Artigos de 2012

A dentista e a sogra

09/05/2012 por bonat

Nico era gente boa. Só não gostava do apelido, que lhe deram por causa da baixa estatura. Nico é corruptela de nanico, oriundo do latino nanu e do grego nanos, que significavam “um bilionésimo de alguma coisa”.

Essa explicação, talvez desnecessária, é para dizer que Nico, apesar de ser quase um anão, possuía um coração enorme. Tanto é que concordara com a mulher Isaura, um pouco maior do que ele, mas não só por isso, que a sogra viesse morar em sua casa.

Os amigos zoavam: “Morar com a sogra, Nico! Quando você morrer, vai direto pro céu, com tripa e tudo”. Ele não se importava. Só não admitia o “Nico”.

A sogra, que de boba nada tinha, não o chamava pelo apelido. Era Lindolfo pra lá, Lindolfo pra cá. Dona Emengarda, este o seu nome, segundo Lindolfo (também não quero desgostá-lo), gozava de uma vitalidade enervante. Mesmo assim, tinha um bom plano de saúde. A única coisa que lhe afligia eram os dentes. Mas esse problema, para desespero de Lindolfo, o plano não cobria.

Todo sábado ele tinha que levá-la ao dentista. Os dentes eram de Emengarda, mas quem bancava era Lindolfo. Para vingar-se, ele resolveu enervá-la. Passou a chamar o dentista de dentisto.

Dona Emengarda, que ensinara português e literatura a vida inteira, virava uma fera. “Dentisto não existe. É substantivo comum de dois, ou seja, da mesma forma que presidente, serve para os dois sexos: o dentista, a dentista. Não varia. Qualquer criança sabe disso!”

“Ora, sogrinha, quem manda em casa sou eu. Se digo que é dentisto, é dentisto, pois é um homem. Suas teorias não me interessam. Além do mais, gosto de ser politicamente correto. Pois, se ainda não sabe, uma lei recente sepultou o seu português arcaico. Parece que a senhora não se deu conta de que Camões, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Raquel de Queiroz e outros imortais estão todos mortos. E os atuais, um dia morrerão. Aí, ninguém chamará de dentista a alguém do sexo masculino. Lei tem que ser cumprida. E, na minha casa, a lei sou eu!”

Dona Emengarda, aborrecida, embora tivesse razão, calava. Como a experiência lhe ensinara, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo assim, resolveu dar o troco. Ligou para o dentista com quem se tratava e dispensou-o. Diga-se de passagem, ele cobrava R$100,00 a consulta. Em seguida, agendou com uma dentista famosa.

No sábado seguinte, pediu ao genro que a levasse até outro consultório, pois decidira trocar de odontologista. Nico estranhou. “Novo dentisto?” “Não. Para encerrar nossa discussão, vamos a uma dentista mulher.”

Nico sorriu um sorriso de vitória. Terminada a consulta, preencheu o costumeiro cheque de R$100,00. “Desculpe, senhor Lindolfo. É um pouco mais. Aqui, cada sessão custa R$400,00.”

Assim que saíram, Lindolfo, sentindo-se um “nano”, virou-se para a sogra: “A partir de hoje, não quero saber dessa dentista. Voltaremos ao seu antigo dentista. Afinal de contas, quem manda (e paga as contas) sou eu!”

O sorriso de vitória acabara de passar para os lábios ainda anestesiados de Emengarda…

