Artigos de 2011

AMAN, nous sommes contents de vous!

19/12/2011 por bonat

“Soldats, je suis content de vous!” Paulo Chagas, com a rapidez da sua cavalaria, arremessou-nos com voz firme, reverberada por todos os cantos do imponente auditório acadêmico, até a aula do Coronel Panizzutti. Professor de oratória, ele valia-se de Napoleão para nos revelar os segredos daquele notável soldado-orador no uso das palavras para conquistar mentes e corações.

A partir daí, ao percorrer as linhas da sua bela alocução, Chagas folheou o livro de um tempo vivido há mais de quatro décadas. Sua voz continuou firme, por vezes embargou, mas não o impediu de chegar a 18 de dezembro de 1971. Na mesma toada com que a emoção tentava lhe derrubar, gotas de lágrimas teimavam em umedecer os olhos de todos. Mas, valentes, também conseguimos chegar juntos ao objetivo: o 18 de dezembro daquele ano longínquo.

Antes de a reunião encerrar, convidados a entoar a canção da Academia, enchemos os pulmões. Queríamos, como nos anos setenta, fazer tremer aquelas paredes e os valores que elas representam e preservam. Dessa vez, porém, fracassamos. Embora tentássemos, já no segundo verso as lágrimas uniram-se e, traidoras, viraram cachoeira. O hino, que era para ser de milhões de vozes, reduziu-se a um murmúrio. Que nos desculpem as vetustas paredes. Dessa feita, seus bravos cadetes não conseguiram fazê-las vibrar. Derrotou-nos a emoção.

Fomos para Resende, vindos dos mais remotos brasis, como filhos em busca do aconchego materno. Irmanados, embora distantes, desejávamos matar saudade da velha mãe. Não só dela, mas dos nossos irmãos e da nossa juventude. Sentíamo-nos obrigados a prestar-lhe contas após tantos anos decorridos, pois a sabemos exigente, não apenas com os filhos, mas também consigo mesma.

Fomos surpreendidos pelo rejuvenescimento daquela Senhora de 200 anos. Diante dela, parece que só quem envelheceu fomos nós, embora sejamos ainda sessentões.

Reencontramo-nos não só para rememorar tempos idos, seus personagens, seus fatos, seus desafios. Valho-me novamente do amigo Paulo Chagas: “Reencontramo-nos num lugar onde fomos abrigados, acolhidos, protegidos, instruídos, desafiados e testados. Numa casa que não é apenas uma casa, tampouco uma simples Academia Militar, mas, por sua importância em nossas vidas, pela maneira especial com que forjou nosso caráter, nossos sentimentos e nossos corações, deve ser e é vista e sentida por nós como uma entidade materna, digna do nosso mais puro amor e da nossa eterna e sincera gratidão”.

É justo manifestar o nosso agradecimento e homenagem aos companheiros de turma e aos atuais integrantes da Academia Militar das Agulhas Negras, que se esmeraram para nos proporcionar momentos de inenarrável emoção. A eles e à sempre jovem bicentenária Academia, parodiando Bonaparte, queremos proclamar: “Nous sommes contents de vous!”

Por fim, já que o “content” de Napoleão tem o significado de orgulho, permitam-nos acrescentar, com o coração vibrante de jovens Aspirantes da Turma Marechal Castello Branco: “Nous sommes contents de nous mêmes!”

Os votos de Dona Erda

23/11/2011 por bonat

É fácil esquecer-se de algo. Basta confiar na memória. Sempre tive muita dificuldade para lembrar o nome das pessoas. Por isso, ao longo do tempo, tenho-me valido de um velho e eficaz método: o de anotar. Anotar tudo.

Tem gente que recorre a outros artifícios. Para eles, mnemônica é a palavra salvadora. Ela vem de Mnemosine, deusa que personificava a memória na mitologia grega. Daí chamar-se mnemônico o processo que muitos utilizam para lembrar-se de coisas essenciais. Cícero foi dos primeiros a usá-lo em seus famosos discursos, transformando-o em método, em sua obra De Oratore.

