Artigos de 2010

Avenida Independência

31/08/2010 por bonat

“A quarenta metros, entre à esquerda na Avenida Brasil”. A ordem parte do GPS (Global Positioning System ou, em português, Geo-Posicionamento por Satélite) afixado no painel do carro. Se não obedecermos, uma voz, suave para não melindrar nosso brio nacionalista, chamará à atenção, o aparelho recalculará a rota e continuará a comandar nosso destino.

Embora o Sete de Setembro seja festejado como a data da independência política, ela só se concretizou de fato alguns anos mais tarde. A proclamação de D. Pedro, em 1822, às margens do Ipiranga, não foi aceita pelas tropas portuguesas ainda fortes em várias Províncias. Obrigá-las a voltar para Portugal custou muitas vidas. Para não me alongar, recordarei apenas das 252 (para alguns foram 254) asfixiadas nos porões do brigue “São José Diligente”, no porto de Belém. Faço questão de mencioná-las nestes tempos de “nunca antes na história”, pois andamos com a sensação de que surgimos do nada e, por isso mesmo, somos obrigados a importar heróis como guevaras e outros quetais, além de avanços como o GPS.

Entretanto, se alcançamos a independência no campo político, o mesmo não ocorreu no econômico. Teríamos obtido se, ao longo do tempo, houvéssemos investido em educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Culpa das elites, tanto as do período imperial quanto do republicano. Fortemente influenciadas pela Igreja, elas se encantaram com o brilho do ouro e não com o da ciência, para quem os papas sempre fizeram careta, temerosos de ver seus dogmas desmentidos, como aquele de que a Terra era o centro do universo. Induziram-nos a crer que Deus era brasileiro. Portanto, nada nos faltaria.

Nossas elites políticas (elas detestam ser assim denominadas) contemporâneas estão tornando a realidade ainda pior. É só olhar nossa pauta de exportações para perceber. Tendo como carro-chefe o minério de ferro, ela reflete uma crescente subordinação ao humor econômico mundial e ao avanço de outras nações. Para não ficar na mesmice de velhos exemplos, cito os recentes da Coreia do Sul e da China. Durante décadas, elas investiram maciçamente em educação. Agora colhem os resultados. Enquanto isso, por aqui, filosofia e sociologia são acrescidas aos currículos do ensino médio, com prejuízo para as já mal-ensinadas ciências exatas.

Não nos faltam recursos. Faltassem, e o governo não doaria todo ano um montão de dinheiro para as centrais sindicais, que, diga-se de passagem, nada produzem. Ao priorizá-las, em detrimento da educação e do fomento à pesquisa científica e tecnológica, está nos condenando ao atraso. Essa dinheirama toda representaria um investimento se fosse aplicada na oferta de mais bolsas de estudos pelo CNPq. Somente assim as gerações futuras teriam alguma chance de ouvir dos seus GPS: “Entrem na Avenida Independência e sigam em frente”.

Eleições: do traço ao topo

16/08/2010 por bonat

Tenho em mão pesquisa realizada no segundo trimestre deste ano, por iniciativa da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, cujo tema era confiança nas instituições. As Forças Armadas ocupam o primeiro lugar, com 63% de aprovação. Poder-se-ia deduzir que o mesmo percentual da população votaria em militares. Poder-se-ia…

A cada eleição, dezenas de camaradas, em geral na reserva, concorrem pelos mais variados partidos. Infelizmente, nas pesquisas eleitorais, eles não saem do traço, que representa aqueles que sequer são citados. Por quê, se a população confia nos militares?

Comecemos a procurar as respostas de dentro para fora. Querer falar de política com a família militar é angariar antipatia e encontrar resistências. Somos um “exército de apolíticos”. Nosso subconsciente passa a enxergar, em quem tem a coragem de submeter o seu nome e arrisca a se candidatar, como um futuro corrupto. Não o vemos, erroneamente, como alguém que irá lutar pelos interesses da Nação, das Forças e dos próprios militares.

A dificuldade para divulgar a candidatura é outro obstáculo. Claro que nos quarteis seria inaceitável. Discussões políticas podem exacerbar paixões por vezes incontroláveis. Permitir isso, num ambiente repleto de armas, seria uma irresponsabilidade. Ninguém esquece que, a mando de Luís Carlos Prestes, soldados assassinaram seus companheiros enquanto dormiam, na Intentona de 1935. Curiosamente, os clubes e associações militares, que representam um espaço disponível, ainda são subaproveitados para a divulgação.

