Artigos de 2012

Formatura do Faz de Conta

08/12/2012 por bonat

Um dia, quando os jardins de infância ainda não se denominavam escolas infantis, Milton Karam teve uma rara inspiração e compôs um hino que começa assim: “Faz de Conta, que o mundo cabe todo num jardim/ Faz de Conta, que o tempo é o mais lindo mandarim/ Faz de Conta, que a vida não tem começo nem fim”.

Pois hoje, Guilherme e Rafael, de beca e tudo, estão colando grau no Faz de Conta, nome que poderia nos remeter à situação atual do ensino no Brasil, onde se finge que ensina e se brinca que se aprende. Mas, ao contrário do que o nome possa sugerir, o “Faz”, como é carinhosamente chamado, é uma escola onde realmente se ensina e aprende, logicamente, de acordo com a faixa etária do “corpo discente”, que varia dos dois aos seis anos.

Como todo avô, sinto-me orgulhoso em ver os netos, praticamente alfabetizados, receberem o seu primeiro diploma. Ao mesmo tempo, sei que sentirão falta do local onde foram acolhidos, orientados, motivados e preparados para seguirem o seu caminho, agora em outra escola.

Durante cinco anos, imaginando que estavam brincando, eles aprenderam. Formaram alicerces morais e éticos, valores que os acompanharão ao longo da vida. Sentirão saudade de um espaço físico cuidadosamente mantido, acolhedor e das dedicadas “tias” que, fingindo que estavam brincando, lhes transmitiram muito ensinamento.

Recorro novamente a Milton Karam: ” … é o desejo /Que toda criança/Nunca se cansa de ter/É a vontade/Que nessa idade/A gente pare de crescer”.

Isso faz com que nós, os avós, retornemos a um passado que já vai distante, para relembrar da nossa inesquecível e saudosa primeira professora. Como lembrou o autor do hino, “como seria bom se, naquela idade, a gente tivesse parado de crescer”.

Claro, todos sabem ser impossível, pois o tempo continua sua marcha implacável em direção ao futuro. Por termos acompanhado o crescimento dos netos nessa sua primeira escola, estamos confiantes de que eles continuarão a crescer, sob todos os significados que esse verbo possa abranger.

Só nos resta agradecer à Professora Margaret Mehl Müller e a sua dedicada e competente equipe, que cuidam com tanto carinho do Faz de Conta e do que ele tem de mais valioso: os seus alunos, filhos dos nossos filhos, que são nossa imagem aprimorada, refletida num espelho. Por isso, e por me julgar, pela idade, no direito de ser repetitivo, volto ao Milton Karam: “Faz de Conta, que o mundo é um espelho de marfim/Faz de Conta, que o tempo saltou de um trampolim…”.

Durante a bela festa de final de ano que assistimos, emocionados ao ver nossos netos recebendo o “canudo”, por alguns momentos, saltamos de um trampolim e mergulhamos profundamente em nossa primeira sala de aula.

Pena termos tido que voltar ao presente. Mas quando o fizemos, vimos nossa imagem, rejuvenescida e aprimorada, com sua alegria, sua beca e o diploma, que não é de faz de conta. Nem ele, nem o futuro dessa gurizada, para quem a equipe do “Faz” construiu um firme e profundo alicerce, para ela não parar de crescer.

Que o Faz de Conta, assim como nossos netos, nunca pare de crescer!

Por fim, quero deixar o meu mais forte abraço a todos os avós, em especial à “Vó Hilma”, a eterna avó do Faz De Conta.

Publicado em Datas marcantes, Educação

Precisamos de um Deng, mas teimamos com Mao

05/12/2012 por bonat

Até 2025, a demanda por energia irá duplicar na China. Ela passará a consumir 25% da energia mundial. Pode parecer exagero, mas não é, principalmente se levarmos em conta que, durante 18 dos últimos 20 séculos, ela produziu uma parcela do PIB mundial maior do que qualquer sociedade ocidental.

Compreender a história da China não é nada fácil. Trata-se de uma civilização que se origina numa antiguidade tão remota, que são baldados os esforços para descobrir onde iniciou. Sabe-se que o “Império do Meio” entrou em declínio no século XIX. Em parte, por culpa da autoconfiança dos seus dirigentes, que o consideravam o centro da humanidade, portanto, imune às ameaças dos povos bárbaros, como chamavam os demais. Consideravam-na uma civilização tão sofisticada, que nada teria a aprender. As outras que fossem lá para copiá-la.

Entendia que todo o extremo oriente era seu. Mas os vizinhos, especialmente o Japão, os países do sudeste asiático, a Manchúria Exterior e a Mongólia Exterior, negavam-se a se subjugar. Ao norte, a Rússia representava uma terrível e histórica ameaça.