Publicado em Literatura

Pagando robalo para comer sardinha

04/05/2012 por bonat

Pedro e Elpídio são filhos de Jacinto, que era filho de Severino Pescador. Além de Jacinto, Severino teve outros sete filhos. Mesmo madrugando todo dia para desafiar o mar, ficava difícil sustentar a prole. Já naqueles idos 1920, quando a tal da poluição ainda não havia dado as caras, o litoral paranaense não era piscoso. Matinhos, onde viviam, se resumia a uma colônia de pescadores, sem estradas, sem luz e sem escola. Ele e Josefina, por serem analfabetos, e principalmente por isso, queriam que as crianças estudassem. Mas como, se o dinheiro não dava? Foi aí que o compadre Adroaldo se ofereceu. Jacinto, de coração partido, despediu-se para morar na casa do padrinho, deixando chorosos mãe e irmãos. Paranaguá, hoje tão perto, parecia-lhe longe demais. Mas Jacinto soube aproveitar a chance, a mesma que não tiveram os irmãos. Esforçou-se, estudou muito e formou-se em contabilidade. Foi trabalhar no escritório do porto.

Severino não sabia como agradecer a Adroaldo. Dinheiro não tinha. Seu único bem, quando a sorte ajudava, eram os robalos, gostosos de comer, mas difíceis de pescar. Robalo não anda em bando como outros peixes menos saborosos e que se enroscam na rede aos montes. Por isso é mais valorizado. É a tal da oferta e da procura, lei que Severino obedecia, mesmo sem conhecê-la. Para agradar aos compadres, sempre que conseguia fisgar algum, dava um jeito de enviar-lhes. Josefina e a meninada que se contentassem com sardinhas, tainhas e farinha, que ficam bem em versos, mas não no prato nosso de todo dia.

Lá pelo final dos anos 1940, Jacinto casou com Jorgina. Combinou com ela que só teriam dois filhos. Tinha consciência das dificuldades dos pais, e do que isso acarretara aos irmãos: continuaram analfabetos. Nasceram Pedro e Elpídio, e só. Na época certa, mandou-os estudar em Curitiba, que ficava a quase quatro horas de viagem. Elpídio fez engenharia. Pedro, odonto. O primeiro foi em frente, virou engenheiro de renome. O segundo herdou o espírito aventureiro do avô pescador, e não se acostumou em ficar o dia inteiro entre quatro paredes. Juntou umas economias e, com a mulher Silvinha, mudou-se para Natal. Montaram a Pousada Robalo.

No último inverno, Elpídio resolveu fugir do frio curitibano. Aproveitando uma promoção, levou Mariinha e os filhos. Na viagem de ida, a conexão em Guarulhos foi rápida. Desceram de um avião e entraram no outro. De Curitiba até Natal levaram cerca de quatro horas, o mesmo que os irmãos Pedro e Elpídio, quando estudantes, para irem de Paranaguá a Curitiba.

Ficaram uma semana na Robalo, em Ponta Negra, uma das praias da agradável capital potiguar. Gostaram muito, pois, mesmo sem ser luxuosa, Silvinha e Pedro tratam-na com capricho. O irmão nada lhes cobrou, mas disse que os preços são bem em conta, tendo em vista a concorrência. Novamente, oferta e procura, pois, como a da gravidade, é lei que político algum consegue alterar.

Na volta, entretanto, a conexão lhes reservaria uma surpresa. Tiveram que permanecer por mais de três horas no aeroporto. Aí, passaram uma raiva daquelas. Queriam comer alguma coisa. Uma espiada no cardápio de várias lanchonetes os assustou. Se estivessem sós, ele e Mariinha teriam desistido. Mas sabe como é, havia as crianças, e criança quando tem fome, tem fome. Moral da história: gastaram no aeroporto quase o mesmo que para voar três mil quilômetros. Talvez os comerciantes de lá considerem o Euro como a moeda vigente. E, como a procura é maior do que a oferta, o cliente que pague, se puder.

Se as passagens aéreas tinham saído quase de graça, em Guarulhos, Elpídio gastou uma fortuna. Sentiu-se lesado. Ficou imaginando como será durante a Copa. Não se conteve. Mandou um torpedo ao irmão de Natal: “Estamos em Guarulhos. Acabo de ser assaltado. Paguei um robalo para comer uma sardinha”.