Há, também, uma limitação de caráter financeiro. Não é segredo a penúria em que vive o nosso pessoal. É igualmente sabido que uma campanha, por mais modesta que seja, custa caríssimo, pelo menos para quem está habituado a contar centavos para administrar o orçamento familiar e o das organizações militares. Assusta-nos, até, o preço para imprimir o item mais barato, os famosos “santinhos”. A solução seriam doações, mas temos vergonha de solicitar. Somos assim… Não sabendo pedir,não conseguimos divulgar que temos candidatos.

No fato de o pessoal da ativa não votar reside outra causa. Sempre que assumia algum comando, eu reunia meus oficiais e sargentos e perguntava quem tinha o Título naquela guarnição. Cerca de 20% levantava o braço. A partir daí, eu tomava medidas de modo a facilitar que eles e as esposas transferissem seu domicílio eleitoral. Obviamente, não podia impor em quem deveriam votar.

A dispersão de esforços é mais um problema. Na última eleição, em Curitiba, tivemos 8 candidatos a vereador: 5 do Exército e 3 da Aeronáutica. É desnecessário dizer que nenhum venceu. No próximo pleito, pelo menos neste último aspecto, começamos bem. Agora, temos apenas um candidato a deputado federal, o Coronel Figueiredo, e outro a deputado estadual, o Subtenente Rigotti.

Perante tantas dificuldades, cabe a nós todos cerrar fileira em torno desses nomes e divulgá-los entre nossos amigos. Muitos dos 63% dos brasileiros que, conforme a pesquisa da FGV, confiam nas Forças Armadas, ficariam contentes em saber que há militares-candidatos. Embora sejamos pessoas de palavra, somos, por formação, mais da ação do que das palavras. Para sair do traço e chegar ao topo, é preciso agir, arrregaçar as mangas.

E.T.: não menosprezemos o formidável poder da internet.

Publicado em Nacional, Política

Leite materno – beba sem moderação

27/07/2010 por bonat

Levantamentos recentes revelam que a juventude brasileira bebe cada vez mais precocemente e em maior volume. Os marqueteiros sabem aproveitar a principal característica da adolescência – a insegurança – e aliam o consumo de bebida alcoólica ao esporte, apresentando-os como a grande fórmula para a saúde e a felicidade. É uma realidade que preocupa, pois sabemos que o álcool é a porta para outras drogas mais pesadas, lícitas ou não. A frase “beba com moderação”, ao final das propagandas de cerveja, embora represente um avanço da nossa legislação, é esquecida logo após o primeiro gole e soa quase como um deboche quando comparada à atraente peça publicitária que a antecedeu. Se estivesse escrito “beba sem moderação”, o efeito seria o mesmo. Na verdade, nossa sociedade está perdendo a guerra para os adolescentes.

Vitórias mesmo têm sido alcançadas na conscientização sobre a importância da amamentação materna. Até o final do século XIX, os filhos da nobreza europeia eram sustentados pelas amas de leite; os da plebe, com leite de vaca. Na mesma época, no Brasil, os bebês da casa grande dispunham de escravas para amamentá-los. Mesmo com a descoberta de novas medidas de higiene, pouca coisa mudou, pois as crianças da nobreza passaram também a ser alimentadas com leite de vaca. Nem era preciso ter ido tão longe. Dia desses, minha sogra mostrou-me a caderneta de bebê que recebeu na maternidade após dar a luz à minha mulher. Patrocinada pelas “mamadeiras Pyrex”, em sua capa está estampado: “O que toda mãe deve saber sobre a alimentação do bebê”. Claro que nada consta sobre amamentação materna e sim sobre as vantagens do uso da mamadeira.

Essa situação perdurou até pouco tempo. Nos últimos anos, felizmente, ela tem mudado. A legislação, criando, entre outras coisas, a licença-maternidade, tem-se mostrado uma aliada dos pediatras. Na mesma direção está a iniciativa de várias empresas de instalar berçários e salas de amamentação nos locais de trabalho. Exemplos, como o da Dra Zilda Arns, de como o problema da mortalidade infantil pode ser minimizado com medidas simples e baratas, das quais a mais eficaz é a amamentação materna, têm contribuído para a conscientização das mamães.

O Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos, publicado em 2002 pelo Ministério da Saúde, é bem claro em sua orientação: “Dar somente leite materno até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento. A partir dos seis meses, oferecer de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais. A partir dos seis meses, dar alimentos complementares três vezes ao dia se a criança receber leite materno e cinco vezes ao dia se estiver desmamada”.

Entretanto, é preciso avançar mais. Todas as classes sociais têm que ser sensibilizadas. Talvez alterando alguns ditos populares, como trocando o “Quem pariu Mateus que o embale” por “Quem pariu Mateus que o amamente”, ou, ainda, obrigando a constar nas embalagens de produtos destinados a lactentes, e nas cadernetas de saúde e álbuns de bebês, a frase “Leite materno – beba sem moderação”.

Ora, se o leite de vaca é bom para o bezerro, o da ovelha, para o cordeiro, é óbvio que, para humanos, o ideal só pode ser o leite humano. Mesmo o da mais famélica das mães constitui a única fonte completa para o desenvolvimento de filhos saudáveis e inteligentes. Mas até essa obviedade precisa ser mais divulgada. Quem sabe algum dos nossos mundialmente reconhecidos marqueteiros não se habilita a ajudar? Fica aqui o desafio de um leigo que se preocupa com o assunto.

Publicado em Saúde

Mandela e as vidas separadas

16/07/2010 por bonat

Vidas separadas – é o que significa apartheid, regime oficial que perdurou na África do Sul até 1994. Contra ele, Nelson Rolihlahla Mandela se rebelou. Por isso, em 1964, foi condenado à prisão perpétua.

Em 1990, cedendo a pressões internacionais, o Presidente Frederic de Klerk solicitou sua libertação. Durante os vinte e seis anos em que permaneceu preso, Mandela tornou-se o símbolo da antissegregação. Mesmo na prisão, enviou cartas para incentivar a luta, tendo recebido apoio de governos de todo o mundo.

Em 1993, ele e de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Em 1994, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Governou até 1999, sendo responsável pelo fim do apartheid.

Ele poderia ter conduzido uma caça às bruxas. Poderia ter mandado procurar ossadas, que não são poucas. Poderia, até, ter criado um “bolsa-apartheid”, sustentado pelo diamante extraído em abundância das minas sul-africanas. Teria inúmeras razões e tinha poder para isso. Seu espírito humanista e sua visão de estadista, porém, levaram-no a pensar na nação como um todo e buscar sua reconciliação.

Entre as inúmeras frases de Mandela, uma talvez explique o porquê de sua decisão: “Sonho com o dia em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitas para viver como irmãs”.

A presença, mesmo que por apenas alguns minutos, de Nelson Mandela no campo do Soccer City foi um dos momentos mais emocionantes da Copa do Mundo recentemente encerrada. Quando ele sorriu seu sorriso de paz e acenou do alto dos seus 92 anos de idade, recebeu a ovação de carinho e respeito da multidão.

As milhares de pessoas de todo o mundo que estavam lá, provavelmente, tinham na mente outra de suas frases famosas: “A luta é minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim dos meus dias”. Então, que ele demore a chegar!

Publicado em Internacional, Política

Saturation

23/06/2010 por bonat

Faturation, faturation… Era meu neto de cinco anos cantando, enquanto eu o levava para a escola. Nossos marqueteiros são realmente geniais. Souberam aproveitar o clima de copa do mundo e tornaram o rebolation dos garotos do Santos num bem-bolado jingle. Por não ter a genialidade dos marqueteiros, limito-me a transformar seu jingle. Saturation, saturation… Vivemos uma enxurrada de futebol. Um mês antes da Copa já éramos submetidos a uma lavagem cerebral. Estamos saturados. Os estrategistas da comunicação precisam entender que exageraram na dose.

Até parece que todos os problemas acabaram, que foi descoberta a cura para o câncer, que não há mais políticos corruptos, que não foram graves as recentes tragédias em Pernambuco e Alagoas. Devemos nos preocupar apenas com a qualidade da Jabulani, com as vuvuzelas e com o apartheid. O resto, num passe de mágica, foi parar na cartola dos cartolas.

