O olhar da Baronesa

Mais um ano se vai. Neste, como nos anteriores, uma fotografia, a mesma de sempre, de cavalos e cavaleiros perseguindo estudantes no Rio de Janeiro, volta e meia apareceu em revistas, jornais e na internet.

Em 2010, o diferencial foi a UNE ter ganho de presente uma nova sede, que consumirá R$ 44,6 milhões, o que não seria de nossa conta, desde que não saíssem do erário público. A culpa recairia, aparentemente, naqueles da foto de 1968, repetida incessantemente até que a razão maior fosse agora revelada: sacar dos cofres da viúva muito além do necessário para uma obra daquele porte.

Embora pareça patético, não é despropositado defender os equinos, que não merecem continuar a ter a imagem, por mais tempo ainda, maculada. Para você compreendê-los melhor, relato o caso que tive com Baronesa naqueles tempos longínquos.

Disseram que para entrar na baia, bastava dar um tapa na parede, que ela logo se afastaria para o lado. Uma palmada, um coice. Segunda palmada, outro coice. Só depois da terceira é que sua anca moveu-se o suficiente para eu passar espremido. Quando, finalmente, consegui chegar ao lado de sua longa face, ela fulminou-me com um olhar de “aqui não, guri”, o que eu, aos dezoito anos, realmente era.

Assim começou meu relacionamento com Baronesa, uma das inúmeras exigências curriculares da Academia Militar, que custou-me alguns tombos e voltas a pé até a baia. Travamos luta constante, um tentando provar que era mais forte e mais inteligente do que o outro.

No final do ano, Baronesa se revelaria uma campeã. Zerou, comigo em cima, a pista de saltos, ultrapassando com estilo todos os obstáculos, provavelmente para não ter que repeti-los. Queria mesmo era ver-se livre de mim e antecipar suas férias de verão.

Enquanto isso, o pau comia em Paris. “É proibido proibir”, ouvia-se em Champs-Élysées, logo repetido por alguns jovens cariocas. Gravuras de estudantes, cavalos e cavaleiros, de lá e de cá, correram o mundo. Um olhar retrospectivo impõe uma conclusão incômoda: se não havia guerra, com certeza também não havia paz. Mais incômodo ainda é admitir que havia guerra entre as duas potências, enquanto a paz era vitimada em outras nações.

Portanto, apesar de não ter formado com Baronesa o que os especialistas denominam “conjunto”, julgo importante afirmar que ela e seus semelhantes não merecem ser considerados inimigos eternos dos estudantes. Nem eles, nem os que os montavam nos anos sessenta.

O incrível é ver aqueles que hoje se beneficiam do “proibido proibir” francês admirarem um contumaz proibidor, o senhor Hugo Chávez. Existe aí mais do que uma contradição. Há um parodoxo vicioso, tal qual “erário privado”, como eles supõem ser a fonte da qual sorverão milhões para erguer a nova sede.

Embora poucos comentem, muitos os acompanham com o mesmo olhar de indignação da Baronesa, querendo dizer: “que feio, guris”.

9 Respostas para “O olhar da Baronesa”

  1. alfredo arruda camara Diz:

    Caro Bonat:tenho a honra de ser o teu 1º comentador em 2011…
    Enquanto estão se bronzeando nos veraneios,eu aproveitei.
    Algumas considerações:1)Engraçado como ,quando se trata de dinheiro público,as pessoas perdem a noção de dimensão.Veja: 50 milhões custariam 50 apartamentos de luxo em qualquer capital “dexte país”.2)Vc me fez lembrar do “pecherrão” que eu pilotava canhestramente.O nome da figura era “Granadeiro”.Eu notava nele um olhar de amuo e desconforto,quando eu chegava à baia.Não fazíamos uma mistura homogênea,definitivamente.Contudo,ele não tinha o direito de me lançar ao solo,maldosamente,como o fez várias vezes.Um abração,amigo e,mais uma vez obrigado pela bela crônica.Você é um craque.