Sua visão sinocêntrica, até certo ponto ingênua, acabou sendo fatal. Enquanto os japoneses, que também consistiam uma sociedade fechada, por temor ao dragão que morava a apenas 200 km de sua pequena ilha, resolveram abrir-se e aprender com os estrangeiros, a China se manteria isolada durante séculos.

Quando sentiu que os europeus, a quem consideravam os bárbaros do leste, a ameaçavam, tentou empregar, mas sem sucesso, a estratégia de usar “bárbaros contra bárbaros”. Sofreu muito com a guerra do ópio e com as invasões japonesas. Não se conforma até hoje com a perda para a Rússia de ampla fatia da Mongólia Exterior, onde se situa o porto de Vladivostok.

A mesma Rússia ajudaria a derrubar o já combalido regime republicano, que, em 1911, havia substituído a última dinastia imperial. Após intensa guerra civil apoiada pelos soviéticos, o Partido Comunista Chinês chegaria ao poder em 1949. Os russos acreditaram ter, enfim, controlado a China, o que seria realidade até certo tempo. Mao Tsé Tung, aos poucos, foi percebendo que Nikita Kruschev se portava mais como o costumeiro ameaçador urso do que como um bom camarada.

Sob Mao os chineses continuariam isolados dos bárbaros, até mesmo os de Moscou, que pretendiam impor sua hegemonia ideológica. Quando, em 1955, a União Soviética criou o Pacto de Varsóvia, Mao se recusou a tomar parte. A China não iria subordinar a defesa de seus interesses nacionais a uma coalizão. Ante a ameaça de milhões de tropas russas desdobradas ao longo da extensa fronteira norte, Mao acabaria se aproximando dos americanos.

Se no passado, usar “bárbaros contra bárbaros” havia sido uma estratégia, Mao, para se manter no poder, usaria chineses contra chineses. Lançando uns contra os outros, implantou o terror interno, até chegar à Revolução Cultural, uma verdadeira carnificina humana.

Deng Xiaoping (foto), apesar de ter sido preso e exilado várias vezes, conseguiu sobreviver. Embora tivesse ideias diferentes, expressava-as reservadamente, pois era inteligente o bastante para não contrariar Mao em público. Esperou sua morte para chegar ao poder e implementar as reformas. Certa vez, conversando com cientistas australianos, disse que a China era um país pobre, necessitado de mudanças científicas e de aprendizado com países avançados, comentário sem precedentes para um líder chinês. Enviou milhões para estudar no exterior, a fim de criar as bases para a inovação tecnológica. Abrindo a China para o mundo e investindo em educação e pesquisa, uniu os chineses e criou as condições para que o país voltasse a ser uma potência.

Com os chineses de Deng, poderíamos buscar ensinamentos para deixarmos de ser meros exportadores de commodities. Porém continuamos impregnados pela ideia de Mao de jogar uns contra os outros, enquanto o povo, mantido ignorante, agradece pelo pão que lhe é doado e aplaude os palhaços de um circo quase falido.

Publicado em Internacional

Gratidão à Academia de Cultura de Curitiba

29/11/2012 por bonat

Recebam todos as nossas saudações. Ou, pensando bem, pois agora já podemos dizer: recebam nossas saudações accureanas!

Embora eu não tenha recebido delegação para escrever em nome dos colegas recém-empossados, vou tentar resumir o sentimento que nos invade, que, se não é de todas e de todos, acredito ser da maioria.

Alegria, orgulho, satisfação e gratidão habitam nossa alma pela deferência de termos sido escolhidos para fazer parte da prestigiosa Academia de Cultura de Curitiba. Se eu fosse gaúcho, diria que estamos “mais faceiros que piá de bombacha nova”.

Mas há, também, em cada um de nós um confuso sentimento que mescla surpresa e espanto. Paira, sobretudo, uma interrogação que nos incomoda: por que fomos eleitos para integrar uma academia de cultura?

A cultura, até onde sabemos, está por toda parte. Nas artes, no construir, no falar, no pensar, no agir, no ensinar, no governar, no portar-se, no comportar-se… Cultura representa continuidade histórica…

Em busca da resposta para a dúvida que nos aflige, folheei o estatuto da ACCUR que nos foi entregue. Creio tê-la encontrado ao me deparar com nomes como os de Ivo Arzua Pereira, Luís Renato Pedroso e João Darcy Ruggeri. Estou citando apenas os presidentes, mas, claro, poderia ter nominado qualquer um dos seus acadêmicos e acadêmicas. São nomes tão honrados, que fizeram-me relembrar de um episódio, que faço questão de lhes recordar.