No país da Copa, há batalhões de repórteres, com efetivos maiores do que a também numerosa comitiva da seleção, que, além dos jogadores e da comissão técnica, inclui dirigentes e seus apadrinhados. O elevado custo da cobertura jornalística é bancado por grandes empresas. Logo, os profissionais que lá estão têm que mostrar serviço. Na guerra pela audiência, acreditam que tudo é válido. Cassam os pobres(?) jogadores por todos os cantos. Qualquer declaração é transformada numa bomba, cujo alvo somos nós, pobres (agora sem interrogação) cidadãos, submetidos a incessante bombardeio.

Recordemos do que aconteceu na Alemanha. Nossos atletas eram mostrados sambando no ônibus que os levava aos estádios. A felicidade era a de quem comemorava uma conquista antecipada. Um oba-oba frente às câmeras, sob a aquiescência de Parreira e seus asseclas, que confundiam carnaval com futebol. Tudo ia bem, até o gol de Henry. Vive La France! Adeus carnaval. Adeus Copa.

O desastre de 2006 levou a CBF a uma decisão radical. Desde cedo, Dunga vem recebendo críticas, que persistem apesar da sequência de vitórias. Vacinado, ele tem procurado preservar os jogadores do assédio dos que terão que prestar contas aos patrocinadores. Do recente entrevero com um repórter, resultou, pelo menos na internet, um maciço apoio a Dunga. Chegaram até ao exagero de sugerir que se erguesse uma estátua em sua homenagem.

Passamos do ponto de saturação futebolística. Só falta os mais jovens estarem pensando que vuvuzela seja uma novidade e, como tal, que seu terrível ruído volte aos nossos estádios para saturar nossos ouvidos. Parafraseando o sábio filósofo e comentarista Neto: “É brrrincadeirrra”!

Publicado em Esportes

Truque velho

11/06/2010 por bonat

Quando a flotilha dita humanitária partiu de Istambul, estavam presentes inúmeros representantes do Hamas, entre eles Mahmad Tzoalha e Sahar Albirawi, terroristas de primeira linha, operando hoje na Inglaterra. Creio que não foram ao porto apenas para desejar boa viagem. Logo, é desnecessário ter bola de cristal para saber que os navios que se dirigiam à Faixa de Gaza nada tinham de pacifistas. O truque é tão velho quanto o Cavalo de Troia. Os alemães que defendiam Monte Castelo também o aplicaram, usando suas ambulâncias, protegidas por rigorosas convenções internacionais, a fim de levar munição para a sua artilharia, que depois era despejada mortalmente sobre nossos pracinhas.

Claro que o governo israelense às vezes age de tal forma que nem os americanos, seus tradicionais aliados, parecem mais aguentar. Entretanto, não se pode deixar de entender suas preocupações com as comunidades civis sobre as quais, diariamente, o Hamas continua lançando foguetes. Recorde-se que em 1967 a Síria fazia o mesmo a partir de Golan, enquanto o Egito de Nasser se armava com formidáveis blindados, que acabariam dizimados na Guerra dos Seis Dias.

Sob a atual e terrível ameaça de ser varrido do mapa, o que significa seu extermínio, o Estado de Israel enfrenta o dilema de tentar estancar a entrada de armas na Faixa de Gaza. Mas, como em 1967, os foguetes do Hamas pouco representam quando comparados ao novo holocausto que se anuncia no Irã. Nem sempre se pode confiar nas palavras de Mahamoud Ahmadinejad, mas sua manifesta intenção de varrer Israel do mapa deve ser levada a sério. De suas declarações, conclui-se que seu programa nuclear, como um Cavalo de Troia, nada tem de pacífico.

O triste é ver o Brasil, conscientemente ou não, sendo usado para acobertar os reais intentos do mandatário iraniano. O acordo nuclear, que assinamos em maio com Turquia e Irã, tem toda pinta de ser uma farsa. Como a agora tristemente famosa flotilha partiu de Istambul logo após a reunião de Teerã, sou, a contragosto, levado a inferir que, longe de microfones e câmeras, algo mais deve ter sido tramado. A política externa brasileira não mais esconde de que lado está. Quebra, assim, uma tradição de equilíbrio e ponderação na resolução de conflitos internacionais.