Ele baseia-se no princípio de que a mente humana tem mais facilidade de memorizar dados quando estes são associados a informações pessoais, espaciais ou de carácter relativamente importante. Porém, estas informações têm que fazer algum sentido, ou serão igualmente difíceis de memorizar.

É um artifício indispensável a quem pretenda conquistar e manter clientes, seguidores ou, no caso dos políticos, votos. Entretanto, ao lado de sua reconhecida eficácia, mora o perigo dos estragos irreversíveis que pode causar.

O caso que agora passo a contar serve de alerta aos seus adeptos. O fato é real. Usarei nomes fictícios. Não que os tenha esquecido, pois os anotei, mas prefiro preservar a identidade da personagem principal.

Lelé era daqueles políticos falantes. Jurava que não mentia. O problema é que continuava falando, mesmo depois que as verdades haviam terminado. Beijava criancinhas, abraçava idosos e, dizem, dava bom dia a cavalo. Gabava-se da sua memória privilegiada. Bastava ser apresentado a alguém, para não mais esquecer o seu nome. Não revelava o truque. Talvez empregasse o processo mnemônico. Ninguém sabe.

Em campanha para deputado estadual, foi à Vila Tem-Tem, convidado por Dona Erda (pronuncia-se Érda). Líder local, ela era muito respeitada. Nunca fora candidata a nada. Gostava mesmo de ajudar, de fazer o bem, sem nenhum interesse pessoal. Quase uma santa. Por isso era querida.

O salão comunitário estava lotado. Perante mais de trezentas pessoas, Dona Erda foi só elogios ao candidato, a quem pediu votos, pois acreditava em suas promessas de fazer o progresso chegar à Vila Tem-Tem. Encerrou sob aplausos e gritos de “Lelé já ganhou”.

Chegou o grande momento: a vez de o nosso protagonista discursar. Por mais de meia-hora, ele deitou falação, prometendo transformar em paraíso o inferno que era a pobre Vila Tem-Tem . Ao final, sabedor do elevado prestígio de Dona Erda, resolveu pedir aos presentes que a aplaudissem.

Para sua surpresa, fez-se silêncio. Imaginando não ter sido entendido, repetiu: “Antes de encerrar, peço uma salva de palmas a esta brava lutadora, Dona Osta (pronunciou Ósta)”. A essa altura, Dona Erda, constrangida, já tinha saído à francesa, deixando-o a sós com a plateia irada.

Lelé perdeu a eleição. Na Vila Tem-Tem, nenhum voto. Se tivesse usado o velho e eficaz método de anotar, hoje seria deputado. Aprendeu tarde demais. Nunca mais se candidatou. Nem mais voltou à Vila Tem-Tem.

Poluidores: agora somos 7 bilhões

30/10/2011 por bonat

A Demografia estuda, entre outras coisas, as dimensões e a distribuição da população. Apesar de atraente, essa área da ciência só chama a nossa atenção de tempos em tempos, como agora, com o recente anúncio do Fundo da População das Nações Unidas de que o planeta terá 7 bilhões de habitantes.

Por ironia, esse desinteresse se deve, de certa forma, a Malthus, um estudioso do assunto. Ao não se confirmarem suas previsões catastróficas de que a superpopulação levaria a guerras em busca do “pão nosso de cada dia”, ele caiu em descrédito. A carnificina na Europa, provocada logo em seguida por Napoleão, atribuiu uma credibilidade inicial aos seus argumentos. No entanto, mesmo com as terríveis duas guerras mundiais do século XX, o tempo e a ciência se encarregaram de desmenti-lo.

O perigo é o debate demográfico permanecer totalmente fora das pautas, lembrado somente quando cifras expressivas, como 7 bilhões, são anunciadas.

O crescimento populacional tem dois extremos. Num deles está o bebê embarcado em algum ponto do planeta, em data próxima ao recente 31 de outubro. Ele pode ter sido festejado tanto por alguma família do nosso bairro, quanto por outra da Ásia superpopulosa ou, ainda, da faminta África, onde as populações aumentam a taxas alarmantes.