Logo após a independência, José Bonifácio de Andrada e Silva era titular da Pasta do Império e seu irmão Martim Francisco, da Pasta da Fazenda. Um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo na cartola, Bonifácio saiu à rua e, por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas. Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola, o dinheiro havia sumido. Retornando ao palácio, contou o sucedido a D. Pedro. O imperador, lamentando a perda, chamou Martim Francisco e mandou que ele sacasse do Tesouro outro pagamento para o irmão descuidado. O ministro da Fazenda se recusou: “Nada disso, o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês, como qualquer outro funcionário. Por isso, peço licença a Vossa Alteza para repartir com ele o meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes”.

Minhas amigas e meus amigos: nesse episódio, poderíamos substituir, sem medo de errar, a figura de Martim Francisco pela de Ivo Arzua Pereira, de Luís Renato Pedroso ou de João Darcy Ruggeri, ou ainda, de qualquer outra acadêmica ou acadêmico da Casa que agora nos acolhe.

Cultura é um bem intangível. É imortal, como imortais são os exemplos de seriedade no trato da coisa pública deixados por mulheres e homens, brasileiros que forjaram esta Nação. As páginas vivas que escreveram deveriam ressoar como ensinamento perene sobre o caráter das pessoas.

Nós, feliz ou infelizmente, somos mortais. Imortal é a Academia de Cultura de Curitiba, é o legado de honradez que pretende transmitir às gerações futuras.

Se foi para contribuir para que ela atinja esse mister que fomos convocados, então nos sentimos imensamente gratificados.

Não sei como o faremos, pois não existe uma fórmula pronta. Só sei que a cultura que tentaremos ajudar a transmitir é aquela fundamentada nos valores da honestidade, da ética, da moralidade e da honradez, bases para uma sociedade que se deseja democrática e de direito, mas que, ultimamente, tem-se revelado, a cada dia, mais injusta.

Que Deus, em sua infinita bondade, nos conceda força, inspiração e sabedoria para, na atual e difícil conjuntura nacional, cumprirmos, cada qual a seu modo e à sua forma, com esse nosso imortal compromisso com os brasileiros de amanhã!

Publicado em Homenagens, Literatura

Santos, seus fortes, fortalezas e suas cartolas

16/11/2012 por bonat

Ao fundar a vila de São Vicente, Martim Afonso daria início à rica história da Baixada Santista, cuja trajetória poderia ser contada pelas fortificações que foram sendo erguidas como parte de um complexo plano de defesa. A primeira foi Santo Amaro, a fortaleza (foto) que, desde 1584, vigia a expansão das comunidades em torno do mais importante porto do país. Com o tempo, várias outras surgiriam, até a inauguração, em 1942, do Forte dos Andradas. Durante a Segunda Guerra, seus canhões cruzariam fogos com os da Fortaleza de Itaipu,para proteger a barra das ameaçadoras belonaves do Eixo.

Um presente que recebi de José Roberto Garcia, um entusiasta de Itaipu, motivou-me a discorrer sobre ela. Na obra Belezas da Fortaleza, com sensibilidade e talento, amantes da fotografia nos revelam detalhes despercebidos por quem não tem o dom de enxergar o belo, mesmo que esteja a centímetros dos seus olhos. Com a pontaria certeira de suas objetivas, eles retrataram a centenária Itaipu, não só sob o aspecto arquitetônico, mas e sobretudo, com uma visão humana e ambiental.

Ao folheá-la, sente-se a presença dos desbravadores, que há mais de um século enfrentaram a densa mata, abrindo caminho para a passagem dos canhões Schneider-Canet de 150 mm. Depois dos pioneiros, vieram milhares de outros, cada qual com sua própria experiência de uma nada fácil vida de soldado. Lembro-me de um, a quem tive o privilégio de conhecer, quando ali servi nos anos de 1974/75: o Capitão Galileu Ramos, ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Recordo-o, já idoso, fazendo questão de cumprir o expediente. Soube que, mais tarde, doente e praticamente cego, continuaria a desfilar nas paradas diárias, à frente da sua banda de música. São pessoas como ele que vêm à mente quando se visita qualquer dos baluartes espalhados pela costa paulista.

Mas a história da Baixada poderia, ainda, ser contada a partir da determinante atuação dos irmãos Andradas no processo da independência e, também, por sua visão de estadistas e sua postura ética em relação à coisa pública.

Há um episódio revelador de sua honestidade. José Bonifácio era titular da Pasta do Império e Martim Francisco, da Fazenda. Um dia, ao receber seu vencimento e colocá-lo na cartola, Bonifácio saiu à rua e, por onde passava, ia retribuindo a saudação das pessoas. Quando se deu conta, de tanto tirar e repor a cartola, o dinheiro havia sumido. Retornando ao palácio, contou o sucedido a D. Pedro. O imperador, lamentando a perda, chamou Martim e mandou que ele sacasse do Tesouro outro pagamento para o irmão descuidado. O ministro da Fazenda se recusou: “Nada disso, o senhor José Bonifácio só vence um ordenado por mês, como qualquer outro funcionário. Por isso, peço licença a Vossa Alteza para repartir com ele o meu subsídio, mas não posso pagar-lhe duas vezes”.

