Bom domingo e parabéns!
    Gen Castro

  20. bonat Diz:

    Muito Obrigado pela remessa de mais umas das maravilhosas crônicas.
    Theodoro (Btl.Suez

  21. Joaquim Rocha Diz:

    Prezado amigo Bonat
    Enquanto os logistas de aeroportos não se convencerem que devem baixar preços para manter a casa cheia, haverá reclamações. O usuário paga pelo status, pela ganância, pelas grifes e pelos altos aluguéis cobrados pela Administração. As empresas aéreas antigamente cobravam tarifas exorbitantes e serviam refeições internacionais, hoje já mudaram o estilo, diminuiram preços e servem um salgadinho. Os logistas ainda não descobriram como fazer isso.

  22. bonat Diz:

    CARO GENERAL BONAT
    MAIS UMA VEZ PEÇO PERMISSÃO PARA LHE DAR OS MEUS CUMPRIMENTOS PELA MARAVILHOSA CRÔMICA DE SUA AUTORIA.
    Salomão

  23. Juliana Bonat Diz:

    Adorei, pai! Crônica muito criativa! Além dos altos preços de Guarulhos, reconheci outras coincidências com a vida real. Gosto muito quando você fala de coisas do dia-a-dia.
    Beijos.

  24. Paulo Carvalho Diz:

    Amigo Bonat:
    bela e oportuna crônica. Espero que um dia não muito distante, a ANAC ou INFRAERO possam resolver o problema dos preços exorbitantes da alimentação nos aeroportos. Até lá, vamos continuar “pagando robalos….”.
    Abraços.
    Paulo Carvalho

  25. Luiz Carlos Soluchinsky Diz:

    NA SEMANA PASSADA ANDEI LÁ PELO NORDESTE. NA ÍDA A CONEXÃO FOI EM GUARULHOS, NA VOLTA EM BRASILIA. UM SANDUICHINHO E UM CAFEZINHO É COMO PAGAR O PREÇO DE UM BUFFET LIVRE AQUI EM GUARATUBA. DEUS ME ACUDA! OUVI COMENTÁRIOS QUE ISTO ESTAVA PARA SER REVISTO (OS PREÇOS NOS AEROPORTOS), MAS ATÉ AGORA NÃO ACONTECEU NADA. SEM FALAR NO ESTACIONAMENTO. É A TAL DA INFRAERO. A CRÔNICA É MUITO BOA POIS É A PURA VERDADE. ABRAÇO DO SOLU

  26. Betty Diz:

    ENTENDO O ELPÍDIO;É MESMO UM ABSURDO OQUE SE COBRA EM AEROPORTO.
    SERÁ QUE VAI DAR CERTO AQUELAS LANCHONETES “MAIS POPULARES “QUE VÃO INSTALAR AQUI E EM ALGUNS OUTROS AEROPORTOS?
    ABRAÇOS

  27. bonat Diz:

    Parabéns. Mais um maravilhoso artigo muito bem escrito, triste sim tantos compactuarem com essa medíocridade. Abraços. Josiane e Sergio Bonat

  28. Souza Jr Diz:

    Gen

    Parabéns pela excelente crônica , ela reflete a realidade de um País na mão de políticos inescrupulosos e de uma população ordeira , pacata e subserviente , que a tudo assiste passivamente.
    Até em pequenas cidades como Joinville-SC vivemos estas “situações” , não diferente de outros aeroportos na lanchonete e restaurante os preços são muito acima da realidade local.
    Quanto as lanchonetes populares , os preços deverão ser tão módicos quanto os praticados com os carros ditos ” populares “.
    Para quem acredita que privatizar será a solução…não esqueçam da avidez dos lucros , em especial por que ainda se vive a mística que somente pessoas de elevado poder aquisitivo utilizam-se do transporte aéreo ; não quero ser pessimista , mas é pagar para ver…

  29. Michelle C. Schulz Diz:

    Excelente crônica! É a mais pura verdade!

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