Publicado em Nacional, Política

“Mãe de Candidato” em sua casa por apenas R$ 20,00 (saiba mais)

13/04/2012 por bonat

Para receber esse livro de minha autoria, manifeste seu interesse no campo “Deixe um Comentário” (abaixo), que entrarei em contato com o(a) prezado(a) amigo(a). O custo é de apenas R$ 20,00, com frete incluso para todo o território nacional. Hamilton Bonat

“Uma Crônica Engajada”
São crônicas de leitura fácil, sérias umas e saborosas muitas. Entre as primeiras, registro as que discutem as seguidas derrapadas do governo brasileiro, no mandato anterior, em seu relacionamento externo, amenizadas pelo trabalho positivo que o Brasil desempenha no Haiti. Na categoria de ironia saborosa, está a crônica imperdível sobre as aeromoças, o discurso ao poste dos idosos frequentadores de um beco, o boi dos vegetarianos da Lapa e, sobretudo, a crônica que remete ao título – Mãe de Candidato.
(Rafael de Lala, jornalista, Presidente da Associação Paranaense de Imprensa)

Publicado em Literatura

A gralha azul e o elefante branco

11/04/2012 por bonat

Caro leitor. Se você tiver um tempinho, gostaria de lhe propor uma questão. Vamos lá. Suponha que você mora numa casa, em Curitiba. Nos fundos, tem um quintal, daqueles do tipo 15 por 20 metros, com algumas árvores frutíferas. No dia do seu aniversário, o vizinho, com a mais nobre das intenções, lhe presenteia com a muda de um pinheiro. Pergunta: você a plantaria no seu quintal? Justifique.

Mesmo sem conhecê-lo, ouso deduzir que sua resposta seria não. Imagino a justificativa que daria: se eu plantar uma araucária, jamais poderei cortá-la (lembre que ela vive 200 anos) e meu imóvel será desvalorizado.

A verdade, caro leitor, é que a legislação, sendo extremamente inflexível, tem desestimulado o plantio da árvore-símbolo do Paraná, em especial no meio urbano. As pessoas ficam receosas, e com razão.

Houve época em que o Estado era um verde só, coberto, desde os contrafortes da Serra do Mar até as barrancas do Rio Paraná, por um oceano de árvores, sendo o pinheiro a dominante e predominante.

A araucária angustifólia, como preferem os cerimoniosos, é uma espécie verdadeiramente imponente, que se esconde sob a sombra das demais para crescer, ultrapassando-as mais tarde em beleza e altura. Aí, é ela que passa a fazer sombra, por longos dois séculos, às suas vizinhas. Possui alguns apelidos, como curi (daí, Curitiba), curiúva, pinho, cori (daí, Coritiba), pinho brasileiro, pinheiro brasileiro, pinheiro são josé, pinheiro macaco, pinheiro caiová e pinheiro das missões.

Sua semente servia de alimento para a gralha azul, igualmente em extinção. Para escondê-lo de outros apreciadores, ela enterrava o pinhão para comê-lo mais tarde. Como, muitas vezes, não conseguia reencontrá-lo, ele brotava. Estava, dessa forma, garantida a renovação da espécie.

A extração desordenada, entre os anos 1870 e fins dos 1940, provocou grande desmatamento. Da floresta primitiva, resta aproximadamente 5%. Qualquer paranaense sabe que é preciso fazer alguma coisa pelo seu símbolo. Ele está em todos os lugares, em nomes de cidades e logradouros públicos, em bandeiras e nas artes. Só não está onde deveria: na natureza. Nem nela, nem nos quintais curitibanos. E a legislação, por ser inflexível, não incentiva, ao contrário, desestimula o seu plantio. Há que se pensar em leis mais inteligentes, que atendam também aos moradores urbanos, pois muitos desejariam colher pinhão na porta de casa.