Por essa e outras, os Andradas são tão admirados. Por isso mesmo, são evocados em duas unidades que lhes trazem o nome: o Forte dos Andradas, no Guarujá, e o Grupo José Bonifácio, aquartelado na Fortaleza de Itaipu.

Fortificações não se aposentam. Nem morrem. Da mesma forma, são imortais os exemplos dos Andradas e de outros brasileiros, homens e mulheres, que forjaram esta Nação. Eles deveriam ressoar como ensinamento perene sobre o caráter das pessoas. Infelizmente, tudo leva a crer que os atuais responsáveis pela condução dos nossos destinos não leram as páginas vivas que eles escreveram.

Publicado em História, Homenagens, Turismo

Lamúrios de uma pracinha

21/10/2012 por bonat

Estou aqui há muito tempo, muito antes do que as pessoas que passam por mim apressadas, sem sequer saber o meu nome. Presenciei a chegada do primeiro bonde, que sumiria décadas mais tarde. Vi os barões do café construírem suas mansões, agora transformadas em agências bancárias e em concorridas casas noturnas.

Em 2007, decidiram cortar-me ao meio. Diziam que eu estava atrapalhando o trânsito. Milhares de carros, vindos pela Carneiro Lobo, tinham que me circundar para acessar a avenida Bispo Dom José. Poucos me defenderam, nem os que me consideravam o símbolo do bairro. Entrei em depressão. Fiz terapia, mas não adiantou. Não conseguiram me convencer. À força, fui parar na sala de cirurgia. Quando voltei da anestesia, estava cortada ao meio. Você não tem ideia de como foi difícil. Mas, se era para o bem do povo…

Ultimamente, tenho observado a indignação do mesmo povo. A prefeitura, que em 2007 me levou à sala de cirurgia, está gastando R$ 3,150 milhões para estreitar a Bispo Dom José. Ora, se me amputaram para que o trânsito fluísse nessa avenida, como explicar o seu afunilamento?

Dizem que é por causa da tal da Batel Soho. Como costumo ler a primeira página dos jornais expostos na minha banquinha, sei que Soho, abreviatura de South of Houston, indica a região de Nova York localizada ao sul da rua Houston. Designa, também, badaladas áreas de Londres, Hong Kong e, na Argentina, a Palermo Soho.

Antes que esqueça, e para quem não sabe, possuo uma banquinha (onde há jornais), uma floricultura (ali existem flores), uma cafeteria (lá tem café) e um módulo da guarda municipal (onde nunca se encontra um guarda).

Soube que minha amiga Espanha, praça como eu, também entrou em depressão. Foi quando empresários do ramo imobiliário rebatizaram de Champagnat o bairro onde nasceu. Recentemente, outros empresários, estes do setor de gastronomia e lazer, apelidaram-na de Batel Soho. Ora, minha amiga fica no Bigorrilho, e não renega as suas origens, muito menos a sua província. Ela não é novaiorquina. Ambas nos orgulhamos de sermos curitibanas. Desconfiamos que os tais empresários é que não são.

O que me preocupa é que os comerciantes da região querem que o Batel Soho se espalhe por cerca de 10 quadras ao redor da Espanha. Neste caso, pelo mapa, também faço parte periférica dessa aberração. Como não quero brigar com a minha velha amiga, liguei para ela. Concordamos em fazer uma campanha contra esse golpe baixo de empresários e marketeiros.

Aliás, outro empresário, este do ramo de shoppings, conseguiu acabar com a única área verde que havia no Batel. Só descobri porque os oito andares do seu novo empreendimento estão sendo erguidos bem perto daqui. Estranho que ninguém tenha protestado, nem o povo, muito menos as autoridades, aí incluídos os ditos ambientalistas. Árvores centenárias, que vi crescer, aos poucos foram sumindo, normalmente de madrugada. De onde estou, dá para ver o que ainda resta do bosque e visualizar a copa seca de mais um pinheiro que logo irá abaixo.

A alardeada capital ecológica não existe mais. Está mais para Nova York do que para Terra dos Pinheirais. Pensando bem, talvez Batel Soho não esteja tão errado assim.

Assina: Praça Miguel Couto ou Pracinha do Batel ou Praça do Soho ou Pracinha Mutilada ou… sei lá quem sou! Só sei que preciso retornar ao meu psicanalista.