Ninguém é santo na Terra Santa. Talvez existam alguns anjos, mas estes não têm poder para interferir nas questões terrenas. Ao tomar partido numa confusão das arábias, quase tão velha quanto a humanidade e com a qual nada temos a lucrar, estamos dando uma de anjo e correndo um sério risco de importar um ódio secular, uma violência sem fim. É disso que precisamos? O mais intrigante é abrirmos mão de um truque cujo segredo só nós conhecemos: o da convivência harmoniosa de todas as raças e credos. Lamentável!

Publicado em Internacional, Política

Um boi até para vegetarianos

20/05/2010 por bonat

Ele é de 1873. Tem, portanto, cerca de 137 anos. Poderia ter morrido, mas continua vivinho da silva. Aposentadoria, nem pensar! Concordou, no máximo, em ser tombado pelo patrimônio histórico. Embora tenha pinta de museu, está em plena atividade. Sua longevidade pode ser comprovada na grafia do nome: theatro, com “th” mesmo. Para podermos avaliar sua importância, basta lembrar que nos primeiros anos de sua existência nem cinema havia. Era para ele que os lapeanos acorriam quando desejavam se divertir. Até o Imperador Pedro II chegou a visitá-lo, acomodando-se num dos seus aconchegantes camarotes.

É provável que Francisco Therézio Porto Neto, que além de engenheiro civil foi poeta e prosador, ao projetá-lo com tanto charme, quisesse que ele se perpetuasse como centro de cultura, tradição, história e arte. Se esse era o seu sonho, conseguiu realizá-lo. Na época, a Lapa contava com cerca de 2.000 habitantes. Daí o porquê de o Theatro São João ter capacidade para umas duzentas pessoas. Pequeno no tamanho, revelou-se grande na medida em que proporcionou, como ainda proporciona, que artistas, famosos ou não, sintam orgulho e prazer de se apresentar em seu palco.

O pessoal da “Tribuna Regional” e da Secretaria Municipal da Cultura não poderia ter escolhido local mais adequado para o lançamento do meu livro de crônicas. Além do mais, presentearam-me, a mim e aos amigos que foram me prestigiar, com a encenação do “Boi da Lapa”, um número de cordel que emocionou a todos os presentes. Se a Nádia, atual diretora do São João, não nos tivesse alertado, poderíamos pensar tratar-se de coisa de profissionais. Mas era de amadores, pessoas da terra, simples, anônimas e de uma dedicação imensa, que nos brindaram com sua arte e revelaram que o sonho de Francisco Therézio – com “th”também – permanece vivo.

Há um aspecto que não pode deixar de ser lembrado. Como quase todas as edificações existentes na Lapa em 1894, ele não escapou de dar sua contribuição à valente resistência às tropas de Gumercindo Saraiva. Durante o Cerco, transformado em enfermaria, cumpriu a humanitária missão de salvar vidas.

Cabe-me, por justiça, transmitir um sentimento de enorme gratidão aos amigos lapeanos que me propiciaram uma noite particularmente especial e, ao mesmo tempo, recomendar àqueles que ainda não o fizeram, que, na primeira oportunidade, assistam o “Boi da Lapa”. Trata-se de um boi que até mesmo o vegetariano mais radical irá gostar.

Por fim, não há como evitar uma derradeira observação de um velho oficial de artilharia que, de tanto ouvir o ribombar dos canhões, anda meio surdo: a acústica é perfeita.

Publicado em Literatura, Turismo

Na terra do tuiuiú

05/05/2010 por bonat

Se o pernalta tuiuiú é o símbolo do Pantanal, o atarracado Rondon é a simbiose perfeita da gente mestiça do Mato Grosso. É seu nome que batiza o aeroporto onde me chamam para o embarque, depois de ter passado dias agradáveis nesta região. Cândido Mariano, o Marechal Rondon, é um dos mais ilustres representantes de um povo valente, cujo lema em relação aos indígenas – “morrer se preciso for, matar nunca” – sintetiza o aspecto humanista do seu caráter.