Seja de onde for, apenas para atender às suas necessidades básicas, o novo passageiro consumirá energia. No entanto, como se espera que ele tenha uma boa qualidade de vida, de muito mais energia ele precisará. E só existe uma fonte para obtê-la: o planeta. Daí o nosso pecado original: somos todos poluidores, agora somando a expressiva quantidade de 7 bilhões.

No outro extremo encontram-se os que já embarcaram há muito tempo. Cada vez mais numerosos, igualmente graças aos avanços da ciência, eles (inclusive eu) não pretendem chegar tão cedo ao ponto final. Passageiros de primeira ou de última classe, todos (quase todos) optam por continuar embarcados nesta aeronave chamada Terra.

Entre esses dois extremos, os recém-chegados e os viajantes calejados, estão aqueles que devem se preocupar com a solução do problema: cientistas, ecologistas, pensadores, filósofos, sambistas, formadores de opinião e artistas. Sua missão: propiciar uma vida feliz aos milhões de humanos que nascem a cada ano e fazer com que, para todos, a hora do desembarque demore para chegar. Achou difícil? Pois acrescento outro desafio: sem exigir ainda mais energia do nosso querido e já cansado planeta.

Por isso, a demografia não pode ser um assunto menosprezado. Ela sinaliza que logo chegaremos aos assustadores 8 bilhões, mas que, por volta de 2040, a tendência será de encolher. Talvez nunca cheguemos à bomba dos 9 bilhões. Aí, muitos de nós já terão desembarcado. Mas nossos netos continuarão a viagem. Em nome deles, pedimos: não ignorem a questão populacional. Seria suicídio ou, no mínimo, uma tolice.

Publicado em Meio ambiente

Verdade: que palavra perigosa!

23/09/2011 por bonat

Que verdades buscará a comissão que está a ponto de nascer? As mesmas de Hitler? Quem sabe, as de Mussolini? Ou, ainda, as de Stalin. Tristes figuras, alquimistas políticos, capazes de transformar mentiras em verdades absolutas. Faz tempo que eles morreram. Mas, no Brasil, continuam influentes, à esquerda e à direita.

Os três pertenciam ao mesmo time: o totalitário. Contavam com o competente assessoramento de pessoas como Goebbels, para quem a mentira repetida à exaustão se tornaria verdade. Teoria que deu certo enquanto durou, sem antes causar a morte de 45 milhões de pessoas. “Ismo” era o sufixo que os irmanava e, ao mesmo tempo, transformava-os em competidores pela liderança mundial. O fascismo, de extrema direita, aliou-se ao nazismo, de esquerda. Ambos lutaram contra outro “ismo” de esquerda, o comunismo de Stalin. Quem pagou o pato, diga-se de passagem, foram os povos italiano, alemão e russo.

Os fascistas italianos foram simples coadjuvantes dos nazistas. Nunca é demais lembrar que nazista é a corruptela de nacional-socialista, como se auto-intitulam os filiados ao partido que hoje comanda o Brasil. Foram seus homólogos alemães que deram luz ao führer. À leste, Stalin usava métodos semelhantes, mais cruéis ainda, pois, quando o assunto era concentração de poder, não importava se milhões de pessoas fossem sacrificadas, mesmo sendo do seu próprio povo.

As monarquias absolutistas tinham ficado no passado. Para aquela turma da pesada – Stalin, Hitler e Mussolini – o importante era tornarem-se os neo-imperadores, donos da vida e da morte dos seus súditos.

Alguém escreveu que “En las monarquias, a las familias reales – mayormente parásitas y decorativas – el estado los ayuda a mantener su nivel. Pero en la república (ah, que gran concepto!) democrática (ah, que peligrosa palavra!)…”

A maior ameaça para a verdade são os mentirosos. Da mesma forma, o grande inimigo da democracia são os falsos democratas. Quando estes chegam ao poder, a primeira vítima é a verdade. Se for preciso, compram-na de uma oposição venal.