Publicado em Meio ambiente

Mensalão: o supremo do Supremo

12/10/2012 por bonat

O apresentador anuncia as manchetes do telejornal da manhã. A primeira imagem é dele. Profissionais de tevê são competentes. Sabem como despertar nossa atenção. Mas tenho que sair. Desligo o aparelho e desço. Passo pelo porteiro, que emite sua opinião sobre o tempo e sobre ele. Curitibano fala do tempo antes de dar bom-dia, quando dá! Na padaria, a conversa gira em torno dele e do preço do pão. É na fila do caixa que as pessoas constatam que a inflação é muito maior do que a oficialmente anunciada. Passo na banca e novamente encontro com ele, agora ao lado de craques, habituais frequentadores das primeiras páginas. Dono de jornal não é bobo. Conhece e alimenta nossa paixão pelo futebol. Já de volta, durante o café, minha mulher reclama que os filhos não têm ligado e puxa conversa sobre ele. Mães esquecem que os filhos têm que dar duro para pagar a escola dos filhos, cada vez mais caras, pois o ensino público não lhes oferece opção de qualidade. Ligo o computador e tomo um susto. Nas mídias sociais, ele já é o novo presidente. A internet tem o poder de eleger até quem não é candidato.

O brilhante currículo de Joaquim Benedito Barbosa Gomes tem-se espalhado aos milhões pelas redes sociais. Um filho de pedreiro do interior de Minas, que precisou trabalhar enquanto estudava, e tornou-se, com todos os méritos, Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Pode ser que ele nunca tivesse pensado em envolver-se em política. Se pudesse, sequer leria as maçantes linhas e entrelinhas de cerca de 50.000 páginas de um processo envolvendo políticos. Mas, na condição de relator da ação penal 470, viu-se obrigado a debruçar-se sobre aquele imbróglio todo, que daria um bom roteiro de romance policial. Poderia ser outro, mas o destino lhe reservara a difícil missão, provavelmente a mais espinhosa até hoje cumprida por um ministro da mais alta corte. Involuntariamente, se tornaria famoso, pois sua tarefa seria acompanhada por milhões de brasileiros angustiados.

A dedicação e imparcialidade com que se aprofundou no caso conhecido por mensalão teve o dom de acordar os brasileiros de sua letargia cívica. A descrença de que, algum dia, os envolvidos no maior esquema de desvio de dinheiro público iriam responder pelas ilicitudes cometidas, transformou-se num tsunami, capaz de lavar a alma daqueles de quem os impostos aspiram perto de 40% do suor do seu trabalho.

Os ministros do Supremo, apesar de duas dissonantes e parciais exceções, reafirmaram a independência do poder judiciário. Tiveram a coragem de fazerem-se de surdos, cegos e mudos, e julgaram, como de seu dever, conforme os autos. Contrariaram políticos sem ética, ávidos para que prevalecesse a visão política, desejo dos atores de uma peça na qual, ao seu final hollywoodano, os envolvidos viveriam felizes para sempre.

Mesmo que, ao término do processo, a pena dos réus venha a ser branda, há muito a comemorar. Mais do que comemorar, renova-se a esperança de uma população inteira no surgimento de um Brasil pós-ação penal 470.

O agora famoso relator do mensalão, não só cumpriu a lei feita pelos políticos, como a defendeu contra políticos que tentaram driblá-la. Superou pressões, algumas veladas, outras ostensivas, internas umas, como a nota assinada por seis presidentes de partido, externas outras, como a da ameaçadora comissão interamericana de direitos humanos da OEA.

O brasileiro, esperançoso por excelência, ainda sonha em ter um mandatário com o seu perfil. Presidente virtual ele já é.

Publicado em Nacional, Política

Contestado: 100 anos de uma guerra cabocla

23/09/2012 por bonat

No início de novembro, uma Companhia de Florianópolis e uma Brigada de Curitiba estarão chegando a Três Barras. Ambas se autodenominam indestrutíveis. Logicamente, vão querer provar sua indestrutibilidade quando estiverem frente a frente. Há cem anos, essa notícia provocaria, no mínimo, inquietação. Havia iniciado a Guerra do Contestado, com a morte, no combate de Irani, do coronel João Gualberto e do monge José Maria, em 22 de outubro de 1912.

As “indestrutíveis” acima são viaturas militares antigas, recuperadas por pessoas abnegadas, dedicadas à preservação da história. Cuidam-nas com tanto carinho, que elas aparentam ter acabado de sair da fábrica. Segundo seus restauradores, o importante é preservar a “alma da viatura”. Sempre que chamadas, as associações sem fim lucrativo que eles criaram se fazem presente em eventos de natureza cultural, histórica e cívica. Abrilhantam, por exemplo, os desfiles de sete de setembro.

Agora, com a Guerra do Contestado completando 100 anos, eles estarão em Três Barras, a fim de prestar homenagem aos cerca de 20 mil brasileiros, soldados e civis, que tombaram naquele conflito.