Próxima do centro geodésico da América do Sul, a um passo da Chapada dos Guimarães e outro do Pantanal, Cuiabá superou minhas expectativas. O nome Cuiabá tem várias versões. A primeira diz que tem origem em ikuiapá, que significa “lugar da ikuia” (ikuia – flecha, arpão, flecha para pescar; pá – lugar), que designa uma localidade onde os bororos costumavam caçar e pescar com flecha. Outra explicação é a de que seria uma aglutinação de kyyaverá (que em guarani significa “rio da lontra brilhante”) em cuyaverá, depois cuiavá e, finalmente, cuiabá. Uma terceira hipótese diz que a origem está no fato de existirem plantas produtoras de cuia à beira do rio, e que “cuiabá” seria “rio criador de vasilhas”. Martius traduziu o vocábulo como “fabricante ou fazedor de cuias”. Teodoro Sampaio interpretou como “homem da farinha”, o farinheiro. De cuy, farinha, e abá, homem. A verdade é que até hoje não se sabe ao certo a origem do termo.

É uma cidade pujante, progressista, mas que não esquece do passado, onde realidade e lenda se mesclaram na mesma medida que índios, negros e brancos. Os mitos, na maioria, são de arrepiar, como o da sucuri que engoliu um dentista, o da onça da mão torta e o do gorila arranca-língua. Eles representam a herança cultural indígena, que a mistura de raças só fez enriquecer. Deixando a ficção de lado, vou contar uma história cuiabana, que não acreditaria se meus olhos não tivessem visto.

Ele se chama Valtinho. Ela, Marlene. É ele quem manda. Ela faz o que ele bem quer, sob uma só condição: de que a trate bem. Se ele quer que ela vá para a esquerda, ela vai. Para a direita, é só mandar. Até a ré ela dá, mas, neste caso, bem devagarinho. De nada ela reclama e, ainda por cima, o defende de cobras e lagartos que, de tão grandes, são denominados jacarés. Ciumenta, não permite que as piranhas se aproximem de Valtinho. O pior é que ele só aparece uma ou duas vezes por semana, e ainda traz alguns amigos inconvenientes. Mesmo assim, ela o aguarda, sempre limpinha, com a geladeira apinhada de cerveja, geladinha como ele gosta. Além disso, tem que aguentar, durante horas, aquele papo chato de pescador sobre pacus, dourados e pintados.

Se você é como aqueles que, em pleno terceiro milênio, são metidos a machão e está com inveja do cuiabano Valtinho, faça como ele: compre um barco, batize-o com nome de mulher e convide alguns amigos para pescar no rio Cuiabá. Eles vão adorar.

Publicado em Turismo

Poste para presidente

21/04/2010 por bonat

Na entrada do que, há cinquenta anos, denominavam beco, hoje tem uma placa alertando: “Rua Sem Saída”. O que era barro virou asfalto. Valetas foram canalizadas. Onde tinha mato, hoje tem calçada. Quem era velho, morreu. Quem era criança, ficou velho. É o caso do Rinorceley.

Rinorceley, como tantos brasileiros, carrega em seu nome a homenagem aos quatro avós (Ricardo, Norma, Ceci e Wanderley), transformada numa salada de letras de gosto duvidoso.

Ultimamente, ele tem deixado os vizinhos, da velha guarda como ele, preocupados. Foi flagrado dando bom-dia a um poste. Claro que não é um poste qualquer. Antes mesmo de o beco virar rua, ele estava lá. Portanto, é contemporâneo daquela geração de aposentados.

Toda sexta-feira, os remanescentes do ex-beco se reúnem para tomar umas biritas. Na última reunião, um deles resolveu abrir o jogo. “Amigo Rino (assim prefere, por razões óbvias, ser chamado o nosso personagem), estamos preocupadíssimos. Todo dia você dá bom-dia ao poste”.

Antes que Rino pudesse esclarecer, o psicólogo (nessas horas, sempre aparece um) da turma resolveu teorizar: “Eu já tinha dito que, mais dia, menos dia, a vergonha por ter esse nome iria, de alguma forma, se manifestar”.