Eles sabem, exatamente, onde encontrar as verdades que simulam buscar. Elas deveriam estar em suas consciências, mas não estão. Estão em seus fantasmas, mas o importante é o poder, pelo poder. Por isso, nunca revelarão a verdade que só eles conhecem, da qual deveriam se envergonhar. Escondem-na sob a capa da grande mentira que, seguindo Goebbels, vivem incessantemente a propagar. Jamais confessarão que abandonaram à própria sorte jovens que convenceram a se embrenhar em florestas como a do Araguaia.

Ávidos por indenizações milionárias, hoje são como as antigas famílias imperiais: “parásitas y decorativos, como las famílias reales de las monarquias; el estado los ayuda…” E como os ajuda!

Democracia, que bela palavra! Que perigosa palavra na boca de mentirosos!

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Mário Vanin e o dispositivo

28/08/2011 por bonat

Mário não resistiu. Quando o mestre de cerimônias repetiu pela quarta vez a palavra “dispositivo”, ele perguntou: “Bonat, o que é dispositivo?” A crítica, em forma de desafio bem-humorado, educado e inteligente, partia do Prefeito, um homem de letras, que ao meu lado no palanque oficial, assistia a uma formatura no quartel.

Foi o bastante para eu me dar conta de que aquele chavão, que redizíamos várias vezes, era dispensável. Ao invés de “Fulano ocupará o seu lugar no dispositivo”, poderíamos ter dito simplesmente: “Fulano ocupará o seu lugar”. Fácil, não? Mas só depois do alerta do Vanin. Desde então, nunca mais permiti que se usasse “dispositivo” nos eventos do quartel nem das unidades que posteriormente eu viria a comandar.

Essa é apenas uma das várias lembranças que guardo de uma pessoa a quem aprendi a admirar. Por isso, lamentei muito ao saber de sua morte quando estive recentemente em Caxias do Sul para proferir palestra na ADESG.

Lembro do dia em que, mais ou menos às quatro da madrugada, ele me ligou. Ambos havíamos passado a noite em nossos gabinetes, tal a gravidade da situação. Eu contava os prejuízos que um vendaval causara desde a meia-noite. Os telhados de todos os pavilhões do quartel haviam sido destruídos. Do outro lado da linha, Vanin, angustiado com a sua Caxias do Sul, necessitava de apoio. A cidade vivia um caos. Pedi que esperasse um pouco, pois precisava de tempo para organizar-me a fim de conhecer a minha própria desgraça.

Claro que eu não iria deixar Caxias na mão. Uma hora depois, retornei: “Prefeito, posso apoiá-lo com cinco equipes de vinte homens”. Mais tarde, soube que uma delas ficara encarregada de liberar a avenida que margeia os pavilhões da Festa da Uva, interditada pela queda de dezenas de árvores. Logo da Festa da Uva, sua paixão como símbolo dos caxienses, a quem Vanin tanto amava!

Ele sempre foi uma presença marcante na Semana Farroupilha. Algumas vezes, quando todo mundo tinha ido embora, permanecíamos até de madrugada com um restrito grupo de amigos. Saboreávamos, então, as histórias que narrava com sua simpatia de ótimo contador de causos. Era o momento em que deixava a formalidade do cargo, para voltar a ser o que sempre foi: o Mário, homem do povo, simples e fidalgo. Por isso, e para ajudar a sua gente, sem ser demagogo, muito menos populista, havia se tornado prefeito.

Graças ao seu apoio, consegui erguer o monumento em homenagem aos pracinhas caxienses da Força Expedicionária Brasileira que atualmente embeleza o largo de São Pelegrino.

Não fosse Vanin e a perimetral que construiu, os caxienses viveriam hoje engarrafados num trânsito sufocante. Não fosse ele, e os moradores da Sinimbu e de outros logradouros não suportariam o odor vindo das entupidas galerias subterrâneas de água e esgoto.

Ele deveria ter alardeado isso e muito mais que fez. Mas, ético, preferiu não gastar dinheiro público em propaganda. Esperava que alguém falasse por ele. Ninguém falou. Pois hoje eu proclamo: o meu amigo Mário David Vanin foi um dos maiores prefeitos de Caxias do Sul. E afirmo isso com um olhar crítico de forasteiro, que passou aí somente cinco anos, e tem uma percepção muito desconfiada a respeito dos políticos em geral. Entre eles, Vanin foi exceção.