A região contestada abrangia uma rica área, motivo de disputa entre Paraná e Santa Catarina. A questão de limites, desde meados do século XIX, punha em litígio os dois estados. Políticos locais interesseiros e a tradicional lentidão do judiciário em resolvê-la, prolongavam indefinidamente a sua solução.

Para complicar, como forma de pagamento pela construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, o governo federal – com a chancela dos estaduais – havia permitido que a Brazil Railway Company explorasse a madeira existente numa faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. O problema é que na região atravessada pelos trilhos habitavam caboclos, pessoas simples, que viviam em total abandono por parte das autoridades. Tratava-se de uma terra de ninguém, onde, devido à ausência do estado, imperava o banditismo. Foi esta gente abandonada que teve que sair da terra da qual, ao menos, conseguia tirar o seu sustento.

Logo, não foi difícil para figuras místicas de monges, que perambulavam pelo sul do país com o dom de curar multidões sofredoras, atraí-la com seu messianismo. A Igreja os abominava, uma vez que suas práticas não se coadunavam com a ortodoxia católica. Um desses monges foi José Maria. Alfabetizado, conhecedor de ervas medicinais, milagreiro, logo passou a ter um batalhão de seguidores, muitos dos quais haviam sido expulsos de suas terras.

Quando José Maria tombou em Irani, a fim de facilitar a sua ressurreição, os fiéis o sepultaram apenas com tábuas. Os caboclos acreditavam que ele voltaria acompanhado de um “exército encantado”, que os ajudaria a fortalecer a “monarquia celeste” e a derrubar a república, para eles um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos “coronéis”.

As atrocidades chegaram a um ponto tal, que o Exército foi chamado a intervir. O conflito já estava radicalizado. O comando coube ao General Setembrino de Carvalho. As tropas cercaram a área e, à medida em que o cerco apertava, foi-se reduzindo o poder do “exército encantado”. Após a conquista dos redutos de Pedras Brancas e de São Pedro, deu-se uma debandada geral dos revoltosos. A guerra chegara ao fim.

Como agravante, durante o conflito, um surto de tifo levou à morte cerca de seis mil pessoas. Para evitar que ele se alastrasse ainda mais, foram improvisados fornos, onde os corpos eram cremados logo após o óbito.

Além dos milhares de mortos, quem também saiu perdendo foi o Paraná. O acordo de limites, assinado em 1916, estabeleceu que a área contestada, que corresponde à metade oeste do Estado, ficaria com Santa Catarina.

Mas, além de Santa Catarina, quem ganhou? Obviamente que não foram os soldados e revoltosos mortos. Na verdade, poucos lucraram. No parágrafo abaixo estão dois, embora haja mais.

Em Três Barras, sede da Southerm Brazil Lumber and Colonization Company, os americanos montaram a maior serraria da América Latina para transformar em madeira as árvores derrubadas às margens da ferrovia. O secretário de obras públicas do Paraná, José Niepce da Silva, por não ser conivente com tal situação, pediu demissão. Já o vice-governador do Estado, Affonso Camargo, que era também advogado da Lumber, defendia os interesses da companhia em detrimento do interesse público. Enquanto o primeiro caiu no ostracismo, Affonso Camargo tornar-se-ia governador por dois mandatos. Em Santa Catarina, o advogado Nereu de Oliveira Ramos, filho do governador Vidal Ramos, também defendia os interesses da Lumber. Fez brilhante carreira política, chegando à Presidência da República.

Claro está que não será a esses, nem a outros do mesmo time, que os “indestrutíveis” pretendem prestar homenagem em Três Barras!

Eleições: vivas ao cavalete!

13/09/2012 por bonat

Houve tempo em que eleição e poluição eram palavras sinônimas. Postes, viadutos, passarelas, muros e tudo mais que servisse para rabiscar ou colar cartazes tornavam-se vítimas dos candidatos. Passado o pleito, dá-lhe dinheiro público para limpar a sujeirada! Em vista disso, a justiça eleitoral resolveu entrar em ação. A Resolução 23.370 normatizou o assunto.

Hoje, o que se vê é um oceano de cavaletes. Na direção em que se olhe, lá estão eles, sorridentes, pedindo nosso voto. Às vezes, atrapalham um pouco a locomoção dos transeuntes. Mas isso não é nada quando comparado à sujeira de tempos idos.

Num jogo de pode versus não pode, quem saiu ganhando foi o cidadão. Pode, por exemplo, entre 6 e 22 horas, usar cavaletes e outros objetos de fácil remoção que não atrapalhem o trânsito de pessoas e veículos. Em contrapartida, não pode afixar cartazes ou qualquer tipo de propaganda em bens públicos e de uso comum, como postes de iluminação, sinais de trânsito, vias públicas, passarelas e paradas de ônibus. Quem desrespeitar é multado, num valor que varia entre R$ 2.000 e R$ 8.000. Pouco? Aparentemente sim, pelo menos para candidatos de bolsos recheados. Mas eles sabem que a multa maior virá das urnas.