Mark Twain nos conta que houve um rei do Sião (atual Tailândia) que, quando antipatizava com algum súdito, presenteava-o com um elefante branco. A vítima, evidentemente, não podia cometer a grosseria de recusar um mimo real. Ficava, assim, com a obrigação de cuidar do bicho, cujo porte, apetite e longevidade, o levavam à falência. Além do mais, por tratar-se de animal sagrado, tinha que ser mantido com aspecto saudável para não irritar o soberano, que fazia visitas inopinadas a fim de fiscalizar o tratamento dispensado ao seu presente. Quando o cortesão era muito chato, o rei brindava-o com gêmeos.

Mal comparando, no Paraná, embora não haja rei, tem um elefante branco, infelizmente, a muda de araucária.

Publicado em Meio ambiente

Marmitas de gelo

07/04/2012 por bonat

“Fechem as janelas. Ninguém pode descer!”, bradava um ferroviário. Com as mãos nos bolsos, aconselhava: ”Não convém que a população os veja, é a ordem”.

“Não estamos pesteados! Somos os alpinos que voltam da Rússia!”, gritou exasperado um dos soldados, pouco antes de o trem pôr-se de novo em movimento.

“Alpinos… E daí? Vocês já se olharam no espelho, cambada de nojentos!”, tornou, possivelmente cumprindo ordens do novo governo, o funcionáro da estação.

Assim foram recebidos em seu país os maltrapilhos sobreviventes da frente russa, entre eles o recruta Giulio Bedeschi. A Giulia, divisão à qual pertencia, havia perdido 18.000 dos seus 20.000 homens. Bedeschi, apesar de sofrer todo tipo de preconceito, tornar-se-ia um conceituado médico. Ele deixou registradas, em “Cem Mil Marmitas de Gelo”, as misérias que se abateram sobre uma tropa de elite, isolada na imensidão de um país hostil, e que encontrou, não se sabe como, forças para suportar a fatalidade de uma guerra perdida.

O ódio com que ele e seus companheiros foram acolhidos em seu país causou-lhe profunda tristeza. Era apenas soldado . Não era fascista, mas foi tratado como tal. Mussoline já havia morrido e, com ele o seu regime, que o havia recrutado para também morrer, mas nas estepes russas. Se soubesse que a recepção seria tão hostil, talvez preferisse ter ficado por lá, sob o gelo, como 90% dos seus companheiros.

São conhecidas as palavras de um veterano, que há séculos já vaticinava: “Amamos nosso Deus e nossos soldados nos momentos de perigo – não antes. Passada a refrega, Deus é esquecido e os soldados desprezados”. A história teima em se repetir, como vimos no último dia 29, no Rio de Janeiro. É o que revelam as palavras de alguém que esteve lá, das quais faço questão de registrar alguns tópicos.

“Eu não estava no Brasil no dia 31 de março de 1964. Encontrava-me servindo no Contingente das Nações Unidas no Congo, voando C47. Comecei a acompanhar as notícias do Brasil referentes ao progresso da ‘esculhambação’, com perdão da má palavra, provocada pelos sindicatos, pelas ligas camponesas e, afinal, pela tentativa de desestabilizar o braço armado da nação, com quebra da hierarquia e da disciplina. Comecei a planejar o não regresso ao Brasil, pensando nas minhas raízes em Portugal, retirando, depois, meus familiares do inferno que seria implantado no País.
Volto agora aos acontecimentos de 29/03/2012, em que cerca de 300 idosos assistiam a um painel em que, simplesmente, se fazia a análise do que ocorrera naquele passado, que teima em ficar próximo. Em baixo, agitadores clamavam, aos gritos, contra pacíficos e ordeiros militares e civis.
Ao final, estávamos sitiados dentro da ‘Casa da República’, orientados a não sair do prédio. Pensei, de imediato, na possibilidade de que um dos mais idosos resolvesse enfrentar a turba. Resolvi enfrentá-la, antes que um deles, mais debilitado que eu, o fizesse. Junto com meu ‘irmão’ Juarez saí à rua. Enfrentamos a manifestação programada como pacífica, coisa que comunistas não conseguem realizar. Xingamentos variados partiram da ‘matilha’, pois nunca atuam sozinhos. Um deles, percebendo que eu ia falar, desafiou: ‘fala, fala alguma coisa, seu nazista!’ Controlei-me. A partir daí, fomos andando até chegar ao metrô, perseguidos pela alcateia e protegidos por um policial que, coitado, tentava defender os dois velhinhos que ousaram usar do seu direito de ir e vir e da livre manifestação de pensamento.
Foi terrível receber a cusparada que é vista na foto. Por ela, percebe-se que os cuspidores tinham todas as características de drogados, com olhos esbugalhados. Aí, imaginei: e se eu estivesse armado? Cheguei a pensar nisso antes de ir à reunião. A justiça julgaria uma reação desproporcional, um tiro dado por alguém que dedicou mais de 50 anos ao serviço da pátria contra um imbecil que ousara cuspir no seu rosto?”