Publicado em Nacional, Política

O trem-bala não saiu da gare, por enquanto

14/07/2011 por bonat

Enfim, uma boa notícia. Ninguém apareceu. Por enquanto, o trem-bala permanecerá na gare. Os empresários, que não são bobos, acharam pouco os 34 bi avaliados pelo governo. Segundo eles, tocar a obra não sairá por menos de 50 bi. Parece que têm razão, pois não deve ser fácil escavar mais de 100 quilômetros de túneis.

O diminuto “bi”, que vem depois do 50 aí de cima, não transmite a verdadeira grandeza dos valores em discussão. Se eu tivesse escrito 50 bilhões, ainda assim não provocaria muito impacto. Para ser mais incisivo, usarei todos os zeros que a cifra contém: R$ 50.000.000.000,00. Isso mesmo. Excluindo os desprezíveis centavos, são 10 poderosos zeros. Sempre é bom lembrar que o orçamento do Ministério dos Transportes contem ainda outros atraentes zeros.O amplo leque sob a responsabilidade dessa estratégica Pasta reflete-se no seu orçamento e explica a atração que ela exerce sobre os políticos em geral.

Esclareço que não foram as últimas notícias de corrupção no Ministério dos Transportes que me tornaram um crítico do trem-bala. Mas elas deram um empurrãozinho na decisão de expressar o que penso. O recente escândalo, envolvendo o ex-ministro Alfredo Nascimento, faz desconfiar que ele e seu time de confiança podem ter embolsado muito dinheiro ao longo dos mais dos 6 anos que ficaram por lá. Mesmo que o Supremo, mais uma vez, venha a concluir pela ausência de provas, todos os cidadãos sentem-se roubados.

Como desgraça pouca é bobagem, circula na internet (nem sempre confiável, é verdade) denúncia sobre o uso, pelo ministro afastado, de dinheiro público num affaire amoroso capaz de fazer até Derci Gonçalves ruborizar. Mas este é outro assunto e, além do mais, carente de comprovação.

Voltando ao trem-bala, a euforia causada pela boa notícia de ninguém ter aparecido foi imediatamente anulada pela persistência do governo, que já anunciou mudanças no modelo de licitação. Sua insistência aponta na direção dos cofres da união. Em tempos idos, empreendimentos desse porte seriam taxados de faraônicos. Hoje, não mais, embora existam inúmeras outras prioridades. Vou poupá-lo, caro leitor, de listar nossas carências nas áreas da saúde, educação, saneamento e segurança pública.

Tratarei apenas do igualmente carente setor dos transportes. Nele encontramos não só ferrovias, mas também aeroportos, rodovias, portos, metrôs e aquavias, estrangulando, como um gargalo, a circulação de pessoas e cargas, diminuindo nossa competitividade, elevando preços, maximizando o custo Brasil e ceifando milhares de vidas a cada ano. Os 50 bi, com seus 10 zeros, resolveriam muitos desses problemas.

Resta perguntar: quem tem mais pressa? Alguns poucos privilegiados que irão do Rio a São Paulo em apenas uma hora e meia? Ou, por exemplo, a carga do trem que sai de Cascavel para, somente depois de 18 dias, chegar a Paranaguá? Não podemos esquecer que cargas significam emprego para milhões de brasileiros. Para preservá-los, o faraônico bala poderia esperar mais um pouco em sua luxuosa gare.

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Brasília, um exemplo para o País

07/06/2011 por bonat

Nos anos 1950, o Brasil encontrava-se diante de um desafio. Sair do mundo rural e atrasado em que vivia, para entrar de vez na era industrial. Brasília simbolizaria essa passagem.

Bem antes, em meados do século XVIII, a necessidade de interiorizar a capital havia sido sugerida pelo Marquês de Pombal. A ideia foi retomada pelos inconfidentes e reforçada logo após a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808.