O eleitor agradece, a cidade agradece, o contribuinte agradece. Estamos, enfim, livres das pichações que, em época de eleição, emporcalhavam todos os espaços, urbanos ou não. Aplausos para a justiça eleitoral! Vivas ao cavalete!

Mas parece que nem todos pensam assim. É o que tem revelado a moda de destruir cavaletes. Recuso-me a acreditar que a ordem emane dos candidatos ou dos partidos. Transformar em lixo o símbolo do aprimoramento da nossa democracia seria um tiro no pé, além de um tiro na própria democracia. Provavelmente seja iniciativa individual de quem não gosta de um ou outro candidato. Nada mais do que isso.

Inspiração diferente tiveram o diretor de arte Victor Brito e o ilustrador Marco Furtado. Como não existem fiscais suficientes para verificar se a lei está sendo cumprida e a fim de protestar contra a propaganda política irregular, criaram a Cavalete Parade, manifestação que propõe transformar cavaletes irregulares em arte urbana. O nome, segundo eles, faz referência à famosa Cow Parade, mostra que espalha vacas customizadas pelas cidades: “a ideia é pegar emprestado um cavalete em situação irregular e fazer uma intervenção artística por cima, cobrindo nome, rosto e número”. A iniciativa parece boa, mas traz embutido certo risco: além de tentar fazer justiça com as próprias mãos, o movimento poderá vir a ser infiltrado por gente que só procure “propaganda irregular” de adversários políticos.

A democracia é uma entidade ingênua. Daí a sua fragilidade. Por isso, requer todo tipo de cuidado. Se um dia conseguirem acabar com os cavaletes, poderá ser tarde para, mais uma vez, chamarem a cavalaria!

Por falar em cavalaria, você já escolheu seu candidato? Ele não precisa ser, exatamente, de Cavalaria…

Publicado em Nacional, Política

Curitiba sem carnaval e sem natal

01/08/2012 por bonat

Pessoas que fugiam da miséria e das guerras em seus países foram chegando e instalaram-se no primeiro planalto paranaense, juntando-se a portugueses, índios e negros que já viviam por aqui. Poloneses, alemães, ucranianos, russos, italianos, japoneses, holandeses, sírios, libaneses e muitos outros passaram a cultivar a terra, a produzir verduras, hortaliças, carnes, laticínios e móveis. Montaram pequenas indústrias. Algumas cresceram. A maioria já não existe, como Prosdócimo (refrigeradores), Providência (cervejas), Cimo (móveis), Essenfelder (pianos). Outras mantiveram o nome, mas acabaram vendidas. Essas mesmas pessoas chegaram até a controlar um banco de amplitude nacional, o Bamerindus, que também desapareceu.

A questão, para a qual não se encontra resposta, é como uma gente trabalhadora, corajosa para se embrenhar no sertão e transformá-lo em progresso, até hoje não conquistou o mesmo êxito em outros setores.

A justificativa mais comum tem sido sua timidez. Para comprová-la, citam o desanimado carnaval curitibano. Apesar do insistente apoio do poder público, os desfiles revelam total ausência de entusiasmo. Nem as crianças das escolas de samba conseguem disfarçar sua tristeza. Nas imagens em que aparecem em close, chama mais atenção a atraente publicidade das bebidas alcoólicas que patrocinam a pobre festa de um Momo, via de regra, também desalentado.

Outra suposição é a autofagia que impera entre os políticos paranaenses. Mais preocupados com seus projetos pessoais, não defendem os interesses do Estado. Autodestruindo-se, acabam destruindo o Estado.

Foi o que aconteceu com o Bamerindus. Apesar dos erros cometidos em sua gestão, havia como salvá-lo. Mas nem o governador nem os representantes em Brasília, por serem adversários políticos de José Eduardo de Andrade Vieira, o presidente do banco, moveram uma palha em sua defesa. Para azar de José Eduardo, o próprio presidente Fernando Henrique, de quem era ministro e para cuja eleição havia contribuído, virou-lhe as costas. Adepto da globalização, FHC a dizia inevitável. O Brasil, concordasse ou não, seria globalizado. O mais interessante é que não globalizava ninguém! Só quem podia globalizar eram as grandes potências. Sobrou para o Paraná. Falido em 1997, o Bamerindus foi parar, embalado para presente, no colo dos ingleses.