Fica aí, meus amigos, um registro do Brasil intolerante de hoje, triste realidade, pois sabemos o quanto é difícil praticar a tolerância contra intolerantes.

Mesmo assim, continuo otimista. Quero acreditar que a turba de jovens cuspidores, doutrinados para odiar, alimentados mais por mentiras do que por verdades, não estava lá, da mesma forma que o funcionário da estação ferroviária italiana, cumprindo ordens de um novo governo dito democrático.

Publicado em Nacional, Política

FIFA, ponha-se na rua!

24/03/2012 por bonat

PR, iniciais de Príncipe Regente, marcava a porta de muitas casas do Rio de Janeiro de 1808. Era a forma nada sutil de comunicar ao morador que sua residência não era mais sua e sim dos “valentes” que acabavam de chegar, os mesmos que semanas antes, em Lisboa, se apinhavam no cais do porto para conseguir uma vaguinha nos navios que tinham por destino a colônia. Escaparam, assim, da fúria de Napoleão, cujas tropas já estavam a caminho. Fugiram e deixaram seus súditos abandonados à própria sorte. Covardes em relação ao corso francês, mostravam-se, agora em solo brasileiro, corajosos contra os cariocas. Estes, com sua habitual perspicácia, traduziram aquelas iniciais para “Ponha-se na Rua”. Mesmo sem se conformar, tiveram que abandonar os seus lares.

O Brasil beneficiou-se por ter sido escolhido como local de homizio. Viramos sede do Reino Unido. Nossos portos foram abertos à navegação internacional, traduza-se para a Inglaterra, a senhora dos mares. Mais tarde, sob o risco de perder a Coroa Portuguesa, D. João, acompanhado por aqueles que lhe beijavam a mão, viu-se obrigado a retornar. Voltou levando ouro e deixando aqui o seu filho, que se tornaria o nosso primeiro imperador. O preço que habilmente nos cobraram pela independência foi a enorme dívida que a família real tinha com os ingleses.

Como são coisas do passado, imaginou-se que jamais voltariam a acontecer. Mas não é que, mais de 200 anos depois, a história está se repetindo aqui em Curitiba? Onze imóveis nos arredores de um estádio de futebol tiveram seus muros pichados, não com um PR, mas com um símbolo digno dos piores grafiteiros, para informar aos seus moradores, alguns há décadas, que têm que sair. Segundo um deles, “Será tudo desapropriado, por bem ou por mal. A prefeitura está irredutível. A quantia a ser paga é menor do que vale o imóvel”.

Simultaneamente, a imprensa tem noticiado que, em reunião de 2010 do conselho deliberativo do clube que receberá dinheiro do BNDES para ampliar sua arena, um então vereador e hoje secretário de estado já afirmava que não será necessário pagar o empréstimo. O que ocorre em Curitiba provavelmente esteja acontecendo em outras paróquias. Logo, todos os paroquianos gostariam de ser consultados se concordam com esse tipo de calote, se o prioritário é usar dinheiro público para construir estádios particulares, ou se hospitais, escolas, estradas ou segurança pública não seriam mais necessários.