Em 1822, José Bonifácio já tinha um projeto de Brasil. Abolicionista convicto, defendia a transformação dos escravos em “cidadãos ativos e virtuosos”, e uma reforma agrária que substituísse o latifúndio improdutivo pela pequena propriedade. Propunha uma educação primária e gratuita para todos. Pregava pela transferência da sede do governo do Rio de Janeiro para uma cidade a ser construída nas cabeceiras do rio São Francisco.

Mais tarde, em 1883, na cidade italiana de Turim, o padre João Bosco teve um sonho profético: a capital do Brasil seria construída entre os paralelos 15 e 20.

Juscelino, astuto, perceberia que a hora havia chegado. Carismático, até hoje é aplaudido inclusive pelos cariocas, os grandes prejudicados por deixarem de ser o centro das decisões políticas.

Brasília teria que dar o exemplo ao Brasil. Assim imaginou Lúcio Costa ao traçar, numa folha de papel, dois eixos cruzando-se em ângulo reto, tal qual o próprio sinal da cruz, para, a partir dele, conceber o arrojado projeto que seria o escolhido para dar vida ao que muitos haviam sonhado. Em torno daquela imaginária cruz, se encontrariam diversas culturas atraídas para o Brasil Central. No máximo, quinhentas mil pessoas que, vindas de todos os cantos, seriam transformadas numa só alma.

Não há por que duvidar da honestidade do sonho de tantas pessoas. Mas, o que deu errado? Como Brasília chegou a uma perversa desigualdade social, sendo a quarta nesse critério entre todas as cidades brasileiras? Como explicar que, com tanta desigualdade, praticamente sem indústria e agricultura, representa hoje o segundo maior PIB per capita entre as capitais brasileiras? As respostas para essas questões, possivelmente, pessoas como Francenildo, o humilde e honesto caseiro, poderiam nos dar.

Na verdade, os sonhos começaram a ser desvirtuados assim que as obras iniciaram. Gastou-se muitíssimo mais do que o necessário. Talvez por isso, ao ser inaugurada em 1960, ela estava mais para avião do que para uma singela cruz. Os braços haviam se transformado em asas, balizando o setor residencial. O traço vertical passou a simbolizar o corpo de uma aeronave, cuja tripulação passou a sorver cada vez mais recursos da nação. Na Esplanada, já são poucos edifícios para tantos Ministérios. No Congresso, não cabem todos os senadores, deputados e assessores de todo tipo.

Com o tempo, em torno do belo avião que haviam construído, milhares de operários, denominados candangos, foram sendo amontoados nos diversos acampamentos das empreiteiras, dos quais Candangolândia e Novacap tornaram-se os mais famosos. Posteriormente, outros candangos chegaram com a esperança de receber algumas migalhas dos banquetes servidos a bordo. A população atingiu mais de 2,5 milhões, que, definitivamente, não formam uma só alma.

O mais intrigante é ter-se uma aeronave bonita, luxuosa, extremamente dispendiosa, mas que não decola. Como, segundo Lúcio Costa, Brasília deveria servir de espelho, ela não deixa o Brasil também decolar. Claro que não foi bem assim que ele sonhou.

Publicado em Nacional, Política

Por uma vida sem futuro

20/05/2011 por bonat

Eles sabem pescar. Conhecem técnicas para criar peixes. Mas não ensinarão nem uma coisa nem outra. Querem apenas que todos recebam peixe de graça, sem esforço algum, nem físico, nem mental. O programa “fome zero” está aí para isso. Desejam todos submissos e cativos à sua vontade.

Para que vontade? Tecnologia para quê? Por que se esforçar, se o peixe estará à mesa, pronto para ser consumido? Basta que digam: “Nóis tá cum fome”, e pronto. Porém, aquele que ousar dizer “estamos com fome”, está perdido. Não ganhará seu peixe. Será taxado de preconceituoso, um neo-preconceituoso, apenas por saber se expressar. Chegou a vez de discriminar aqueles que falam e escrevem corretamente.