“Seu bando de velhos!”, Rino não se conteve. “Vocês esqueceram que sempre fui um brincalhão, que sempre estive de bem com a vida? Pois saibam que, às vezes, é melhor dar bom-dia a um poste do ficar fuxicando como vocês! Além do mais, todos sabem que aquele poste está ali há muito tempo. Nos viu nascer, crescer e progredir. Era ele que iluminava nosso caminho quando saíamos de madrugada para a escola. Quem de nós nunca quebrou sua lâmpada para dar uns amassos na Aninha? Ele viu todas as besteiras que fizemos e jamais nos dedurou. Sabe de tudo, mas não conta para ninguém. Ele não fala, e quem não fala não mente.”

Aí, foi a vez do político discursar: “Como o poste não mente, poste para presidente! Se já elegemos uma vassoura, por que não um poste?”
O corintiano (tem sempre um) não perdeu tempo: “Poste é fiel!”
O marqueteiro (profissão da moda) inventou logo um bordão: “PPP, poste para presidente, tem luz própria e não mente!”

Lá pela enésima cerveja, os veteranos moradores daquela rua, que hoje é de classe média, já a tinham transformado num beco sem saída. Para arrematar, antes da “saideira”, decidiram que ela passaria a se chamar Brasil. Desde então, todos dão bom-dia ao poste.

Publicado em Nacional, Política

A revolta das águas

14/04/2010 por bonat

A recente tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro deixou-me preocupado com a ponte sobre o Rio Sagrado. Precisava saber se ela ainda estava lá. De Curitiba, desci a serra em direção ao litoral. No trevo de acesso a Morretes, segui à direita por uma estrada de terra. Após rodar um quilômetro, para minha alegria, encontrei-a intacta. Há 38 anos ela assegura o escoamento da safra de banana, que responde por boa parte da economia local.

Explico minha aflição. Em 1972, eu era Aspirante no 5º Grupo de Artilharia Autopropulsado. Quem serviu sabe que, no quartel, as missões mais complicadas sobram para os “aspiras”. Na Ação Cívico Social (ACISO) que o Grupo realizou em Morretes, coube a mim reconstruir a ponte, posta abaixo pelas chuvas que, quando caem no alto da Serra da Graciosa, fazem transbordar os cursos d’água que correm aos seus pés.

À primeira vista, achei exagerados os 27 metros que separavam as cabeceiras, cujos escombros entulhavam o leito de apenas 6 metros de largura do rio. Mais tarde eu descobriria o porquê: quando o Sagrado deixa de ser Sagrado, suas águas sobem, espraiam-se e atingem velocidade tal que levam tudo o que há pela frente. Era o que tinha acontecido com a enorme pilastra central e as cabeceiras da velha ponte. Aparentemente fácil, alguns detalhes tornavam a missão um desafio. Éramos artilheiros, especialistas em canhões, não em engenharia. Não havia equipamento adequado. Nem dinheiro existia. Levamos um mês angariando doações.

Entre sargentos, cabos e soldados, somávamos trinta. O único “especialista” era o Venzon, um excelente sargento. Como estava construindo sua própria casa, ao menos sabia preparar concreto. Sobrava boa vontade. Uma tora de madeira, roldana e corda serviram de bate-estaca. Equipes de cinco soldados se revezaram durante dias na estafante monotonia de puxar, suspender e soltar.

Após semanas de trabalho insano, as pilastras ficaram prontas. Quando começávamos a preparar o piso, chegou a notícia que eu seria substituído. O Grupo iria realizar sua campanha de tiro em Santa Catarina. Retornei com alguns soldados à minha linha-de-fogo, deixando com um amigo, o Tenente Edelmi, a conclusão da obra.

Resolvi contar esta pequena história para revelar que lamento não termos deixado uma placa de bronze em homenagem aos soldados que enfrentaram uma dura rotina, a improvisação e o humor de um rio que se alterava cada vez que chovia no alto da serra.

Se fosse hoje, antes mesmo de iniciar a obra, uma plateia estaria lá, paga para aplaudir e ouvir promessas vãs das autoridades. A lamentar, o fato de muitas dessas mesmas autoridades, assíduas frequentadoras de “inaugurações virtuais”, não terem se dignado a levar sua solidariedade às centenas de famílias cariocas vitimadas por deslizamentos provocados pela fúria das águas e pela irresponsabilidade de quem vive da propaganda e do lançamento, sob holofotes, de mirabolantes planos bilionários, que nem sempre saem do papel. Será que, no Morro do Bumba, elas seriam aplaudidas?

Publicado em Nacional, Política