Lá em Brasília, o presidente da FIFA foi recebido cordialmente pela nossa mandatária. Ele é exigente: quer, inclusive, que mudemos algumas leis. O Congresso já lavou as mãos ao não se posicionar quanto ao consumo de cerveja nos estádios. Passou a bola para os estados. Quem teria a obrigação de defender nossa soberania, o governo federal e o congresso, curva-se à vontade da poderosa FIFA. Normalmente tão valentes para rabiscar muros de lares curitibanos, nossos dirigentes se submetem aos que comandam o futebol mundial.

Como última esperança, restaria o Judiciário. Mas sua lentidão faz crer que só decidiria depois de 2014. Aí, a “família real” já terá retornado, levando nosso dinheiro e deixando, mais uma vez, a conta para os brasileiros pagarem.

Publicado em Esportes

A cólera das legiões baianas

08/02/2012 por bonat

Jacques Wagner ignorou a insatisfação dos policiais baianos. Preferiu ir a Cuba, onde nosso governo presentearia a ditadura dos irmãos Castro com alguns milhões de dólares. Dizem que um pouco mais do valor doado (ninguém acredita que Cuba irá pagar) cobriria os gastos do governo federal, caso a PEC 300, aquela que iguala os vencimentos de todas as PM à do Distrito Federal, fosse aprovada.

Baiano é festeiro. Pelo menos são as imagens que nos vendem. Nelas, enquanto milhares se divertem atrás do trio elétrico, alguns trabalham. Entre eles, policiais, tentando fazer o que podem num mar de pessoas, muitas movidas a álcool e droga. Na verdade, simulam representar papel de bobo, pois sabem que nosso governo deu dinheiro para que a Bolívia construísse a transcocaleira, rodovia que facilita o escoamento de sua produção para o mercado brasileiro.

Mas a insatisfação não se restringe à Bahia. Há risco de alastrar-se, embora a constituição proíba, com razão, aos militares fazerem greve. Talvez esteja aí o motivo de serem, quase sempre, deixados à margem pelos detentores do poder.

Num país onde tanto se fala em diminuir as injustiças e as disparidades sociais e regionais, o governo é o primeiro a dar mau exemplo. Basta comparar as abissais diferenças entre as remunerações no judiciário e no legislativo em relação ao executivo. E, neste último, os militares estão no fim da fila.

A situação em Salvador é preocupante e, ao mesmo tempo, bizarra. Policiais Militares, que ocupam a Assembléia Legislativa, têm vencimentos superiores aos dos militares federais que os cercam. O que se pode esperar? Na hipótese mais otimista, que se chegue a um acordo e cesse o movimento. Noutra, que as tropas federais recebam ordem para desocupar o prédio e haja mais confronto e vítimas. E, numa terceira e mais grave: que amotinados e tropas federais se unam em protesto contra o fato de serem permanentemente tratados como servidores de segunda categoria.

No início dos anos noventa, o Chefe do Estado-Maior do Exército usou, como alerta, estas palavras de um legionário romano: “Não hesitamos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar nossa juventude. Enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem que em Roma muitos cedem com facilidade às piores tentações. Não posso acreditar que tudo isso seja verdade. Se for, se tivermos que deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre a areia do deserto, então, cuidado com a cólera das legiões.”

Elas expressavam a indignação de todos os brasileiros em relação ao escândalo dos anões do orçamento, deputados que montaram um esquema fraudulento para receber propinas.

Gerou um frisson. Políticos, na ânsia corporativa de garantir seus privilégios, apressaram-se em defender seus colegas. Parte da imprensa deturpou o sentido da mensagem: o que era um conselho foi interpretado como ameaça à democracia.

Provavelmente não tenham se dado conta à época, mas ali estavam os ingredientes – armas e insatisfação – desse verdadeiro angu à baiana, infelizmente perigoso, porque tem gente que aprecia.