O que ganham com isso? Muito, a começar pelos milhões de votos nas próximas eleições. Muitíssimo mais, quando mobilizarem os que recebem o peixe, a fim de defendê-los contra a imprensa, a oposição e as pessoas esclarecidas. Quando os acusarem de coisas como mensalão, dólares na cueca, fracasso nas provas do ENEM. Ou quando alguém ousar mostrar escolas aos pedaços, professores ganhando uma miséria, estradas em frangalhos, um dos piores sistemas públicos de saúde, ou a inflação galopante, escamoteada durante muito tempo para que pudessem eleger a senhora Dilma.

Sentimento de culpa, nunca tiveram ou terão. Culpa é e será dos americanos, do agronegócio, dos pecuaristas. Jamais será da dinheirama que entregaram a mais de cem mil ONGs, às centrais sindicais, aos espertalhões agraciados pela bolsa-ditadura, aos malandros do MST. Muito menos do que torraram em propaganda, nas viagens ao redor do mundo no confortável aerolula, regado a scotch importado. Quem sabe a culpada não venha a ser a professorinha que ganha 900 contos por mês?

Mas, se todos os acusados aí de cima conseguirem bons argumentos para se defender, que ponha-se a culpa nos milicos. Pronto, tudo resolvido. A ditadura paga a conta.

Assim, enquanto desviam a atenção do povão, fingindo que estão procurando ossos, podem gastar 1.000 reais por cada (cacofonia não é mais pecado) exemplar de “Por uma vida melhor”.

Sua autora deve estar rindo à toa. Recebeu 700 mil por sua “obra”. Graças à ela, o Brasil voltará mais rapidamente à pré-história da civilização. Nunca antes na história de um país, alguém terá conseguido tamanha proeza.

As grandes vítimas dessa paranoia ideológica governamental serão nossas crianças. Se continuarem assim, elas se transformarão nos dinossauros do III Milênio.

Enquanto isso, felizes da vida, os companheiros comemoram: “eles come os pexe, nóis fica co dinhero”. Coisas dos “intelectuais” do MEC, os mesmos incompetentes, responsáveis-irresponsáveis pelos dois últimos fracassos do caríssimo ENEM. Como não saiu do “borso” deles, dá-lhe festa!

Publicado em Língua Portuguesa

31 de Março – Sílvio Santos vem aí

18/03/2011 por bonat

O SBT, a rede do senhor Sílvio Santos, levará ao ar mais uma novela que, pelas primeiras imagens, será novo fiasco. Nada a se admirar. Mau gosto é uma tradição da rede.

Admirável mesmo foi a guinada – que considero histórica – de mais um reconhecido capitalista para a esquerda. E, veja bem, não de um capitalista qualquer, mas de um dono de banco. Não há nada mais capitalista do que um banqueiro. Os bancários sabem do que estou falando.

Embora fosse um banco falido, era, afinal, um banco. Falido porque, segundo o sorridente empresário, alguns diretores maquiaram os números. O senhor do baú da felicidade, mostrando ter aprendido a lição, afirmou que de nada sabia. Aquilo não era com ele. Chegou a dizer que nem de dinheiro gostava, afrontando nossa inteligência.

Aí, veio a Caixa Econômica Federal e adquiriu o falido Banco Panamericano, salvando o senhor do baú. Sílvio Santos ficou muito agradecido aos amigos que, usando o dinheiro do contribuinte, o tiraram de debaixo dos escombros, sem se saber ao certo por quê. Para demonstrar sua gratidão, ele autorizou (ou determinou?) que o seu SBT exibisse uma novela na qual, novamente, os militares serão execrados.

Moral desta história imoral: mais um banco faliu e os milicos pagarão a conta. Porém, ao menos desta vez, eles não estão sozinhos, pois contam com a agradável companhia dos contribuintes.

Acredito que você, caro leitor-telespectador-contribuinte, não conseguirá resistir até o terceiro capítulo do dito folhetim televisivo. Mas, se quiser tentar, informo que o primeiro capítulo parece que irá ao ar, por coincidência, no próximo 31 de março.