Ainda bem que, mesmo tendo desaparecido, ele deixou um legado que é orgulho dos curitibanos. Um dos poucos eventos da capital paranaense merecedor de figurar no calendário turístico nacional, o coral Bamerindus, hoje HSBC, é um espetáculo emocionante que se repete a cada ano. Resultado de um projeto social, ele é formado por crianças carentes, que saíram dos seus lares por determinação judicial por se encontrarem em situação de risco. Não sei se a contragosto dos novos proprietários, mas as crianças continuaram a ser apoiadas pelo banco.

Uma recente notícia foi recebida com preocupação pelos curitibanos: a de que o Ministério Público do Trabalho, tendo recebido denúncia (com que interesse?) de que os menores estão sendo explorados, deu início a uma investigação. Teme-se que as crianças, que se orgulham de participar do coral, que têm alegria de se sentirem artistas, que são apoiadas e cobradas em relação aos estudos, percam tudo isso.

Caso o pior venha a acontecer, algumas talvez migrem para os desanimados desfiles de carnaval. Neste caso, em breve veremos imagens de seus olhares tristes, emoldurados por propagandas de cerveja. Aí, como criança e álcool não combinam, espero que o Ministério Público receba, e acate, nova denúncia.

Publicado em Datas marcantes, Turismo

A mãe de todas as engenharias

18/07/2012 por bonat

Boa notícia não é notícia. As racionalmente lógicas também não. Estudantes de jornalismo aprendem, desde cedo, que um cachorro morder uma criança não chama atenção. No entanto, se a criança morder o cachorro…

Mas, atualmente, são tantas as manchetes sobre superfaturamento em obras públicas, que um cachorro morder uma criança deveria ser capa de revista, como poderia ter acontecido com a entrega à Infraero, pela engenharia do Exército, da pista principal do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP). Pouca gente tomou conhecimento de que o Exército não só concluiu a obra com quatro meses de antecedência, como, principalmente, a um custo 30% menor do valor previsto. Foram construídas duas pistas secundárias de saída rápida, reasfaltados 1.060 m, além dos trabalhos de iluminação, sinalização e grooving (ranhuras para facilitar a frenagem). Mas como era um cachorro mordendo uma criança…

É sabido que a mãe de todas as engenharias são os exércitos. A primeira civilização a possuir uma força especialmente dedicada à engenharia militar foi a romana. Suas legiões contavam com os “architecti”, corpo de engenheiros responsável por feitos notáveis, como a construção, em algumas semanas, de fortificações de 60 quilômetros de extensão. Na costa mediterrânea da Europa, deixaram obras que podem ser visitadas até hoje. No sul da França, construíram, antes de Cristo, um aqueduto de 50 quilômetros para abastecer a cidade de Nîmes. A ponte sobre o rio Gard, com seus 49 metros de altura, patrimônio da UNESCO, ainda resiste para comprovar a sua capacidade.

Entretanto, foi com Napoleão que a engenharia militar tornou-se ciência. Em 1747, surgiu a École Nationale de Ponts e Chaussés (Escola Nacional de Pontes e Estradas), primeira escola de engenharia do mundo, até hoje das mais prestigiosas da Europa. Grandes matemáticos foram engenheiros do Pequeno Corso. Entre eles, Gaspard Monge, criador da geometria descritiva, solução de um problema de fortificações, mantida como segredo militar durante 15 anos.

No Brasil Colônia, os engenheiros militares brasileiros absorveram e aprimoraram a arte portuguesa de planejar e construir fortificações, edificações e estradas. Algumas de suas obras ainda fazem parte da nossa paisagem, como bastiões de nossas fronteiras marítimas e terrestres. Em 1792, foi criada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, primeira escola de engenharia das Américas, que deu origem ao Instituto Militar de Engenharia e à Escola Politécnica da UFRJ. Em 1874, a Real Academia estendeu o acesso a civis, resultando na separação do ensino civil do militar, fazendo surgir os engenheiros civis.

A universidade mais antiga do Brasil, a Federal do Paraná, que agora comemora seu centenário, teve como criadores, além do médico Victor Ferreira do Amaral, outros idealistas. Entre eles, alguns militares, como Nilo Cairo da Silva, que antes de tornar-se médico formara-se engenheiro militar, Manuel de Cerqueira Daltro Filho, Mário Tourinho e Guilherme Baeta de Faria, o projetista do prédio da praça Santos Andrade, um dos símbolos da capital paranaense.

Quem conhece o extraordinário acervo de realizações da engenharia militar brasileira ao longo dos tempos não se surpreendeu ao saber que ela concluiu a obra de Cumbica antes do prazo e a um custo menor. Mal comparando, foi o mesmo que um cachorro ter mordido uma criança. Fazer o quê? Isso não interessa à imprensa. Seu único intuito é vender jornal. Se não conseguir, jornalista perde o emprego.