Schettino – cherchez la femme

02/02/2012 por bonat

Alexandre Dumas sequer desconfiava que estava criando uma expressão tão ao gosto dos franceses quando, em 1854, publicou em seu livro Les Mohicans: “Il y a une femme dans toutes les affaires; aussitôt qu’on me fait un rapport, je dis: cherchez la femme”.

Cherchez la femme resume um lugar-comum das histórias de detetive. Não importa qual seja a confusão, quase sempre haverá uma mulher envolvida. Em seu sentido mais amplo, significa “procure a raiz do problema”.

Basta recordar alguns escândalos famosos para perceber que os franceses têm certa razão. Os casos das Mônicas, a brasileira de Renan e a americana do salão oval de Clinton. O do governador de Nova York, estrela do Partido Democrata, conhecido por “Cliente Nove” de Ashley Dupré, jovem de 22 anos que acabaria famosa como coelhinha da Playboy, enquanto “Nove” teve que renunciar ao cargo. O affaire de Dona Zélia Cardoso, que após ter deixado os brasileiros com míseros 50 dinheiros no bolso, resolveu dançar de rosto colado com Bernardo Cabral, ao som de “Besame Mucho”. A descoberta, no vizinho Paraguai, que o “bispo dos pobres” havia produzido em série dezenas “luguinhos”.

E, para não cometer a tremenda injustiça de esquecê-lo, é preciso recordar as festanças de Berlusconi, onde prostitutas adaptavam rituais eróticos praticados no harém de Muamar Kadafi. Diante das críticas, o premier italiano reagia: “Vivo uma vida terrível. Se uma vez ou outra preciso de uma noite para relaxar, ninguém tem nada com isso. Melhor gostar de garotinhas bonitas do que ser gay”. Aplausos! Este é o verdadeiro macho italiano, desde os da mais alta corte até os mais simples plebeus. Parece que eles sofrem da “síndrome de narciso”, segundo a qual todas as fêmeas devem adorá-los.

Aqui mesmo, em Curitiba, o presidente da câmara de vereadores, de sobrenome italiano, resolveu gastar 30 milhões em publicidade. Cidadãos indignaram-se pelo fato de ele torrar uma dinheirama, sem qualquer benefício para a população. Mas um jornalista-detetive logo iria desvendar que boa parte da grana pública foi parar no caixa da empresa de uma femme por quem o edil se encantara. Realmente, as mulheres têm o poder de fazer com que homens, honestos ou não, cometam loucuras, sem medir as consequências.

Quando pipocaram as primeiras notícias de que Francesco Schettino havia levado à pique o moderníssimo Costa Concórdia, no Mediterrâneo, um mar que qualquer marinheiro conhece como a palma da mão há mais de 10 mil anos, caberia perguntar: “onde está a mulher”? Se fosse eu o seu advogado, usaria este argumento em defesa de Francesco, pois esse é o ponto fraco da maioria dos italianos. Mas, para azar de Schettino, a Itália tem um ponto forte: sua justiça é séria e funciona.

Prezado Francesco: Como acredito que você jamais voltará a bordo, deixo-lhe um conselho. Ligue para seu compatriota Battisti, aquele que assassinou quatro italianos inocentes e acabou acolhido como herói à bordo do Brasil. Quem sabe ele consiga interferir junto às nossas autoridades para você vir aportar numa de nossas paradisíacas praias? Aí, não lhe será difícil “chercher une femme”.

Publicado em Nacional, Política, Turismo

Feliz Ano-Novo Chinês

04/01/2012 por bonat

Após certa quilometragem, tornei-me comedido ao festejar um novo ano. Não que eu seja tão velho, embora admita ter conhecido Kalashnikov, o inventor do fuzil AK-47, orgulho dos russos. Foi quando estive numa feira de armamento em Vladimir e me deparei com uma longa fila. Todos queriam o autógrafo daquele coronel, arqueado pelo tempo e por dezenas de condecorações. Cumprimentei-o, apenas. Não fotografei, do que me arrependo. Provaria não estar mentindo.