A meu ver, seu destino será um fracasso de público, como “Filho do Brasil”, filme patrocinado por capitalistas que vivem de benesses do Estado. Claro que, mesmo sem saber, você também o patrocinou. Ainda bem que nesta obra os milicos, ao menos, não foram execrados. Ou foram? Sei lá. A turma mente tanto que já estamos nos acostumando. Mas acostumar-se não significa aplaudir Pinóquio. Muito menos assistir aos seus grotescos e mentirosos filmes.

Não gostamos nem da direita nem da esquerda. Muito menos de capitalistas e comunistas. Amamos mesmo é o povo brasileiro que, inocentemente, tornou-se vítima de tantas safadezas.

Publicado em Datas marcantes

Monte Castello

27/02/2011 por bonat

O passado certamente não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. Reencontrar, nas comemorações da Tomada – prefiro Conquista – de Monte Castello, os remanescentes dos vinte e cinco mil pracinhas que lutaram na Itália, propiciou-nos retornar a um momento importante da nossa história.

A mistura explosiva de um orador fluente e de um país mergulhado no caos, devido às pesadas restrições que lhe foram impostas em Versalhes, havia levado à ditadura nazista. Com a ajuda de Joseph Goebbels, espécie de marqueteiro da época, tornou-se fácil a conversão do povo alemão. Hitler governou com poderes ilimitados. E deu no que deu: quarenta e cinco milhões de mortos.

O 21 de fevereiro de 1945 foi um dia de glória para os brasileiros. Finalmente, a bandeira verde e amarela fora hasteada em Monte Castello, para não mais sair. As inúmeras baixas sofridas nos quatro ataques anteriores não haviam intimidado nossos soldados. Ao contrário, deram-lhes mais ânimo e coragem para enfrentar as tropas alemãs, entricheiradas em posições elevadas e fortemente artilhadas. A quinta tentativa não poderia falhar, como não falhou. Abria-se, enfim, o caminho para Bolonha. O Exército de Hitler estava agora praticamente derrotado no front italiano.

A serenidade dos octogenários pracinhas fundamenta-se no orgulho de terem ajudado a pôr fim na louca aventura nazista. Eles sabem o frio que passaram, a saudade que sentiram e o medo que venceram. Somente eles, mais ninguém, principalmente os que estavam nas trincheiras opostas, a quem era preciso mostrar, a qualquer custo, que não existe raça superior ou inferior. Só eles sabem o quanto custou a vitória. Só eles vivenciaram aquele momento único, triunfal, de fincar, lá no alto do Monte Castello, a bandeira do Brasil.

A participação brasileira na II Grande Guerra pode ser considerada pequena, mas foi significativa. Fomos o único país da América do Sul a estar efetivamente presente no teatro de operações.

Tivemos 451 mortos, o que não foi pouco. Num exercício de imaginação, vamos supor que os 451 ressuscitassem agora. Iriam surpreender-se, pois o mundo avançou séculos nos sessenta e seis anos que ligam aqueles difíceis tempos aos atuais. Ficariam orgulhosos ao ver como industrializou-se o Brasil rural da década de quarenta. Dos inúmeros avanços tecnológicos, possivelmente a televisão seria o que lhes chamasse mais a atenção.

Ao saberem das novidades sobre política, pensariam estar no Saara, tamanho é o atual deserto de dignidade. Nos intervalos dos telejornais, veriam que os marqueteiros continuam em moda, tanto se esbanja o suado dinheirinho do contribuinte para a autopromoção dos nossos dirigentes.

Ao assistirem às matérias sobre a revolta na Líbia, observariam que o Mediterrâneo continua importante e conflituoso. Ficariam indignados quando soubessem que o ditador líbio ordenou à sua força aérea que bombardeasse seus próprios compatriotas.

Se lhes fossem mostradas fotografias de algum ex-presidente do Brasil sorrindo alegremente junto ao senhor Kadaffi, nos perguntariam: ele ri de quê? Não saberíamos responder. Eles, que deram a vida pelo Brasil e pela liberdade, nos olhariam com desprezo e voltariam correndo ao seu altivo passado.

Publicado em Datas marcantes