  2. bonat Diz:

    Astorga Diz:

    28/12/2010 às 16:28 Editar

    Prezado Bonat, diante de tantas aberrações promovidas pelos atuais governantes, o melhor mesmo é recordar da Baronesa. No meu caso o Urari, primo dela !

  3. bonat Diz:

    Paulo Cesar Diz:

    28/12/2010 às 18:12 Editar

    Também tive minha Baronesa na AMAN e prefiro histórias desse tipo.
    Quanto a UNE, pode ser que seja mais um imóvel que tenhamos que fechar, no futuro. Já podemos relacionar mais alguns!!!!!!
    Paulo Cesar

  4. bonat Diz:

    Naldir MARIANO da Fonseca Diz:

    28/12/2010 às 22:32 Editar

    Caro amigo Bonat, realmente e o que vemos, e acho que continuaremos a ver muito mais e durante mais alguns anos.Em 61/62/63e 64, eu era aluno do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro.
    Parabens pela sua bela crônica. Que o Grande Arquiteto proporcione a voce e todos os seus um ano de 2011 cheio de Luz, Paz e Prosperidade.
    Um fraternal abraço.
    Mariano – Al 271

  5. bonat Diz:

    Dirceu Rigoni Diz:

    29/12/2010 às 00:58 Editar

    Estimado Hamilton,

    O Brasil ganha mais um patrimônio histórico de um ícone da arquitetura mundial. Vamos causar inveja ao mundo, pois não haverá outra entidade estudantil no planeta com uma sede desse porte. Paulo Abrão é um pobre coitado intelectual. Mas que custa caro.

    Parabéns pela sua crônica e, tomando a liberdade de desejar um PRÓSPERO ANO DE 2011, a todos os seus amigos e familiares que fazem comentários em seu blog.

    Forte abraço,

    Zé Dirceu.

  6. bonat Diz:

    Uraci Diz:

    29/12/2010 às 13:20 Editar

    Caro Bonat.
    Como sempres suas cronicas são muito boas.
    A tua Baronesa corresponde ao meu Urus que ainda mordia nosso traseiro na hora de trepar (não se esqueça que sou infante).
    Com relação à nova sede da UNE, será mais uma obra para superfaturarem. Esta é a maior tazão da nova sede.
    Abraço
    Uraci

  7. bonat Diz:

    Salazar Diz:

    29/12/2010 às 18:01 Editar

    Meu caro BONAT!
    Como sempre nota 10!
    No meu tempo e ponha tempo nisso( mais de 57 anos) “JIMI” era cavalo “velho e manso”, o mais procurado- no picadeiro- para a aula de equitação do Ten Cav GOULART- o Instrutor!
    Bons tempos! O meu Exército…sem comentários…Um abração
    Salazar

  8. bonat Diz:

    Avelleda Diz:

    30/12/2010 às 17:44 Editar

    Excelente comparação, caro amigo.
    Os equinos, bem como os que com eles formavam os conjuntos, na verdade, não merecem ter a cara estampada até hoje, quando ontem, há 42 anos atrás, não estavam fazendo outra coisa que não manter a ordem. E que sorte que a mantiveram.
    Por curiosidade, naquela época meu cavalo chamava-se “EJETOR” – com certeza nunca formamos um conjunto.
    Tampouco gostava de goiabada, como diziam ao entrar na baia – era fria.
    Abraços.
    Avelleda

  9. bonat Diz:

    PChagas Diz:

    01/01/2011 às 16:31 Editar

    Caro Hamilton
    Assim como a Baronesa dobrou-se, admitindo seus méritos de cavaleiro, formando eficiente “conjunto” com você, eu, mais uma vez, dobro-me reverente aos seus méritos de cronista, pela elegância do estilo, pela coerência na escolha e na abordagem do tema e pela homenagem que presta a todos os “Nobres Amigos” que participaram, humilde e silenciosamente, da nossa formação de soldados!
    Fraterno abraço
    PChagas

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