Na ocasião, outro fato me chamou a atenção. Havia comitivas pequenas – uma ou duas pessoas – de vários países. Americanos, exagerados, eram cinco. Chineses? Quase uma centena. Foi espantoso vê-los desembarcar dos ônibus. Seus uniformes os tornavam ainda mais iguais. E olha que chinos e russos nunca se deram muito bem. Porém queriam demonstrar força, não só aos russos, mas ao mundo todo que lá estava. Passados vinte anos, só agora percebo aonde os enigmáticos chineses pretendiam chegar.

O enigma chinês não é fácil de desvendar, mas, por questão de sobrevivência, é impositivo começar a estudá-lo. Quando nos deparamos com algo estranho, precisamos olhar mais profundamente.

Como vivemos os primeiros dias de um novo ano, comecemos pelo calendário. O chinês se relaciona a um dos 12 animais que teriam atendido ao chamamento de Buda. Assim, 2011 foi o ano do coelho; 2012, será do dragão; 2013, da cobra. Animais cada vez mais ferozes, transmitindo uma sensação, pelo menos para mim, de crescente ameaça. Conforta-me saber que, a partir de 2014, os bichos serão mais domáveis: cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco. Tomara!

Outro mistério é o mandarim, com seus inúmeros dialetos. É uma língua tonal e basicamente monossilábica. Diante dos seus símbolos, somos analfabetos. Ainda bem que, no caso do idioma, há certa reciprocidade. Levaríamos o mesmo tempo para aprendê-lo do que para explicar a um trabalhador chinês o significado de “Estado de bem-estar social”, aquele que tem ameaçado a existência da União Europeia. Suas dificuldades seriam imensas, pois seus dirigentes aprenderam com Mao a lhe sonegar informações. Por isso, contenta-se com um salário miserável, coisa inadmissível para trabalhadores do mundo ocidental. Graças a isso, a China despeja seus produtos em nossas lojas a preços irrisórios. Compete com nossa indústria que, taxada de todas as formas, começa a sentir-se ameaçada, assim como os empregos que gera.

O lado cruel do “capitalismo chinês” é a exploração do homem pelo homem. O isolamento a que o povo é submetido pelo governo, sonegando-lhe notícias de além-fronteira, é a face selvagem do “comunismo chinês”. Se perguntássemos a algum deles se ONGs estrangeiras tentaram impedir a construção da barragem das Três Gargantas, a maior do mundo, no rio Yangtze, ele responderia com um sorriso debochado. Se lhe contássemos que isso acontece por aqui, em relação a usina Belo Monte, daria gargalhadas. Conversar sobre aquecimento global? Nem pensar.

Parece complicado, não é? Pois nosso governo que trate logo de decifrar. Não podemos permanecer, com olhos de paisagem, admirando commodities desaparecerem no horizonte, para depois retornarem transformadas em manufaturas. Senão, nas próximas viradas, aqueles que ainda não tiverem perdido seus empregos, terão que comemorar com “cidra made in China”.

Por apenas R$20,00, receba “Mãe de Candidato” em sua casa. (saiba mais).

01/01/2012 por bonat

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“Uma Crônica Engajada” Capa
São crônicas de leitura fácil, sérias umas e saborosas muitas. Entre as primeiras, registro as que discutem as seguidas derrapadas do governo brasileiro, no mandato anterior, em seu relacionamento externo, amenizadas pelo trabalho positivo que o Brasil desempenha no Haiti. Na categoria de ironia saborosa, está a crônica imperdível sobre as aeromoças, o discurso ao poste dos idosos frequentadores de um beco, o boi dos vegetarianos da Lapa e, sobretudo, a crônica que remete ao título – Mãe de Candidato.
(Rafael de Lala, jornalista, Presidente da Associação Paranaense de Imprensa)

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